segunda-feira, 10 de agosto de 2015

As Cruzadas: Uma História Completa

Jonathan Phillips

History Today, Vol. 65, nº 5, maio 2015


Durante as últimas quatro décadas as Cruzadas tornaram-se uma das áreas mais dinâmicas da investigação histórica, significando uma curiosidade crescente na compreensão e interpretação destes eventos extraordinários. O que levou as pessoas no Ocidente cristão a desejar recapturar Jerusalém? Qual impacto teve o sucesso da Primeira Cruzada (1099) nas comunidades muçulmana, cristã e judaica do Mediterrâneo oriental? Qual foi o efeito das Cruzadas nos povos e instituições da Europa ocidental? Como as pessoas registravam as Cruzadas e, finalmente, qual o seu legado?

O debate acadêmico avançou significativamente durante os anos 1980, à medida que a discussão em torno da definição de cruzada reuniu os pesquisadores. A compreensão do escopo das Cruzadas expandiu-se com um novo reconhecimento que as cruzadas se estenderam muito além das expedições originais do século XI à Terra Santa, tanto em termos de cronologia quanto de escopo. Isto é, elas aconteceram bem depois do final da dominação dos francos no Oriente (1291) e continuaram até o século XVI. Em relação a seu objetivo, os cruzados também foram convocados contra os muçulmanos da Península Ibérica, os povos pagãos da região báltica, os mongóis, oponentes políticos do Papado e hereges (como os cátaros ou os hussitas). Uma aceitação dessa estrutura, assim como a centralidade da autorização papal para tais expedições, é geralmente referida como a posição “pluralista”.
   
A emergência desta interpretação energizou o campo existente e teve o efeito de atrair um grande número de estudiosos. Junto com isso veio um interesse crescente na reavaliação dos motivos dos cruzados, com algumas das ênfases existentes em relação a dinheiro serem diminuídas e o cliché de filhos mais jovens desgarrados em busca de aventura sendo deixado de lado. Através do uso de um espectro mais amplo de evidência (especialmente documentos, isto é, vendas e locação de terras e/ou direitos), uma preocupação em impulsos contemporâneos religiosos como o fator motivador dominante para, particularmente na Primeira Cruzada, veio à tona. No entanto, o resto do mundo se intrometeu em e, em seguida, de algum modo, estimulou o debate acadêmico: os horrores do 11/09 e o uso desastrado pelo presidente George W. Bush da palavra “cruzada” para descrever a “Guerra ao Terror” alimentou a mensagem dos extremistas de ódio e a noção de um conflito mais longo e maior entre o Islã e o Ocidente, datando do período medieval, tornou-se extrememamente visível. Na verdade, é claro, tal visão simplista é totalmente equivocada, mas é uma arma poderosa nas mãos de extremistas de todos os tipos (de Osama Bin Laden a Anders Breivik ao EI) e certamente deu impulso ao estudo do legado da era das Cruzadas no mundo moderno, como veremos aqui.

A Primeira Cruzada foi convocada em novembro de 1095 pelo Papa Urbano II na cidade de Clemont na França Central. O Papa fez uma proposta: “Quem quer que seja por devoção apenas, sem nenhum ganho de honra ou dinheiro, for a Jerusalém para libertar a Igreja de Deus pode substituir essa jornada por toda penitência.” Este apelo era uma combinação de uma série de tendências contemporâneas junto com a inspiração do próprio Urbano, que acrescentou inovações particulares à mistura. Por muitas décadas, os cristãos lançaram-se em terras muçulmanas nas fronteiras da Europa, na Península Ibérica, por exemplo, assim como na Sicília. Em alguns exemplos a Igreja tornou-se envolvida nestes eventos por meio da oferta de prêmios espirituais limitados aos participantes.

Urbano era responsável pelo bem-estar espiritual de seu rebanho e a cruzada apresentou-se como uma oportunidade para os cavaleiros pecadores da Europa Ocidental interromperem sua luta eterna e exploração dos fracos (camponeses e monges) e tornar boas suas vidas violentas. Urbano viu a campanha como uma chance para os cavaleiros direcionarem suas energias para aquilo que era visto como um ato espiritualmente merecedor, basicamente a tomada da cidade santa de Jerusalém do Islã (os muçulmanos tomaram a cidade em 637). Em retorno a isto, eles seriam, com efeito, perdoados dos pecados que tivessem confessado. Isto, por sua vez, os salvaria da perspectiva da danação eterna nos fogos do Inferno, um destino repetidamente enfatizado pela Igreja em consequência de uma vida pecadora.

Numa época de tal religiosidade intensa, a cidade de Jerusalém, o lugar onde Cristo viveu, caminhou e morreu, tinha um papel central. Quando o objetivo de libertar Jerusalém foi relacionado a estórias fantásticas (provavelmente exageradas) de mau tratamento tanto dos cristãos nativos do Levante quanto de peregrinos ocidentais, o desejo por vingança, junto com a oportunidade para redenção espiritual, formou uma combinação potencialmente motivadora. Urbano estaria cuidando de seu rebanho e melhorando a condição espiritual da Europa ocidental também. O fato de que o papado estava engajado em uma luta poderosa contra o imperador alemão Henrique IV (a Controvérsia das Investiduras[1]), e que a convocação aumentaria a força papal foi uma oportunidade boa demais para Urbano desperdiçar.

Uma faísca nessa palha seca veio de outra força cristã: o Império Bizantino. O imperador Alexios I temia o avanço dos turcos seljúcidas em direção de sua capital Constantinopla. Os bizantinos eram cristãos ortodoxos gregos mas, desde 1054, estavam em um estado de cisma com a Igreja Católica. O lançamento da cruzada deu a Urbano a chance de se aproximar dos ortodoxos para cicatrizar as feridas.

A reação ao pedido de Urbano foi surpreendente e notícias da expedição correram pela maior parte do Ocidente latino. Milhares viram isto como uma nova forma de obter a salvação e evitar as consequências de suas vidas pecadoras. Mesmo assim, ambições de honra, aventura, ganho financeiro e, para uma pequena parcela, terra (neste caso, a maioria dos primeiros cruzados voltaram para casa após o término da expedição) também podem ter influenciado. Enquanto clérigos desaprovavam os motivos mundanos porque eles acreditavam que tais objetivos provocariam a ira de Deus, muitos leigos tinham pouca dificuldade em adaptá-los à sua religiosidade. Assim, Estevão de Blois, um dos homens mais experientes na campanha, escreveria para sua esposa, Adela de Blois (filha de Guilherme o Conquistador), que ele recebeu presentes e honras valiosos pelo imperador e que ele agora tinha o dobro de ouro, prata e outras riquezas em relação ao que ele tinha no Ocidente. Pessoas de todas as classes sociais (exceto reis) uniram-se à Primeira Cruzada, apesar de um confronto inicial de rebeliões disciplinares provocaram um surto horrível de antissemitismo, especialmente na Renânia, já que eles procuraram financiar sua expedição tomando o dinheiro dos judeus e atacando um grupo que era visto como inimigos de Cristo em suas próprias terras. Estes contingentes, conhecidos como “Cruzada do Povo”, causou problemas reais fora de Constantinopla, antes que Alexios os enviasse para o Bósforo e Ásia Menor, onde os turcos seljúcidas os destruíram.

Liderados por uma série de nobres experientes, os exércitos principais foram reunidos em Constantinopla em 1096. Alexios não esperava que tal número de ocidentais batessem à sua porta, mas viu a oportunidade de recuperar as terras perdidas para os turcos. Dada a necessidade dos cruzados por alimentação e transporte, o imperador se empenhou nessa relação, significando, contudo, que ele era cauteloso ao lidar com os novos chegantes, particularmente após a confusão causada pela Cruzada do Povo e o fato de que os exércitos principais incluíam um grande número de contingente siciliano normando, um grupo que invadiu terras bizantinas em 1081. A maioria dos líderes cruzados jurou lealdade a Alexios, prometendo devolver-lhe terras previamente pertencentes aos bizantinos em troca de suprimentos, guias e presentes supérfluos.       
 
Em junho de 1097, os cruzados e gregos tomaram um dos principais objetivos do imperador, a formidável cidade fortaleza de Nicéia, cerca de 200 km de Constantinopla, apesar de que após a vitória alguns relatos falaram do descontentamento dos francos durante a divisão da pilhagem. Os cruzados moveram-se país adentro, dirigindo-se à planície da Anatólia. Um grande exército turco atacou as tropas de Bohemond de Taranto próximo da Dorileia. Os cruzados marchavam em contingentes separados e isto, mais a tática desconhecida de ataques rápidos com arqueiros a cavalo, quase provocou sua derrota até que a chegada de forças sob o comando de Raymond de Toulouse e Godofredo de Bouillon salvou o dia. Esta vitória duramente conseguida provou ser uma lição valiosa para os cristãos e, enquanto a expedição continuava, a coesão militar do exército cruzado cresceu continuamente, tornando-os uma força mais eficaz.

Nos meses seguintes, o exército, liderado pelo Conde Baldwin de Bolonha, atravessou a Ásia Menor com um certo contingente tomando as cidades cilicianas de Tarsus e Mamistra e outras, dirigindo-se via Capadócia para as terras cristãs orientais de Edessa (a bíblica Roais), onde a maioria populacional armênia saudou os cruzados. Conflito político local significou que Baldwin foi capaz de tomar o poder para si e assim, em 1098, o conhecido Estado Cruzado, a Província de Edessa, surgiu.

Nesta época, o grosso do exército alcançou a Antióquia, hoje no interior da fronteira meridional turca com a Síria. Esta grande cidade foi um assentamento romano; para os cristãos ela era significativa como o local onde os santos Pedro e Paulo viveram e foi um dos cinco assentos patriarcais da Igreja Cristã. Era também importante para os bizantinos, tendo sido uma metrópole em seu império tão recentemente quanto 1084. O sítio era muito grande para cercar apropriadamente, mas os cruzados fizeram seu melhor pressionando o lugar até a submissão. No inverno de 1097, as condições tornaram-se extremamente duras, apesar de uma frota genoese na primavera de 1098 tenha fornecido algum apoio útil. A paralisação foi somente encerrada quando Bohemond persuadiu um cristão local a trair uma das torres e em 3 de junho de 1098 os cruzados invadiram a cidade e a capturaram. Sua vitória não foi completa, contudo, porque a fortaleza, elevando-se sobre o sítio, permaneceu em mãos muçulmanas, um problema agravado pela notícia que um grande exército muçulmano de alívio estava se aproximando de Mosul. A falta de comida e a perda da maioria de seus cavalos (essenciais para os cavaleiros, é claro) significou que o moral atingiu o fundo do poço. O Conde Estevão de Blois, uma das figuras mais experientes na Cruzada, junto com um punhado de homens, desertaram, acreditando que a expedição estava condenada. Eles se encontraram com o imperador Alexios, que estava trazendo reforços longamente aguardados, e disse-lhe que a cruzada era uma causa perdida. Assim, de boa fé, o governante grgo retirou-se. Em Antióquia, enquanto isso, os cruzados foram inspirados pela “descoberta” de uma relíquia da Lança Sagrada, a lança que atingiu o lado de Cristo quando Ele estava na cruz. Uma visão disse a um clérigo em Raymond do exército de Saint Gilles onde escavar e, certamente o objeto foi encontrado. Alguns lembraram isto como uma conveniência e muito fácil de estimular uma reação do contingente provençal, mas para as massas ele agiu como uma inspiração vital. Duas semanas depois, em 28 de junho de 1098, os cruzados reuniram suas últimas centenas de cavalos junto, lançou-os em suas agora familiares linhas de batalha e avançaram contra as forças muçulmanas. Com escritores relatando a ajuda de santos guerreiros no céu, os cruzados triunfaram e a fortaleza rendeu-se, deixando-os em controle completo de Antióquia antes que o exército muçulmano de alívio chegasse.    

Como resultado da vitória, muitos dos cristãos exaustos sucumbiram a doenças, incluindo Ademar de Le Puy, o delegado papal e líder espiritual da campanha. Os cruzados de alta patente estavam amargamente divididos. Boehemond queria ficar e consolidar seu poder em Antióquia, argumentando que, desde que Alexios não havia cumprido seu lado da barganha, então seu juramento aos gregos estava encerrado e a conquista permanecia sua. A maioria dos cruzados ignoravam esses detalhes políticos porque eles queriam alcançar a tumba de Cristo em Jerusalém e convenceram o exército a se direcionar para o sul. No trajeto, eles evitaram confrontos com outras grandes cidades fazendo acordos e alcançaram Jerusalém em 1099.

Forças concentraram-se ao norte e sul da cidade fortificada e em 15 de julho de 1099 as tropas de Godofredo de Bouillon conseguiu trazer suas torres de cerco próximas o suficiente das paredes para atravessá-las. Seus companheiros cristãos invadiram a cidade e nos próximos dias o lugar foi colocado sob a espada em uma onda de limpeza religiosa e liberação de tensão após anos de marcha. Um massacre terrível viu muitos dos defensores muçulmanos e judeus da cidade serem massacrados, apesar de a frase frequentemente repetida de “vadear até seus joelhos em sangue” ser um exagero, sendo uma linha do Livro da Revelação apocalíptico (14:20) usado para causar uma impressão da cena ao invés de ser uma descrição real – uma impossibilidade física. Os cruzados fizeram agradecimentos emocionados para o seu sucesso quando eles alcançaram seu objetivo, a tumba de Cristo no Santo Sepulcro.

Sua vitória ainda não estava assegurada. O vizir do Egito via o avanço dos cruzados com uma mistura de emoções. Como guardião do Califado xiita no Cairo, ele tinha um profundo desgosto dos mulçumanos sunitas da Síria, mas igualmente ele não queria uma nova potência estabelecendo-se na região. Suas forças enfrentaram os cruzados próximo de Ascalão em agosto de 1099 e, apesar de sua inferioridade numérica, os cristãos triunfaram e também asseguraram uma considerável quantidade de saque. Nesta época, tendo atingido seus objetivos, a vasta maioria dos cruzados exaustos estavam ansiosos em retornar aos seus lares e famílias. Alguns, é claro, escolheram permanecer no Levante, resolvidos a proteger o patrimônio de Cristo e estabelecer domínios e títulos para si. Fulcher de Chartres, um contemporâneo no Levante, lamentou que somente 300 cavaleiros permaneceram no reino de Jerusalém; um número muito pequeno para estabelecer um domínio permanente na região.

Na próxima década, entretanto, ajudado pela falta de oposição real dos muçulmanos locais e alimentado pela chegada de uma série de frotas do Ocidente, os cristãos começaram a tomar controle de toda linha costeira e criar uma série de Estados viáveis. O apoio dos centros comerciais italianos de Veneza, Piza e, particularmente neste estágio inicial, Genova, foi crucial. Os motivos dos italianos têm sido frequentemente questionados, porém há evidência convincente que mostra que eles estavam tão ansiosos quanto outros contemporâneos para capturar Jerusalém, ainda que como centros comerciais eles estavam determinados a avançar a causa de suas cidades também. Os escritos de Caffaro de Genova, uma fonte secular rara deste período, mostram pouca dificuldade em assimilar estes motivos. Ele continuou com a peregrinação para o Rio Jordão, compareceu a celebrações da Páscoa no Santo Sepulcro e celebrou a aquisição de riquezas. Marinheiros e soldados italianos ajudaram a capturar os portos costeiros vitais (tais como Acre, Cesaréia e Jaffa), em troca da qual eles receberam privilégios comerciais generosos que, por sua vez, deu um impulso importante na economia já que os italianos transportavam mercadorias do interior mulçumano (especialmente especiarias) de volta para o Ocidente. Tão importante quanto isto era seu papel no transporte de peregrinos para e da Terra Santa. Agora que os locais sagrados estavam em mãos cristãs, muitos milhares de ocidentais podiam visitar os sítios e, à medida que eles caíam sob controle latino, comunidades religiosas floresciam. Assim, a ideia básica por trás das Cruzadas foi atingida. Existe uma argumentação forte de que os estados cruzados não poderiam ter sido mantidos se não fosse a contribuição dos italianos.

Um dos efeitos colaterais da Primeira Cruzada (e um assunto de extremo interesse acadêmico hoje) é a explosão sem precedentes de escritos históricos que surgiram após a captura de Jerusalém. Este episódio incrível inspirou autores por todo o Ocidente cristão a escrever sobre estes eventos em um modo que nunca foi visto na história medieval. Não era mais preciso olhar para os heróis da antiguidade, já que sua própria geração havia fornecido homens de feitos comparáveis. Esta era uma época de literatura crescente e a criação e circulação de textos cruzados era uma parte grande deste movimento. Histórias numerosas, mais contos oralmente distribuídos, frequentemente na forma de menestréis, populares nas primeiras épocas da era cavalheiresca, celebravam a Primeira Cruzada. Os historiadores olharam previamente estas narrativas para construir a estrutura dos eventos, mas hoje muitos estudiosos estão se aprofundando nestes textos para considerar mais profundamente as razões pelas quais eles foram escritos, os diferentes estilos de escrita, o uso de motivos clássicos e bíblicos, os inter-relacionamentos e as cópias entre os textos.

Outra área recebendo atenção crescente é a reação do mundo islâmico. Hoje está claro que quando a Primeira Cruzada chegou os muçulmanos do Oriente Próximo estavam extremamente divididos, não apenas na questão Sunita/Xiita, mas também, no caso deste último, entre eles próprios. Foi uma coincidência feliz que durante meados dos anos 1090 a morte dos líderes mais antigos no mundo seljúcida tenha significado que os cruzados encontraram oponentes que estavam primeiramente preocupados com sua própria luta política interna ao invés de ver uma ameaça externa. Dado que a Primeira Cruzada era, claramente, um evento novelesco, isto era compreensível. A falta do espírito jihad também era evidente, como lamentou Sulami, um clérigo damasceno cujo alerta das classes governantes para se unirem e cumprirem sua missão religiosa foi largamente ignorado até o tempo de Nur-ad-Din (1146 – 47) e Saladino a seguir.

Os colonos francos tiveram que se adaptar à mistura complexa cultural e religiosa do Oriente Próximo. Seu número era tão baixo que uma vez eles tivessem capturado um lugar, eles rapidamente precisavam adaptar seu comportamento da retórica belicista da guerra santa do Papa Urbano II para uma forma mais pragmática de relativa tolerância religiosa, com armistício e mesmo alianças ocasionais com vários vizinhos muçulmanos. Tivessem eles oprimido a maioria da população local (e muitos muçulmanos e cristãos orientais viveram sob o domínio franco), não teria havido mão de obra para as fazendas locais ou para cobrar impostos e sua economia teria colapsado. Trabalho arqueológico recente pelo estudioso israelense Ronnie Ellenblum mostrou que os francos não viveram, como antes se suspeitava, somente nas cidades, separados da população local. Comunidades locais cristãs frequentemente viviam lado a lado com ela, algumas vezes compartilhando igrejas.  

Os estados francos de Edessa, Antióquia, Trípoli e Jerusalém estabeleceram-se no caldeirão cultural, religioso e político do Oriente Próximo. Um dos primeiros governantes de Jerusalém casou-se com uma nobre cristã armênia e, assim, a Rainha Melisende (1131 – 52) tinha um grande interesse em apoiar os habitantes locais assim como a Igreja Latina. A peculiaridade genética, aliada à alta taxa de mortalidade entre os governantes masculinos, significou que as mulheres exerciam maior poder do que antes se supunha dado o ambiente bélico do Oriente Latino e das atitudes religiosas prevalecentes em relação às mulheres como emocionalmente fracas.

Os francos sempre sofreram escassez de recursos humanos, mas eram um grupo dinâmico que desenvolveu instituições inovadoras, tais como as Ordens Militares, para sobreviver. As ordens foram fundadas para ajudar no cuidado dos peregrinos; no caso dos Hospitalários, através de cuidados médicos; no caso dos Templários, acompanhar os visitantes na estrada para o Rio Jordão. Logo, ambas eram instituições religiosas de pleno direito, cujos membros faziam juramentos monásticos de pobreza, castidade e obediência. Provou ser um conceito popular e doações de peregrinos admiradores e em gratidão significaram que as ordens Militares desenvolveram um papel central como proprietários rurais, como administradores de castelos e como o primeiro exército real na Cristandade. Eles eram independentes do controle dos governantes locais e podiam, às vezes, causar problemas para o rei ou brigar entre si. Os templários e os hospitalários também mantinham grandes extensões de terra através da Europa Ocidental, que forneceu recursos para a máquina de guerra no Levante, especialmente a construção dos castelos que se tornaram tão vitais para o domínio cristão na região.

Em dezembro de 1144, Zengi, o governante muçulmano de Alepo e Mosul, capturou Edessa marcando o primeiro revés territorial para os francos do Oriente Próximo. A notícia deste desastre obrigou o Papa Eugênio III a emitir um apelo para a Segunda Cruzada (1145 – 49). Fortalecido por este chamado poderoso para viver de acordo com os feitos de seus primeiros antepassados cruzados, além da retórica inspirada de (Santo) Bernardo de Clairvaux, os governantes da França e Alemanha assumiram o fardo para marcar o início do envolvimento real nas Cruzadas. Os governantes cristãos na Ibéria juntaram-se com os genoeses no ataque das cidades de Almeria na Espanha meridional (1147) e Tortosa no nordeste (1148); analogamente, os nobres da Alemanha setentrional e os governantes da Dinamarca lançaram um expedição contra os pagãos Wends da costa báltica próximo de Stettin. Enquanto isto não fazia parte do grande plano do Papa Eugênio, mas, ao invés disso, uma reação aos apelos que lhe foram enviados, mostra a confiança nas cruzadas na época. Neste caso, este otimismo provou ser profundamente falso. Um grupo de cruzados anglo-normandos, flamengos e renanos capturaram Lisboa em 1147 e as outras campanhas ibéricas também foram bem sucedidas, mas a campanha báltica não atingiu virtualmente nada e a expedição mais prestigiada de todas, aquela para a Terra Santa, foi um desastre. Os dois exércitos não tinham disciplina, suprimentos e financiamento, e ambos foram severamente maltratados pelos turcos seljúcidas quando atravessaram a Ásia Menor. Então, em conjunção com os colonos cristãos, os cruzados cercaram a cidade muçulmana mais importante na Síria, Damasco. Mesmo assim, após somente quatro dias, receosos das forças de alívio lideradas pelo filho de Zengi, Nur ad-Din, executaram uma retirada ignominiosa. Os cruzados culparam os francos do Oriente Próximo por esta falha, acusando-os de aceitar um suborno para retirarem-se. Qualquer que seja a verdade nisto, a derrota em Damasco certamente prejudicou o entusiasmo cruzado no Ocidente e cerca de três décadas mais tarde, apesar de apelos crescentemente elaborados e frenéticos por ajuda, não houve nenhuma cruzada de grande porte na Terra Santa.

Lembrar dos francos como inteiramente debilitados seria, contudo, um erro sério. Eles capturaram Ascalão em 1153 para completar seu controle da costa levantina, um avanço importante para a segurança do comércio e tráfego de peregrinos em termos de reduzir o assédio pelo transporte muçulmano. No ano seguinte, entretanto, Nur ad-Din tomou o controle em Damasco para marcar a primeira vez que as cidades haviam se unido a Alepo sob o domínio do mesmo homem durante o período cruzado, algo que aumentou grandemente a ameaça aos francos. A piedade pessoal considerável de Nur ad-Din, seu encorajamento das madrajas (instituições de ensino) e a composição de poesia jihad e textos exaltando as virtudes de Jerusalém criaram uma ligação entre as classes religiosa e política que faltavam visivelmente desde a chegada dos cruzados no Oriente. Durante os anos 1160, Nur ad-Din, atuando como o campeão da ortodoxia sunita, tomou controle do Egito xiita, aumentando dramaticamente a pressão estrategicamente sobre os francos e, simultaneamente, aumentando os recursos financeiros à sua disposição através da fertilidade do Delta do Nilo e do porto vital de Alexandria.

Este período da história do Oriente Latino é relatado em detalhes pelo mais importante historiador da época, William, Arcebispo de Tiro. Ele era um homem imensamente culto, que logo envolveu-se nas lutas políticas do final dos anos 1170 e 1180, durante o reinado da figura trágica do Rei Baldwin IV (1174 – 85), uma juventude afetada pela lepra. A necessidade de estabelecer seu sucessor forneceu uma oportunidade para facções rivais emergirem e provocar uma briga interna entre os francos. Isto não quer dizer que eles fossem incapazes de infligir perigo para o sucessor de Nur ad-Din, Saladino, que, de sua base no Egito, esperava usurpar a dinastia de seu antigo mestre, unir os muçulmanos do Oriente Próximo e expulsar os francos de Jerusalém. Em 1177, contudo, os francos triunfaram na Batalha de Montgisard, uma vitória que foi extensamente relatada na Europa Ocidental e fez pouco para convencer o povo dos assentamentos para uma necessidade real por ajuda. A construção em 1178 e 1179 do grande castelo da Vau de Jacob, somente a um dia de galope de Damasco, foi outro gesto de agressão que obrigou Saladino a destruir o lugar. Neste caso, em 1187 o sultão reuniu uma grande, porém frágil, coalizão de guerreiros do Egito, Síria e Iraque que foi suficiente para levar os francos para o campo de batalha e infligir lhes uma derrota terrível em Hattin em 4 de julho. Em questão de meses, Jerusalém caiu e Saladino recuperou a terceira cidade muçulmana mais importante, após Meca e Medina, um feito que ainda hoje tem efeitos.

Notícias da queda calamitosa de Jerusalém provocou tristeza e ultraje no Ocidente. O Papa Urbano III supostamente morreu de um ataque cardíaco ao saber das notícias e seu sucessor, Gregório VIII, emitiu um apelo emocionado de cruzada e os governantes da Europa começaram a organizar suas forças. O exército alemão de Frederico Barbarossa derrotou com sucesso os turcos seljúcidas na Ásia Menor apenas para o imperador se afogar em um rio no sul da Turquia. Logo depois, muitos dos alemães morreram de doenças e Saladino escapou enfrentando esse inimigo formidável. Os francos no Levante conseguiram agarrar-se à cidade de Tiro e então cercaram o porto mais importante na costa, Acre. Isto forneceu um alvo para as forças ocidentais e foi lá, no verão de 1190, que Filipe Augusto e Ricardo Coração-de-Leão desembarcaram. O cerco durou quase dois anos e a chegada dos dois reis ocidentais e suas tropas deu aos cristãos o impulso que eles precisavam. A cidade se rendeu e o prestígio de Saladino foi duramente afetado. Filipe logo voltou para casa e, enquanto Ricardo fez duas tentativas de marchar para Jerusalém, temores quanto às perspectivas de longo prazo após ele ter ido embora significaram que a cidade santa permaneceria em mãos islâmicas. Assim, a Terceira Cruzada falhou em seu objetivo principal, apesar de ter permitido aos francos recuperar uma faixa de terras ao longo da costa para fornecer uma cabeça de ponte para expedições futuras. De sua parte, Saladino sofreu uma série de derrotas militares, mas, crucialmente, manteve o controle de Jerusalém com o Islã.

O pontificado de Inocente III (1198 – 1216) presenciou outra fase na expansão das cruzadas. Campanhas no Báltico avançaram bem e a guerra santa na Ibéria seguiu a passos rápidos também. Em 1195, os mulçumanos esmagaram as forças cristãs na Batalha de Alarcos, que, logo após o desastre em Hattin, pareceu mostrar o desgosto profundo de Deus com Seu povo. Em 1212, entretanto, os governantes da Ibéria uniram-se para derrotar os islâmicos na Batalha de Las Navas de Tolosa para marcar a recuperação da península. No sul da França, enquanto isso, esforços para combater a heresia cátara[2], mas no final suas raízes na sociedade local significavam que eles podiam durar e foi somente através de técnicas mais persuasivas da Inquisição, iniciada nos anos 1240, que a Igreja teve sucesso onde a força falhou.

O episódio mais infame desta época foi a Quarta Cruzada (1202 – 04) que viu outro esforço para recuperar Jerusalém terminar no saque de Constantinopla, a maior cidade cristã do mundo. As razões para isto foram uma combinação de tensões de longa data entre a Igreja Latina (católica) e a Ortodoxia Grega; a necessidade para os cruzados em cumprir os termos de um contrato extremamente otimista para transporte ao Levante com os venezianos e a oferta de pagar este serviço por um pretendente ao trono bizantino. Esta combinação de circunstâncias levou os cruzados às paredes de Constantinopla e quando seu candidato jovem foi assassinado e os locais se voltaram definitivamente contra eles, eles atacaram e pilharam a cidade. No início, Inocente ficou feliz por Constantinopla estar sob domínio latino, mas quando soube da violência e pilhagem que acompanhou a conquista, ele ficou horrorizado e castigou os cruzados pela “perversão de seus peregrinos”.

Uma consequência de 1204 foi a criação de uma série de Estados Francos na Grécia que, com o tempo, também necessitaram apoio. Assim, no curso do século XIII, as cruzadas foram criadas contra esses cristãos, apesar de em 1261 Constantinopla ter voltado a mãos gregas.

Apesar destes desastres, é interessante ver que as cruzadas permaneceram um conceito atraente, algo feito pela quase lendária Cruzada das Crianças de 1212. Inspirada por visões divinas, dois grupos de camponeses jovens (melhor descritos como adolescentes, ao invés de crianças) reuniram-se em torno de Colônia e próximo a Chartres na crença de que sua pureza garantiria aprovação divina e os permitiria recuperar a Terra Santa. O grupo alemão atravessou os Alpes e alguns alcançaram o porto de Gênova, onde a realidade dura de não ter dinheiro ou esperança real de alcançar algo significou a recusa de passagem para o Oriente e o empreendimento inteiro colapsou.

Assim, o início do século XIII ficou caracterizado pela diversidade das cruzadas. A guerra santa estava se tornando um conceito flexível e adaptável que permitiu à Igreja direcionar a força contra seus inimigos em diversas frentes. A lógica da cruzada, como um ato defensivo para proteger cristãos, poderia ser refinado para se aplicar especificamente à Igreja católica e, assim, quando o papado entrou em conflito com o imperador Frederico II por causa do controle da Itália meridional, eventualmente foi convocada uma cruzada contra ele. Frederico já havia sido excomungado por falhar em cumprir suas promessas em tomar parte na Quinta Cruzada. Esta expedição atingiu a intenção original da Quarta Cruzada de invadir o Egito, mas ficou atolada fora do porto de Damietta antes que uma tentativa pobre de marchar sobre Cairo tenha colapsado. As tentativas de Frederico de torna-la boa foram frustradas por doença, mas nesta época o papado já havia perdido a paciência com ele. Recuperado, Frederico foi à Terra Santa já que, nesta época, o rei de Jerusalém (por casamento com a herdeira do trono) era – por mais irônico que seja – um excomungado negociou a restauração pacífica de Jerusalém para os cristãos. Suas habilidades diplomáticas (ele falava árabe), o perigo resultante de seus recursos consideráveis, assim como as divisões no mundo islâmico nas décadas que se seguiram à morte de Saladino, permitiram lhe conseguir isso. Um período breve de relações melhores entre o Papa e o imperador se seguiu, porém em 1245 a cúria o descreveu  como um herege e autorizou a convocação de uma cruzada contra ele.
             
Além do excesso de expedições cruzadas que aconteceram ao longo dos séculos, temos que lembrar também que o lançamento de tais campanhas teve um profundo impacto nas terras e povos de onde eles vieram. As cruzadas exigiam níveis substanciais de suporte financeiro e isto, com o tempo, presenciou a emergência de impostos nacionais para apoiar tais esforços, assim como esforços para levantar dinheiro dentro da própria Igreja. A ausência de um grande número de nobres experientes e clérigos poderia afetar o balanço político de uma área, com oportunidades para mulheres para agir como regentes ou para vizinhos inescrupulosos para desafiar a legislação eclesiástica e tentar tomar as terras de cruzados ausentes. A morte ou desaparecimento de um cruzado, sendo uma figura menor ou um imperador, obviamente levava tragédia pessoal para aqueles que eles deixaram para trás, mas pôde também precipitar instabilidade e mudança.

No ano anterior, Jerusalém caíra de volta em mãos muçulmanas e isto foi o principal motivo para o que tornou-se a grande expedição cruzada do século (conhecida como Sétima Cruzada) liderada pelo Rei (depois Santo) Luís IX da França. Bem financiado e preparado cuidadosamente e com uma vitória anterior em Damietta, esta campanha poderia ter sido definida como justa não fosse a acusação imprudente contra o irmão de Luís na Batalha de Mansoura (Egito) de enfraquecer as forças cruzadas. Isto, associado com o endurecimento da resistência islâmica, levou a expedição a uma interrupção e, famintos e doentes, eles foram obrigados a se render. Luís permaneceu na Terra Santa por mais quatro anos – um sinal de sua culpa na falha da campanha, mas também um comprometimento formidável para um monarca europeu estar ausente de sua casa por um total de seis anos – tentando fortalecer as defesas do reino latino. Nesta época, com os latinos largamente confinados a uma faixa costeira, os colonos confiavam em fortalezas crescentemente mais fortificadas e foi durante o século XIII que castelos poderosos como o Krak des Chevalier, Safet e Chastel Pelerin, assim como as imensas fortificações urbanas de Acre, tomaram forma.

Por volta desta época, a complexidade política do Oriente Médio estava mudando. Os invasores mongóis acrescentaram outra dimensão à luta enquanto eles conquistavam muito do mundo islâmico no leste; eles também ameaçaram brevemente a Europa Oriental com incursões selvagens em 1240-41 (fato que também provocou um apelo à cruzada). Os sucessores de Saladino foram substituídos pelos mamelucos, os antigos soldados-escravos, cujo líder, o sultão Baibars, era um expoente fanático da guerra santa e fez muito para trazer os estados cruzados a seus joelhos nas duas décadas seguintes. Lutas internas entre a nobreza franca, complicadas ainda mais pelo envolvimento das cidades comerciais italianas e as ordens Militares serviram para enfraquecer mais os Estados Latinos e finalmente, em 1291, o Sultão al-Ashraf invadiu a cidade de Acre e encerrou o domínio cristão na Terra Santa.

As Cruzadas sobreviveram na memória e imaginação dos povos da Europa Ocidental e do oriente Médio. No primeiro, elas ganharam popularidade através da literatura romântica de escritores como Sir Walter Scott e, quando as terras do Oriente Médio caíram nas mãos dos impérios do século XIX, os franceses, em particular, escolheram estabelecer vínculos com seu passado cruzado. A palavra tornou-se sinônimo de uma causa com direito moral, seja em contexto não-militar, como a cruzada contra o alcoolismo, ou nos horrores da Primeira Guerra Mundial. A ligação do general Franco com a Igreja Católica na Espanha invocou a ideologia cruzada em talvez a encarnação moderna mais próxima da ideia e ela permanece uma palavra em uso comum hoje em dia.

No mundo muçulmano, a memória dos Cruzados enfraqueceu, apesar de não ter desaparecido, da visão e Saladino continuou sendo uma figura ainda vista como exemplo de grande governante. No contexto do século XIX, a invocação dos europeus do passado sobre esta memória e a imagem de ocidentais hostis e agressivos buscando conquistar as terras islâmicas ou árabes tornou-se extremamente potente para líderes nacionalistas islâmicos, e Saladino, o homem que recapturou Jerusalém, permanece como um homem idolatrado.


Notas:

[1] A Questão das investiduras, Controvérsia das Investiduras, ou mesmo Guerra das Investiduras foi o conflito mais significativo entre Igreja e Estado na Europa medieval. Nos séculos XI e XII, uma série de papas lutaram contra a intromissão das monarquias europeias nas investiduras (nomeações) de bispos, abades e dos próprios papas, tentando restaurar a disciplina eclesiástica. A polêmica foi finalmente resolvida pela Concordata de Worms em 1122.

[2] O catarismo foi um movimento cristão de ascetismo extremo na Europa Ocidental entre os anos de 1100 e 1200, estreitamente ligado aos bogomilos da Trácia. O movimento foi tão forte no sul da Europa e na Europa Ocidental que a igreja Católica Romana passou a considerá-lo uma séria ameaça à religião ortodoxa. O catarismo teve suas raízes no movimento pauliciano na Armênia e no Bogomilismo na Bulgária que teve influências dos seguidores de Paulo. A ideia de dois deuses ou princípios, sendo um bom outro mau, foi fundamental para as crenças dos cátaros. O Deus bom era o Deus do Novo Testamento e criador do reino espiritual, em oposição ao Deus mau que muitos cátaros identificavam como Satanás, o criador do mundo físico do Antigo Testamento. Toda a matéria visível foi criado por Satanás, e portanto foi contaminada com o pecado, isto incluía o corpo humano. Esse conceito é oposto à Igreja Católica monoteísta, cujo princípio fundamental é que há somente um Deus que criou todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também pensavam que as almas humanas eram almas sem sexo de anjos aprisionadas dentro da criação física de Satanás amaldiçoado a ser reencarnado até os fiéis cátaros alcançarem a salvação por meio de um ritual chamado Consolamentum.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Conquista do Oeste

Marcelo Sales

Aventuras na História, 24/02/2014


Carruagens fugindo de bandidos. A cavalaria combatendo índios, cowboys solitários laçando cavalos e bois. Manadas de bisões que faziam a terra tremer quando estouravam por imensas planícies. Agricultores e suas famílias tirando o sustento de terras hostis com tenacidade. Tiros para todo lado. Estradas de ferro.

Os relatos de escritores e jornalistas, as pinturas de Frederic Remington e o cinema fixaram na mente das pessoas histórias e tipos míticos como cowboys e xerifes em cidades poeirentas. Ficção à parte, a conquista do Far West teve contornos lendários, mas envolveu política, trabalho duro e rotineiro e muita violência.

Quando os britânicos depuseram armas, em 1781, os habitantes das 13 colônias que fundaram os EUA tinham como fronteira ocidental a Cordilheira dos Apalaches, uma área do tamanho de Minas Gerais e São Paulo. Em 1803, a Louisiana foi comprada dos franceses. Em 1819, foi a vez da Flórida, adquirida dos espanhóis. A partir de 1846, uma guerra de dois anos custaria ao México metade de seu território. No mesmo ano, o Tratado do Oregon (1846) garantiu a porção noroeste, definindo a fronteira com o Canadá. “Em 1848, os EUA já haviam alcançado o Pacífico, numa conquista vertiginosa e violenta”, afirma a historiadora Mary Junqueira, da USP.

Para garantir a posse de tanta terra, era preciso povoá-la. “A região foi ocupada por gente de vários perfis atraída pela chance de adquirir terra e direitos políticos”, diz Mary. Além do incentivo à imigração e da legislação conhecida como Land Ordinance (1785), que regulava a formação de estados no Oeste, dois eventos atraíram multidões para a “Corrida do Oeste”: a descoberta de ouro na Califórnia e o Homestead Act, que doava lotes de 160 acres (65 hectares) de terras federais, assinada em 1862 por Abraham Lincoln. Parte das terras foi obtida por especuladores, prejudicando o pequeno agricultor, segundo Claude Fohlen, em O Faroeste.

Os personagens

A Conquista do Oeste tem personagens emblemáticos. Os primeiros a se embrenharem na terra desconhecida foram os caçadores de peles, que não se fixaram na região. Seguiu-se um grande fluxo de mineiros, seduzidos pela promessa nunca concretizada de um Eldorado. O auge da exploração se deu na Califórnia, entre 1848 e 1855. Houve ciclos posteriores em estados próximos, com resultados parecidos.

Já o cowboy, a figura mítica da região, na essência é um perito em manejar gado e cavalos. Os espanhóis trouxeram bovinos ao Golfo do México no século 17. Com as guerras e o fechamento das missões, no século 19, os rebanhos voltaram ao estado selvagem. Os americanos, atraídos pelo cultivo de algodão, viram a oportunidade de domesticar e explorar os long horns, ou chifres longos, como faziam os vaqueros. Havia também mustangs: cavalos em estado selvagem pouco maiores que um pônei, mais resistentes que as raças europeias e com instinto apurado para conter o gado.

Mas levar rebanhos do Texas até os consumidores do Leste exigia cruzar territórios indígenas – o que era ilegal – ou florestas cheias de ladrões e soldados desertores. As viagens irritavam também os colonos, porque o gado danificava plantações e transmitia doenças. O comerciante Joseph G. McCoy foi um dos que pensaram na solução para o problema. Em 1867, ergueu galpões de madeira para abrigar os rebanhos e um saloon, transformando Abilene, no Kansas, em entreposto comercial ao lado de uma ferrovia. Faltava levar o gado até o que viria a ser chamado de cowtown. A travessia rendeu grande fama aos cowboys, um contingente de 40 mil homens, pelos cálculos de Fohlen.

Um capataz comandava até dez cowboys, dependendo do tamanho do rebanho. Eram homens entre 20 e 30 anos, com boa saúde e vigor físico para caminhadas de até 25 km para domar reses. À noite, cantavam para acalmar os bois e se revezavam na vigília para proteger os acampamentos de saqueadores, lobos, coiotes e colonos. Tinham dieta simples: carne fresca era raridade. Nada de steaks, uma criação do século 20. Para beber, café, água e uísque de milho.

Outro grande evento eram os round-ups, quando os rebanhos de vários criadores eram marcados a ferro quente. Tais eventos atraíam muitos cowboys e são a mais provável origem dos rodeios. Nessa época, empresários perceberam o potencial da industrialização da carne de gado no Oeste. Adotaram criações sedentárias e cruzaram raças para melhorar a qualidade do produto. Os cowboys passaram a se ocupar mais da rotina dos ranchos.

O historiador Walter Webb, em seu trabalho The Great Plains (“As grandes planícies”), cita a descrição de um habitante da época sobre um deles: “Vive montado em seu cavalo, combate como os cavaleiros da Idade Média, anda armado, jura como um soldado, bebe como um peixe, veste-se como um ator e luta como o diabo. É amável com as mulheres, reservado com os estranhos, generoso com os amigos e brutal com os inimigos”.

Agricultura

A área cultivável nos EUA ia da Costa Leste ao vale dos rios Mississippi e Missouri, além de uma faixa de terra do litoral até a Serra Nevada, no Oeste. Entre essas duas regiões, com a cadeia das Montanhas Rochosas no meio, existiam as grandes planícies, terra difícil de cultivar sem irrigação.

Cenário hostil a que chegaram os colonos atraídos pelo Homestead Act. Quanto mais fazendeiros, mais graves eram os conflitos com os criadores de gado. Cercar as plantações era difícil, pela escassez de madeira e pedras. Até que Joseph Glidden patenteou o arame farpado, em 1873. Produzido em série, tinha preço acessível. Em menos de uma década, espalhou-se pelo Oeste. Segundo Walter Webb, o arame farpado foi decisivo para o avanço dos colonos. “Só então foi possível plantar com certo grau de economia e alguma certeza de não ter as colheitas comidas pelo gado solto no campo.”


Os índios

Ao lado dos mexicanos, os índios foram os grandes prejudicados pela marcha para o Oeste, de acordo com Mary Junqueira. No início do século 19, tribos do Leste e Meio-Oeste, como os sioux, foram empurradas para as planícies. Outras, como os cherokees e seminoles, foram realocadas em uma reserva onde é hoje o estado do Oklahoma. Apaches e navajos, que habitavam o sudoeste, tiveram de lutar muito para ficar por lá.

Os índios se adaptaram à vida nas planícies caçando bisões, abundantes no Oeste. Tinham destreza com cavalos e aprenderam a manejar com habilidade armas de fogo. Finda a Guerra de Secessão, o Exército Federal foi encarregado de garantir a segurança de colonos e cowboys, além de proteger a construção das ferrovias. Fortes militares foram erguidos e vários originaram cidades. Como mineiros, colonos, cowboys e os trens cruzavam áreas indígenas sem cerimônia, os índios atacavam ou roubavam bois e cavalos. A resposta dos militares foi violenta.

A ampliação das ferrovias e o povo “branco” praticamente extinguiram o bisão nos EUA, tirando o principal meio de subsistência dos índios, confinados em reservas cada vez menores. “Touro Sentado, chefe dos sioux, e Gerônimo, líder apache, são símbolos da resistência. Ambos perderam a queda de braço com o homem branco”, diz Mary Junqueira.

O transporte

A marcha rumo ao interior e depois ao Oeste utilizou ao longo do tempo quatro meios de transporte. O primeiro foram os steamboats, barcos a vapor, de casco quase reto, sem quilha – para escapar dos bancos de areia do Rio Mississipi. Sua característica mais marcante eram grandes rodas hidráulicas na popa. As viagens eram lentas e as caldeiras, barulhentas.

Longe dos rios, as diligências: carroças puxadas por parelhas de cavalos. Durante a Corrida do Ouro, ir do Missouri à Califórnia podia levar mais de quatro meses. “Era mais rápido ir de navio, contornando o Cabo Horn, na América do Sul”, afirma Mary Junqueira. Com a abertura de trilhas e a criação de serviços regulares, o tempo caiu para até 20 dias.

Os trajetos eram percorridos em comboios, para as carroças não se perderem e ficarem menos expostas a ataques. O custo da viagem era alto e a comida, precária. Os passageiros sofriam com os solavancos e a travessia de riachos e vaus.

Os navios só perderam a primazia com a chegada do trem ao Oeste. Em 1855, o Exército levou ao Congresso um plano detalhado com rotas possíveis para formar a malha ferroviária do país. Várias empresas entraram no negócio, entre elas a Central Pacific e a Union Pacific. A primeira partiu de Sacramento (Califórnia) e a segunda de Omaha (Nebraska). Mais eficiente e com emprego de mão de obra chinesa em larga escala, a Central cumpriu a meta e foi adiante. Em 10 de maio de 1869, o encontro das locomotivas das duas equipes em Promontory Point, Utah, foi um acontecimento nacional. Houve orações no local e o Sino da Liberdade soou na Filadélfia. Os trilhos iam agora de costa a costa.

Segundo o historiador Dee Brown, autor de Enterrem meu Coração na Curva do Rio, o século 19 no Oeste foi uma época de incrível violência e veneração da liberdade individual. E nesse quadro “se criaram os grandes mitos do Oeste americano – histórias de caçadores, pioneiros, pilotos de vapores, jogadores, pistoleiros, soldados da cavalaria, mineiros, cowboys, prostitutas, missionários, professores e colonizadores.” Para Mary Junqueira, um aspecto marcante da Conquista do Oeste é seu forte tom romanceado. “Apesar de visto assim por muitos nos séculos 19 e 20, tal processo não pode ser considerado uma aventura”, afirma a historiadora. “Claro que tipos como fazendeiros e cowboys existiram, mas o encontro do homem civilizado, mesmo que rústico, com o meio selvagem (natureza e indígenas) resultou numa versão que minimiza a violência que foi de fato empregada.”

Da Terrinha ao Oeste Selvagem

Sem a fama dos cowboys nem um contingente grande como o dos chineses, foi com tenacidade que os portugueses contribuíram na conquista do Oeste. Segundo o livro Land as Far as the Eye Can See – Portuguese in the Old West, de Donald Warrin e Geoffrey Gomes, grande parte dos imigrantes lusitanos saía das ilhas de Açores, Madeira e Cabo Verde para pescar baleias. Só depois de anos na atividade vinham à terra. No Oeste, atuaram no comércio de peles, na mineração, construção de estradas de ferro, criação de ovelhas e agricultura. O açoriano Frank Frates chegou a superintendente de um trecho da Central Pacific Railroad e comandou as obras do túnel da Southern Pacific que ligava Los Angeles ao norte do estado. Manuel Brazil estabeleceu-se no Novo México como criador de gado. Brazil colaborou para a captura de Billy the Kid, informando a localização dele ao xerife Pat Garrett e depois transportando o bando capturado até Las Vegas. Segundo Sandra Wolforth, em Portuguese in America, os portugueses não adquiriram valores que os fizeram ser assimilados pela sociedade local. Ao contrário, “trouxeram com eles habilidades e qualidades de que o cenário americano necessitava”.

Esparta moldou os maiores guerreiros antiguidade

Fabio Marton

Aventuras na História, 22/08/2014



Os meninos eram apartados de casa quando faziam 7 anos. O Estado se encarregava de treiná-los como guerreiros. Não qualquer guerreiro. Eles seriam soldados espartanos, o militar mais capacitado, temido, odiado e perfeito da Antiguidade. Para quem assistiu à primeira parte de 300, ou a sequência que chegou aos cinemas este ano, 300 – A Ascensão do Império, os feitos dos esparciatas são bem conhecidos (ainda que com visual de história em quadrinhos). Mas qual era o segredo da cidade para forjar militares tão formidáveis? A origem da tradição talvez resida nas Leis de Licurgo, legislador provavelmente mitológico do século 8 a.C. que deixou um código não escrito determinando praticamente tudo na vida de um espartano.

Antes disso, a cidade era algo bem diferente da que conhecemos. Esparta é central na Ilíada, que narra a Guerra de Troia, por volta de 1200 a.C. Da cidade veio Helena, a esposa do rei Menelau que, ao ser raptada pelo príncipe troiano Páris, deu início ao confronto. “Achados arqueológicos atestam o amor pelo luxo, humor e mesmo frivolidade no período arcaico, que dificilmente relembram os sisudos e militaristas espartanos da imaginação antiga e contemporânea”, diz o historiador Nigel M. Kennell, do Centro de Estudos Helênicos e Mediterrâneos, em Atenas.

Por volta do ano 1000 a.C., a cidade foi conquistada pelos dóricos, que se consideravam descendentes do semideus Héracles (o Hércules romano). Eles estabeleceram uma monarquia dual, com reis de diferentes dinastias. “A dualidade levava a conselhos divididos, rivalidades dinásticas, ansiedades de sucessão, luta faccional”, diz Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge. Os reis podiam não se bicar, mas não tinham muito poder. As decisões mais importantes eram tomadas por cinco éforos eleitos e pela gerúsia, formada por 28 cidadãos com mais de 60 anos – sempre com base nas Leis de Licurgo. E o principal tópico da legislação era que o cidadão de Esparta não trabalhava na terra, não praticava o comércio nem ganhava a vida como artesão. A única atividade nobre para um homem era a guerra. E eles passavam a vida treinando para ela.

Eles eram legendários porque, enquanto em outras cidades gregas as pessoas dividiam o tempo entre o treinamento militar e os afazeres cotidianos, a vida do espartano era focada no combate. O estado estava tão impregnado na vida privada que cabia à gerúsia decidir quais bebês deveriam viver (nas outras cidades, que também praticavam o infanticídio, a decisão cabia ao pai, não ao governo). Esparta era tão superior que a cidade não tinha muralhas. Não havia o que temer.

Missão suicida

O primeiro encontro militar entre espartanos e persas se deu na celebrada Batalha das Termópilas, entre 8 e 10 de setembro de 480 a.C., durante a segunda incursão persa à Grécia – a primeira foi repelida pelos atenienses, dez anos antes. Celebrizada, estilizada e romantizada no filme e nos quadrinhos 300, muito do que vem a partir daqui deve ser familiar para quem os viu, menos isto: os 300 espartanos lideravam 7 mil soldados. Somados à tropa de elite do rei Leônidas, havia mais 700 periecos, homens livres, mas sem direitos políticos, e 900 hilotas, escravos espartanos, que atuavam como arqueiros ou armados de fundas. Além de milhares de aliados de cidades como Tebas e Corinto. Periecos e hilotas eram os moradores encarregados das atividades que não cabiam aos esparciatas.

Era uma missão suicida e eles sabiam. Os 300 foram selecionados apenas entre os que já tinham filhos homens para passar seu legado. Do outro lado, havia no mínimo 70 mil persas, talvez até 250 mil, de acordo com estimativas modernas. O historiador mais influente do século 5 a.C., Heródoto, disse que eram 1,7 milhão.

Para frustração dos persas, a superioridade numérica não bastava. Termópilas era uma garganta com meros 100 m de largura. Por mais tropas que houvesse, elas eram forçadas a lutar com uma unidade de cada vez. Atirar flechas, sua tática favorita, era inútil: os espartanos levantavam os escudos, que tinham uma extensão de tecido para desviar flechas, e esperavam a chuva passar. Dienekes, um dos 300, foi informado que as flechas eram suficientes para tapar o sol. Saiu-se com uma das maiores tiradas do humor lacônico: “Melhor assim, combateremos à sombra”.

Homem por homem, os persas não tinham chance contra os espartanos, donos de melhores armaduras, lanças mais longas e escudos que protegiam melhor. Além de tudo, lutavam como ninguém. “Os espartanos usaram o tipo de tática que só um exército treinado e disciplinado poderia contemplar – falsas retiradas seguidas por uma súbita meia-volta e o massacre de seus perseguidores”, diz Carledge. Em três dias, os persas perderam 20 mil soldados, contra 2 mil no lado grego. Os números seriam muito maiores se um traidor grego, Efialtes, não tivesse indicado um caminho pelas montanhas. Num ataque em duas direções, os 300 e outros 1 200 aliados foram, enfim, massacrados.

Comportamento

Em tese uma derrota, a Batalha das Termópilas inspirou os vizinhos a resistir. “O fator moral no comportamento dos espartanos explica o sucesso final dos gregos”, diz Cartledge. O comportamento de um espartano era bastante curioso. Até os 30 anos, ele não tinha uma casa para chamar de sua. Morava com a tropa, em geral em barracos, na periferia da cidade ou em tendas de campanha – arqueólogos nunca encontraram nada parecido com um “quartel-general”, algo esperado para quem nasceu para guerrear. Segundo o historiador Scott Rusch, autor de Sparta at War (sem tradução), a razão é que eles eram apenas jovens cidadãos, ainda que focados no combate. Como não eram soldados, não fazia sentido viver em quartéis.

Em uma Esparta com poucas mulheres, submetidas a humilhações até na hora do casamento e que passavam boa parte do tempo longe dos filhos e dos maridos, a condição feminina era bem distinta se comparada a outras cidades gregas. Elas faziam exercícios ao ar livre, usavam pouca roupa e tinham senso de humor. Um ateniense perguntou a Gero, mulher do general Leônidas, por que as espartanas mandavam nos homens. “Por que somos as únicas que podem gerar homens”, respondeu. Elas podiam ter até casamentos poliândricos, se os maridos concordassem – como a geração de novos guerreiros era a prioridade, casamentos múltiplos tornaram-se um jeito de resolver o problema.


 Guerra fria

A guerra contra os persas uniu as cidades gregas, mas, com o invasor derrotado, restou saber o que fazer da Grécia após a vitória na Batalha de Plateias, em agosto de 479 a.C. A aliança entre Atenas e Esparta era precária. Durante o século 5 a.C., a Grécia se dividiu em dois campos. Ao lado de Atenas, ficaram as cidades democráticas da Liga de Delos. Com Esparta, as oligarquias da Liga do Peloponeso. Sem um inimigo externo, os modos de vida opostos entraram em confronto. Esparta era uma sociedade rigidamente oligárquica e tradicional, que rejeitava o comércio. Atenas era uma vibrante e democrática metrópole de comerciantes. Os espartanos haviam ajudado, por acidente, a instalar a democracia ateniense em 510 a.C., ao removerem o tirano Hípias do poder da cidade. Três anos depois, o novo regime foi instaurado, uma experiência radical e profundamente perturbadora para uma sociedade petreamente ligada à ordem, como Esparta.

As tensões começaram logo depois da guerra, quando os espartanos sugeriram que os atenienses seguissem seu exemplo e não reconstruíssem seus muros. Eles viram isso como uma tentativa de criar uma ameaça constante de forma a dominar a cidade, mantendo-a sob ameaça dos hoplitas espartanos. Sua recusa foi tomada como uma afronta. Em 465 a.C., um grande terremoto atingiu a Lacônia. Sentindo a fraqueza dos seus mestres, os hilotas iniciaram uma grande revolta. Atenas se dispôs a enviar um contingente de 4 mil hoplitas para ajudar seus ainda formalmente aliados. Então ocorreu o primeiro conflito ideológico direto.
“Devem ter sido intensos o choque e a surpresa dos atenienses ao descobrir que os ‘escravos’ hilotas não eram bárbaros, mas gregos com orgulhosas tradições”, afirma Paul Cartledge. Notando a relutância, os espartanos dispensaram seus aliados, o que gelou as relações entre as duas cidades.

Com uma série de episódios de hostilidade entre Atenas e os aliados de Esparta, em 431, um congresso da Liga do Peloponeso foi convocado para decidir pela guerra. De forma atípica, o rei Arquídamo II fez um discurso pedindo por paciência. O éforo Estelenides usou o estilo espartano típico: “Os atenienses são culpados de quebrar a paz, então vamos para a guerra!” A decisão ficou empatada. Estelenides propôs separar os votantes em duas alas. Sendo quem eram, nenhum espartano quis ser visto no lado da paz, e o “sim” ganhou por larga margem. Era o início da Guerra do Peloponeso.

No verão do mesmo ano, os espartanos estavam em frente aos muros que tanto odiavam. Esparta podia ser ainda a melhor força terrestre do mundo, mas não entendia nada de navios. Atenas era uma das maiores potências navais da época. O plano era simplesmente cercar a cidade até os atenienses morrerem de fome ou saírem para enfrentá-los. Nada disso aconteceu: com sua frota livre para fazer comércio, os atenienses simplesmente importaram alimentos.

A Guerra do Peloponeso se estenderia, com períodos de paz precária, por 35 anos, até o espartano Lisandro fazer uma espécie de pacto com o diabo. Buscando auxílio entre os persas, conseguiu que eles providenciassem uma frota naval para Esparta. Ainda que não conseguissem aniquilar os atenienses no mar, os espartanos fizeram um bloqueio naval. Com a fome ameaçando acabar com a cidade, em 404 a.C. Atenas se rendeu. Ao som de flautas tocadas por moças espartanas, os muros foram destruídos, assim como a democracia. No lugar foram colocados 30 tiranos, ditadores que respondiam à cidade vizinha.

O fim de uma era

A hegemonia espartana não duraria muito tempo. Um ano depois, os tiranos foram depostos e a democracia foi restaurada em Atenas. Em 395 a.C., eles estariam de volta ao combate contra Esparta na Guerra de Corinto, que terminou em empate. Mediando a paz, estava ninguém menos que o rei da Pérsia. A forma de guerrear estava mudando, e Esparta já não era mais tudo isso. “O Estado reacionário espartano estava menos pronto que as cidades-estados da época para adotar um número adequado de auxiliares e cavalaria, em grande parte porque sua infantaria era superior”, afirma o historiador militar Victor Davis Hanson, da Universidade Stanford. Mas essa superioridade estava em risco. O terremoto, as revoltas e as guerras haviam cobrado seu preço à população.

Havia apenas 400 esparciatas durante a Batalha de Leuctra, em 371 a.C., um dos muitos conflitos locais que se seguiram à Guerra de Corinto. Espartanos ainda podiam ser fortes, mas eram previsíveis. E o general Epaminondas, líder de Tebas, faria uso disso. Hoplitas colocavam suas melhores forças sempre à direita. Epaminondas formou uma coluna de 50 linhas com suas tropas mais capazes, e posicionou-as à esquerda, de forma a enfrentarem a elite espartana primeiro. Mil soldados morreram só nessa parte do combate. “No período da vida adulta de um homem, a cidade passou de líder indisputável dos gregos para um pequeno jogador na cena local”, diz o historiador Nigel Kennel. Pela primeira vez, os espartanos viram exércitos inimigos em suas fronteiras.

Além disso, um grande personagem entrava em campo. Os macedônios, sob Felipe II (382-336 a.C.), criariam um novo tipo de exército, baseado no uso combinado de infantaria e cavalaria. Esparta acabou deixada de lado por Felipe e seu filho, Alexandre, o Grande. Mas a Liga do Peloponeso foi extinta em 338 a.C., e todos os antigos aliados juntaram-se aos exércitos macedônicos, quando conquistaram a Pérsia.

Com Esparta isolada e acumulando derrotas no século 3 a.C., o rei Cleômenes III, que ascendeu ao trono em 236 a.C., estabeleceu reformas radicais, confiscando e dividindo as terras igualmente, transformando periecos em cidadãos e adotando um exército ao estilo macedônico. Confiante na modernização, começou a conquistar o entorno, a partir da cidade-estado de Argos, a única cidade da região a não se unir à Liga do Peloponeso. A Liga Aqueia, que reunia os ex-aliados de Esparta, reagiu unindo-se à Macedônia. Cleômenes foi derrotado na Batalha de Selásia, em 222 a.C.

Seguiram-se dez anos de vácuo no poder, até que, em 207 a.C., o tirano Nabis executou os membros das duas famílias reais, exilou ou matou os nobres resistentes e libertou os hilotas. De forma ainda mais subversiva, construiu muros em Esparta. Uma guerra internacional foi convocada contra ele, trazendo como aliada a nova potência internacional, Roma.

Em 189 a.C., a Liga Aqueia decidiu pôr fim à independência de Esparta. A cidade foi capturada no ano seguinte e as Leis de Licurgo, revogadas. Incorporada a Roma em 146 a.C., a cidade se tornaria atração turística para romanos ricos que queriam ver os hábitos bárbaros de seus habitantes. Triste fim para os melhores guerreiros da História.

O HOPLITA ESPARTANO - O segredo da vitória

Hoplitas eram soldados armados com lanças de 3 m, chamadas dory, e xiphos, espadas curtas para combate próximo. Eram munidos de um escudo, o hóplon, e uma armadura de bronze, a panóplia. Atuavam em colunas largas, com oito a 12 linhas de soldados, com os mais experientes à direita. A razão disso era que os homens se moviam instintivamente em direção ao escudo de seu parceiro, e os veteranos evitavam que a tropa toda se desviasse. As lanças podiam ser seguradas por baixo ou por cima, permitindo que um soldado das linhas de trás atacasse sobre os ombros dos companheiros. A combinação de armadura e escudo e a coesão da tropa os tornavam quase invulneráveis a um ataque frontal, fosse por flechas, espadas ou lanças.


Todas as cidades-estados gregas usavam hoplitas. O que tornava os espartanos especiais era o fato de serem soldados profissionais e exclusivos, com um espírito de ferocidade e companheirismo militar incutido desde a mais tenra idade, enquanto os outros eram comerciantes e artesãos que ocasionalmente pegavam em armas. Espartanos ou não, hoplitas pagavam pelas próprias armas e armaduras – quem não tivesse dinheiro ficava de fora. No caso de Esparta, era uma desgraça total: significava perder a cidadania e juntar-se aos periecos.

IMPÉRIO DA MODÉSTIA - Esparta não impressionava. As ruínas são exíguas

Os espartanos preferiam se referir às suas terras pelo nome da região, Lacônia ou Lacedemônia. Daí vinha a letra lambda – λ – em seus escudos. De acordo com as lendas gregas, Lacedemon era um filho de Zeus com a ninfa Taigete, que fundou um reino na Península do Peloponeso, uma vasta região que é ligada ao continente por um istmo de 6,3 km de largura. Ele batizou seu país em sua própria homenagem, e a capital, em honra à esposa, Esparta.

A cidade era formada por quatro vilas com uma acrópole central, onde havia o templo de Ártemis Órtia e o dedicado a Atena Calcieco. As ruínas são exíguas. “Não há sinais de edificações de nenhuma natureza, exceto os templos. O que faz muitos suporem que as construções eram de madeira”, diz a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Silva, da USP. Até o reinado do tirano Nabis, não havia muros, uma manifestação da confiança que depositavam na ponta de suas lanças. O general ateniense Tucídides (460-395 a.C.) visitou a cidade e escreveu, profeticamente: “Suponha, por exemplo, que a cidade de Esparta se tornasse deserta e que apenas os templos e as fundações dos prédios sobrevivessem. As gerações do futuro achariam difícil acreditar que o lugar foi tão poderoso como representado”.



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quinta-feira, 9 de julho de 2015

[SGM] A Última Batalha da Europa

Larry Hannant

History Today, 07/07/2015


Por cinco anos, era tão idílica quanto a guerra poderia ser. Mas nas últimas seis semanas – estendendo-se além do término oficial da Segunda Guerra Mundial – tornou-se uma carnificina sangrenta. Aqueles que outrora foram camaradas no uniforme de repente massacraram-se entre si em um conflito que pode ser chamado de “A Última Batalha da Europa”.

Fotografias de soldados alemães, que na Segunda Guerra Mundial estavam estacionados na ilha pastoral de Texel (pronuncia-se “tessel”), a maior das ilhas friesianas ocidentais, mostram-nos sorridentes como se estivessem escrevendo para casa. Texel era como uma vista de cartão postal, uma gema de praias exuberantes ilimitadas cercando campos agrícolas produtivos de grãos, batatas e pastos para ovelhas felizes. Em abril de 1945, no que todos sabiam ser os últimos dias de um conflito apavorante, os 1.200 soldados da Wehrmacht em Textel tinham um bom motivo para esperar que eles pudessem ver o fim da guerra sem disparar um único tiro.

Mas na manhã de 6 de abril, a tranquilidade transformou-se em terror quando soldados da Wehrmacht mataram soldados da Wehrmacht, usando tudo, de baionetas até artilharia. Amigo e inimigo eram diferenciados por um pequeno detalhe em seus uniformes: cerca de 800 dos homens usavam um pequeno emblema os identificando como georgianos, enquanto que 400 oficiais e suboficiais eram alemães.

Os georgianos começaram a guerra não em uniformes alemães, mas soviéticos. Em 1941, quando a URSS montou uma resistência desesperada contra o maciço exército de invasão de Hitler, os soviéticos pressionaram todos os cidadãos ao serviço militar. Vindos da terra natal de Stalin, os cidadãos georgianos receberam cores soviéticas e armas e foram jogados em campo para a defesa da Pátria.

Os georgianos, capturados inicialmente na frente oriental, receberam uma proposta difícil. Eles poderiam aceitar receber a condição de prisioneiros de guerra, com um futuro incerto de fome, abuso e possivelmente morte, ou poderiam se alistar na Wehrmacht. A escolha de cerca de 30.000 georgianos para vestir um uniforme alemão foi compreensível, mas isso os tornou traidores.

À medida que o fim da guerra se aproximava, o futuro dos georgianos em Texel tornou-se sombrio – o retorno à retaliação e punição na URSS. Temendo este destino, os membros do 822º. Batalhão, tendo já substituído os uniformes soviéticos pelos alemães, mudaram sua aliança novamente, agora para o lado aliado.

Dentro de suas barracas, logo após a meia-noite de 5-6 de abril de 1945, os georgianos voltaram-se contra seus camaradas alemães, matando muitos deles com baionetas e facas em ataques coordenados. Mas alguns, incluindo o comandante, major Klaus Breitner, que passou a noite com sua amante na vila de Den Burg, sobreviveu. Breitner e os poucos sobreviventes alemães foram capazes de escapar para o continente.

Em 6 de abril, Breitner lançou um contrataque, tendo mobilizado uma força de 2.000 marinheiros e membros da temida SS. O que parecia ter sido uma completa vitória georgiana foi rapidamente revertido. Uma caçada casa por casa pelos georgianos varreu Texel.

Os georgianos capturados, incluindo 57 que finalmente entregaram o controle do farol onde haviam se entrincheirado, foram forçados a tirar a roupa – seu motim acabou desgraçando seus uniformes – e cavar suas próprias sepulturas. Cerca de 130 deles foram executados desta forma horrível.

Texel tornou-se um cenário de carnificina que não poupou ninguém, incluindo os habitantes civis holandeses. Forças de resistência e cidadãos comuns que protegeram e ajudaram os georgianos foram executados e as vilas de Den Burg e Ejerland presenciaram danos sérios em casas e prédios à medida que os alemães se vingavam. “Texel está sob o reino do terror,” escreveu um tessiano.

Mesmo a rendição das forças alemãs nos Países Baixos em 5 de maio e o fim oficial da guerra em 8 de maio não trouxeram o fim do massacre, já que a campanha de execução alemã continuou por mais duas semanas. O resultado final de baixas da batalha de seis semanas foi 812 alemães, 586 georgianos e 120 holandeses.

Ao longo do pesadelo, Texel não recebeu nenhuma ajuda aliada. Somente em 20 de maio foi que uma pequena unidade do Primeiro Exército Canadense chegou à ilha para negociar o fim do conflito.

O comandante canadense no local ficou tão impressionado pela resistência georgiana que ele se recusou a classificar os 228 sobreviventes como inimigos. O general de divisão Charles Foulkes escreveu para o Alto Comando Soviético pedindo clemência para os georgianos. Isto teria sido uma grande recomendação segundo as regras acordadas pelos Três Grandes líderes na Conferência de Yalta, isto é, de que todos os nacionais retornariam para seus países de origem com o fim das hostilidades.

Boatos circularam que os 228  georgianos sobreviventes não deveriam retornar à URSS. Mas, se a promessa foi feita, ela foi revogada ao longo das próximas semanas e os sobreviventes foram enviados de volta para seu país.

Contrariamente às expectativas de retribuição, em 1946 o diário soviético Pravda louvou os georgianos de Texel como “patriotas soviéticos” e descreveu-lhes como prisioneiros de guerra rebeldes. Oficiais soviéticos também visitaram a ilha regularmente após a Segunda Guerra Mundial para prestar homenagem à resistência antialemã dos georgianos.

Hoje, poucos param no túmulo coletivo dos 475 georgianos mortos em combate ou executados sumariamente, sendo seu local de repouso marcado por 12 colunas de rosas vermelhas e um monte de pedras. A última batalha da Europa está silenciosa, lembrando os antagonismos nacionalistas assassinos liberados mesmo quando o resultado da Segunda Guerra já estava decidido.
      

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