quarta-feira, 29 de março de 2017

Guerra do Vietnã

Bruno Izaías da Silva



A Guerra do Vietnã foi um conflito no Extremo Oriente da Ásia, na região denominada Indochina, logo após a Segunda Guerra Mundial. É considerado o mais duradouro e um dos maiores conflitos da história do século XX.

O Vietnã é um país que se localiza na região da Indochina, no extremo leste do continente asiático.

A península da Indochina está localizada ao sul da China e reúne países como Vietnã, Laos, Camboja e Tailândia.

Essa região esteve desde o século XIX, ocupada pela França, como colônia. Durante a época do Imperialismo, os franceses se apossaram da região, que lhes servia como local de obtenção de matéria-prima e mercado consumidor, essenciais para o crescimento industrial francês.


E a influência francesa sobre a região se manteve até os anos 30, quando o Japão Imperial deu início a uma política expansionista de dominação da região do Extremo Oriente, invadindo regiões da China, arquipélagos do Pacífico e a região indochinesa.

Com o fim da segunda Guerra Mundial, em 1945, todas as regiões consideradas até então como colônias foram tomadas pelo desejo de independência, dando início a um processo denominado Descolonização. Na esteira desse processo, a Indochina sofreu mudanças profundas. Ainda no ano de 1945, o Vietnã declara independência.

O mundo já vivia a chamada “Guerra Fria” a disputa entre Estados Unidos e União Soviética, os dois grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial, representantes de sistemas político econômicos opostos.

Nesse contexto, a Indochina foi alvo de tratativas no fim da guerra. Os franceses buscaram recuperar sua posição de domínio e ocupar o vácuo de poder deixado pelos japoneses.

Porém, nesse momento, a Indochina vivia um processo de crescimento e organização de movimentos de resistência à dominação estrangeira. Ligado à doutrina e ao avanço dos comunistas, espelhados na URSS e na recém formada China comunista, esses movimentos se dedicaram à guerrilha, ao combate irregular como modo de atuação contra a dominação estrangeira, Por causa dessas disputas, as fronteiras das antigas colônias francesas sofreram profundas mudanças. A mais significativa foi a divisão do Vietnã em duas partes: O Vietnã do Sul, cuja capital era Saigon e o Vietnã do Norte, que tinha como capital Hanoi. A separação seria, em tese, provisória.

Segundo os acordos firmados, haveria eleições gerais e um processo de reunificação em 1956. Porém isso não se concretizou. Sucessivas crises levaram ao adiamento da questão e ao agravamento do conflito.

Em 1955, Ngo Dinh Diem, do Vietnã do Sul, dá um golpe e toma o poder no país, cancelando as eleições e o processo de unificação. Em seguida, proclama a independência do Vietnã do Sul e governa o país com mão de ferro. O regime de Ngo conta com o apoio dos Estados Unidos, que encontram nele uma colaboração importante na resistência ao avanço do comunismo na Indochina.

Para ajudar o regime sul vietnamita, os americanos mandam armas, ajuda financeira e treinamento militar ao Vietnã do Sul. Com isso, passam a exercer uma maior influência na região.

Enquanto isso, o Vietnã do Norte estrutura sua resistência ao avanço americano buscando seus aliados comunistas, a URSS e a China. São formadas forças de combate irregular denominadas “vietcongues”.

Até 1965, os Estados Unidos se limitam a oferecer ajuda ao Vietnã do Sul, sem envolvimentos militares efetivos. No entanto, em 1965, navios americanos foram bombardeados pelos comunistas do Vietnã do Norte. Com isso, os Estados Unidos entram definitivamente na guerra.


Após anos de combate, em 1968 ocorre a Ofensiva do Tet e o Vietnã do Norte ocupa a capital do Vietnã do Sul, Saigon. Ambos os fatos são derrotas importantes dos americanos. Essas derrotas possuem em peso considerável no contexto da guerra.

O alto número de soldados americanos mortos no conflito (em sua maioria muito jovens) gera um profundo sentimento de desilusão, tristeza e revolta na população americana, e isso se reflete na opinião pública, que começa a pressionar fortemente o governo.

Em 1972, o presidente Nixon estende os bombardeios ao Laos e ao Camboja e inicia uma fase da guerra marcada pelo uso de armas químicas, como o Fósforo Branco e o Agente Laranja.

Mesmo com a grande quantidade de baixas do lado comunista, a guerrilha se mantém firme e o desgaste das forças americanas e sul vietnamitas é cada vez maior. O conhecimento do teatro de guerra por parte dos vietcongues, a inexperiência dos americanos naquele tipo de conflito e pressão da opinião pública, com protestos nas ruas, fazem os Estados Unidos saírem da guerra em 1973.

Após a saída dos americanos, a guerra se estende até 1975 entre as forças do norte e do sul. Porém, sem condições de resistir ao avanço dos comunistas do Norte, o Vietnã do Sul capitula em 1976. Neste ano o Vietnã se unifica, transformando-se numa república socialista alinhada à China e à URSS.

A Guerra do Vietnã, foi um dos mais violentos importantes e simbólicos conflitos do século XX. Uma guerra que foi marcada pela violência dos bombardeios, pelo uso das armas químicas, por novas tecnologias militares, como a Napalm e o helicóptero.

Foi também uma guerra que entrou para a história por ter uma cobertura jornalística muito grande. A guerra foi mostrada em imagens ao mundo todo, fazendo com que a opinião pública passasse a exercer um papel preponderante na lógica dos conflitos militares.


Por que os EUA perderam a Guerra do Vietnã?

Ricardo Bonalume Neto

Como foi possível à maior potência militar do século 20 empenhar-se cerca de 15 anos em uma luta, gastar mais de 200 bilhões de dólares, perder 58 mil soldados e terminar derrotada? A intervenção americana no Vietnã foi esse desastre que moldou todas as outras guerras travadas pelos Estados Unidos dos anos 1970 até agora. Basta ver as comparações cada vez mais frequentes entre o conflito na Indochina e este que está aconteceu no Iraque, notadamente sobre as “estratégias de saída”, que culminaram no Estado Islâmico. A expressão data da época.

Existem várias correntes de historiadores tentando explicar o motivo, entre elas uma linha ultra-revisionista e até mesmo uma que acha que, na realidade, os americanos é que ganharam a guerra.

Derrota sem vencedor?

Um livro altamente revelador contém os relatos de uma conferência sobre o tema, com o interessante título Why the North Won the Vietnam War (“Por que o Norte Ganhou a Guerra do Vietnã”), editado pelo historiador Marc Jason Gilbert. O título pode parecer óbvio, mas há muitos nos EUA ainda que acreditam que, na verdade, foram eles que “perderam”, sem que o inimigo tivesse “vencido”.

Gilbert dá um bom exemplo desse estado de espírito lembrando uma discussão que houve depois da Guerra Civil Americana (1861-1865) entre generais do lado perdedor, os confederados do Sul. Eles debatiam sobre os motivos que imaginavam ter sido responsáveis pela derrota: falta de visão estratégica, erros táticos em batalhas, supremacia material do inimigo ianque (o Norte). O general sulista mais ilustre presente, George Pickett, estava quieto no seu canto. Perguntaram a ele sua opinião sobre a derrota. “Cavalheiros, eu sempre achei que os ianques tiveram algo a ver com ela”, disse de modo brusco.

A primeira e razoavelmente óbvia constatação é que não houve uma causa básica da derrota – e que foi, de fato, isto: uma derrota. Guerra é o confronto entre duas vontades, e isso vale tanto para a tradição de pensamento ocidental, tipificada pelo prussiano Carl von Clausewitz, como para a oriental, magistralmente representada pelo chinês Sun-Tzu.

Os EUA queriam preservar seu aliado, o Vietnã do Sul capitalista. O Vietnã do Norte, comunista, e os guerrilheiros vietcongues queriam unificar o país em um estado marxista-leninista. O Norte ganhou em 1975 e os últimos americanos abandonaram o país às pressas, de helicóptero. Aos poucos, construiu-se uma explicação-padrão para o acontecido. Basicamente, os pontos fortes dos vietnamitas exploravam as fraquezas americanas, e as fraquezas vietnamitas não eram passíveis de fácil exploração pelo poderio americano.

O Norte tinha uma vantagem política que rendia frutos em todo o mundo: a luta passou a ser vista como uma continuação da guerra de independência em relação aos franceses, enquanto os americanos tinham o peso de ser defensores de uma ordem social arcaica e uma ditadura militar. Para os vietnamitas, a guerra era “total”, envolvendo cada segmento da sociedade no esforço. Para os americanos, o conflito era “limitado”. Ao contrário dos viets revolucionários, a sobrevivência de seu modelo de nação não estava em risco.

O esforço de guerra do Norte e seus aliados do Sul era brutal. A sociedade foi impiedosamente doutrinada de modo stalinista. Morreram estimados 2 milhões de vietnamitas, não só por conta dos combates e de seus resultados, como o grande fluxo de refugiados internos, mas também por servirem literalmente de “bucha de canhão” em ataques e missões suicidas contra um inimigo dotado de poder de fogo muito maior. Visões históricas politicamente à esquerda tendem a louvar o “revolucionário heróico” e seu papel na vitória. Mas isso é basicamente mitologia.

Pulga contra cachorro

Não é fácil debelar uma guerra de guerrilha, pois a tática básica do insurgente é atacar os pontos fracos do inimigo e fugir dos fortes. É a luta da pulga contra o cachorro. O objetivo final é tirar tanto sangue do animal que ele acabe morrendo.

Os britânicos venceram uma insurgência semelhante contra comunistas chineses na Malásia ao usar táticas sensatas que subordinavam o poder militar ao político, evitando mortes de civis que acabam servindo de estímulo à guerrilha. Já os americanos abusavam do poder de fogo, bombardeando indiscriminadamente com canhões e aviões e causando vastos “danos colaterais” – as tais baixas civis.

Na visão ortodoxa-padrão, os EUA não tinham como ampliar a guerra – por exemplo, invadindo diretamente o Vietnã do Norte – sem correr o risco de uma guerra com a China e a União Soviética. Para os revisionistas, a guerra era “ganhável” se fossem tomadas decisões melhores, como atacar o Norte, evitar matar civis etc. Os mais radicais acham que os EUA terminaram ganhando, pois, com o fim da Guerra Fria, o capitalismo triunfou em todo o mundo e está agora afetando o Vietnã (como fez com a China). Mas isso equivaleria a dizer que o Japão ganhou a Segunda Guerra porque sua economia hoje é a terceira maior do planeta.

Os revisionistas de direita, em geral, sustentam uma teoria semelhante à dos generais alemães que perderam a Primeira Guerra Mundial: foi uma “facada nas costas” de políticos e jornalistas que impediu as forças armadas de venceram. É a teoria do mau perdedor. Este deve ser o mito mais persistente de todos: que foi a transmissão da guerra “diretamente para as salas de estar” que fez a opinião pública exigir o fim do conflito. Para os historiadores sérios, o papel da imprensa foi, quando muito, “marginal”. 

Guerra é feita com bala, não com clipes de TV. 

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/guerras/por-que-os-eua-perderam-a-guerra-do-vietna.phtml#.WNvM2k2gsdX

Salve-se quem puder: A queda de Saigon

Mauro Tracco

       
Em Saigon, conforme o EPV se aproximava, as operações de evacuação se aceleravam. Na base aérea de Tan Son Nhut, a retirada de sul-vietnamitas ocorria desde o começo do mês, transportando cerca de 500 pessoas por dia para fora do país. No dia 20 de abril de 1975, a burocracia para a emissão de vistos de saída foi simplificada e a operação começou a apertar o passo. Na semana que se seguiu, gigantescas filas foram formadas no ginásio esportivo de Tan Son Nhut por pessoas à espera da liberação para entrar a bordo dos aviões C-130 e C-141, que decolavam ininterruptamente durante o dia. À noite, a emissão de vistos continuava. O Serviço de Imigração e Naturalização dos EUA, pressionado pelo Departamento de Estado, concordou em permitir a entrada de vietnamitas que encontrassem um americano para “apadrinhá-los”.

Para ajudar as mulheres do país a saírem, casamentos- relâmpagos aconteciam nas filas com homens americanos. “Você aceita?”. “Aceito”. Pronto, o carimbo salvador estava garantido. Em 26 de abril, as forças do Vietnã do Norte haviam cercado Saigon. Num esforço para apaziguar o fogo comunista e azeitar as peças de uma possível negociação política, o embaixador Graham Martin convenceu o presidente Nguyen Van Thieu a deixar o país. Frank Snepp estava no comboio que levou o ex-presidente até uma base aérea secreta, onde um avião o aguardava. Os boatos de um golpe para assassinar Thieu eram fortes o suficiente para que a caravana fizesse toda a viagem até o aeródromo com os faróis apagados. Nada aconteceu com Thieu, que deixou o país bêbado e com cara de choro, apesar de levar consigo a maior parte de seu ouro.

No dia seguinte, o sucessor Tran Van Huong deixou a cadeira, após sete dias no cargo. O general Duong Van Minh assumiu o no dia 28 de abril, tornando-se assim o terceiro presidente a governar o Vietnã do Sul em apenas uma semana. Meia hora depois, a cidade foi atingida por uma série de explosões. A espera havia terminado: Saigon estava sob fogo inimigo.

Os ataques foram feitos por caças F-5 e A-37 norte-americanos capturados pelas forças do norte na base aérea de Phan Rang. Os pilotos, no entanto, eram sul-vietnamitas que mudaram de lado e agora queriam provar sua devoção irrestrita aos novos superiores. O capitão John Ghilain era um dos fuzileiros que trabalhavam na evacuação em Tan Son Nhut quando as pistas e os hangares foram atacados. “Perdemos dois colegas nesse dia. Eles tinham chegado apenas uma semana antes com a missão de ajudar na evacuação.”

Danos psicológicos

Apesar dessas baixas, a ideia dos comunistas não era causar danos sérios, e sim obter o maior efeito psicológico possível. A estratégia foi muito bem-sucedida. As explosões, que podiam ser ouvidas em todos os cantos da cidade, deram início ao pandemônio. Não havia mais tempo para hesitar. Americanos e vietnamitas desafetos dos comunistas deveriam sair do país o mais rápido possível. Porém, com as pistas de Tan Son Nhut destruídas, a fuga por avião estava descartada. Apenas helicópteros conseguiam pousar e aterrissar na base aérea. Inacreditavelmente, o embaixador Martin não quis autorizar a evacuação por helicóptero e insistiu que o transporte de refugiados continuasse a ser feito por aviões. Ele fez questão de visitar a base aérea pessoalmente para avaliar se era realmente impraticável o pouso e a decolagem de grandes aeronaves. Só depois de ver a situação com os próprios olhos, o embaixador assimilou o golpe. 

Era hora de o poder de decisão mudar de mãos. Ao saber dos ataques a Tan Son Nhut, o presidente Gerald Ford, em Washington, convocou uma reunião de emergência com o Conselho Nacional de Segurança e ordenou o uso de helicópteros na evacuação. Na manhã do dia 29, a música White Christmas foi veiculada pela Rádio das Forças Armadas, em Saigon. Era o sinal de que a Operação Vento Frequente estava autorizada.

Pouco se importando com as decisões de Martin e dos americanos, helicópteros do Exército sul-vietnamita já voavam em direção à Sétima Frota da Marinha dos EUA, ancorada a 20 milhas da costa. Alguns militares simplesmente pulavam na água quando estavam próximos de alguma embarcação. Outros desobedeciam às ordens dos norte-americanos e pousavam onde e quando queriam. Seus ocupantes eram desarmados e jogados nas celas dos navios. Os helicópteros eram empurrados ao mar para dar espaço aos choppers americanos. Pelo menos 45 aeronaves foram descartadas dessa forma.

Enquanto os militares vietnamitas chegavam à frota americana pelo ar, os civis iam pelo mar. Barcos superlotados de fugitivos saíam das docas do rio Saigon com destino aos navios. Enquanto isso, nas ruas da capital, a histeria coletiva alcançava seu ponto alto. Pessoas gritavam, choravam, corriam ao som de bombas e tiroteios, à procura de uma saída da cidade. O caos causado pela massa descontrolada atrapalhou a evacuação. Ônibus que levariam refugiados para a base aérea ou para prédios com heliportos não conseguiam percorrer as ruas congestionadas. “Dava para ver o desespero no rosto das pessoas. Elas ofereciam dinheiro para entrar na embaixada. Outros imploravam que seus filhos fossem salvos. A multidão estava incontrolável. Tínhamos de escalar o muro de três metros da embaixada e puxar os americanos pelos braços, pois era impossível abrir o portão”, lembra Ghilain.

Brincando de Deus

Na embaixada, milhares de pessoas amontoavam-se em frente ao portão e ao redor do muro. “Os guardas brincavam de Deus. Escolhiam quem seria salvo e usavam a coronha de seus rifles para afastar quem não seria”, relata Snepp em seu livro. Mães eram separadas de seus filhos: alguns foram pisoteados, outros simplesmente abandonados no portão.

Os vietnamitas que conseguiram entrar na embaixada foram organizados em grupos de 60 pessoas para serem embarcados nos helicópteros que aterrissavam no teto e no quintal. Durante o dia, os oficiais soltavam bombas de fumaça colorida para ajudar os pilotos a encontrar o prédio. Quando o sol se punha, um projetor de slides iluminava o ponto de aterrissagem no teto. No quintal, a iluminação era feita pelos faróis dos carros oficiais.

O resgate por helicóptero, conhecido como Operação Vento Freqüente, durou 21 horas, das 11h do dia 29 até quase 8h do dia 30. Os pilotos trabalharam entre 10 e 15 horas sem descansar. Cada viagem levava cerca de 40 minutos no ar e 10 minutos no chão, para o embarque de passageiros. Ao todo, foram 662 vôos feitos por helicópteros CH-53 e CH-46.

Alguns helicópteros foram alvejados ao sair da cidade, mas os autores dos tiros não eram os comunistas, que esperavam pacientemente o fim da evacuação nos limites de Saigon, e sim os próprios militares sul-vietnamitas, enfurecidos com a partida dos EUA. “Nós saímos em desgraça. Muitas vidas foram perdidas. Mas também estava satisfeito por tudo ter acabado, já que tinha ficado sem dormir durante os últimos quatro dias”, relata o fuzileiro Ghilain, ao lembrar do que sentiu quando subiu no helicóptero, ao amanhecer do último dia de Saigon. Apesar do triste espetáculo, os EUA conseguiram, em um mês, evacuar todos os seus cerca de 20 mil cidadãos e 150 mil vietnamitas.

Às 9h do dia 30 de abril, apenas uma hora após a última aeronave decolar do teto da embaixada, as colunas do Exército Popular do Vietnã entraram na capital. Eles esperaram o fim da evacuação, e não tinham a intenção de matar ninguém. Em meio às pessoas que não conseguiram escapar da cidade, havia alguns jovens vestidos apenas de cueca. Eram os soldados do ERV, que haviam se livrado de seus uniformes para não serem identificados.

Tanques soviéticos T-54 avançavam em direção ao Palácio Presidencial, mas os mapas impressos às pressas em Hanói não eram muito precisos. Perdidos nas ruas desertas da cidade, não tiveram outra opção a não ser perguntar a uma transeunte solitária onde ficava o tal prédio. Resolvido o problema de inteligência, os tanques atravessaram o portão do palácio, onde Minh esperava, ávido para aceitar a rendição. O último presidente do Vietnã do Sul ficou apenas 42 horas no poder. Apesar de sua predisposição em se entregar, o processo teve alguns contratempos. Minh foi levado à estação de rádio para ler a nota de rendição, mas não conseguiu decifrar a caligrafia do coronel que redigiu o documento. A solução foi ditar o texto. E, assim, antes do cair da noite, o Exército do Vietnã do Norte transmitiu a mensagem de que Saigon fora conquistada e rebatizada. Dali em diante a cidade seria chamada de Ho Chi Minh, em homenagem ao homem que iniciara a revolução comunista em 1946, quando o país ainda era uma colônia francesa. A guerra que nunca foi declarada estava oficial e definitivamente encerrada.

Fracasso completo

Em abril de 1975, ficou claro que o esforço norte-americano em manter um bastião anticomunista abaixo do paralelo 17 fora em vão. Ao mesmo tempo em que o Vietnã era reunificado, no país vizinho, o Camboja, a vitória do Khmer Vermelho sobre Lon Nol, presidente alinhado com Washington, era cada vez mais certa. Entre 1970 e 1972, os Estados Unidos gastaram mais de 400 milhões de dólares em ajuda militar ao governo de Lon Nol. Os bombardeios americanos detiveram o avanço do Khmer até 1973, quando o Congresso americano determinou o fim desse tipo de intervenção.



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terça-feira, 28 de março de 2017

Sangue, aço, chamas: A Era Viking

Isabelle Somma



No fim do século 8, a ilha de Lindisfarne, na costa nordeste da Inglaterra, abrigava agricultores, pastores e religiosos. Era um local sagrado, onde Santo Aidan havia vivido 100 anos antes. Todos os tesouros do povoado se resumiam a um punhado de objetos de culto, como cálices e hostiários feitos de metais preciosos, que ficavam guardados num mosteiro. Como a maioria da Europa era cristã, os moradores de Lindisfarne podiam até temer uma invasão, mas tinham certeza de que suas relíquias religiosas jamais seriam tocadas. Toda essa confiança ruiu em 8 de junho de 793. Foi quando uma horda de homens desembarcou na ilha, vinda das gélidas ter­ras do norte. Com ferocidade e rapidez, eles saquearam o mosteiro e mataram os monges que cuidavam dele.

A invasão de Lindisfarne foi só o começo. Ela marcou o início da Era dos Vikings. Entre o fim do século 8 e a metade do século 11, boa parte da Europa seria aterrorizada pelos guerreiros escandinavos. Primeiro na costa britânica, depois no resto do continente, os europeus descobriram que nada era páreo para os vikings. Nem crenças celestes nem tampouco regras terrenas. Não foi à toa que seu nome se originou do termo nórdico vik, que se refere a alguém que espreita em uma baía – em outras palavras, um pirata. Pagãos, os vikings não diferenciavam camponeses de monges ou tesouros de relíquias cristãs. Para eles era tudo igual, o que chocou os cronistas europeus da época, que descreviam os vikings como “bárbaros” sem piedade.

Na verdade, o campo de batalha era uma espécie de paraíso para os nórdicos. O céu de sua religião, Valhala, nada mais era que uma eterna guerra. Eles acreditavam que, nessa espécie de Olimpo, os vencedores de cada dia eram convidados a comemorar com Odin – um de seus principais deuses – o sucesso obtido em mais uma luta.

Em suas incursões, além de saquear, os vikings faziam escravos. Mas os escandinavos também praticaram pacificamente o comércio e estabeleceram colônias em locais como França, Alemanha, Países Baixos e Rússia. “Os vikings não eram apenas senhores da guerra”, afirma a arqueóloga dinamarquesa Else Roesdahl no livro The Vikings (sem edição no Brasil). “Eles também eram exploradores que colonizaram terras até então desabitadas do Atlântico Norte – Ilhas Faroe, Islândia e Groenlândia –, e foram os primeiros europeus a chegar à América.” Apesar de os vikings terem superado o navegador Cristóvão Colombo em cinco séculos, a fama de implacáveis permanece sendo sua imagem mais forte.

Invasões bárbaras

Em vastas terras que hoje pertencem a Suécia, Dinamarca e Noruega, os vikings viviam da agricultura, da pesca e do comércio (de peles, madeira, trigo, peixes, metais e, eventualmente, de escravos). A sobrevivência era bastante complexa, porque os recursos eram escassos – e o frio, de doer. Ao contrário do que ocorreu em boa parte da Europa, os vikings nunca sofreram uma invasão romana e, por causa disso, eram bem diferentes dos outros povos do continente. Eles compartilhavam a mesma cultura, mas não formavam uma sociedade unificada. Boa parte deles vivia dividida em comunidades menores, cada uma comandada por um líder guerreiro. A falta de divisões políticas muito organizadas se refletiu nas invasões vikings da Europa: em vez de grandes exércitos obedecendo a um rei, muitas vezes as pilhagens eram feitas por pequenos grupos de homens (que depois dividiam o espólio entre si).

Navegando para longe de sua terra natal, os nórdicos se estabeleceram mais ao sul. Cidades como York, na Grã-Bretanha, e Dublin, na Irlanda, tiveram assentamentos vikings. Eles desembarcaram nessas regiões no século 9, aproveitando o clima mais ameno. O contato com as comunidades locais não era necessariamente violento. Afinal de contas, muitos vikings aceitavam se converter ao cristianismo. “Devemos lembrar que o nacionalismo extremo é um fenômeno histórico recente. Naquela época, a Inglaterra estava dividida em pequenos reinos (...) e os dinamarqueses eram rapidamente aceitos”, afirma o historiador sueco Holger Arbman no clássico Os Vikings.Na Europa continental, os vikings fizeram por merecer sua fama de guerreiros implacáveis. Aproveitando a versatilidade de seus barcos, eles navegaram pelo rio Sena até chegar a Paris. Em março de 885, chegaram, pilharam sem enfrentar grande resistência e, quando ficaram satisfeitos, foram embora. Esse cerco foi comandado por Ragnar Lodbrok. Fora isso, pouco se sabe sobre sua vida. 

Em novembro de 885, eles voltaram. Mas encontraram uma cidade bem mais protegida. Guaritas haviam sido construídas, assim como pontes móveis de madeira, usadas para impedir a entrada de navios inimigos. Teve início, então, uma especialidade medieval longe de ser exclusividade nórdica: o cerco. Como os exércitos cristãos, a cidade era cercada e eles simplesmente esperavam a rendição por falta de mantimentos. Agora, exigiram pagamentos para se retirar.

Os parisienses resistiram por quase um ano ao assédio de um dos maiores esforços vikings de guerra: 30 mil homens, que chegaram em 700 embarcações. Foram salvos pela chegada do exército do Sacro Império Romano. Quando o embate acabou, os vikings envolvidos nele se dispersaram. 

O líder dos nórdicos, Rollo, resolveu permanecer na região. Ganhou uma fatia de território na Normandia para se estabelecer e, em troca, deveria proteger os francos de novos ataques de seus compatriotas. Rollo mudou o nome para Robert e se converteu ao cristianismo – dando origem a uma linhagem que, mais tarde, conquistaria parte da Inglaterra. 

Os ataques à França, às ilhas britânicas e à Espanha eram realizados pelos vikings que viviam nas atuais Noruega e Dinamarca. Seu alvo preferencial era a Irlanda: na primavera, os ventos da costa norueguesa levavam os barcos até lá sem muito esforço. Os saques podiam durar até o outono, quando surgiam os ventos que traziam os nórdicos de volta para casa. Já os vikings do território que hoje corresponde à Suécia costumavam partir para o mar Báltico, onde pilhavam as atuais Polônia, Letônia, Lituânia e Rússia. Quando o objetivo era o comércio, eles iam ainda mais longe: navegando pelos rios Volga e Dnieper, chegaram até Constantinopla, então capital do Império Bizantino. Mas, por ter saqueado a cidade em 860, incendiando igrejas e casas, os vikings eram vistos com desconfiança por lá. Quando vinham comercializar seus produtos, eles tinham que deixar suas armas fora das muralhas de Constantinopla e não podiam entrar em grupos com mais de 50 pessoas.


Em túmulos vikings na Suécia, foram encontradas moedas cunhadas em Bagdá, o que indica que nórdicos percorreram muito chão – e água – para vender seus produtos aos árabes. Grande parte do que se sabe sobre os vikings, aliás, foi descoberto graças a seus túmulos. Os líderes nórdicos eram enterrados com tesouros, armas e objetos pessoais, incluindo os barcos (é por causa desse costume que sabemos tanto sobre as embarcações vikings, preservadas debaixo da terra). Em alguns sepultamentos foram encontrados corpos de mulheres – provavelmente concubinas, assassinadas e enterradas ao lado do amante morto.

América, ano 1000

Mas o que fez os vikings se distanciarem tanto de seus territórios? “Sugerem-se várias motivações para o surgimento repentino dos vikings em meados do ano 800. A superpopulação na terra de origem é vista como um dos fatores principais”, afirma o historiador britânico Mark Harrison no livro The Vikings: Voyagers of Discovery and Plunder (“Os vikings: viajantes das descobertas e pilhagens”, inédito no Brasil). O excedente populacional era agravado pela falta de recursos naturais da Escandinávia. Procurando novas terras, grupos noruegueses e dinamarqueses chegaram a ilhas próximas, como as Faroe. Depois, partiram para locais mais remotos, como a Islândia e a Groenlândia. Foi nessa grande ilha gelada que se estabeleceu Eric, o Vermelho, líder expulso da Escandinávia por assassinato. Seu filho Leif Ericsson, entretanto, não se contentou em ficar por lá e decidiu se aventurar no oceano Atlântico, liderando um grupo de guerreiros. 

A recompensa de Ericsson e seus homens foi descobrir a América. Um sítio arqueológico descoberto em L’Anse aux Meadows, na costa leste do Canadá, prova que eles fizeram isso por volta do ano 1000 – segundo os pesquisadores que trabalham no local, o assentamento de Ericsson deu origem à lendária Vinland, a terra das vinhas descrita no folclore viking. Mas os nórdicos não ficaram muito tempo no continente recém-encontrado. Os ataques dos povos locais e a dificuldade de sobrevivência fizeram com que, após três anos, o grupo voltasse para casa.

Na época em que Ericsson retornou ao lar, a fúria expansionista dos vikings começava a entrar em declínio. Uma das últimas grandes batalhas em que eles se envolveram foi na Irlanda, em 1014. Brian Boru, rei irlandês, pretendia unificar suas terras e entrou em conflito com o líder viking Sigtrig Barba de Seda. O conflito deu origem à batalha de Clontarf, nos arredores de Dublin. Havia vikings dos dois lados, e os homens de Boru despacharam os de Sigtrig em direção ao mar. Em 1066, o duque da Normandia, William, conseguiu expulsar os vikings da Danelaw, região que os nórdicos habitaram durante quase dois séculos na Inglaterra. Na Escócia, contudo, muitos duques descendentes de escandinavos permaneceram no poder.

O fim dos ataques vikings coincidiu com o avanço do cristianismo entre eles. Nas ilhas britânicas, os nórdicos que não foram expulsos acabaram se adaptando à cultura e à religião local (na Inglaterra, por exemplo, é raro encontrar túmulos pagãos construídos depois do ano 950). Ao fim do século 10, muitos moradores da própria Escandinávia já eram cristãos. Com a nova religião, o ímpeto por conquistas se dissipou. Mas jamais foi esquecido, permanecendo em lendas contadas até hoje nos locais onde houve colônias vikings. 

Sangue, palavras, bacalhau

A influência viking na Europa não se resume à Escandinávia

Qualquer um que aprenda inglês básico está, mesmo sem saber, ajudando a preservar a herança viking. Diversas palavras do idioma tiveram origem a partir das invasões nórdicas. Thursday, quinta-feira, significa “dia de Thor”, uma referência a um dos mais conhecidos deuses vikings. 

A influência está presente ainda em palavras como husband (“marido”), sister (“irmã”), knife (“faca”) e egg (“ovo”). Além da língua inglesa, a tradição viking se perpetuou no nome de algumas cidades européias. Um caso célebre é Dublin, capital da República da Irlanda: no século 10, os vikings ocupavam uma região irlandesa que chamavam de Dubh Linn. 

Mas uma das principais contribuições dos vikings fora da Escandinávia corre nas veias de moradores do norte e nordeste da Inglaterra. Uma pesquisa feita com o sangue de voluntários pelo canal britânico BBC, em 2001, demonstrou que muitos ingleses possuem semelhanças com noruegueses no cromossomo Y (aquele que somente os homens carregam). Essa é mais uma prova de quão profunda foi a integração dos vikings com seus vizinhos do sul – em vez de apenas pilhar, eles foram assimilados e se incorporaram às famílias locais. 

Na Dinamarca, a atual rainha, Margrethe II, nem precisa fazer exame de DNA para provar sua ascendência viking. A ocupante do trono dinamarquês é descendente direta de Gorm, o Velho, líder viking que viveu no século 10. Ela consegue traçar seus antepassados em uma linhagem que cobre mais de mil anos.

E há importante colaboração na cultura portuguesa, com certeza: o bacalhau. Os vikings não usavam sal, apenas secavam os peixes ar livre. Como eles eram também comerciantes, durante o período das invasões, sua especialidade chegou à Península Ibérica - e os bascos, por volta do ano 1000, foram os primeiros a salgar o peixe. Quando todo mundo se converteu, os portugueses, bascos e outros povos puderam pescar em suas costas, desenvolvendo sua indústria náutica. Isso durou até os anos 1970 - desde então, bacalhau só pode ser produzido pelos próprios nórdicos.

Eles nunca foram chifrudos

Esqueça o chapéu de chifres nem beber na caveira dos inimigos - mas caneca de chifres eram comuns



Em nenhuma imagem desta matéria você viu chifres nos elmos dos vikings. Não que a gente tenha se esquecido deles: a tradicional imagem de guerreiros nórdicos usando chifres é pura ficção. 

Há registros de que os celtas e alguns povos germânicos usavam capacetes com chifres. Mas sua função era apenas cerimonial, enfeitando a cabeça de sacerdotes. Os vikings podem até ter utilizado ornamentos semelhantes em eventos religiosos. 

Mas, durante lutas, chifres teriam sido pouco práticos – acrescentariam peso inútil aos capacetes e seriam fáceis de arrancar. A quantidade pequena de capacetes vikings encontrados, aliás, indica que nem todos eles usavam esse equipamento – talvez só os homens da linha de frente. 

Mas de onde surgiu, então, a relação entre chifres e vikings? Em 1820, numa edição do livro A Saga de Frithiof, que conta lendas escandinavas medievais, um pintor sueco se baseou em indumentárias germânicas para retratar os vikings. As ilustrações trazem os guerreiros usando capacetes com chifres (e perucas por baixo deles). Outra suspeita é de que a confusão tinha se espalhado graças a uma obra do compositor alemão Richard Wagner. Encenações de O Anel dos Nibelungos (série de quatro óperas escritas entre 1848 e 1874) representavam os hunos como homens que vestiam peles e usavam elmos chifrudos. Isso teria ajudado o imaginário europeu a atribuir essas características a qualquer povo considerado “bárbaro”.



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