sexta-feira, 24 de março de 2017

No tempo dos corsários e piratas

Maria Inês Zanchetta



Em maio de 1701, quem percorresse as margens do rio Tâmisa, em Londres, depararia com um espetáculo macabro: cadáveres pendurados em estacas balançando com o movimento das águas. Eram corpos de piratas que tinham sido condenados a morrer na forca. A inusitada exposição destinava-se a chamar a atenção dos marinheiros para o que lhes aconteceria caso fossem capturados como piratas. A terrível advertência fazia parte dos esforços da Inglaterra em por fim à pirataria – cujo governo, por sinal, a estimulara cem anos antes – e assim tranqüilizar os comerciantes que viam seus negócios ameaçados pelos ladrões dos mares. Entre os desconhecidos corpos de marinheiros que pendiam em Londres naquela primavera do início do século XVIII, um ao menos era de um personagem importante: o capitão da marinha William Kidd, que em 1695 desertou com navio e tudo, tornando-se um dos mais célebres piratas da época.

Preso em Boston, na então colônia inglesa da América do Norte, o escocês Kidd foi julgado e executado em Londres. Na verdade, a pirataria não era propriamente uma novidade na Europa daqueles notáveis tempos de expansão econômica e marítima. Tão antiga quanto a própria história da navegação, a pirataria se fez presente desde os tempos antigos, passando pelo Egito e Grécia até o império romano. Depois, durante a Idade Média, teve nos vikings nórdicos seus mais ferozes praticantes. Além deles, também ingleses, franceses, holandeses, irlandeses e árabes dedicaram-se ao ofício pouco nobilitante de despojar de suas riquezas navios em alto-mar. Por representarem um transtorno à boa marcha dos negócios por via marítima, os piratas sempre estiveram sujeitos a severas punições.

Apesar disso, houve época em que a atividade chegou a ser estimulada por vários governos. No século XVI, os ingleses sentiam-se ameaçados pela Invencível Armada espanhola, montada graças ao ouro saqueado das Américas. Em 1567, com suas naus equipadas com o que havia de mais moderno em matéria de armas de fogo, a Espanha acabou por bloquear o tráfego comercial marítimo entre as Ilhas Britânicas e os Países Baixos. Para dar o troco aos espanhóis, a Inglaterra criou e manteve durante vinte anos uma verdadeira frota mercenária: os corsários, navegadores aos quais outorgavam cartas de corso (do latim cursus, viagem por mar). Tratava-se, na verdade, de autorizações para roubar: as cartas permitiam que eles abordassem os galeões espanhóis que traziam para a Europa as riquezas das colônias do Novo Mundo.

O cenário era o mar das Antilhas, na América Central. “A vantagem para os ingleses é que as frotas que levavam os tesouros espanhóis tinham data marcada para sair e rota conhecida, o que facilitava o trabalho dos piratas. Mesmo assim os combatentes eram ferozes, pois as frotas eram sempre escoltadas”, explica a historiadora Janice Theodoro da Silva, da USP, especializada em América colonial. “O investimento que a Inglaterra fazia na pirataria tinha retorno certo”, avalia a historiadora. “Embora as despesas fossem enormes, o butim era compensador”. A rigor, a Inglaterra não era a única nação cujo comércio exterior se ressentia da presença espanhola nos mares – e por isso recorria aos corsários. A França, por exemplo, também se valia dessa arma.

A diferença é que a Inglaterra soube utilizá-la como ninguém, até porque alguns dos mais célebres piratas eram súditos de Sua Majestade Britânica. O melhor exemplo disso foi o audacioso Francis Drake, que entre 1577 e 1580, com o apoio da rainha Elizabeth I, realizou uma viagem de circunavegação do mundo em seu navio The Golden Hind, passando pelo estreito de Magalhães, que liga no sul da América o Atlântico ao Pacífico. Já que estava mesmo por ali, aproveitou para saquear a costa do Pacífico e capturar o ouro, a prata e as pedras preciosas dos galeões espanhóis. Ao regressar à Inglaterra, foi recebido com todas as honras pela rainha e condecorado com o título de sir.

O suporte da coroa britânica à pirataria enfureceu de tal forma o rei Felipe II da Espanha que acabou declarando guerra aos ingleses. Foi uma decisão que mudou o curso da história européia. Pois em 1588, há quatrocentos anos, a Invencível Armada, com seus 133 navios, foi destroçada – e essa foi uma das causas do declínio político e econômico da Espanha no mundo e da ascensão da Inglaterra. Corsários, flibusteiros, bucaneiros ou pura e simplesmente piratas, financiados por governos ou por ricos comerciantes, tinham sempre um único objetivo, como, aliás, todo ladrão que se preze, em alto-mar ou terra firme: fazer fortuna pilhando a fortuna alheia. No entanto, como em tudo na vida, nem sempre eram bem-sucedidos.

Qualquer marinheiro que embarcasse num navio pirata sabia, por exemplo, que sem presa não haveria paga. Por isso, era uma gente disposta a tudo. Quando o capitão do navio finalmente conseguia arrebanhar a tripulação de que precisava para zarpar, estabelecia as regras para a divisão do produto do saque. Os interessados ficavam então sabendo que, terminada a pilhagem, as mercadorias seriam vendidas; calculado seu valor total, deduziam-se as despesas de viagem (um terço era pago a quem havia financiado o, digamos, empreendimento) e o restante era repartido. Ao capitão, naturalmente, cabia a parte do tubarão – algo como um terço do produto do saque; os marinheiros de primeira viagem ficavam com os trocados.

Mas, veterano ou novato, o marinheiro que primeiro gritasse “vela à vista” receberia 100 moedas. Se houvesse combates e algum marinheiro saísse mutilado, seria indenizado: quem perdesse um olho ou um braço recebia 600 moedas; a perda de um dedo (do pé ou da mão) era recompensada com 100 moedas. Tais obrigações deviam ser cumpridas à risca pelo capitão; em contrapartida exigia-se que os marinheiros não se acovardassem nem se embriagassem na iminência de uma abordagem – o que, apesar de tudo, era comum. Para saber se um marinheiro estava ou não bêbado, submetia-se o suspeito à prova de andar em linha reta – e não se admitia culpar o balanço do mar pelos ziguezagues.

Os piratas embarcavam nessa vida movidos pela ganância, mas suportavam o dia-a-dia a bordo movidos a álcool, rum de preferência. Conta-se até que certa vez uma navio de piratas demorou três dias para capturar um galeão por falta de homens sóbrios. Mas havia ocasiões em que era permitido festejar e beber até cair. Isso acontecia quando os navios atravessavam determinados marcos geográficos como o estreito da Flórida (que separa o mar das Antilhas do golfo do México) ou a linha do equador (marco imaginário que divide o hemisfério norte do hemisfério sul). Então um dos piratas se vestia de rei e, acompanhado de sua corte, todos vestidos de forma espalhafatosa, batizava os que nunca haviam cruzado a fronteira. O batismo variava desde o afogamento simulado num barril até um passeio sobre uma tábua suspensa na proa e então mergulhada na água, uma, duas, três vezes. Depois, os calouros que resistissem a essa verdadeira tortura recebiam um apelido que lhes dava a tripulação. A cerimônia, por assim dizer, terminava com uma batalha de água que se espalhava pelo navio e geralmente com homéricos porres. Esse costume talvez tenha dado origem às festas que os navios de passageiros promovem até hoje para comemorar a travessia do equador.

Mas a vida no mar nas regiões tropicais estava longe das lendas que a literatura e o cinema se encarregariam de difundir. As ilhas onde os piratas aportavam podiam ser ensolaradas, com praias cobertas de palmeiras e cachoeiras de águas límpidas. Mas, apesar do cenário paradisíaco, os ladrões do mar costumavam padecer – e muitas vezes morriam – de tudo quanto fosse doença. Como nem sempre as provisões que levavam eram suficientes para a incerta vida marítima – as tempestades, por exemplo, podiam tirar os navios da rota -, os piratas acabavam a pão e água (ou nem isso) até chegar a um porto seguro onde pudessem reabastecer os navios. Freqüentemente, a comida não só era pouca mas inadequada. A falta de vitamina C, por exemplo fazia o marinheiro morrer de escorbuto, doença que se caracteriza por provocar fortes hemorragias. Trechos de um depoimento deixado por um pirata anônimo, citado pelo historiador Edward Ritchie, da Universidade da Califórnia, dá uma idéia do que podia ser a vida de pirata:

“Muitas são as misérias que os marinheiros enfrentam quando adoecem, sendo poucos os meios de se reconfortarem, pois então não podem buscar a carne e a bebida que acham que lhes farão bem (…) E, quando o marinheiro morre, é ‘enterrado’ rapidamente, poupando aos amigos e conhecidos o trabalho de ir à igreja e mandar dobrar os sinos (…) Em lugar disso eles apenas o costuram num cobertor velho ou num pedaço de lona, amarram em seus pés duas ou três balas de canhão e o lançam ao mar”. Havia ainda problemas mais prosaicos. Por exemplo, o constante contato com a água salgada decompunha as roupas rapidamente e os piratas se viam obrigados a usar as sedas e brocados que haviam pilhado – e que não eram propriamente os trajes mais adequados para o clima e o serviço.”

Não espanta assim que, se a primeira ambição de um pirata fosse enriquecer, a segunda era voltar para casa o quanto antes. Em casa, alguns piratas bem-sucedidos, tinham prêmios adicionais à espera. Além de Sir Francis Drake, houve o caso do inglês Henry Morgan. No comando de uma frota que chegou a ter 36 navios, ele percorreu o mar das Antilhas durante dezessete anos. Mas em 1672 foi preso e reconduzido à Inglaterra. Ali, no entanto, foi feito cavaleiro e ainda por cima nomeado governador da Jamaica – com a incumbência de reprimir a atividade de seus ex-companheiros. Morgan morreu em 1688, aos 53 anos, em santa paz e cercado de todas as homenagens.

Foi por essa época, no final do século XVII, que as colônias inglesas, francesas e holandesas nas Antilhas começaram a atrair aventureiros de todo tipo. Como não tinham terras e a economia colonial girava em torno de plantações que utilizavam mão-de-obra escrava, esses forasteiros acabaram confinados a alguns povoados. Por força do isolamento, organizaram-se em confrarias para tentar a sorte no mar, dedicando-se também à pirataria. Como algumas dessas colônias eram pobres, seus governadores, sem meios de combater os piratas, não tinham outra saída senão aliar-se a eles. Por isso, alguns portos antilhanos, como Port Royal, Anguila e a ilha de Tortuga, transformaram-se em célebres esconderijos de piratas.

Tanto nos povoados que freqüentavam quanto nos seus navios, as regras eram informais. Num livro sobre pirataria, tema que fascinou o inglês Daniel Defoe (1660-1731), autor do clássico romance Robinson Crusoé, narra que, muitas vezes, os piratas elegiam democraticamente seus capitães. Eles também acabaram substituindo a tradicional bandeira vermelha sem emblema, a marca registrada dos navios corsários, pelo pano negro estampado com a caveira e os ossos cruzados. Os ladrões do mar, entretanto, já estavam com os dias contados.

No início do século XVIII, já estabelecida como a nação mais rica e poderosa do mundo, a Inglaterra dispensou definitivamente os serviços dos piratas – e declarou aberta a temporada de caça à pirataria. Assim o governo britânico cumpria com algum atraso o compromisso assinado em 1670, no Tratado de Madri. A primeira lei inglesa instituindo tribunais especiais para julgar os piratas capturados data de 1700. Foi graças a essa lei que o capitão William Kidd acabou executado e teve seu corpo exposto em Londres em 1701. Dezessete anos depois, chegou a vez de outro pirata famoso, Edward Teach, o Barba Negra, que assolava as colônias inglesas da costa sudeste da América do Norte. Ele costumava buscar refúgio em Charleston, na Carolina do Sul, mas os habitantes do lugar acabariam criando coragem e trataram de dar cabo de tão perniciosa figura. Assim, Barba Negra terminou seus dias linchado. Os corsários saíam da história para virar lenda.

Guerra do Pacífico: O martírio da Bolívia

Fábio Marton



Todo 23 de março, celebra-se o Dia do Mar na Bolívia. É uma espécie de Carnaval patriótico, em que adultos e crianças se vestem de marinheiro ou usam fantasias com chapéu de barco, ondas ou qualquer outro tema "oceânico" e desfilam rumo à plaza Eduardo Albaroa. Também valem roupas de soldado ou os trajes tradicionais dos povos de língua quéchua e aimará, etnias da maioria da população do país. O presidente faz um discurso. Acontecem salvas de canhões e paradas militares, inclusive da Marinha boliviana.

A Bolívia não tem mar. E esse é o ponto do Dia do Mar.

Um pedaço de Marte

A Guerra do Pacífico, como ficou conhecida, colocou Chile contra Bolívia e Peru de 1879 a 1883. Em números absolutos, foi mais modesta que a Guerra do Paraguai, envolvendo cerca de 70 mil combatentes, contra 350 mil. Mas suas consequências e seus ressentimentos seriam bem mais dramáticos. "Como a maioria dos conflitos no que posteriormente seria conhecido como Terceiro Mundo, a Guerra do Pacífico foi um grande momento para os povos envolvidos, mas acabou largamente ignorada fora da região", afirma o historiador Bruce W. Farcau em The Ten Cents War. Historicamente, a região não valia nada. Era um pedaço de terra seca, sem rios, no deserto mais inclemente do mundo - o Atacama, onde o período entre duas chuvas se mede em décadas. E uma precipitação anual 20 vezes menor que nas partes mais secas do deserto do Saara. Não há nenhuma vida vegetal ou animal ali, exceto no litoral, onde nevoeiros oferecem alguma umidade a líquens e cactos. A região é comumente usada por equipes de filmagem quando querem recriar o ambiente de Marte, como na série Space Odissey (2004), da BBC. (Perdido em Marte, de 2015, não; esse foi filmado na Jordânia).

No conturbado processo de independência das colônias da América do Sul, o deserto acabou dividido entre o Peru, que conquistou a independência, em 1821, e a Bolívia, liberada em 1825. Os países, que eram simplesmente o "Peru" na época colonial, unificaram-se em 1833, e isso levou a uma primeira guerra com o Chile, entre 1836 e 1839, separando-os novamente. O Chile não queria um vizinho gigante ao norte, mas não levou nenhum território - e nem estava interessado. Isso mudaria radicalmente na década de 1840, quando começou a se explorar um recurso inusitado: o guano, excremento de aves marinhas que, sem chuvas para removê-lo e ressecado pelo sol, forma morros brancos em rochas perto do mar. "Os chilenos nunca se incomodaram com a questão de fronteiras até a descoberta do guano", afirma o cientista político Waltraud Q. Morales em A Brief History of Bolivia.

O guano tem em sua composição o nitrato de sódio, ou salitre, que começava a ser usado em fertilizantes e era matéria-prima na produção de explosivos. Não apenas nas pedras brancas mas também enterrado no solo, havia enormes depósitos de salitre no Atacama. Isso tornou, da noite para o dia, o terreno morto em um dos pontos mais importantes da Terra.

A princípio, o Chile não precisou tomar territórios para se favorecer com isso. Com instituições privadas e governamentais bem mais sólidas que as dos vizinhos, foram as indústrias chilenas, fomentadas por capitais britânico, francês e americano, que rapidamente se instalaram na região, com mão de obra dos próprios chilenos e migrantes do mundo todo, inclusive da China.

Acordo secreto

A situação mudou em 1878, quando o Congresso boliviano tornou nulo um acordo que isentava de impostos a chilena Compañia de Salitres y Ferrocarril de Antofagasta (ferrocarril é "ferrovia" em espanhol e Antofagasta era a cidade mais ao sul do litoral boliviano, na fronteira com o Chile). A Compañia deveria pagar 10 centavos de peso para cada 100 kg de salitre extraídos. A empresa se recusou, e o Congresso boliviano votou por confiscar suas propriedades, marcando o início do processo para 23 de fevereiro de 1879. No dia da execução, 500 soldados chilenos desembarcaram em Antofagasta para proteger a empresa - foram recebidos com festa, já que 95% da população da cidade era chilena.

A princípio, os bolivianos decidiram contornar a situação com eufemismos. A declaração de guerra contra o Chile foi aprovada pelo Congresso em 27 de fevereiro, mas não foi anunciada. Em vez disso, o presidente, Hilárion Daza, preferia falar em "estado de guerra". Em 1º de março, anunciou a expulsão dos chilenos do país. Com ou sem declaração, os chilenos se mexeram. Em 23 de março, 554 soldados chilenos avançaram pelo deserto, rumo à cidade de Calama. Lá enfrentaram e massacraram 135 civis e soldados, comandados pelo engenheiro Eduardo Albaroa - que se tornou o mártir do Dia do Mar e herói na Bolívia.

O Peru também tentou evitar o pior. Desde 1872, tinha um acordo de defesa secreto firmado com a Bolívia, que exigia que honrasse o compromisso. Os peruanos tentaram sediar um congresso de paz em seu país, mas o Chile, tomando conhecimento do acordo de defesa, preferiu declarar guerra a ambos os países em 4 de abril de 1879.

Ofensiva brutal

Avançar pelo deserto era complicado. O Chile preferiu, então, fazer uma guerra focada em combates navais e invasões anfíbias. O país tinha 7 navios, e o Peru, 6 - a maioria comprada dos americanos após a Guerra Civil que funcionavam a vapor e eram modernos para a época.

Em 5 de abril, os chilenos bloquearam o porto peruano de Iquique. Após uma troca de tiros, o Peru conseguiu expulsar os navios chilenos da cidade e afundar um dos 7 navios da Marinha chilena, mas a um enorme preço: o Independencia, um de seus dois navios mais bem armados, bateu em uma rocha e afundou. Com a retirada chilena, o segundo navio peruano mais poderoso, o Huáscar, passou a circular pelas guarnições costeiras chilenas e fazer ataques esporádicos, atrasando seu avanço. Em 8 de outubro, os chilenos conseguiram capturar o Huáscar, na Batalha de Angamos, e o usaram contra as forças peruanas. Depois disso, ficaram praticamente livres para desembarcar tropas. Em 2 de novembro, baixaram em Pisagua, 500 km ao norte de Antofagasta. Em 19 de novembro, conquistaram Iquique. Com um tanto de excesso de confiança, levaram o que foi seu maior revés na guerra: em 27 de novembro, na Batalha de Tarapacá, uma coluna chilena de 2,3 mil homens enfrentou 4,5 mil peruanos e bolivianos e foi massacrada. Apesar disso, os peruanos não conseguiram manter a posição e recuaram para Arica, e as notícias causaram uma enorme turbulência política. Em 23 de dezembro, um golpe de estado depôs o presidente peruano, Mariano Ignazio Prado, e o boliviano Hilárion Daza fugiu para a Europa no dia 27. Em 26 de fevereiro de 1880, os chilenos invadiram Ilo, isolando as tropas de reforços via Peru. Em 26 de maio, na Batalha de Tacna, destruíram a maioria do que restava do exército, fazendo com que a Bolívia se retirasse do conflito. Em 7 de junho, liquidavam a fatura na Batalha de Arica, em que 5 mil chilenos venceram 1 903 peruanos, deixando o inimigo sem exército.

Em 23 de outubro, numa conferência mediada pelos americanos no navio USS Lackawanna, em Arica, tentou-se uma solução de paz sem resultados. Os chilenos decidiram ir até o fim. Em 17 de janeiro, 23 mil militares chilenos invadiam a cidade de Lima, defendida por 18 mil civis recrutados às pressas e por sobreviventes do exército. A cidade foi saqueada, as mulheres, estupradas, e mesmo a Biblioteca Nacional teve seu conteúdo transferido para o Chile - 3 778 livros, só devolvidos em 2007.

Paz ressentida

Aos peruanos, restou fazer uma campanha de guerrilha e revolta civil até 1883, quando o Tratado de Ancón encerrou as hostilidades. A Bolívia assinou uma trégua em 1884, e um tratado definitivo de "amizade", cedendo todo seu litoral, em 1904, em troca de livre acesso ao porto de Arica e a construção de uma ferrovia ligando-a à capital, La Paz.

O boom do guano durou pouco: no início do século 20, os alemães criaram formas sintéticas de nitrato e a região perdeu interesse comercial. Mas o Chile aproveitou: "Antes de o nitrato de potássio ser produzido sinteticamente, o Chile já havia explorado fontes naturais de nitratos por muitos anos, à custa das regiões ocupadas da Bolívia e do Peru", afirma o historiador Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, da UFRGS. Em 1929, quando os bolsões de guano não tinham mais valor comercial, a região de Tacna, no extremo norte, foi devolvida ao Peru. Na década seguinte, o cobre seria descoberto na região. Hoje, o Peru é o segundo maior produtor do mundo, atrás do Chile. Talvez por isso o ressentimento lá sejam um pouco menor que na Bolívia.

Os bolivianos nunca se esqueceram. Depois da guerra, perderam ainda territórios para o Brasil - o Acre, em 1903 - e para o Paraguai - a região do Chaco, em 1935, após outra guerra tola e sangrenta -, além de outros nacos para Chile e Argentina. A soma é cruel: em 1825, a Bolívia tinha 2,36 milhões de km2. Hoje sua área é pouco maior que 1 milhão de km2. Ou seja, o país perdeu mais da metade de suas terras. Essas regiões ainda aparecem nos discursos nacionalistas, mas o litoral é o topo das prioridades. Por todo o país, há murais e estátuas apontando para o mar, ilustrando os massacres da guerra, pedindo a devolução. De 2002 a 2005, esse sentimento voltou a aflorar na "Guerra do Gás", uma série de protestos e greves iniciada pela proposta de exportar gás natural através de uma linha até o Chile, em que sentimentos antichilenos se misturaram a anticapitalistas e antiamericanos. Evo Morales, que vinha de uma carreira em defesa dos plantadores de coca, liderou protestos pela nacionalização do gás e acabou eleito presidente, em 2005, fazendo reformas que incluíram uma nova Constituição.


A atual Constituição boliviana anuncia com todas as letras que "o Estado boliviano declara seu direito irrenunciável ao território que dá acesso ao oceano Pacífico e seu espaço marítimo", a seguir toma o cuidado de acrescentar que isso se dará por "vias pacíficas".

O Chile considera isso um entrave à retomada das relações diplomáticas dos países, paradas desde 1978. É fácil entender por quê: os departamentos ao norte do Chile têm a maior renda per capita e Índice de Desenvolvimento Humano do país graças ao cobre, e o metal responde por metade das exportações chilenas. "Além de uma questão de soberania nacional, isto faria da Bolívia um país competidor com o Chile pelo mercado aberto pelo Pacífico, o que é impensável nos termos atuais da economia latino-americana. Controlando as exportações que passam pelo seu país, os chilenos precisariam de compensações econômicas de vulto para ceder tais direitos", afirma Guazzelli. Os tempos mudam, mas nem tanto.

O caso está no Tribunal de Haia desde 2013. A Bolívia está confiante na vitória. 

Fronteiras tensas

O Atacama é o deserto mais letal do mundo, mas não só por falta de água. Alguém tentando cruzar a fronteira entre Peru e Chile, ao norte de Arica, vai se deparar com uma "atração" inusitada: campos minados, marcados por placas em espanhol, inglês e aimará. 113 121 minas antipessoal e antitanque foram plantadas na fronteira pelo governo Pinochet (1973-1993) e vem sendo removidas desde 2000, mas apenas 9,34% do total foi desativado, segundo dados do governo chileno.

As encrencas do Chile não se limitaram ao norte. Em 1978, quando ditaduras militares dominavam ambos os países, Chile e Argentina quase entraram em guerra por causa de três ilhas minúsculas no canal de Beagle, que faz a passagem do oceano Atlântico para o Pacífico e corta os dois países. A Argentina chegou a preparar uma invasão militar das ilhas, que considerava suas, mas desistiu na última hora. Até o papa teve de intervir: com o fim do regime militar argentino, o presidente Raúl Alfonsín assinou no Vaticano um acordo com Pinochet, entregando as ilhas ao Chile. Pinochet, de seu lado, plantou também minas na fronteira com a Argentina.

Mas mesmo um tirano como Pinochet teve seu momento de iluminação - ou, quem sabe, solidariedade a outros ditadores militares. Em 1972, quando a Bolívia estava sob a ditadura do general Hugo Banzer e o Peru sob a do general (de esquerda) Juan Velasco Alvarado, ele propôs entregar uma faixa de terra à Bolívia, ligando o país à cidade de Arica. Os bolivianos deveriam entregar uma faixa equivalente ao Chile, incluindo aí o território da faixa marítima. Os bolivianos ficaram exultantes, mas, como Arica originalmente era parte do Peru, não da Bolívia, os acordos com o Chile exigiam a consulta ao Peru antes da entrega. O ditador peruano não gostou e propôs que os 3 países dividissem Arica. Acabou ficando tudo como estava - e está.

Sengoku: A Era da Guerra





No início do século 14, o xogunato de Kamakura estava irremediavelmente em crise. Os esforços de guerra para impedir a invasão do arquipélago japonês pelos mongóis, em 1274 e 1281, haviam exaurido os recursos do governo militar. Além disso, entre os súditos do clã Hojo, que então controlava o xogunato, havia um clima de crescente ressentimento, pois muitos acreditavam não terem sido devidamente recompensados por ajudar a deter os mongóis. Tirando proveito do ambiente de insatisfação, o imperador Godaigo tentou restaurar seu poder. Em 1333, com a ajuda do general Ashikaga Takauji, um samurai descendente do clã Minamoto, ele derrubou o xogunato de Kamakura. Mas a alegria de Godaigo não durou. Em 1338, o próprio Takauji resolveu tomar as rédeas do governo. Indicou um novo imperador, assumiu o título de xogum e instalou a nova capital do país em Kyoto. Era o início do chamado Período Muromachi – em alusão ao nome do distrito em Kyoto onde Ashikaga construiu a sede de seu governo.

O xogunato da família Ashikaga duraria pouco mais de dois séculos (até 1573), mas sem o mesmo poder do bakufu de Kamakura. A autoridade central estava desmantelada, criando um vácuo de poder que permitiu o surgimento de diversos senhores feudais regionais, os daimiôs. Embora formalmente subordinados ao xogum, esses daimiôs (que significa literalmente “grande nome”) tinham poder quase ilimitado em seus domínios. Em meados do século 15, havia cerca de 260 daimiôs no Japão – o que, na prática, significava a existência de 260 estados, cada qual com seu exército e alguns até com moeda própria.

Em 1467, a disputa em torno da sucessão do xogum entre dois dos clãs mais influentes da época, os Hosokawa e os Yamana, deu início à Guerra de Onin. Os confrontos arrastaram-se por dez anos, causaram milhares de mortos e deixaram a cidade de Kyoto arrasada. Foi apenas o prelúdio de um longo período de guerra civil que envolveria vários daimiôs, que disputavam territórios e tentavam aumentar sua esfera de influência. Esse período de caos e desordem duraria pouco mais de um século e ficaria conhecido como Período Sengoku – a Era dos Estados em Guerra. Foi a época de ouro dos samurais. Nunca eles foram tão úteis e necessários. Afinal, a disputa entre os daimiôs rivais era decidida pela força da espada.

A espada era a lei

Nesse período da lei do mais forte, sobressaíram principalmente três personagens: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu. Eles seriam os principais responsáveis pela reunificação do Japão, restabelecendo o poder em uma autoridade central. O primeiro homem a tentar recolocar o Japão sob comando centralizado foi Oda Nobunaga, daimiô da província de Owari (atual Nagoya). Não por acaso, o selo de seu clã continha a inscrição Tenkafubu, que pode ser livremente traduzida como “todo o Japão sob uma única espada”.

A fama de Nobunaga começou a se espalhar em 1560, quando ele tinha 26 anos. Liderando 3 mil samurais, ele derrotou a tropa do clã Imagawa – que contava com 30 mil homens – na épica Batalha de Okehazama. A estratégia de Nobunaga foi atacar o inimigo de surpresa (os adversários festejavam uma vitória em outra batalha) e centrar o foco no chefe do clã rival, Imagawa Yoshimoto (que foi rapidamente capturado e decapitado, levando seus comandados a desistirem de lutar).

Nobunaga foi o primeiro general japonês a aprender a usar eficientemente as armas de fogo, introduzidas no Japão pelos portugueses, em 1543. Antes de Nobunaga, o uso de arcabuzes não era visto pelos japoneses como prático nos campos de batalha, já que a operação de carregar a pólvora, introduzir o projétil na arma e puxar o gatilho era muito demorada. Em vez de um único soldado cuidar de todo o processo, Nobunaga passou a usar grupos de quatro homens: o primeiro limpava a arma, o segundo a enchia de pólvora, o terceiro a municiava com a bala e o quarto concentrava-se em disparar, diminuindo o intervalo entre os tiros. Fascinado pelas coisas do Ocidente, Nobunaga adotou o cristianismo, que havia sido introduzido no Japão por missionários portugueses. Em 1571, demonstrando seu desprezo pelo budismo, Nobunaga arrasou o mosteiro do Monte Hiei, em Kyoto, que servia de base para monges guerreiros, vistos por ele como uma ameaça às suas ambições de poder. Cruel e implacável, Nobunaga ordenou o massacre de cerca de 3 mil monges e seus familiares, incluindo mulheres e crianças. A essa altura, Nobunaga controlava toda a região central do Japão e continuava a ampliar seus domínios. Mas o sonho de unificar o país sob sua espada foi interrompido em 1582, quando ele sofreu uma emboscada armada por um de seus principais oficiais, o general Akechi Mitsuhide. Não se sabe ao certo se Nobunaga foi assassinado ou se foi obrigado a cometer suicídio. Conta-se que o jovem Mori Ranmaru, adolescente que servia de criado e, segundo alguns, mantinha um relacionamento amoroso com Nobunaga, morreu junto com seu mestre.

Após a morte de Nobunaga, um de seus mais próximos auxiliares, Toyotomi Hideyoshi, agiu rápido. Matou o traidor Mitsuhide e depositou sua cabeça no túmulo de Nobunaga. Hideyoshi logo emergiu como o novo líder militar do Japão, prosseguindo o trabalho de unificação do país. Para reduzir o risco de insurreições, determinou que somente os samurais podiam portar armas. Além disso, criou barreiras para a mobilidade social, estabelecendo uma linha demarcatória nítida entre os camponeses e os soldados. Os samurais não poderiam mais cultivar a terra e passariam a viver próximos aos castelos, recebendo um “salário” em quantidade de arroz. Assim, os samurais tornavam-se uma classe permanente e suas prerrogativas seriam transmitidas de geração a geração. Na prática, Hideyoshi queria evitar o risco de que surgisse alguém como ele – um camponês que ascendeu a comandante supremo do país. Em 1591, o franzino general controlava quase todo o Japão.

Mas Hideyoshi queria mais. Sua ambição era estender o império nipônico por toda a Ásia. Em 1592, enviou 200 mil soldados para a Coréia, com o objetivo de chegar até a China. Mas as forças de Hideyoshi encontraram inesperada resistência de guerrilheiros coreanos, auxiliados por chineses. A operação foi um fiasco. Em 1597, Hideyoshi enviou nova expedição à Coréia. No ano seguinte, porém, o general caiu doente e, no leito de morte, convocou um conselho de cinco regentes – entre eles Tokugawa Ieyasu – para governar o país até que seu filho Hideyori, então com cinco anos, atingisse a maioridade. No entanto, os regentes não se entenderam e iniciaram uma luta aberta pelo poder, que culminou com a Batalha de Sekigahara, em 1600. Cerca de 160 mil samurais participaram do combate, que terminou com a vitória de Tokugawa. Essa batalha marcou o fim do Período Sengoku. Em 1603, Tokugawa foi nomeado xogum e transferiu a sede do governo para Edo (atual Tóquio). Nobunaga havia iniciado a unificação do Japão, Hideyoshi havia concluído o processo e, agora, caberia a Tokugawa desfrutar de um período de paz. Mas o novo xogum não sossegou antes de eliminar a última ameaça ao seu poder. Em 1615, atacou o Castelo de Osaka, a base de Hideyori, e obrigou-o a cometer seppuku. Nos próximos dois séculos e meio – até a Restauração Meiji, em 1868 –, Tokugawa e seus descendentes governariam o Japão de forma quase absoluta.

Minha casa, meu castelo


O Período Sengoku foi a época de ouro para a proliferação de castelos no Japão. No início, essas construções eram erguidas no alto de montanhas de difícil acesso, pois a principal finalidade era servir de abrigo para os daimiôs, os senhores feudais, quando necessário. Essas fortalezas eram relativamente pequenas e não contavam com muitas torres, valas e outras estruturas de defesa. Em geral, aproveitavam as características naturais da área – relevo, vegetação, rios – para dificultar o acesso dos inimigos. Com o tempo, os castelos passaram a ser construídos em colinas não tão altas, desde que permitissem uma boa visão da área circunvizinha. 

Os castelos serviriam não somente de residência segura para os senhores feudais, mas também de sede do governo provincial. As fortalezas foram adquirindo características de palácios, cada vez maiores e imponentes. Era uma forma de demonstrar poder e intimidar inimigos – quanto maior o castelo, mais rico e influente era o senhor feudal. O Castelo de Azuchi, construído pelo general Oda Nobunaga entre 1576 e 1579, às margens do Lago Biwa, foi um dos mais exuberantes erguidos no Japão. Tinha sete andares, era coberto de ouro e decorado internamente com luxuosas obras de arte. De lá, Nobunaga sonhava governar todo o país.

No entanto, o general morreria pouco depois, em 1582, e o castelo foi destruído. A exemplo do que ocorreu na Europa, muitos castelos no Japão foram embriões de futuras cidades. Em seu entorno foram surgindo outras casas e florescendo o comércio. Os samurais também moravam em residências permanentes nas proximidades do castelo – quanto mais perto, maior o prestígio do guerreiro. As casas dos samurais eram relativamente modestas, mas eram as únicas com permissão para ter muros e portões. 

Com a instalação do xogunato de Tokugawa Ieyasu, em 1603, o Japão entrou num longo período sem guerras, o que levou os castelos à decadência. Tokugawa baixou uma ordem para que cada província tivesse um castelo – nem mais, nem menos. Províncias que não possuíam castelos foram obrigadas a construir um, embora fosse totalmente inútil em tempos de paz. Outras, que possuíam mais de um castelo, tiveram de demolir construções de importância histórica apenas para cumprir o decreto de Tokugawa.



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