segunda-feira, 2 de novembro de 2015

[SGM] Seis Mitos da Batalha da Inglaterra

Christer Bergström

BBC History Magazine, 29/10/2015


Um teste de resistência entre a Força Aérea Alemã (Luftwaffe) e a Força Aérea Real (RAF), a Batalha da Inglaterra aconteceu entre julho e outubro de 1940. Foi a primeira grande campanha militar na história a ser travada no ar.

Mito 1: O comandante da Luftwaffe, Göring, era incompetente

De acordo com a percepção popular, o comandante da Luftwaffe, Herrmann Göring era um comandante totalmente incompetente, cujas decisões infelizes colocaram a Luftwaffe em uma posição desnecessariamente difícil. Certamente, ele era um nazista impiedoso que eventualmente alcançou um grande número de crimes contra a humanidade. Entretanto, a imagem difundida dele como um comandante aéreo totalmente incapaz precisa ser corrigida.

No começo da Segunda Guerra Mundial, a Luftwaffe, a força aérea mais eficiente do mundo, era, acima de tudo, uma criação pessoal de Göring. É claro, nem tudo da Luftwaffe surgiu de sua cabeça, mas ele teve a habilidade de colocar o homem certo no lugar certo, e ele era mais aberto a ideias novas e revolucionárias do que muitos de seus subordinados.

Göring percebeu desde cedo os benefícios de novos tipos de aviação de combate, tais como caça-bombardeiros e escolta de caças para longo alcance. Como um dos primeiros comandantes de força aérea no mundo, ele também tomou a iniciativa de criar uma força especializada de caças noturnos: logo no começo da guerra, ele ordenou que um par de unidades de caça começassem experiências  de voos noturnos. O bimotor Messerschmitt Bf110 provou ser a melhor aeronave para esta missão e, em junho de 1940, Göring decidiu reprojetar o esquadrão de caça I./ZG do capitão Wolfgang Falck tornando-se a primeira unidade regular de caças noturnos, a NJG 1 (Nachtjagdgeschwader).

Herrmann Göring também tinha um efeito inspirador sobre seus subordinados. Hans Jürgen Stumpff, que comandou a Luftflotte 5 durante a Batalha da Inglaterra, descreveu Göring como um homem “com uma resistência formidável; ele era cheio de ideias brilhantes. Após cada encontro com ele você se sentia fortemente motivado e cheio de energia.”

Mito 2: Herrmann Göring arruinou as possibilidades alemãs de vencer a batalha ao voltar a atenção sobre Londres

É um fato de que quando o comando de caças da RAF estava no limiar da destruição em consequência das missões alemãs contra sua organização em solo, os alemães desviaram o foco e começaram a bombardear, ao invés disso, Londres. Isto aconteceu em 7 de setembro de 1940, e deu à RAF uma “folga”, que foi usada para reparar suas instalações danificadas. Quando o comando de caças encontrou a Luftwaffe com força renovada, em 15 de setembro, o resultado foi a decisiva vitória que levou Hitler a cancelar a invasão planejada da Grã-Bretanha.

Herrmann Göring recebeu constantemente a culpa por esta mudança na tática. Ma um estudo de fontes de primeira mão mostram que ninguém se opôs mais a isto do que ele, isto é, desviar a ofensiva aérea para Londres.

Mito 3: O Comando de Bombardeiros teve um papel pequeno na Batalha da Inglaterra

O discurso de Winston Churchill no parlamento britânico em 20 de agosto de 1940 é bem conhecido: “Nunca, no campo do conflito humano, tantos deveram a tão pouco. Todos os corações agradecem aos pilotos de caça, cujas ações brilhantes vemos com nossos próprios olhos dia após dia.”

Contudo, precisamente o que Churchill imediatamente em seguida pediu-nos para não esquecer foi grandemente omitido na historiografia da Batalha da Inglaterra: “Mas não devemos jamais esquecer que todo tempo, noite após noite, mês após mês, nossos esquadrões de bombardeiros viajam pelo interior da Alemanha, encontram seus alvos na escuridão pela mais alta habilidade navegacional, alvejam seus ataques, mesmo sob fogo cerrado, frequentemente com perdas sérias, com discriminação deliberada cuidadosa, e inflige explosões arrasadoras sobre toda a estrutura técnica e bélica do poder nazista.”

De fato, não fosse o bombardeio britânico de Berlim do final de agosto de 1940 em diante, a Batalha da Inglaterra poderia ter terminado de forma bem diferente. As missões de pequena escala em Berlim em 1940 que foram executadas por um punhado de bombardeiros com equipamento de navegação totalmente inadequado, têm sido relegadas ao segundo plano. Mas isto ignora o principal objetivo da estratégia militar: destruir o espírito de luta do inimigo. Em 1º. de setembro de 1940, o correspondente Americano William Shirer (na época, os EUA ainda eram um país neutro) escreveu em seu diário em Berlim: “O principal efeito de uma semana de bombardeio constante britânico foi difundir grande desilusão entreo povo aqui e, sem dúvida, em seu espírito. Um me disse hoje: “Jamais acreditarei no que eles dizem. Se eles mentiram sobre o resto dos ataques no resto da Alemanha como eles fizeram aqui em Berlim, então a situação deve estar preta lá.”

O efeito direto destas missões “curtas” foi fazer Hitler ordenar a interrupção dos ataques da Luftwaffe às instalações terrestres do comando de caças da RAF e, ao invés disso, iniciar o bombardeio de Londres. É aceito universalmente que isto foi o que salvou o comando de caças da aniquilação.

Mas o comando de bombardeiros da RAF contribuiu para a vitória de outras formas também. Através de incessantes ataques noturnos, os bombardeiros da RAF atrapalharam o sono dos pilotos alemães, que – de acordo com os relatórios alemães – tiveram graves consequências. Os bombardeiros da RAF também conseguiram provocar sérios estragos nos barcos que compunham a frota de invasão alemã e, não menos, ajudaram a elevar os espíritos entre a estressada população britânica.

Mito 4: O bimotor Messerschmitt Bf 110 era inútil como caça

Começando no início de setembro de 1940, algumas unidades aéreas alemãs equipadas com o caça bimotor Messerschmitt Bf 110 foram desviadas do Canal da Mancha para serem usadas como caças noturnos. Algumas vezes, isto tem sido lembrado como uma “degradação” do Bf 110.

De fato, sob pressão constante de Hitler e da população alemã para por um fim aos ataques noturnos contra Berlim e outras cidades alemãs, Göring escolheu usar seu melhor caça, o Bf 110.

Isto poderia ser uma surpresa para muitos, pois uma noção muito comum é a de que o Bf 110 não era bom como caça diurno; que ele tinha um péssimo desempenho em combate; e por causa disso ele deveria ser planejado com a escolta de caças monomotores Bf 109. Entretanto, nenhuma dessas ideias sobrevive a uma análise mais profunda.

O caça bimotor de longo alcance Bf 110 foi o resultado de jogos de guerra conduzidos sob a supervisão de Göring no inverno de 1933/34. Estes mostraram que a visão aceita de que “os bombardeiros sempre chegarão aos seus alvos” – a noção de que independente dos caças de interceptação e das baterias de defesa aérea, um número suficiente de bombardeiros sempre chegarão aos seus alvos predeterminados, onde eles deveriam provocar danos enormes – era incorreta.


No verão de 1934, a liderança da ainda secreta Luftwaffe apresentou um estudo que sugeria o que na época era totalmente revolucionário: um caça bimotor, armado fortemente com canhões automáticos assim como metralhadoras, parra proteger os bombardeiros contra a interceptação de caças inimigos. A ideia era despachar estes caças bimotores antes, a uma alta altitude sobre a área visada para bombardeio para limpar o ar dos caças inimigos antes que os bombardeiros chegassem.

De fato, quando usado deste modo, o Messerschmitt Bf 110 foi altamente bem sucedido. Na verdade, o Bf 110 parece ter tido uma melhor razão de abate de aeronaves inimigas em relação a perdas próprias do que qualquer outro tipo de caça durante a Batalha da Inglaterra. Mesmo assim, na maioria dos relatos da Batalha da Inglaterra, os feitos do Bf 110 foram quase totalmente negligenciados (apesar disso ser em grande parte resultado da inacessibilidade dos dados sobre essa aeronave). Investigações do material disponível permitiu uma completa reavaliação do papel do Bf 110 durante a Batalha da Inglaterra. As unidades de caça Bf 110 sustentaram pesadas perdas em várias ocasiões. Na maioria dos casos, contudo, isto aconteceu porque foi ordenado que os Bf 110 voassem em missões lentas e de aproximação com os bombardeiros alemães. Naqueles casos,não havia diferença entre o que o Bf 110 sofria e o que o Bf 109 sofria. Há inúmeros casos onde unidades do Bf 109 foram absolutamente destruídas pelos caças da RAF porque elas tinham que voar em missões de escolta tolamente lentas. Assim, a unidade I./ZG 26 equipada com o Bf 110 perdeu seis aeronaves no Mar do Norte em 15 de agosto de 1940, assim como a unidade I./JG 77 equipada com o Bf 109 perdeu cinco aeronaves em 31 de agosto de 1940, tomando dois exemplos.

Mito 5: Göring desprezava os caças alemães.

Göring tem sido acusado de defender estas missões lentas e de aproximação com os bombardeiros. Na realidade, como os protocolos das conferências da Luftwaffe mostram, as coisas ocorreram de forma totalmente contrária. Ninguém defendeu que os caças alemães fossem liberados para uma caçada livre – onde eles eram mais eficientes – mais fortemente que Herrmann Göring. As pessoas que ordenaram os caças a voar estas missões de escolta próximas foram os comandantes no Canal da Mancha. Göring, de fato, favoreceu os pilotos de caça, contrariamente do que muitos deles afirmaram após a guerra, e ele encheu-os de medalhas e condecorações em relação a outros pilotos.

Mito 6: os pilotos alemães do Bf 109 eram absolutamente superiores aos pilotos de caça da RAF
         
Em anos recentes, tem sido comum revisar a Batalha da Inglaterra de um modo que dá a impressão de que os pilotos alemães do Bf 109 eram absolutamente superiores aos pilotos de caça britânicos. É claro, alguns dos pilotos da Luftwaffe mais experientes – tais como Adolf Galland e Werner Mölders – possuíam uma experiência bem maior do que a maioria dos pilotos da RAF. Mas uma comparação entre o treinamento dos pilotos britânicos e alemães mostra que eles tinham um preparo semelhante.


O que, contudo, é bem claro quando comparamos os pilotos de caça da RAF com os pilotos alemães durante a Batalha da Inglaterra é que os pilotos da RAF geralmente lutavam com mais vigor do que seus oponentes. Enquanto que não era incomum ver uma dúzia de pilotos da RAF subir para inteceptar uma formação alemã muitas vezes maior em seus relativamente obsoletos Hurricanes, formações completas de bombardeiros alemães poderiam lançar suas bombas quando os caças da RAF surgiam, ou pilotos de caça alemães ficavam satisfeitos com uma rajada de tiros sobre a formação britânica. Também houve muitos casos quando pilotos da RAF deliberadamente abordavam uma aeronave inimiga.

Comparando as perdas de caça da RAF com o número de Bf 109 perdidos, alguns autores têm chegado em épocas recentes à conclusão errada de que as unidades de Bf 109 em média derrubavam dois aviões da RAF para cada perda sua. Ao revelar o número de aeronaves da RAF que foram derrubadas pelos Bf 110, esta conclusão prova ser altamente falsa.

A versão “revisionista” da Batalha da Inglaterra, de acordo com a qual a coragem e os esforços feitos pelos pilotos da RAF é “exagerada”, também não sobrevive a uma análise. Está para além de qualquer dúvida que sem a coragem ímpar e esforço dos “Poucos”, e a contribuição feita pelas tripulações de bombardeiros da RAF, a Batalha da Inglaterra não teria sido ganha.
     

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

[HOL] Netanyahu diz que Hitler não queria exterminar judeus

Operamundi, São Paulo - 21/10/2015




O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou nesta quarta-feira (21/10) que Adolf Hitler foi influenciado a matar judeus pelo grão-mufti de Jerusalém Haj Amin al-Husseini. Segundo o chefe de governo, o plano inicial de Hitler era expulsar os judeus, mas ele teria mudado de ideia e teria sido convencido a exterminá-los após um encontro com o líder palestino.

Horas depois, com a repercussão da comunidade internacional, Netanyahu voltou atrás e disse que Hitler foi, sim, responsável, mas Husseini "incitou" o massacre.
A polêmica declaração foi dada durante o 37º Congresso Sionista Mundial em Jerusalém, em meio a uma onda de crescente violência entre israelenses e palestinos na Cisjordânia, em Gaza e em Israel, que já deixaram mais de 54 mortos, dos quais, 46 são palestinos.

"Hitler não queria exterminar os judeus naquele momento, ele queria expulsá-los. E Haj Amin al-Husseini foi até Hitler e disse: 'se você expulsá-los, eles virão todos aqui [à Palestina]", contou Netanyahu. Segundo o líder israelense, Hitler teria então perguntado: "o que eu deveria fazer com eles?" e o grão-mufti teria respondido: "queime-os".

Em resposta, o secretário-geral da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), Saeb Erekat, afirmou nesta quarta que as declarações de Netanyahu são "moralmente indefensáveis e incendiárias".

"Netanyahu odeia tanto os palestinos que está disposto a absolver a Hitler do assassinato de seis milhões de judeus", disse Erekat, acrescentando que o premiê "deveria deixar de usar esta tragédia humana para ganhar pontos para seus objetivos políticos".

O discurso de Netanyahu também gerou grande comoção e debate nas redes sociais e lembra outro episódio, em 2012, quando o premiê declarou no Knesset (Parlamento de Israel) que Husseini foi "um dos arquiteros que lideraram" o Holocausto.

Segundo o jornal israelense Haaretz, a hipótese de que o líder palestino fora o responsável por iniciar o extermínio de judeus na Europa já havia sido sugerida por alguns historiadores e pesquisadores do Holocausto, mas fora rejeitada pela maioria dos acadêmicos respeitados.

Além disso, mesmo os poucos escritores que levam em consideração o encontro de Husseini com Hitler — que ocorreu de fato em novembro de 1941 com Hitler — estes autores não conseguiram comprovar que a conversa descrita por Netanyahu é realmente verídica.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

[POL] A Aposta de Hitler

Adam Tooze

History Today, Vol. 56, Nº 11, Novembro 2006



Às 6 horas de uma manhã fria de março em 1939, Adolf Hitler destruiu a frágil paz europeia quebrada seis meses antes na Conferência de Munique ao enviar a Wehrmacht através da fronteira do que restou da Tchecoslováquia. Este ato de agressão iniciou uma escalada internacional dramática, que levou diretamente ao início da guerra em setembro de 1939. Após semanas de ocupação de Praga, Grã-Bretanha e França lançaram garantias formais de segurança da Polônia, Romênia e Grécia. Ao mesmo tempo, Londres entrou em conversas sem precedentes com Moscou em busca de uma aliança militar. A Alemanha foi confrontada com uma possível ressurreição da aliança Entente da Primeira Guerra Mundial e Hitler e Goebbels responderam elevando a propaganda de guerra a novo nível. Em 1º. de abril de 1939, durante o lançamento do encouraçado Tirpitz em Wilhelmshaven, Hitler discursou para uma enorme plateia sobre os horrores do bloqueio e da perfídia de Albion[1]. Enquanto isso, diplomatas alemães trabalharam duro para persuadir a Itália e o Japão para forjar uma ameaça tripla real ao Império Britânico. No final, nenhum lado estava capaz d alcançar sua desejada coalizão. O Japão se recusou a ser arrastado a uma aliança ofensiva contra a Grã-Bretanha. Stalin desconfiava de Chamberlain. Assim, em agosto, em uma extraordinária reviravolta, Molotov e Ribbentrop concluíram o Pacto Nazi-Soviético. Hitler lançou suas tropas contra a Polônia em 1º. de setembro, tranquilo em saber que a União Soviética receberia seu quinhão da conquista. Dois dias depois, obedecendo suas declarações de seis meses antes, França e Grã-Bretanha declararam guerra à Alemanha.

Com relação a essa descrição básica não há desacordo entre os historiadores. Mas por que Hitler escalou a tensão internacional até este ponto permanece uma questão controversa. Há aqueles historiadores – notavelmente Richard Overy e Ian Kershaw – que continuam a manter que Hitler não pretendia de fato provocar uma guerra geral com a Polônia no outono de 1939. Eles citam o discurso fanfarrão de Hitler de 22 de agosto de 1939 para os militares alemães, no qual ele afirmava que “os homens de Munique” encolheriam diante de uma guerra contra a Polônia. Ian Kershaw fala de um “erro de cálculo”. Mas isto não é universalmente aceito. Entre os historiadores britânicos era uma visão mais oposta de forma amarga pelo falecido Tim Mason, que nas páginas de Passado e Presente em 1989 se envolveu em uma disputa furiosa com Overy na questão de se Hitler havia sido ou não direcionado a uma guerra devido a uma crise econômica inevitável. Em um tom mais comedido mas não menos determinado, a tese de uma “guerra não pretendida” foi consistentemente rejeitada por Gerhard Weinberg, a maior autoridade americana na política externa de Hitler. É claro que ninguém questiona que Hitler teria preferido ocupar a Polônia sem se envolver com as potências ocidentais. E isto era claramente um desejo fervorosamente compartilhado pela maioria dos líderes militares alemães. Entretanto, como Weinberg e outros argumentam, desde o início da crise dos Sudetos em maio de 1938 em diante, Hitler sabia que ele eventualmente confrontaria as potências ocidentais. E em outono de 1939 ele atacou a Polônia porque ele decidiu que estava disposto a arriscar uma guerra maior mais cedo do que tarde.

Mas o que empurrou Hitler nesta agressão implacável e, no final, autodestrutiva? O principal biógrafo alemão de Hitler, Joachim Fest, argumenta que foi o crescente senso de mortalidade do Führer que o convenceu que ele não tinha tempo a perder. O caso Weinberg-Mason, pelo contrário, está fundamentado em considerações de balanço de poder num sentido mais amplo. Albert Speer mais tarde lembrou que no outono de 1939 Hitler estava assombrado pela ideia de que ele poderia perder uma oportunidade estratégica crucial. Ele tinha que atacar mais cedo ao invés de depois porque ele sabia que a vantagem militar que a Alemanha na época desfrutava sobre seus inimigos estava desvanecendo. E ele deixou claro isto explicitamente na correspondência com Mussolini na primavera de 1940. Da primavera de 1939 em diante, os “círculos decisivos no governo britânico” haviam se posicionado para a “eliminação” dos “estados totalitários”. A introdução sem precedentes do alistamento obrigatório por Chamberlain e a aceleração de gastos com a RAF (Força Aérea Real) tinham implicações diretas para os planos estratégicos de Hitler. “Tão longe quanto a Wehrmacht estava preocupada,” escreveu Hitler, “em virtude do rearmamento forçado da Inglaterra, um desvio significativo no balanço de forças a nosso favor era mal concebível. E em direção do leste a situação poderia somente se deteriorar.” É claro, para Overy isto cheira a racionalização ex post. Nesta visão, Hitler estava certamente preparando a Alemanha para guerra contra Grã-Bretanha e França, mas em uma época tão longe quanto 1942. A Polônia não seria uma confrontação, mas uma “ação política”.

Desde a troca de farpas entre Overy e Mason no final dos anos 1980, as posições permaneceram quase as mesmas. Enquanto outras áreas da historiografia do Terceiro Reich moveram-se adiante nas últimas duas décadas, um clima de tédio estabeleceu-se em torno da questão da guerra e do estado da economia de armamentos no final dos anos 1930. Como romper esse atoleiro intelectual? À luz da natureza contraditória das elocuções de Hitler ao longo de 1938 e 1939, o dogmatismo claramente não é convocado. Contudo, referência a nova evidência documental pode ser capaz de romper o equilíbrio das probabilidades, permitindo um esforço novo para relacionar hipóteses sobre a política externa de Hitler para nossa compreensão da história mais ampla de seu regime. Em particular, precisamos explorar as conexões entre a outra principal obsessão de Hitler – a “guerra racial” – e sua avaliação da situação estratégica da Alemanha em 1939.

O arquivo diplomático do Terceiro Reich foi extensamente estudado. Mas o mesmo não se pode dizer do material pertencente aos aspectos econômicos e industriais do rearmamento. Se seguirmos o curso do rearmamento alemão no final dos anos 1930 através dos olhos de seus administradores militares, torna-se claro que Hitler não estava com conversa fiada quando ele se referiu a 1939 como uma janela de oportunidade estratégica. Documentos previamente negligenciados sobre o esforço do gerenciamento dos armamentos alemães mostram precisamente isso. Na primeira metade de 1939, no momento que Grã-Bretanha e França estavam acelerando seus esforços de rearmamento, o muito alardeado rearmamento do Terceiro Reich estava em problemas sérios.

Em 19 de junho de 1939, o general Walther Von Brauchitsch, comandante-em-chefe do Exército alemão, enviou cartas desesperadas a Hitler e seu colega Wilhelm Keitel, chefe do Alto Comando da Wehrmacht. A carta a Keitel começava:

Caro Keitel

A provisão atual de matéria-prima para o Exército... está insuportável... O chefe do Departamento de Armas do Exército reportou-me a perspectiva do impacto em matéria de contratos. Olhando como um todo, significa uma total liquidação do esforço de armamento do Exército... se as reduções em rações anunciadas pelo estafe econômico militar da Wehrmacht fossem implantados, uma grande parte da indústria de armamentos do Exército entraria, num período curto de tempo, em total colapso... Estas preocupações sérias levaram-me a direcionar minha carta pessoal ao Führer em 19 de junho de 1939, uma cópia da qual foi enviada a você.

Brauchitsch não estava simplesmente tentando obter concessões para o Exército exagerando o drama da situação. Teria sido extremamente perigoso fazer isso. Após seus confrontos com a liderança do exército em relação à crise dos Sudetos em 1938, Hitler proibiu os oficiais de estafe de bombardeá-lo com previsões pessimistas da situação do armamento. Quando, umas poucas semanas após a carta de Brauchitsch, Hitler solicitou uma avaliação atualizada da produção de munição e seu desenvolvimento possível nos próximos dezoito meses, o oficial responsável pessoalmente checou duas vezes os cálculos para garantir que eles não haviam sido embelezados pelo pessimismo de conveniência. O número apresentado a Hitler mostrou uma linha reta, que pelo verão de 1940 era 70% abaixo da capacidade ótima considerando um complemento real de cobre e aço.

Nem os problemas estavam confinados ao Exército. A indústria aeronáutica estava sofrendo dos mesmos cortes severos nas alocações de matérias-primas. O rápido aumento na produção do novo bombardeiro de médio alcance Junkers 88, a peça central do planejamento da Luftwaffe no final dos anos 1930, foi somente preservado cortando a produção planejada de todas as outras aeronaves, incluindo o famoso bombardeiro de mergulho Stuka – Ju 87. Em virtude dos cortes severos na alocação de cobre e alumínio, a Luftwaffe foi obrigada a adotar um programa de aquisição ainda mais arriscado, trocando modelos de combate testados por aviões que apenas tinham passado no teste de qualificação de voo.

A causa deste revés perigoso na produção de armamentos na primeira metade de 1939 foi o problema que ele assombrava os gestores da economia alemã desde o início dos anos 1930 – o equilíbrio entre a necessidade por alimentos e matérias-primas importadas do país e sua habilidade em vender bens manufaturados como exportação.

As exportações alemãs no período entre-guerras não foram da mesma magnitude que tinham sido antes de 1914, ou que se tornariam após 1945. Ao longo do período entre-guerras, o Reichsmark estava cronicamente sobrevalorizado, tornando as exportações não competitivas e os produtos importados desproporcionalmente baratos. O problema foi agravado após a ascensão de Hitler ao poder pela reação internacional ao tratamento dispensado à população judaica[2] e a moratória forçada da Alemanha do pagamento das dívidas internacionais. Para ficar ainda pior, a partir de 1934, o Reichsbank praticamente estava sem reservas com as quais poderia fornecer cobertura temporária para qualquer escassez nas exportações. Em 1939, mesmo permitindo que grandes quantidades de ouro e moedas estrangeiras tomadas na Áustria e Tchecoslováquia, o Terceiro Reich conseguiu com moeda estrangeira reservas de menos de um sétimo daquelas disponíveis no Banco da Inglaterra. Não é coincidência que o conhecido Reinhardt Heyndrich tenha provado ele mesmo a Göring – o homem que mais tarde deu-lhe a ordem para a execução da Solução Final – como chefe de uma unidade policial especial encarregada de rastrear as últimas reservas pessoais de ouro e moeda estrangeira na Alemanha, tanto de proprietários arianos quanto de judeus.

Três vezes entre 1933 e 1939, o regime de Hitler acelerou dramaticamente o passo da recuperação econômica e rearmamento somente para descobrir que poderia enfrentar uma potencialmente perigosa escassez de moeda estrangeira. Em 1934, 1936-37 e 1939, ele flertou com a crise. Toda vez a crise era resolvida, mas às custas de corte de um ou outro aspecto da expansão econômica. A famosa citação de Göring entre “canhões ou manteiga” não foi feita em 1936, na época do anúncio do Plano Quadrienal, mas dois anos antes durante a crise de moeda estrangeira de 1934, que forneceu o pano de fundo para os eventos conhecidos como “A Noite das Longas Facas”. Assim que a liderança da SA foi eliminada para garantir o controle do Exército sobre o programa de rearmamento, as prioridades dos militares também foram brutalmente asseguradas na esfera econômica. A escolha posterior não era entre canhões e manteiga. No início de 1937 e novamente no início de 1939 era o programa de armamentos que suportou o peso dos esforços do regime nazista para conviver com a restrição do balanço de pagamentos. A produção de armamentos foi cortada, primeiramente para reduzir as demandas por matérias-primas importadas, mais notavelmente cobre e aço, e ao mesmo tempo liberar capacidade industrial, trabalho e matérias-primas para a produção de bens exportáveis. Na sua forma mais crua, o trade-off envolveu exportar armas planejadas para a Wehrmacht ou máquinas-ferramentas necessárias para produzi-las, para pagar a importação de alimentos e matérias-primas.

Ninguém deve pensar que o Führer estava desligado desses assuntos supostamente “técnicos”. Hitler era o produto de seu tempo. Sua consciência política foi formada na economia oprimida pelo bloqueio da Primeira Guerra Mundial, quando os problemas de moeda estrangeira e importação de matérias-primas eram a bola da vez nas discussões políticas. Após ele tomar o poder em 1933, ele foi diretamente envolvido na decisão da moratória da dívida externa alemã. Durante o auge da crise financeira de 1934, ele pessoalmente autorizou a decisão do Ministro da Economia Hjalmar Schacht de cortar gastos na importação de bens através do chamado “Novo Plano”. Dois anos depois, foi Hitler que tomou a decisão final sobre a resolução dos problemas cambiais renovados e lançar o Plano Quadrienal de Göring. Mais importante, do outono de 1937 e possivelmente antes, nenhuma realocação de aço e racionamento de matérias-primas seria executada sem a aprovação do Führer. Em 1939, como vimos, ele estava bem informado das dificuldades experimentadas pelo Exército e Força Aérea como resultado do racionamento de matérias-primas. De fato, Hitler escolheu um de seus discursos mais significativos de toda sua carreira, o discurso celebrando o sexto ano da tomada de poder pelos nazistas em 30 de janeiro de 1939 para alertar os problemas financeiros do país.

O discurso de 30 de janeiro de Hitler é hoje extensamente conhecido como o momento decisivo na história do seu regime, pois ao longo de duas horas e meia ele fez um dos pronunciamentos públicos mais enfáticos sobre a “Questão Judaica”. “Se,” ele declarou, “a judiaria financeira internacional dentro e fora da Europa estiver mais uma vez decidida a instigar uma guerra mundial, então o resultado será não a vitória dos judeus, mas a destruição da raça judaica na Europa.” O termo-chave aqui é “guerra mundial”, que fornece uma pista para quem o discurso foi direcionado. Poucas semanas antes, em 4 de janeiro, em seu Discurso sobre o Estado da União, o presidente Roosevelt desafiou Hitler diretamente. Após o Anschluss, a crise dos Sudetos e a Noite dos Cristais, Roosevelt declarou que qualquer nação que não respeitasse a religião, democracia ou a “boa-fé internacional” apresentar-se-ia como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Era a Roosevelt que Hitler estava respondendo em 30 de janeiro. A estrutura principal do discurso de Hitler deixa isso claro, com longas e inexplicáveis passagens sobre o financiamento das igrejas na Alemanha, projetadas para desarmar o ataque de Roosevelt contra a irreligiosidade nazista. E isto é crucial porque aponta para um desvio altamente significativo na visão de mundo de Hitler ao longo de 1938. Como resultado da resposta americana à perseguição antissemita que se seguiram ao Anschluss (que culminou no esforço falho de Roosevelt na Conferência Evian para buscar uma solução internacional para o problema dos refugiados judeus), seguido de outro ultraje público em consequência da Noite dos Cristais, Hitler e a liderança da SS convenceram-se que o centro da conspiração judaica mundial deslocou-se pelo Atlântico em direção de Washington e Wall Street. Isto, por sua vez, refletia na situação da Europa, pois da América, os tentáculos da “conspiração” se estendiam para a política externa da Grã-Bretanha e França. Para Berlim, era Roosevelt que estava por trás da crescente hostilidade de Londres e Paris em relação à Alemanha. De fato, dada a insistência de Hitler desde os tempos do Mein Kampf de que a Grã-Bretanha era o parceiro natural do expansionismo alemão, o único modo de explicar o enrijecimento “antinatural” da determinação britânica era pela ação dos belicistas judeus americanos e seus marionetes, particularmente Winston Churchill.

Entretanto, a guerra total foi o último recurso do polvo judaico. Seu principal meio de influência contra a Alemanha era econômico. E é aqui que as duas vertentes desta reinterpretação da estratégia de Hitler em 1939 se reconectam. Poucos historiadores leram o discurso de 30 de janeiro de cabo a rabo. Isto é compreensível. Repleto de grande parte do clichê hitlerista de costume, foi um desempenho desgastante mesmo para seus padrões. Porém, uma inspeção casual do texto é o suficiente para revelar que uma grande parte, até a famosa ameaça à judiaria europeia, foi feita com uma discussão dos problemas econômicos da Alemanha, oferecendo uma justificativa tácita da decisão de Hitler dez dias antes de sacar Hjalmar Schacht, o chefe altamente respeitado do Reichsbank, e substituí-lo por Walther Funk, um bajulador nazista. Esta ação para garantir comando unificado pelo Partido, e consequentemente pelo próprio Führer, foi necessário, de acordo com Hitler, devido à situação delicada em que a Alemanha se encontrava. Após a exaustão da herança austríaca ao longo de 1938, as reservas cambiais da Alemanha estavam novamente em perigo de completa exaustão, um ponto conhecido por Göring ainda em novembro de 1938. Em resposta a essa situação, Hitler exigiu que todo alemão direcionasse suas energias em direção de uma nova motivação que garantiria ao Terceiro Reichfazer a quadratura do círculo: continuar o programa de armamentos e garantir as exportações necessárias. A Alemanha, declarou Hitler, enfrentava uma dura escolha “entre viver – isto é, exportar – ou morrer.” O Führer não tinha falado em tal tom pessimista sobre a situação econômica em qualquer momento desde sua ascensão ao poder, nem em 1934 nem em 1936. E quem eram os principais culpados por esta situação de emergência econômica? Os inimigos da Alemanha no Ocidente, que apoiados pelos seus apoiadores judeus estavam fechando as portas de seus países aos produtos alemães e, por meio da pressão política e econômica, conseguiram negar acesso à Alemanha aos lucrativos mercados da América Latina.

Neste momento crucial do regime de Hitler, foi a ideologia racial que forneceu a ponte entre sua avaliação estratégica e sua compreensão das dificuldades econômicas alemãs. Avaliar os impulsos ideológicos em relação à política externa de Hitler em 1939 pode parecer paradoxal à luz do fato de que Hitler terminou indo à guerra contra a Grã-Bretanha em aliança com a União Soviética, o oposto da aliança que ele havia conclamado no Mein Kampf. Contudo, o núcleo de sua ideologia não era um esquema particular de aliança, mas uma visão de mundo baseada na ideia de uma luta racial implacável. Em 1938, o centro da conspiração antialemã pareceu ter atravessado o Atlântico e tinha acrescentado, por sua vez, uma ameaça ao precário equilíbrio da corrida armamentista e aos problemas crônicos da balança de pagamentos internacionais da Alemanha. Os alemães estavam cientes de que no inverno de 1938-39, militares franceses foram à América inspecionar os bombardeiros da Boeing de última geração. Não era segredo que Roosevelt estava ansioso em conseguir que o Congresso modificasse a legislação restritiva de exportação de armas para as democracias amigas. Por outro lado, as relações econômicas entre os EUA e a Alemanha, antes no topo durante a República de Weimar, estavam em baixa. Elas foram reduzidas ainda mais  em 18 de março de 1939, quando em resposta à ocupação de Praga Roosevelt impôs tarifas proibitivas sobre os produtos importados da Alemanha.

Foi o alinhamento progressivo óbvio da América com as democracias ocidentais, um alinhamento que era mais ideológico do que prático neste ponto, que deu extrema urgência à questão da corrida armamentista. Em maio de 1939, o especialista econômico da Wehrmacht compilou uma avaliação do esforço armamentista geral das principais potências globais que mostravam que com os EUA gastando apenas 2% de seu PIB em armamentos, as “três democracias” estariam superando a Alemanha e Itália juntas. Para qualquer entendido em estratégia convencional este tipo de cálculo sugeriria que qualquer guerra em larga escala seria uma proposta de derrota para a Alemanha. Mas a reação de Hitler às dificuldades econômicas de 1939 não podem ser entendidas em tais termos. Ele via a situação através das lentes de sua ideologia racial. E isto ditou que o conflito era inevitável. Ele poderia ter desejado, como ele sugeriu no famoso memorando Hossbach de novembro de 1937, lutar uma “grande guerra” contra a Grã-Bretanha e França em um momento de sua escolha em algum ponto no começo dos anos 1940, mas no início de 1939 os passos dos eventos tornaram tais planos de longo prazo inviáveis. Com a América, França e Grã-Bretanha aparecendo como aliadas, não havia tempo a perder. Se os inimigos convictos de Hitler estavam improvisando, assim faria ele. Era tempo de, como ele explicou para Göring em agosto de 1939, de colocar tudo em risco, apostar tudo. Do contrário, confrontado por uma coalizão global organizada por seus inimigos judeus implacáveis, a Alemanha enfrentaria a ruína.                                               

       
Notas:

[1] Albion é o nome celta ou pré-céltico da Grã-Bretanha. Atualmente é ainda usado, na linguagem poética, para designar a ilha ou a Inglaterra em particular.

[2] Como é bem conhecido, a comunidade judaica americana organizou um boicote econômico contra a Alemanha Nazista em virtude das medidas antissemitas de Hitler, pedindo para que o público não comprasse produtos alemães. O resultado político foi o “Acordo de Transferência”, quando então o Terceiro Reich fez um acordo com as lideranças sionistas alemãs e permitiu a migração de dezenas de milhares de judeus alemães para a Palestina. Até 1941, 60.000 judeus foram transferidos para a região, levando consigo, a preços de hoje, cerca de U$ 1 bilhão.



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sábado, 19 de setembro de 2015

[SGM] Os Muçulmanos na Guerra de Hitler

David Moadel

History Today, Vol. 65, Nº 9, set/2015


Tunis, 19 de dezembro de 1942. Era o dia da Eid Al-Adha, a festa islâmica do sacrifício. A retirada do exército de Rommel tornou a cidade um enorme campo militar. No final da tarde, uma frota alemã de quatro carros grandes percorreu calmamente a principal rua de Tunis, a Avenida de Paris, deixando a capital em direção da cidade costeira de Hamman Lif. O comboio continha o General de Divisão Hans-Jürgen Von Armin, comandante da Wehrmacht na Tunísia, Rudolf Rahn, o cônsul de Hitler em Tunis e o mais alto funcionário do Reich na África do Norte, e alguns alemães de alta patente. Eles iriam  visitar o governador de Tunis, Muhammad VII Al-Munsif, que permaneceu o governante nominal da Tunísia, para desejar-lhe felicidades pelo feriado sagrado e mostrar seu respeito ao Islã. Em frente ao Palácio de Inverno de Hamman Lif, centenas de populares saudavam o comboio; a guarda tunisiana estendeu-lhes boas-vindas oficiais. Nas conversações com o monarca, os alemães prometeram que o próximo Eid Al-Adha ou Eid Al-Kabir, como é conhecido na Tunísia, aconteceria em uma época de paz e que a Wehrmacht faria tudo para manter a guerra longe da população muçulmana. Mais importante que as consultas, contudo, foi o respeito público alemão para o Islã. De volta ao quartel em Tunis, Rahn entusiasticamente telefonou para Berlim, clamando para o uso propagandístico da “recepção solene” na celebração Eid al-Kabir. Nos dias seguintes, a propaganda nazista espalhou as notícias pela África do Norte, retratando o Terceiro Reich como protetor do Islã.

No auge da Segunda Guerra Mundial, em 1941-42, enquanto as tropas de Hitler marchavam nos territórios habitados por muçulmanos na África do Norte, os Balcãs, Criméia e o Cáucaso e se aproximava do Oriente Médio e Ásia Central, diplomatas em Berlim começaram a ver o Islã como politicamente significativo. Nos anos seguintes, eles fizeram tentativas significativas para promover uma aliança com o “mundo islâmico” contra os supostos inimigos de ambos: o Império Britânico, a União Soviética, a América e os judeus.

Mesmo assim, a razão pelo engajamento do Terceiro reich com o Islã não era somente que regiões habitadas por muçulmanos tornaram-se também zonas de guerra, mas também, talvez mais importante, é que simultaneamente a situação militar da Alemanha havia se deteriorado. Na União Soviética, a estratégia da Blitzkrieg de Hitler falhou. Enquanto a Wehrmacht era pressionada, Berlim começou a buscar coalizões de guerra mais amplas, assim demonstrando um pragmatismo extraordinário. O cortejo dos muçulmanos era para pacificar os territórios ocupados e mobilizar os crentes a lutarem ao lado dos exércitos alemães.

Diplomatas alemães flertaram gradativamente com o Islã desde o final do século XIX, quando o Kaiser governava sobre boa parte das populações muçulmanas em suas colônias do Togo, Camarões e África Oriental alemã. Aqui, os alemães conseguiram empregar a religião como uma ferramenta de controle. Tribunais da Sharia eram reconhecidos. Dotes islâmicos foram mantidos intactos, instituições de ensino mantidas abertas e feriados religiosos respeitados. Diplomatas coloniais governavam por meio de intermediários islâmicos que, por sua vez, davam legitimidade ao Estado colonial. Em Berlim, o Islã era além disso considerado uma oportunidade para exploração no contexto da Weltpolitik gulhermiana. Isto tornou-se mais óbvio durante a viagem ao Oriente Médio de Guilherme II em 1898 e seu discurso dramático, dado após visitar a tumba de Saladino em Damasco, na qual ele declarou-se um “amigo” dos 300 milhões de mamoetanos mundiais e, analogamente, nos esforços de Berlim para mobilizar os muçulmanos vivendo nos impérios britânico, francês e russo durante a Primeira Guerra Mundial. Apesar de todas as tentativas para espalhar a jihad em 1914 tenham falhado, os estrategistas alemães mantiveram um interesse forte na geopolítica do Islã.

Com o início da Segunda Guerra Mundial e o envolvimento das tropas alemãs nas regiões habitadas pelos muçulmanos, diplomatas em Berlim começaram novamente a considerar o papel estratégico do mundo islâmico. Uma instrumentalização sistemática do Islã foi primeiramente proposta no final de 1941 em um memorando do diplomata Ebhard Von Stohrer, o ex-embaixador de Hitler no Cairo. Stohrer sugeriu que deveria haver um “programa extensivo do Islã”, que incluiria uma declaração sobre “a atitude geral do Terceiro Reich em relação ao Islã”. Entre o final de 1941 e final de 1942, o Departamento do Exterior criou um programa do Islã, que incluía o emprego de figuras religiosas, mais ativamente o Mufti de Jerusalém, Amin al-Husayni, que chegou em Berlim no final de 1941. Em 18 de dezembro de 1942, os nazistas inauguraram o Instituto Central Islâmico em Berlim, que tornou-se um ponto central dos esforços de propaganda da Alemanha no mundo islâmico; o jornal do partido, o Völkischer Beobachter, escreveu um título promissor, “Esta guerra poderia trazer liberdade para o Islã!” À medida que a guerra progredia e as tropas alemãs entravam em áreas muçulmanas nos Balcãs e na União Soviética, outros departamentos do Estado nazista seguiram essas políticas.

Diplomatas alemães tendiam a ver as populações muçulmanas sob a rubrica de “Islã”. Uma vantagem de usar o Islã ao invés das categorias étnico-nacionais era que Berlim poderia evitar o assunto espinhoso da independência nacional. Além disso, a religião parecia ser uma política útil e ferramenta de propaganda para acessar populações étnica, liguistica e socialmente heterogêneas. Os alemães viam o Islã como uma fonte de autoridade que poderia legitimar o envolvimento em um conflito e mesmo justificar a violência. Em termos de barreiras raciais, o regime mostrou pragmatismo extraordinário: turcos (não-judeus), iranianos e árabes já haviam sido excluídos de qualquer discriminação racial oficial nos anos 1930, seguindo intervenções diplomáticas dos governos em Teerã, Ankara e Cairo. Durante a guerra os alemães mostraram pragmatismo semelhante quando encontraram muçulmanos dos Balcãs e das minorias turcas na União Soviética. Os muçulmanos, estava claro para todo diplomata alemão do Saara ao Cáucaso, deveria ser tratado como aliado.

Em solo africano, em contato com as populações costeiras, oficiais do exército tentaram evitar problemas. Ainda em 1941, a Wehrmacht distribuiu o panfleto Der Islam para treinar as tropas segundo o correto comportamento em relação aos muçulmanos. No deserto líbio e egípcio, autoridades alemãs cortejavam dignitários religiosos, de forma mais importante os xeiques das influentes ordens Sufi. O problema era que a força religiosa mais poderosa na zona de guerra cirenaica[1], a ordem Sanusi Islâmica[2], era a cabeça de lança da resistência anticolonial contra o domínio italiano e lutavam ao lado do exército de Montgomery contra o Eixo. De qualquer forma, as promessas de Berlim de libertar os muçulmanos e proteger o Islã tornaram-se um contraste gritante com a violência e destruição que a guerra havia trazido para a África do Norte e os alemães, no final, falharam em incitar um maior movimento pró-Eixo muçulmano na região.

Na frente oriental, a situação era bem diferente. Os muçulmanos da Criméia e do Cáucaso setentrional estavam enfrentando o poder central desde a anexação czarista nos séculos XVIII e XIX e a tomada de poder bolchevista conseguiu piorar a situação. Sob Stalin, as áreas muçulmanas sofreram perseguição política e religiosa sem precedentes. A literatura islâmica foi censurada, a lei sharia banida e a propriedade das comunidades islâmicas expropriadas. Membros do partido tomaram o controle das mesquitas, pintaram slogans soviéticas nas paredes, hastearam bandeiras vermelhas em seus mirantes e caçaram porcos no interior de suas salas sagradas. Apesar disso, o Islâ continuou a ter um papel principal na vida social e política. Após a invasão do Cáucaso e Criméia, as autoridades militares alemãs, sedentas em encontrar colaboradores locais para estabilizar as áreas de retaguarda voláteis, não perderam a oportunidade para se apresentar como libertadores do Islã. O general Edwald Von Kleist, comandante do Grupo de Exércitos A, que ocupou o Cáucaso, clamou a seus oficiais para respeitar os muçulmanos e estarem atentos às implicações pan-islâmicas das ações da Wehrmacht: “Entre todos os grupos de exército, o grupo A foi o que avançou mais. Estamos diante dos portões do Mundo Islâmico. O que fazemos, e como nos comportamos aqui será transmitido para o Iraque, Índia, e tão longe quanto as fronteiras da China. Devemos estar constantemente cientes dos efeitos de longo alcance de nossas ações e inações.” Ordens semelhantes foram emitidas pelo general Erich Von Manstein na Criméia. Em sua ordem infame de 20 de novembro de 1941, que exigia que “o sistema judaico-bolchevista seja exterminado de uma vez por todas” e que se tornou um documento-chave usado pela procuradoria em Nuremberg após a guerra, Manstein clamou a suas tropas para tratar a população muçulmana bem: “Respeito pelos costumes religiosos dos tártaros maometanos deve ser obedecida.”

Em sua tentativa de controlar áreas da retaguarda estratégicas, os alemães fizeram uso extensivo das políticas religiosas. Eles ordenaram a reconstrução das mesquitas, salas de oração e instituições de ensino e o restabelecimento dos feriados religiosos. No Cáucaso, eles organizaram celebrações enormes ao final do Ramadã em 1942, do qual o mais notável aconteceu na cidade de Karachai de Kislovodsk. Sob o domínio soviético, os muçulmanos de Kislovodsk não poderiam atender abertamente o Eid al-Fitr e a celebração tornou-se um momento-chave da diferença entre o domínio alemão e soviético. Presenciada por um grande número de altos oficiais da Wehrmacht, ela incluiu orações, discursos e trocas de presentes; os alemães levaram armas capturadas e Alcorões. No centro de Kislovodsk, uma parada de cavaleiros karachai foi organizada. Atrás da tribuna honorária para os líderes muçulmanos e oficiais da Wehrmacht, um Alcorão de grandes dimensões feito de papel mache foi apresentado, mostrando duas citações em escrita árabe. Na página direita havia o shahada, a declaração de fé: “Não existe outro deus exceto Alá/Maomé é o Seu Profeta.” Na esquerda estava o popular verso corânico (61:13): “Ajuda de Alá/e uma vitória próxima virá”. Pregada acima do Alcorão estava uma enorme águia de madeira do Reich com uma suástica. Na Criméia, os alemães chegaram a estabelecer uma administração islâmica, os chamados “Comitês Muçulmanos”. No final, as esperanças de liberdade entre os muçulmanos das fronteiras soviéticas foram despedaçadas. As atitudes dos oficiais nazistas em relação à população muçulmana esfriaram quanto maior era o período de ocupação. Soldados comuns alemães, influenciados pela propaganda difamando os povos asiáticos da União Soviética como sub-humanos, não estavam preparados para lidar com os muçulmanos. Mesmo pior, após a retirada alemã, Stalin acusou as minorias muçulmanas de colaboração coletiva com o inimigo e ordenou sua deportação.

Panfleto alemão sobre o Islã

A situação nos Balcãs era novamente diferente. Quando os alemães invadiram e dissolveram a Iugoslávia em 1941, eles inicialmente não se envolveram nas regiões habitadas pelos muçulmanos, das quais as mais importantes eram a Bósnia e Herzegovina, caíram sob o controle do novo Estado croata ustasha. O regime ustasha, liderado pelo ditador fantoche de Hitler, Ante Pavelich, oficialmente tentou cortejar seus cidadãos muçulmanos, enquanto matava judeus e ciganos e perseguia os sérvios ortodoxos. A partir do início de 1942, contudo, a região tornou-se gradativamente engolida por um conflito grave entre o regime croata, os partisans comunistas de Tito e os sérvios chetnics ortodoxos de Mihailovich, que estavam lutando por uma grande Sérvia. A população muçulmana era repetidamente atacada pelas três facções. As autoridades ustasha empregaram unidades armadas muçulmanas para lutar tanto contra os partisans de Tito quanto contra as milícias chetnics. Logo, vilas muçulmanas tornaram-se objeto de ataques retaliatórios. O número de vítimas muçulmanas cresceu às dezenas de milhares. As autoridades ustasha fizeram pouco para prevenir esses massacres. Representantes da liderança muçulmana buscaram ajuda dos alemães, pedindo autonomia muçulmana sob a proteção de Hitler. Em um memorando de 1º. de novembro de 1942, eles declararam seu “amor e obediência” ao Führer e se ofereceram em lutar com o Eixo contra o “judaísmo, maçonaria, bolchevismo e os exploradores britânicos.” Diplomatas em Berlim ficaram excitados.

À medida que a guerra civil nos Balcãs fugiu ao controle, os alemães tornaram-se mais e mais envolvido com as áreas de população muçulmana. Em suas tentativas de pacificar a região, a Wehrmacht e, mais acentuadamente, a SS viram os muçulmanos como aliados bem-vindos e promoveram a Alemanha Nazista como protetora do Islã na Europa meridional. A campanha começou na primavera de 1943, quando a SS enviou o Mufti de Jerusalém em uma viagem para Zagreb, Banja Luka e Sarajevo, onde ele encontrou líderes religiosos e fez discursos pró-Eixo. Quando visitou a grande mesquita de Gazi Husrev Beg em Sarajevo, ele fez um discurso tão emocionado que algumas pessoas caíram em lágrimas. Nos meses seguintes, os alemães lançaram uma campanha maciça de propaganda religiosamente carregada. Simultaneamente, eles começaram a se envolver mais intimamente com dignitários e instituições islâmicas, já que eles acreditavam que os líderes religiosos mantinham grande influência sobre o povo. Os muçulmanos estavam formalmente sob a autoridade do conselho mais alto religioso, o Ulema-Medzlis, e funcionários nazistas repetidamente consultavam seus membros e tentavam cooptá-los. Muitos líderes muçulmanos esperavam que os alemães os ajudariam a fundar um Estado islâmico. Logo, contudo, tornou-se claro que a Wehrmacht e a SS não seriam capazes de pacificar a região; ao mesmo tempo, o apoio alemão à população muçulmana alimentou o ódio partisan e chetnic contra eles. A violência escalou. No final, um quarto de milhão de muçulmanos morreu no conflito.

Quando a maré da guerra voltou-se contra o Eixo a partir de 1941, a Wehrmacht e a SS recrutaram dezenas de milhares de muçulmanos, incluindo bósnios, tártaros criméios e muçulmanos do Cáucaso e Ásia central – principalmente para salvar sangue alemão. Os soldados muçulmanos lutaram em todas as frentes, eles foram colocados em Stalingrado, Varsóvia e na defesa de Berlim. Os oficiais do exército alemão garantiam a esses recrutas uma grande variedade de concessões religiosas, levando em conta o calendário islâmico e as leis religiosas, tal como as exigências dietéticas. Eles inclusive liberaram o ritual do sangramento, uma prática que foi proibida por razões antissemitas pela lei de Hitler da proteção de animais de 1933[3] Um papel central nas unidades foi retratado pelos imãs militares, que eram responsáveis não somente pela saúde espiritual, mas também pela doutrinação religiosa. Quando falou a membros do partido nazista sobre o recrutamento de muçulmanos na SS em 1944, Himmler explicou que o apoio do Islã tinha apenas motivos pragmáticos: “Não tenho nada contra o Islã, porque ele educa os homens nesta divisão para mim e promete o paraíso a eles quando eles lutam e são mortos em combate. Uma religião prática e atraente para soldados!” Após a guerra, muitos muçulmanos que lutaram nas unidades alemãs, especialmente aqueles da União Soviética e Balcãs, enfrentaram uma retaliação brutal.

O envolvimento dos alemães com muçulmanos não era de modo algum harmonioso. As políticas nazistas em relação ao Islã, como elaboradas pelos burocratas em Berlim, regularmente se chocavam com as realidades do campo de batalha. Nos primeiros meses após a invasão da União Soviética, os esquadrões da SS executaram milhares de muçulmanos, especificamente prisioneiros de guerra, pensando que sua circuncisão significasse que eram judeus. Um encontro de alto nível da Wehrmacht, SS e o Ministério do Reich para os Territórios Orientais Ocupados foi realizada no verão de 1941, na qual o coronel Erwin Von Lahousen, que representou Wilhelm Canaris, o chefe da inteligência da Wehrmacht, teve uma discussão acalorada com o chefe da Gestapo Heinrich Müller sobre estas execuções. Em particular, a seleção de centenas de muçulmanos tátaros que foram enviados para “tratamento especial” porque eles foram confundidos com judeus, foi levantado. Müller calmamente reconheceu que a SS havia cometido alguns erros a esse respeito. Era a primeira vez, ele afirmou, que ele havia ouvido falar que muçulmanos também eram circuncidados. Umas poucas semanas depois, Reinhard Heydrich, o chefe do Departamento de Segurança do Reich da SS de Himmler, enviou uma ordem alertando as Forças-Tarefa da SS para serem mais cuidadosas: “A circuncisão e aparência judaica não constituem prova suficiente da descendência judaica.” Muçulmanos não deveriam ser confundidos com judeus. Nas áreas ocupadas por muçulmanos, outras características, como nomes, deveriam ser levados em consideração.

Nas fronteiras meridionais da União Soviética, porém, os esquadrões da morte nazistas ainda tinham dificuldades de diferenciar muçulmanos de judeus. Quando o Einsatzgruppe D começou a matar a população judaica do Cáucaso e Criméia, ela encontrou uma situação especial em relação a três comunidades judaicas que estavam há muito tempo convivendo com a população muçulmana e eram influenciados pela cultura islâmica: os Caraites e os krimchaques na Criméia e os Tat-judeus, também conhecidos como “judeus das montanhas”, no Cáucaso meridional[4].                        

Na Criméia, os oficiais da SS ficaram intrigados quando encontraram os Caraitas e Krimchaques de língua turca. Ao visitar Simferopol em dezembro de 1941, dois oficiais da Wehrmacht, os majores Fritz Donner e Ernst Seifert, relataram que era interessante notar que: “Uma grande parte destes judeus da Criméia é de fé maometana, enquanto também existem grupos raciais do Oriente Próximo de caráter não semita que, curiosamente, adotaram a fé judaica.” A confusão entre os alemães sobre a classificação dos Caraitas e Krimchaques  que eram, de fato, ambas comunidades judaicas, foi surpreendente. No final, os Caraitas foram classificados como turcos e poupados, enquanto os krimchaques foram considerados etnicamente judeus e mortos. De acordo com Walter Gross, chefe do Departamento Racial do NSDAP (Partido Nazista), os caraitas foram excluídos da perseguição por causa de sua relação próxima com os tártaros muçulmanos aliados.

No Cáucaso, representantes dos Tat-judeus, uma minoria de ancestralidade iraniana, levou seu caso às autoridades alemãs. A SS iniciou investigações, visitando casas, participando de celebrações e pesquisando os hábitos da comunidade. O Oberführer da SS Walter Bierkamp, então chefe do Einsatzgruppe D, pessoalmente visitou uma vila dos “judeus da montanha” na área Nalchik. Durante esta visita, os judeus Tat foram extremamente hospitaleiros e Bierkamp encontrou que, fora sua religião, eles não tinham nada a ver com judeus. Ao mesmo tempo, ele reconheceu a influência islâmica, já que os Tats também praticavam relações poligâmicas. Bierkamp imediatamente deu ordens que esses povos não fossem perseguidos e que, no lugar de “judeus das montanhas”, o termo “Tats” fosse usado.

Em outras zonas de guerra, analogamente, as autoridades nazistas e seus colaboradores locais enfrentaram dificuldades em distinguir entre judeus e muçulmanos, particularmente nos Balcãs. A posição privilegiada dos muçulmanos (e, de fato, católicos) no Estado ustasha parecia, para muitos judeus, oferecer uma oportunidade para evitar a perseguição. Logo, muitos tentaram escapar da repressão e deportação por meio da conversão ao Islã. Somente em Sarajevo, cerca de 20% da população judaica deve ter convertido ao Islã ou ao catolicismo entre abril e outubro de 1941; dada sua circuncisão, muitos acharam mais fácil a opção do Islã. No outono de 1941, as autoridades utasha finalmente intervieram, proibindo estas conversões e mesmo aqueles que já haviam se convertido ainda não estavam a salvo da perseguição já que era a raça, e não a religião, que definia o judaísmo na visão dos alemães e dos burocratas utasha. Mesmo assim, um número de judeus convertidos e não-convertidos conseguiu fugir do país disfarçados de muçulmanos; alguns deles – homens e mulheres – vestindo roupas típicas.

Finalmente, o assassinato dos ciganos europeus envolveu os muçulmanos diretamente. À medida que os alemães começaram a varrer os territórios ocupados da União Soviética, eles logo encontraram muitos ciganos muçulmanos. De fato, a maioria dos ciganos na Criméia eram islâmicos. Eles tinham, por séculos, sido assimilados pelos tártaros, que agora mostravam solidariedade extraordinária para com eles. Os representantes muçulmanos enviaram várias petições aos alemães pedindo a proteção aos seus correligionários ciganos. Apoiados pelos tártaros, muitos ciganos muçulmanos pensaram em se passar por tártaros para escapar da deportação. Alguns usaram o Islã. Um exemplo foi do cerco aos ciganos em Simferopol em dezembro de 1941, quando aqueles capturados tentaram usar símbolos religiosos para convencer os alemães que sua prisão era um erro. Uma testemunha anotou em seu diário:

Os ciganos chegaram em massa em carruagens ao prédio Talmud-Torá. Por algum motivo, eles ergueram uma bandeira verde, o símbbolo do Islã, e colocaram um mulá[5] à frente da procissão. Os ciganos tentaram convencer os alemães de que eles não eram ciganos; alguns afiramaram ser tártaros, outros turcos. Mas seu protesto foi ignorado e todos foram colocados dentro do grande prédio.

No final, muitos ciganos muçulmanos foram mortos, mas como os alemães tinham dificuldade em distinguir o muçulmano cigano do muçulmano tártaro, alguns – cerca de 30% - sobreviveu. Durante seu interrogatório no Julgamento dos Einsatzgruppen em Nuremberg, quando perguntado sobre a perseguição aos ciganos na Criméia, Ohlendorf[6] explicou que a varredura foi prejudicada pelo fato de que muitos ciganos compartilhavam da mesma religião dos tártaros da Criméia: “Esta era a dificuldade, pois alguns dos ciganos – senão todos eles – eram muçulmanos, e por este motivo dedicamos grande importância ao assunto em não ter problemas com os tártaros e, portanto, pessoas foram empregadas nesta tarefa que sabiam os lugares e os povos.”

Os muçulmanos dos Balcãs também foram afetados pela perseguição aos ciganos, já que muitos deles tinham fé islâmica. Quando os alemães e seus aliados utasha começaram a perseguir a população cigana, eles inicialmente alvejavam o grande assentamento de muçulmanos ciganos da Bósnia e Herzegovina, os chamados “ciganos brancos”. No verão de 1941, os ciganos muçulmanos reclamaram às autoridades religiosas islâmicas sobre sua discriminação. Uma delegação de representantes muçulmanos solicitou às autoridades que os ciganos muçulmanos deveriam também ser considerados parte da comunidade muçulmana e que qualquer ataque a eles seria considerado um ataque à própria comunidade islâmica. Ansiosos em cortejar os muçulmanos, diplomatas ustasha e alemães eventualmente excluíram os ciganos muçulmanos da perseguição e deportação. Quando lançaram suas políticas pró-muçulmanas, os burocratas alemães não tinham considerado que o grupo populacional (racialmente definido), “muçulmanos”, que eles tentavam conseguir como aliados, poderia conter grupos populacionais (racialmente definidos), judeus e ciganos, que deveriam ser perseguidos.

Nos últimos meses de Guerra, Escondido no bunker de Berlim, Hitler lamentou que as tentativas do Terceiro Reich em mobilizar o mundo islâmico tenham falhado, já que eles não eram fortes o bastante. “Todo o Islã vibrou com as notícias de nossas vitórias e os muçulmanos estavam preparados para erguer em revolta,” ele disse a seu secretário, Martin Bormann. “Um movimento poderia ter sido incitado na África do Norte que teria agitado o resto do mundo islâmico. Apenas pense no que poderíamos ter feito para ajudá-los, mesmo para incitá-los, assim como poderia ter sido feito para nossa missão e interesse!”

No final, as tentativas alemãs de tornar os muçulmanos aliados foram menos bem sucedidas do que os estrategistas de Berlim haviam calculado. Eles foram mobilizados muito tarde e enfrentaram as duras realidades da guerra. Mais importante, as afirmações do Terceiro Reich de que ele protegia a fé careciam de credibilidade, já que muitos muçulmanos nas zonas de guerra estavam cientes de que eles serviam a interesses políticos profanos. Os alemães também falharam em incitar um levante maior muçulmano contra os aliados. Apesar de dezenas de milhares de muçulmanos tenham sido recrutados nos exércitos nazistas, no final, os britânicos, franceses e soviéticos foram mais bem sucedidos em mobilizar suas populações islâmicas: centenas de milhares lutaram contra a Alemanha nazista. Somente da África do Norte francesa, quase um quarto de milhão. Os muçulmanos se alistaram nas forças de de Gaulle, tomando parte na libertação da Europa.  


Notas:

[1] Cirenaica é o nome da costa oriental da moderna Líbia, uma referência à cidade mais importante da região na antiguidade, Cirene.

[2] Em 1843, Muhammad ibn Ali al-Sanusi fundou a Ordem Sanusi, que era um movimento que pregava o renascimento islâmico, defendendo uma visão austera, um retorno ao islamismo simples e ortodoxo pregado por Maomé, em oposição ao sufismo, que tinha grande presença na região.

[3] Ver tópico “Animais no Terceiro Reich: Política de Proteção e Holocausto”

 

http://epaubel.blogspot.com.br/2014/12/pol-animais-no-terceiro-reich-politica.html

 

[4] Caraísmo é uma religião abraâmica que defende a crença única e absoluta em Deus e que sua revelação única foi dada através de Moisés na Torá (que não admite adições ou subtrações) e nos profetas da Tanakh. Confiam na Providência divina e esperam a vinda do Messias e a Ressurreição dos Mortos. Seguem um calendário baseado no Abib* e com início de mês na lua nova vísivel.

 

* Nissan é o nome dado ao primeiro mês do calendário judaico religioso (sétimo mês do calendário civil), que se inicia com a primeira Lua nova da época da cevada madura em Israel. O nome Nissan tem origem babilônica: na Torá o nome do mês é Abib.

 

Como a maioria das línguas de judeus, o Krymchak apresenta muitas palavras originárias da língua hebraica.. Antes da era da União Soviética era escrita com o alfabeto hebraico. Durante o domínio soviético nos anos 1930 foi escrita com o alfabeto turcomano uniforme, uma variante do alfabeto latino, como ocorreu com a língua tártara da Crimeia e com o Karaim. A comunidade judaico-Krimchaque” foi dizimada durante o Holocausto nazista. Quando em 1944 a maioria dos Tártaros da Crimeia foi deportada para o Uzbequistão soviético, muitos dos falantes do Krimchaque estavam entre essas pessoas e alguns ficaram nessa nação. Hoje a língua está praticamente extinta.

 

Juhuri é a língua tradicional dos Judeus das montanhas do leste da cordilheira do Cáucaso, especialmente no Azerbaijão e no Daguestão (Rússia), hoje língua que é falada mais em Israel. A língua é relacionada com o Persa e pretence ao grupo sudoeste das línguas iranianas, divisão das línguas indo-européias. A Tat, é uma língua bem similar, mas é outra língua que é falada pelo povo Tat, muçulmanos, um grupo com o qual os Judeus da Montanha foi confundido de forma equivocada durante a era da história da União Soviética. Os termos Juhuri e Juhuro são literalmente traduzidos como "Judeu" .

[5] Mulá é geralmente usado para se referir a um homem muçulmano, educado na teologia islâmica e na lei sagrada.

[6] Otto Ohlendorf (1907 – 1951) foi um oficial alemão que serviu na SS nazista com a patente de Gruppenführer e também foi chefe da Inland-SD (responsável pela inteligência e pela segurança interna), uma subdivisão da Sicherheitsdienst (SD). Ohlendorf foi comandante da Einsatzgruppe D, que perpetrou vários assassinatos e outras atrocidades na Moldávia, no sul da Ucrânia, na Crimeia e, durante 1942, no norte do Cáucaso russo. Por estas ações, Otto Ohlendorf foi considerado uma das figuras mais proeminentes do Holocausto. Em 1951, ele foi condenado e executado por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante a Segunda Guerra Mundial.

 



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