sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Otto o Grande é coroado Imperador dos Romanos

Richard Cavendish

History Today, Vol. 62, No. 2, fevereiro de 2012



Nostalgia pelo desaparecido Império Romano no Ocidente durou séculos após Rômulo Augusto, o último imperador, ter sido deposto em 476. Isso eventualmente criou uma das instituições mais peculiares da história. O Sacro Império Romano, como Voltaire ironicamente lembrou, não era nem santo, nem romano e nem um império. Curiosamente, na visão de desenvolvimentos futuros, o papado assumiu a liderança na tentativa de criar uma autoridade secular superior na Europa quando o Papa Leo III coroou Carlos Magno, Rei dos Francos, Imperator Romanorum (Imperador dos Romanos) em Roma em 800.

Após a morte de Carlos Magno em 814, seu império dividiu-se e o último dos chamados imperadores carolíngeos ficou confinado ao norte e centro da Itália. O último deles, Berengar de Friuli, foi assassinado em 924. O título tornou-se mais do que uma realidade após ser transmitido para os reis dos Francos Orientais no que tornou-se mais tarde a Alemanha. O Duque Henrique o Passarinheiro da Saxônia foi eleito rei por outros duques alemães em 919 e deteve os magiares, eslavos e dinamarqueses. Ele nunca exigiu o título imperial, mas seu filho formidável, Otto I, que o sucedeu em 936, era mais do que ambicioso. Ele corou a si mesmo rei em Aachen, que era a capital de Carlos Magno. Parece que ele já tinha ambições imperiais e, de acordo com um documento, os outros duques alemães o serviram em seu banquete de coroação como seus vassalos.

Otto estava agora no meio dos seus vinte anos. Um guerreiro feroz e político sagaz, ele esmagou toda a oposição, incluindo duas rebeliões de seu irmão Henrique, que planejava mata-lo. Otto sagazmente o perdoou e, quando Henrique comportou-se de maneira leal, o colocou como Duque da Baviera. Ele também maquinou para colocar os outros ducados alemães nas mãos de seus próprios parentes. Ele interviu eficazmente na política francesa, subjugou os boêmios e promoveu assentamento alemão de território eslavo do Elba e do Oder. Ele esmagou os magiares da Hungria e pôs fim às suas incursões de pilhagem, segurou os dinamarqueses no norte, tornou os bispos alemães liados leais (os quais foram tornados lordes feudais assim como eclesiásticos) e criou algo parecido com um Estado germânico.

Em 951, neste ínterim, Otto invadiu a Itália, onde um lorde italiano, Berengar de Ivrea, havia tomado o trono e sequestrado Adelaide, a viúva do rei anterior. Ele tentou obriga-la a casar com seu filho, mas ela escapou e implorou por ajuda alemã. Otto atravessou os Alpes, tomou o título de Rei dos Lombardos e casou com Adelaide. Ele permitiu a Berengar continuar governando a Itália, mas como seu vassalo.

Em 961, o Papa João XII (melhor conhecido por seu deboche) precisou desesperadamente de ajuda contra Berengar, que tomou parte dos Estados Papai. Ele apelou a Otto, que prontamente veio ao seu resgate e, em troca, foi coroado Imperador dos Romanos pelo Papa. Ele então derrotou e aprisionou Berengar, mas o Papa logo ficou desconfortável pelo domínio de Otto e começou a tramar contra ele. Otto retornou a Roma em 963 e conseguiu que o Papa João fosse deposto por um sínodo obediente de bispos que ele reuniu para o caso. Ele então o substituiu por um romano de sua escolha como Papa Leo VIII.

Otto interveio em Roma novamente no ano seguinte quando uma rebelião surgiu contra o Papa Leo e um Papa alternativo foi escolhido. O imperador colocou um fim naquele estado de coisas e quando Leo morreu em 965, ele voltou a Roma novamente para indicar outro candidato de sua escolha no trono papal como Papa João XIII. Quando houve uma revolta contra ele por isso, Otto a suprimiu. Ele tinha tomado controle do papado de um modo que o Papa João XII não tinha certamente desejado.

Otto continuou a interferir no território do Império Romano do Oriente na Itália meridional de tal forma que em 972 os Bizantinos concluíram um tratado com ele no qual eles formalmente reconheciam seu próprio título imperial. Eles também outorgaram uma princesa bizantina, Theofano, a ele como noiva para seu filho e seu herdeiro, outro Otto.

A palavra “Sacro” não foi usada por outros dois séculos, mas Otto o Grande foi reconhecido pelos historiadores, com efeito, como o primeiro dos Imperadores Romanos Sacros e o mais poderoso governante europeu de sua época. Ele morreu em 973 e foi sucedido por seu único filho Otto II. O fato de que Otto II não teve irmãos sobreviventes como rivais foi uma vantagem considerável e a linha ottoniana de imperadores continuou até 1024. O Imperio Romano Ocidental renascido tornou-se Sacro no século XII e, a partir dos anos 1500, tornou-se o Sacro Império Romano da Nação Alemã. O nome permaneceu até 1806, mil anos após Carlos Magno.



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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Moderno e o Medieval

Kate Wiles




A palavra “medieval” é frequentemente tratada como sinônimo de depravação, ilegalidade e brutalidade. Em particular, as ações recentes do Estado Islâmico (EI) e seu tratamento de prisioneiros têm sido chamadas de “medievais” por jornalistas, comentaristas e blogueiros. Mas por que nós fazemos isso e é justo?

O uso de medieval desta forma tem sido extensamente discutido, e não é diferente de orientalismo. Isto é, a criação de um “outro” para contrastar a identidade de alguém (o moderno versus o medieval, ou “Ocidente” versus “Oriente”) e, por meio do contraste, celebrar nosso progresso observado ou diferença de um modo que é frequentemente também exótico. Como Clare Monagle e Louise D´Arcens disseram, “Quando comentaristas e políticos descrevem o Estado Islâmico como “medieval”, eles estão colocando a organização oportunamente fora da modernidade, na esfera da irracionalidade.” É um ato de distanciamento, uma separação do “nós” do “eles”, que os remove de nossa atual definição de humanidade e sociedade, e nos exime de qualquer tipo de associação com suas ações.

A segregação de um grupo ou um período não é, de forma alguma, um fenômeno recente; bárbaro, independentemente de sua origem ser ou não uma piada às custas de oradores de língua estrangeira (bar-bar-bar), tem sido usado detrativamente em sânscrito, grego, latim e inglês para distanciar uma comunidade de seus vizinhos e, para os anglo-saxões, wealh significa tanto um estrangeiro (agora “galês”) quanto “escravo”. Reciprocamente, como Roberta Frank disse:

Homens letrados medievais, como suas contrapartes modernas, podiam algumas vezes ser mais ansiosos para recuperar os ritos coloridos e crenças populares frondosas de seus ancestrais pagãos.

Este fenômeno está encapsulado no rito místico de “sangrando como águia”[1], a morte ritualista de um inimigo partindo suas costelas e dispondo-as como se parecessem as asas de uma águia. Os reis ingleses Ælla[2] e Edmund supostamente foram vítimas, entre outros. O mito existe desde o século XII quando um reavivamento antiquário na Europa setentrional ocidental popularizou a lenda dos Vikings selvagens. Foi neste ponto que mito do guerreiro nórdico também se estabeleceu. Apesar de aparecer em várias fontes como o Gesta Danorum de Saxo[3] e as sagas de Ragnar Loobrok, o “sangrando como águia” é provavelmente uma má interpretação de uma metáfora poética. Apesar da falta de evidência para apoiá-lo, o mito persiste desde o século XII até hoje, em grande parte porque ele embeleza tão perfeitamente nossa percepção daquela época como violenta, ilegal e desnecessariamente brutal.

Enquanto o “sangrando como águia” pode ter sido um mito, a tortura certamente foi um fato do período medieval, apesar de sua legalidade e aplicação variar grandemente através da Europa. Por exemplo, o Crônica Anglo-Saxã descreve os barões rebeldes de Estevão no século XII torturando pessoas por dinheiro, mas a lei comum inglesa no período medieval tardio tornou ilegal maltratar um prisioneiro antes que ele fosse considerado culpado.

Até o século XIII, a tortura foi usada pelo Estado e pela Igreja na perseguição da justiça: provação por fogo ou por água sob a supervisão de um padre foi usada para determinar a culpa. A extração da prova por provação foi então substituída pelo julgamento por júri. Sob este sistema, a tortura foi tornada ilegal porque ela tornou-se desnecessária. A pena de morte poderia ser aplicada sem a necessidade de uma evidência confessional que a tortura poderia fornecer.

Enquanto era ilegal na Inglaterra, ela ainda era usada no continente como um meio de extrair prova. Algumas vezes, ela objetivava seguir o modelo clássico nos aspectos práticos assim como ideologia: Aristóteles acreditava que confissões conseguidas por tortura não eram confiáveis – compreensivelmente – e assim muito frequentemente o objetivo era interromper a tortura antes que as confissões fossem feitas, ou se aquilo não fosse possível, permitir à vítima recuperar-se antes de reconfessar. Devido à sua ilegalidade na Inglaterra, Eduardo II foi muito resistente às ordens papais para a investigação dos Cavaleiros Templários por heresia e no final eles foram torturados de acordo com a “lei eclesiástica” ao invés da lei inglesa. Uma vez considerados culpados, eles foram queimados vivos como hereges.

O fogo foi usado de várias formas, queimando os pés, ou aquecendo botas de ferro ou dispositivos tais como barras para serem seguradas. Outros métodos medievais de tortura incluíam posições desconfortáveis – um método aprovado em 2003 por Donald Rumsfeld – e esfolamento, que foi comumente associado a mártires como São Bartolomeu (o santo patrono dos produtores de pergaminho, encadernadores e outros profissionais que dependem da remoção da pele da carne). Exibições públicas de tortura e punição sendo exigidas também eram comuns, mas não eram apresentações terríveis destinadas a excitar e horrorizar: Sean McGlynn sugeriu que elas agiam como “garantia que a justiça estava sendo feita para proteger a sociedade”.

A tortura foi certamente difundida ao longo do mundo medieval. Seu uso era regulado pela Igreja e lei estatal como um meio de demonstrar culpa, de determinar a culpa e de forçar a punição, mas sua legalidade e aplicação mudavam dependendo de vários fatores incluindo país, data, Igreja, Estado, ideologia e contexto político. Não havia nenhum sistema unificado de tortura medieval: para alguns era abominável; para outros contra a Igreja e para outros ainda era uma ferramenta a ser usada pela Igreja. Ela tinha aplicações legais, eclesiásticas, morais e mercenárias.

Nem a tortura ficou restrita ao período medieval. Os gregos e romanos usaram a tortura, e o início do período moderno estava cheio de provações: torturas, caça às bruxas, afogamento. Mas é o período medieval o mais associado com isso porque ele se encaixa com nossa visão daquele tempo como cruel e ilegal.

Apesar da realidade da tortura medieval, comparações com o EI não são feitas para serem etimologicamente equivalentes. Ao invés disso, eles estão evocando o mito unidimensional do medievalismo: de guerreiros selvagens, bárbaros e sangrando como águia, um mito que nos torna civilizados e modernos, totalmente absolvidos de qualquer conexão com estas ações.

Nota:

[1] Blood-Eagling em inglês.

[2] Æ, æ é uma letra vogal que deriva de uma ligadura de a com e, mas que hoje é considerada uma letra por si só no dinamarquês, feroês, islandês e norueguês. Nas línguas em que é usado atualmente, o æ tem os seguintes sons:
·       Em dinamarquês, possui vários sons dependendo do contexto fonêmico. Entre os sons que pode possuir, estão [ɛ], [æ] (antes de r) e [ɑ] (depois de r)
·       Em faroês, possui o som [ɛa] quando longo e [a] quando curto.
·       Em islandês, possui o som [ai]
·       Em norueguês, possui o som de [æ]
·       Em javanês, possui o som de [ui]
·       Em latim existem várias pronúncias possíveis. Na pronúncia eclesiástica, æ é pronunciado como "é", por exemplo, se pronuncia Cæsar (César) como "Tchésar".
[3] Gesta Danorum é um livro do século XII sobre a história de autoria do historiador medieval Saxo Grammaticus (literalmente "Saxão, o Gramático"). Trata-se da obra literária mais ambiciosa do período medieval na Dinamarca, e é até hoje uma fonte essencial para a sua história. Também é um dos documentos escritos mais antigos sobre a história da Estônia e da Letônia.



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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Fim do Sacro Império Romano

Richard Cavendish

History Today, Vol. 56, Nº 7, julho de 2006



Pode não ter sido santo ou romano ou um império, como Voltaire lembrou, mas o que quer que fosse, sobreviveu por mais de mil anos desde a coroação de Carlos Magno no ano 800. Um aglomerado de reinos mais ou menos independentes, baseado em principados eclesiásticos e cidades livres, foi finalmente destruído por Napoleão Bonaparte e os franceses.

O processo começou quando os territórios alemães no lado oeste do Reno foram anexados pela França em 1801 sob o Tratado de Lunéville, que o imperador Habsburgo, Francis II, não teve escolha exceto aceitar as vitórias francesas em Marengo e Hohenlinden no ano anterior. O tratado estabeleceu para os governantes alemães que perderam território a oeste do Reno serem compensados em outro lugar no império às custas dos estados eclesiásticos.

A leste do rio, isto permitiu a Napoleão estabelecer uma reorganização, ostensivamente conduzida por um comitê de príncipes imperiais, que redesenharam o mapa da Alemanha, drasticamente reduzindo o número de mini-estados, secularizando ou destruíndo os eclesiásticos e abolindo a maioria das cidades livres. A intenção francesa era criar um arranjo de estados-satélites além do Reno, organizados de um modo mais racional e controlável, e o efeito foi cortar o número de estados imperiais de mais de 300 para menos de 100 e severamente diminuindo a autoridade dos Habsburgos.

Os estados alemães maiores não ficaram de modo algum descontentes em absorver seus vizinhos menores. Tanto a Áustria quanto a Prússia adquiriram territórios extras na reorganização de 1803, mas Napoleão garantiu que os maiores ganhos fossem para estados como Bavária, Württemberg e Baden, que não eram grandes o bastante para oferecer qualquer ameaça à França.

Em 1805, a Áustria se uniu a outra coalizão de potências européias contra a França e no final do ano Napoleão esmagou os exércitos austríaco e russo na Batalha de Austerlitz. Ele continuou a organizar a Confederação do Reno, que surgiu formalmente em julho seguinte sob sua proteção e em aliança militar com a França. Seu líder ostensivo era Karl Theodor, Freiherr von Dalberg, que era tanto arcebispo de Mainz e grão-duque de Frankfurt. Dezesseis estados alemães  uniram-se à Confederação, que ia desde o Elba até os Alpes. Era um estado vassalo francês e Napoleão anunciou que o Sacro Império Romano da Nação Alemã não existia mais. Os estados confederados proclamaram formalmente sua secessão do império em 1º de agosto e no dia 6 o imperador Francis saudou o inevitável, renunciou à coroa imperial, que seus antecessores usaram em uma sucessão praticamente contínua por quase quatro séculos desde Alberto II em 1438 e recusou ser imperador hereditário da Áustria.

O diplomata francês Talleyrand recomendou uma aliança franco-austríaca que poderia dominar a Europa, mas Napoleão não estava interessado. Mais tarde, em 1806, ele derrotou os prussianos em Jena e tomou Berlim, onde ele decretou um bloqueio ao comércio britânico. A Saxônia viu a luz e juntou-se à Confederação do Reno. O insaciável Bonaparte criou o novo reino da Westfália para seu irmão Jerome e persuadiu todos os estados alemães, exceto a Áustria e a Prússia a se unir à Confederação, onde eles encontraram um mestre mais implacável do que eles jamais conheceram. Napoleão sarcasticamente lembrou que a Alemanha era sempre "um tornar-se, não um ser", mas ao longo do tempo, ironicamente, a consequência de suas políticas resultou no estímulo do nacionalismo alemão e na emergência de uma Alemanha unida, que enfrentaria os franceses em duas guerras mundiais.