segunda-feira, 13 de março de 2017

[SGM] As minas que os nazistas puseram e tiraram

Gregorio Belinchón


Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, 2,2 milhões de minas ficaram enterradas nas praias da costa oeste da Dinamarca. Durante anos os nazistas imaginaram que o desembarque aliado poderia ocorrer por esse país, daí seu meticuloso trabalho de minar centenas de quilômetros quadrados de litoral. O Governo dinamarquês decidiu então usar seus 20.000 prisioneiros alemães – ex-soldados nazistas, quase todos menores de idade – para limpar as praias (tarefa que, no entanto, só viria a terminar em julho de 2012). A maior parte dos detentos morreu ou voltou para a Alemanha mutilada, num capítulo da sua história que a Dinamarca preferiu esquecer.

Até que o cineasta Martin Zandvliet (Fredericia, 1971) decidiu investigar esse caso abominável e encontrou ali o material para seu novo filme. Terra de Minas, sem estreia prevista ainda no Brasil, mostra esse obscuro trabalho através de um pelotão comandado por um sargento dinamarquês com 14 soldados alemães: alguns são adolescentes, e os outros são meninos. Com esse longa, Zandvliet chegou ao Oscar – pelo segundo ano consecutivo a Dinamarca emplacou um filme bélico no quinteto finalista à estatueta ao melhor filme de língua estrangeira –, e foi de Nova York, em plena atividade promocional na semana prévia à cerimônia, que o cineasta falou por telefone a este jornal. Acabou sendo um visionário: "Ganhará O Apartamento, de Farhadi, porque é o melhor.

Para o Zandvliet, seu filme retrata “uma dessas histórias as quais não parece haver um momento bom para contá-las”. O dinamarquês continua seu discurso: “A maior parte dos países prefere construir sua História através de mitos, de heróis que na verdade desenhamos conforme o nosso desejo. Neste caso eu estava procurando um tema sobre traições, sobre capítulos obscuros. Eu sabia que havia ao redor da Segunda Guerra Mundial muitos momentos dos quais a Dinamarca não se orgulhava. Investiguei e encontrei um livro sobre o assunto. A maior parte dos soldados era de crianças, obviamente não por culpa dinamarquesa, mas sim porque o regime nazista alistou meninos nos últimos meses do conflito. E aí estava a história.” Os filmes bélicos costumam acabar depois de um brutal confronto, com a idealização do vencedor; Terra de Minas fala do dia seguinte, do sentimento de raiva que os dinamarqueses abrigavam: “Aqui não há ação, e sim emoções. Depois de uma guerra ou de um atentado, a vingança e o ódio triunfam entre as pessoas. Agora, e quando o olho por olho resolveu um problema? Isso é que me interessava”.

Para o filme, Zandvliet contratou atores alemães para fazerem os soldados, e ninguém conhecia a história. “Assim como os dinamarqueses, eles viviam na ignorância. Filmamos de forma cronológica e nos lugares em que os prisioneiros realmente estiveram desarmando as minas. Quando alguém morria no filme, despedia-se, e então todos puderam entender muito bem a solidão e os sentimentos dos presos da vida real.” Os últimos quatro nunca souberam se seus personagens iriam ou não sobreviver. “Truques para motivar”, confessa o cineasta, entre risos.

Zanvliet ama o teatro: seus dois filmes anteriores tinham conexão com os palcos. “Amo, sobretudo, a interpretação, as caras, as personagens. Inclusive acho que Terra de Minas tem um certo clímax teatral. Aliás, nos campos de prisioneiros dinamarqueses os garotos costumavam representar obras durante a noite. Eu me interesso por contar as histórias de forma clássica e direta, sem experimentos. Minha esposa, Camila Hjelm, é a diretora de fotografia, e ela gosta de filmar com um estilo documental, centrando-se nos rostos”. Curiosamente, Terra de Minas acabou sendo um projeto familiar, já que sua filha também atua no filme. “Não queríamos ser pais ausentes, porque além disso adoramos trabalhar juntos, então quando podemos ela viaja conosco.”

Como é possível que a Dinamarca, um país com apenas 5,6 milhões de habitantes, tenha um grupo tão impressionante de cineastas e atores, que faz sucesso não apenas na Europa, mas também em Hollywood? “Bem, desde crianças, na escola, somos educados a amar o cinema. E somos uma comunidade pequena, todos nos conhecemos, então nos inspiramos uns nos outros e levamos muito a sério a arte e o cinema.”


Tópicos Relacionados

O Ano da Vingança 


http://epaubel.blogspot.com.br/2012/05/sgm-o-ano-da-vinganca.html 


"Olho por Olho" - Vingança, Ódio e História 


http://epaubel.blogspot.com.br/2012/05/sgm-olho-por-olho-vinganca-odio-e.html


Os Americanos foram tão maus quanto os Soviéticos?  


http://epaubel.blogspot.com.br/2015/04/sgm-os-americanos-foram-tao-maus-quanto.html


Ordeira e Humana?  


http://epaubel.blogspot.com.br/2012/12/sgm-ordeira-e-humana.html

quinta-feira, 2 de março de 2017

Guerra do Paraguai: O plano secreto de Solano López

Fabio Marton


Em 13 de dezembro de 1864, o Paraguai declarou guerra ao Brasil, iniciando o que seria o conflito mais sangrento da América Latina, em que mais de 300 mil vidas se perderiam dos dois lados, entre batalhas, fome e doenças. O Paraguai seria aniquilado na guerra: perdeu 75% de sua população adulta e reduziu seu papel geopolítico a pouco mais que um estado-tampão entre Argentina e Brasil, oscilando entre ser dominado politicamente por um ou outro.

O ditador do Paraguai, Francisco Solano López, entrou na guerra conhecendo alguns fatos. A população do Brasil era dez vezes maior que a do Paraguai, cerca de 8 milhões de habitantes, contra 800 mil. A Argentina, forte aliada do Brasil, tinha cerca de 2,5 milhões. Ambos os países tinham acesso desimpedido ao oceano Atlântico para comprar armas, navios e o que mais precisassem da Europa e dos Estados Unidos, enquanto o único acesso ao mar do Paraguai era por meio dos rios Paraná e Prata, cruzando o território argentino.

À primeira vista, e sabendo como a guerra terminou, López parece ter sido um louco suicida. Ele era impulsivo e autoritário. Mas suicida ele não era. E tinha um plano - ou pelo menos uma aposta. E, no seu jogo, conquistar acesso ao mar era fundamental.

Tríplice Aliança ao contrário

A primeira coisa sobre o plano de López é que ele não esperava ter de enfrentar Brasil, Uruguai e Argentina, situação que se consolidou com a criação da Tríplice Aliança, em 1º de maio de 1865. Ao contrário, esperava ter Uruguai e Argentina a seu lado e quem sabe unificar os 3 países ao fim da guerra e criar uma grande nação nas fronteiras do antigo vice-reino do Rio da Prata, do Peru à Patagônia. "López imaginava uma Tríplice Aliança ao contrário", diz Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília e autor de Maldita Guerra e Osório.

Os uruguaios eram aliados de López, e a guerra só começou, tecnicamente, porque o Brasil invadiu o Uruguai, em guerra civil desde 19 de março de 1863, em apoio ao ex-presidente Venancio Flores e 1,5 mil voluntários do Partido Colorado, que desafiou o governo de Montevidéu, controlado pelo Partido Nacional (ou Blanco). Os brasileiros, que formavam um terço da população do Uruguai, apoiavam Flores e passaram a sofrer ataques dos partidários blancos. Em 30 de agosto de 1864, o Paraguai havia mandado um ultimato ao Brasil: invadir o Uruguai seria um ato de guerra.

O Brasil ignorou o ultimato e declarou guerra ao governo blanco em 10 de novembro de 1864, com o apoio tácito da Argentina. "Nem Argentina nem Brasil acreditavam que o Paraguai reagiria a um ataque ao Uruguai", diz o jornalista Moacir Assunção, autor de Nem Heróis, Nem Vilões: Curepas, Caboclos, Cambás, Macaquitos e Outras Revelações da Sangrenta Guerra do Paraguai. Mas López cumpriu a ameaça e atacou o Brasil. Não na fronteira com o Uruguai, mas em Mato Grosso, em dezembro de 1864.

López não contava só com o apoio dos blancos. Havia recebido promessas de Justo José Urquiza. Governador da província de Entre Rios, Urquiza era o maior proprietário rural da Argentina, presidente entre 1854 e 1860, e inimigo do presidente argentino, Bartolomé Mitre. O plano de López era invadir o país ao norte, juntar-se às forças de Urquiza ao sul e seguir para Buenos Aires. Se tudo funcionasse, os 3 aliados - Paraguai, Uruguai e Argentina - atacariam o Brasil.

Blitzkrieg paraguaia

A aposta paraguaia não era apenas diplomática. O Exército paraguaio era muito maior que o brasileiro no começo da guerra. Os paraguaios tinham uma força de 64 mil homens, e os preparativos para a guerra começaram meses antes da declaração, enquanto as tensões entre Brasil e Uruguai se acumulavam. O Exército brasileiro tinha 18 mil efetivos, mal-armados e malvestidos, informações que os blancos uruguaios fizeram questão de levar ao ditador paraguaio. Segundo Doratioto, López queria fazer uma blitzkrieg do século 19. "Ele tinha um plano inteligente e bem estruturado. Era um ataque-relâmpago, uma coisa à frente do seu tempo."

A blitzkrieg paraguaia também contava com outra manobra inteligente: fazer os brasileiros acreditarem que os paraguaios atacariam por outra região, causando um imenso problema logístico. A ofensiva em Mato Grosso envolveu duas colunas e 9 mil homens, que conquistaram cidades como Albuquerque, Coxim e Corumbá até abril de 1865. Os brasileiros esperavam um ataque à capital da província, Cuiabá, que nunca aconteceu. Sem estradas que chegassem à região, a contraofensiva brasileira levou de abril a dezembro de 1865 para se mover de Minas Gerais ao Mato Grosso. Quando finalmente alcançaram a província, os paraguaios simplesmente se retiraram - exceto de Corumbá, onde resistiram até junho de 1867.

Enquanto os brasileiros se perdiam no próprio Brasil, López preparava seu verdadeiro ataque. O Paraguai declarou guerra à Argentina em 18 de março de 1865. Em 13 de abril, um contingente enorme de tropas paraguaias - 37 mil homens - invadiu a província de Corrientes pelo rio Paraná. Com Corrientes capturada quase sem resistência, em maio, as tropas se dividiram. Cerca de 12 mil ficaram na cidade e 25 mil rumaram para o Rio Grande do Sul, onde tomaram São Borja, em 12 de junho, e Uruguaiana, em 5 de agosto. Era o plano de López em ação.

Traição na Argentina

A primeira má notícia para López aconteceu no início da invasão à Argentina. Comandando as tropas para a retomada de Corrientes, apareceu ninguém menos que Justo José Urquiza. O caudilho havia feito promessas a López, mas havia recebido outra visita. O general e senador brasileiro Manuel Luís Osório, com quem teve uma conversa estratégica. "Os brasileiros compraram Urquiza", diz Assunção. Ele foi convencido por Osório de que lucraria muito mais apoiando Brasil e o governo argentino. Para a surpresa de López, o ex-presidente argentino conduziu suas tropas com rara ferocidade. A decisão de Urquiza também surpreendeu muitos argentinos, e vários desertaram a favor do Paraguai nos primeiros meses da campanha. De forma que, em 25 de maio de 1865, quando uma tropa argentina conseguiu reconquistar a cidade de Corrientes, a glória durou menos de 24 horas: os argentinos recuaram, deixando a cidade pronta para ser reconquistada pelos paraguaios. Ainda assim, López destituiu do comando o general Resquín, líder da invasão, que seria executado em janeiro de 1866.

Baixas de uma ditadura

O plano de López começou a naufragar, literalmente, no arroio Riachuelo, em 11 de junho de 1865. A ideia era tomar a esquadra brasileira, de 9 vapores, atacando-os por meio de abordagem - os soldados saltam para dentro do navio inimigo de forma a capturá-lo intacto. A chave do ataque era o fato de os navios brasileiros serem a vapor. À noite, apagavam-se as caldeiras, acesas novamente de manhã. Levava uns 20 minutos até a água ferver e o navio estar em condições de se mover. Assim, os navios paraguaios - também a vapor, e em mesmo número que os brasileiros - poderiam se aproximar da frota nacional.

Uma avaria, no entanto, atrasou o ataque. E aqui o autoritarismo político do Paraguai se mostrou uma desvantagem. "Ninguém ousava contrariar López, que havia ordenado um ataque para aquele dia", diz Doratioto. Com medo do ditador, os paraguaios atacaram com dois navios a menos e só às 9h30, quando os barcos brasileiros estavam totalmente operantes. As abordagens foram repelidas a canhonaços. Ao fim do dia, a esquadra paraguaia jazia no fundo do rio Paraná. A Batalha de Riachuelo foi um desastre que isolou o país do resto do mundo.

Quando os paraguaios invadiram o Rio Grande do Sul, já era tarde para os blancos uruguaios. Em 20 de fevereiro de 1865, brasileiros e colorados haviam conquistado Montevidéu e Venancio Flores assumiu um governo pró-Brasil. Em 18 de agosto, duas semanas após tomar a cidade, os paraguaios se renderam em Uruguaiana, diante de dom Pedro 2º, Bartolomeu Mitre e Venancio Flores. Foi o fim da ofensiva do sul. Em 31 de outubro, as tropas paraguaias em Corrientes se retiraram. A partir daí, a guerra seria uma longa e agonizante defensiva para Solano López, culminando com a captura de Assunção, em 1º de janeiro de 1869. A fuga do ditador pelo interior do país acabou em 1º de março de 1870. Numa emboscada à última tropa paraguaia em Cerro Corá, o cabo brasileiro Chico Diabo atingiu o ditador com uma lança. Sem se render, López foi morto a balas ali mesmo.

O americano no Paraguai

Além de Urquiza e dos blancos uruguaios, havia outro personagem soprando confiança nos ouvidos de López. Ninguém menos que os Estados Unidos da América. Segundo o livro de Moacir Assunção, "no Paraguai, o cônsul americano Charles Ames Washburn ofereceu apoio ao país contra o Brasil ainda antes da guerra e chegou a instigá-lo a iniciar o conflito".

Washburn era cônsul desde 1861, ainda no governo do pai de Solano, Carlos Lopes. E o que ele prometia não era completamente infundado: Brasil e EUA andavam às turras desde o início da Guerra de Secessão (1861-1865). Os americanos unionistas, do Norte, viam os brasileiros como uma monarquia europeia implantada na América e um país profundamente escravocrata, ambas verdades que os brasileiros não gostavam de ouvir. Artigos na imprensa durante a guerra eram principalmente antibrasileiros, quando não idealizando López como um libertador republicano contra uma monarquia de escravos.

Já os brasileiros não ocultavam suas simpatias pelos confederados do Sul, escravocratas, agrários e aristocráticos como eles. Isso levou a alguns incidentes, em que brasileiros recebiam calorosamente os navios confederados, que atacavam navios unionistas na costa brasileira impunemente, enquanto os navios unionistas eram quase proibidos de frequentar portos do Brasil. Em 1864, o ataque de um navio unionista a um confederado em águas brasileiras quase comprometeu as relações diplomáticas.

Em duas ocasiões, Washburn quase fez com que sua promessa a López fosse cumprida. Quando a guerra começou, o diplomata estava em férias no seu país. Em 1866, o navio americano Shamokin tentou furar o bloqueio da Marinha brasileira e levá-lo a Assunção. O comandante prometeu que só seria interrompido "por força maior", o que fez os brasileiros cogitarem abrir fogo. Washburn caíria em desgraça e seria torturado pelas forças de López, que havia ficado paranoico com a possibilidade de conspiração. Em 1868, outro navio foi enviado para retirá-lo - e, desta vez, falaram abertamente em guerra com os brasileiros. Em ambas as situações, os brasileiros engoliram seu orgulho, evitando o pior.


Tópicos Relacionados

Vitória épica da armada brasileira na Guerra do Paraguai completou 149 anos


Feridas abertas da Guerra do Paraguai

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sete mitos da conquista da América

Beto Gomes


Nem bem o sol iluminou o lago Texcoco, no imenso Vale do México, os dois maiores líderes do Novo Mundo colocaram-se frente a frente. Era 8 de novembro de 1519 e havia anos que espanhóis e nativos se pegavam em violentas batalhas nas terras recém-descobertas da América. De um lado, Hernán Cortez personificava a figura do conquistador europeu como ninguém. Do outro, o todo-poderoso imperador asteca Montezuma II permanecia impassível. Apesar da expectativa de um encontro amigável, a tensão era tão óbvia quanto inevitável. Espanhóis e astecas trocavam olhares, até que Montezuma desceu de sua pequena tenda e foi em direção aos invasores. Cortez repetiu o gesto. Saltou do cavalo e seguiu ao encontro do imperador. A tensão aumentava a cada passo. Olhos nos olhos, eles esboçaram saudações de respeito mútuo, mas não trocaram mais do que poucas palavras, com a ajuda de um intérprete. De qualquer forma, a diplomacia prevaleceu. E, pacificamente, todos tomaram o rumo de Tenochtitlán, a capital do império asteca. Alguns meses depois, os dois lados voltariam a se encontrar. Mas, desta vez, numa sangrenta batalha que culminaria com a morte de Montezuma e faria de Cortez o homem mais poderoso do América espanhola.

Até hoje, muitos historiadores consideram este episódio como o maior símbolo do encontro entre dois continentes. E não por acaso. Pela primeira vez, um imperador nativo acolheu em suas terras o representante de um povo que estava ali justamente para conquistá-las. Além disso, as diferenças culturais entre os dois grupos nunca estiveram tão expostas quanto naquela manhã de novembro. Estas diferenças, além das idiossincrasias do século 16, ajudaram a perpetuar pelos séculos o que o historiador americano Matthew Restall, professor da Universidade da Pensilvânia, chama de Os Sete Mitos da Conquista Espanhola, que batizam seu livro.

Esses mitos podem ser identificados na figura de Cortez, até hoje citado por sua genialidade militar, pela forma como usou e inovou a tecnologia disponível na época, pela maneira astuta como manipulou “índios supersticiosos” e pelo modo heróico com que levou algumas centenas de espanhóis à vitória, contra um império de milhares de guerreiros. Mas a história não foi bem assim. Desde a primeira vez que Cristóvão Colombo pisou nas ilhas do Caribe, os homens enviados para cá se encarregaram de capitalizar o feito em benefício próprio, aumentando uma coisinha aqui, inventando uma ali.


1. Meia dúzia de aventureiros

O mito dos homens excepcionais e seus feitos extraordinários

Cristóvão Colombo estava em algum lugar do Atlântico, em 1504, quando a rainha da Espanha enviou uma esquadra para prendê-lo e levá-lo acorrentado para a Europa. Desde sua primeira viagem pelo Novo Mundo, seu prestígio já não era o mesmo. Sua insistência na mentira de que havia achado uma nova rota para as Índias, fato que lhe rendeu títulos e status, havia deixado a coroa espanhola irritada depois que Vasco da Gama contornou o Cabo da Boa Esperança e deu aos portugueses a liderança na corrida por um caminho mais curto para o Oriente.

A fama de Colombo estava irreversivelmente abalada, ele caiu em descrédito e tornou-se um pária. Mas como, depois de morto, ele se tornaria um herói? Para Restall, a idéia de que ele foi um visionário, um homem à frente de seu tempo surgiu durante as comemorações do tricentenário da descoberta da América, num país que também acabava de nascer: os Estados Unidos. Colombo foi tomado como símbolo dessa nova terra: aventureiro, destemido, um gênio a frente de seu tempo. “Mas a coisa mais espetacular sobre a visão geográfica de Colombo era a de que estava errada. A percepção de que a Terra era redonda, fato geralmente citado para imputar-lhe a condição de visionário, por exemplo, era comum a qualquer pessoa escolarizada da época”, diz Restall.

Esse é só um exemplo do mito de que a conquista da América só foi possível graças à coragem e à genialidade de meia dúzia de conquistadores e que surgiu desde os primeiros relatos dos colonizadores enviados à Espanha. Para obter a permissão de explorar novas terras, eles precisavam provar que a colonização era rentável e, para tanto, escreviam qualquer lorota: omitiam fatos, inventavam histórias, exaltavam a si mesmos. Hernán Cortez e Francisco Pizarro, responsáveis pelos tombos dos impérios asteca e inca, respectivamente, foram especialmente beneficiados por tais relatos e elevados à categoria de heróis. Biógrafos, cronistas e religiosos que participaram das expedições ajudaram a construir esta imagem, por meio das cartas enviadas à coroa, chamadas de probanzas de mérito (ou “provas de mérito”).

Pelo menos num ponto, porém, os relatos tinham razão: a desvantagem numérica dos espanhóis – fato que os levou a derrotas freqüentemente ignoradas nas tais probanzas de mérito. Como, então, os conquistadores conseguiram expandir seus domínios e subjugar milhares de nativos? A resposta não está na genialidade militar de Cortez ou Pizarro. Em nenhum momento eles apresentaram novas táticas de guerra e, na maior parte do tempo o que fizeram foi seguir rotinas adotadas em conflitos anteriores ao descobrimento. Uma das mais importantes foi a aliança com os nativos (que veremos mais adiante). Mesmo assim, eles não abriram mão de procedimentos igualmente eficientes, mas que nada tinham de inventivos: o uso da violência indiscriminada para intimidar os resistentes. Nos casos extremos, pessoas eram decepadas ou queimadas vivas em praça pública, tinham braços e mãos amputados e suas famílias recebiam seus corpos, o que costumava garantir a submissão de outros nativos.

2. Nem pagos, nem forçados

O mito de que os espanhóis que desembarcaram na América eram todos militares

A esquadra de Colombo mal aportou na praia da ilha de Hispaniola, no Caribe, e um grupo de soldados já estava perfilado na areia. Vestiam armaduras reluzentes, carregavam as mais potentes armas da época e aguardavam apenas a ordem de seu capitão para marchar em direção às terras do Novo Mundo. Disciplinados, estavam prontos para enfrentar o inimigo. Faziam parte de uma grande operação militar. Afinal, eram soldados. Esta cena jamais aconteceu, mas passa a idéia, constantemente repetida em filmes, ilustrações e livros, de que os conquistadores eram militares enviados pelo rei e faziam parte de uma máquina de guerra.

Mas, então, quem eram eles? Nobres aventureiros ou plebeus em busca da terra prometida? A rigor, nem uma coisa, nem outra. Em sua maioria, os espanhóis eram artesãos, comerciantes e empreendedores de pequeno porte, com menos de 30 anos de idade, alguma experiência em viagens desse tipo e sem qualquer treinamento militar. Armavam-se como podiam e entravam na primeira companhia que pudesse lhes render a quantia necessária para investir em outras expedições. Assim, poderiam acumular riquezas até receber as chamadas encomiendas – ou seja, o direito de cobrar taxas e impostos sobre a produção de uma determinada área conquistada e faturar em cima do trabalho de um grupo de nativos.

A maioria dos conquistadores não recebia ajuda financeira da coroa. Em geral, viajava por sua conta e risco em busca de status e dinheiro. Ou, no máximo, tinha um vínculo com eventuais patrocinadores, em nome dos quais as terras recém-descobertas eram exploradas. De qualquer forma, eles não eram pagos, tampouco obrigados a viajar. E muito menos soldados aptos a lutar pelos interesses da Coroa.

3. Guerreiros invisíveis

O mito de que poucos soldados brancos venceram milhares de guerreiros índios

Quando o conquistador Bernal Díaz de Castillo viu a capital asteca pela primeira vez, não conseguiu descrever a visão que teve do alto do Vale do México. A metrópole pontilhada de pirâmides, irrigada por canais navegáveis, engenhosamente construída para ser a referência de outras grandes cidades do império, poderia ser comparada às maiores capitais européias. Uma pergunta talvez lhe tenha surgido: como poucos de nós poderemos subjugá-la? Seguindo o mesmo raciocínio, como apenas centenas de europeus poderiam vencer os milhões de índios espalhados pelo continente? Nem a “genialidade” de seus líderes, a pólvora ou o aço espanhol dariam conta. Há algumas respostas para essas questões.

A primeira é que os espanhóis sempre foram minoria nos campos de batalha da América, mas jamais lutaram sozinhos. Os nativos nunca formaram uma unidade política, nem no caso de astecas e maias, que fosse imune às rivalidades e intrigas. E os conquistadores se aproveitaram, desde muito cedo, dessa desunião, conseguindo formar verdadeiros exércitos índios, dispostos a eliminar seus inimigos. Na primeira vez que Cortez chegou a Tenochtitlán, mais de 6 mil aliados davam cobertura aos espanhóis, que eram cerca de 200. Na batalha final, alguns meses depois, ele conseguiu reunir mais de 200 mil homens para tomar a capital asteca. “As pessoas tendem a imaginar que os povos americanos eram unidos em torno de uma identidade nativa. Na verdade, acontecia o contrário. Quando os espanhóis chegaram à América, encontraram várias tribos rivais, que não precisavam de mais que um empurrãozinho para entrar em conflito”, afirma Restall.

Além disso, no final do século 16, cerca de 100 mil africanos desembarcaram na América. A princípio, eles trabalhavam como serventes e auxiliares dos espanhóis, mas, sempre que necessário, recebiam armas para lutar contra os inimigos. Como recompensa, ganhavam a liberdade e logo eles também se tornavam conquistadores.

4. Sob a tutela do rei

O mito de que, em pouco tempo, toda a América estava sob jugo espanhol

Palavras de Cortez: “Deixei a província de Cempoala totalmente segura e pacificada, com 50 mil guerreiros e 50 cidades. Todos estes nativos têm sido e continuam sendo fiéis vassalos de Vossa Majestade. E acredito que eles sempre serão”. A carta de Cortez enviada ao rei da Espanha dá uma boa idéia de como funcionava a burocracia da conquista. Para o monarca, não bastava o conquistador encontrar uma terra e reivindicar o direito de explorá-la. Ele precisava convencê-lo de que aquela região era economicamente viável, de preferência com minas de ouro e prata, e contava com mão-de-obra para tirar dali tais riquezas. Como resultado, os líderes espanhóis não pensavam duas vezes antes de carregar seus pedidos com informações exageradas.

Essa combinação de fatores contribuiu para a criação do mito de que a conquista total dos povos americanos foi alcançada logo nos primeiros anos da presença espanhola. Muitas cidades, no entanto, resistiram à dominação durante décadas. No Peru, alguns estados independentes só foram dominados depois de 1570, após a morte de líderes como Túpac Amaru. Quando os espanhóis fundaram Mérida, em 1542, boa parte da península de Yucatán, na América Central, permaneceu sob a influência dos maias – e muitas políticas elaboradas por eles sobreviveram até 1880. A experiência espanhola na atual Flórida, nos Estados Unidos, foi ainda mais desastrosa. Pelo menos seis expedições foram enviadas para lá entre 1513 e 1560, quando a região finalmente foi controlada pelos europeus. Mas um dos exemplos mais curiosos vem da bacia do Prata, onde os fundadores de Buenos Aires, em 1520, viraram jantar de tribos canibais.

Outro aspecto que mostra que a conquista não foi total era a relativa autonomia que alguns nativos mantiveram em relação aos seus dominadores – condição sancionada pelos próprios oficiais espanhóis, que procuravam não intervir nas regras que vigoravam antes de eles chegarem. E não por acaso. Esta era mesmo a melhor forma de garantir a manutenção das fontes de trabalho e da produção agrícola. Além disso, membros da elite nativa participavam dos conselhos das cidades coloniais, onde eram tomadas as decisões mais importantes. Ou seja, além de continuar influenciando politicamente, eles mantiveram o status que tinham antes da descoberta.

5, As palavras de La Malinche

O mito de que a falta de comunicação levou ao massacre indígena

Foi na praça central da cidade inca de Cajamarca que Pizarro e Atahualpa se viram pela primeira vez, em 1532, numa espécie de versão peruana do encontro entre Montezuma e Cortez. Ao lado do conquistador, menos de 200 homens armados pareciam não temer os mais de 5 mil nativos leais ao imperador. E, de fato, eles não tinham porque se intimidar: a maioria dos locais não possuía uma arma sequer. O primeiro espanhol a se aproximar de Atahualpa foi um frei dominicano que segurava uma pequena cruz numa das mãos e a Bíblia na outra. Em poucos minutos, a batalha havia começado. Mas, apesar da desvantagem numérica, os invasores conseguiram dizimar um terço dos nativos. Atahualpa foi capturado.

Há várias versões sobre os motivos que causaram a briga e sobre como a batalha de Cajamarca começou. Francisco de Jerez, presente no local, escreveu que o imperador atirou a Bíblia ao chão, porque não a entendia. A blasfêmia teria sido o motivo para Pizarro dar o sinal de ataque. Na versão inca, no entanto, a ofensa partiu dos espanhóis, que teriam se recusado a tomar uma bebida sagrada oferecida por Atahualpa.

É praticamente impossível saber o que aconteceu de fato naquele dia, mas o encontro sangrento entre incas e espanhóis é um bom exemplo de como as supostas falhas na comunicação serviram para justificar as ações dos europeus e, por conseqüência, a própria conquista. Mas estas falhas não eram tão freqüentes assim. O diálogo entre Montezuma e Cortez, por exemplo, apesar de ter gerado diferentes interpretações, mostra que os dois lados podiam se entender muito bem. Isso graças a uma figura central durante todo o processo de colonização: os intérpretes. O papel deles foi tão importante que um dos principais procedimentos de guerra era justamente encontrar e “formar” tradutores. Alguns destes tradutores se deram tão bem que alcançaram status inimagináveis para um nativo. Receberam encomiendas e chegaram a ser citados nas cartas enviadas ao rei. O exemplo mais famoso é o de La Malinche, a amante e intérprete que acompanhou Cortez durante anos e esteve presente no encontro com Montezuma.

6. O fim dos índios

O mito de que a conquista só trouxe desgraça para os nativos

A derrota de Cortez era inevitável. Havia horas que ele e seus guerreiros lutavam contra a união de três exércitos inimigos na grande praça central de Tlaxcala, uma comunidade nativa aliada aos espanhóis, e a derrocada do conquistador se aproximava a cada golpe. Finalmente ele seria vencido. E foi mesmo. Ainda no chão, Cortez pôde ouvir os aplausos efusivos da platéia. Aquela encenação do dia de Corpus Christi ficou conhecida como o evento teatral mais espetacular e sofisticado do ano de 1539. Numa curiosa inversão de papéis, o conquistador interpretou o Grande Sultão da Babilônia e Tetrarca de Jerusalém. O papel dos reis da Espanha, Hungria e França ficou com os nativos da comunidade.

O Corpus Christi de Tlaxcala não foi o único festival do século 16 no Novo Mundo. A imensa maioria das colônias da Mesoamérica e dos Andes encenou, dançou e até representou as batalhas contra os espanhóis. Muitas dessas manifestações culturais sobrevivem até hoje. Mas o curioso é que o objetivo não era reconstruir a conquista como algo traumático. Ao contrário. Para os nativos, os festivais significavam uma celebração de sua integridade e vitalidade cultural. “Eram eventos que transcendiam aquele momento histórico particular e não estavam associados à lembrança de algo ruim. Até porque o sentimento de derrota não era algo comum a todos os povos nativos”, afirma Restall.

Manifestações desse tipo eram apenas uma das formas pelas quais os nativos mostravam que o impacto da conquista não foi tão traumático quanto sugere boa parte da retórica comum. Muitas comunidades mantiveram seu estilo de vida e outras tantas evoluíram rapidamente com a necessidade de se adaptar às novas tecnologias e demandas trazidas pelos espanhóis. Aprenderam novas formas de contar, construir casas, planejar cidades e, sobretudo, guerrear. Assim, houve nativos que enriqueceram com o comércio de alimentos e com o aluguel de mulas. O povo Nahua, por exemplo, depois de lutar ao lado dos espanhóis por anos, organizaram campanhas militares próprias e expandiram seus domínios para além das terras onde hoje estão Guatemala, Honduras e parte do México.

7. Macacos e homens

O mito da superioridade e da predestinação dos europeus

“Os espanhóis têm a governar estes bárbaros do Novo Mundo. Eles são em prudência, ingenuidade, virtude e humanidade tão inferiores aos espanhóis quanto as crianças são para os adultos, e as mulheres, para os homens”, escreveu o filósofo Juan Ginés de Sepúlveda, em 1547. O mito da superioridade espanhola é visto em todos os relatos do período colonial. Para Restall, ele vem desde as primeiras expedições e está ligado à justificativa de que os europeus tinham a aprovação divina para conquistar novas terras. Eles acreditavam que eram os escolhidos de Deus, os encarregados de levar o cristianismo a outros povos.

Existem outros fatores, no entanto, que ajudaram a perpetuar este mito. Um deles combina a crença de que os nativos seriam incapazes de evitar a invasão dos europeus porque eles (os nativos) também acreditavam que os espanhóis eram deuses. De fato, os povos americanos enxergavam os conquistadores como seres poderosos, mas em nenhum momento – nem mesmo nos relatos dos cronistas do período colonial – os nativos comparam os espanhóis a seres supremos, ou deidades. Além disso, a diferença brutal entre as armas dos dois grupos também ajudou a construir a idéia da superioridade espanhola.

Mas Deus não foi o principal aliado dos espanhóis. A expansão dos europeus só foi possível graças a três fatores. O primeiro e mais determinante foram as doenças que os estrangeiros trouxeram. Sem oferecer nenhuma resistência para varíola, sarampo e gripe, os nativos morreram tão rápido que em poucas décadas tribos inteiras foram extintas. O impacto das epidemias foi tão devastador que, um século e meio após a chegada de Colombo, a população de nativos havia caído mais de 90%. Os astecas sentiram o poder desses males. “As ruas estavam tão cheias de gente morta e doente que nossos homens caminhavam sobre corpos”, escreveu o padre Bernardino de Sahagún, quando os conquistadores tomaram Tenochtitlán.

O segundo aliado foi a desunião dos nativos. A rivalidade entre diferentes grupos étnicos e intrigas entre vizinhos levou dezenas de milhares de pessoas a lutarem ao lado dos espanhóis. As armas que os conquistadores trouxeram para estas batalhas são o terceiro fator mais importante. Nas primeiras expedições, várias delas fizeram diferença. Cavalos e até cachorros acabaram entrando nos campos de batalha. Mas a mais eficiente foi mesmo a espada, mais longa e resistente que os machados dos nativos. No campo da guerra, Matthew Restall considera ainda um outro fator. Os nativos lutavam em sua própria terra. Precisavam, portanto, proteger a família, defender suas casas, pensar no plantio, calcular a colheita e fazer o possível para não deixar que a guerra prejudicasse e interferisse no seu dia-a-dia. Por isso, eles sempre estiveram mais dispostos a negociar e a protelar os confrontos com os conquistadores. Já os espanhóis não tinham muito a perder. Basicamente, precisavam se preocupar apenas com suas próprias vidas. E com o que teriam de fazer para continuar conquistando novas cidades e acumulando mais riquezas.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

[POL] “Eu fui o criado de Hitler”

Heinz Linge

Daily Mail, 06/08/2009


Em 27 de abril de 1945, Hitler chamou-me em seu escritório. Os russos estavam avançando sobre Berlim e mesmo o Führer – normalmente bem otimista – começou a perceber que a derrota era inevitável.

Ele havia se isolado totalmente, querendo não ver ninguém exceto Eva Braun e eu; nem mesmo querendo celebrar seus 55º. aniversário.

Sem preliminares, Hitler me ordenou: “Gostaria de liberá-lo para sua família.” Eu o interrompi: “Meu Führer, estive com o senhor nos bons tempos e continuarei a está-lo também nos ruins.”

Calmamente, ele aceitou minha insistência. “Tenho outro trabalho pessoal para você. Você deve manter prontos cobertores de lã no meu quarto e gasolina suficiente para duas cremações. Vou me suicidar junto com Eva Braun. Você enrolará nossos corpos nos cobertores, transportá-los para o jardim e então queimá-los.” “Jawohl, mein Führer!,” respondi, tremendo. Não havia nada mais a dizer. Rapidamente – meus joelhos sentindo-se tão duros que eles pareciam colapsar sob mim – deixei Hitler sozinho.

Três dias depois, ele estava morto. Ao abrir o quarto de Hitler, vi algo que jamais esquecerei. Ele e Eva estavam afundados no sofá florido. Hitler tinha dado um tiro em sua têmpora direita. Sua cabeça estava inclinada em direção da parede e seu sangue espalhado no tapete. No seu lado direito estava sentada Eva, suas pernas esticadas, sua face contorcida indicando o modo de sua morte: envenenamento por cianeto.

Dez anos haviam se passado entre o início do meu trabalho para Hitler e este momento, às 15h45m de 30 de abril de 1945.  Um mundo inteiro estava entre o homem a quem jurei ser fiel até a morte, e este cadáver que eu agora tinha que embrulhar em um cobertor, carregar pela escadaria escura e estreita do bunker, colocar em uma cratera criada por artilharia, embeber com gasolina e atear fogo.

O homem que encontrei no verão de 1934 havia sido uma personalidade dominante exalando um carisma arrebatador. O que eu queimei e enterrei sob uma saraivada de tiros dos soviéticos era um velho trêmulo, uma força desvanecida.

Nasci em Bremen em 1913 e era pedreiro quando me alistei na Waffen-SS em minha cidade em 1933. Nunca tive interesse em política, mas um ano depois fui enviado com duas dúzias de outros camaradas à casa de Hitler em Berghof – o mais conhecido de seus quartéis-generais e um lugar onde ele passou muito tempo antes e durante a Segunda Guerra.

Um ano após isso, fui selecionado para servir no estafe particular de Hitler e tornei-me seu criado pessoal logo após o início da guerra em 1939.

Estar diante da presença de Adolf Hitler era o desejo de milhões. Mas a vida com o Führer não era uma rotina.

Meu trabalho era selecionar os documentos matutinos e os primeiros despachos estrangeiros – colocando-os em uma cadeira ao lado de sua cama. Eu o acordava às 11h. Hitler levantava, olhava a correspondência e a lia na cama – ao lado da qual havia um carrinho de chá com livros, jornais, seus óculos e uma caixa de lápis de cor.

Era o responsável por mantê-lo abastecido com materiais de escritório e óculos (ele nunca gostou de ser visto em público com eles, já que pensava ser um sinal de fraqueza). Sempre levava comigo um par de lentes sobressalentes quando viajávamos, já que ele frequentemente as quebrava enquanto as manuseava com as mãos, enquanto divagava sobre um problema. Após sua sessão matutina de leitura, Hitler sempre seguia a mesma rotina – ele se barbearia, retirava seu pijama branco, colocava-o sobre a cama, tomava banho, pegava sua roupa no cabide e a vestia.

Hitler sempre se vestia sozinho e ele fazia isso usando um cronômetro, sendo que minha presença era como a de um árbitro. Ao seu comando Los! acionava o cronômetro e a corrida da vestimenta começava. Quanto mais rápido ele terminava, melhor o seu temperamento. Parado diante do espelho, olhos fechados, ele pedia minha ajuda somente para a gravata-borboleta, que também tinha que ser colocada em tempo recorde. Ele contava os segundos e tão logo eu dizia “pronto” ele abria os olhos e verificava no espelho.

O cabeleireiro e o alfaiate também eram cobrados pela rapidez. O penteado característico de Hitler, o qual sempre ficava sobre sua testa – e seu bigode – chamava a atenção da população. Ele sabia disso e tinha grande orgulho de ambos. Também sabíamos que seu bigode era também um retrato de seu humor. Se ele o espremia contra o lábio superior, estava infeliz e isto era um alerta para todos nós.

Frequentemente era difícil entender Hitler. Às vezes, ele se prendia às coisas mais insignificantes, enquanto que em outras, era excessivo e insensível.

Ele poderia mostrar afeto paterno para uma secretária que havia machucado o dedão do pé, mas era sangue frio quando emitia ordens que enviava milhares para a morte.

O “privilégio” de experimentar sua preocupação não era necessariamente algo agradável. Frequentemente, ele tentava me convencer o quão ruim era o tabagismo. Como seu criado pessoal, não tinha nenhuma opção a não ser escutar.

Quarenta minutos após acordar, Hitler fazia seu café da manhã na biblioteca - um lanche frugal, apenas chá ou leite, biscoitos ou pão fatiado e uma maçã. Durante o café da manhã, ele via o cardápio do almoço.

Dois pratos vegetarianos (ambos incluindo a obrigatória maçã) eram fornecidos a ele para escolher. Hitler havia há muito tempo dispensado a carne, mas se estranhos aparecessem para o almoço, sua comida era cuidadosamente organizada de modo que a ausência de carne não fosse percebida num primeiro olhar.

Pelo fato de Hitler acordar tarde, acontecia de o almoço, geralmente frequentado por uma dúzia de convidados, não ser servido até as 14h30m, horário no qual muitos convidados já haviam saciado sua fome em outros lugares. As refeições de Hitler eram preparadas mornas após uma operação em suas cordas vocais – resultante do ataque por gás que sofreu na Primeira Guerra Mundial – que deixou sua voz sensível.

Sua dieta consistia principalmente de batatas e verduras, um guisado sem carne, e fruta. Hitler eventualmente adicionava cerveja à refeição e vinho em ocasiões especiais quando um brinde era feito. Ele era inflexível quanto ao seu vegetarianismo e ao anti-tabagismo, mas não era oposto ao álcool.

Contudo, ele  achava a embriaguez repulsiva e desistiu da cerveja em 1943, quando começou a engordar nos quadris. Ele achava que o povo alemão não gostaria de ver seu Chanceler gordo.

O jantar não tinha tanta importância, com somente poucos convidados presentes, começando por volta das 20h.

Novamente, é claro, era vegetariano, com Hitler acreditando que o dia mais desastroso do desenvolvimento humano foi no momento em que o homem comeu seu primeiro pedaço de carne. Ele estava convencido de que este modo não-natural de vida era o responsável pelo pequeno tempo de vida humana, entre 60 e 70 anos.

Segundo os cálculos de Hitler, todos os animais cuja dieta era natural viviam oito a dez vezes mais desde o seu período de desenvolvimento até a maturidade plena.

Ele estava convencido de que viveríamos entre 150 e 180 anos se fossemos vegetarianos. Tal visão enfurecia seus médicos, que constantemente tentavam convencê-lo a mudar sua dieta, manter uma rotina de horários e praticar exercícios.

Pelo que ele me disse, sabia que desde o final da Primeira Guerra Mundial ele sofria de gastrite. Às vezes as queixas o faziam dobrar quando pensava que ninguém estava olhando.

Nos dez anos que o conheci, ele constantemente estava preocupado com sua saúde, e seu declínio físico começou bem cedo.

No final de 1942, quando a batalha de Stalingrado atingiu seu momento mais ameaçador, sua mão esquerda começou a tremer. Ele fez de tudo para suprimir isso e a escondia de estranhos pressionando sua mão contra seu corpo ou segurando-a firmemente com a mão direita.

Então, em 1943, ele tornou-se um idoso da noite para o dia. No final de 1944, ele andava com dificuldades – com o corpo arqueado para frente e lateralmente. Se ele queria sentar-se, precisávamos colocar a cadeira para ele.

Apesar da crescente fragilidade física, Hitler fez pouco para proteger-se das tentativas de assassinato. Ele rejeitava medidas de segurança (como entrar discretamente pela porta dos fundos), pois dizia “nenhum trabalhador alemão me causará mal.”

Somente algumas tentativas de assassinato tornaram-se públicas. De outras, ele escapou muito perto – como quando o carro de Himmler foi alvejado numa tentativa clara de acertar Hitler (o qual, por razão desconhecida, viajou no carro no dia anterior).

As únicas precauções que ele tomava eram com a comida – banindo comidas estrangeiras e tendo sua água testada diariamente.

Após a guerra, foi dito que Hitler era tão temeroso do assassinato que ele sempre mantinha as janelas fechadas enquanto viajava de trem. Isto, entretanto, não é verdade. Seus olhos eram intolerantes à luz do Sol. Mesmo luz artificial era capaz de machucá-los.

Não. Hitler acreditava ser sortudo e, de certa forma, ele era. Somente uma vez ele foi atingido por uma bomba, em 20 de julho de 1944. Cerca de 200 estilhaços de madeira foram retirados da perna do Führer, seu uniforme ficou em trapos, seu cabelo ficou chamuscado e preso por cordões.

Mesmo assim, após o incidente, ele ficou calmo, os médicos notando que seu pulso não sofreu alteração. A única indicação fora do normal é que ele permitiu-me ajudá-lo a se vestir, após o longo período de serviço.

Apenas seis meses depois, em dezembro, o clima em Berghof mudou. Nossas esperanças por uma possível guinada na situação da guerra foram esmagadas. As vitórias na frente ocidental não serviram para nada.

A partir daí, Hitler frequentemente falava do passado. Sua saúde estava deteriorando e com ela sua vontade. Ele começou a desconfiar das pessoas que o cercavam. Naqueles dias, não poderia ser mais atencioso e vigilante e o Führer, que confiava em mim cegamente, sabia disso. Ele disse uma vez: “Linge, quando você senta ou fica atrás de mim, sinto-me mais seguro do que se um dos Obergruppenführers (posto mais alto na SS[1]) ficasse em seu lugar.”

Em Berlim, seu aniversário em 20 de abril foi um evento silencioso e apenas sete dias depois ele me disse sobre seus planos de morrer ao lado de Eva.

Ao longo do tempo que passei com ele, testemunhei como ele e Eva viveram como marido e mulher durante as vezes em que ambos estiveram em Berghof. Eles tinham quatro quartos para sua vida íntima: dois quartos e dois banheiros com portas de acesso. Hitler terminaria a maioria das noites sozinho com Eva em seu escritório bebendo chá, enquanto ela descansava com um casaco enquanto bebia vinho espumante.

Como qualquer “esposa”, ela tinha influência sobre seu marido, convencendo-o a afrouxar o racionamento de comida para as mulheres cujos homens voltavam da guerra e a não a fechar os salões de cabeleireiro, como havia sido proposto uma vez.

Ninguém era mais íntimo de Hitler do que Eva Braun, mesmo que ele fosse cuidados de não parecer muito íntimo dela em aparições públicas. Ele acreditava que sua missão era dedicar-se somente ao povo alemão e se ele pensasse que ele tinha uma relação íntima, talvez as pessoas perdessem a fé nele.

Dois dias após me falar sobre o duplo suicídio, ele finalmente recompensou Eva por sua lealdade ao torná-la sua esposa.

Era algo que ela sonhou por dez anos, mas que no final revelou-se um tema estéril e decepcionante. Mesmo assim, o rosto de Eva iluminou-se quando começamos a chamá-la de Frau Hitler. Quando ela acordou na manhã seguinte, foi o seu primeiro e último dia como esposa.

Hitler permaneceu na cama acordado e vestido por toda a noite. Ele proferiu um monólogo sobre o futuro no almoço, então ele e Eva se despediram.

Às 15h45m, obedeci suas ordens pela última vez. Extraordinariamente calmo e com voz serena – como se ele estivesse me enviando ao jardim para buscar algo – ele disse: “Linge, vou me matar agora. Você sabe o que fazer.” Eu fiz a saudação e, após dar dois ou três passos em minha direção, ele ergueu seu braço direito pela última vez em sua vida.

Girei meu calcanhar, fechei a porta e fui em direção da saída do bunker. No meio do estrondo dos projéteis soviéticos, um único tiro de pistola aconteceu. Sua vida havia terminado.

E a minha nunca mais seria a mesma.     

Nota:

[1] Obergruppenführer é uma patente primeiramente criada em 1932 para a SA,  a força paramilitar do Partido Nazista. Até o final de 1942 era a maior patente da SS, inferior apenas ao Reichsführer-SS (Heinrich Himmler).

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1204388/I-Hitlers-valet-Memoirs-manservant-final-act-devotion-burn-masters-body.html

Tópicos relacionados:

O Último Sobrevivente da Queda de Hitler dá sua última Entrevista


O Mito Hitler - Entrevista com Ian Kershaw


Hitler foi o "chefe perfeito", diz ex-criada


Entrevista com Erna Flegel, a última enfermeira de Hitler


Hitler era um pervertido sexual?


As Aquarelas de Hitler


A Biblioteca esquecida de Hitler


Alemães prontos para ver Hitler como humano


Hitler e as mulheres