quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

[POL] A Liderança Nazista e a Sociedade Thule

Frank Jacob


Introdução

Recentemente, tem surgido novos detalhes na pesquisa sobre a Sociedade Thule, uma sociedade secreta nacionalista e "völkisch" alemã, que existiu de 1917 até meados dos anos 1930. Tem se afirmado que esta organização foi um tipo de local de reunião para jovens profetas völkisch. A Sociedade Thule construiu uma das mais importantes plataformas para estabelecer suas ideologias nazistas tardias. Foi particularmente a cidade de Munique onde todos os tipos de pensamentos políticos se encontraram e este ambiente criou a matriz de diferentes nacionalismos. Os membros da Sociedade Thule, assim como vários outros ativistas völkisch trabalharam nestas circunstâncias. Alguns nazistas famosos como Rudolf Hess e Alfred Rosenberg estavam entre eles. Contudo, em relação a esta sociedade secreta e sua influência no Nacional Socialismo há uma série de erros. Muitos deles foram conservados sem provas constantemente. Auerbach, por exemplo, sustenta que mesmo Gottfried Feder e Dietrich Eckart pertenciam à irmandade Thule, porém de fato eles somente tinham conexões superficiais com alguns membros da Thule. O objetivo deste ensaio é mostrar o quão próximo a conexão entre as lideranças nazistas dos anos 1920 e a Sociedade Thule realmente era e provar sua ancestralidade com a liderança nacional socialista e suas ideias. Com este objetivo, haverá uma pequena introdução a respeito da história desta sociedade secreta de sua fundação em 1917 até seu final no final dos anos 1930. O capítulo seguinte diz respeito aos famosos membros da Thule e pessoas como Eckhardt, que tinham contato regular com ela e sobre sua influência ou o papel indireto da sociedade secreta na gênese do Nacional Socialismo. Como conclusão temos uma avaliação da influência da Thule no pensamento e ações do nacional socialismo.

Uma pequena história da Sociedade Thule A Sociedade Thule não era totalmente um novo tipo de organização secreta na seção völkisch do Império Alemão, mas ao invés disso um desdobramento da Ordem Germânica, que foi fundada por Theodor Fritsch em 1912. Esta sociedade secreta considerava a Maçonaria sua antagonista e acreditava que uma conspiração contra os alemães estava a caminho; a Alemanha foi vítima na crise marroquina em 1911[1] e os social-democratas ganharam a eleição de 1912 com uma considerável vantagem em relação aos partidos antissemitas. Aqueles eventos fizeram com que os criadores da Ordem Germânica acreditassem que era tempo para um contra-ataque.

A nova sociedade secreta e seus líderes tentaram criar uma oposição a estas mudanças e organizaram-se utilizando o simbolismo da Maçonaria. Eles tinham vários centros na Alemanha, principalmente no norte. Em 1917, Rudolf von Sebottendorff, mais tarde líder da Sociedade Thule, foi indicado para restaurar o centro no sul em Munique, onde a Ordem Germânica tinha apenas poucos membros e durante a guerra a conexão com sua liderança e com o centro em Berlim foi perdida.

Sebottendorff foi bem sucedido e capaz de conseguir novos membros. Contudo, após a Primeira Guerra Mundial, por causa da influência crescente da esquerda em Munique, o nome foi mudado para Sociedade Thule. Na época da República Soviética de Munique, os membros da Thule serviram como espiões e sabotadores para o governo em exílio em Bamberg. Em 25 de abril de 1919, houve uma busca nos escritórios da Thule e a polícia foi capaz de obter uma lista que continha os nomes dos membros da Thule. Alguns deles foram capturados e executados em 30 de abril de 1919, apenas um dia antes de Munique ser libertada por muitas tropas Freikorps e da Reichswehr.

As vítimas mais tarde foram idolatradas pelo movimento nazista. Mesmo assim, com o fim da República Soviética Bávara, a Sociedade Thule perdeu sua razão de existir e após Sebottendorff deixar Munique as atividades da sociedade diminuiram. Em meados dos anos 1920, a sociedade finalmente desapareceu. Em 1933, após a ascensão ao poder do NSDAP (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães), Sebottendorff tentou um retorno e escreveu seu livro sobre os primeiros tempos do movimento nazista, no qual ele esboçou um quadro de uma influência elementar da Sociedade Thule na gênese do Nacional Socialismo. Consequentemente, Sebottendorff teve que deixar a Alemanha novamente e seu livro foi proibido, pois

"o uso do nome do Führer para o título do livro tem apenas uso econômico. Ao acentuar o nome do Führer, haveria simplesmente uma grande venda do livro e, assim, uma boa possibilidade de renda. [...] A tendência geral do livro é dar o crédito principal pela renovação nacional da Alemanha de um modo contrário à Sociedade Thule." (Boletim da Polícia Política Bávara, 1934)

O restabelecimento da Sociedade Thule foi feito apenas por alguns anos antes de desaparecer em meados dos anos 1930.

Sebottendorff escreveu que os membros da Thule foram as primeiras pessoas a ajudar Hitler em seu caminho para o poder e também os primeiros a apoiar o futuro líder da Alemanha. No próximo capítulo, será provado, o quão distante da verdade histórica é da verdade histórica.

Membros famosos da Thule e sua influência na gênese do Nacional Socialismo

Por esta razão, haverá uma análise sobre a conexão dos membros e personalidades da Thule, que tinham um contato regular com a sociedade. Além disso, veremos uma prova da possível influência sobre o Nacional Socialismo. Com isto em mente, Gottfried Feder, Alfred Rosenberg, Dietrich Eckart, Hans Frank e Rudolf Hess serão investigados individualmente, de modo que sua possível influência possa ser determinada.

1. Gottfried Feder (1883 - 1941)

Gottfried Feder não era membro da Sociedade Thule. Ele era mais um visitante casual de suas reuniões no Hotel Vierjahreszeiten em Munique. Lá, de dezembro de 1918 em diante, ele deu algumas palestras sobre "O Rompimento com a Escravidão dos Juros" (Brechung der Zinsknechtschaft). Isto não era novidade para Feder que sempre palestrava se tivesse oportunidade. Assim, ele se encontrou com alguns membros da Thule e convidados como Dietrich Eckart nestas palestras noturnas, mas não havia nenhum tipo de contato mais íntimo entre ele e a sociedade, que teria durado um bom tempo. Permanece a questão de se houve qualquer influência de Feder no Nacional Socialismo. É difícil considerar seu papel no desenvolvimento do programa partidário do NSDAP, mesmo que alguns pontos refletissem as ideias de Feder. Ele declarou que

"O Rompimento com a Escravidão dos Juros é o eixo principal em torno do qual tudo gira, [...] nada menos que a questão principal da atitude econômica e, com isto, interfere com a vida política de todo cidadão, ele exige a decisão de todas as pessoas: serviço à nação ou enriquecimento individual ilimitado - com isto significando "a solução da questão social".

Quando Hitler escutou a apresentação de Feder em 6 de junho de 1919, isso representou um dos eventos capitais no desenvolvimento político dele. Seu manifesto deu-lhe a possibilidade de estabelecer um programa confiável, que poderia desafiar o Marxismo. Mas, tirando esta influência sobre as diretrizes programáticas do partido, Feder permaneceu um "estranho no ninho". Suas teorias sobre a escravidão dos juros nunca foram aceitas oficialmente como um objetivo do NSDAP e na estrutura do partido nazista não havia lugar para Feder. Em novembro de 1931, ele conseguiu um emprego ordinário como líder do Conselho Econômico Nacional (Reichswirtschaftsrat). De julho de 1933 até agosto de 1934 ele manteve um cargo no Ministério da Economia. Após sua curta passagem pelo serviço público, ele tornou-se professor de planejamento urbano em Berlim.

Acima de tudo, podemos dizer que Feder nunca pertenceu à liderança nazista e mesmo que "suas visões tivessem sido úteis nos anos 1920, os nazistas formaram um movimento de oposição recrutando simpatizantes pobres, revoltados e xenófobos, mas eles não tinham utilidade em um novo governo buscando permanência e poder através da rápida reindustrialização e rearmamento." Logo, sua queda após a tomada do poder pelo NSDAP não é surpreendente. Mas há outros nomes que possuíam contato mais íntimo com a Sociedade Thule.

2. Alfred Rosenberg (1893 - 1946)

Alfred Rosenberg foi outro convidado da sociedade, mas ao contrário da afirmação de Vieler, ele não era membro. O alemão báltico encontrou-se com um antigo colega de trabalho (Miss von Schrenck) em Munique, que o enviou a Dietrich Eckart, pois Rosenberg estava procurando emprego na imprensa. Em seus últimos registros, que ele escreveu durante os julgamentos de Nuremberg, ele fala sobre a República Soviética de Munique da seguinte maneira:

"As primeiras vítimas foram os membros da Sociedade Thule, uma associação que se interessava por história antiga alemã e se opunha à Judiaria, mas sem atividade política."

Isto significa que Rosenberg conhecia a Sociedade Thule, porém não era membro, pois se tivesse sido um ele saberia das atividades desta sociedade secreta. Ele talvez tenha visitado algumas vezes os encontros na companhia de Eckart.

Em relação a sua influência no Nacional Socialismo, "afirmar que Rosenberg não teve influência em Hitler é absurdo," mas igualmente absurdo seria dizer que sua influência teve grande valor. No início do NSDAP, Rosenberg era um especialista em assuntos russos e ele aproximou seus pensamentos sobre a União Soviética dos de Hitler. Ao fazer isso, ele teve alguma influência direta sobre o futuro líder da Alemanha. A linha dura anti-soviética do partido nazista também foi uma consequência dos trabalhos e teorias da conspiração de Rosenberg sobre a República Soviética e os judeus. Em 1º de abril de 1933, ele foi nomeado para criar o Escritório de Negócios Estrangeiros do NSDAP (Außenpolitisches Amt der NSDAP) e desde 1934 ele tornou-se responsável pela educação ideológica do partido.

Lendo sobre suas funções poderíamos pensar que ele teve uma ascensão rápida à liderança na Alemanha Nazista. Contudo, estas funções eram apenas formais e Rosenberg não era particularmente íntimo de Hitler. Apesar de seu livro "O Mito do Século XX" ser um tipo de luta contra as igrejas e tentar estabelecer uma nova religião para o partido, mesmo Hitler uma vez confessou que ele nunca o tinha lido por completo. Além disso, Hitler não desejava combater a posição da igreja diretamente, pelo contrário tentou evitar qualquer conflito com ela. Assim, somos forçados a concluir que a influência de Rosenberg existiu no início, mas não no auge do poder de Hitler e que, durante este período, nenhuma conexão entre Rosenberg e a Sociedade Thule foi documentada.

3. Dietrich Eckart (1868 - 1923)

Maior influência sobre Hitler teve Dietrich Eckart, que foi caracterizado pelo Müncher Post como um homem que adoraria saborear uma dúzia de judeus em seu café da manhã todos os dias. Já em 1918, Sebottendorff foi contactado por Eckart, que solicitou ajuda financeira para sua própria revista antissemita "Em bom alemão" (Auf gut deutsch). O líder da Thule teve que recusar porque já financiava o "Observador de Munique" (Münchner Beobachter). Esta pode ter sido a razão por que Eckart não tornou-se membro da Sociedade Thule, mas talvez tenha sido por causa de seu temperamento que ele nunca se juntou a qualquer tipo de organização. "Ao invés disso, ele lutou para aumentar sua base como um publicista independente" e perseguiu seus próprios objetivos.

Seria exagero chamá-lo de principal ideólogo da Sociedade Thule, como Orzechowski fez. Ele apenas tinha contatos regulares com a sociedade secreta e era frequentemente útil aos seus membros. Durante o tempo da República Soviética Bávara ele trabalhou em colaboração próxima com a Liga de Combate Thule (Thule Kampfbund), um grupo paramilitar comprometido com espionagem e sabotagem. Após a busca nos escritórios da Sociedade Thule, ele subornou alguns policiais que deixaram alguns dos membros presos serem liberados. Mas mesmo se ele tivesse uma relação íntima com os membros da Thule durante aqueles dias ele não tornou-se um participante assíduo.

Em relação à sua influência e conexão com Hitler a situação muda drasticamente. Eckart foi um dos amigos mais próximos que o líder nazista teve e influenciou o jovem político de muitas formas. Kershaw tornou isso claro ao dizer que o velho antissemita "ajeitou o caminho para o demagogo de adega de cerveja alcançar a alta sociedade de Munique e abriu as portas das mansões dos cidadãos prósperos e influentes." Contudo, Eckart não apenas influenciou Hitler, mas também podemos encontrar seus pensamentos e crenças no programa do partido. Por exemplo, o 24º ponto indica o antissemitismo paranóico de Eckart. Este tipo de mensagens contra os judeus também é visível no "Observador Popular" (Völkischer Beobachter), que foi publicado por Dietrich Eckart por um tempo.

Apesar de ele ter uma boa conexão com a Sociedade Thule e Adolf Hitler, deve ser enfatizado que ninguém pode falar em uma influência direta da Sociedade Thule em Hitler, pois Eckart era um antissemita bem antes de ele visitar as reuniões no Hotel Vierjahreszeiten.

Certamente há membros efetivos da Thule, que fizeram carreira no Terceiro Reich e cuja conexão é mais significativa.

4. Hans Frank (1900 - 1946)

Hans Frank concluiu o ensino médio em 1918 em uma escola de Munique e entrou na Sociedade Thule e no Freikorps Epp[2] para lutar contra a República Soviética Bávara. Em seus últimos registros, o próprio Frank escreve sobre sua participação na sociedade secreta, mas ele não se tornou um membro engajado da Thule, pois após o fim do reinado de terror comunista, ele não viu necessidade de continuar sua participação.

Após isso, Frank foi capaz de fazer uma longa carreira no partido nazista. Em 1923, ele tomou parte do putsch de Hitler[3]. Na organização do partido dos anos seguintes, ele avançou para a posição de principal advogado do NSDAP. Ele defendeu muitos membros do partido, assim como Hitler, em muitos tribunais. Quando os nazistas tomaram o poder ele tornou-se o Ministro da Justiça Bávaro por um período breve e foi mantido como ministro sem pasta até o final da Segunda Guerra Mundial, apesar de ele ter ficado na ativa como Governador Geral da Polônia a partir de 1939.

Mesmo se Frank tivesse a missão especial de determinar a árvore genealógica de Hitler, que o tornaria um "adepto íntimo da nem um pouco extraordinária árvore genealógica de Hitler," ele nunca fez parte do círculo íntimo da liderança nazista.

Para sugerir uma possível influência da Sociedade Thule devemos antes olhar as datas. EM 1919, Frank deixou a sociedade secreta. Isto aconteceu bem antes de sua carreira no NSDAP realmente começar e mesmo se ele ainda tivesse conexões com outros membros da Thule sua influência pessoal no desenvolvimento nazista teria sido muito pequeno.

5. Rudolf Hess (1894 - 1987)

O membro mais influente da Thule foi provavelmente Rudolf Hess. Ele foi apresentado à Sociedade Thule por seu amigo Hofweber, que também arrumou um emprego para o jovem estudante. Ali, o jovem idealista foi capaz de encontrar o que estava procurando. A combinação de luta secreta contra os comunistas com as apresentações sobre assuntos esotéricos abriram um mundo totalmente novo e interessante para Hess. Durante a República Soviética Bávara ele foi o líder do grupo de falsificações dentro da Thule, cujos membros fabricavam falsificações de bilhetes ferroviários para trazer pessoas para se infiltrarem em Munique. Hesso foi, talvez, o membro mais ativo da Thule que teve um papel importante no NSDAP, pois ele continuou a visitar as reuniões até 1934. Ele sempre acreditou em horóscopos e outros assuntos místicos e nunca deixou de mostrar interesse por tais coisas.

Sua conexão com Hitler realmente foi especial. Ambos tinham personalidades bem diversas, mas tornaram-se grandes amigos. Hess estabeleceu as ligações de Hitler com Ludendorff e promoveu, como Eckart e Esser, a imagem do futuro líder da Alemanha. Em 1933, ele tornou-se o "vice-Führer" e era um tipo de intermediário para as ideias geopolíticas de seu professor Karl Haushofer.

Contudo, a partir de 1935, ele teve contato cada vez menor com Hitler e Bormann tornou-se seu sucessor. Para Hitler ele era talvez um "meio para atingir um fim" nos primeiros dias da história do partido, como ele costumava usar os contatos de Hess com os endinheirados de Munique. Em 10 de maio de 1941, Hess voou para a Inglaterra e ainda hoje há uma discussão acalorada sobre quais eram seus objetivos lá. Mas para o desenvolvimento dos eventos essa viagem não teve nenhum impacto e foi "politicamente irrelevante", sendo que Churchill classificou o voo como uma fuga. Para Hitler, o voo foi consequência direta da influência do ocultismo em Hess, que desviou sua mente.

Mesmo se Hess fosse um adorador do Führer e mostrasse amor verdadeiro por ele, ele não foi capaz de conservar sua posição influente do início dos anos 1920 e devemos concluir que ele não conseguiu implantar o pensamento da Thule no partido nazista.

Conclusão

Após analisar as biografias de cada personagem e as conexões que Feder, Rosenberg, Eckart, Frank e Hess tiveram na Sociedade Thule e com a liderança nazista, podemos negar uma influência da sociedade secreta na gênese do Nacional Socialismo. Nenhum dos membros antigos ou convidados da Thule, exceto Hess, teve qualquer contato íntimo com ele após 1919. E mesmo que eles tivessem tido, sua própria posição dentro do NSDAP teria sido muito pequena para impor uma influência na história do movimento nazista.
           

Notas:

[1] A Crise de Agadir ou Segunda Crise do Marrocos ou Crise Marroquina de 1911 foi uma crise internacional ocorrida em 1911 que quase culminou em um conflito armado entre Alemanha e França, o que poderia ter ocasionado a Primeira Guerra Mundial três anos antes.

O incidente começou quando, em maio de 1911, a França enviou tropas ao Marrocos para sufocar uma revolta popular contra o sultão Abd al-Hafid. Diante da possibilidade dos franceses anexarem o Marrocos, a Alemanha enviou em julho uma canhoneira ao porto marroquino de Agadir, uma região estratégica tanto por si só (é o melhor porto na região entre Gibraltar e Ilhas Canárias) quanto pela situação do domínio francês no Marrocos.

Como consequência da crise, a França acabou estabelecendo um protetorado total no Marrocos, terminando o que restava de independência formal do país, reconhecido pela Alemanha em troca de uma parte menor do Congo; consolidou-se a Tríplice Entente, acelerou a corrida armamentista e exacerbou o nacionalismo e o militarismo revanchista entre os alemães.

[2] Franz Ritter von Epp (1868 - 1947), militar e político alemão.

[3] Ver artigo "As origens do NSDAP e o golpe no Salão de Cervejaria

" 
Fonte:


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

[POL] As Origens do Fascismo

Elizabeth Wiskemann

History Today, Vol. 17, nº 12, dez/1967

Filippo Tommaso Marinetti

A palavra fascismo foi há muito tempo roubada pelos comunistas e usada por eles para designar seu inimigo mais mortal, obviamente amaldiçoado pela destruição. Mas a palavra era italiana e não tinha um significado básico – somente um associado, exceto na Itália. Em italiano, um fascio significa um feixe ou grupo, um fascio di Fiori sendo um buquê de flores.

O primeiro fascio político registrado foi o Fascio Operario criado por Garibaldi em Bolonha em 1871, uma organização vagamente socialista. Muitos outros fasci políticos se seguiram, sempre significando um tipo de agrupamento esquerdista.

Quando, no outono de 1914, o dissidente socialista Mussolini foi expulso do Partido Socialista Italiano porque ele desejava que a Itália atuasse do lado aliado, ele imediatamente criou seu próprio Fascio di Azione Rivoluzionaria (Grupo de Ação Revolucionária). No final do ano, esta foi unida a uma entidade semelhante chamada Fasci, organizada por sindicalistas pró-guerra. Os membros de todos estes fasci consideravam-se revolucionários esquerdistas.

Como este tipo de fascismo tornou-se um Estado Corporativo de Partido Único de direita no período fascista? Há muitas respostas para esta questão, mas a primeira é D´Annuzio. Gabriele D´Annuzio, que nasceu em Pescara no Adriático em 1863, fez sua fama como poeta e teatrólogo nos anos 1880. Ele escreveu material flagrantemente Art-Nouveau, um tanto espalhafatoso mas não sem esplendor.

Ele simpatizava com o sindicalismo e, ao mesmo tempo, sonhava em reviver a glória passada romana e veneziana. Ele desprezava o Estado liberal de Giolitti, acusando-o de transformar a Itália em nada, numa Italietta. De certo modo, o primeiro manifesto futurista de Marinetti, publicado em fevereiro de 1909, foi uma reação contra o poema dramático de D´Annuzio, La Nave, sobre a fundação de Veneza, que foi publicado com ilustrações lascivas de Art-Nouveau em 1908.

Um carro em movimento, afirmou Marinetti, era mais bonito que a Vitória de Samotrácia[1]. “Glorificamos a guerra,” ele declarou, como “a única forma de higienização do mundo.” Assim, o fascismo nasceu do casamento turbulento da influência destes dois homens e de suas persuasões combinadas entre muitos jovens italianos, incluindo o agitado jornalista Mussolini.

A coisa que ligava D´Annuzio, Marinetti e Mussolini era um amor pela violência e o desprezo pelos direitos individuais; somente homens heroicos e violentos, eles acreditavam, tinham direito ao poder.

Acontece que o primeiro congresso do Partido Nacionalista ocorreu em Florença em dezembro de 1910. A maioria das pessoas que fundaram esse partido eram socialmente conservadoras, algumas delas representando a indústria pesada; mas eles, também, eram autoritários; eles também pensavam em termos de violência, apesar de chamarem isso de educação da nação para a guerra. A ambição que a Itália deveria se expandir para a África era comum naquela época; ela era conhecida além dos membros do Partido Nacionalista.

O terremoto em Messina em 1908 fez com queo resto da Itália conhecesse a pobreza extrema do sul; o escritor nacionalista Corradini cunhou a frase de que a Itália era uma nação “proletária”. Mas isto poderia ser corrigido com a conquista da Líbia.

“Lá em Trípoli milhões de homens poderiam viver felizes,” escreveu Corradini, somente o barbarismo turco e a obstrução interna na Itália atrapalhariam a conquista da Terra prometida que resolveria o problema do sul e encerraria a hemorragia da emigração. Quando a guerra líbia foi lançada, D´Annuzio, cujas dívidas o levaram para a França, compôs sua “Canções das Façanhas no Exterior” (Canzoni delle gesta d’oltre mare) homenageando-a: elas foram publicadas no respeitado Corriere della Sera.

Nesta época, Mussolini ainda estava atrasado em relação a D´Annuzio e Marinetti, já que em 1911 ele era um pacifista radical, e em Forli uniu-se ao republicano Nenni ao incitar as pessoas a demonstrações antiguerra. No outono de 1914, ele tornou-se um intervencionista em oposição à política de neutralidade anunciada pelo governo Salandra em 2 de agosto e apoiou o partido socialista. A neutralidade era igualmente odiada por D´Annuzio, Marinetti e Mussolini: ela os unia.

A expansão italiana na Líbia foi somente uma possibilidade, apesar de que era uma chance para a colonização. As guerras balcânicas anunciaram o colapso do Império Otomano e muitos italianos estavam ansiosos em ganhar território, preferencialmente na Albânia ou mesmo na Ásia Menor[2].

O futuro da Península Balcânica estava ligado a toda questão do Adriático e isto, por sua vez, conectado com o irredentismo[3], o futuro dos italianos que viviam na Áustria-Hungria, em Zara, Fiume, Pola, Trieste e Trento.

A pressão nacionalista alemã contra os italianos no Trentino-Alto Ágide (Tirol do Sul) era forte localmente; e os italianos se resentiam da falta de uma universidade italiana na Áustria. Era sabido que o Comandante em Chefe austríaco, general Conrad Von Hotzendorf, era a favor de uma guerra preventiva contra a Itália; era sussurrado que ele sugerira um ataque logo após o terremoto em Messina quando o Exército italiano estava envolvido com trabalho de resgate.

Como aliado da Itália na Tríplice Aliança, isto parecia uma estranha atitude por parte do Comandante em Chefe da Áustria; Conrad sem dúvida achou conveniente que as mãos italianas deveriam ser parcialmente amarradas pela Aliança[4].

O pedido italiano em relação a Trieste era etnicamente justificado; era particularmente irritante aos patriotas italianos que o grande mundo comercial de Trieste, na maioria nas mãos de judeus, tenha tido pouco entusiasmo em se unir a Itália, mantendo suas oportunidades comerciais na Áustria-Hungria por ser comercialmente mais favorável. Contudo, o desenvolvimento que tornou-se mais crítico para a Itália foi o sentimento nacionalista eslavo do sul.
      
Os camponeses eslovenos e croatas da Ístria (região em direção ao sul de Trieste) e da Dalmácia foram frequentemente italianizados no passado. Após 1900, esta tendência acabou. Ao invés disso, muitos deles sentiam-se eslavos do sul em termos de lealdade; particularmente os croatas da Dalmácia que tornaram-se defensores fervorosos de algum tipo de união iugoslava entre eslovenos, croatas e sérvios.

Quando eleições livres foram introduzidas na Áustria em 1907, foi revelado que a Ístria e a Dalmácia eram mais eslavas do que italianas. Isto coincidiu com o período quando D´Annuzio estava inculcando todos os italianos suscetíveis com nostalgia do antigo Império Veneziano; tudo aquilo que outrora pertenceu a Veneza deve retornar à Itália, ele afirmava. Assim, a rivalidade racial tornou-se amarga e a cruz era a Dalmácia.

Foi particularmente infeliz que no tratado secreto de Londres, as potências da Entente, para o desgosto da Rússia, prometeram uma grande parte da Dalmácia para a Itália. Era uma promessa que os Estados Unidos não poderiam aceitar; mas quando o presidente Wilson proibiu essa injustiça aos iugoslavos, os italianos puderam sentir que eles uniram-se às potências da Entente em troca de uma promessa quebrada. Isto tornou a frase de D´Annuzio de uma “vitória mutilada” tão plausível.

Após a declaração de Salandra da neutralidade italiana, todos os tipos de intervencionistas começaram a protestar. As Repúblicas Mazzinianas[5] estavam ansiosas em ajudar a França e quatro mil voluntários se dirigiram para lá sob a liderança do neto de Garibaldi. O grupo de futuristas estavam desde o início em cena. Suas demonstrações resultaram na prisão de Marinetti, o do pintor futurista Boccioni e de outros: destemidos, eles lançaram sua “Síntese futurista da Guerra” (Sintesi futurista della guerra) na prisão.

A contribuição de Mussolini chegou tarde quando em novembro de 1914 ele começou a publicar seu próprio jornal, o Popolo d´Italia, que recebia contribuições de todos os intervencionistas. Mussolini e Marinetti, que havia sido libertado, uniram-se em demonstrações intervencionistas. Quando a primavera chegou e o Tratado de Londres foi assinado, o “maio radiante” de 1915 foi o mês do retorno de D´Annuzio do exílio.

Em 5 de maio, ele falou em Quarto, onde Garibaldi havia partido em 1860; em 12 do mesmo mês, ele chegou e, Roma e saudou multidões excitadas do balcão de seu hotel; “Se é um crime incitar os cidadãos à violência, então devo ser culpado deste crime,” ele gritou. O clímax chegou em 17 de maio no Congresso, onde D´Annuzio beijou a espada do herói garibaldiano Nino Bixio. Em 24 de maio, a guerra foi declarada contra a Áustria-Hungria.

Marinetti apresentou-se como voluntário na hora; ele foi ferido e duas vezes condecorado. Boccioni apresentou-se como voluntário e foi morto em 1916. D´Annuzio apresentou-se imediatamente e superou sua própria retórica. Ele pilotou seu próprio avião, naqueles dias pioneiros, e lançou panfletos políticos em Trieste e Trento em agosto e setembro de 1915.

Após um pouso forçado, ele perdeu um olho e ficou em repouso por um mês. Em 1917 ele foi mais dinâmico do que nunca; sua carreira de guerra culminou em um voo sobre Viena em 9 de agosto de 1918. Mussolini também se apresentou como voluntário; ele foi ferido e retornou ao seu jornal em julho de 1917 sem nenhum desempenho espetacular: sua vida nas trincheiras o tornou ainda mais nacionalista.

Para os amantes da violência, a derrota em Caporetto em novembro de 1917 foi uma prova clara da incompetência do controle parlamentar. Violência ainda maior era necessária. Treinamento especial foi dado a homens escolhidos, frequentemente escolhidos entre jovens universitários; estas tropas especiais eram chamadas arditi e vestiam camisas negras.

Quando a guerra terminou, estes homens estavam mais perdidos do que os camponeses que voltaram para casa. Eles ficaram chocados e desanimados quando as notícias chegaram informando que o tratado de paz daria à Itália a fronteira Brenner, Trieste e a Ístria, mas não a Dalmácia.

Uma das mais estranhas anomalias na Áustria-Hungria era o corpus separatum de Fiume: este era o porto da Hungria no Adriático, administrado de Budapeste separadamente da Croácia autônoma, que governava a costa estéril ao sul de Fiume. Fiume era italiana na população, apesar de seu subúrbio, Susak, e seu interior, serem croatas. Ele não foi mencionado no Tratado de Londres.

Após a guerra, ele foi ocupado pelas forças aliadas; os iugoslavos, que esperavam alegremente por Trieste e Ístria, prepararam-se para assumir o controle, Rijeka para eles. Para os italianos parecia absurdo que a Ístria não devesse incluir Fiume; eles pensavam que isso era uma conspiração francesa contra eles. Com a conveniência das forças armadas italianas, D´Annuzio, com menos de trezentos arditi, tomou Fiume em setembro de 1919.

Este golpe foi saudado como uma vitória gloriosa contra os eslavos e um triunfo da violência. De Fiume, D´Annuzio proclamou que ele marcharia sobre Roma e a livraria de seu liberalismo: os arditi aplaudiram o discurso. Assim fez Giulietti, o chefe sindical da união dos marinheiros e um admirador de D´Annuzio. Em Fiume, D´Annuzio introduziu um sistema sindicalista de acordo com o estatuto de sua “regência” lá.

Seis meses antes, Mussolini, com Marinetti, cujo lar serviu de quartel-general dos arditi milaneses, fundou seu “Grupo Italiano de Combate” (Fasci Italiani di Combattimento) para lutar por um programa fortemente esquerdista, porém nacionalista. Pouco tempo antes, Mussolini e Marinetti conduziram um ataque violento sobre o orador socialista moderado Bissolati e debelaram seu encontro em Milão.

Bissolati clamava pelo velho ideal mazziniano de simpatia e apoio ao nacionalismo eslavo. Os mazzinianos, homens como Sforza e Salvemini, assim como Bissolati, acreditavam que a Itália somente estaria segura se ela fizesse amizade com os eslavos e, consequentemente, tomasse o lugar da Áustria como seu líder. Tal liberalismo, a expressão dos objetivos de guerra dos aliados e particularmente dos Estados Unidos, era um anátema para os apóstolos da violência.

Após a representação proporcional ter sido votada, a Câmara italiana foi dissolvida e uma eleição fixada para 16 de novembro de 1919. O resultado foi surpreendente. Dois meses após a tomada de Fiume por D´Annuzio, o novo partido dos Fascisti, liderado por Mussolini e Marinetti, não conseguiu nenhuma cadeira.

Pelo contrário, seus principais oponentes, os socialistas e o novo partido católico do Popolari, ganhaam 156 e 100 cadeiras, respectivamente, de um total de 508. A maioria dos socialistas, contudo, eram extremistas, embalados por entusiasmo leninista e compartilhando o desprezo dos fascistas pelo Parlamento; provavelmente, muitos sindicalistas que flertaram com os fascistas foram atraídos em virtude desta mostra de violência.

Giolitti chegou ao poder no verão de 1920 com Sforza como Ministro do exterior e, pelo final do ano, D´Annuzio foi obrigado a deixar Fiume e quase toda a Dalmácia foi reconhecida como Iugoslávia.

Este período oi caracterizado por dificuldades econômicas que intensificaram os problemas trabalhistas. Os líderes revolucionários dos socialistas encorajaram greves em uma grande escala: elas deveriam de ser a ponta do iceberg de uma grande evolução socialista. Os empresários ficaram apreensivos e em 30 de agosto de 1920, a Alfa Romeo em Milão ordenou o fechamento da fábrica. Logo a seguir, a associação dos engenheiros ordenou a ocupação de trezentas fábricas em Milão.

Em setembro, este estado de coisas espalhou-se para outras cidades. Simultaneamente, houve greves agrárias em larga escala em Emilia e a colheita foi abandonada para apodrecer. Giolitti vivia no passado. Ele tinha sempre deixado os arruaceiros sozinhos até que eles percebessem que estavam fazendo papel de idiotas.

Mas agora era diferente; os grevistas nas cidades tinham armas e chegaram para dominar o poder político. No último segundo, a Confederação Geral do Trabalho os dissuadiu da ideia. Na teoria, 1920 trouxe sucesso para os trabalhadores, tanto industriais quanto do campo. Mas quase todas as outras categorias sociais estavam irritadas. Se o Estado não fazia nada, por que não usar os arditi ou fascisti armadas?

Outro nome foi dado à violência italiana contra os eslovenos em Trieste em julho de 1920; os jovens do Fascio que queimaram o quartel-general esloveno foram chamados de squadristi. Em Emilia, também, os esquadrões fascistas entraram em ação contra grevistas agrários. Mussolini estava ansioso em não ficar do lado dos empresários quando as fábricas fossem ocupadas.

Mas, de fato, ele foi obrigado a fazer uso da ansiedade e irritação de todos os adversários dos sindicatos; isto era irresistível para um homem sedento de poder e inescrupuloso. Ele conseguiu roubar os louros de D´Annuzio, o qual tinha reduzido Fiume ao caos; ele encontrou apoio pelos manifestantes antigreve em Emilia.

Muitos sindicalistas e futuristas, incluindo Marinetti, agora o abandonavam parcialmente, pois Mussolini, antes um ateu radical, estava começando a dar gestos conciliadores para a Igreja.

Nos próximos dois anos, Mussolini manipulou com habilidade. Ele derrotou D´Annuzio e Marinetti ao ser menos honrado e mais ambicioso do que eles. Em 1921, ele entusiasticamente se uniu ao bloco nacionalista de Giolitti. Seus fascistas receberam carta branca para aterrorizar algumas áreas – “nossos Black and Tans”, disse Giolitti[6] – e eles ganharam 35 cadeiras na Câmara na eleição de maio de 1921.

Agora, os comunistas saíram do partido socialista. Mussolini estava impressionado como Giolitti tirou D´Annuzio de Fiume e, após as extravagâncias da campanha eleitoral, no início de agosto ele achou melhor fazer um “pacto de pacificação” com os líderes sindicais, abandonando os métodos violentos por enquanto. No outono de 1921, Mussolini transformou seu Fasci em um partido político que possuía sua própria força paramilitar, o Squadre.

Contudo, não foi até setembro de 1922 que Mussolini atravessou seu Rubicão[7] ao aceitar a Monarquia, um passo essencial se sua sede de poder fosse satisfeita sem uma guerra civil. Ele foi o mais ardente dos republicanos; e a tradição republicana era forte na Itália.

Essa renúncia foi seu passo final em direção da respeitabilidade. Isto foi tornado possível pelo Rei, após o congresso fascista em Nápoles e outra mostra de força chamada “A Marcha sobre Roma”, para revogar o estado de sítio que havia declarado; ele, então, convidou Mussolini para comandar um governo de coalizão.

Mussolini insistiu em presidir, mas seu gabinete incluía quatro liberais de pensamentos diferentes, dois direitistas do Popolari, um nacionalista, assim como quatro outros fascistas, os dois chefes de serviço e o filósofo Gentili. O que o fascismo significava estava mais obscuro do que antes; algumas pessoas pensaram que ele tornar-se-ia uma forma de Giolittismo, só que menos protecionista.

Quando indicou Mussolini, o Rei se recusou a dissolver o Parlamento. Isto deu a Mussolini tempo de abolir a representação proporcional e aprovar a Lei eleitoral Acerbo que garantia ao maior partido dois terços das cadeiras na Câmara. Novas eleições foram fixadas em abril de 1924.

Na campanha eleitoral os fascistas ganharam impiedosamente dos socialistas e dos Popolari. De fato, o fascismo tornou-se identificado com propaganda mentirosa e vitória sobre os adversários. Apesar da intimidação fascista, um terço do eleitorado votou contra Mussolini.

Entre os socialistas eleitos em 1924 esta o moderado e habilidoso Giacomo Matteoti. Em 30 de maio, seis dias após o encontro da Câmara, entre interrupções furiosas dos fascistas, Matteotti descreveu, por mais de uma hora, em detalhes o reino de terror fascista durante a campanha eleitoral, e exigiu que a eleição fosse declarada inválida.

Mussolini ordenou que a vida fosse “tornada difícil” para os adversários como Amendola e Gobetti, que mais tarde sofrerão agressões físicas. O Popolo d´Italia, após o discurso de Matteotti, declarou que ele merecia mais do que lágrimas de indignação.

Em 10 de junho, uma gangue de ex-squadristi atacou Matteotti e o assassinou, apesar de não ser provável que sua morte imediata tenha sido planejada. Seu assassinato teve um efeito devastador na opinião pública, que ficou profundamente chocada. O fascismo parecia ser reconhecido pelo que ele era, e Mussolini perdeu apoio de forma sensacional.

Assim, não havia razão para o Rei não demiti-lo como instigador do crime. Em nenhum outro país uma ditadura nasceu de tal situação. Então, os inimigos de Mussolini cometeram o erro catastrófico de abandonar o parlamento rumo ao seu Aventino[8] e de falhar  em acabar com suas diferenças. A fuga permitiu ao Rei, que detestava a maioria dessas pessoas como republicanos, condená-los como subversivos.

Suas desavenças obrigaram os industrialistas a se sentirem mais confiantes em Mussolini; o Papa, surpreendentemente, tomou o lado de Mussolini. No final de 1924, Mussolini percebeu que ele poderia converter a situação após o assassinato de Matteotti a seu favor.

Em 3 de janeiro de 1925, ele fez um discurso na Câmara aceitando responsabilidade pessoal por tudo o que havia acontecido e estabeleceu um governo plenamente fascista. Talvez isto tenha sido o seu Rubicão.

Uma após outra, todas as liberdades foram destruídas na Itália. Parecia uma eternidade desde o impulso original Adriático e futurista até o Estado-policial, com o Rei e o Senado vivendo à sombra do Grande Conselho Fascista.

Alguns anos após o assassinato de Matteotti, o elemento corporativista ou sindicalista foi introduzido no sistema; este processo culminou em 1939 quando a Assembleia das Corporações finalmente assumiu o lugar do antigo Parlamento eleito.                    

Notas:

[1] A Vitória de Samotrácia, também conhecida como Nice de Samotrácia, é uma escultura que representa a deusa grega Nice.

[2] Anatólia ou península anatoliana, também conhecida como Ásia Menor, denota a protrusão ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da República da Turquia. A região é banhada pelo mar Negro ao norte, o mar Mediterrâneo ao sul, e do mar Egeu, a oeste. 

[3] O termo irredentismo indica a aspiração de um povo a completar a própria unidade territorial nacional, anexando terras sujeitas ao domínio estrangeiro ("terras irredentas") com base em teorias de uma identidade étnica ou de uma precedente posse histórica, verdadeira ou suposta.

[4] A Tríplice Aliança foi uma aliança militar entre Alemanha, Áustria-Hungria e Itália. Ela durou de 20 de maio de 1882 até o início da Primeira Guerra Mundial em 1914. Cada membro prometia apoio mútuo no caso de um ataque por outra grande potência, ou, no caso da Alemanha e Itália, de um ataque somente da França.

[5] O Mazzinianismo é uma escola de pensamento que apoia as ideias políticas de Giuseppe Mazzini, patriota, filósofo político e italiano, e significa a ideia de que a libertação da Itália só poderia ser feita através do estabelecimento de um Estado republicano unitário e a redenção nacional só poderia ser alcançada pelas pessoas animadas por uma profunda fé religiosa (uma espécie de religião secular da Pátria).

[6] Os Black and Tans foram uma força de combate de elite composta em sua maioria por veteranos britânicos da Primeira Guerra Mundial, empregados pela Royal Irish Constabulary (a Real Polícia Irlandesa) como uma força especial entre os anos de 1920 e 1921 para reprimir as rebeliões na Irlanda. Apesar de ter sido constituído com o objetivo de combater os membros do Exército Republicano Irlandês (IRA), eles foram constantemente usados para reprimir outros movimentos populares. Eles ficaram conhecidos por, em várias ocasiões, brutalizar e abrir fogo à queima roupa contra civis irlandeses. 

[7] Esta expressão significa tomar uma decisão que se traduzirá numa perigosa empresa, pensar em grande, ou ainda, ultrapassar fronteiras, defrontando-se com um caminho duvidoso e potencialmente perigoso. Rubicão era o nome antigamente utilizado para designar um curso de água na Itália Setentrional, que corria para o mar Adriático. Na época do império romano, este rio tinha uma importância notável: a lei romana proibia que o rio Rubicão fosse atravessado por qualquer legião do exército romano; dessa forma, a lei assim protegia a República de ameaça militar interna. No dia 11 de Janeiro de 49 a.C., o general e estadista romano Caio Júlio César tomou uma decisão radical: atravessar o rio Rubicão, seguido pelo seu exército. Nessa ocasião, segundo o historiador Suetonius, Júlio César terá proferido a também famosa frase latina “alea jacta est”, significando: a sorte está lançada!

[8] Segundo a mitologia, foi no monte Aventino que Hércules matou Caco. Durante a época do fascismo italiano, vários deputados da oposição refugiaram-se nesta colina após o assassinato de Giacomo Matteotti, aqui terminando — pela designada Secessão Aventiniana — a sua presença no Parlamento e, consequentemente, a sua atividade política. Atualmente constitui uma zona residencial de Roma.


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terça-feira, 24 de novembro de 2015

ESTADO ISLÂMICO - ASPECTOS OPERACIONAIS: Revolução Tática ou Infantaria Leve na Era Global

Frederico Aranha


A súbita ascensão e expansão do Daesh em 2014 deixou o mundo perplexo. Humilhou seus adversários, inclusive aqueles em Damasco, Bagdá, Teerã e Washington. Equipado com extenso arsenal, contando com uma força de combate internacional e adepto da mídia digital, o assim chamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh em árabe) tornou-se a autoridade de fato de um território igual ao da Jordânia. Desde então, o Daesh age para consolidá-lo. Simbolicamente, desmantelou o acordo Sykes-Picot, que demarcou a fronteira Síria/Iraque após a Iª Guerra Mundial, tornando o Califado uma tangível realidade territorial.
           
As desconcertantes operações militares do Daesh representam sem dúvida uma novidade tática. É a primeira vez que um grupo terrorista (ou guerrilha) alcança tal resultado: as violentas ações não se destinam à defesa de uma área de difícil acesso (zona urbana ou montanhosa, floresta) ou a simples atentados terroristas, mas à ofensiva e ocupação de um vasto território. Desenvolvem-se em terreno parcialmente desértico, com infantaria leve apenas, ausentes formações de carros de combate e artilharia orgânica e sem apoio aéreo. Realizadas unicamente por unidades ligeiras, embora com amplas repercussões estratégicas e políticas, autoriza pensar numa “revolução tática”. Recentemente, a ofensiva de uma guerrilha (ou grupo terrorista) transformada em exército convencional ou apta a operações militares convencionais se deu em raros casos: por exemplo, o Vietnã do Norte empregou carros de combate, veículos blindados e artilharia pesada no estágio final para conquistar o Vietnã do Sul; a Frente Polisario fez o mesmo para atacar as fortificações construídas pelos marroquinos no Saara Ocidental.
          
O exército iraquiano reorganizado em moldes americanos, estruturado em estados-maiores, divisões, brigadas, equipado modelarmente, mas empregando táticas ortodoxas, não é capaz de resistir aos ataques do Daesh. De igual sorte, o Exército Sírio aparelhado conforme ao antigo Exército Soviético tem sido frequente e amplamente derrotado. O ganho territorial alcançado pelo Daesh é considerável: espraia-se por dois países, Síria e Iraque, sendo de tal envergadura que permitiu a criação de um Califado aos moldes daqueles dos séculos 8/9, tal como preconizado pela Sharia, sem prejuízo das chamadas “Províncias”, filiais orgânicas e territoriais do Califado implantadas na Líbia, Afeganistão, Cáucaso, Egito (Península do Sinai), Mali, Nigéria, Somália. Ademais, a ofensiva do grupo parece destinada a provocar uma alteração radical do mapa físico e político do Oriente Médio: a provável criação do Curdistão e a potencial fragmentação do Iraque e da Síria, sem prejuízo de outras mudanças geopolíticas de profundidade na Ásia e África.

1. Portanto, é à luz da magnitude das consequências desta guerra virulenta realizada pelo Daesh apenas com unidades de infantaria leve que se afigura a ideia de uma "revolução tática." O que isso significa no contexto? Três aspectos a levar em consideração: a maturação das chamadas táticas "asiáticas"; o rompimento com a tecnologia state of art; e a nova forma transnacional de organização militar. Diferentes exércitos convencionais enfrentam a mais de meio século adversários com poder de fogo "limitado" que empregam táticas desenvolvidas com vistas a diminuir a diferença de força (potência) e criar um equilíbrio ainda que precário frente a exércitos muito mais poderosos. Essas táticas caracterizam-se, em síntese, pela surpresa, o uso da dispersão, manobra e infiltração de pequenas unidades (grupo de combate, seção). Fala-se de "revolução tática" porquanto as operações do grupo mostram que essas táticas já atingiram sua maturidade: não se limitam à postura defensiva e à busca de equivalência de poderio, mas à ação ofensiva em larga escala.

2. Se correta esta visão, exigirá uma reorientação dos exércitos regulares ocidentais abrindo caminho para requalificar o cidadão-soldado, privilegiando uma formação profissional especializada. É importante apresentar a especificidade destas táticas a fim de entender por que é legítimo evocar uma revolução. Foram elas desenvolvidas principalmente por aqueles que têm enfrentado grande poder de fogo (artilharia pesada e bombardeios aéreos) dos EUA – os japoneses em 1943, os chineses e norte-coreanos na Guerra da Coréia, os norte-vietnamitas durante a Guerra do Vietnã – e da Rússia os chechenos em três grandes conflitos: daí a designação de "asiáticas". Todos os combatentes em situação semelhante – enfrentar um poder de fogo violento, os Pasdaran iranianos durante a guerra Irã-Iraque, os Mujahideen do Afeganistão contra os soviéticos, o regulares do Hezbollah contra Israel e os militantes da Al Qaeda no Iraque e no Afeganistão, adotaram e aperfeiçoaram essas táticas.

3. No entanto, essas táticas não são particulares da Ásia ou do Leste. Sua origem, pode-se afirmar, remonta à Primeira Guerra Mundial com a criação de unidades especiais pelo Exército alemão, os Stosstruppen – Destacamentos de Choque, posteriormente Sturmtruppen – Destacamentos de Assalto [1]. Observando o fracasso e o alto custo humano dos ataques frontais de infantaria contra um inimigo entrincheirado e o impasse estratégico criado, os alemães desenvolveram métodos de infiltração com base no “enxame” de vários grupos lutando para progredir usando o micro terreno - valas, córregos, crateras provocadas pela artilharia e outros obstáculos e detritos, procurando desbordar as posições defensivas do inimigo para penetrar em profundidade rumo aos centros de comando, concentração de armas de apoio ou depósitos de suprimento. Este novo método de combate baseava-se em grupos de no máximo dez homens liderados por um suboficial. A dotação de armas também sofreu uma transformação. A prioridade foi dada a armas de combate aproximado: granadas de mão, armas de repetição, pistolas semiautomáticas, facas e pás, submetralhadoras, metralhadoras leves, minas e bombas, fuzis de precisão, lança-chamas e outros equipamentos próprios da infantaria. 

4. O objetivo foi dar ao soldado de infantaria (grupo de combate) alta mobilidade e elevado poder de fogo no combate aproximado. A adoção do Auftragstaktik (“missão tática”) [2] tornou a infiltração não apenas possível como imprimiu eficácia à atuação dos grupos de combate pois sabiam o tempo de progressão e o objetivo, mas atuavam com liberdade para escolher a rota e ações para alcançá-lo. A iniciativa era do suboficial líder do grupo; o oficial comandante concentrava-se "em seus binóculos" para descobrir os contornos precisos das posições inimigas e orientar seus grupos no campo. Na defesa os Sturmtruppen renunciavam aos dispositivos lineares (trincheiras) em favor de posições escalonadas em profundidade, localizadas no próprio campo de batalha ou na terra de ninguém, para fugir da observação e reconhecimento inimigo. Essas posições tinham rotas de fuga para a tropa evadir-se quando a pressão do ataque fosse insuportável. As posições eram reocupadas à noite quando o atacante estivesse esgotado. Dessa forma, adotavam uma luta altamente móvel, tanto na ofensiva como na defensiva, utilizando plenamente o terreno para escapar dos efeitos destrutivos de armas pesadas. Formavam as melhores e mais eficientes unidades do Exército Imperial Alemão e seus homens os mais desassombrados em combate. O Tenente Ernst Jünger, Comandante de Companhia de Assalto na Iª Guerra, filósofo e escritor, ferido sete vezes em combate, detentor da mais alta condecoração prussiana – Pour Le Mérite, conhecida também como Blue Max – registrou sua experiência de guerra em livro (v.bibl.), traduzindo com precisão a disposição dos seus comandados para a luta: Não há contradição no fato de nos cognominarmos condottieri e sentir uma estranha afinidade com esses espíritos aventureiros, com tanto sangue nas veias que qualquer pretexto e qualquer bandeira eram motivo para jorrá-lo. As táticas de japoneses, chineses, norte-coreanos, norte vietnamitas, chechenos, do Hezbollah e dos jihadistas são um legado dos Sturmtruppen.

5. O equipamento da infantaria do Daesh tem paralelo com o conjunto do armamento empregado outrora pelos Sturmtruppen: inclui geralmente armas leves de origem russa (ou soviética), o fuzil de combate AK, lança-rojão RPG-7 [3], metralhadora leve PKM/PKP, fuzil-metralhador RPD, fuzil de precisão Dragunov [4] e vários tipos de explosivos (granadas de mão, minas, bombas) e armas pessoais (pistolas semiautomáticas) de diversas procedências. As ações descentralizadas são de pequenas equipes usando surpresa, diversão e alto poder de fogo a curta distância (o lança-rojão RPG-7 desempenha um papel importante neste ponto por causa da versatilidade); a unidade tática básica pode ser de três a seis homens (armados de lança-rojão, fuzil de precisão, fuzil-metralhador e fuzil de combate) emprestando total autonomia para o combate móvel [5].

6. Os aspectos destacados das táticas adotadas pelo Daesh são:


#Ações cuidadosamente preparadas e modeladas com base em um conjunto de informações específicas obtidas por patrulhas, pelo interrogatório de prisioneiros e no seio da população civil;

# Movimento, infiltração e abordagem à noite usando o micro terreno, com base em mapas simples, mas precisos, elaborados conforme informações previamente obtidas (visores noturnos não são comumente utilizados);


# Ataque a cidades ou aglomerados urbanos de acordo com a técnica da "flor de lótus", ou seja, infiltração de equipes em vários pontos previamente eleitos, unindo-se por meio de “saltos” no centro (de comando) da cidade, o coração de lótus do dispositivo inimigo;


# Cenários utilizados para treinamento da tropa, construídos de acordo com as ações previstas; o   treinamento dos militantes se dá à exaustão, organizando a tropa conforme a missão emboscada, reide ou ação defensiva – esta organização ad hoc, modelada no cenário apropriado, aumenta ainda mais a mobilidade da unidade envolvida;


# Sistema de divulgação via internet de manuais de combate (inovação posta em prática pela Al Qaeda), nos quais os militantes obtêm a informação que precisam para suas operações.

Fase final do ataque: os Technicals avançando em alta velocidade.

7. A ênfase nessas táticas, inteligência, ação descentralizada, equipes pequenas e o uso de micro terreno (infiltração) pode compensar a falta de equipamentos pesados. O objetivo primordial é o combate corpo a corpo buscado sistematicamente, ou seja, trazer o inimigo para a “ponta da espada". Os procedimentos preferidos para atrair o oponente para área de matança podem ser a emboscada ou o ataque com IED (artefato explosivo improvisado) suicida ou não. Além disso, a infantaria leve é capaz de passar despercebida até o contato, o que impede o adversário de utilizar seu maior poder de fogo. Assim, os chechenos foram capazes de retomar Grozny ainda ocupada pelas tropas russas em maior número. O Daesh procede exatamente da mesma maneira: de modo geral, os militantes detonam um veículo suicida ou guiado por controle remoto perto de viaturas, construções e posições inimigas, dispersando os defensores; depois se aproximam com os technicals em alta velocidade metralhando tudo no seu caminho -  aí acontece a debandada. Os métodos descritos evidenciam a ação descentralizada de pequenas equipes, com grande poder de fogo a curta distância e o embuste pela explosão de carros-bomba ou de IEDs.

8. Em segundo lugar, essas táticas rompem praticamente com o emprego da tecnologia. A excelência e o sucesso são baseados em equipamentos menos sofisticados, na habilidade dos combatentes e na iniciativa de pequenas unidades pesadamente armadas e cuidadosamente preparadas. Este é o segundo ponto que permite falar de revolução. Os drones assassinos, as bombas inteligentes, a digitalização do campo de batalha e a onipresença da eletrônica, incluindo equipamentos individual do soldado, são fatores que ficam afastados por causa do sucesso com base no know-how particular do soldado, sem as características que dizem respeito à abordagem tecnológica da guerra adotada por exércitos ocidentais. Confirma-se o prognóstico de Martin Van Creveld de 1991: as armas modernas tornaram-se tão caras, tão rápidas, cegas, impressionantes, volumosas e poderosas que transformam a guerra contemporânea em becos sem saída, ou seja, lugares onde elas não funcionam.  Os braços da revolução tecnológica (Revolution on Military Affairs) não foram bem-sucedidos a não ser em onerar ao extremo os orçamentos militares, obrigando os Estados a se concentrarem em hardware em vez de no real. A RMA também provocou uma centralização quase total da conduta dos escalões de combate, removendo qualquer margem de manobra. Contrariamente, as táticas aqui consideradas demonstram a sua eficácia, até porque já não se limitam apenas à postura defensiva contra um adversário cineticamente superior, elas abrem a possibilidade de conquistas territoriais.

9. Em terceiro lugar, o Daesh promove o nascimento de uma verdadeira "força armada transnacional": os homens que compõem sua força armada lutaram ou lutam em incontáveis teatros de operações, entre eles, Líbia, Mali, Iraque, Afeganistão, Chechênia, Balcãs, Síria, etc., além de veteranos e noviços europeus e de outros países, totalizando mais de cinquenta nacionalidades. São capazes de se mover livremente e de forma discreta nesta enorme área que se estende desde o Saara até o Cáucaso, de se reunirem em um determinado lugar e movimentar e transferir todo tipo de armamento por meio do tráfico ilegal. Alguns analistas têm traçado “mapas das autoestradas” da insurreição na região mencionada; militantes circulam como civis sem serem detectados, mesclando-se com fluxos de refugiados ou através de canais comerciais. O carácter transnacional é particularmente notável quando comparado com as intervenções dos exércitos ocidentais que exigem aeronaves de grande porte, enormes bases aéreas, estruturas portuárias e cadeias de suprimentos complexas. As linhas de comunicação do inimigo serão destruídas pelo Daesh com ataques rápidos, as bases próprias substituídas por esconderijos e grandes depósitos em pontos geográficas previamente determinados e a adesão das populações será obtida por meio da propaganda e do terror.

Conclusões

Vivemos num mundo onde as fronteiras perderam sua importância, onde os territórios são fragmentados (áreas de caos ao lado de parques tecnológicos de ponta), onde a entropia surge progressivamente à medida que a economia paralela está ganhando força e, principalmente, os Estados tendem a perder o poder econômico e as empresas se tornando cada vez mais heterogêneas. Em tal mundo, um exército do tipo do Daesh pode estar em qualquer lugar, a sua liberdade de ação parece ser ilimitada. É uma matéria, uma organização informal que cresceu em força, enquanto as instituições perdem seu conteúdo. Seus militantes podem, por exemplo, se infiltrar na imigração em massa para a Europa, se estabelecer em áreas onde o Estado é ausente (periferia de grandes cidades), controlar o tráfico de drogas, equipar redes criminosas com armamento e por fim eleger as ações a serem desencadeadas e os alvos.

Neste sentido, pode-se conjecturar que uma tal forma de organização é comparável à que existiu entre o século quinto e o oitavo da nossa era, com o surgimento dos nômades das estepes (Vândalos, Avaros, Godos, Magiares) e os árabes, todos capazes de derrotarem os exércitos ocidentais graças a sua mobilidade extraordinária. Esta comparação tem como objetivo colocar a perspectiva "revolução tática" para identificar alguns elementos potenciais. A resposta do Ocidente para as invasões dos cavaleiros da estepe é esclarecedora sob diversos aspectos para a nossa realidade contemporânea. Sob os repetidos golpes, o Império Romano e o mundo carolíngio se desintegraram deixando espaço para outros mais capazes combater as ameaças. No caos deste período surgiram, em função das distâncias muito grandes e comunicações primitivas, inúmeros pequenos exércitos aptos a garantir uma defesa eficaz. Desse modo, a solução foi a transferência das responsabilidades militares à aristocracia local mais capaz de proteger áreas nacionais contra invasões e ataques. O historiador Michael Howard (v.bibl.) observa a este respeito: Não é de surpreender que um tipo de sociedade que pode garantir a sobrevivência dos povos da Europa em tais condições, apareceu: as gerações seguintes de historiadores deram-lhe o nome de 'feudalismo'.

Embora os meios de comunicação e transporte pendem hoje a anular distâncias, o território do Estado e do corpo social é de modo geral fragmentado, as lacunas preenchidas pelo caos enquanto o aparato de segurança e militar é impotente para defendê-lo. Isso abre oportunidade para um inimigo transnacional, fluido e informal, semelhante aos cavaleiros das estepes do quinto ao oitavo séculos tiros.

Pergunta-se se o Daesh pode ser derrotado no Oriente Médio. Pode, sem dúvida. A luta na Síria (e no Iraque) é feroz e complexa, pois são muitos os atores e com interesses difusos. Expulsar o Daesh dos territórios que ocupa é o objetivo estratégico. Sem território não há Califado. Assim reza a Sharia. É uma tarefa gigantesca, porquanto exige uma aliança militar gestada necessariamente por um acordão político de difícil consecução. Além dos mais, o Daesh já demonstrou que pode defender as áreas ocupadas em múltiplas frentes. Para ter sucesso, exige antes de mais nada que o Daesh seja reconhecido como um Exército Terrorista e não um mero grupo terrorista como acontece agora. (Porto Alegre, outubro/2015)

NOTAS

[1]. A questão central na Grande Guerra era como cruzar a terra de ninguém, de um sistema de trincheiras a outro, tomá-lo e ocupá-lo, tudo sem grande perda de vidas. Em 1917 os alemães pensaram ter encontrado um meio de resolver a questão. A formulação e regulamentação de um conjunto de “táticas de infiltração” foi implementada por inspiração do General Oskar von Hutier após um grande debate pelo Estado-Maior alemão. Resumidamente, consistia no “casamento” de uma curta barragem de artilharia, destinada a manter a cabeça dos defensores da primeira linha abaixada, com o ataque de forças especiais – Sturmbattalione ou Sturmtruppen– fortemente armadas e empregando táticas fundadas no aproveitamento do terreno da terra de ninguém, penetração e limpeza das posições defensivas do inimigo e prosseguimento do ataque aos centros de comando e de posições de tiro e depósitos de suprimentos. A artilharia voltaria a disparar uma “barragem rolante” para proteger o avanço. A ocupação do terreno caberia às tropas regulares que acompanhavam a ofensiva. Von Hutier adotou as novas táticas quando no comando do 8º Exército, na Frente Leste, por ocasião da travessia do Rio Dvina e a tomada de surpresa da cidade de Riga em setembro de 1917, mediante manobra de infiltração protegida pela artilharia. Embora vitorioso, falhou na missão de destruir o 12º Exército Russo. Contudo, libertou cerca de 50.000 alemães residentes em Riga, capturou 25.000 russos e 262 peças de artilharia – suficientes para equipar algumas divisões – com a perda de 4.200 homens mortos e feridos. O mais importante foi conservar a pressão sobre as tropas russas que nesta altura já tinham perdido a vontade de combater. O sucesso do ataque deveu-se em grande parte à atuação da artilharia alemã sob o comando do afamado artilheiro Coronel George Bruchmüller. A sintonia entre Von Hutier e Bruchmüller foi total.  Pode-se afirmar que a Batalha de Riga serviu de modelo, mais no plano operacional do que no tático, para as últimas ofensivas alemãs na Grande Guerra.

[2]. Traduzir Auftragstaktik para “Missão Tática” distorce completamente o sentido da palavra. Não quer ela dizer um estilo de dar ordens ou um meio de redigi-las. É toda uma filosofia de comando. Por ocasião dos jogos de guerra do Estado-Maior do Exército Prussiano em 1858, o genial Von Moltke enunciou na crítica aos jogos os princípios do Auftragstaltik – sendo a ordem uma regra, deve conter somente aquilo que o subordinado por si só não pode determinar; todo o resto deve ser deixado ao seu talante. No entanto, como anota o historiador militar inglês Liddell Hart, a única coisa mais difícil do que introduzir uma nova ideia no pensamento militar, é dele extrair uma velha ideia. Seus preceitos foram oficialmente adotados e incorporados aos Manuais de Campanha do Exército Alemão trinta anos depois, em 1888, ano em que o Marechal Von Moltke retirou-se do serviço ativo. Por ocasião do ataque alemão à França em 1940, o entãoOberst (Coronel) Kurt Zeitzler, chefe do Estado-Maior do Panzergruppe Kleist, transmitiu uma ordem invulgar aos comandantes das unidades mecanizadas e seus estafes, ajustada ao melhor espírito do Auftragstaktik: Senhores, a missão das suas divisões é cruzar as fronteiras da Alemanha, transpor totalmente as fronteiras belgas e atravessar completamente o rio Meuse. Não me preocupo como cumprirão as ordens. É um problema que compete somente aos senhores.

[3]. De acordo com o International Arms Market, o tubo do RPG custava US$ 200 em 2012 e o foguete propulsor US$ 100. Além do baixo custo e fácil manuseio, a arma dispara uma gama de munições de aplicação variada o que lhe empresta grande versatilidade. Tipos de munição:

1. PG-2 HEAT (80 mm)
2. PG-7 HEAT (85 mm)
3. PG-7M HEAT (70 mm)
4. PG-7L HEAT (93 mm)
5.
PG-7R HEAT tandem (50/105 mm)
6. TPG-7 Termobárica (105 mm)
7. OG-7 Fragmentação (40 mm)

[4]. O fuzil de precisão tem importância particular, porquanto não só permite a observação e o tiro a longa distância – um apoio discreto e eficiente, bem como enseja a interdição de uma zona de combate sem implicar no emprego de grande efetivo.

[5]. Observa-se em fotos que os militantes do EI se apresentam normalmente em grupos de três a seis homens (em tese, a capacidade do technical) exibindo seu armamento pessoal.


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