terça-feira, 5 de julho de 2016

[POL] Hitler antes de Hitler

Luis Pereira

Aventuras na História, 05/07/2016


No filme A Queda, de Bernd Eichinger, o famoso ator Bruno Ganz interpreta Adolf Hitler em seus últimos dias, acuado no bunker da Chancelaria do Reich, em pleno processo de negação e declínio psicológico. A atuação magistral de Ganz fez com que muitos se perguntassem: “Podemos retratar Hitler como um ser humano?”. O historiador alemão Volker Ullrich defende que não só podemos como devemos. Ullrich é o autor de uma nova biografia do ditador nazista, Adolf Hitler Vol. 1 – Os Anos de Ascensão, 1889-1939 (Amarilys, 2016). O trabalho, aclamado pela crítica e best-seller instantâneo na Alemanha e na Inglaterra, é o primeiro tomo de uma obra em dois volumes que se propõe a preencher lacunas na bibliografia já existente e, principalmente, tratar do ser humano por trás da persona pública. 

O simples processo de demonização, segundo o autor, é um erro perigoso, pois distorce a avaliação da verdadeira personalidade de Hitler, com suas contradições e antagonismos, deixando de lado os traços empáticos que fizeram dele um líder palatável às massas populares e às elites política e econômica da Alemanha. O objetivo é desconstruir o mito Hitler, presente de variadas maneiras na literatura e no debate público após 1945 como uma “fascinação (negativa) pelo monstro”. Na nova obra, Hitler é “normalizado”, mas isso não o torna “mais normal”; pelo contrário, ele parece ainda mais indecifrável. Sua imagem torna-se mais complexa, um homem de muitas faces, sempre adaptadas a diferentes públicos.

Baseando-se em pistas conhecidas e documentos revelados apenas recentemente, Ullrich discute que, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial e as revoluções sociais que ela provocou na Europa, talvez Hitler permanecesse uma figura desconhecida às margens da História. Suas origens são, para dizer o mínimo, nebulosas. “Não sei de nada sobre a história da minha família. Nessa questão, sou uma pessoa muito mal informada (...) sou completamente desprovido de sentimentos familiares e não tenho nenhuma ligação com um clã. Isso não é de minha natureza. Eu pertenço à minha comunidade étnica”, confessou Hitler em 1942, num de seus muitos monólogos. 

Talvez ele visse boas razões para ocultar sua ascendência. O pai de Hitler, Alois Schicklgruber, era um filho ilegítimo adotado por um tio postiço, Johann Nepomuk Hiedler (irmão mais novo do marido da mãe de Alois), numa história enrolada que sugere algum escândalo familiar abafado. Somente aos 19 anos Alois foi registrado como filho legítimo de Johann Georg, o irmão de Johann Nepomuk. Nessa ocasião, o notário alterou o sobrenome Hiedler para Hitler. Alois Hitler viria a ser um funcionário-modelo na alfândega de Braunau. Em 1885, após ficar viúvo pela segunda vez (as taxas de mortalidade na época eram altíssimas), Alois casou-se com Klara Pölz. Klara era neta do tio postiço de Alois. Portanto, se de fato Alois era filho de Johann Georg, os dois seriam primos em segundo grau. Se, como se suspeita, fosse filho de Nepomuk, o parentesco seria ainda mais próximo, o de tio e sobrinha. Em 1889, nascia Adolf Hitler, o quarto filho do casal (os três primeiros morreram cedo). Boatos sobre uma possível origem judaica de Hitler (que circulavam desde a década de 1920) não se confirmaram. Ainda assim, é irônico que o ditador que exigia um certificado de “ascendência ariana” de cada cidadão alemão não fosse capaz de demonstrar a própria. 

Existem poucos testemunhos sobre os primeiros anos de vida de Adolf Hitler. As informações publicadas por ele sobre o ambiente familiar no primeiro capítulo de Minha Luta certamente são uma mistura de meias-verdades e invenções, com as quais tentou angariar simpatias e tornar crível sua vocação política como líder de um novo Reich alemão. Sabe-se que Alois fora um pai severo, adepto de castigos físicos. A experiência da violência doméstica foi interpretada como uma das causas para a política assassina do ditador. No entanto, Ullrich adverte que se deve tomar cuidado ao tirar conclusões: naquela época, castigos físicos eram comumente usados com finalidade educativa. Um pai repressor e uma mãe amorosa não eram uma combinação rara entre as famílias de classe média por volta da virada do século. Hitler, portanto, teve uma infância bastante normal. 

Juventude incerta

Adolf Hitler fora um excelente aluno nos primeiros anos escolares. Como todos os garotos de sua idade, era leitor dos romances de aventura do escritor alemão Karl May (dizem que durante a guerra, principalmente nas situações mais difíceis, Hitler citava um dos heróis de May, o índio apache Winnetou, como um “paradigma de comandante militar”). Entretanto, quando fez a transição para a escola secundária em Linz, Hitler passou a ser mais um entre muitos. Terminou por abandonar a escola, após reprovações e resultados medíocres. 

O fracasso em terminar o grau secundário custou caro, quando ele se inscreveu para o exame de admissão na Academia de Belas-Artes de Viena, já que o diploma era um requisito básico. Hitler (mais livre após a morte do pai, em 1903) passara a fazer visitas frequentes à capital, em que se deleitava com as paisagens da metrópole austríaca, com seus museus, a ópera, o Parlamento e a magnífica Ringstrasse. O fracasso acadêmico, que ele não contara à família ou aos amigos, foi difícil de aceitar. Muitos atribuem a perseguição aos intelectuais e seu desprezo pela intelligentsia alemã como resultado dessa rejeição.

O ano de 1907 foi marcado pela morte da mãe, em consequência de um câncer de mama. “Em meus quase 40 anos de atividade, nunca vi um jovem tão indescritivelmente triste e arrasado como o jovem Adolf Hitler”, escreveu o médico judeu que tratara Klara Hitler, doutor Eduard Bloch, em uma anotação de 1938. Não há indícios de que o tratamento médico feito por Bloch tenha sido a causa do patológico ódio antissemita de futuro Führer. No próprio dia do funeral, Hitler foi até o consultório dele para agradecer pelos cuidados com a mãe. Em 1938, quando o líder fez sua entrada triunfal na “cidade natal” Linz, após ter anexado a Áustria, dizem que perguntou imediatamente pela saúde do “bom e velho doutor Bloch”. Dentre todos os judeus de Linz, Hitler colocou o médico sob a proteção da Gestapo. No final de 1940, a família Bloch conseguiu emigrar em segurança para os Estados Unidos.

Há relatos de que Hitler também manteve relações cordiais com judeus nos abrigos e pensionatos vienenses em que morou entre 1908 e 1913. Viena era na época a grande metrópole europeia, centro de uma vida econômica e cultural efervescente, com uma enorme comunidade de intelectuais e artistas de vanguarda. 

Naquela cidade, os problemas do Estado multinacional austro-húngaro podiam ser observados como numa lente de aumento. Nenhuma outra apresentava uma taxa de imigrantes tão elevada. A reação dos habitantes locais ao “perigo” de uma “infiltração estrangeira” produzira desde o final do século 19 a criação de associações e partidos que estampavam o nacionalismo radical entre as suas bandeiras. A imigração maciça, principalmente de judeus orientais, despertou temores de uma “judaização” de Viena; o sucesso dos imigrantes judeus, bem-educados e orientados a subir na vida, despertou inveja e amargura nos habitantes nativos. 

Hitler escreve em Minha Luta que os anos em Viena foram de miséria e pobreza. Outra meia-verdade, pois, enquanto durou a herança materna, a pensão de órfão e a ajuda que recebia de uma tia, Hitler teve condições de manter seu estilo de vida habitual: não fazer nada. Quando a tia que o socorria também faleceu, ele então teve de buscar o próprio sustento. 

Artista sem futuro

No outono de 1909, Hitler chegou a viver num abrigo para moradores de rua, onde conheceu Reinhold Hanisch. De manhã cedo, os ocupantes do abrigo tinham de deixar o lugar, retornando somente à noite. Durante o dia, Hanisch e Hitler tentavam ganhar alguns trocados fazendo bicos. Ao saber da inclinação artística do colega de abrigo, Hanisch sugeriu que Hitler pintasse os cartões-postais da cidade para que ele os vendesse em bares e restaurantes, dividindo a receita. O sucesso da empreitada foi maior que o esperado e em 9 de fevereiro de 1910 ambos conseguiram trocar o abrigo por um pensionato masculino. Hitler viria a morar ali pelos três anos seguintes.

A parceria com Hanisch durou pouco. Para que o negócio fosse rentável, era preciso pintar um quadro por dia, como cobrava o colega. Mas Hitler argumentava que se tratava de um trabalho artístico, para o qual era necessário estar inspirado; quando não estava, passava o dia lendo jornais ou participando de discussões políticas na sala de leitura do pensionato. Em agosto de 1910, Hitler acusou Hanisch de tê-lo enganado e deixado de pagar por algumas telas vendidas. Passou então a vender suas obras por meio de Jacob Altenberg e Samuel Morgenstern, dois judeus proprietários de uma loja de artes. Ambos pagavam a Hitler muito bem, permitindo-lhe independência financeira. Além de preferir fazer negócios com comerciantes judeus, Hitler mantinha boa convivência com outros moradores do pensionato que eram de origem judaica. O ex-sócio Hanisch viria a afirmar que “naquela época, Hitler não odiava os judeus. Isso só aconteceu mais tarde”. 

O contraste entre o pintor de telas parceiro de marchands, colega de quarto de judeus e o futuro ditador genocida é desconcertante. Para Ullrich, uma coisa é certa: mesmo que quisesse, Hitler não teria conseguido evitar contato com correntes antissemitas naquela Viena da virada do século. Políticos vienenses que Hitler admirava batiam constantemente na tecla do inimigo externo judeu: Georg von Schörener, o líder do pangermanismo austríaco a quem Hitler cita como influência fundamental em Minha Luta, associou sua campanha pelo “germanismo” com um antissemitismo até então desconhecido na Áustria; o prefeito Karl Lueger não media palavras ao dizer que “a Grande Viena não deve se transformar numa Grande Jerusalém”, além de acusar a “imprensa judaica” de compor uma imagem estereotipada de judeus abastados, intelectualmente refinados e arrogantes. Seria uma surpresa se o jovem Hitler não tivesse sido influenciado por isso.

Um outro aspecto desses anos que alimenta a curiosidade de historiadores é a suposta homossexualidade de Hitler. Na contramão de diversas obras que veem nas ações do ditador indícios de uma orientação sexual frustrada e reprimida, Ullrich não se convence de que Hitler pudesse ter tido relações homoafetivas no período em que morou nos pensionatos masculinos. No entanto, inúmeras fontes dão conta de um comportamento celibatário do futuro Führer. Numa metrópole vanguardista e de costumes em ebulição como era Viena, em que peças teatrais de Arhtur Schnitzler e quadros permissivos de Gustav Klimt causavam escândalo, o jovem Hitler vivia um ascetismo quase monástico. 

Ao que tudo indica, ele também não recorria a prostitutas. Segundo um amigo da época, isso se dava principalmente pelo medo de contrair uma doença sexualmente transmissível bastante comum na época: a sífilis. Mas talvez a ideologia pangermanista de Schörener também tenha desempenhado um papel nisso. Além de defender a superioridade cultural dos alemães, a dissolução do império multinacional Habsburgo e a formação de um Império Alemão único, Schörener defendia também o celibato até os 25 anos, a fim de tonificar a força física e intelectual. Se Hitler se manteve fiel a esse mandamento de castidade, ele ainda não tinha dormido com nenhuma mulher ao deixar Viena, aos 24 anos de idade.

Hitler já pensava em emigrar para a Alemanha havia algum tempo. Munique era a cidade que mais o atraía. Ali, ele frequentou o meio boêmio de Schwabing e seguiu ganhando a vida pintando paisagens. Sua senhoria o descreveu como um jovem retraído, que se fechava no quarto como um eremita. Para Ullrich, a falta de contatos era apenas um sinal externo de sua profunda insegurança interna. Após um ano na cidade, Hitler teve de admitir que sua carreira artística não lhe oferecia futuro. Somente o início da Primeira Guerra Mundial, no começo de 1914, o libertaria daquele estado frustrante e sem perspectivas.

Primeira Guerra Mundial

A escalada de hostilidades que se seguiu ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando produziu na Alemanha um estado de euforia patriótica a favor da guerra. O escritor Stefan Zweig viria a descrever esse momento “arrebatador” como “algo de que era difícil escapar”. Com o início do conflito, Hitler afirma ter obtido uma autorização do rei Ludwig III da Baviera para servir em um regimento bávaro apesar de sua nacionalidade austríaca. O mais provável é que naqueles dias tumultuados ninguém checasse com afinco a nacionalidade dos recrutas voluntários; do contrário, Hitler não poderia ter servido.

Em meados de outubro de 1914, o recruta Hitler enfrentou seu “batismo de fogo”. Seu regimento lutou em violentas batalhas homem a homem no front ocidental, tendo perdas imensas (de 3 500 oficiais, restaram 600). Em novembro, Hitler seria promovido a cabo, encarregado de levar mensagens e ordens dos comandantes de regimento até a linha de frente. Segundo Hitler, esse trabalho colocava todos os dias sua vida em risco. Para os soldados de trincheira, os mensageiros militares não passavam de oficiais de caserna. De uma forma ou de outra, Hitler escreveu em Minha Luta: “O horror assumiu o lugar do romantismo da guerra. O entusiasmo arrefeceu gradualmente e o júbilo excessivo foi sufocado pelo medo da morte”. Antes mesmo do final da guerra, a direita radical e os pangermanistas já haviam eleito bodes expiatórios para os revezes da Alemanha: as “atividades subversivas” de sociais-democratas e esquerdistas em geral, e a suposta falta de engajamento dos judeus no esforço de guerra. A despeito dos milhares de judeus que morreram nas trincheiras, foi convocada em 1916 uma “contagem de judeus” a fim de verificar a situação do serviço militar de judeus alemães (um primeiro passo para os registros que viriam a ocorrer nos anos seguintes). Em 1918, diante da derrota iminente da Alemanha, esses grupos intensificaram sua propaganda antissemita.

O rapaz tímido ainda estava para descobrir seus dons extraordinários de oratória, mas a Revolucão Alemã, que derrubou o kaiser e instaurou uma república parlamentarista de inspiração esquerdista, provocou em Hitler tal comoção que o convenceu a abdicar de suas ambições artísticas e entrar na política. Junte-se a esse político aspirante com patronos influentes no meio militar a reação das elites econômicas ao novo governo, a fobia contra a esquerda e o ressentimento contra os judeus, e temos montado o cenário para a ascensão de Hitler e do nazismo. O Hitler pós-guerra se reinventou completamente, para prejuízo de milhões de vítimas que ele viria a fazer em sua ascensão sanguinolenta ao poder. Uma ascensão que, como Ullrich defende, merece ser mais bem compreendida.



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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

[POL] Raça e o Terceiro Reich

Brendan Daly


O livro Raça e o Terceiro Reich de Christopher Hutton fala a respeito das tensões entre a antropologia racial e a ideologia nazista durante o Terceiro Reich. Hutton almeja especificamente mostrar como a antropologia racial contribuiu com a teoria racial na Alemanha, e quais foram os efeitos tanto na Alemanha quanto na própria antropologia racial. Por meio de uma discussão de teóricos baseada em fontes primárias, Hutton argumenta que o uso popular do termo “ariano” na Alemanha Nazista foi o fator contribuinte principal para a perda da influência dos antropologistas raciais no Terceiro Reich. Ele argumenta que ao insistir que “ariano” era somente um termo linguístico (e não racial), os antropologistas raciais estabeleceram um espelho no qual os alemães viam-se não como um ideal loiro e de olhos azuis, mas como um elemento miscigenado. Hutton conclui que os antropologistas raciais impediram os esforços nazistas em unir o povo alemão sob a raça “superior” nórdica e sua influência declinou. Hutton escreve que suas preocupações principais “são os pontos de tensão, controvérsias e incertezas tanto entre os teóricos acadêmicos quanto entre os eruditos e as autoridades políticas.” Estas tensões estão centradas em torno do “conceito central político e intelectual de ‘Volk’ e nos entendimentos competitivos da identidade alemã.” Portanto, a discussão de Hutton sobre o povo (volk) alemão não é baseada no valor moral de tal conceito mas sim nas suas raízes acadêmicas. O principal argumento de Hutton está centrado na explicação do fim da antropologia racial em virtude do seu conflito com a ideologia do partido nazista.

Para começar, Hutton estabelece que a “raça ariana”, comum aos estereótipos nazistas populares, era, de fato, um mito.

Enquanto o termo “ariano” era usado de vários modos fundamentais na Alemanha Nazista, não havia nenhum apoio acadêmico para seu uso como rótulo racial, e, em 1935, isto foi aceito como ortodoxia pelas autoridades políticas.

Hutton argumenta que a ideologia nazista em relação a raça girava em torno da supremacia da raça “nórdica” como definida pelos antropologistas raciais. “A beleza nórdica (cabelos loiros, olhos azuis e cabeça alongada) era central à iconografia popular no Terceiro Reich.” Consequentemente, o objetivo discernível dos teóricos raciais nazistas era justificar a existência do povo alemão como uma entidade que tanto incluía quanto excluía grupos particulares de pessoas, enquanto mantinha a supremacia da raça nórdica. Hutton argumenta além disso que “a teorização de um povo unificado organicamente tornou-se um projeto de longo prazo de intelectuais alemães.” A análise de Hutton foca nos métodos deste projeto de longo prazo. Ele baseia sua crítica subsequente da antropologia e teoria raciais na noção que a Alemanha nazista tentou impor um conceito exclusivo e hegemônico de caráter e espírito nacionais ou sentimento nacional em uma população heterogênea, multicultural e multilíngue vivendo dentro das fronteiras do Sacro Império Romano Germânico dissolvido.

Esta heterogeneidade era, de acordo com funcionários nazistas, somente possível através tanto da assimilação quanto da eliminação dos judeus do povo alemão. Portanto, isto estabelece que o partido nazista decidiu eventualmente usar os estudos raciais antropológicos para definir o povo alemão em termos biológicos que excluíam a população judaica existente.

Como evidência da supremacia da raça nórdica em relação ao Volk, Hutton apresenta Johann Friedrich Blumbenbach (1752 – 1840) como o primeiro teórico a tentar definir o povo alemão em termos raciais. Blumbenbach “classificou a humanidade em cinco raças: caucasiana, mongólica, etiopiana, americana e malásia.” Ao definir diferenças físicas e criar impressões distintas de várias raças, Blumbenbach estabeleceu um sistema voltado à diferenciação das diferenças entre humanos e atribuindo estas diferenças a particularidades raciais. Partindo de uma análise destas diferenças, “intelectuais alemães desenvolveram teorias de identidade nacional que salientavam a diversidade racial, linguística e cultural e expressavam uma desconfiança nas ideologias universais que ameaçavam erradicar esta diversidade.” Assim, tentativas subsequentes de antropologistas raciais em definir raça na Alemanha tiveram que primeiro enquadrar a diversidade racial alemã em termos aceitáveis aos ideólogos nazistas.

Além disso, Hutton afirma que muitos ideólogos políticos aceitaram a noção de que a superioridade do elemento nórdico/ariano estava rapidamente desaparecendo sob o desenvolvimento urbano e industrial da Alemanha. Esta noção de extinção racial devido à modernidade é crítica na compreensão do tratamento ideológico dos nazistas em relação aos judeus. Para muitos teóricos nazistas, os perigos da guerra e doença estavam conectados aos judeus. Esses teóricos sentiram que a modernidade “envolvia a interrupção da relação do povo com a terra... e que raças, povos, grupos sociais... estavam agora se miscigenando entre si.” Esta miscigenação entre raças ameaçava o sangue nórdico no povo alemão e era visto como uma ameaça à existência da Alemanha.

Com a perda de territórios ancestrais na Primeira Guerra Mundial, muitos na Alemanha sentiram que a nação estava enfrentando uma crise de identidade. Além disso, esta crise era crescentemente associada no aspecto biológico, o que pintou uma perspectiva sombria para a futura vitalidade do Volk.

Portanto, Hutton afirma que a antropologia racial foi acusada de criar teorias raciais biológicas que sustentavam que a raça nórdica era superior no povo alemão, e da proteção da herança genética da raça contra contaminantes externos como a população judaica.

Um grande desafio para os antropologistas raciais na Alemanha foi a questão do hibridismo associado à expansão militar durante a Segunda Guerra Mundial. “O paradoxo da expansão do Estado nazista era que... quanto maior a área de território anexado, maior o hibridismo da população controlada pelo Estado.” Em um esforço de resolve o paradoxo da expansão militar e a inclusão resultante de populações diversificadas, Hutton afirma que enquanto estes novos territórios aumentavam o hibridismo do povo, muitos deles eram simplesmente considerados partes ancestrais do Volk que foram perdidos durante a Primeira Guerra Mundial. Logo, a inclusão de “estrangeiros” acontece de forma oposta ao modo como o povo judeu na Alemanha foi definido como uma raça inteiramente separada. Esta definição significava que os judeus deveriam ser excluídos do Volk para manter sua integridade racial.

Os teóricos raciais do Terceiro Reich argumentaram ainda que os indivíduos eram membros do Volk porque eles eram definidos pela raça e “entendido como a interseção de linhas genéticas de transmissão dentro de uma população definida como uma comunidade reprodutiva de ‘Estoque’.” Para os teóricos raciais nazistas, a visão persistia que membros do Volk eram parte de um grupo baseado em história, cultura e sangue. Esta interpretação significava que o povo era uma “expressão fundamental da coletividade alemã, entendido como uma unidade através da história, através de espaço geográfico e independente das contingências das fronteiras políticas.” Portanto, Hutton concluí que enquanto as teorias raciais iniciais eram discutidas em termos de relação cultural com o Volk, aquela discussão logo voltou-se para um argumento biológico significando a exclusão dos judeus.

Além disso, Hutton afirma que a teoria racial na Alemanha mudou seu foco do critério linguístico para a inclusão no Volk para uma base biológica. Ele argumenta que o uso primário da língua alemã pelos judeus não os tornava habilitados a fazerem parte do Volk. Ao invés disso, “de acordo com as ideologias ultranacionalistas, a Alemanha precisava assegurar seu lugar como a grande potência europeia, reganhar o território perdido e livrar o corpo do Volk do que era visto como o elemento estrangeiro e muito influente, qual seja “os judeus”. Hutton diz que os teóricos raciais nazistas viam os judeus como um grupo a ser excluído do povo, independentemente de suas semelhanças culturais e linguísticas com os alemães “arianos”. Contudo, nos círculos acadêmicos, o termo “ariano” não tinha nenhuma validade enquanto definição biológica de raça, mas, ao invés disso, significava uma distinção linguística, e uma discussão do povo alemão em termos de distinções raciais e biológicas no ffinal forneceu uma justificativa acadêmica para o regime nazista excluir os judeus do Volk alemão, mesmo que muitos judeus fossem, por outros critérios – isto é, cidadania, afiliação cultural, língua materna, consciência de si mesmos – alemães.

Acertadamente, Hutton concluí que o papel da antropologia racial foi alterado pela pressão do partido nazista para justificar a exclusão e extermínio de judeus do povo baseado somente na determinação biológica de raça.

Hutton argumenta ainda que o antropólogo racial Hans F. K. Gunther (1891 – 1968) serviu para perpetuar termos raciais que grandemente ajudaram a ideologia nazista. “De acordo com Gunther, seis raças básicas compunham o povo alemão: o nórdico, o mediterrâneo, o dinárico[1], o alpino, o báltico oriental e o Faliano[2].” Gunther propôs por meio de sua análise destas raças, que a nórdica era superior às demais. De sua pesquisa ele concluiu que “o perfil psicológico pode ser resumido em termos de ideais tais como bravura, pensamento individual, determinação, nobreza, heroísmo...” Era, destarte, esta parte do Volk que deve ser preservada a todo custo. Segundo Gunther, as cinco outras raças também contribuíram de forma útil para o Volk, porém elas o fizeram ao custo de também contribuir com qualidades ligeiramente desfavoráveis. Portanto, ao dissecar as várias partes “raciais” do povo alemão, Gunther forneceu uma explicação para muitas características sociais desagradáveis do Volk, enquanto colocando esta discussão em uma estrutura biológica ao invés de uma cultural ou linguística (como os antropólogos raciais fizeram previamente). Suas teorias raciais marcam uma despedida das distinções linguísticas de antropologia racial e fornece evidência para a relação cada vez mais íntima entre o partido nazista e alguns antropólogos raciais que estavam dispostos a criar determinadas distinções raciais na esperança de escalar a hierarquia do partido.

Assim, a classificação de Gunther dos judeus teve repercussões profundas na compreensão da influência da antropologia racial na Alemanha Nazista. Enquanto Gunther argumenta que “...não havia nenhuma raça Judaica ou semítica, no mesmo modo não havia uma raça alemã” ele contradiz essa afirmação ao propor que “a qualidade racial do povo judeu como um todo foi primeiramente determinada pela raça do Oriente Próximo, da mesma maneira que o povo alemão foi essencialmente determinado pela raça nórdica.” Enquanto ambos os grupos (judeus e Volk) são compostos de comunidades essenciais e distintas, o povo alemão era unicamente composto de um hibridismo de culturas que, mesmo assim, foram direcionadas em direção de um ideal racial. Em contraste, a comunidade judaica era muito mais facilmente definida como um já separado grupo racial que ameaçava a unidade do povo alemão. Este padrão ambíguo de teoria racial permitiu aos ideólogos nazistas a isolar grupos do Volk, baseado em como eles se adaptavam aos estereótipos raciais para o membro ideal do Volk. Além disso, no caso dos judeus, suas diferenças únicas na cultura foram traduzidas para diferenças biológicas sem fundamentos de outros alemães. Os antropólogos raciais forneceram, portanto, um argumento científico para a eliminação do povo judeu na medida em que ele representava uma ameaça real à sobrevivência do povo alemão e da suposta superioridade da raça nórdica.

Analogamente, os líderes nazistas estavam basicamente preocupados com a influência psicológica ou mental que “o domínio financeiro tinha permitido aos judeus, que eram predominantemente de origem racial não-europeia, em obter dentro da Europa.” Enquanto alemães “arianos” tinham um senso de pertencer ao Volk, eles argumentavam que os judeus tinham em comum uma consciência de sangue compartilhado e isto era expressado em um senso altamente desenvolvido de identidade separada.” Este senso de identidade separada era extremamente ameaçadora aos funcionários nazistas preocupados em unificar o país e reconquistar as terras ancestrais perdidas. Alguns teóricos nazistas igualavam os judeus a doenças sociais como suicídio, paralisia, alcoolismo, sífilis, punições judiciais, delinquência moral, casamentos miscigenados e mortalidade. Ao relacionar a “raça” judaica com os perigos da modernidade, os funcionários alemães no Terceiro Reich foram capazes de separar os judeus do Volk. Assim, mesmo que os judeus não fossem uma raça, eles eram um grupo dinástico com uma história biológica particular e características intrínsecas que os separavam dos demais povos europeus. O conceito de “grupo dinástico” surgiu para realçar as relações biológicas raciais entre as raças “ariana” e “judaica”. Mesmo que os antropólogos raciais tenham falhado em fornecer uma evidência biológica concreta para a identidade racial dos judeus, isso já era o suficiente para mostrar que eles compartilhavam de uma “consciência sanguínea compartilhada” e foram assim classificados como um grupo dinástico distinto, que se opunha aos ideais do povo alemão.

Subsequentemente, Hutton argumenta que enquanto que “o regime nacional socialista é publicamente associado à doutrina política de pureza racial expressada em polêmica virulenta contra a miscigenação racial”, isto foi feito somente após estabelecer explicitamente linhas de conduta que permitiam a mistura racial quando fosse conveniente às necessidades do Terceiro Reich. “No nível de propaganda política e educação de massa, as autoridades desejavam inculcar nos cidadãos a mensagem de que a miscigenação era ruim ao Volk, com os judeus sendo apresentados como estrangeiros raciais.” O grupo racialmente estrangeiro dos judeus era colocado em outra linha ao do alemão, a verdadeira linhagem ariana, independentemente da invalidez científica do termo como uma distinção racial. Portanto, mesmo que os teóricos raciais nazistas tenham se oposto à promoção do “ariano” como um conceito racial, há evidência do uso do termo “não-ariano” para realçar o isolamento dos judeus. Além disso, enquanto o termo “ariano” foi reconhecido como um termo linguístico ao invés de racial, “não-ariano” tornou-se em muitos contextos um sinônimo para judeu.” Isto marca um ponto-chave de fraqueza para os antropólogos raciais na Alemanha Nazista. Eles explicitamente aceitaram o mau uso do termo “ariano” para de alguma forma implicar numa distinção racial biológica.

Entretanto, independente do uso de “ariano” como uma distinção linguística entre os cientistas, “as leis aprovadas nos primeiros anos do regime nazista usavam a noção de ‘descendência ariana’ ...em sua forma negativa, de modo que aquela ‘descendência não-ariana’ foi excluída dos diferentes aspectos da vida pública” baseado em distinções biológicas. Enquanto que os funcionários nazistas não promoveram o “ariano” como termo racial, eles encamparam o uso de sua forma negativa (“não-ariano”) para classificar os judeus. Hutton afirma ainda que a forma negativa de “ariano” falhou em identificar judeus em qualquer forma legal. Além disso, ariano se referia a uma “família de línguas e implicava numa identidade linguística e não racial ...o termo ‘ariano’ era incapaz de fazer as distinções raciais exigidas” necessárias aos funcionários nazistas. Mais tarde, “em 1935, o termo ‘não-ariano’ foi definido de modo que um indivíduo com três avós judeus (era) um judeu.” Isto claramente estabelecia o critério de participação no Volk como uma distinção biológica e não linguística. Estes fatores biológicos determinando a participação dentro do Volk foram refletidos na política do partido nazista que substituíram o problemático termo “ariano” pela noção de “consanguinidade alemã”. Isto enfatizou um critério baseado em biologia e sangue para inclusão no Volk enquanto definia seus fundamentos a partir de uma compreensão científica e biológica que ganhou credibilidade entre alguns antropólogos raciais.

Hutton afirma ainda que os antropólogos raciais ajustaram os termos usados nas teorias raciais para encorajar agora a definição de “Volk como uma composição de famílias conscientes relacionadas pelo sangue... unidas por uma única raça que ligava todos os seus membros e tinha desenvolvido seu próprio sistema moral e ético e sua própria linguagem.” Enquanto que a antropologia racial originalmente pretendia que a teoria da “raça ariana” e o Volk alemão funcionasse como linguística, nos anos 1930 o termo “ariano” foi acrescentado na cultura popular como um termo racial determinado biologicamente. Hutton argumenta de forma convincente que este uso popular do termo foi crucial na perda de influência dos antropólogos raciais no Terceiro Reich. Enquanto que na cultura popular da Alemanha “ariano” representava uma manifestação física idealizada do povo alemão, antropólogos raciais insistiam que o termo era somente linguístico, e não uma descrição física de raça. O objetivo da antropologia racial nunca foi justificar os objetivos do partido nazista, porém os cientistas foram forçados a adaptar sua pesquisa sob o risco de ostracismo acadêmico/social e evitar a censura política.

Como exemplo deste ajuste forçado nos resultados das pesquisas, Hutton apresenta Georg Schmidt Rohr (1890 – 1945) como um dos antropólogos raciais que foram obrigados a moldar suas teorias à política partidária. Rohr escreveu que “a língua alemã teve uma função maternal, divina na criação e autodeterminação do Volk, na autoconsciência que foi necessária para a sobrevivência em face da extinção ou assimilação.” Portanto, enquanto Rohr salientava a importância de uma língua comum na Alemanha como um fator determinante na associação com o povo, quando se filiou ao partido nazista em 1933 ele foi forçado a reconhecer que os judeus não faziam parte do Volk, independentemente das semelhanças linguísticas. Ao abandonar as distinções linguísticas da raça, Rohr aceitou implicitamente as classificações biológicas de raça do partido nazista. Ele teve um papel importante em enfatizar que alguns elementos eram claramente danosos para o Volk, e assim deveriam ser excluídos dele. A aceitação subsequente de Rohr de que os judeus não faziam parte do povo alemão “deixou claro aos linguistas e outros que a palavra ‘Volk’, tal como era usada no discurso popular e acadêmico, deve ser entendida como excluindo os judeus.” Isto, portanto, marca o ponto de transição para a antropologia racial onde ela eventualmente seria substituída por discursos genéticos e biológicos que objetivavam apoiar as distinções raciais promovidas pelo partido nazista ao invés daquelas derivadas da pesquisa científica.

Um dos pontos principais de Hutton reside em seu argumento que “um fato marcante da cultura acadêmica nazista foi o processo de neutralização de visões acadêmicas mais extremas e formas extremas de politização acadêmica.” Isto levou a um clima no qual acadêmicos se esforçavam igualmente por resultados científicos assim como por elogios do partido. Este comprometimento de ideais científicos é evidente no julgamento de um psicólogo racial chamado Ludwig Ferdinand Clauss, no qual ele foi acusado de ter tido relações com uma assistente de laboratório judia. Na realidade, o julgamento foi instigado por Walter Gross (um teórico racial da época), que desejava ganhar prestígio dentro do Partido Nazista. Gross argumentou que certos fatos apresentados por Clauss poderiam ser reinterpretados para se ajustar mais próximo da política do partido. Na conclusão do julgamento, o tribunal do partido enfatizou que o reconhecimento da liberdade acadêmica e científica não obstante, o nacional socialismo exigia disciplina de seus estudiosos, que deveriam aceitar a prioridade do Partido em estabelecer assuntos de importância política.

Isto efetivamente estabeleceu o partido nazista como a autoridade suprema científica. Hutton afirma, “isto pareceu argumentar fortemente para a fusão entre ciência e ideologia, tal que a busca de conhecimento e erudição estaria em sincronismo com os objetivos universais do movimento e do Volk.” Enquanto Hutton não fornece nenhum apoio textual para esta afirmação, o resultado do julgamento de Clauss é indicativo de que o partido estaria assumindo um papel central na aprovação e disseminação dos resultados de pesquisa no sentido de garantir que elas estavam de acordo com a política partidária. Deste ponto em diante, o partido nazista teria a palavra final em assuntos de pesquisa científica no Terceiro Reich.

Notas:

[1] Relativo ou pertencente à região montanhosa a leste do Adriático.

[2] do alemão Fälish, derivado de Fälen, ou plano. Habitantes da região da Westfália.


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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

[POL] A Liderança Nazista e a Sociedade Thule

Frank Jacob


Introdução

Recentemente, tem surgido novos detalhes na pesquisa sobre a Sociedade Thule, uma sociedade secreta nacionalista e "völkisch" alemã, que existiu de 1917 até meados dos anos 1930. Tem se afirmado que esta organização foi um tipo de local de reunião para jovens profetas völkisch. A Sociedade Thule construiu uma das mais importantes plataformas para estabelecer suas ideologias nazistas tardias. Foi particularmente a cidade de Munique onde todos os tipos de pensamentos políticos se encontraram e este ambiente criou a matriz de diferentes nacionalismos. Os membros da Sociedade Thule, assim como vários outros ativistas völkisch trabalharam nestas circunstâncias. Alguns nazistas famosos como Rudolf Hess e Alfred Rosenberg estavam entre eles. Contudo, em relação a esta sociedade secreta e sua influência no Nacional Socialismo há uma série de erros. Muitos deles foram conservados sem provas constantemente. Auerbach, por exemplo, sustenta que mesmo Gottfried Feder e Dietrich Eckart pertenciam à irmandade Thule, porém de fato eles somente tinham conexões superficiais com alguns membros da Thule. O objetivo deste ensaio é mostrar o quão próximo a conexão entre as lideranças nazistas dos anos 1920 e a Sociedade Thule realmente era e provar sua ancestralidade com a liderança nacional socialista e suas ideias. Com este objetivo, haverá uma pequena introdução a respeito da história desta sociedade secreta de sua fundação em 1917 até seu final no final dos anos 1930. O capítulo seguinte diz respeito aos famosos membros da Thule e pessoas como Eckhardt, que tinham contato regular com ela e sobre sua influência ou o papel indireto da sociedade secreta na gênese do Nacional Socialismo. Como conclusão temos uma avaliação da influência da Thule no pensamento e ações do nacional socialismo.

Uma pequena história da Sociedade Thule A Sociedade Thule não era totalmente um novo tipo de organização secreta na seção völkisch do Império Alemão, mas ao invés disso um desdobramento da Ordem Germânica, que foi fundada por Theodor Fritsch em 1912. Esta sociedade secreta considerava a Maçonaria sua antagonista e acreditava que uma conspiração contra os alemães estava a caminho; a Alemanha foi vítima na crise marroquina em 1911[1] e os social-democratas ganharam a eleição de 1912 com uma considerável vantagem em relação aos partidos antissemitas. Aqueles eventos fizeram com que os criadores da Ordem Germânica acreditassem que era tempo para um contra-ataque.

A nova sociedade secreta e seus líderes tentaram criar uma oposição a estas mudanças e organizaram-se utilizando o simbolismo da Maçonaria. Eles tinham vários centros na Alemanha, principalmente no norte. Em 1917, Rudolf von Sebottendorff, mais tarde líder da Sociedade Thule, foi indicado para restaurar o centro no sul em Munique, onde a Ordem Germânica tinha apenas poucos membros e durante a guerra a conexão com sua liderança e com o centro em Berlim foi perdida.

Sebottendorff foi bem sucedido e capaz de conseguir novos membros. Contudo, após a Primeira Guerra Mundial, por causa da influência crescente da esquerda em Munique, o nome foi mudado para Sociedade Thule. Na época da República Soviética de Munique, os membros da Thule serviram como espiões e sabotadores para o governo em exílio em Bamberg. Em 25 de abril de 1919, houve uma busca nos escritórios da Thule e a polícia foi capaz de obter uma lista que continha os nomes dos membros da Thule. Alguns deles foram capturados e executados em 30 de abril de 1919, apenas um dia antes de Munique ser libertada por muitas tropas Freikorps e da Reichswehr.

As vítimas mais tarde foram idolatradas pelo movimento nazista. Mesmo assim, com o fim da República Soviética Bávara, a Sociedade Thule perdeu sua razão de existir e após Sebottendorff deixar Munique as atividades da sociedade diminuiram. Em meados dos anos 1920, a sociedade finalmente desapareceu. Em 1933, após a ascensão ao poder do NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães), Sebottendorff tentou um retorno e escreveu seu livro sobre os primeiros tempos do movimento nazista, no qual ele esboçou um quadro de uma influência elementar da Sociedade Thule na gênese do Nacional Socialismo. Consequentemente, Sebottendorff teve que deixar a Alemanha novamente e seu livro foi proibido, pois

"o uso do nome do Führer para o título do livro tem apenas uso econômico. Ao acentuar o nome do Führer, haveria simplesmente uma grande venda do livro e, assim, uma boa possibilidade de renda. [...] A tendência geral do livro é dar o crédito principal pela renovação nacional da Alemanha de um modo contrário à Sociedade Thule." (Boletim da Polícia Política Bávara, 1934)

O restabelecimento da Sociedade Thule foi feito apenas por alguns anos antes de desaparecer em meados dos anos 1930.

Sebottendorff escreveu que os membros da Thule foram as primeiras pessoas a ajudar Hitler em seu caminho para o poder e também os primeiros a apoiar o futuro líder da Alemanha. No próximo capítulo, será provado, o quão distante da verdade histórica é da verdade histórica.

Membros famosos da Thule e sua influência na gênese do Nacional Socialismo

Por esta razão, haverá uma análise sobre a conexão dos membros e personalidades da Thule, que tinham um contato regular com a sociedade. Além disso, veremos uma prova da possível influência sobre o Nacional Socialismo. Com isto em mente, Gottfried Feder, Alfred Rosenberg, Dietrich Eckart, Hans Frank e Rudolf Hess serão investigados individualmente, de modo que sua possível influência possa ser determinada.

1. Gottfried Feder (1883 - 1941)

Gottfried Feder não era membro da Sociedade Thule. Ele era mais um visitante casual de suas reuniões no Hotel Vierjahreszeiten em Munique. Lá, de dezembro de 1918 em diante, ele deu algumas palestras sobre "O Rompimento com a Escravidão dos Juros" (Brechung der Zinsknechtschaft). Isto não era novidade para Feder que sempre palestrava se tivesse oportunidade. Assim, ele se encontrou com alguns membros da Thule e convidados como Dietrich Eckart nestas palestras noturnas, mas não havia nenhum tipo de contato mais íntimo entre ele e a sociedade, que teria durado um bom tempo. Permanece a questão de se houve qualquer influência de Feder no Nacional Socialismo. É difícil considerar seu papel no desenvolvimento do programa partidário do NSDAP, mesmo que alguns pontos refletissem as ideias de Feder. Ele declarou que

"O Rompimento com a Escravidão dos Juros é o eixo principal em torno do qual tudo gira, [...] nada menos que a questão principal da atitude econômica e, com isto, interfere com a vida política de todo cidadão, ele exige a decisão de todas as pessoas: serviço à nação ou enriquecimento individual ilimitado - com isto significando "a solução da questão social".

Quando Hitler escutou a apresentação de Feder em 6 de junho de 1919, isso representou um dos eventos capitais no desenvolvimento político dele. Seu manifesto deu-lhe a possibilidade de estabelecer um programa confiável, que poderia desafiar o Marxismo. Mas, tirando esta influência sobre as diretrizes programáticas do partido, Feder permaneceu um "estranho no ninho". Suas teorias sobre a escravidão dos juros nunca foram aceitas oficialmente como um objetivo do NSDAP e na estrutura do partido nazista não havia lugar para Feder. Em novembro de 1931, ele conseguiu um emprego ordinário como líder do Conselho Econômico Nacional (Reichswirtschaftsrat). De julho de 1933 até agosto de 1934 ele manteve um cargo no Ministério da Economia. Após sua curta passagem pelo serviço público, ele tornou-se professor de planejamento urbano em Berlim.

Acima de tudo, podemos dizer que Feder nunca pertenceu à liderança nazista e mesmo que "suas visões tivessem sido úteis nos anos 1920, os nazistas formaram um movimento de oposição recrutando simpatizantes pobres, revoltados e xenófobos, mas eles não tinham utilidade em um novo governo buscando permanência e poder através da rápida reindustrialização e rearmamento." Logo, sua queda após a tomada do poder pelo NSDAP não é surpreendente. Mas há outros nomes que possuíam contato mais íntimo com a Sociedade Thule.

2. Alfred Rosenberg (1893 - 1946)

Alfred Rosenberg foi outro convidado da sociedade, mas ao contrário da afirmação de Vieler, ele não era membro. O alemão báltico encontrou-se com um antigo colega de trabalho (Miss von Schrenck) em Munique, que o enviou a Dietrich Eckart, pois Rosenberg estava procurando emprego na imprensa. Em seus últimos registros, que ele escreveu durante os julgamentos de Nuremberg, ele fala sobre a República Soviética de Munique da seguinte maneira:

"As primeiras vítimas foram os membros da Sociedade Thule, uma associação que se interessava por história antiga alemã e se opunha à Judiaria, mas sem atividade política."

Isto significa que Rosenberg conhecia a Sociedade Thule, porém não era membro, pois se tivesse sido um ele saberia das atividades desta sociedade secreta. Ele talvez tenha visitado algumas vezes os encontros na companhia de Eckart.

Em relação a sua influência no Nacional Socialismo, "afirmar que Rosenberg não teve influência em Hitler é absurdo," mas igualmente absurdo seria dizer que sua influência teve grande valor. No início do NSDAP, Rosenberg era um especialista em assuntos russos e ele aproximou seus pensamentos sobre a União Soviética dos de Hitler. Ao fazer isso, ele teve alguma influência direta sobre o futuro líder da Alemanha. A linha dura anti-soviética do partido nazista também foi uma consequência dos trabalhos e teorias da conspiração de Rosenberg sobre a República Soviética e os judeus. Em 1º de abril de 1933, ele foi nomeado para criar o Escritório de Negócios Estrangeiros do NSDAP (Außenpolitisches Amt der NSDAP) e desde 1934 ele tornou-se responsável pela educação ideológica do partido.

Lendo sobre suas funções poderíamos pensar que ele teve uma ascensão rápida à liderança na Alemanha Nazista. Contudo, estas funções eram apenas formais e Rosenberg não era particularmente íntimo de Hitler. Apesar de seu livro "O Mito do Século XX" ser um tipo de luta contra as igrejas e tentar estabelecer uma nova religião para o partido, mesmo Hitler uma vez confessou que ele nunca o tinha lido por completo. Além disso, Hitler não desejava combater a posição da igreja diretamente, pelo contrário tentou evitar qualquer conflito com ela. Assim, somos forçados a concluir que a influência de Rosenberg existiu no início, mas não no auge do poder de Hitler e que, durante este período, nenhuma conexão entre Rosenberg e a Sociedade Thule foi documentada.

3. Dietrich Eckart (1868 - 1923)

Maior influência sobre Hitler teve Dietrich Eckart, que foi caracterizado pelo Müncher Post como um homem que adoraria saborear uma dúzia de judeus em seu café da manhã todos os dias. Já em 1918, Sebottendorff foi contactado por Eckart, que solicitou ajuda financeira para sua própria revista antissemita "Em bom alemão" (Auf gut deutsch). O líder da Thule teve que recusar porque já financiava o "Observador de Munique" (Münchner Beobachter). Esta pode ter sido a razão por que Eckart não tornou-se membro da Sociedade Thule, mas talvez tenha sido por causa de seu temperamento que ele nunca se juntou a qualquer tipo de organização. "Ao invés disso, ele lutou para aumentar sua base como um publicista independente" e perseguiu seus próprios objetivos.

Seria exagero chamá-lo de principal ideólogo da Sociedade Thule, como Orzechowski fez. Ele apenas tinha contatos regulares com a sociedade secreta e era frequentemente útil aos seus membros. Durante o tempo da República Soviética Bávara ele trabalhou em colaboração próxima com a Liga de Combate Thule (Thule Kampfbund), um grupo paramilitar comprometido com espionagem e sabotagem. Após a busca nos escritórios da Sociedade Thule, ele subornou alguns policiais que deixaram alguns dos membros presos serem liberados. Mas mesmo se ele tivesse uma relação íntima com os membros da Thule durante aqueles dias ele não tornou-se um participante assíduo.

Em relação à sua influência e conexão com Hitler a situação muda drasticamente. Eckart foi um dos amigos mais próximos que o líder nazista teve e influenciou o jovem político de muitas formas. Kershaw tornou isso claro ao dizer que o velho antissemita "ajeitou o caminho para o demagogo de adega de cerveja alcançar a alta sociedade de Munique e abriu as portas das mansões dos cidadãos prósperos e influentes." Contudo, Eckart não apenas influenciou Hitler, mas também podemos encontrar seus pensamentos e crenças no programa do partido. Por exemplo, o 24º ponto indica o antissemitismo paranóico de Eckart. Este tipo de mensagens contra os judeus também é visível no "Observador Popular" (Völkischer Beobachter), que foi publicado por Dietrich Eckart por um tempo.

Apesar de ele ter uma boa conexão com a Sociedade Thule e Adolf Hitler, deve ser enfatizado que ninguém pode falar em uma influência direta da Sociedade Thule em Hitler, pois Eckart era um antissemita bem antes de ele visitar as reuniões no Hotel Vierjahreszeiten.

Certamente há membros efetivos da Thule, que fizeram carreira no Terceiro Reich e cuja conexão é mais significativa.

4. Hans Frank (1900 - 1946)

Hans Frank concluiu o ensino médio em 1918 em uma escola de Munique e entrou na Sociedade Thule e no Freikorps Epp[2] para lutar contra a República Soviética Bávara. Em seus últimos registros, o próprio Frank escreve sobre sua participação na sociedade secreta, mas ele não se tornou um membro engajado da Thule, pois após o fim do reinado de terror comunista, ele não viu necessidade de continuar sua participação.

Após isso, Frank foi capaz de fazer uma longa carreira no partido nazista. Em 1923, ele tomou parte do putsch de Hitler[3]. Na organização do partido dos anos seguintes, ele avançou para a posição de principal advogado do NSDAP. Ele defendeu muitos membros do partido, assim como Hitler, em muitos tribunais. Quando os nazistas tomaram o poder ele tornou-se o Ministro da Justiça Bávaro por um período breve e foi mantido como ministro sem pasta até o final da Segunda Guerra Mundial, apesar de ele ter ficado na ativa como Governador Geral da Polônia a partir de 1939.

Mesmo se Frank tivesse a missão especial de determinar a árvore genealógica de Hitler, que o tornaria um "adepto íntimo da nem um pouco extraordinária árvore genealógica de Hitler," ele nunca fez parte do círculo íntimo da liderança nazista.

Para sugerir uma possível influência da Sociedade Thule devemos antes olhar as datas. EM 1919, Frank deixou a sociedade secreta. Isto aconteceu bem antes de sua carreira no NSDAP realmente começar e mesmo se ele ainda tivesse conexões com outros membros da Thule sua influência pessoal no desenvolvimento nazista teria sido muito pequeno.

5. Rudolf Hess (1894 - 1987)

O membro mais influente da Thule foi provavelmente Rudolf Hess. Ele foi apresentado à Sociedade Thule por seu amigo Hofweber, que também arrumou um emprego para o jovem estudante. Ali, o jovem idealista foi capaz de encontrar o que estava procurando. A combinação de luta secreta contra os comunistas com as apresentações sobre assuntos esotéricos abriram um mundo totalmente novo e interessante para Hess. Durante a República Soviética Bávara ele foi o líder do grupo de falsificações dentro da Thule, cujos membros fabricavam falsificações de bilhetes ferroviários para trazer pessoas para se infiltrarem em Munique. Hesso foi, talvez, o membro mais ativo da Thule que teve um papel importante no NSDAP, pois ele continuou a visitar as reuniões até 1934. Ele sempre acreditou em horóscopos e outros assuntos místicos e nunca deixou de mostrar interesse por tais coisas.

Sua conexão com Hitler realmente foi especial. Ambos tinham personalidades bem diversas, mas tornaram-se grandes amigos. Hess estabeleceu as ligações de Hitler com Ludendorff e promoveu, como Eckart e Esser, a imagem do futuro líder da Alemanha. Em 1933, ele tornou-se o "vice-Führer" e era um tipo de intermediário para as ideias geopolíticas de seu professor Karl Haushofer.

Contudo, a partir de 1935, ele teve contato cada vez menor com Hitler e Bormann tornou-se seu sucessor. Para Hitler ele era talvez um "meio para atingir um fim" nos primeiros dias da história do partido, como ele costumava usar os contatos de Hess com os endinheirados de Munique. Em 10 de maio de 1941, Hess voou para a Inglaterra e ainda hoje há uma discussão acalorada sobre quais eram seus objetivos lá. Mas para o desenvolvimento dos eventos essa viagem não teve nenhum impacto e foi "politicamente irrelevante", sendo que Churchill classificou o voo como uma fuga. Para Hitler, o voo foi consequência direta da influência do ocultismo em Hess, que desviou sua mente.

Mesmo se Hess fosse um adorador do Führer e mostrasse amor verdadeiro por ele, ele não foi capaz de conservar sua posição influente do início dos anos 1920 e devemos concluir que ele não conseguiu implantar o pensamento da Thule no partido nazista.

Conclusão

Após analisar as biografias de cada personagem e as conexões que Feder, Rosenberg, Eckart, Frank e Hess tiveram na Sociedade Thule e com a liderança nazista, podemos negar uma influência da sociedade secreta na gênese do Nacional Socialismo. Nenhum dos membros antigos ou convidados da Thule, exceto Hess, teve qualquer contato íntimo com ele após 1919. E mesmo que eles tivessem tido, sua própria posição dentro do NSDAP teria sido muito pequena para impor uma influência na história do movimento nazista.
           

Notas:

[1] A Crise de Agadir ou Segunda Crise do Marrocos ou Crise Marroquina de 1911 foi uma crise internacional ocorrida em 1911 que quase culminou em um conflito armado entre Alemanha e França, o que poderia ter ocasionado a Primeira Guerra Mundial três anos antes.

O incidente começou quando, em maio de 1911, a França enviou tropas ao Marrocos para sufocar uma revolta popular contra o sultão Abd al-Hafid. Diante da possibilidade dos franceses anexarem o Marrocos, a Alemanha enviou em julho uma canhoneira ao porto marroquino de Agadir, uma região estratégica tanto por si só (é o melhor porto na região entre Gibraltar e Ilhas Canárias) quanto pela situação do domínio francês no Marrocos.

Como consequência da crise, a França acabou estabelecendo um protetorado total no Marrocos, terminando o que restava de independência formal do país, reconhecido pela Alemanha em troca de uma parte menor do Congo; consolidou-se a Tríplice Entente, acelerou a corrida armamentista e exacerbou o nacionalismo e o militarismo revanchista entre os alemães.

[2] Franz Ritter von Epp (1868 - 1947), militar e político alemão.

[3] Ver artigo "As origens do NSDAP e o golpe no Salão de Cervejaria

" 
Fonte: