terça-feira, 15 de setembro de 2015

Como os Neocons desestabilizaram a Europa

Robert Perry


O caos dos refugiados que agora está pressionando a Europa – dramatizado pelas fotos do afogamento do garoto sírio Aylan Kurdi, cujo corpo foi encontrado em uma praia na Turquia – começou com as ambições cavalheirescas dos neocons americanos[1] e seus colegas liberais-intervencionistas que planejaram refazer o Oriente Médio e outras partes do mundo através da “mudança de regime”.

Ao invés das maravilhas prometidas de “promoção da democracia” e “direitos humanos”, o que estes “antirrealistas” conseguiram foi espalhar a morte, destruição e desestabilização através do Oriente Médio e partes da África e agora na Ucrânia e no coração da Europa. Mesmo assim, desde que essas forças neocon ainda controlam a Narrativa Oficial, suas explicações alcançam alto valor – já que não tem sido suficiente a “mudança de regime”.

Por exemplo, o editor neocon do Washington Post, Fred Hiatt, na segunda-feira culpou os “realistas” pela evolução das catástrofes. Hiatt castigou-os e ao presidente Barack Obama por não intervir mais agressivamente na Síria para depor o presidente Bashar AL-Assad, um alvo neocon de longa data para “mudança de regime”.

Mas a verdade é que esta aceleração da difusão do sofrimento humano pode ser identificada diretamente à influência cega dos neocons e de seus amigos turistas liberais que possuem resistência a comprometimento político e, no caso da Síria, bloquearam quaisquer esforços realistas para encontrar um acordo justo entre Assad e seus adversários políticos, aqueles que não são terroristas.

No início de 2014, os neocons e os gaviões liberais sabotaram as conversas de paz sírias em Genova ao bloquear a participação do Irã e transformando a conferência de paz em um jogo de um time só onde os líderes oposicionistas financiados pelos EUA agrediram verbalmente os representantes de Assad, que voltaram para casa. Durante todo o tempo, os editores do Post e seus amigos continuaram martelando na cabeça de Obama para iniciar um bombardeio às forças de Assad.

A loucura desta visão neocon cresceu mais claramente no verão de 2014, quando o Estado Islâmico, uma cria da Al-Qaeda que tem massacrado os simpatizantes do governo de Assad, expandiu sua campanha sanguinária ao interior do Iraque, onde seu movimento ultrabrutal surgiu originariamente como “Al-Qaeda no Iraque” em resposta à invasão americana de 2003.

Deveria estar claro por meados de 2014 que se os neocons tivessem sucesso e Obama conduzisse um ataque maciço para devastar as forças de Assad, a bandeira negra do terrorismo sunita poderia estar muito bem tremulando na capital síria Damasco enquanto as ruas estariam banhadas de sangue.

Mas agora, um ano depois, os parceiros de Hiatt ainda não absorveram a lição – e o caos difundido das estratégias neocons está desestabilizando a Europa. Tão chocante quanto perturbador quanto possa parecer, nada disso deveria ser surpresa, já que os neocons sempre levaram caos e desorganização em seu rastro.

Quando encontrei os neocons pela primeira vez nos anos 1980, eles estavam brincando com a América Central. O presidente Ronald Reagan credenciou muitos deles, levando ao governo americano iluminados neocons como Elliott Abrams e Robert Kagan. Mas Reagan em geral manteve-os longe dos reinos principais: o Oriente Médio e a Europa.

Estas áreas estratégicas foram para os “adultos”, pessoas como James Baker, George Schultz, Philip Habib e Brent Scowcroft. Os pobres latino americanos, enquanto tentavam livrar gerações de repressão e atraso imposto por oligarquias de extrema direita, enfrentaram os ideólogos neocons americanos que criaram esquadrões da morte e mesmo genocídio contra camponeses, estudantes e trabalhadores.
O resultado – sem surpreender – foi uma fuga de refugiados, especialmente de El Salvador e Guatemala, em direção dos Estados Unidos. O “sucesso” neocon nos anos 1980, esmagando movimentos sociais progressistas e reforçando controles oligárquicos, deixou a maioria dos países da América Central nas mãos de regimes corruptos e sindicatos do crime, periodicamente levando mais ondas do que Reagan chamou de “andarilhos” através do México em direção do sul da fronteira americana.

Bagunçando o Oriente Médio

Porém, os neocons não ficaram satisfeitos brincando como crianças. Mesmo durante a administração Reagan, eles tentaram se infiltrar entre os “adultos” e possuir coisa de gente grande. Por exemplo, neocons como Robert McFarlane e Paul Wolfowitz forçaram as políticas amigáveis de Israel em relação ao Irã, na época visto como um contrapeso ao Iraque. Esta estratégia conduziu eventualmente ao Caso Irã-Contras, o pior escândalo da administração Reagan[2].

Contudo, a mídia principal de direita dos EUA jamais gostou da história Irã-Contras e, assim, a exposição dos muitos níveis da criminalidade do escândalo foi evitada. Os democratas também preferiram o diálogo ao invés do confronto. Logo, a maior parte das figuras neocons sobreviveu ao escândalo, deixando seus postos firmemente no lugar para a próxima fase de sua ascensão ao poder.

Nos anos 1990, os neocons construíram uma infraestrutura bem organizada de pensamento e presença midiática, beneficiando-se tanto de doações de grandes indústrias militares quanto de operações de financiamento público como Legado Nacional para a Democracia (NED), liderada pelo neocon Carl Gershman.

Os neocons ganharam mais impulso político das forças armadas americanas durante a Guerra do Golfo de 1990-91. Muitos americanos começaram a ver a guerra como diversão, quase como um vídeo game no qual as forças “inimigas” são esmagadas sem piedade. Nos noticiários de TV, filósofos beligerantes destilavam seus discursos de ódio.

Combinado com o colapso da União Soviética em 1991, a noção de que a supremacia militar americana era incomparável e incontestável deu nascimento às teorias neocon sobre transformar “diplomacia” em nada menos que ultimato dos EUA. No Oriente Médio, esta era uma visão compartilhada por israelenses linha-dura, que se cansaram de negociar com árabes e palestinos.

Ao invés de conversar, haveria “mudança de regime” para qualquer governo que não entrasse na linha. Esta estratégia foi articulada em 1996, quando um grupo de neocons americanos, incluindo Richard Perle e Douglas Feith começaram a trabalhar na campanha de Benjamin Netanyahu em Israel e escreveram um artigo estratégico chamado “Um rompimento claro: Uma Nova Estratégia para garantir o Reino”.

O Iraque foi o primeiro alvo da lista neocon, mas em seguida vinham Síria e Irã. A ideia geral era a de que uma vez que os regimes que ajudavam os palestinos e o Hezbollah fossem removidos ou neutralizados, então Israel poderia ditar os termos da paz para os palestinos que não teriam outra opção a não ser aceitar o que estava sendo oferecido.

Em 1998, o Projeto neocon para O Novo Século Americano, criado pelos neocons Robert Kagan e William Kristol, clamava por uma invasão do Iraque, mas o presidente Bill Clinton recusou-se a tal extremismo. A situação mudou, contudo, quando o presidente George W. Bush assumiu a presidência e os ataques do 11/09 aterrorizaram e enfureceram o público americano.

De repente, os neocons tinham um comandante-em-chefe que concordava com a necessidade de eliminar Saddam Hussein – e os americanos foram facilmente persuadidos apesar de o Iraque e nem Hussein terem nada a ver com o 11/09.

A Morte do “Realismo”

A invasão de 2003 do Iraque pareceu o canto de morte para a política externa “realista” em Washington. Obsoletas ou mortas, as velhas vozes foram silenciadas ou ignoradas. Do Congresso e Poder Executivo aos intelectuais e mídia jornalística, quase todos os “formadores de opinião” eram neocons e muitos liberais caíram na conversa de Bush no caso da guerra.

E, mesmo que o “grupo criador” da Guerra do Iraque estivesse quase todo errado, tanto em relação às armas de destruição em massa quanto à ingenuidade em reformatar o Iraque, quase ninguém que promoveu o fiasco sofreu qualquer punição tanto pela ilegalidade da invasão quanto pela ausência de bom senso em promover tal esquema desatinado.

Ao invés das repercussões negativas, os planejadores da Guerra do Iraque – os neocons e seus parceiros gaviões liberais – essencialmente fortaleceram seu controle sobre a política externa americana e sobre os principais meios jornalísticos. Do New York Times e Washington Post até a Instituição Brooking e o Instituto da Empresa Americana, a agenda da “mudança de regime” continuou a ser apoiada.

Nada mudou mesmo quando a guerra sectária libertada no Iraque ceifou a vida de centenas de milhares, deslocou milhões e deu nascimento ao parceiro impiedoso da Al-Qaeda. Nem mesmo a eleição em 2008 de Barack Obama, um oponente da Guerra do Iraque, mudou esta dinâmica geral.

Ao invés de se opor ao establishment da nova política externa, Obama curvou-se a ele, mantendo figuras-chaves da equipe de segurança nacional do presidente Bush, como o Secretário da Defesa Robert Gates e o General David Petraeus, e unindo-se a gaviões democratas como a senadora Hillary Clinton, que tornou-se Secretária de Estado, e Samantha Power no Conselho de Segurança Nacional.

Assim, o culto à “mudança de regime” não apenas sobreviveu ao desastre iraquiano; ele cresceu. Onde quer que um problema estrangeiro surgisse, a solução ainda era a “mudança de regime”, acompanhada pela usual demonização de um líder alvejado, apoio à “oposição democrática” e clamor pela intervenção militar. O Presidente Obama, indiscutivelmente um “realista”, encontrou-se como um chefe arrastado pela multidão já que ele foi conduzido para a cruzada da “mudança de regime”, uma após a outra.

Em 2011, por exemplo, a Secretária de Estado Clinton e a assessora do Conselho de Segurança Nacional Power convenceram Obama a se juntar a uma guerra com os líderes europeus que pretendiam uma “mudança de regime” na Líbia, onde Muammar Gaddafi investiu contra grupos no leste do país que se identificavam como terroristas islâmicos.

Mas Clinton e Power viam o caso como um teste para suas teorias de “guerra humanitária” – ou “mudança de regime” para remover um “bandido” como Gaddafi do poder. Obama logo consentiu e, com as forças armadas fornecendo apoio tecnológico crucial, uma campanha devastadora de bombardeio destruiu o exército de Gaddafi, removeu-o de Trípoli e no final levou ao seu assassinato por tortura.

“Viemos, vimos, ele morreu”

A Secretária Clinton se apressou em garantir o crédito para esta “mudança de regime”. De acordo com um email de agosto de 2011, seu amigo e conselheiro pessoal de longa data Sidney Blumenthal elogiou a campanha de bombardeio para destruir o exército de Gaddafi e saudou a expulsão do ditador.

“Em primeiro lugar, bravo! Este é um momento histórico e você receberá os créditos por ter feito isso,” escreveu Blumenthal em 22 de agosto de 2011. “Quando Qaddafi for finalmente retirado do poder, você poderá é claro fazer uma declaração pública diante das câmeras onde quer que você esteja, mesmo no conforto de seu lar... Você deve ir à câmera. Você deve se incluir no registro histórico deste momento... A frase mais importante é: estratégia bem sucedida.”

Clinton encaminhou o conselho de Blumenthal para Jack Sullivan, um assessor próximo do Departamento de Estado. “Galera, leiam abaixo,” escreveu ela. “Sid deu boas dicas sobre o que devo falar, mas só depois que Q (Qaddafi) partir, o que vai deixar mais dramático. Esta é minha hesitação já que não estou certa de quantas chances terei.”

Sullivan respondeu, dizendo “faria mais sentido para você fazer um editorial para ser publicado após ele cair, realçando este ponto... Você pode reforçar o editorial em todas as suas aparições, mas tem mais sentido criar algo definitivo, quase como uma Doutrina Clinton.”

Contudo, Gaddafi abandonou Trípoli aquele dia, e o presidente Obama aproveitou o momento para fazer um anúncio triunfante. A oportunidade de Clinton para anunciar sua felicidade com a “mudança de regime” líbio tevve que esperar até 20 de outubro de 2011, quando Gaddafi foi capturado, torturado e morto.

Em uma entrevista para a TV, Clinton celebrou as notícias quando elas surgiram em seu celular e parafraseou a famosa declaração de Júlio César após as forças romanas conseguirem uma vitória espetacular em 46 a.C., “veni, vidi, vici” – “vim, vi e venci”. A cópia da declaração de César foi: “Viemos, vimos, ele morreu.” Ela então gargalhou e bateu palmas.

Presumivelmente, a “Doutrina Clinton” teria sido uma política de “intervencionismo liberal” para alcançar “mudança de regime” em países onde há alguma crise na qual o líder procura eliminar uma ameaça de segurança interna e onde os Estados Unidos se opõem a tal ação.

Mas o problema com a declaração bombástica de Clinton sobre sua doutrina era que a aventura líbia logo se tornou um pesadelo com os terroristas islâmicos, sobre os quais Gaddafi havia alertado, tomando grandes porções de território e transformando-as em terras de sangue como no Iraque.

Em 11 de setembro de 2012, esta realidade atingiu o país quando o consulado americano em Bangazi foi tomado e o embaixador americano Christopher Stevens e três outros adidos diplomáticos foram assassinados. Ficou claro que Gaddafi não estava totalmente errado sobre a natureza de sua oposição.

Eventualmente, a violência extremista na Líbia cresceu tanto e fora de controle que os Estados Unidos e os países europeus abandonaram suas embaixadas em Trípoli. Desde então, os terroristas do Estado Islâmico começaram a decapitar cristãos cópticos nas praias líbias e massacrar outros “hereges”. Além da anarquia, a Líbia tornou-se uma rota de fuga para migrantes desesperados buscando uma passagem pelo Mediterrâneo em direção da Europa.

Uma Guerra contra Assad

Paralelamente à “mudança de regime” na Líbia foi o empreendimento semelhante na Síria na qual os neocons e os intervencionistas liberais pressionam pela queda do presidente Bashar AL-Assad, cujo governo em 2011 desmanchou no que rapidamente tornou-se uma rebelião violenta liderada por elementos extremistas, apesar de a propaganda ocidental retratá-los como “moderados” e “pacifistas”.

Para os primeiros anos da guerra civil síria, a versão era de que estes rebeldes “moderados” estavam enfrentando repressão injustificada e a única resposta possível seria a “mudança de regime” em Damasco. A afirmação de Assad que a oposição incluía muitos extremistas islâmicos foi largamente ignorada como também o foram os alertas de Gaddafi.

Em 21 de agosto de 2013, um ataque de gás sarin nos arredores de Damasco matou centenas de civis e o Departamento de Estado dos EUA e a mídia jornalística imediatamente culparam as forças de Assad exigindo uma retaliação contra o exército sírio.

Apesar das dúvidas dentro da comunidade de inteligência dos EUA sobre a responsabilidade de Assad pelo ataque de sarin, que alguns analistas viram como uma provocação por parte dos terroristas anti-Assad, o clamor dos neocon e dos liberais intervencionistas em Washington pela guerra foi intenso e quaisquer dúvidas sobre o caso foram deixadas de lado.

Mas o presidente Obama, ciente da incerteza da comunidade de inteligência americana, segurou uma resposta militar e eventualmente trabalhou um acordo, apoiado pelo presidente russo Vladimir Putin, no qual Assad concordava em entregar todo seu arsenal de armas químicas enquanto ainda negava qualquer responsabilidade pelo ataque de sarin.

Apesar de o caso do ataque de sarin acabou tirando a culpa do governo sírio – com evidência apontando para uma “operação de engano” conduzida por radicais sunitas para enganar os EUA de modo que este intervisse do seu lado – o “grupo intelectual” em Washington se recusou a reconsiderar o julgamento inicial errado. Na coluna da segunda-feira, Hiatt ainda se referia à “selvageria das armas químicas” de Assad.

Qualquer sugestão de que a única opção realista na Síria é um compromisso de divisão de poder que incluiria Assad – que é visto como protetor das minorias cristã, Xiita e Alauita na Síria – é rejeitada de cara com o slogan “Assad deve partir!”

Os neocons criaram uma sabedoria convencional que difunde que a crise síria seria prevenida somente se Obama tivesse seguido a receita de 2011 dos neocons de outra intervenção americana para forçar uma “mudança de regime”. Entretanto, o resultado mais provável teria sido outrra ocupação militar americana indefinida e sanguinária da Síria ou então a bandeira negra do terrorismo islâmico tremulando sobre Damasco.

Para cima de Putin

Outro vilão que surgiu a partir da falha em bombardear a Síria em 2013 foi o presidente russo Putin, que enfureceu os neocons com o seu trabalho com Obama na entrega do arsenal de armas químicas da Síria e que mais tarde aborreceu os neocons ao ajudar os iranianos a negociar seriamente uma restrição ao seu programa nuclear. Apesar dos desastres de “mudança de regime” no Iraque e na Líbia, os neocons queriam propagar sua agenda novamente em direção da Síria e do Irã.

Putin obteve sua resposta quando os neocons americanos, incluindo o presidente do NED Carl Gershman e a Secretária Assistente de Estado para Assuntos Europeus, Victoria Nuland (esposa de Robert Kagan), ajudou a orquestrar uma “mudança de regime” na Ucrânia em 22 de fevereiro de 2014, derrubando o presidente eleito Viktor Yanukovych e instalando um regime antirrusso na fronteira russa.

Tão emocionados quanto os neocons estavam com sua “vitória” em Kiev e seu sucesso em demonizar Putin junto à mídia jornalística dos EUA, a Ucrânia seguiu o previsível roteiro da “mudança de regime” e caiu em uma guerra civil perniciosa. Os ucranianos ocidentais promoveram uma “operação antiterrorista” brutal contra russos étnicos no leste que resistiram ao golpe de estado patrocinado pelos EUA.

Milhares de ucranianos morreram e milhões foram deslocados à medida que a economia ucraniana caminhava para o colapso. Contudo, os neocons e seus parceiros gaviões liberais novamente mostraram suas habilidades propagandísticas ao colocar a responsabilidade pela “agressão russa” a Putin.

Apesar de Obama aparentemente ter sido pego de surpresa pela “mudança de regime” ucraniana, ele logo se juntou ao coro ao denunciar Putin e a Rússia. A União Europeia também foi atrás dos EUA e exigiu sansões contra a Rússia apesar de estas sansões poderem abalar a economia da Europa. A estabilidade europeia está agora em risco em virtude do fluxo de refugiados das zonas de guerra do Oriente Médio.

Uma Dúzia de Anos de Caos

Assim, podemos olhar nas consequências e custos dos últimos 12 anos sob o reinado das estratégias de “mudança de regime” dos neocons/gaviões liberais. De acordo com muitas estimativas, as estatísticas de mortes no Iraque, Síria e Líbia já ultrapassaram um milhão, com muitos milhões a mais de refugiados fugindo  - e esgotando os recursos – de países frágeis do Oriente Médio.

Centenas de milhares de outros refugiados e migrantes partiram para a Europa, colocando mais desafios às estruturas sociais do continente já pressionadas pela recessão severa que se seguiu ao crash de 2008 de Wall Street. Mesmo sem a crise de refugiados, a Grécia e outros países europeus meridionais estão lutando para manter as necessidades se seus cidadãos.

Parando por um instante e pensando no impacto global das políticas neoconservadoras, podemos nos surpreender no quanto elas espalharam o caos numa grande região do globo. Quem poderia imaginar que os neocons conseguiriam desestabilizar não somente o Oriente Médio, mas também a Europa?

E, enquanto a Europa luta, os mercados de exportação da China são abalados, espalhando a instabilidade econômica para aquela economia crucial e, com seus choques de mercado, as reverberações atingindo os Estados Unidos também.

A única esperança é que muitos americanos não sejam mais iludidos desta vez e que o “realismo” abandonado retorne às estratégias geopolíticas dos EUA buscando compromissos reais para restaurar a ordem política em lugares como a Síria, Líbia e Ucrânia. Ao invés de mais confrontos de machões, talvez surjam esforços sérios para reconciliação.

                      
Notas:

[1] Neoconservadorismo (ou neocon) é uma corrente da filosofia política que surgiu nos Estados Unidos a partir da rejeição do liberalismo social, relativismo moral e da contracultura da Nova Esquerda dos anos sessenta.

O neoconservadorismo influenciou os governos de Ronald Reagan e George W. Bush, representando um realinhamento da política estadunidense e a conversão de alguns membros da esquerda para a direita no espectro político.

O neoconservadorismo estadunidense enfatiza a política externa como aspecto mais importante nas responsabilidades de um governo, com o fim de manter o papel dos Estados Unidos como única superpotência, condição indispensável para a manutenção da ordem mundial. O primeiro neoconservador declarado foi Irving Kristol, que explicitou sua condição em um artigo de 1979, intitulado "Confessions of a True, Self-Confessed 'Neoconservative.'"

A acusação de que neoconservadorismo está relacionada com o leninismo foi feita também por Francis Fukuyama que identificou neoconservadorismo com o leninismo em 2006:

... Acreditavam que a história poderia ser empurrado com a correta aplicação do poder e da vontade. O Leninismo foi uma tragédia em sua versão bolchevique, e voltou como farsa quando praticada pelos Estados Unidos. Neoconservadorismo, tanto como um símbolo político como um corpo de pensamento, evoluiu para algo que não pode mais ter apoio.

[2] O Caso Irã-Contras foi um escândalo político nos Estados Unidos revelado pela mídia em novembro de 1986, durante o segundo mandato do presidente Ronald Reagan, no qual figuras chave da CIA facilitaram o tráfico de armas para o Irã, que estava sujeito a um embargo internacional de armamento, para assegurar a libertação de reféns e para financiar os Contras-nicaraguenses.

A operação começou como uma tentativa de melhorar as relações entre Estados Unidos e Irã, através da mediação de Israel, que iria enviar armas para um grupo politicamente influente de iranianos; os Estados Unidos iriam então fornecer mais armas para Israel e receber o pagamento feito pelos iranianos aos israelenses. Os destinatários iranianos prometeram fazer o possível para conseguir a libertação de seis estadunidenses que eram mantidos reféns pelo grupo islâmico xiita libanês Hezbollah, que era ligado ao Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica.

O plano acabou virando um esquema de "armas por reféns", no qual os membros do Poder Executivo dos Estados Unidos vendiam armas para o Irã em troca da libertação de reféns estadunidenses.



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sábado, 12 de setembro de 2015

Os Republicanos não conseguem enfrentar a verdade sobre o Iraque

Eric Margolis, 15/08/2015




O governador Jeb Bush repetiu uma das grandes mentiras de nossa época durante o recente debate dos candidatos à presidência: “fomos mal conduzidos (na Guerra do Iraque) por inteligência errada.”

A inteligência dos EUA não foi “mal conduzida”. Ela foi organizada pelo presidente verdadeiro, de fato, Dick Cheney, para fornecer desculpas para uma guerra de agressão contra o Iraque de Saddam Hussein.

O Primeiro Ministro Tony Blair obrigou os serviços de inteligência britânicos a “reforçar” os relatórios de que o Iraque dispunha de armas nucleares; ele afastou do governo da respeitável BBC os jornalistas que falharam em amplificar as mentiras de Blair. Bush e Blair discutiram abertamente pintar aviões da Força Aérea americana com as cores da ONU e sobrevoar as baterias antiaéreas iraquianas na esperança de que os iraquianos atirassem contra eles. Bush disse a Blair que após conquistar o Iraque, ele pretendia invadir o Irã, Síria, Líbia e Paquistão.

De fato, o Iraque não tinha “armas de destruição em massa”, salvo alguns barris de gás mostarda que foram fornecidos pelos EUA e Grã-Bretanha para uso contra o Irã. Revelei essa notícia em Bagdá no início dos anos 1990.

Tyler Drumheller, que morreu semana passada, foi o antigo chefe da divisão europeia da CIA. Ele era o funcionário de inteligência mais graduado a ir a público e acusar a administração Bush de fabricar evidência para justificar a guerra contra o Iraque.

Drumheller foi particularmente rigoroso ao denunciar o desertor chamado “bola curvada”, cujas afirmações fantasiosas sobre os laboratórios móveis de armas bacteriológicas do Iraque foram anunciados diante das Nações Unidas pelo ex-Secretário de Estado Colin Powell. As denúncias de “Bola Curvada” era mentiras descaradas e Powell, cuja carreira estava arruinada por promover essas alegações absurdas, deveria saber melhor. “Bola Curvada” era um “agente provocador” claramente enviado por um vizinho do Iraque para ajudar a promover um ataque americano àquela nação. Se esse vizinho era o Kuweit, Arábia Saudita ou Israel, ainda não sabemos. Todos os três fabricaram “evidência” contra o Iraque e a transmitiram a Washington. Foi aqui que a inteligência americana foi de fato mal conduzida. Mas esta é a menor parte da história.

Uma trupe de neocons pró-Israel em Washington, magnatas do petróleo e imperialistas do velho estilo uniram-se para promover a invasão ilegal do Iraque rico em petróleo. Um de seus líderes, o antigo funcionário do Pentágono Paul Wolfowitz, admitiu que armas de destruição em massa foram escolhidas porque eram convenientes e tinham um pretexto emotivo para a guerra. Ordens saíram da CIA e NSA para achar informação ligando o Iraque ao 11/09 e armas de destruição em massa.

Algumas das torturas mais cruéis aplicadas a suspeitos sequestrados pelas tropas de elite da CIA foram feitas para obrigá-los a admitir uma ligação entre os atentados de 11/09 e Saddam Hussein. É claro que não havia nenhuma. Mas funcionários da administração, como a infame Condoleeza Rice, manteve a mentira de uma ameaça nuclear à América.

Antes da invasão de 2003 do Iraque, pesquisas mostravam uma maioria de amoricanos acreditando que o Iraque ameaçava os EUA com um ataque nuclear e estava por trás do 11/09. Surpreendentemente, uma pesquisa feita por cristãos evangélicos um pouco antes de os EUA atacarem o Iraque mostrou que mais de 80% apoiavam uma guerra contra o Iraque. Muito para dar a outra face.

A maioria da mídia americana, notavelmente o New York Times, Washington Post e o Wall Street Journal, apoiou as mentiras da administração Bush. As redes de TV receberam ordens de nunca mostrar as baixas americanas ou civis mortos. Aqueles, como este autor que vos escreve, que questionaram a razão por trás da guerra, ou que não seguiram a linha do partido, foram excluídos de falar na TV ou escrever sobre o assunto. Por exemplo, eu fui imediatamente afastado de uma grande rede de TV após dizer que Israel apoiou a Guerra do Iraque de 2003 e se beneficiaria com ela. Fui afastado de outra grande rede de TV americana sob ordem direta da Casa rança por repetir insistentemente que o Iraque não possuía capacidade nuclear.

Pouquíssimos analistas, jornalistas ou políticos pararam para pensar: mesmo que o Iraque tivesse armas nucleares, como elas poderiam ser colocadas na América do Norte? O Iraque não tinha bombardeiros de longo alcance ou mísseis com alcance maior do que 100 km. Talvez por SEDEX? Ninguém perguntou, por que o Iraque criaria um suicídio nacional ao tentar atingir os EUA com uma arma nuclear?

A resposta mais original veio de George W. Bush: cargueiros iraquianos nefastos transportavam “drones da morte” no Atlântico Norte enquanto a América dormia. Esta loucura foi baseada em um relatório simples que os atrapalhados iraquianos estavam trabalhando num aeromodelo que, no final, quebrou e nunca voou. O que inspirou tal bizarrice? Muita bebida alcoólica, LSD ou ordens intempestivas de Dick Cheney para encontrar uma maldita desculpa para invadir o Iraque.

Para Cheney e seus amigos magnatas do petróleo, conquistar o Iraque garantiria as maiores reservas de petróleo do mundo árabe para o Tio Sam e ofereceria uma base militar central na região. Para os sanguinários neocons de Washington, arrasar o Iraque removeria um dos inimigos mais obstinados de Israel, esmagar a única nação árabe que deafiava o poder nuclear de Israel e não teria nenhum custo a Israel. Invadir o Iraque produziu a desintegração lenta do Oriente Médio há muito tempo vendida pelos militantes sionistas.

Tudo funcionou brilhantemente, pelo menos do ponto de vista de Isael. Nada, contudo, do ponto de vista americano. A invasão de Bush aniquilou o Iraque, conduziu à Al-Qaeda e ao EI (Estado Islâmico) e deixou Washington com uma conta de U$ 1 trilhão ao invés dos U$ 60 milhões estimados por Wolfowitz. O Oriente Médio é um barril de pólvora, os palestinos estão totalmente isolados e o Egito, a principal nação da região, é governada por uma ditadura militar fascista.

Tyler Drumheller foi o único funcionário experiente da CIA a erguer-se e dizer aos americanos que eles estavam sendo conduzidos a uma guerra desnecessária e ilegal. Hoje, temos um Iraque à deriva, resultado das mentiras fabricadas, e os vendedores do terror trabalhando em regime de hora-extra para promover uma guerra contra o Irã.
     

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Julgamento de Jesus: O Enigma da Primeira Sexta-Feira da Paixão

S.G.F. Brandon

History Today, Vol. 16, Nº 4, abril de 1966



Por uma estranha ironia da história, a coisa mais certamente conhecida sobre Jesus de Nazaré é que Ele foi executado pelos romanos por sublevação contra seu governo na Judéia. As circunstâncias do nascimento de Jesus, a extensão de seu ministério público e o conteúdo exato de Seus ensinamentos são todas questões de incerteza, mas a causa de Sua morte está além de qualquer dúvida.

Pelo fato de Jesus ter sido crucificado como um rebelde contra as ordens de Pôncio Pilatos, o procurador romano da Judéia está atestado pelos quatro Evangelhos, e é brevemente mencionado pelo historiador romano Tacitus, escrevendo no início do século II.

O testemunho dos Evangelhos é especialmente significativo, pelo fato da execução de Jesus sob tal acusação ser muito embaraçosa para os primeiros cristãos. Eles obviamente jamais a teriam inventado; de fato, eles provavelmente não a teriam registrado, se o fato não fosse bem conhecido.

Que os escritores do Evangelho descrevem a crucificação de Jesus, e os eventos que conduziram a isso, em extensão considerável, é, de fato, a causa real do mistério que torna o evento trágico. Seus relatos, sob análise, parecem ser inspirados por um forte motivo apologético – de fato, eles são tentativas de explicar o fato embaraçoso de que Jesus foi, na verdade, executado como um criminoso político. Por causa desta intenção apologética, qualquer tentativa de elucidar o problema da condenação romana de Jesus deve começar com uma avaliação da evidência do Evangelho.

O documento central é o Evangelho de Marcos, pelo fato de ser o primeiro dos Evangelhos e sua estrutura narrativa foi seguida de maneira próxima pelos autores dos Evangelhos de Mateus e Lucas. O Evangelho de João, que é posterior em data, geralmente reproduz a apresentação marquiana do Julgamento e Crucificação de Jesus, apesar de evidentemente estar mais preocupado com o significado teológico destes eventos.

O Evangelho de Marcos representa uma inovação no pensamento e prática cristãos. Ninguém até aquele ponto pensou em escrever um relato narrativo da vida de Jesus. A razão para isto residia indubitavelmente no fato de que os primeiros cristãos acreditavam tão firmemente que Jesus logo voltaria do Céu, com poder sobrenatural, para conduzir a Ordem Mundial existente a um fim. Em outras palavras, nas três ou quatro décadas após a Crucificação nenhuma necessidade foi sentida em registrar a vida terrena de Jesus para a posteridade – porque não haveria posteridade!

O que, então, provocou a mudança que produziu o Evangelho de Marcos? Claramente, devemos olhar para a causa adequada; a mudança implica uma alteração verdadeiramente profunda na primitiva perspectiva cristã. Para responder a questão, precisamos saber a data do Evangelho. Estudiosos concordam em data-lo do período 65 a 75 d.C.

Agora, durante esta década ocorreu a revolta judaica contra Roma. Ela já estava acontecendo há algum tempo, devido à má administração romana e convicção judaica, tão fervorosamente mantida, que o Povo Eleito de Israel não pagaria lealdade a nenhum outro deus exceto Yahweh, o Deus de Israel. A revolta estourou no ano 66, e pelos próximos quatro anos, a vida da nação judaica foi perturbada pela guerra, até a catástrofe final acontecida em 70, quando Jerusalém foi capturada e destruída, e seu famoso Templo destruído pelo fogo.

O efeito da guerra judaica sobre a nascente igreja cristã foi profundo. Até então, o movimento cristão tinha sido dirigido e controlado de Jerusalém, onde a comunidade original de apóstolos e discípulos foi estabelecida. Esta comunidade, a Igreja Mãe da Cristandade, desapareceu na catástrofe de 70 d.C. A situação resultante ficou carregada de perigo e perplexidade para os cristãos em todos os lugares.

Não somente eles tinham perdido a fonte original de autoridade e tradição de sua fé, mas eles enfrentaram o perigo real e imediato de serem lembrados pelo governo romano como “companheiros simpatizantes” do nacionalismo judaico. Em nenhum outro lugar este perigo era maior do que em Roma, a capital do Império que foi altamente testada pela revolta judaica. Foi para a comunidade cristã em Roma que o Evangelho de Marcos foi originalmente escrito.

Este fato da origem romana do Evangelho de Marcos é de supremo significado para determinar a data de sua composição. A questão que agora enfrentamos, à luz das considerações precedentes, é: quando, durante o período 65 – 75 d.C., surgiu a necessidade para os cristãos de Roma de um registro escrito da vida de Jesus, haja visto que esta necessidade não havia sido sentida antes? A evidência aponta irresistivelmente para uma única resposta: a necessidade surgiu em virtude da situação provocada pela guerra judaica contra Roma.

A probabilidade a priori que isto foi assim encontra confirmação singular quando examinamos o próprio Evangelho. Mas primeiro precisamos notar outro fato de grande importância nesta conexão. No ano 71, o imperador Vespasiano, junto com seus filhos Tito e Domiciano, celebrou um triunfo esplêndido em Roma para comemorar sua vitória sobre a Judéia rebelde. A ocasião foi de grande significado tanto para o povo romano quanto para a nova dinastia imperial dos Flavios.

Desde a morte de Nero em 68, o Estado romano sofreu uma série de desastres sérios. Ela entrou em guerra civil logo após os judeus terem se revoltado. A própria guerra judaica começou com a derrota humilhante de um exército romano pelos rebeldes. As consequências foram provavelmente sentidas longe, já que a Judéia ocupava um lugar importante na posição estratégica romana no Oriente Próximo.

O país situa-se transversalmente às principais rotas conectando o Egito com a Síria; também havia uma grande população judaica na Mesopotâmia, propensos a comprar briga com seus irmãos da Judéia contra Roma, uma situação que os partos[1], por sua vez, poderiam ter explorado ao invadir províncias romanas. Os romanos tinham sido, convenientemente, aterrorizados pela guerra judaica, e eles eram profundamente gratos a Vespasiano, que tinha tanto posto um fim à guerra civil quanto esmagado os rebeldes judeus.

A ocasião era importante para Vespasiano e seus filhos, já que eles estavam criando uma nova dinastia imperial. Seria obviamente sua vantagem usar a vitória para impressionar o povo de Roma com suas realizações. Moedas foram emitidas comemorando a conquista da Judéia; mas foi o triunfo que forneceu a melhor oportunidade para levar ao lar do povo romano a magnitude de sua vitória. Tivemos sorte em ter um relato detalhado de Josefus, o historiador judeu, que na verdade serviu como general no lado rebelde.

Pelas ruas de Roma, no dia em causa, as legiões vitoriosas desfilaram, com os troféus de sua vitória e diversidade de prisioneiros judeus. Os tesouros do Templo foram dispostos em processão triunfal, o grande Menorah, ou o candelabro de sete braços, o altar da proposição, os trompetes de prata e as cortinas púrpuras que cobriam o Santo dos Santos – uma representação em escultura da cena ainda adorna o Arco de Tito no Fórum.

A procissão também incluía uma pintura mostrando cenas da Guerra que, Josefus nos diz, impressionou as pessoas pela sua apresentação realista. O triunfo culminou com a execução de Simon ben Gioras, um dos líderes principais judeus, enquanto Vespasiano oferecia um sacrifício de ação de graças a Júpiter no grande templo da capital.

Este triunfo deve ter tornado a revolta judaica muito real para o povo de Roma; já que ele foi criado para apresentar-lhes vivamente a gravidade do perigo do qual o novo imperador e seu filho enfrentaram. Entre os espectadores aquele dia havia, sem dúvida, muitos cristãos, que assim viram o espetáculo da ruína de Israel. Mas a visão teria dado a eles outros pensamentos que aqueles que moviam seus vizinhos pagãos. Esta evidência da insubordinação judaica deve ter sido um lembrete perturbador do fato que Jesus, o fundador da fé, também foi executado por insubordinação a Roma.

Eles teriam ficado embaraçosamente alertas que muitos de seus cidadãos camaradas deveriam ver a Cristandade como Tacitus o fez quando escrever: “Cristo, o fundador da seita, foi condenado à pena capital no reino de Tibério, por sentença do procurador Pôncio Pilatos e a superstição perniciosa foi contida por um momento, somente para estourar uma vez mais, não somente na Judéia, o lar da doença, mas na própria capital (isto é, Roma), onde todas as coisas horríveis ou vergonhosas no mundo coletam e encontram discípulos.”

O Evangelho de Marcos reflete a situação dos cristãos romanos nesta época com uma fidelidade surpreendente. O espaço nos permite selecionar apenas uma passagem que, sob análise, indiscutivelmente indica o tempo e o objetivo da composição do Evangelho. No capítulo XII, 13-17, Jesus é representado como sendo questionado a respeito do dever dos judeus pagarem tributos a Roma. Desde que este assunto poderia não ter qualquer significado espiritual para os cristãos de Roma, podemos razoavelmente perguntar por que o autor do Evangelho devotou espaço para ele?

A resposta somente pode ser que o assunto era politicamente importante para os cristãos romanos. A conclusão, por sua vez, levanta a questão óbvia: quando os cristãos em Roma poderiam estar interessados na atitude de Jesus em relação à obrigação dos judeus em pagar tributos? A resposta é igualmente óbvia; quando o assunto tornou-se tão perturbador aos cristãos romanos pelo triunfo flaviano em 71 d.C., como pudemos ver.

Nesta passagem sobre o Dinheiro do Tributo, os líderes judeus são descritos como tentando fazer Jesus a comprometer-se em um assunto que era uma questão dolorosa para os judeus nacionalistas – o não-pagamento do tributo foi uma das causas da revolta em 66. O autor do Evangelho marquiano representa Jesus como endossando a obrigação judaica de pagar tributo a César; mas há motivos para duvidar que esta era realmente a opinião de Jesus. A apresentação marquiana, contudo, era necessária em Roma nesta época; pois isto garantia aos cristãos lá, e quaisquer outros que poderiam ler o Evangelho, que Jesus era leal a Roma e oponente do nacionalismo judaico.

Esta discussão sobre as origens do Evangelho de Marcos foi necessária, no sentido de avaliar o relato do Julgamento de Jesus. Na investigação, este Evangelho é tido como um relato de Jesus, escrito por um membro da comunidade cristã em Roma para encontrar as necessidades de seus companheiros cristãos, em perigo e perplexidade devido à guerra judaica e à publicidade dada a ela pelo triunfo flaviano em Roma.

Este objetivo apologético é evidente em muitos outros modos do que vimos anteriormente. Mas o ponto essencial de preocupação para o autor era a execução romana de Jesus. Mesmo que ele representasse Jesus leal a Roma na questão tributária, continuou o fato inegável que Pôncio Pilatos crucificou Jesus como rebelde. Como este fato desastrado e perturbador deveria ser explicado?

O autor de Marcos enfrenta esta dificuldade transferindo a responsabilidade pela Crucificação do governador romano para os líderes judeus. Ele se prepara para isto ao mostrar que os líderes judeus, variadamente descritos como “os escribas e fariseus” e os “altos sacerdotes”, planejando destruir Jesus desde o início de seu ministério. Assim, somos informados que, após Jesus ter curado no domingo um homem com a mão atrofiada, “os fariseus saíram e imediatamente reuniram-se com os herodianos contra Ele, como destruí-Lo.” (III, 6)

Este tema da intenção maliciosa das autoridades judaicas é gradualmente desenvolvido, enquanto a narrativa continua. Como sua intenção seria implantada é contada em detalhes em uma profecia atribuída ao próprio Jesus: “Preparem-se, iremos a Jerusalém; e o Filho do Homem será entregue aos sacerdotes e escribas, e eles O condenaram à morte, e O entregaram aos gentis; e eles vão zombar Dele, cuspir Nele e O açoitarão, e O matarão; e após três dias Ele ressuscitará.” (X, 33-34)

Após descrever encontros posteriores com Jesus durante os últimos dias em Jerusalém, Marcos relata como os líderes judeus finalmente conseguiram prendê-Lo, graças à traição de um dos discípulos. O fato é significativo; já que ele indica que Jesus era também apoiado fortemente pela multidão para as autoridades judaicas prendê-Lo publicamente. Marcos não diz por qual motivo específico eles então capturaram Jesus; temos apenas suas afirmações iniciais e generalizadas que eles estavam determinados a destruí-Lo desde o início de seu ministério.

Marcos admite que as autoridades judaicas enviaram um grupo altamente armado para capturar Jesus, e que houve alguma resistência armada à sua prisão em Getsêmani. Ele minimiza esta resistência como “um dos que ali estavam, puxando da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha.” (XIV, 47) Ele não revela, como os evangelistas tardios fizeram, que os discípulos estavam armados e que um deles deu o golpe.

Após sua prisão, de acordo com Marcos, Jesus foi levado, parecendo ser ainda à noite, diante do Sinédrio, o mais alto tribunal judeu. O julgamento que segue é descrito de um modo que levanta um monte de problemas, tanto em relação ao procedimento quanto ao que realmente aconteceu. A afirmação de abertura de Marcos reitera seu tema da intenção má dos líderes judeus: “Agora, os sumo-sacerdotes e o conselho inteiro buscaram testemunho contra Jesus para condená-lo à morte; mas eles não encontraram nenhum. Muitos deram testemunho contra Ele, e nenhum de seus testemunhos concordava entre si.” (XIV, 55-6)

A impressão é a de que as afirmações de Marcos são evidentemente feitas para transmitir que as autoridades judaicas, determinadas a destruir Jesus, usaram o julgamento como um pretexto legal para atingir seu objetivo. O que é dito sobre os “falsos testemunhos”, contudo, indica uma situação totalmente diferente. Assim, se eles tivessem subornado pessoas para dar falsa evidência contra Jesus, os líderes judeus seriam estranhamente meticulosos em rejeitar a evidência quando ela não fosse mutuamente corroborada - certamente eles teriam arranjado as coisas de melhor forma, ou terem sido menos escrupulosos sobre as regras de prova, se tivessem manipulado” o julgamento.

Mas Marcos estava obviamente mais preocupado em estabelecer a responsabilidade dos líderes judeus pela Crucificação do que apresentar uma narrativa logicamente coerente. Isto também parece ser a explicação de sua próxima afirmação. De acordo com ele, a única acusação específica feita contra Jesus foi quando “alguns permaneceram de pé e deram falso testemunho contra Ele, dizendo, ‘Escutamos Ele dizer, destruirei este templo que é feito por mãos e, em três dias, construirei outro, não feito por mãos.’ No entanto, nem mesmo assim seus testemunhos concordaram.” (XIV, 57-9)

Marcos descreve esta acusação como “falso testemunho”, sugerindo assim que não era verdadeira; e esta sugestão é confirmada pela afirmação que a evidência destas testemunhas não concordava entre si. Entretanto, como João II, 9 e Os Atos dos Apóstolos VI, 14 indicam, parece ter sido uma tradição na comunidade cristã primitiva na Judéia que Jesus fizesse algumas elocuções contra o Templo; e o próprio Marcos parece afirmar isso em XIII, 1-2.

Certas sugestões podem ser oferecidas para elucidar o problema aqui. Em primeiro lugar, é improvável que Jesus tenha de fato ameaçado que Ele destruiria o Templo, já que sabemos que Seus discípulos continuaram a orar lá e lembravam dele como a moradia de Deus – esta devoção seria difícil de explicar se Jesus tivesse se pronunciado contra o Templo. Além disso, a acusação é rejeitada por Marcos como falso testemunho. O que parece ser a solução mais provável é que a acusação no julgamento do Sinédrio nasceu do ataque que Jesus fez alguns dias antes contra o sistema de comércio do Templo. (XI, 15-18)

Este sistema era necessário para a realização eficiente do culto do Templo. Os judeus fazendo oferendas com o dinheiro prescrito ao Templo tiveram que mudar a moeda romana, que era ofensiva à Lei sagrada para uma moeda do Templo mais apropriada. Aqueles que vinham oferecer sacrifícios precisavam comprar os animais lá. Estas instalações eram autorizadas pelo sumo-sacerdote. Tais transações, assim como as instalações bancárias oferecidas pelo Templo, forneceram uma renda lucrativa para a aristocracia sacerdotal que administrava o Templo.
Esta aristocracia sacerdotal, além disso, controlava “assuntos locais”, sob o domínio dos romanos: o sumo-sacerdote era apontado pelo procurador. Esta aristocracia pró-romana era naturalmente odiada por judeus patriotas; e, ao atacar sua organização de comércio no Templo, Jesus estava, de fato, atacando seu controle sobre o povo e a religião de Israel. Há pouca dúvida que a ação de Jesus no Templo foi muito mais séria do que é representada em Marcos e outros evangelistas. E há toda a razão para acreditar que isso teria sido uma das principais acusações colocadas contra Ele.

As autoridades judaicas indubitavelmente estavam preocupadas em descobrir qual era a intenção de Jesus ao fazer tal ataque. O relato curioso de Marcos da acusação e do conflito de evidência sugere que as autoridades judaicas eram incapazes de conseguir uma afirmação clara do que Jesus disse sobre Seus objetivos durante a ação no Templo.

De acordo com o relato marquiano do julgamento no Sinédrio, após falhar em conseguir evidência suficiente em relação ao assunto do Templo, o sumo-sacerdote então perguntou a Jesus diretamente se ele afirmava ser o Messias de Israel: “Você é o Cristo (isto é, Messias), o Filho do Bem-Aventurado?” Ao fazer tal pergunta, seguindo-se à acusação do templo, claramente mostra que o sumo-sacerdote ligou a ação revolucionária com Aquele que afirmava ser o Messias. Na crença atual judaica, o Messias conduziria a Ordem Mundial existente a um fim.

Marcos relata Jesus afirmando que Ele era o Messias em termos da atual expectativa apocalíptica: “Eu Sou; e você verá o Filho do Homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu.” (XIV, 62) O sumo-sacerdote toma esta resposta como blasfêmia e, com a concordância do Sinédrio, condena Jesus à morte.

Agora encontramos um dos grandes problemas do relato marquiano. Em primeiro lugar, apesar de Josefus nos dizer da existência de muitos pretendentes messiânicos durante o período 6 a 70 d.C., não existem registros de qualquer um deles ter sido condenado à morte pelo Sinédrio por fazer tal afirmação. Em segundo lugar, de acordo com a Lei Judaica, a penalidade por blasfêmia era a morte por apedrejamento – a morte de Estevão fornece um exemplo contemporâneo disso (Atos VI).

Mas o Sinédrio não procede em arranjar a execução desta sentença no caso de Jesus. Ao invés disso, Marcos continua a relatar, sem uma palavra de explicação, que pela manhã as autoridades judaicas levaram Jesus diante de Pôncio Pilatos. A acusação escolhida por eles não é mencionada, mas foi obviamente política; assim, Pilatos imediatamente pergunta a Jesus, “Você é o Rei dos Judeus?” (XV, 1-2)

Esta ação dos líderes judeus, e a mudança da acusação, causaram muito debate entre os estudiosos. Parece haver evidência que nesta época o Sinédrio poderia condenar sobre uma acusação capital; mas a sentença tinha que ser confirmada pelo governador romano. Presumivelmente, se o Sinédrio tivesse condenado Jesus à morte por blasfêmia, eles teriam apresentado para Pilatos para confirmação. Se isso tivesse acontecido, Jesus teria sido executado por apedrejamento.

Não foi assim, e que Jesus foi entregue a Pilatos acusado de sedição, indica que as autoridades judaicas estavam preocupadas com o significado político, e não religioso, de Jesus. Esta preocupação é compreensível. O sumo-sacerdote e o Sinédrio eram responsáveis diante do governador romano pelos assuntos judaicos. A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a ação no Templo haviam claramente perturbado a paz e a ordem do Estado judaico, além de desafiar sua própria posição.

Que os romanos os tornariam responsáveis pela continuação da ameaça que Jesus constituía é atestado por João XI, 48 onde Caifás, o sumo-sacerdote, é relatado afirmando ao Sinédrio: “O que devemos fazer? Este homem dá muitos sinais. Se O deixarmos continuar, então, todos acreditarão Nele, e os romanos virão e destruirão tanto nosso local sagrado quanto nossa nação.”   

Consequentemente, a ação tomada pelos líderes judeus estava de acordo com suas responsabilidades, e ela antecipou a ação romana. Tendo aprisionado Jesus, eles O examinaram sobre Seus objetivos e seguidores, preparatório para conduzi-Lo a Pilatos. A acusação era essencialmente política, apesar de que deve ser lembrado que política e religião estavam inextricavelmente ligados na Judéia nesta época. Lucas dá o relato mais explícito das acusações proferidas contra Jesus pelos líderes judeus: “Acusamos este homem de perverter nossa nação e proibir-nos de pagar tributo a Cesar, e dizer que ele próprio é o Cristo e um Rei.” (XXIII, 2)

Devemos retornar ao relato marquiano, lembrando que ele é a versão mais antiga. Marcos apresenta Pilatos como convencido da inocência de Jesus; “então ele percebeu que era por inveja que os sacerdotes O entregaram a ele.” (XV, 10) Agora, se esta era realmente a opinião de Pilatos, o curso aberto a ele era óbvio. Ele tinha a autoridade e o poder de encerrar o caso. Conhecemos muito a respeito do caráter de Pilatos de Filo de Alexandria e Josefus.

Estes escritores judeus concordam em mostrar Pilatos como um homem linha dura, pronto para usar a força, e não alguém que pudesse ser intimidado pelos líderes judeus e o povo. Consequentemente, se ele estivesse convencido de que Jesus era inocente, ele provavelmente não teria hesitado em frustrar a intenção dos líderes judeus. O que Marcos nos diz de sua conduta subsequente no Julgamento é, portanto, difícil de reconciliar com seu caráter, assim como com a lógica, como podemos ver.

Ao invés de ignorar o caso, Pilatos é descrito com tentando salvar Jesus valendo-se de um costume de outra maneira desconhecido. De acordo com Marcos, era o costume na Páscoa o governador romano libertar um prisioneiro escolhido pela multidão. Não há nenhuma outra evidência de tal costume. Este testemunho negativo é importante, pois Josefus é cuidadoso em registrar todos os privilégios garantidos aos judeus pelos romanos.

Mas isso não é tudo. Tal costume é inerentemente impossível. A Judéia estava fervilhando com uma revolta; seu governo teria sido anualmente frustrado ao ter libertado um prisioneiro notável – de acordo com Marcos, nesta ocasião um rebelde perigoso, provavelmente um zelote[2], foi libertado.

Porém, mesmo que deixemos passar a improbabilidade de tal costume existir, o que Marcos diz do uso de Pilatos dele fica além da crença. Ele descreve este procurador romano linha dura, que estava garantido por uma forte força militar, recorrendo a este costume para salvar um homem que ele julgava inocente. Ao fazer isso, ele convida o populacho de Jerusalém para escolher entre Jesus e um líder rebelde, Barrabás, que assassinou romanos em uma insurreição recente.

Ao dar à multidão tal poder de escolha teria sido o cúmulo da loucura, se Pilatos tivesse pensado nisso como uma forma de salvar Jesus. A decisão do povo era uma decisão antecipada. Liderados pelos altos sacerdotes, eles naturalmente escolheram Barrabás, para eles um herói patriota. Frustrado, Pilatos é representado como hesitantemente perguntando à multidão: “o que devo fazer com o homem que vocês chamam Rei dos Judeus?” (XV, 12)

A imagem de um governador romano consultando uma multidão de judeus sobre o que ele deveria fazer com um homem inocente é ridícula ao extremo. Mas para este extremo o autor do Evangelho de Marcos estava preparado evidentemente para ir, para explicar o problema da execução romana de Jesus. Assim, ele completa sua imagem da responsabilidade judaica pela Crucificação. Os líderes judeus, que estavam determinados a destruir Jesus desde o início de seu ministério, finalmente conseguiram seu intento ao forçar o relutante Pilatos a fazer o seu desejo.

Para concluir esta apresentação da culpa Judaica, Marcos descreve os líderes judeus, em Golgota, zombando o Jesus agonizante, enquanto o centurião romano reconhece Sua divindade quando Ele morre: “Realmente, este homem era o Filho de Deus!” A morte de Jesus é marcada pelo rasgar do véu do Templo, assim simbolizando a obsolescência da religião judaica. (XV, 37-9)
O relato da vida de Jesus e as circunstâncias de sua Crucificação teriam sido bem recebidas pelos cristãos romanos. O embaraço da execução de Jesus por sedição contra Roma foi aliviada pela explicação da responsabilidade judaica. Longe de condenar Jesus à morte, os cristãos romanos agora sabiam que Pilatos na verdade reconheceu Sua inocência e tentou salvá-Lo.

Jesus tinha, além disso, dado prova de sua lealdade a Roma na questão do tributo, e o centurião romano foi o primeiro a perceber Sua divindade. Os líderes judeus que planejaram Sua morte, e o povo judeus que a exigiu, conduziu sua nação à terrível catástrofe de 70 d.C., que foi tão graficamente comemorada nas ruas de Roma em 71 d.C.

A explicação de Marcos da execução de Jesus, motivada pelas necessidades da comunidade cristã em Roma em 71 d.C., exerceram uma influência formativa na subsequente tradição cristã. Os escritores dos Evangelhos de Mateus e Lucas a aceitaram, elaborando sobre ela de acordo com as exigências particulares das comunidades para as quais escreveram. Seus acréscimos foram inspirados pela necessidade de aliar uma crença muito difundida no Império Romano que o Cristianismo teve sua origem e natureza num movimento revolucionário.

Assim, o Evangelho de Mateus expande a menção curta e reticente de Marcos da resistência armada em Getsêmani ao representar Jesus como repreendendo o discípulo que envergou a espada: “Coloque sua espada de volta no lugar; todo aquele que fere pela espada será ferido por ela.” (XXVI, 52)

O autor deste Evangelho estava escrevendo para uma comunidade judaico-cristã, provavelmente em Alexandria, onde havia uma grande necessidade de aplacar o sentimento revolucionário após a queda de Jerusalém em 70 d.C. As palavras, atribuídas a Jesus aqui, tinham um significado mordaz à luz do desastre que se abatera sobre os judeus da Judéia em consequência de seu uso da guerra.

Um acréscimo que Mateus também faz ao relato marquiano do Julgamento de Jesus estava destinado a ter consequências trágicas para o povo judeu. Ao enfatizar a inocência de jesus, Pilatos é representado como repudiando publicamente a responsabilidade em condenar Jesus. Ele lava suas mãos simbolicamente diante do povo, declarando, “Sou inocente do sangue deste homem.”

O povo judeu responde: “Seu sangue está em nós e em nossas crianças!” (XXVII, 24-6). O legado destas palavras foi terrível; elas foram citadas para justificar séculos de perseguição cristã aos judeus. É significativo que somente agora no Concílio do Vaticano houve uma declaração formal exonerando as gerações subsequentes de judeus da responsabilidade pela morte de Cristo.

O historiador, que procura compreender por que os romanos executaram Jesus por sedição, deve primeiro investigar o Evangelho de Marcos, como fizemos aqui. Ele deve avaliar a apresentação apologética de Marcos, discernir o que realmente aconteceu naquela primeira Sexta-feira da Paixão. Tão longe quanto uma avaliação pode ser feita, pareceria que as autoridades judaicas prenderam Jesus porque eles O viam como uma ameaça à paz e o bem-estar do Estado judeu, pelo qual eles eram responsáveis diante dos romanos.

Após interrogar Jesus, eles o conduziram a Pôncio Pilatos, acusando-O de ensinamento e ação subversivas. Pilatos, que provavelmente sabia algo sobre as atividades de Jesus, aceitou a acusação e ordenou sua crucificação. Ele deu ordens que o título, informando a causa de sua condenação, deveria ser colocado na parte superior da cruz: ele dizia: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”.        

Pilatos também ordenou que dois rebeldes fossem crucificados com Jesus. O fato é significativo, já que estes homens haviam tomado parte, sem dúvida, na recente insurreição em Jerusalém (Marcos XV, 7). Jesus sendo crucificado entre dois rebeldes claramente indica que Pilatos pensava Nele como tal.  

Assim, tão longe quanto um historiador pode avaliar a evidência em relação à execução romana de Jesus, parece que Pôncio Pilatos via Jesus como culpado de sedição. Se ele estava certo em seu julgamento é outro assunto.
     
Nota:

[1] Partia foi um império no território do atual Irã fundado pelos partos no século III a.C. A região da Partia ia do nordeste do Irã era conhecido por ser a base política e cultural das dinastias Arsacids por que o Império Arsácida é, então, também conhecido como o Império Parto. O nome deriva do latim antigo persa Partia Parthava ou Partawa, que era a designação que os partos si deu na sua língua.

[2] membro dos zelotes, seita e partido político judaico que desencadeou a revolta da Judeia à época de Tito (imperador romano, regn. 79-81); zelador [Os zelotes constituíam a ala radical dos fariseus e preconizavam Deus como o único dirigente, o soberano da nação judaica, opondo-se à dominação romana.].



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