terça-feira, 11 de agosto de 2015

Drácula: Fato, Lenda e Ficção

Paul Dukes

History Today, Vol. 32, Nº 7, julho de 1982



Primeiro o fato, como qualquer um que alguma vez tenha investigado a vida de um personagem histórico saberá, isto não significa necessariamente algo fácil de se estabelecer. Drácula de fato existiu, mas quem era ele e como ele adquiriu sua reputação?

Na história atual romena, ele é melhor lembrado como um líder na luta medieval contra os turcos. De 1456 a 1462 e novamente por um período curto em 1476, o governante do principado daubiano da Valáquia era Vlad Tepes, isto é, Vlad o Empalador, ou Drácula. Seis anos após a queda de Constantinopla em 1459, este príncipe valente se recusou a pagar tributo ao Aduaneiro Otomano, e dois anos depois ele liderou um exército através do Danúbio para lutar contra o inimigo, supostamente tendo matado 24.000 turcos e liberando parte do território recentemente ocupado por eles. Mas então, em 1462, o Sultão Mohammed II o Conquistador em pessoa liderou uma campanha de retaliação contra Valáquia. Vlad ergueu uma resistência patriota, e finalmente foi derrotado, não no campo de batalha, mas pela duplicidade do rei da Hungria, Matthias Corvinus (1140 – 1490), para quem ele tinha apelado por apoio mas por quem ele agora estava preso. Em 1476, ele conseguiu escapar para tomar parte em uma luta contra a invasão otomana na Bósnia e para reocupar o trono de Valáquia. Entretanto, no mesmo ano, como o relato romeno coloca, “este combatente corajoso pela liberdade de seu povo foi morto em uma campanha contra os turcos.”

A visão romena, dificilmente surpreendente, não foi compartilhada pelos outros na Europa Oriental; os húngaros, para tomar o exemplo mais óbvio, não lembram de Matthias Corvinus como um vira-casaca. Pelo contrário, mais importante, eles veem a Transilvânia, o local de nascimento de Drácula, como sendo parte de um único país junto com Valáquia, a terra que ele governou, persistindo até hoje em sua crença que a Transilvânia deveria fazer parte da Hungria. Os alemães têm tendido a seguir a visão de seus antepassados do século XV no Sacro Império Romano, que condecorou o pai de Drácula com a Ordem do Dragão hereditária somente para se arrepender, acreditando que a família tão honrada provou ser, graças ao filho, indigna de tal título cavalheiresco. O nome “Drácula” poderia significar tanto “filho do dragão” quanto “filho do mal”, e aos olhos alemães, a última interpretação rapidamente predominou. Enquanto isso, na Rússia ortodoxa, em 1490 uma versão de sua carreira foi escrita em manuscrito segundo a qual Drácula foi condenado por sua aceitação apostática do catolicismo romano durante seus anos de aprisionamento na Hungria, mas também para ser aprovado por suas políticas cruéis, porém justas. Sem entrar na controvérsia histórica, o estudioso russo Ian Lurye deu, talvez, a melhor descrição do fato.

Poucos anos após sua morte, então, o legado de Drácula foi divulgado, o qual já era desvirtuado e contribuiu para a lenda que deveria o levar para a ficção. Outros componentes da lenda eram muitas histórias, uma das quais, muito recorrente, dizia que uma visita ao príncipe por alguns embaixadores que entraram sem tirar seus chapéus, dando a explicação que isso era costume entre eles. Drácula ordenou então que seus chapéus fossem pregados em suas cabeças, com a explicação que isto fortaleceria seu costume e, em algumas versões, que seus governantes aprenderiam que na Valáquia era melhor se comportar como valaquianos. Outro conto recorrente fala sobre a perpetração de canibalismo forçado, algumas vezes os ciganos obrigados a comer uns aos outros, em outra ocasião mães são obrigadas a assar seus bebês e então devorá-los. O assunto mais frequente da lenda de Drácula, contudo, está ligado com seu apelido alternativo “Vlad o Empalador”. Por exemplo, uma pessoa reclamando sobre o fedor emanando de um número de corpos já empalados é ela própria empalada em um lugar onde o ar é melhor. Muito da transfixação parece ser sem nenhum motivo claro. Se há uma dispensa da justiça, é áspero ao extremo, e a impressão que fica é de um sadismo gratuito aliviado, se for isso, por um senso de humor sarcástico. Se a lenda reflete isso, a época deve ter sido muito difícil para os habitantes do século XV de Valáquia e outros principados vizinhos.

O estilo de vida da criação ficcional mais famosa é totalmente descolado da lenda. As características distintas do monstro de Bram Stoker poderiam resultar em parte da circunstância que as palavras “demônio” e “vampiro” são intercambiáveis em diversas línguas, enquanto que a crença nos vampiros tem sido muito espalhada e ainda existe na pátria de Dráculae outras partes da Europa Oriental, sem mencionar no mundo inteiro. Mais diretamente, Bram Stocker supostamente recebeu sua versão da vida e morte de seu “herói” do, entre outras fontes, professor Arminius Vambery, um especialista bem viajado da Hungria, com quem ele jantou no Clube do Bife em Londres em 1890. Provavelmente, no curso da conversa, as proezas de Vlad o Empalador foram mencionadas, e sendo assim, dada as características do ambiente característico transilveniano, mas é possível que a conexão entre o professor e Drácula foi feita na mente de Stoker e outros pela justaposição em muitas enciclopédias de “Vambery” e “vampiro”.   

Certamente, não houve atalho de influências no romance que apareceu em 1897. Nascido cinquenta anos antes em Dublin, e formado na Faculdade Trindade (Trinity College), Bram Stoker mudou da rotina de um emprego público (sua primeira publicação trazendo o pouco sugestivo nome de “Tarefas de Escriturários de Pequenas Sessões na Irlanda”) para uma atividade literária parcial e críticas dramáticas da gestão de palco para o ator Sir henry Irving, combinado com o desenvolvimento de sua própria perseguição da profissão de letras. Ele recebeu atenção considerável com Carmilla, um romance vampiresco pelo seu compatriota Joseph Sheridan Le Fanu, e seu próprio primeiro trabalho de ficção contendo um personagem chamado “o fantasma do demônio”.

O século XIX não foi, é claro, estranho a vampiros e demônios de muitas variedades. Mary Wollstonecraft Shelley levou o romance gótico a um novo nível de realismo com seu Frankenstein (1818). Byron, Goethe e Alexandre Dumas Sr. foram apenas alguns de escritores mais famosos a mostrar um interesse no consumo póstumo de sangue. E entre as muitas pessoas interessantes que Stoker encontrou no curso de uma vida agitada foi Sir Richard Burton, o famoso viajante e tradutor, de quem ele soube dos vampiros árabes e indianos e que também o impressionou com a proeminência de seus dentes caninos. Então, na névoa do outono de 1888 nas ruas de Londres, a realidade superou a lenda e ficção na forma de Jack o Estripador, que surgiu na imprensa popular através de todos os tipos de imagem de criaturas sugadoras de sangue da “Idade das Trevas” e deu combustível adicional à imaginação fértil de Stoker. Dois anos mais tarde, veio o encontro com o professor Vambery, acrescido pela pesquisa na Sala de Leitura do Museu Britânico, que tinha recentemente adquirido um panfleto alemão impresso em 1491 e relatando algumas histórias horríveis sobre Drácula.

Hipóteses adicionais relacionadas às fontes da obra de Stoker variam do passado turvo e distante até o presente mais imediato e pessoal. Durante sua infância na Irlanda, o autor ouviu muitos contos de mistério e imaginação celtas, enriquecidos pelas memórias pessoais de sua mãe de alguns dos aspectos macabros da epidemia de cólera de 1832. Em 1894, Stoker fez a primeira de muitas visitas de férias à vila pesqueira escocesa de Cruden Bay, onde ele foi capaz de absorver mais folclore celta de natureza tanto genuína quanto artificial. É possível que ele tenha tomado conhecimento de “Vampiro: Pássaro das Ilhas”, publicado em Londres em 1822 e passado na Ilha Ocidental de Staffa. E uma autoridade local, James Drummond, escreveu não somente da associação de Stoker com a peça de Cruden, mas também de uma influência palpável de outra peça escocesa, que atores supersticiosos ainda contraem-se ao falar seu título. Drummond revela muitos paralelos entre MacBeth e Drácula, culminando nos respectivos resultados:

Os exércitos da virtude ultrajada fecham-se para varrer as forças do mal e para exigir retribuição. A Cruz de Santo Jorge e o Crucifixo, o crescimento verde fresco de Birnam Wood e a pura e afiada estaca de sorva. E finalmente, o ritual antigo catártico celta das cabeças cortadas liberta o mundo a partir do reino do mal. “Eis onde está a cabeça amaldiçoada do usurpador!” lamenta Macduff, “O tempo é livre!” E Morris respeitosamente ecoa, “Veja a neve não é mais brilhante do que a testa dela. A maldição foi embora!”

Tão longe quanto as conexões escocesas permitem, pode ser útil acrescentar que parte dos contos ouvidos por Stoker na Baía de Cruden (uma de cujas derivações sugeridas significa apropriadamente "sangue dos dinamarqueses”) poderia bem ter sido semelhante a outras contadas nas montanhas cárpatas, na vizinhança das quais os povos celtas supostamente tiveram suas origens bem antes do nascimento de Vlad o Empalador na Transilvânia. Além disso, críticas recentes do livro sobre Robert Seton-Watson por seus dois filhos, tem apontado como a simpatia de um grande homem pelos povos da Transilvânia e outras regiões cárpatas podem bem ter vindo de sua própria origem escocesa, uma afinidade que poderia ter permeado uma geração ou antes tanto quanto o autor de Drácula. Certamente, Stoker escreveu de suas pesquisas: “Li que toda superstição conhecida no mundo é reunida na ferradura dos Cárpatos, como se fosse o centro de um tipo de redemoinho imaginativo.”

Finalmente, uma fonte mais íntima da inspiração de Stoker foi debatido por Penelope Shuttle e Peter Redgrove em “A ferida Sábia: Menstruação e Mulher”. No capítulo 7, que eles chamaram de “O Espelho de Drácula”, eles escrevem:

Stoker era casado com a atraente Florence Balcome, que era muito admirada por Oscar Wilde, e que era também, de acordo com autoridades, frígida como uma estátua. É possível que uma mulher com uma vida sexual insatisfatória tenha também distúrbios menstruais ruins. Foi uma imagem destas que deu à mente subliminar de Stoker a dica que formulou um mito de poder formidável, fora da ferocidade de uma mulher frustrada sangrando, crepitando com energia e sexualidade não reconhecida?

Das neblinas da antiguidade celta até o estilo de seus problemas maritais é provavelmente um longo caminho em direção de um entendimento completo da imaginação de Stoker, neste caso há ainda uns poucos comentários adicionais a serem feitos no conteúdo da própria obra. Agora, nos movemos a um concurso de história local, Cruden Bay versus o porto de North Yorkshire em Whitby. Bram Stoker tirou suas férias de verão de 1890 em Whitby apenas uns poucos meses após seu encontro com o professor Vambery e, de acordo com a lenda local, derivou a ideia de seu livro de um pesadelo após Stoker jantar uma sopa de camarão. Drácula, está bem documentado, começou de fato alguns anos depois em Cruden Bay, mas a chegada do Conde na Inglaterra é explicitamente estabelecida em Whitby, com Stoker passando alguns de suas férias lá ao mesmo tempo copiando certos detalhes do local mais imediato. O Mosteiro de Whitby pode bem ter surgido em sua mente com o Castelo Slains cravado em um monte próximo a Cruden Bay como ele veio a descrever a residência de drácula. Descrevendo os recintos de Whitby, ele fala de “pistas estreitas, como eles são chamados na Escócia.” E algumas das palavras que ele coloca na boca dos pescadores de North Yorkshire são tiradas do dialeto buchan do nordeste da Escócia: “to skeer an scunner hafflins”, por exemplo, que significa “assustar e desapontar os jovens rapazes.” Que Stoker descobriu Cruden Bay o lugar mais simpático para a atividade literária é indicado pelo fato de que ele escreveu dois romances quase completamente localizados lá ou próximos dele, The Watter´s Mou e O Mistério do Mar. Por outro lado, a tempestade anunciando a chegada do Conde Drácula nas praias da Inglaterra, uma das passagens descritivas mais poderosas em seu famoso trabalho, foi definitivamente esboçado em grande parte a partir das experiências vividas pelos pescadores de Whitby na época das férias de Bram Stoker naquele porto.

Quando de sua publicação em 1897, Drácula foi bem recebido pelos críticos, o Daily Mail, por exemplo, o considerou “ainda mais terrível em seu fascínio sombrio” do que trabalhos como Frankenstein, Wuthering Heights e The Fall of the House of Usher. Entretanto, o livro não tornou-se um sucesso, enquanto que sua primeira apresentação teatral, apressadamente juntos para proteger os direitos do autor, foi considerada assustadora, em nenhum sentido lisonjeiro, por ninguém menos que o próprio Sir Henry Irving. Mesmo assim, foi através de uma apresentação mais tarde em palco que Drácula atingiu a fama que ele desfruta hoje. Estreando em Derby em 1924, a nova peça mais tarde transferiu-se para uma temporada de sucesso no final do ano. Então, na Broadway, o papel principal foi interpretado pelo húngaro bela Lugosi, que usou seu autêntico sotaque europeu do leste na primeira versão filmada de 1931. Esta alcançou sucesso estrondoso e desde então tem havido muitas refilmagens e variações do tema drácula – mais de 400, de acordo com um cálculo. O nome assustador tem sido aplicado em todos os tipos de direções, o mais patético talvez em uma propaganda de picolé como “O Segredo Mortal do Conde Drácula – Chupe um antes do nascer do Sol!” Sem dúvidas, um lugar de destaque nos países ocidentais, até mesmo na consciência geral do mundo, foi ganho pela criação de Bram Stoker. 

Por isso é que, mais do que uma figura histórica, que todos agora conhecemos e tememos. Verdade, versões da velha lenda, elas próprias talvez agora removidas da vida autêntica de Vlad Tepes, ainda são contadas por camponeses romenos, e pode não ter desaparecido do folclore pré-industrial alhures. Mas a força de Drácula parece estar mais firmemente estabelecida pelo romance emgraças às ansiedades sofisticadas dos moradores da cidade, o anonimato solitário e distúrbio psicológico, a repressão sexual e frustração particularmente. De um modo ou de outro, o monstro afundou seus dentes em todo mundo.                   


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

As Cruzadas: Uma História Completa

Jonathan Phillips

History Today, Vol. 65, nº 5, maio 2015


Durante as últimas quatro décadas as Cruzadas tornaram-se uma das áreas mais dinâmicas da investigação histórica, significando uma curiosidade crescente na compreensão e interpretação destes eventos extraordinários. O que levou as pessoas no Ocidente cristão a desejar recapturar Jerusalém? Qual impacto teve o sucesso da Primeira Cruzada (1099) nas comunidades muçulmana, cristã e judaica do Mediterrâneo oriental? Qual foi o efeito das Cruzadas nos povos e instituições da Europa ocidental? Como as pessoas registravam as Cruzadas e, finalmente, qual o seu legado?

O debate acadêmico avançou significativamente durante os anos 1980, à medida que a discussão em torno da definição de cruzada reuniu os pesquisadores. A compreensão do escopo das Cruzadas expandiu-se com um novo reconhecimento que as cruzadas se estenderam muito além das expedições originais do século XI à Terra Santa, tanto em termos de cronologia quanto de escopo. Isto é, elas aconteceram bem depois do final da dominação dos francos no Oriente (1291) e continuaram até o século XVI. Em relação a seu objetivo, os cruzados também foram convocados contra os muçulmanos da Península Ibérica, os povos pagãos da região báltica, os mongóis, oponentes políticos do Papado e hereges (como os cátaros ou os hussitas). Uma aceitação dessa estrutura, assim como a centralidade da autorização papal para tais expedições, é geralmente referida como a posição “pluralista”.
   
A emergência desta interpretação energizou o campo existente e teve o efeito de atrair um grande número de estudiosos. Junto com isso veio um interesse crescente na reavaliação dos motivos dos cruzados, com algumas das ênfases existentes em relação a dinheiro serem diminuídas e o cliché de filhos mais jovens desgarrados em busca de aventura sendo deixado de lado. Através do uso de um espectro mais amplo de evidência (especialmente documentos, isto é, vendas e locação de terras e/ou direitos), uma preocupação em impulsos contemporâneos religiosos como o fator motivador dominante para, particularmente na Primeira Cruzada, veio à tona. No entanto, o resto do mundo se intrometeu em e, em seguida, de algum modo, estimulou o debate acadêmico: os horrores do 11/09 e o uso desastrado pelo presidente George W. Bush da palavra “cruzada” para descrever a “Guerra ao Terror” alimentou a mensagem dos extremistas de ódio e a noção de um conflito mais longo e maior entre o Islã e o Ocidente, datando do período medieval, tornou-se extrememamente visível. Na verdade, é claro, tal visão simplista é totalmente equivocada, mas é uma arma poderosa nas mãos de extremistas de todos os tipos (de Osama Bin Laden a Anders Breivik ao EI) e certamente deu impulso ao estudo do legado da era das Cruzadas no mundo moderno, como veremos aqui.

A Primeira Cruzada foi convocada em novembro de 1095 pelo Papa Urbano II na cidade de Clemont na França Central. O Papa fez uma proposta: “Quem quer que seja por devoção apenas, sem nenhum ganho de honra ou dinheiro, for a Jerusalém para libertar a Igreja de Deus pode substituir essa jornada por toda penitência.” Este apelo era uma combinação de uma série de tendências contemporâneas junto com a inspiração do próprio Urbano, que acrescentou inovações particulares à mistura. Por muitas décadas, os cristãos lançaram-se em terras muçulmanas nas fronteiras da Europa, na Península Ibérica, por exemplo, assim como na Sicília. Em alguns exemplos a Igreja tornou-se envolvida nestes eventos por meio da oferta de prêmios espirituais limitados aos participantes.

Urbano era responsável pelo bem-estar espiritual de seu rebanho e a cruzada apresentou-se como uma oportunidade para os cavaleiros pecadores da Europa Ocidental interromperem sua luta eterna e exploração dos fracos (camponeses e monges) e tornar boas suas vidas violentas. Urbano viu a campanha como uma chance para os cavaleiros direcionarem suas energias para aquilo que era visto como um ato espiritualmente merecedor, basicamente a tomada da cidade santa de Jerusalém do Islã (os muçulmanos tomaram a cidade em 637). Em retorno a isto, eles seriam, com efeito, perdoados dos pecados que tivessem confessado. Isto, por sua vez, os salvaria da perspectiva da danação eterna nos fogos do Inferno, um destino repetidamente enfatizado pela Igreja em consequência de uma vida pecadora.

Numa época de tal religiosidade intensa, a cidade de Jerusalém, o lugar onde Cristo viveu, caminhou e morreu, tinha um papel central. Quando o objetivo de libertar Jerusalém foi relacionado a estórias fantásticas (provavelmente exageradas) de mau tratamento tanto dos cristãos nativos do Levante quanto de peregrinos ocidentais, o desejo por vingança, junto com a oportunidade para redenção espiritual, formou uma combinação potencialmente motivadora. Urbano estaria cuidando de seu rebanho e melhorando a condição espiritual da Europa ocidental também. O fato de que o papado estava engajado em uma luta poderosa contra o imperador alemão Henrique IV (a Controvérsia das Investiduras[1]), e que a convocação aumentaria a força papal foi uma oportunidade boa demais para Urbano desperdiçar.

Uma faísca nessa palha seca veio de outra força cristã: o Império Bizantino. O imperador Alexios I temia o avanço dos turcos seljúcidas em direção de sua capital Constantinopla. Os bizantinos eram cristãos ortodoxos gregos mas, desde 1054, estavam em um estado de cisma com a Igreja Católica. O lançamento da cruzada deu a Urbano a chance de se aproximar dos ortodoxos para cicatrizar as feridas.

A reação ao pedido de Urbano foi surpreendente e notícias da expedição correram pela maior parte do Ocidente latino. Milhares viram isto como uma nova forma de obter a salvação e evitar as consequências de suas vidas pecadoras. Mesmo assim, ambições de honra, aventura, ganho financeiro e, para uma pequena parcela, terra (neste caso, a maioria dos primeiros cruzados voltaram para casa após o término da expedição) também podem ter influenciado. Enquanto clérigos desaprovavam os motivos mundanos porque eles acreditavam que tais objetivos provocariam a ira de Deus, muitos leigos tinham pouca dificuldade em adaptá-los à sua religiosidade. Assim, Estevão de Blois, um dos homens mais experientes na campanha, escreveria para sua esposa, Adela de Blois (filha de Guilherme o Conquistador), que ele recebeu presentes e honras valiosos pelo imperador e que ele agora tinha o dobro de ouro, prata e outras riquezas em relação ao que ele tinha no Ocidente. Pessoas de todas as classes sociais (exceto reis) uniram-se à Primeira Cruzada, apesar de um confronto inicial de rebeliões disciplinares provocaram um surto horrível de antissemitismo, especialmente na Renânia, já que eles procuraram financiar sua expedição tomando o dinheiro dos judeus e atacando um grupo que era visto como inimigos de Cristo em suas próprias terras. Estes contingentes, conhecidos como “Cruzada do Povo”, causou problemas reais fora de Constantinopla, antes que Alexios os enviasse para o Bósforo e Ásia Menor, onde os turcos seljúcidas os destruíram.

Liderados por uma série de nobres experientes, os exércitos principais foram reunidos em Constantinopla em 1096. Alexios não esperava que tal número de ocidentais batessem à sua porta, mas viu a oportunidade de recuperar as terras perdidas para os turcos. Dada a necessidade dos cruzados por alimentação e transporte, o imperador se empenhou nessa relação, significando, contudo, que ele era cauteloso ao lidar com os novos chegantes, particularmente após a confusão causada pela Cruzada do Povo e o fato de que os exércitos principais incluíam um grande número de contingente siciliano normando, um grupo que invadiu terras bizantinas em 1081. A maioria dos líderes cruzados jurou lealdade a Alexios, prometendo devolver-lhe terras previamente pertencentes aos bizantinos em troca de suprimentos, guias e presentes supérfluos.       
 
Em junho de 1097, os cruzados e gregos tomaram um dos principais objetivos do imperador, a formidável cidade fortaleza de Nicéia, cerca de 200 km de Constantinopla, apesar de que após a vitória alguns relatos falaram do descontentamento dos francos durante a divisão da pilhagem. Os cruzados moveram-se país adentro, dirigindo-se à planície da Anatólia. Um grande exército turco atacou as tropas de Bohemond de Taranto próximo da Dorileia. Os cruzados marchavam em contingentes separados e isto, mais a tática desconhecida de ataques rápidos com arqueiros a cavalo, quase provocou sua derrota até que a chegada de forças sob o comando de Raymond de Toulouse e Godofredo de Bouillon salvou o dia. Esta vitória duramente conseguida provou ser uma lição valiosa para os cristãos e, enquanto a expedição continuava, a coesão militar do exército cruzado cresceu continuamente, tornando-os uma força mais eficaz.

Nos meses seguintes, o exército, liderado pelo Conde Baldwin de Bolonha, atravessou a Ásia Menor com um certo contingente tomando as cidades cilicianas de Tarsus e Mamistra e outras, dirigindo-se via Capadócia para as terras cristãs orientais de Edessa (a bíblica Roais), onde a maioria populacional armênia saudou os cruzados. Conflito político local significou que Baldwin foi capaz de tomar o poder para si e assim, em 1098, o conhecido Estado Cruzado, a Província de Edessa, surgiu.

Nesta época, o grosso do exército alcançou a Antióquia, hoje no interior da fronteira meridional turca com a Síria. Esta grande cidade foi um assentamento romano; para os cristãos ela era significativa como o local onde os santos Pedro e Paulo viveram e foi um dos cinco assentos patriarcais da Igreja Cristã. Era também importante para os bizantinos, tendo sido uma metrópole em seu império tão recentemente quanto 1084. O sítio era muito grande para cercar apropriadamente, mas os cruzados fizeram seu melhor pressionando o lugar até a submissão. No inverno de 1097, as condições tornaram-se extremamente duras, apesar de uma frota genoese na primavera de 1098 tenha fornecido algum apoio útil. A paralisação foi somente encerrada quando Bohemond persuadiu um cristão local a trair uma das torres e em 3 de junho de 1098 os cruzados invadiram a cidade e a capturaram. Sua vitória não foi completa, contudo, porque a fortaleza, elevando-se sobre o sítio, permaneceu em mãos muçulmanas, um problema agravado pela notícia que um grande exército muçulmano de alívio estava se aproximando de Mosul. A falta de comida e a perda da maioria de seus cavalos (essenciais para os cavaleiros, é claro) significou que o moral atingiu o fundo do poço. O Conde Estevão de Blois, uma das figuras mais experientes na Cruzada, junto com um punhado de homens, desertaram, acreditando que a expedição estava condenada. Eles se encontraram com o imperador Alexios, que estava trazendo reforços longamente aguardados, e disse-lhe que a cruzada era uma causa perdida. Assim, de boa fé, o governante grgo retirou-se. Em Antióquia, enquanto isso, os cruzados foram inspirados pela “descoberta” de uma relíquia da Lança Sagrada, a lança que atingiu o lado de Cristo quando Ele estava na cruz. Uma visão disse a um clérigo em Raymond do exército de Saint Gilles onde escavar e, certamente o objeto foi encontrado. Alguns lembraram isto como uma conveniência e muito fácil de estimular uma reação do contingente provençal, mas para as massas ele agiu como uma inspiração vital. Duas semanas depois, em 28 de junho de 1098, os cruzados reuniram suas últimas centenas de cavalos junto, lançou-os em suas agora familiares linhas de batalha e avançaram contra as forças muçulmanas. Com escritores relatando a ajuda de santos guerreiros no céu, os cruzados triunfaram e a fortaleza rendeu-se, deixando-os em controle completo de Antióquia antes que o exército muçulmano de alívio chegasse.    

Como resultado da vitória, muitos dos cristãos exaustos sucumbiram a doenças, incluindo Ademar de Le Puy, o delegado papal e líder espiritual da campanha. Os cruzados de alta patente estavam amargamente divididos. Boehemond queria ficar e consolidar seu poder em Antióquia, argumentando que, desde que Alexios não havia cumprido seu lado da barganha, então seu juramento aos gregos estava encerrado e a conquista permanecia sua. A maioria dos cruzados ignoravam esses detalhes políticos porque eles queriam alcançar a tumba de Cristo em Jerusalém e convenceram o exército a se direcionar para o sul. No trajeto, eles evitaram confrontos com outras grandes cidades fazendo acordos e alcançaram Jerusalém em 1099.

Forças concentraram-se ao norte e sul da cidade fortificada e em 15 de julho de 1099 as tropas de Godofredo de Bouillon conseguiu trazer suas torres de cerco próximas o suficiente das paredes para atravessá-las. Seus companheiros cristãos invadiram a cidade e nos próximos dias o lugar foi colocado sob a espada em uma onda de limpeza religiosa e liberação de tensão após anos de marcha. Um massacre terrível viu muitos dos defensores muçulmanos e judeus da cidade serem massacrados, apesar de a frase frequentemente repetida de “vadear até seus joelhos em sangue” ser um exagero, sendo uma linha do Livro da Revelação apocalíptico (14:20) usado para causar uma impressão da cena ao invés de ser uma descrição real – uma impossibilidade física. Os cruzados fizeram agradecimentos emocionados para o seu sucesso quando eles alcançaram seu objetivo, a tumba de Cristo no Santo Sepulcro.

Sua vitória ainda não estava assegurada. O vizir do Egito via o avanço dos cruzados com uma mistura de emoções. Como guardião do Califado xiita no Cairo, ele tinha um profundo desgosto dos mulçumanos sunitas da Síria, mas igualmente ele não queria uma nova potência estabelecendo-se na região. Suas forças enfrentaram os cruzados próximo de Ascalão em agosto de 1099 e, apesar de sua inferioridade numérica, os cristãos triunfaram e também asseguraram uma considerável quantidade de saque. Nesta época, tendo atingido seus objetivos, a vasta maioria dos cruzados exaustos estavam ansiosos em retornar aos seus lares e famílias. Alguns, é claro, escolheram permanecer no Levante, resolvidos a proteger o patrimônio de Cristo e estabelecer domínios e títulos para si. Fulcher de Chartres, um contemporâneo no Levante, lamentou que somente 300 cavaleiros permaneceram no reino de Jerusalém; um número muito pequeno para estabelecer um domínio permanente na região.

Na próxima década, entretanto, ajudado pela falta de oposição real dos muçulmanos locais e alimentado pela chegada de uma série de frotas do Ocidente, os cristãos começaram a tomar controle de toda linha costeira e criar uma série de Estados viáveis. O apoio dos centros comerciais italianos de Veneza, Piza e, particularmente neste estágio inicial, Genova, foi crucial. Os motivos dos italianos têm sido frequentemente questionados, porém há evidência convincente que mostra que eles estavam tão ansiosos quanto outros contemporâneos para capturar Jerusalém, ainda que como centros comerciais eles estavam determinados a avançar a causa de suas cidades também. Os escritos de Caffaro de Genova, uma fonte secular rara deste período, mostram pouca dificuldade em assimilar estes motivos. Ele continuou com a peregrinação para o Rio Jordão, compareceu a celebrações da Páscoa no Santo Sepulcro e celebrou a aquisição de riquezas. Marinheiros e soldados italianos ajudaram a capturar os portos costeiros vitais (tais como Acre, Cesaréia e Jaffa), em troca da qual eles receberam privilégios comerciais generosos que, por sua vez, deu um impulso importante na economia já que os italianos transportavam mercadorias do interior mulçumano (especialmente especiarias) de volta para o Ocidente. Tão importante quanto isto era seu papel no transporte de peregrinos para e da Terra Santa. Agora que os locais sagrados estavam em mãos cristãs, muitos milhares de ocidentais podiam visitar os sítios e, à medida que eles caíam sob controle latino, comunidades religiosas floresciam. Assim, a ideia básica por trás das Cruzadas foi atingida. Existe uma argumentação forte de que os estados cruzados não poderiam ter sido mantidos se não fosse a contribuição dos italianos.

Um dos efeitos colaterais da Primeira Cruzada (e um assunto de extremo interesse acadêmico hoje) é a explosão sem precedentes de escritos históricos que surgiram após a captura de Jerusalém. Este episódio incrível inspirou autores por todo o Ocidente cristão a escrever sobre estes eventos em um modo que nunca foi visto na história medieval. Não era mais preciso olhar para os heróis da antiguidade, já que sua própria geração havia fornecido homens de feitos comparáveis. Esta era uma época de literatura crescente e a criação e circulação de textos cruzados era uma parte grande deste movimento. Histórias numerosas, mais contos oralmente distribuídos, frequentemente na forma de menestréis, populares nas primeiras épocas da era cavalheiresca, celebravam a Primeira Cruzada. Os historiadores olharam previamente estas narrativas para construir a estrutura dos eventos, mas hoje muitos estudiosos estão se aprofundando nestes textos para considerar mais profundamente as razões pelas quais eles foram escritos, os diferentes estilos de escrita, o uso de motivos clássicos e bíblicos, os inter-relacionamentos e as cópias entre os textos.

Outra área recebendo atenção crescente é a reação do mundo islâmico. Hoje está claro que quando a Primeira Cruzada chegou os muçulmanos do Oriente Próximo estavam extremamente divididos, não apenas na questão Sunita/Xiita, mas também, no caso deste último, entre eles próprios. Foi uma coincidência feliz que durante meados dos anos 1090 a morte dos líderes mais antigos no mundo seljúcida tenha significado que os cruzados encontraram oponentes que estavam primeiramente preocupados com sua própria luta política interna ao invés de ver uma ameaça externa. Dado que a Primeira Cruzada era, claramente, um evento novelesco, isto era compreensível. A falta do espírito jihad também era evidente, como lamentou Sulami, um clérigo damasceno cujo alerta das classes governantes para se unirem e cumprirem sua missão religiosa foi largamente ignorado até o tempo de Nur-ad-Din (1146 – 47) e Saladino a seguir.

Os colonos francos tiveram que se adaptar à mistura complexa cultural e religiosa do Oriente Próximo. Seu número era tão baixo que uma vez eles tivessem capturado um lugar, eles rapidamente precisavam adaptar seu comportamento da retórica belicista da guerra santa do Papa Urbano II para uma forma mais pragmática de relativa tolerância religiosa, com armistício e mesmo alianças ocasionais com vários vizinhos muçulmanos. Tivessem eles oprimido a maioria da população local (e muitos muçulmanos e cristãos orientais viveram sob o domínio franco), não teria havido mão de obra para as fazendas locais ou para cobrar impostos e sua economia teria colapsado. Trabalho arqueológico recente pelo estudioso israelense Ronnie Ellenblum mostrou que os francos não viveram, como antes se suspeitava, somente nas cidades, separados da população local. Comunidades locais cristãs frequentemente viviam lado a lado com ela, algumas vezes compartilhando igrejas.  

Os estados francos de Edessa, Antióquia, Trípoli e Jerusalém estabeleceram-se no caldeirão cultural, religioso e político do Oriente Próximo. Um dos primeiros governantes de Jerusalém casou-se com uma nobre cristã armênia e, assim, a Rainha Melisende (1131 – 52) tinha um grande interesse em apoiar os habitantes locais assim como a Igreja Latina. A peculiaridade genética, aliada à alta taxa de mortalidade entre os governantes masculinos, significou que as mulheres exerciam maior poder do que antes se supunha dado o ambiente bélico do Oriente Latino e das atitudes religiosas prevalecentes em relação às mulheres como emocionalmente fracas.

Os francos sempre sofreram escassez de recursos humanos, mas eram um grupo dinâmico que desenvolveu instituições inovadoras, tais como as Ordens Militares, para sobreviver. As ordens foram fundadas para ajudar no cuidado dos peregrinos; no caso dos Hospitalários, através de cuidados médicos; no caso dos Templários, acompanhar os visitantes na estrada para o Rio Jordão. Logo, ambas eram instituições religiosas de pleno direito, cujos membros faziam juramentos monásticos de pobreza, castidade e obediência. Provou ser um conceito popular e doações de peregrinos admiradores e em gratidão significaram que as ordens Militares desenvolveram um papel central como proprietários rurais, como administradores de castelos e como o primeiro exército real na Cristandade. Eles eram independentes do controle dos governantes locais e podiam, às vezes, causar problemas para o rei ou brigar entre si. Os templários e os hospitalários também mantinham grandes extensões de terra através da Europa Ocidental, que forneceu recursos para a máquina de guerra no Levante, especialmente a construção dos castelos que se tornaram tão vitais para o domínio cristão na região.

Em dezembro de 1144, Zengi, o governante muçulmano de Alepo e Mosul, capturou Edessa marcando o primeiro revés territorial para os francos do Oriente Próximo. A notícia deste desastre obrigou o Papa Eugênio III a emitir um apelo para a Segunda Cruzada (1145 – 49). Fortalecido por este chamado poderoso para viver de acordo com os feitos de seus primeiros antepassados cruzados, além da retórica inspirada de (Santo) Bernardo de Clairvaux, os governantes da França e Alemanha assumiram o fardo para marcar o início do envolvimento real nas Cruzadas. Os governantes cristãos na Ibéria juntaram-se com os genoeses no ataque das cidades de Almeria na Espanha meridional (1147) e Tortosa no nordeste (1148); analogamente, os nobres da Alemanha setentrional e os governantes da Dinamarca lançaram um expedição contra os pagãos Wends da costa báltica próximo de Stettin. Enquanto isto não fazia parte do grande plano do Papa Eugênio, mas, ao invés disso, uma reação aos apelos que lhe foram enviados, mostra a confiança nas cruzadas na época. Neste caso, este otimismo provou ser profundamente falso. Um grupo de cruzados anglo-normandos, flamengos e renanos capturaram Lisboa em 1147 e as outras campanhas ibéricas também foram bem sucedidas, mas a campanha báltica não atingiu virtualmente nada e a expedição mais prestigiada de todas, aquela para a Terra Santa, foi um desastre. Os dois exércitos não tinham disciplina, suprimentos e financiamento, e ambos foram severamente maltratados pelos turcos seljúcidas quando atravessaram a Ásia Menor. Então, em conjunção com os colonos cristãos, os cruzados cercaram a cidade muçulmana mais importante na Síria, Damasco. Mesmo assim, após somente quatro dias, receosos das forças de alívio lideradas pelo filho de Zengi, Nur ad-Din, executaram uma retirada ignominiosa. Os cruzados culparam os francos do Oriente Próximo por esta falha, acusando-os de aceitar um suborno para retirarem-se. Qualquer que seja a verdade nisto, a derrota em Damasco certamente prejudicou o entusiasmo cruzado no Ocidente e cerca de três décadas mais tarde, apesar de apelos crescentemente elaborados e frenéticos por ajuda, não houve nenhuma cruzada de grande porte na Terra Santa.

Lembrar dos francos como inteiramente debilitados seria, contudo, um erro sério. Eles capturaram Ascalão em 1153 para completar seu controle da costa levantina, um avanço importante para a segurança do comércio e tráfego de peregrinos em termos de reduzir o assédio pelo transporte muçulmano. No ano seguinte, entretanto, Nur ad-Din tomou o controle em Damasco para marcar a primeira vez que as cidades haviam se unido a Alepo sob o domínio do mesmo homem durante o período cruzado, algo que aumentou grandemente a ameaça aos francos. A piedade pessoal considerável de Nur ad-Din, seu encorajamento das madrajas (instituições de ensino) e a composição de poesia jihad e textos exaltando as virtudes de Jerusalém criaram uma ligação entre as classes religiosa e política que faltavam visivelmente desde a chegada dos cruzados no Oriente. Durante os anos 1160, Nur ad-Din, atuando como o campeão da ortodoxia sunita, tomou controle do Egito xiita, aumentando dramaticamente a pressão estrategicamente sobre os francos e, simultaneamente, aumentando os recursos financeiros à sua disposição através da fertilidade do Delta do Nilo e do porto vital de Alexandria.

Este período da história do Oriente Latino é relatado em detalhes pelo mais importante historiador da época, William, Arcebispo de Tiro. Ele era um homem imensamente culto, que logo envolveu-se nas lutas políticas do final dos anos 1170 e 1180, durante o reinado da figura trágica do Rei Baldwin IV (1174 – 85), uma juventude afetada pela lepra. A necessidade de estabelecer seu sucessor forneceu uma oportunidade para facções rivais emergirem e provocar uma briga interna entre os francos. Isto não quer dizer que eles fossem incapazes de infligir perigo para o sucessor de Nur ad-Din, Saladino, que, de sua base no Egito, esperava usurpar a dinastia de seu antigo mestre, unir os muçulmanos do Oriente Próximo e expulsar os francos de Jerusalém. Em 1177, contudo, os francos triunfaram na Batalha de Montgisard, uma vitória que foi extensamente relatada na Europa Ocidental e fez pouco para convencer o povo dos assentamentos para uma necessidade real por ajuda. A construção em 1178 e 1179 do grande castelo da Vau de Jacob, somente a um dia de galope de Damasco, foi outro gesto de agressão que obrigou Saladino a destruir o lugar. Neste caso, em 1187 o sultão reuniu uma grande, porém frágil, coalizão de guerreiros do Egito, Síria e Iraque que foi suficiente para levar os francos para o campo de batalha e infligir lhes uma derrota terrível em Hattin em 4 de julho. Em questão de meses, Jerusalém caiu e Saladino recuperou a terceira cidade muçulmana mais importante, após Meca e Medina, um feito que ainda hoje tem efeitos.

Notícias da queda calamitosa de Jerusalém provocou tristeza e ultraje no Ocidente. O Papa Urbano III supostamente morreu de um ataque cardíaco ao saber das notícias e seu sucessor, Gregório VIII, emitiu um apelo emocionado de cruzada e os governantes da Europa começaram a organizar suas forças. O exército alemão de Frederico Barbarossa derrotou com sucesso os turcos seljúcidas na Ásia Menor apenas para o imperador se afogar em um rio no sul da Turquia. Logo depois, muitos dos alemães morreram de doenças e Saladino escapou enfrentando esse inimigo formidável. Os francos no Levante conseguiram agarrar-se à cidade de Tiro e então cercaram o porto mais importante na costa, Acre. Isto forneceu um alvo para as forças ocidentais e foi lá, no verão de 1190, que Filipe Augusto e Ricardo Coração-de-Leão desembarcaram. O cerco durou quase dois anos e a chegada dos dois reis ocidentais e suas tropas deu aos cristãos o impulso que eles precisavam. A cidade se rendeu e o prestígio de Saladino foi duramente afetado. Filipe logo voltou para casa e, enquanto Ricardo fez duas tentativas de marchar para Jerusalém, temores quanto às perspectivas de longo prazo após ele ter ido embora significaram que a cidade santa permaneceria em mãos islâmicas. Assim, a Terceira Cruzada falhou em seu objetivo principal, apesar de ter permitido aos francos recuperar uma faixa de terras ao longo da costa para fornecer uma cabeça de ponte para expedições futuras. De sua parte, Saladino sofreu uma série de derrotas militares, mas, crucialmente, manteve o controle de Jerusalém com o Islã.

O pontificado de Inocente III (1198 – 1216) presenciou outra fase na expansão das cruzadas. Campanhas no Báltico avançaram bem e a guerra santa na Ibéria seguiu a passos rápidos também. Em 1195, os mulçumanos esmagaram as forças cristãs na Batalha de Alarcos, que, logo após o desastre em Hattin, pareceu mostrar o desgosto profundo de Deus com Seu povo. Em 1212, entretanto, os governantes da Ibéria uniram-se para derrotar os islâmicos na Batalha de Las Navas de Tolosa para marcar a recuperação da península. No sul da França, enquanto isso, esforços para combater a heresia cátara[2], mas no final suas raízes na sociedade local significavam que eles podiam durar e foi somente através de técnicas mais persuasivas da Inquisição, iniciada nos anos 1240, que a Igreja teve sucesso onde a força falhou.

O episódio mais infame desta época foi a Quarta Cruzada (1202 – 04) que viu outro esforço para recuperar Jerusalém terminar no saque de Constantinopla, a maior cidade cristã do mundo. As razões para isto foram uma combinação de tensões de longa data entre a Igreja Latina (católica) e a Ortodoxia Grega; a necessidade para os cruzados em cumprir os termos de um contrato extremamente otimista para transporte ao Levante com os venezianos e a oferta de pagar este serviço por um pretendente ao trono bizantino. Esta combinação de circunstâncias levou os cruzados às paredes de Constantinopla e quando seu candidato jovem foi assassinado e os locais se voltaram definitivamente contra eles, eles atacaram e pilharam a cidade. No início, Inocente ficou feliz por Constantinopla estar sob domínio latino, mas quando soube da violência e pilhagem que acompanhou a conquista, ele ficou horrorizado e castigou os cruzados pela “perversão de seus peregrinos”.

Uma consequência de 1204 foi a criação de uma série de Estados Francos na Grécia que, com o tempo, também necessitaram apoio. Assim, no curso do século XIII, as cruzadas foram criadas contra esses cristãos, apesar de em 1261 Constantinopla ter voltado a mãos gregas.

Apesar destes desastres, é interessante ver que as cruzadas permaneceram um conceito atraente, algo feito pela quase lendária Cruzada das Crianças de 1212. Inspirada por visões divinas, dois grupos de camponeses jovens (melhor descritos como adolescentes, ao invés de crianças) reuniram-se em torno de Colônia e próximo a Chartres na crença de que sua pureza garantiria aprovação divina e os permitiria recuperar a Terra Santa. O grupo alemão atravessou os Alpes e alguns alcançaram o porto de Gênova, onde a realidade dura de não ter dinheiro ou esperança real de alcançar algo significou a recusa de passagem para o Oriente e o empreendimento inteiro colapsou.

Assim, o início do século XIII ficou caracterizado pela diversidade das cruzadas. A guerra santa estava se tornando um conceito flexível e adaptável que permitiu à Igreja direcionar a força contra seus inimigos em diversas frentes. A lógica da cruzada, como um ato defensivo para proteger cristãos, poderia ser refinado para se aplicar especificamente à Igreja católica e, assim, quando o papado entrou em conflito com o imperador Frederico II por causa do controle da Itália meridional, eventualmente foi convocada uma cruzada contra ele. Frederico já havia sido excomungado por falhar em cumprir suas promessas em tomar parte na Quinta Cruzada. Esta expedição atingiu a intenção original da Quarta Cruzada de invadir o Egito, mas ficou atolada fora do porto de Damietta antes que uma tentativa pobre de marchar sobre Cairo tenha colapsado. As tentativas de Frederico de torna-la boa foram frustradas por doença, mas nesta época o papado já havia perdido a paciência com ele. Recuperado, Frederico foi à Terra Santa já que, nesta época, o rei de Jerusalém (por casamento com a herdeira do trono) era – por mais irônico que seja – um excomungado negociou a restauração pacífica de Jerusalém para os cristãos. Suas habilidades diplomáticas (ele falava árabe), o perigo resultante de seus recursos consideráveis, assim como as divisões no mundo islâmico nas décadas que se seguiram à morte de Saladino, permitiram lhe conseguir isso. Um período breve de relações melhores entre o Papa e o imperador se seguiu, porém em 1245 a cúria o descreveu  como um herege e autorizou a convocação de uma cruzada contra ele.
             
Além do excesso de expedições cruzadas que aconteceram ao longo dos séculos, temos que lembrar também que o lançamento de tais campanhas teve um profundo impacto nas terras e povos de onde eles vieram. As cruzadas exigiam níveis substanciais de suporte financeiro e isto, com o tempo, presenciou a emergência de impostos nacionais para apoiar tais esforços, assim como esforços para levantar dinheiro dentro da própria Igreja. A ausência de um grande número de nobres experientes e clérigos poderia afetar o balanço político de uma área, com oportunidades para mulheres para agir como regentes ou para vizinhos inescrupulosos para desafiar a legislação eclesiástica e tentar tomar as terras de cruzados ausentes. A morte ou desaparecimento de um cruzado, sendo uma figura menor ou um imperador, obviamente levava tragédia pessoal para aqueles que eles deixaram para trás, mas pôde também precipitar instabilidade e mudança.

No ano anterior, Jerusalém caíra de volta em mãos muçulmanas e isto foi o principal motivo para o que tornou-se a grande expedição cruzada do século (conhecida como Sétima Cruzada) liderada pelo Rei (depois Santo) Luís IX da França. Bem financiado e preparado cuidadosamente e com uma vitória anterior em Damietta, esta campanha poderia ter sido definida como justa não fosse a acusação imprudente contra o irmão de Luís na Batalha de Mansoura (Egito) de enfraquecer as forças cruzadas. Isto, associado com o endurecimento da resistência islâmica, levou a expedição a uma interrupção e, famintos e doentes, eles foram obrigados a se render. Luís permaneceu na Terra Santa por mais quatro anos – um sinal de sua culpa na falha da campanha, mas também um comprometimento formidável para um monarca europeu estar ausente de sua casa por um total de seis anos – tentando fortalecer as defesas do reino latino. Nesta época, com os latinos largamente confinados a uma faixa costeira, os colonos confiavam em fortalezas crescentemente mais fortificadas e foi durante o século XIII que castelos poderosos como o Krak des Chevalier, Safet e Chastel Pelerin, assim como as imensas fortificações urbanas de Acre, tomaram forma.

Por volta desta época, a complexidade política do Oriente Médio estava mudando. Os invasores mongóis acrescentaram outra dimensão à luta enquanto eles conquistavam muito do mundo islâmico no leste; eles também ameaçaram brevemente a Europa Oriental com incursões selvagens em 1240-41 (fato que também provocou um apelo à cruzada). Os sucessores de Saladino foram substituídos pelos mamelucos, os antigos soldados-escravos, cujo líder, o sultão Baibars, era um expoente fanático da guerra santa e fez muito para trazer os estados cruzados a seus joelhos nas duas décadas seguintes. Lutas internas entre a nobreza franca, complicadas ainda mais pelo envolvimento das cidades comerciais italianas e as ordens Militares serviram para enfraquecer mais os Estados Latinos e finalmente, em 1291, o Sultão al-Ashraf invadiu a cidade de Acre e encerrou o domínio cristão na Terra Santa.

As Cruzadas sobreviveram na memória e imaginação dos povos da Europa Ocidental e do oriente Médio. No primeiro, elas ganharam popularidade através da literatura romântica de escritores como Sir Walter Scott e, quando as terras do Oriente Médio caíram nas mãos dos impérios do século XIX, os franceses, em particular, escolheram estabelecer vínculos com seu passado cruzado. A palavra tornou-se sinônimo de uma causa com direito moral, seja em contexto não-militar, como a cruzada contra o alcoolismo, ou nos horrores da Primeira Guerra Mundial. A ligação do general Franco com a Igreja Católica na Espanha invocou a ideologia cruzada em talvez a encarnação moderna mais próxima da ideia e ela permanece uma palavra em uso comum hoje em dia.

No mundo muçulmano, a memória dos Cruzados enfraqueceu, apesar de não ter desaparecido, da visão e Saladino continuou sendo uma figura ainda vista como exemplo de grande governante. No contexto do século XIX, a invocação dos europeus do passado sobre esta memória e a imagem de ocidentais hostis e agressivos buscando conquistar as terras islâmicas ou árabes tornou-se extremamente potente para líderes nacionalistas islâmicos, e Saladino, o homem que recapturou Jerusalém, permanece como um homem idolatrado.


Notas:

[1] A Questão das investiduras, Controvérsia das Investiduras, ou mesmo Guerra das Investiduras foi o conflito mais significativo entre Igreja e Estado na Europa medieval. Nos séculos XI e XII, uma série de papas lutaram contra a intromissão das monarquias europeias nas investiduras (nomeações) de bispos, abades e dos próprios papas, tentando restaurar a disciplina eclesiástica. A polêmica foi finalmente resolvida pela Concordata de Worms em 1122.

[2] O catarismo foi um movimento cristão de ascetismo extremo na Europa Ocidental entre os anos de 1100 e 1200, estreitamente ligado aos bogomilos da Trácia. O movimento foi tão forte no sul da Europa e na Europa Ocidental que a igreja Católica Romana passou a considerá-lo uma séria ameaça à religião ortodoxa. O catarismo teve suas raízes no movimento pauliciano na Armênia e no Bogomilismo na Bulgária que teve influências dos seguidores de Paulo. A ideia de dois deuses ou princípios, sendo um bom outro mau, foi fundamental para as crenças dos cátaros. O Deus bom era o Deus do Novo Testamento e criador do reino espiritual, em oposição ao Deus mau que muitos cátaros identificavam como Satanás, o criador do mundo físico do Antigo Testamento. Toda a matéria visível foi criado por Satanás, e portanto foi contaminada com o pecado, isto incluía o corpo humano. Esse conceito é oposto à Igreja Católica monoteísta, cujo princípio fundamental é que há somente um Deus que criou todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também pensavam que as almas humanas eram almas sem sexo de anjos aprisionadas dentro da criação física de Satanás amaldiçoado a ser reencarnado até os fiéis cátaros alcançarem a salvação por meio de um ritual chamado Consolamentum.