domingo, 7 de maio de 2017

[POL] Hiroíto: Monstro ou marionete?

Cecília Selbach


Cansado dos bombardeios freqüentes, das mortes e da fome causadas pela Segunda Guerra, o povo japonês esperava o anúncio que o imperador faria pelo rádio. Apesar da tristeza e da exaustão, sobrava espaço para um certo frisson no ar. Naquele 15 de agosto de 1945, ao meio-dia, pela primeira vez o monarca iria falar diretamente a seus súditos. Até então, seus decretos eram sempre lidos por algum emissário. Em aparições públicas, ninguém estava autorizado a olhar diretamente para o soberano. Tocá-lo era proibido até mesmo para seus médicos e alfaiates. Ele era o deus vivo, descendente da deusa do Sol, Amaterasu.

Três anos e oito meses antes, o Japão declarara guerra aos Estados Unidos, com o ataque-surpresa a Pearl Harbor. Depois de alguns meses de vitórias japonesas, a situação se revertera. O Japão estava agora à mercê dos Estados Unidos, que haviam lançado, pela primeira e única vez, bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasáki. Nas ruas, as pessoas temiam que o imperador, sabendo da derrota inevitável, pedisse que todos se sacrificassem pela pátria. Afinal, na tradição do país, era preferível a morte à rendição. Acostumados a obedecer cegamente, grande parte dos súditos estava disposta a cometer o seppukku, o suicídio em nome da honra.

A transmissão imperial, porém, foi diferente. Foi preciso que os comentaristas da rádio explicassem o significado das palavras de Hiroíto, por causa de sua linguagem formal e arcaica. Mas, aos poucos, todos foram compreendendo a mensagem. Ele anunciava para os súditos o fim da guerra e dizia que concordara com o acordo proposto pelos países aliados. Sem mencionar as palavras rendição ou derrota, dizia que a guerra já causara muitas mortes e precisava acabar. Conclamou todos a “tolerar o intolerável” e disse que, ao testemunhar a morte de seus súditos e as dificuldades pelas quais seu povo agora passava, seus órgãos vitais partiam-se. 

Para muitos, essa foi a passagem mais marcante. Em vez de bravos com a derrota e com o imperador por ter autorizado a guerra, os japoneses se sentiram culpados por ter causado dor a seu soberano. Ao final, o número de suicídios foi mais ou menos o mesmo que na Alemanha, um povo sem a tradição de matar-se em nome da honra – entre 350 e 550 mortes. “Com esse discurso, o imperador tentou alcançar o impossível: converter o anúncio da derrota humilhante em mais uma afirmação da conduta do Japão na guerra e de sua própria moralidade transcendente”, diz o historiador americano John W. Dower no livro Embracing Defeat: Japan in the Wake of the World War II (“Abraçando a derrota: Japão no despertar da Segunda Guerra Mundial”, inédito em português).

Duas caras

Por sua atitude de encerrar a guerra e sua cooperação com os Estados Unidos na posterior ocupação do Japão, Showa - o nome pelo qual Hirohito ficaria conhecido após sua morte, segunda tradição japonesa - entraria para a história como um imperador pacífico, avesso ao militarismo. Uma figura meramente decorativa. Essa opinião prevaleceu por muitos anos. E deve-se, em boa parte, à capacidade do governante de raramente revelar suas verdadeiras intenções. Nos anos 70, porém, começaram a ser publicados documentos e diários de pessoas próximas ao imperador que mostravam um pouco mais sobre seu papel na guerra. As novas informações ajudaram alguns historiadores a tentar entender melhor Hiroíto. E o retrato que surge desses estudos não é simples como se pensava.

Para começar, Hiroíto era ambíguo por natureza. Nascido em 1901, foi criado para se espelhar em seu avô, Meiji, responsável pela modernização do Japão – o pai de Hiroíto, o imperador Taisho, esteve doente a maior parte da vida e não cumpriu todas as obrigações do posto. No governo de Meiji, estrangeiros foram chamados para construir portos, estradas e escolas. As roupas ocidentais tornaram-se moda. O decreto que proibia os japoneses de viajar ao exterior foi abolido. Mas, ao mesmo tempo que se abria para o Ocidente, o Japão temia ainda mais a ameaça estrangeira. Os japoneses não queriam que o país se tornasse a nova China, que tinha territórios dominados pelas potências europeias – como Hong Kong, tomado pelo Reino Unido. 

A contradição entre a modernidade e o passado – ou seja, entre a abertura ao mundo exterior e o nacionalismo extremo – continuaram presentes no Japão de Hiroíto. E ninguém personificou essa ambiguidade mais que ele mesmo. “Era como se ele estivesse dividido”, diz o historiador americano Herbert Bix, autor do livro Hirohito and the Making of Modern Japan (“Hiroíto e a construção do Japão moderno”, sem tradução em português). De um lado, os valores que recebera em sua educação mais européia, a democracia e a modernidade. Do outro, o passado militarista do Japão, país que nunca perdera uma guerra, e seu nacionalismo exacerbado.

Quero ser grande

Hiroíto tornou-se regente do Japão em 1921, quando o pai foi afastado por problemas mentais . A coroação ocorreu sete anos mais tarde. No poder, Hiroíto foi seduzido pela ideia, corrente no país então, do Japão como potência. Assim, não sucumbiriam, como a China, aos europeus. “[O Japão] estava decidido principalmente a jamais ser obrigado, como fora a China, a aceitar por qualquer período de tempo a presença estrangeira em seu território”, disse o jornalista Edward Behr em Hiroíto: por Trás da Lenda. A partir da guerra contra os chineses, nos anos 30, isso foi ficando cada vez mais claro nas conversas do imperador com seus assessores. “Não acredito que Hiroíto tenha procurado ligar sua imagem a uma ideologia ultranacionalista, mas ele permitiu que fizessem isso em seu nome. Depois, ele assumiu o papel de mais importante guia espiritual da nação em tempos de guerra”, diz Bix.

Em 8 de dezembro de 1941, os japoneses bombardearam Pearl Harbor, base naval americana no Havaí. Como pretendiam tornar-se potência, acreditaram que só ao lado dos alemães – que, em sua cabeça, seriam os vencedores da guerra – conseguiriam isso. Os Estados Unidos atrapalhavam o plano, por isso o Japão os atacou, pensando que o país se renderia à força e à autoridade japonesas. Foi tudo sem avisar, como parte de sua tradicional estratégia: a declaração de guerra aos Estados Unidos só chegou horas depois do bombardeio. Transcrições de reuniões com ministros mostram que o imperador sabia dos planos do ataque. E comemorou essa vitória, assim como as que se seguiram nos primeiros meses. Quando a situação da guerra se reverteu e o Japão começou a perder, Hiroíto questionava seus generais, não por estarem realizando as batalhas e pelas atrocidades que cometiam – as incursões do Japão fizeram uso de armas biológicas, estupros em massa e experiências médicas macabras com civis –, mas sim por estarem demorando demais a vencer.

Por volta de 1943, quando o pessoal do governo começava a perceber que a guerra estava perdida, tiveram início as discussões sobre a responsabilidade do imperador. A questão era difícil. A Constituição dizia que o imperador tinha poderes ilimitados e todas as decisões deviam passar por ele. Mas também dizia que ele não poderia ser responsabilizado pelos seus erros. Admitir que Hiroíto não tinha culpa, era apenas um fantoche, questionava seu poder. E culpá-lo pela guerra seria crime de lesa-majestade. Nessa época, a visão que o Ocidente tinha dele mudara. De monarca liberal, virou um dos três homens mais odiados do mundo, ao lado de Hitler e Stálin.

A maioria dos assessores do imperador optou por protegê-lo a qualquer custo. Muitos, porém, acreditavam que ele deveria renunciar. Até membros de sua família, como seu irmão mais novo, achavam que seria melhor para a monarquia que ele abdicasse. Mas quando, após os bombardeios em Hiroshima e Nagasáki, Hiroíto fez seu pronunciamento no rádio, no dia 15 de agosto, seu destino estava selado.

Teatro para salvar a monarquia

Às 10 da manhã de 27 de setembro de 1945, uma velha limusine Mercedes – presente do líder alemão Adolf Hitler – saiu do Palácio Imperial acompanhada de duas motocicletas e quatro carros, dois deles lotados de policiais. Em meio às ruínas de uma Tóquio recém-bombardeada, dirigiu-se para a Embaixada dos Estados Unidos. Dentro dela seguia um Hiroíto com roupas velhas. Ele pedira um encontro com o general americano Douglas MacArthur, comandante supremo das Forças Aliadas e responsável por ditar as regras no Japão depois da rendição do país – e, por isso, chamado de “xogum de olhos azuis”. 

Hiroíto seguia apreensivo, por não ter ainda certeza do que estaria reservado a ele no novo cenário, após a rendição e com a ocupação americana. Ele seria julgado por crimes de guerra e forçado a renunciar? De tão nervoso que estava, suas mãos tremiam ao entregar sua cartola para um dos assessores de MacArthur segurar. Frente a frente com o general, o imperador assumiu uma atitude humilde e, como era de seu feitio, ambígua. Chamou para si toda a responsabilidade pela guerra, mas, ao mesmo tempo, disse que, se tivesse pensado em ignorar os conselhos de seus assessores e não iniciar o confronto, teriam-no internado em um asilo de loucos ou assassinado. Satisfeito com essas explicações, MacArthur tranquilizou o imperador e aconselhou-o a não renunciar. Anos depois, em 1964, escreveria em seu livro de memórias, Reminiscences (“Reminiscências”, sem tradução em português) que, ao conhecer Hiroíto, esteve diante “do primeiro cavalheiro consumado do Japão”.

Hoje sabe-se que Hiroíto deu total aval à guerra, mas, fazendo isso a seu estilo, com muita sutileza, pôde depois atuar no papel de boneco nas mãos dos militares. Assim, o imperador não seria julgado como criminoso de guerra nos Julgamentos de Tóquio, feitos pelas forças aliadas que ocuparam o Japão (leia ao lado). Para justificar essa atitude, a ideia disseminada era a da impotência de Hiroíto, que seria um marionete na mão dos militares. Com a escassez de provas – a maioria dos documentos fora queimada nos dias após a rendição –, a maior parte dos estudiosos comprou, na época, essa versão. “Os americanos, especialmente os cientistas políticos, não perceberam a maneira japonesa de fazer política”, diz Bix.

O grande responsável por Hiroíto ter escapado dos julgamentos foi MacArthur. Ele acreditava que a permanência do imperador no trono seria útil para a ocupação, pois daria unidade ao povo japonês e o ajudaria a aceitar as mudanças. Mostrando-se extremamente cooperativo, Hiroíto conseguiu permanecer no poder e reinou até 1989, ano de sua morte. Submetendo-se à teoria de que havia sido um fantoche, o imperador perdeu o prestígio por ter tido força, afinal, para encerrar a guerra – o que fez contra a vontade de muitos de seus generais, que preferiam lutar até o último homem. Mas, se esse era o preço a pagar para continuar no trono, não importava.

Seus poderes, é claro, foram diminuídos. Alguns meses depois da rendição, em 1º de janeiro de 1946, ele renunciou a sua origem divina – novamente em um pronunciamento por rádio, no qual disse que a família imperial era formada apenas por seres humanos regulares, e o povo japonês não estava destinado a dominar o mundo. Pela nova Constituição, elaborada pelos americanos, a instituição do império permaneceria, mas destituída de poder político e da aura sagrada. Com o fim da ocupação americana, em 1952, as elites conservadoras, de certa forma expurgadas do poder durante a ocupação, voltaram a comandar o Japão – sem a liderança de Hiroíto.

Para Herbert Bix, o fato de o imperador não ter sido julgado trouxe mais prejuízos que benefícios, tanto para o Japão quanto para o mundo. “Ficou difícil para o Japão reconhecer a derrota e suas próprias atrocidades na guerra”, diz. Além disso, abriu um precedente péssimo: o de que os chefes de Estado não são culpados por esse tipo de crime. Aos poucos, o Japão seguiu rumo a uma recuperação quase inacreditável, que o levou a ser a segunda potência econômica nos anos 80, atrás apenas dos Estados Unidos. O que as armas não fizeram, as grandes empresas conseguiram – com uma bela força do imperador. Hiroíto serviu de peça de unificação: era símbolo da sobrevivência e da capacidade de recobrar-se do Japão. Como contava com o prestígio do povo, foi fundamental para que os japoneses aceitassem as mudanças, a ocupação, a Constituição mais democrática, a abertura. Não estava à frente das políticas, mas era essencial para que elas fossem implementadas.

Como o avô Meiji, Hiroíto escrevia poemas. Um deles era um apelo para que os súditos não se abalassem com o futuro. “O pinheiro é forte/ e não muda de cor/ com o peso da neve./ Assim as pessoas/ também deveriam ser.” Um poema que descreve, acima de tudo, sua própria atitude no pós-guerra. E sua extraordinária capacidade de se preservar e reinventar, como o único líder do Eixo a escapar ileso.

Longa vida


O reinado de Hiroíto foi o mais duradouro do Japão


1901
Filho do príncipe Yoshito (futuro imperador Taisho) e da princesa Sadako (depois imperatriz Teimei), Hiroíto nasce em 29 de abril, em Tóquio.

1912
O avô de Hiroíto, Meiji, morre no Japão.

1924
Hiroíto casa-se com a noiva que escolhera. Baixa e atarracada, Nagako não era bela, mas muito inteligente. Ao contrário do pai e do avô, é monogâmico e não mantém concubinas.

1926
Príncipe-regente desde 1921, quando o pai foi declarado incapaz, Hiroíto é entronado imperador com a morte de Taisho.

1928
Militares japoneses explodem o trem em que o líder chinês Chang Tso-lin viajava, na Manchúria. Hiroíto não condena os culpados – e mais tarde os promove. Em 1931, o Japão atinge o objetivo de invadir a China e controlar o país.

1959
Seu filho mais velho, príncipe Akihito, quebra uma tradição de 1500 anos e casa-se com uma plebeia, Shoda Michiko.

1971
É o primeiro imperador japonês a fazer uma visita ao estrangeiro.

1975
Faz sua primeira visita aos Estados Unidos.

1989
Após a morte de Hiroíto, Akihito assume o trono.


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[POL] O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?

Camilla Costa



"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que, na verdade, o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam um terceiro caminho", afirma.

Nacionalismo


A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".

'Marxistas e capitalistas'


Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução que garantiria justiça social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.

"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida o ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturais de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."

'Precisão científica'


A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, nos dias de hoje, associa o movimento a partidos de extrema-direita que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco a comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como "direita".

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.

'Crise de referências'


Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."
Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo mais à direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."


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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Genocídio Armênio: Um outro holocausto

Leonardo Mourão e Alexandre Rodrigues



Quem digitar “genocídio armênio” em um site de buscas na internet deve se preparar, antes de apertar a tecla enter, para encontrar imagens de uma violência e crueldade grotescas. Os sites irão mostrar um inferno de horrores: pessoas mutiladas, crianças que são só pele e ossos agonizando, cabeças decapitadas e espetadas em pedaços de pau, filas intermináveis de mulheres e seus filhos fugindo a pé pelo deserto, corpos pendurados em forcas, pilhas gigantescas de cadáveres...

Seria desrespeitoso e historicamente incorreto comparar o genocídio sofrido pelos armênios com massacres cometidos contra outros povos ao longo do século passado. Mas a selvageria com que os turcos, em alguns momentos auxiliados pelos curdos, perseguiram e assassinaram os armênios surpreende até mesmo quem está familiarizado com a descrição de outros crimes contra a humanidade.

Por quase três décadas, de 1895 a 1922, episódios de perseguições, assassinatos em massa e deportações se sucederam em diferentes regiões da Turquia. Mas é a partir de 24 de abril de 1915 que teve início uma desenfreada matança que, em semanas, provocou a morte de 1,4 milhão dos 2,1 milhões de armênios, de acordo com dados do Patriarcado Armênio. É como se apenas os moradores do Nordeste sobrevivessem a um massacre que trucidasse os brasileiros.

Jovens turcos

A matança dos armênios soa ainda mais absurda pelo fato de essa nacionalidade ser parte integrante do dia a dia do então Império Otomano, que englobava, além da Turquia e Armênia, partes do Líbano, Síria, Iraque e Palestina. Embora tivessem seu próprio país, e alguns entre eles reivindicassem sua autonomia, há vários séculos os armênios viviam nas cidades do império. Eram funcionários públicos, professores, policiais, comerciantes, jornalistas, soldados do Exército, médicos, sapateiros,advogados, donas de casa, artistas, que dividiam sua vida diária com os vizinhos turcos. Contra eles se ergueu principalmente o panturquismo, o nacionalismo radical defendido pelos Jovens Turcos, vertente política que havia tomado o poder no Império em 1908.

À frente do governo dos Jovens Turcos estavam três paxás. Entre eles, Mehmed Talaat Pasha foi o mais ativo idealizador e executor do genocídio. Foi ele, ainda no posto de ministro do Interior, quem ordenou, no fatídico 24 de abril de 1915, a prisão e a execução de 250 intelectuais e líderes armênios que viviam na então capital Constantinopla (a atual Istambul). Entre eles estava toda a redação do jornal Azadamart, o principal órgão de comunicação em língua armênia no império.

Cinco semanas depois, Talaat proporia a Lei de Deportação Temporária, que seria a luz verde para o grande genocídio que, de resto, já vinha sendo gestado desde outubro do ano anterior, quando os otomanos entraram em guerra contra a Rússia e perderam de maneira espetacular sua primeira batalha.

Como parte do povo armênio vivia em território russo – 1,7 milhão na Rússia e 2 milhões em terras do império –, o governo dos Jovens Turcos colocou todos no mesmo saco e acusou os armênios de traírem a Turquia.

Tal argumento seria usado ao longo dos anos para justificar o genocídio como consequência dos combates da Primeira Guerra, e não uma matança planejada. Mas uma das provas apontadas pelos armênios de que em Constantinopla o genocídio fazia parte de um plano elaborado é “uma medida insólita” tomada pelo governo: todos os soldados e policiais armênios a serviço do império foram desarmados. “As consequências dessa medida são fáceis de imaginar, procura-se prevenir assim qualquer resistência à execução que virá”, escreveu o teólogo brasileiro Aharon Sapsezian autor de História da Armênia – Drama e Esperança de uma Nação.

E o que veio foram ordens de Constantinopla, “seguindo um programa preciso”, conforme esclarece relatório elaborado pelo Tribunal Permanente dos Povos, de deportar os moradores das províncias da Armênia. Para onde? Não se sabia e não importava. Tinham de deixar o país. A elaboração do plano ficou a cargo do Comitê União e Progresso, em Constantinopla, que fornecia armas, veículos e apoio à SO, ou “organização especial”, que executava as ordens. A SO tinha poderes para demitir os funcionários que não concordassem com as medidas contra os armênios.

Deportações

As ordens de deportação eram anunciadas publicamente, as famílias tinham dois dias para juntar seus pertences. Padres, políticos e jovens armênios eram obrigados a assinar confissões forjadas e em seguida executados.

Idosos, mulheres e crianças tinham, no início do genocídio, direito a serem transportados em comboios. Depois, atravessavam a pé o deserto da Mesopotâmia, onde é hoje o noroeste do Iraque. Há relatos de que barcos repletos de armênios eram afundados no Mar Negro e Rio Tigre. Nas aldeias remotas, onde havia poucas testemunhas, foi muito pior. Mulheres eram estupradas, crianças, crucificadas e milhares enforcados ou decapitados por soldados do Exército, policiais e membros da SO. Com seus proprietários expulsos, as casas eram vendidas, os pertences saqueados. Outras vezes, queimavam-se as residências com os moradores dentro.

Em uma foto da época tirada no deserto, a caminho dos campos de concentração em Alepo, hoje cidade síria, pode-se ver mulheres e crianças andando em fila e, ao seu lado, um soldado carregado de mantas e outros objetos que lhes roubou. Não havia água ou comida para todos. Milhares andavam até cair e morrer magros como esqueletos. Raros são os descendentes de armênios que não tiveram bisavôs, avôs, pais ou mesmo irmãos assassinados. 

A diáspora espalhou armênios por todo o Ocidente. Dos 7 milhões atuais, estima-se que 4 milhões estejam fora da Armênia. O Brasil é um dos países que receberam grande número de imigrantes, que hoje já estão na terceira geração por aqui. “Sou filha da diáspora”, diz Sossi Amiralian, doutora em Literatura Armênia pela USP, nascida no Líbano, onde a família havia se refugiado. “Meus pais viveram o genocídio de perto. Os dois perderam seus pais”, conta. O avô paterno de Sossi, Levon Amiralian, era influente na cidade de Marach. Pelo lado materno, Mardiros Kehiaian vivia em Adana. As duas cidades foram especialmente atingidas pelos genocidas. “Não conheci meus avós, foram decapitados quando meus pais ainda eram crianças.”

Joias costuradas

O pai de Sossi, Garabad, e a avó dela tiveram sorte, seu tio-avô tinha amizade com algumas autoridades turcas que se apiedaram da família e lhes providenciaram transporte seguro. Não fosse isso, afirma Sossi, não haveria como resistir aos turcos. “Os armênios não tinham armas; minha avó contava que para defender seus filhos deixava permanentemente uma panela de água fervente com pimenta sobre o fogão. Caso fosse atacada lançaria aquela mistura nos soldados.”

Outras mães não tiveram nem mesmo a oportunidade de tentar se defender. Flora Kuyumjian demorou décadas até conseguir contar para seus netos como foi o ataque à sua casa. Depois de agarrarem seu marido, Minas, e o levarem para fora, degolaram seus dois filhos diante dos seus olhos. O bebê recém-nascido que estava em seus braços lhe foi tomado e afogado na bacia de água na qual lavava a roupa. “Ela levou um golpe no pescoço e desmaiou, quando acordou estava boiando no mar e foi recolhida por uma família de turcos que a tomaram como escrava, para cuidar da sua filha”, conta a diretora de arte Moema Kuyumjian, sua neta.Flora não ficou mais do que dois dias junto com os seus algozes. Cristã convicta, como a grande maioria dos armênios, fugiu atormentada pela ideia obsessiva que vinha à sua cabeça de matar por vingança a criança sob os seus cuidados. Se não tinha sobre o fogão uma panela de água fervente para defender-se contra seus agressores, Flora tomara outros cuidados para enfrentar aquele genocídio que se anunciava havia algum tempo. Na barra da sua saia, costurou as poucas joias que possuía. Foi com elas que subornou um soldado turco para chegar à Síria. Ali, mendigou e sobreviveu comendo restos de feira. Um dia encontrou-se por acaso com o marido, Minas, também vagando como pedinte.

Flora lembrava que seu sofrimento a havia feito tão dura que não chorou nem se emocionou. Com o tempo, tiveram outros dois filhos. “Ela os batizou Arthur e Eduardo, que foi o meu pai”, diz Moema. “Os mesmos nomes dos dois filhos assassinados pelos turcos.” Da Síria, Minas e Flora passaram ao Líbano, onde a família conseguiu passaportes. Vieram para o Brasil e se estabeleceram em São José do Rio Preto, São Paulo, em 1926.

Sem reconhecimento

Centenas de milhares de armênios não tiveram tanta “sorte” quanto os pais e avós de Sossi e Moema. Após o genocídio, na porção da Armênia em território turco quase já não havia mais armênios. Os que viviam no lado russo sofreram menos com os ataques. A derrota final na Primeira Guerra, em 1918, depôs o governo dos Jovens Turcos e desmantelou o Império Otomano. O Estado armênio seria reconhecido pela Turquia. Mas as matanças ainda se repetiriam até os primeiros anos da década de 20.

O governo turco tem dificuldade em admitir publicamente que houve, em 1915, um genocídio planejado e conduzido oficialmente, semelhante ao Holocausto que foi promovido pelo governo nazista alemão contra os judeus na Segunda Guerra. Entre os argumentos oficiais está o de que o êxodo e a morte de centenas de milhares de armênios seria um efeito colateral das batalhas e da divisão europeia na Primeira Guerra. Os defensores de que de fato houve um genocídio liderado pelo governo do Império Otomano alegam, e divulgam, o conteúdo de comunicação do governo instruindo sobre como deveria ser feita a eliminação dos armênios.

Em seu História da Armênia, Aharon Sapsezian cita o livro Memórias, escrito pelo jornalista armênio Naim Bey, que, segundo Sapsezian, era o responsável por receber em Alepo seus compatriotas refugiados. O jornalista reproduz em seu livro, publicado em 1920, documentos oficiais que teriam sido enviados pelo ministro do Interior, Talaat Pasha, ao prefeito de Alepo. Um deles: “O governo decidiu exterminar os armênios habitantes na Turquia. Aqueles que se opuserem a essa ordem e decisão não poderão integrar o quadro governamental. Sem nenhuma consideração, nem mesmo pelas crianças, mulheres ou pelos enfermos, por mais trágicos que sejam os meios de exterminação utilizados, e sem se deixar levar pelos apelos da consciência, é preciso pôr termo à sua existência”.

Linha do tempo

Violência começou no século 19 manifestação pacífica foi estopim para 25 anos de perseguições e matanças

1895
30 DE SETEMBRO
Manifestação em Constantinopla contra o governo termina em violência. Dezenas de armênios são mortos pela polícia. Ataques se estendem e milhares de armênios morrem pelo país.

1896
Incitados pelo governo, curdos e soldados do Exército turco atacam e saqueiam aldeias na Armênia. Mais de 20 mil mortos pelas armas ou pela fome. Em Constantinopla, atualmente Instambul, os armênios trucidados chegam a 6 mil.

1908
24 DE JULHO
Um grupo de reformadores nacionalistas, autodenominado “Os Jovens Turcos”, chega ao poder anunciando a intenção de “turquizar” o país, senha para subjugar as minorias do Império Otomano que lutam por independência.

1909
6 DE ABRIL
Uma briga de rua entre turcos e um armênio em Adana, cidade da região da Cilícia (enclave armênio no litoral turco no Mediterrâneo) transforma-se em dez dias de
carnificina e saques, matando 30 mil, quase todos armênios.

1914
28 DE OUTUBRO
O Império Otomano bombardeia portos russos no Mar Negro e entra na Primeira Guerra. Armênios que viviam na Rússia se voltam contra os otomanos.

11 DE NOVEMBRO
Autoridades religiosas islâmicas decretam uma jihad contra Inglaterra, França e Rússia. Os armênios, cristãos, vistos como aliados dos russos, são perseguidos.
A vila de Otsni é atacada. Um padre e um grupo de armênios são os primeiros mortos na jihad.

1915
JANEIRO
O governo turco determina que todos os soldados e policiais armênios a seu serviço sejam desarmados.

31 DE MARÇO
Começam as deportações. O primeiro grupo de armênios é obrigado a deixar a cidade de Zeitun e caminhar através do Deserto de Konia até Der-el-Zor, na Síria.

17 DE ABRIL
Forças turcas e curdas cercam a cidade de Van, fortaleza medieval e bastião armênio na Anatólia, que se recusa a enviar 4 mil voluntários para lutar pela Turquia – há o temor de que serão mortos. Estima-se que 50 mil armênios morreram nos combates que se seguiram.

24 DE ABRIL
Um grupo de 250 intelectuais e líderes armênios é preso pelo governo em Constantinopla. São levados para campos de prisioneiros no deserto e executados. A data é lembrada pelos armênios como o marco inicial do genocídio.

6 DE MAIO
Uma nova lei determina que refugiados turcos ficarão com as propriedades dos armênios expulsos.

12 DE MAIO
Doze mil soldados armênios são massacrados pelo próprio Exército turco a que serviam, em um vilarejo próximo de Diarbekir.

27 DE MAIO
É promulgada a Lei Temporária de Deportações de “Pessoas Suspeitas”. Os governantes re gionais e a polícia são encarregados da limpeza étnica, que atinge os armênios indiscriminadamente. O genocídio se aprofunda.

6 DE MAIO
O Exército russo invade a Anatólia, socorrendo os armênios, mas fica só até 4 de agosto, deixando a defesa de Van mais uma vez para a população local.

15 DE JUNHO
Em praça pública, 21 líderes do partido armênio Hnchukyan são enforcados em Constantinopla.

15 DE SETEMBRO
Após meses de deportações em massa em toda a Turquia, o ministro do Interior, paxá Talaat, envia telegrama a Alepo determinando a remoção e eliminação dos
armênios locais.

1916
6 DE JULHO
Forças russas ocupam novamente a Anatólia, lutando ao lado dos armênios e rechaçando as tropas otomanas. No entanto, a maioria da população local já foi morta ou deportada a essa altura.

1918
3 DE MARÇO
Pelo Tratado de Brest-Litovsk, que decreta a paz entre os dois países, a Rússia aceita que a Armênia continue parte da Turquia em troca da proteção da população local.

12 DE MARÇO
Paxá Enver, ministro da Guerra do Império Otomano e um dos instigadores do genocídio, ordena o assassinato em 48 horas de todos os civis armênios com mais de 5 anos de idade.

5 DE ABRIL
A Turquia reocupa Van, que vinha sendo cogitada para fazer parte de uma futura Armênia nas negociações após a Primeira Guerra Mundial. Os armênios “pacíficos” são autorizados a voltar à Anatólia.

26 DE JUNHO
O governo turco condena, de uma vez, 16 mil armênios a trabalhos forçados. Os massacres de milhares de pessoas a cada vez continuam.

26 DE OUTUBRO
Tropas aliadas ocupam a cidade de Alepo, salvando 125 mil armênios de morrerem de fome no deserto. Mas 30 mil armênios são mortos na cidade de Baku.

30 DE OUTUBRO
O Império Otomano se rende aos Aliados. Os três paxás que planejaram o massacre armênio fogem do país. O Parlamento turco cobra uma investigação pelos crimes de guerra.

1919
1° DE FEVEREIRO
Corte Marcial é instalada em Constantinopla para julgar crimes contra as minorias do país. Autoridades e chefes militares são enforcados em público ou se suicidam.

1920
5 DE FEVEREIRO
As matanças em massa retornam. Dez mil armênios são mortos em Marash.

10 DE AGOSTO
A Turquia reconhece, temporariamente, a Armênia como país independente.

1921
18 DE JANEIRO
O governo cancela a Corte Marcial. Vários responsáveis pelos massacres são liberados ou voltam ao país após o exílio.

1922
9 DE SETEMBRO
Em meio à guerra entre Grécia e Turquia, Smyrna, na Anatólia, a milhares de quilômetros, é atacada pelo Exército turco. Armênios e gregos são chacinados e suas casas, saqueadas e incendiadas.

1923
24 DE JULHO
No Tratado de Lausanne, que reconhece a sua independência, a Turquia se compromete a proteger suas minorias, mas a Armênia turca continua sob a posse do país. É o fim oficial da perseguição.

1984
15 DE ABRIL
O Tribunal Permanente dos Povos decide que o governo turco é responsável pelo genocídio de dois terços dos 2 milhões de armênios que viviam no país, nos massacres
de 1915.

1987
18 DE JUNHO
O Parlamento Europeu, em uma decisão histórica, exorta o governo turco a reconhecer o genocídio perpetrado contra os armênios.


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