quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Por que Roma desabou?

Carla Aranha


Era o fim. A fumaça e o fogo se espalharam pelo campo de batalha, e logo se misturou no ar um cheiro de suor, sangue e corpos queimados. Os cadáveres de 20 mil soldados romanos, dos 30 mil que haviam participado da luta, se espalhavam inertes pelo chão. O imperador Valenciano, que pessoalmente comandara o embate, também desapareceu naquele dia, 9 de agosto de 378, sem deixar vestígios. De acordo com relatos de sobreviventes, ele foi queimado vivo pelo inimigo. Os godos tinham vencido de maneira espetacular. O episódio, um divisor de água na história de Roma, ficou imortalizado como a Batalha de Adrianópolis (que aconteceu na região da atual Turquia). Nunca mais o mundo seria o mesmo. Cem anos depois, entraria em colapso a maior força política e militar de todos os tempos, o Império Romano do Ocidente – seu território se estendia da Itália ao norte da África e ao Oriente Médio.

Alguns anos antes da batalha, os godos já haviam penetrado na Turquia, saqueando cidades e provocando o caos. No ano de 378, pretendiam derrubar as portas de Adrianópolis, próxima a Constantinopla (atual Istambul), a capital do Império Romano do Oriente. Esse braço da administração imperial havia sido criado em 330 para facilitar o controle dos territórios na Europa Oriental, no norte da África, Turquia, Síria e Iraque.

Os romanos acreditaram que, como no passado, seria fácil derrotar os bárbaros. Então, como sempre, extrairiam um tratado de paz e teriam mais um reino-cliente, que compraria mercadorias fabricadas em Roma e cederiam guerreiros para lutar nas legiões quando fosse necessário. Mas eles não contavam que os godos não estariam sozinhos. Ao lado deles, para surpresa do imperador Valenciano, combatiam os temíveis hunos e os alanos.

Por trás da estrondosa vitória de 378 houve mais, entretanto, do que o fator surpresa. O desenvolvimento social, econômico e social das tribos bárbaras e sua convivência durante séculos com os costumes romanos explicariam, em grande parte, o sucesso na Batalha de Adrianópolis e nas campanhas seguintes. Em suma, causas externas, e não internas, seriam os principais responsáveis pelo desmoronamento da grande potência. Essa visão, sustentada pelo prestigiado historiador inglês Peter Heather, da Universidade de Oxford, contradiz as antigas versões sobre a queda do Império Romano. Sim, tudo aquilo que você aprendeu. Corrupção, colapso da economia e crise política? Esqueça, afirma Heather em seu livro The Fall of the Roman Empire – A New History of Rome and the Barbarian (“A Queda do Império Romano – Uma Nova História de Roma e dos Bárbaros”, sem tradução).

Para Heather, a economia romana estava bem, a corrupção era algo corriqueiro (e não era mais acentuada no final do império do que em seu início) e as trocas de imperadores, que realmente existiram nos séculos 4 e 5, não seriam motivos suficientes para explicar o colapso de Roma, fato que permanece como um dos maiores mistérios da Antiguidade. Afinal, perguntam-se até hoje os historiadores, como foi possível que rudimentares tribos bárbaras invadissem Roma? A resposta, para Heather, está em dois pilares: as migrações de grandes grupos bárbaros na Europa Oriental a partir do século 3 e a crescente sofisticação política, econômica e social de povos como os godos e vândalos.

A tese, como seria de se esperar, suscita polêmicas. Para Richard Saller, historiador da Universidade de Chicago e um dos maiores especialistas do mundo em Roma antiga, o raciocínio de Heather não é muito convincente. “A queda do Império Romano é uma questão muito grande e complicada para ter só uma explicação. Se a economia e o poderio militar de Roma estivessem crescendo, os ataques militares dos inimigos poderiam ter sido repelidos”, analisa. Heather, por sua vez, sustenta que os povos bárbaros mudaram, adotando uma organização política e uma nova inteligência que levaram a batalhas como a de Adrianópolis. “Além disso, não é possível afirmar que a economia de Roma estivesse mal. Foram tomadas, isso sim, medidas emergenciais para que mais legiões pudessem ser financiadas para vigiar as fronteiras no Oriente, então ameaçadas”, diz Heather.

Tudo havia começado, segundo o historiador inglês, com os bem-sucedidos ataques persas às forças romanas estacionadas no Oriente, no século 3. Pela primeira vez, os árabes representavam um obstáculo ao poderio do império. Segundo Heather, a origem do problema estava na própria dinâmica da hegemonia imperial. As repetidas vitórias das legiões na região causaram uma crise de poder nas lideranças do atual Irã, até que, no final do século 3, uma nova dinastia emergiu, os sassarianos. Eles marcharam sobre a Mesopotâmia (na região do atual Iraque) com muito mais eficiência do que seus antecessores, os arsacid. “O aparecimento de um super-rival foi um grande choque”, diz Heather em seu livro. E Roma precisava reagir.

Tempos de inflação

O grande desafio era mandar mais tropas para o Oriente, mas sem se descuidar das fronteiras da Europa, que desde o século 2 sofria ataques dos bárbaros. Mas era preciso criar recursos para financiar os reforços militares que protegeriam a região da Mesopotâmia. A solução foi desvalorizar a moeda, para ter mais dinheiro – aparecia aí, pela primeira vez de que se tem notícia, a inflação – e aumentar os impostos. Outra medida foi confiscar os recursos gerados pelas cidades – antes, os fundos podiam ser administrados pelos governadores locais. Os ajustes foram eficazes: em 298, os sassarianos finalmente foram derrotados.

E a economia não ficou em frangalhos depois disso? Para os adeptos da tese de que Roma caiu por causa de reveses econômicos e políticos, sim. Um dos defensores dessa interpretação é o historiador italiano Giovanni Cipriani, da Universidade de Lecce. “Criou-se a inflação, os camponeses ficaram mais pobres e antigos aliados de Roma, como os francos, não tinham mais tanto interesse em defender o império”, afirma Cipriani.

Segundo Heather, não foi bem assim. As províncias romanas, como as atuais França e Espanha, viviam na época um boom, com uma agricultura florescente e importações crescentes de artigos romanos, como cerâmicas, vidros, jóias. Por isso, a vida econômica do império não teria sofrido uma mudança tão grande a ponto de minar suas estruturas.

Para Heather, a grande questão é que, no século 4, a Europa vivia uma revolução sem precedentes. Grandes migrações ocorriam no continente, motivadas pelos avanços dos temidos hunos, uma tribo nômade originária da Mongólia que passou a procurar novas terras na Europa Central, expulsando os grupos de ali viviam. Ninguém sabe ao certo por que os hunos resolveram deixar sua terra natal. Uma hipótese é que eles tenham sido atraídos pela riqueza das vilas próximas às fronteiras do Império Romano, que se beneficiavam da necessidade de vender alimentos para as tropas romanas e fornecer serviços em geral.

Por onde passavam, os hunos espalhavam o terror. Eles faziam uma guerra-relâmpago, matando o maior número possível de pessoas em um curto espaço de tempo. Não contentes, saqueavam tudo o que viam pela frente. À primeira notícia de que os hunos estavam se aproximando, os povos em seu caminho fugiam apavorados. “Os alanos escaparam, empurrando os godos, que foram cair em cima dos romanos”, resumiu uma fonte da época, o bispo Ambrósio, de Milão.

Algumas vezes, as lideranças mais fortes desses grupos faziam alianças com os hunos, como na Batalha de Adrianópolis. De qualquer forma, o contato com os mongóis, se por um lado trazia medo, por outro ensinou às tribos européias novas táticas de guerra. E, para a felicidade delas, a necessidade de dobrar os resistentes persas tinha deixado as fronteiras da Europa menos guarnecidas. O Império Romano como um todo havia se voltado mais para o Oriente do que para o Ocidente. Os generais na Europa se viram sem liderança, e teve início uma anarquia militar que durou 50 anos, até meados do século 4. “Mas observa-se que, mais uma vez, tratava-se de problemas de ordem externa, e não interna”, diz Heather.

Bárbaros sofisticados

Para o azar dos romanos, nos últimos dois séculos os bárbaros haviam se sofisticado, e muito – para os historiadores, incluindo Heather, isso aconteceu em grande parte devido a uma convivência de séculos com Roma. Eles ainda eram analfabetos, mas já tinham lideranças fortes e certa coesão política – no passado, as tribos dificilmente se entediam entre si. No plano econômico, haviam descoberto novas técnicas agrícolas que aumentaram a produtividade, gerando riqueza. Além disso, as trocas comerciais com o Império Romano trouxeram ainda mais recursos. Uma elite se formava, pela primeira vez. E ela estava sedenta de autonomia política e independência total em relação às forças romanas.


“Os imperadores resistiram durante dois ou três séculos, mas depois não conseguiram mais segurar os bárbaros”, diz Heather. Nem todos especialistas concordam com essa teoria. Para Richard Saller, da Universidade de Chicago, se a economia do Império Romano estivesse em melhor estado – sem inflação e pesados impostos –, talvez houvesse uma possibilidade mais concreta de contra-atacar. “Mas, no século 5, já estava decretado o destino de Roma”, afirma.

Para atingir seu objetivo, as tribos partiram para a guerra, e para valer, freqüentemente fazendo alianças entre si – outro fato inédito. Os piores ataques foram comandados por líderes vândalos, alanos, suevos e godos, entre os anos de 405 e 408. Eles invadiram as fronteiras junto ao rio Danúbio e conquistaram a Espanha, a França e a Bélgica, então províncias romanas. Os hunos também não deram trégua, obrigando as legiões a combatê-los sistematicamente na região das atuais Áustria, Croácia, Hungria e Eslovênia. Nesse cenário, um grupo de godos conseguiu invadir Roma em agosto de 410, saqueando-a completamente por três dias. “O mundo romano estava abalado em suas fundações”, escreve Heather em sua obra.

Segundo o historiador, mesmo que quisessem as províncias não poderiam revidar. Novamente, acredita Heather, o problema era gerado muito mais fora do que dentro dos limites do Império Romano. Essa tese é controversa. Para outros estudiosos do tema, os povos dominados, por estarem descontentes com a política imperial, não resistiram tanto assim aos ataques. “Foi tudo muito rápido. E posso dizer que na França, por exemplo, já havia um desejo por autonomia, tanto é que alguns anos mais tarde se formaram os feudos e as monarquias locais”, diz o italiano Cipriani.

O Império Romano dava seu último suspiro no Ocidente. No Oriente, com sua capital na Turquia, sobreviveria até 1453, quando os turcos otomanos tomam Constantinopla. Emblematicamente, foi um líder meio huno, meio germânico, Odoacro, que em 4 de setembro de 476 colocou o Império Romano de joelhos. Ele obrigou o imperador Rômulo Augusto a renunciar, com consentimento da administração da outra ponta do império, em Constantinopla, e passou a ser o governador da Itália. Os romanos deixam de ser os donos do Ocidente. Foi o fim da maior civilização que já havia existido. “E, com certeza, não por decadência dos romanos”, afirma Heather. “Mas sim graças a uma enorme força exterior que era impossível combater.”

A vida em Roma do século 5


Como uma grande metrópole de hoje, a Roma do século 5 era uma cidade pulsante, com 1 milhão de habitantes, repleta de palácios, templos e locais de diversão. Depois de um dia de trabalho, um romano típico ia dar uma espiada em uma das lutas no Coliseu. Até o final do Império Romano, no ano 476, o anfiteatro funcionou a todo vapor. Inaugurado por volta do ano 80 a.C., comportava até 55 mil espectadores. Calcula-se que 200 mil gladiadores tenham morrido ali. O Coliseu ficava no coração da cidade, ao lado do Fórum, onde se desenrolava a vida política, econômica e jurídica de Roma. O ritmo agitado do Fórum tinha como contrapartida as termas, onde a elite, formada por proprietários de terra e membros do governo, iam espairecer. A primeira delas, a de Caracala, foi construída no ano 217, e a de Diocleciano, em 298. Esses prédios grandiosos, muitas vezes com decoração primorosa, abrigavam não só o local para banhos, mas também bibliotecas, bares, barbeiros, ginásios para a prática de esportes e até galerias de arte. Depois de ler, conversar e se exercitar nas termas, o cidadão romano contava com o conforto de ter água corrente em casa – um luxo raro em outras partes do mundo. Mesmo no Brasil, no século 18, os moradores do Rio de Janeiro, então capital do país, tinham de percorrer longos caminhos para buscar água nos rios e fontes. Em Roma, já no ano 312 a.C., era inaugurado o primeiro aqueduto, o Aqua Appia, que levava água de fontes naturais de colinas próximas até a cidade. A vida religiosa também era importante em Roma, e os imperadores não hesitavam em mandar erguer templos. O mais famoso deles era o Panteão, com suas colunas de 43 metros de altura e o piso de mármore colorido. Inaugurado no ano 118 pelo imperador Adriano, o edifício sobreviveu aos ataques dos bárbaros e aos estragos do tempo. Os governantes também não pensaram duas vezes em fazer estradas pavimentadas por onde passavam as tropas. A primeira delas, aberta em 310 a.C., foi a Via Appia, onde até hoje estão as marcas das bigas romanas. Era por lá que as legiões entravam na cidade depois de uma batalha vitoriosa. Como a Via Appia, outros testemunhos da Roma antiga, como o Coliseu, as termas de Caracala, o Panteão e partes do Fórum, todos ainda de pé, ajudam a contar uma história que, quase 2 mil anos depois, ainda é fascinante.

Quem eram os bárbaros?

Os antigos romanos consideravam bárbaros todos os povos que viviam fora do limite do império. “Eles não sabiam ler, escrever e levavam uma vida simples”, diz Peter Heather. Havia vários desses grupos espalhados pela Europa, como os suevos, vândalos, ostrogodos, visigodos, francos, alanos e hunos. Estes últimos eram considerados os mais letais de todos os bárbaros. Seu maior chefe foi Átila. Após sua morte, em 453, os hunos foram dominados por outras tribos e desapareceram.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Os 47 Ronins

No início do século 18, o Japão era governado por Tokugawa Tsunayoshi, bisneto de Tokugawa Ieyasu, um dos principais responsáveis pela unificação do país e o primeiro xogum de seu clã. Tsunayoshi pouco lembrava o bisavô, o destemido senhor da guerra que havia eliminado todos os inimigos e submetido o país à força de sua espada. Livre de grandes preocupações políticas ou militares, Tsunayoshi gastava seu tempo promovendo estudos religiosos e incentivando a arte. 



Guerreiros aposentados

Sem guerras para lutar, os samurais haviam perdido sua função primordial. Os membros da corte levavam uma vida de luxo e ócio, e eram freqüentes os casos de corrupção. Sem grandes realizações, Tsunayoshi seria conhecido como o xogum cachorro, pois uma de suas medidas mais notáveis foi estabelecer a pena de morte a quem matasse cães. Por ter nascido em um ano do cachorro do horóscopo chinês, o xogum passou a protegê-los. A cidade de Edo, a sede do governo, ganhou um imenso canil, que abrigava animais abandonados, alimentados com arroz e peixe pagos pelo povo. Esse marasmo só seria quebrado em 1701 por um incidente que entraria para a história dos samurais: a vingança dos 47 ronins.

Tudo começou quando Tsunayoshi escolheu Asano Takuminokami Naganori, um jovem daimiô de uma região rural do Japão, como um dos encarregados de entreter os enviados da família imperial em Edo. Para exercer a nova função, Asano devia ser treinado por um alto funcionário designado pelo xogunato, Kira Yoshinaka, um especialista em cerimonial. Durante as aulas, Kira passou a humilhar Asano constantemente, ridicularizando seu pouco conhecimento sobre questões de etiqueta. Certo dia, Asano perdeu as estribeiras, desembainhou a espada e avançou sobre Kira, ferindo-o na face, antes de ser contido pelos guardas. 

Qualquer ato de violência nos recintos do Castelo de Edo era considerado uma grave ofensa ao xogum. Por isso, Asano foi condenado a cometer suicídio, praticando o ritual do seppuku, em março de 1701. Ele tinha 34 anos. Suas terras foram confiscadas e seus samurais tornaram-se ronins, samurais sem um senhor para servir.

O ardil dos samurais

Indignados com as circunstâncias do suicídio de Asano, 47 dos ronins juraram vingar a morte de seu mestre. Liderados por Oishi Kuranosuke Yoshio, ex-conselheiro de Asano, os ronins decidiram aguardar o momento oportuno para atacar Kira, pois este, ciente da possibilidade de vingança, havia reforçado sua segurança. 

Para não despertar suspeitas, os ronins dispersaram-se e passaram a viver como se tivessem abandonado completamente o código de conduta dos samurais. Oishi, por exemplo, vivia em tavernas e cercado de prostitutas, o que levou sua mulher a pedir divórcio. 

Certo dia, Oishi estava caído na rua de tanto beber. Um samurai da província de Satsuma que passava ali perto se enfureceu, ao ver o estado degradante de Oishi. Além de estar largado na vida, aparentemente nada tinha feito para se vingar da morte do senhor feudal a quem servira. O samurai chutou o rosto de Oishi e cuspiu nele com desprezo. A cena foi testemunhada por espiões de Kira, que vinha sendo informado sobre a rotina de Oishi. Kira concluiu que nada tinha a temer e voltou à sua rotina.

Percebendo que Kira havia afrouxado sua segurança, os 47 ronins decidiram entrar em ação. Já havia se passado um ano e meio desde a morte de Asano. Na madrugada de 14 de dezembro de 1702, durante uma forte neve, os 47 guerreiros atacaram a mansão de Kira em Edo.

A grande desonra

Armados com espadas e arcos, eles se dividiram em dois grupos, um liderado por Oishi, que atacou pelo portão principal, e o outro por Chikara, o filho mais velho de Oishi. Um tambor começou a tocar e os dois grupos atacaram simultaneamente, pegando os guardas de Kira desprevenidos. Em pouco tempo, os ronins conseguiram eliminar vários guardas e controlar a situação. Mas onde estava Kira? Nenhum sinal.

Ao vasculhar a casa, Oishi percebeu que a cama de Kira ainda estava quente e, por isso, ele não poderia ter ido longe. Depois de nova busca, os ronins descobriram uma passagem secreta que levava a um pátio, onde Kira havia se refugiado com algumas mulheres e dois guardas. 

Eles foram mortos pelos ronins, enquanto Kira se encolhia de medo. Oishi verificou se o homem era mesmo Kira, pois ainda tinha no rosto a cicatriz do ferimento causado por Asano. Oishi ajoelhou-se e, em respeito ao elevado grau hierárquico de Kira, explicou-lhe que os guerreiros de Asano estavam ali para se vingar da morte do mestre. Convidou Kira a morrer com dignidade, por seppuku, oferecendo-lhe a adaga utilizada por Asano para se matar. 

Kira, no entanto, nada disse e não parava de tremer. Oishi então deu ordem a um dos ronins para que o decapitasse. Em seguida, os guerreiros levaram a cabeça de Kira até o templo de Sengakuji, em Edo, e a ofertaram ao túmulo de Asano.

Final "feliz"

Depois de cumprir o que haviam planejado, os 47 ronins entregaram-se às autoridades. Conforme já esperavam, foram condenados à morte, por terem matado um funcionário do governo e desafiado o poder do xogum. No entanto, em vez de serem executados como criminosos, os guerreiros receberam o direito de cometer seppuku, em reconhecimento à lealdade demonstrada ao antigo mestre. O seppuku coletivo ocorreu em 4 de fevereiro de 1703. Os ronins foram sepultados no templo de Sengakuji, ao lado do túmulo de Asano.

Ao tomar conhecimento de tudo, o samurai de Satsuma – o mesmo que havia cuspido em Oishi na rua, por considerar que ele não agia como um verdadeiro guerreiro – foi a Sengakuji para pedir perdão por seu equívoco. Ele também cometeu suicídio e foi enterrado ao lado dos ronins. 

Para o samurai Yamamoto Tsunetomo, autor de Hagakure, uma compilação de pensamentos publicada em 1716, os ronins não agiram como verdadeiros samurais ao esperar o momento adequado para atacar Kira. “E se, nove meses depois da morte de Asano, Kira tivesse morrido de alguma doença? A resposta óbvia é: os 47 ronins teriam perdido a única chance que tinham de vingar seu mestre”, escreveu Tsunetomo. Nesse caso, os ronins seriam lembrados como um bando de bêbados e covardes, e o pior: teriam desonrado para sempre o nome do clã Asano. Segundo Tsunetomo, os ronins deveriam ter atacado Kira logo após a morte de Asano, mesmo que as chances de vitória fossem mínimas.

As críticas de Tsunetomo aos ronins não são a visão predominante no Japão. A maioria dos japoneses considera os 47 ronins como heróis, exemplos de coragem e lealdade. O templo de Segakuji, que fica na região central da atual cidade de Tóquio, atrai até hoje milhares de peregrinos que vão reverenciar os ronins. A ação desses guerreiros tornou-se ainda mais marcante porque foi uma espécie de canto do cisne dos samurais. A partir de então, a classe social que governava o Japão entraria em irreversível decadência. 

O último ato


O suicídio coletivo dos 47 ronins foi um dos episódios mais dramáticos na história de um dos rituais mais controversos do código de honra samurai: o seppuku. O primeiro guerreiro a cometer o suicídio ritual foi Minamoto Yorimasa, em 1180, durante a Batalha de Uji, entre os clãs Minamoto e Taira. Acuado pelos inimigos, Yorimasa preferiu se matar a se render. Ao longo dos séculos, um sem número de samurais trilhou o mesmo caminho, tido como uma forma honrosa de morrer. O seppuku (chamado de harakiri por aqueles que desprezam o ritual) consiste em abrir o abdome com uma espada curta ou punhal. Era praticado de forma voluntária – para não cair em mãos inimigas ou para assumir a culpa de um fracasso – ou de forma compulsória – pelos condenados à pena de morte. Quando possível, a morte era precedida por um ritual elaborado: o samurai tomava banho, vestia trajes brancos para a ocasião, degustava seu prato favorito e compunha um poema. Os instantes finais eram testemunhados pelos amigos próximos. Um auxiliar postava-se atrás do samurai para dar um golpe final com a espada – sem decapitar o suicida –, com o objetivo de abreviar sua agonia.

O seppuku como forma de punição judicial foi abolido pelo governo Meiji, em 1873, mas o seppuku voluntário continuou a ocorrer. Durante a Segunda Guerra, vários soldados japoneses preferiram o suicídio à rendição. Um caso contemporâneo envolveu o escritor Yukio Mishima, líder de um grupo fanático de extrema direita. Em 1970, Mishima cometeu seppuku no quartel-general das Forças de Autodefesa do Japão, após tentativa frustrada de incitar um golpe de estado.

Embora a tradição do seppuku tenha perdido força, sua motivação continua presente na sociedade japonesa. O Japão tem a maior taxa de suicídio entre as nações desenvolvidas. Mais de 30 mil japoneses se matam a cada ano – cinco vezes mais que as vítimas fatais de trânsito. Segundo os especialistas, a incapacidade de lidar com o fracasso explica boa parte dos suicídios, que atingem inclusive muitas crianças. A diferença é que, hoje, os descendentes dos antigos samurais não usam mais a espada – preferem morrer intoxicados com gás de cozinha ou atropelados por um trem.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Guerra Mexicano-Americana: a águia estende suas asas

Rodrigo Casarin



Sobre uma colina com mais de 60 m de altura, o forte de Chapultepec abrigava a Academia Militar e era um dos pontos mais importantes para que a Cidade do México, a capital do país, permanecesse intocada. As defesas mexicanas já estavam bastante enfraquecidas, restavam algumas centenas de homens - muitos deles jovens cadetes - para zelar por aquele ponto estratégico. Os ataques norte- americanos começaram na madrugada. Ainda que tenha havido uma breve trégua, retomaram com força antes mesmo do sol raiar. A resistência dos defensores causou diversas baixas nos invasores, elevou alguns combatentes ao status de heróis da nação e deixou uma sensação de vitória moral nos mexicanos. Mas não foi suficiente para que os ianques deixassem o seu objetivo de lado. Restava aos sobreviventes debandarem para a cidade. Ao amanhecer, o forte estava tomado pelo Exército estrangeiro, que teria como próximo alvo a capital - faltava apenas invadi-la e tomá-la para, definitivamente, vencerem a guerra.

Estado rebelde

Na campanha até ali, os norte-americanos haviam triunfado em duras batalhas. Mas a tomada da Cidade do México talvez tenha sido mais fácil do que poderiam imaginar. Ainda que necessitassem enfrentar alguns focos pontuais de rebeldes e as adversidades provocadas pela própria população, em pouco tempo tirariam a bandeira mexicana que tremulava sobre o Palácio Nacional e içariam a dos Estados Unidos, definindo, simbolicamente, vencedores e vencidos.

Era o dia 14 de setembro quando os invasores chegaram à capital. A tomada da cidade foi o último capítulo belicoso de uma guerra iniciada em 1846, resultado de um conflito sobre o território do Texas que se juntou à necessidade de expansão dos Estados Unidos. O México, que não queria perder um estado rebelde, acabou perdendo muito mais do que isso.

Boa parte da população texana estava insatisfeita com as leis mexicanas. Por isso batalharam por sua independência e, em seguida, pediram anexação aos Estados Unidos, que aceitou o pedido. "Os Estados Unidos declararam guerra ao México dez anos depois da independência do Texas, num projeto mais amplo, a expansão para o oeste, no qual caravanas avançavam levando fortes militares", diz Maria Ligia Prado, doutora em História Social pela USP e especialista em América Latina. A desavença entre México e Texas caiu como uma luva na necessidade de expansão territorial dos EUA. Serviu como catalisador da nação e impulsionou, entre outras coisas, a expansão territorial rumo ao oeste e ao sul, numa série de conquistas de novos territórios antes pertencentes a franceses, ingleses, russos e espanhóis.

Metade para mim, metade para você

Antes da batalha de Chapultepec e o domínio da Cidade do México, outros episódios já haviam ocorrido. Para invadir o país vizinho, o Exército dos Estados Unidos se dividiu em três frentes, duas que rumaram para o sul do Texas e outra que foi para o Novo México e, em seguida, para a Califórnia. Vitórias em Palo Alto e Resaca de la Palma foram decisivas para que a ofensiva se consolidasse, seguindo para Monterrey - palco de uma batalha de três dias que causou muitos danos aos dois Exércitos. Apesar dos triunfos, os norte-americanos perceberam que os mexicanos, liderados pelo general António Lopez de Santa Anna, não se entregariam. Então, para que conseguissem alcançar a capital, utilizaram também a Marinha. Após uma série de conflitos em Vera Cruz, Cerro Gordo, Contretas e Molino del Rey, finalmente chegaram a Chapultepec.

Mas se o principal objetivo dos EUA era a ampliação do território e seu Exército conseguiu chegar até a Cidade do México, por que não ficaram com todo o bolo? "Quando você vence a guerra, precisa tomar a capital do país vencido, isso é uma regra básica. Contudo, anexar o país inteiro significaria também provocar uma resistência muito grande por lá. No norte do México, a ocupação sempre foi menor, é muito deserto. A própria população do Texas era muito pequena. Desde o período colonial, a maior parte das pessoas estava no centro e no sul do país, e não aceitaria que o EUA tomassem a capital, haveria ainda mais resistência", afirma a professora Maria Ligia.

Para colocar fim à guerra - iniciada pelo México, não custa lembrar -, autoridades mexicanas e norte-americanas assinaram, em fevereiro de 1848, o Tratado de Guadalupe-Hidalgo, no qual o país latino cedia aos invasores, além do Texas, áreas que atualmente correspondem aos estados do Novo México, Califórnia, Arizona, Colorado, Nevada, Utah e Wyoming, além de pequenas partes de Kansas e Oklahoma - um espaço de aproximadamente 2,4 milhões de km2, que corresponde à metade do então território mexicano. O Rio Grande serviu (e ainda serve) como referência para a fronteira. Em troca, o México recebeu uma indenização de 15 milhões de dólares.

O tratado foi criticado por expansionistas norte-americanos, que o consideraram condescendente com os derrotados - queriam todo o território onde o Exército invasor fincou bandeira. Mas o acordo foi atacado até por autoridades dos EUA, responsáveis pelas negociações de paz, que julgaram tamanha perda territorial uma grande humilhação aos mexicanos, provocando neles um grave sentimento de frustração. Seja como for, muito do que é hoje território norte-americano foi descoberto, ocupado e colonizado por descendentes de espanhóis e mexicanos.


A república do Texas

A história dos problemas no território texano começou quando a região ainda pertencia à coroa espanhola - como boa parte do atual sul dos Estados Unidos, por isso nomes como Flórida, Los Angeles e Santa Bárbara. O governo do México concedeu licença para que 300 famílias de colonos norte-americanos se estabelecessem no lugar. Em 1821, o México conquistou sua independência da Espanha e, dois anos depois, o Congresso votou pela abolição da escravatura, algo que ia contra a vontade dos estrangeiros estabelecidos no Texas. Apesar do decreto, os texanos continuavam governando a região de forma praticamente autônoma e independente. Isso até o general Santa Anna instituir uma Constituição que centralizava o poder, acabando com leis locais. Os colonos não desejavam ser submissos ao governo mexicano e rebeliões começaram a ocorrer, bem como negociações entre o México e os EUA para discutir as proibições. Tensões e dificuldades surgiram, até que parte do Exército mexicano foi deslocada para a região e entrou em conflito com os texanos. O México vivia um momento delicado, no qual o Estado nacional procurava estabelecer sua organização política, um período crítico após a guerra pela independência que durou mais de 10 anos e levou à destruição da economia local. Os texanos, apoiados pelos EUA, conseguiram mais do que derrotar os militares inimigos: transformaram o general Santa Anna em refém. Em março de 1836, o Texas proclamou sua emancipação, alegando romper com a tirania militar, a intolerância religiosa e a falta de escolas na região. A partir da declaração, os texanos elegeram seu próprio presidente, fizeram uma nova Constituição - na qual a escravidão era legal - e obtiveram o reconhecimento dos EUA, país para o qual fariam uma solicitação de anexação em 1845.

Os pequenos heróis

Durante a batalha de Chapultepec, seis cadetes militares mexicanos, com idade entre 13 e 19 anos - o que dá uma ideia de como era a formação do Exército do país - recusaram a ordem de recuo dada por seu general e procuraram defender o lugar que ocupavam até a morte. Esses jovens resistentes passaram a ser conhecidos como "Los niños héroes" (meninos heróis) e se tornaram uma espécie de mito patriótico. A versão mais romântica da História diz que o último deles, ao perceber que o fim era inevitável, enrolou-se em uma bandeira do país e pulou do alto do forte, evitando que o pavilhão caísse em mãos inimigas.



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A Guerra Texana de 1835 – 36

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Batalha de Ácio: o fim da república romana

Daniel Leb Sasaki



Alexandria calou-se em silêncio tumular. Depois, foi possível ouvir da ilha de Faros – onde brilhava o famoso Farol – aos corredores da Biblioteca boatos de que o deus Dionísio abandonara os governantes da cidade. Cleópatra e Marco Antônio banquetearam com fartura pela última vez. Mas o fim deles estava próximo. Foi assim, melancolicamente, que os contemporâneos do casal descreveram o trágico desfecho da Batalha de Ácio, em 31 a.C., e a espera pela inevitável invasão romana ao Egito.

Naquela época, o poderio de Roma estendia-se por quase todo o Mediterrâneo. O Egito não pontificava mais como a potência de outrora, embora ainda fosse a nação mais rica da região. Era governado por Cleópatra, filha do faraó Ptolomeu XII. Até então, o que mantivera o Egito livre da dominação romana foi a diplomacia. Entretanto, no conturbado reinado do pai de Cleópatra, a tática da neutralidade gradualmente foi perdendo a eficácia e acabou substituída pelo suborno. Expulso do Egito em 58 a.C., após uma revolta na capital, o faraó só retornou ao poder três anos depois, protegido por legiões de Júlio César. Abrir os cofres para o general romano pareceu uma boa idéia, mas deixou o protetorado à beira da falência. A dívida era tão grande que o banqueiro Rabírio veio de Roma e assumiu o cargo de ministro das Finanças em Alexandria para garantir o pagamento. “Foi durante o reinado do pai de Cleópatra que o Egito perdeu, de uma vez por todas, a soberania”, diz a egiptóloga brasileira Márcia Severina Vasques, especializada no período.

A caminho da guerra

Em 34 a.C., o Senado romano indignou-se ao descobrir que, por meio das “Doações de Alexandria”, o general Marco Antônio, governador da porção oriental dos domínios de Roma, entregara de bandeja a Cleópatra, então sua consorte, e aos dois filhos que teve com ela, o correspondente a um terço do território romano. O “presente” incluía a Líbia, a Fenícia, a Armênia, a ilha de Chipre e até territórios ainda não conquistados por Roma. E não ficou só nisso. Em evento na capital do Egito, Marco Antônio declarou publicamente que Ptolomeu Cesário, filho primogênito de Cleópatra com Júlio César (assassinado em 44 a.C. por um grupo de senadores), era o herdeiro legítimo do finado general. E mais: Marco Antônio divorciou-se da esposa oficial, Otávia, e uniu-se à rainha do Nilo segundo as tradições orientais, beneficiando-a em seu testamento.

Ultrajado, o general Otaviano – irmão de Otávia, sobrinho de Júlio César e comandante da Roma Ocidental – respondeu à provocação com uma agressiva campanha. No Senado, explorou o fato de terras conquistadas pelos romanos terem sido entregues a uma mulher, o que era uma “afronta imperdoável”. Segundo o historiador Dio Cássio (155-229 d.C.), os senadores, temerosos de que Marco Antônio, se vencesse a disputa, transferiria o poder para Alexandria, destituíram-no de suas atribuições. Naquele momento, cunhou-se a imagem depreciativa da soberana egípcia. “Essa visão distorcida do Oriente, terra de luxúria e lascívia, proporcionou uma visão de Cleópatra como a rainha feiticeira, ambiciosa e sedutora, uma visão negativa para a cultura tradicional romana, que se pautava pela sobriedade e moralismo de caráter”, diz Márcia.

A guerra civil era inevitável e dela só poderia sair um vencedor. Assim, ambos os lados, que dispunham de fortes alianças em diversos estados, mobilizaram recursos que tornariam aquele o maior conflito bélico até então registrado. Otaviano contava com o apoio da Gália, da Espanha, da Sardenha, do norte da África e das ilhas no oeste do Mediterrâneo, entre outros aliados. Todo esse apoio traduzia-se em pelo menos 400 navios de guerra e cerca de 80 mil homens. Por sua vez, Marco Antônio tinha as forças do Egito, da Ásia continental, da Grécia, da Macedônia, de partes da Trácia, de Cirenaica, de todas as ilhas ao leste e da maior parte dos reinos e protetorados que faziam fronteira com a porção oriental de Roma. Eram 500 navios de batalha, 70 mil soldados de infantaria e 12 mil cavaleiros.

Deserção e isolamento

Os dois exércitos encontraram-se na costa oeste de Épiro, ao norte da Grécia. Em seguida, montaram acampamento em Ácio, onde permaneceram durante quase quatro meses. O primeiro sinal de ataque só aconteceu quando Agripa, general de Otaviano com larga experiência em conflitos navais, capturou as ilhas próximas. Segundo relatos do historiador Plutarco (46-127 d.C.), esse controle interrompeu o fluxo de provisões e deixou o exército de Marco Antônio isolado. Para agravar a situação, ocorreu uma epidemia de malária e baixas por causa do calor escaldante. Mas o pior ainda estava por vir: tornaram-se freqüentes as deserções para o lado de Otaviano. Primeiro, foram Titius e Planco, dois dos melhores generais de Marco Antônio, que protestavam contra a influência de Cleópatra no planejamento da campanha. Depois, foi a vez de Ahenobarbus, dos reis Amyntas e Deiotarus, e dos soberanos da Trácia e Paphlagonia. Por fim, Délio, um oficial da coalizão, passou a apoiar Otaviano, levando com ele os planos de guerra do antigo comandante.

Rejeitando um apelo de seu general Canídio, que comandava as forças em terra, Marco Antônio insistiu que a guerra fosse resolvida por mar. Em 2 de setembro de 31 a.C., sua esquadra moveu-se em direção à de Otaviano. Marco Antônio postou-se na asa direita, com seu co-comandante Publicola. Manteve o associado Coelius à esquerda, e Marco Otávio e Marco Insteius no centro. Do lado oposto, estava o adversário Agripa, que dobrou a linha para que ele não conseguisse atacá-lo de flanco. A estratégia de Marco Antônio era tirar proveito da maior tonelagem de seus navios, carregá-los e bombardear o inimigo. Mas os barcos de Agripa eram mais leves e ágeis e conseguiram se safar. Após uma manobra de Agripa, Publicola moveu-se em perseguição, deixando o fronte central – lento e menos treinado – disperso e confuso, incapaz de manter a formação original. Agripa aproveitou a chance e, em vez de abalroar os inimigos, colocou suas embarcações ao lado das de Marco Antônio, para invadi-las pelos lados. A luta, a partir daí, deu-se homem a homem, enquanto arqueiros e atiradores disparavam de longe. Otaviano, que observava a ação a distância, enviou incendiários.

Embora a batalha naval não estivesse decidida, para a surpresa de todos, a nau capitânea de Cleópatra subitamente içou as velas, aproveitou-se da confusão para romper o bloqueio e retirou-se do conflito, partindo com cerca de 60 navios em direção ao Egito. Segundo relatos da época, Marco Antônio, perplexo, tomou um barco menor e foi atrás da rainha, para o desespero de seus soldados, que ficaram abandonados à própria sorte, sem saber o que fazer em plena batalha.

As razões para a decisão de Cleópatra de levantar as velas – e a subseqüente reação de Marco Antônio – ainda hoje dividem os historiadores. Alguns dizem que a rainha fugiu precipitadamente. “Como mulher e como egípcia, ela se torturava com a agonia do longo suspense”, afirma Dio. Mas estudos recentes sugerem que o gesto fora previamente calculado. Ao chegar a Ácio, a frota real trazia consigo suas velas, algo incomum em guerras da Antigüidade. A saída estratégica já devia estar programada. Pesquisadores modernos afirmam que a intenção de Cleópatra era que toda a frota a seguisse, o que não teria acontecido por razões climáticas.

O fim de uma era

A Batalha de Ácio terminou em desastre para Marco Antônio. As baixas chegaram a 5 mil soldados e quase 300 navios foram capturados. Ao aportar em Alexandria, Marco Antônio caiu em depressão. Cleópatra, que ainda não considerava a guerra perdida, reuniu as embarcações remanescentes e providenciou que fossem transportadas por terra até o Mar Vermelho. Sua idéia era escapar para a Índia e, com o tesouro egípcio, fundar um novo reino. Entretanto, no meio do caminho, tribos do deserto, antes subjugadas pelos Ptolomeus, queimaram a frota, e a rainha teve de desistir do plano.

Não havia escapatória. Ao saber que Otaviano rumava para capturá-la em Alexandria, Cleópatra despachou o filho Cesário para a cidade de Coptos, com ordens para que o tutor do menino o retirasse do país em segurança. Sua cavalaria, unida a legiões de Marco Antônio, a princípio conseguiu conter o avanço das forças inimigas. Mas o general, acreditando nos boatos de que a parceira estava morta, decidiu se suicidar. Foi nesse momento que Cleópatra finalmente percebeu que tudo estava perdido. Para não se submeter à humilhação de ser levada acorrentada para Roma, ela também preferiu a morte, deixando-se picar por uma serpente venenosa – um dos suicídios mais célebres de todos os tempos.

A Batalha de Ácio teve importante significado para a História. Foi o conflito que encerrou o período de 3 mil anos de reinado dos faraós no Egito, que depois disso se transformou em província romana. Ali acabou a independência do país que fora unificado por Menés em 3100 a.C. – liberdade que só seria reconquistada pelo presidente Gamal Abdel Nasser, em 1952 da nossa era. Em Ácio, também morreu a própria República romana. Após o grande triunfo, Otaviano ampliou seus poderes. Mudou de nome para César Augusto e tornou-se o único senhor de Roma e seu primeiro imperador. Em sua homenagem, o sexto mês do calendário romano, antes denominado sextilis, foi rebatizado de augustus – agosto, no calendário gregoriano.