domingo, 23 de abril de 2017

Lua vermelha: O programa lunar ultrassecreto dos soviéticos

Salvador Nogueira


Milhões de pessoas acompanham pela televisão. Uma imagem embaçada mostra um homem em traje espacial, prestes a descer o último degrau de uma escada. Em meio aos chuviscos em preto-e-branco, caracteres indicam que se trata de uma transmissão ao vivo da superfície da Lua. O sujeito desce o último degrau e imprime a primeira pegada humana naquele corpo celeste. Suas palavras ficam eternizadas: “Odin malen’kii shag dlya cheloveka, gigantskii pryzhok dlya chelovechestva”. Naquele ano, 1968, o cosmonauta soviético Alexei Leonov se tornava, finalmente, o primeiro homem a caminhar sobre a Lua.

Tanto faz se a cena elevou seu espírito ou fez torcer seu estômago, por pouco ela não foi fictícia. Veja como os soviéticos chutaram para a Lua e bateram na trave.

Acobertamento

A frase no primeiro parágrafo é a versão em russo para a célebre “um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade”, dita no bom e velho inglês pelo norte-americano Neil Armstrong, em 20 de julho de 1969. Pouca gente sabe o quão perto ela chegou a ser dita. Pouca gente mesmo. Pois até o fim da União Soviética, os esforços – e os fracassos – dos russos para colocar um homem na Lua antes dos americanos permaneceram como um dos maiores segredos da Guerra Fria.

Para todos os efeitos, os soviéticos não estavam nem aí para pousar na Lua e diziam que isso não serviria para quase nada, cientificamente falando. Pura balela. O acesso aos arquivos do programa espacial soviético, depois da queda, confirmou uma antiga desconfiança dos historiadores de que o governo comunista não só tentou fazer o primeiro pouso na Lua, como falhou feio. 

“Havia algumas pistas de que esse programa estava sendo preparado”, lembra Alexander Sukhanov, físico do Instituto de Pesquisas Espaciais da Rússia, o IKI. “Por exemplo, eu me lembro de uma entrevista com cosmonautas soviéticos no fim de 1965. Uma das perguntas era: ‘Astronautas americanos pousarão na Lua no ano de 196x. Quando os cosmonautas soviéticos irão pousar?’. E Alexei Leonov respondeu: ‘No ano de 196x menos 1’”. Foi aplaudido de pé. O cosmonauta Leonov havia se tornado um dos principais nomes da história do programa espacial soviético quando, em 18 de março daquele ano, deixou sua nave, a Voskhod, e se tornou o primeiro homem a “caminhar” no espaço.

Mas o que na época pareceu pura fanfarronice de Leonov pode mesmo ter sido uma indiscrição do herói soviético, já que, em 1965, o programa soviético para colocar um homem na Lua estava em andamento. E era secretíssimo. O engenheiro aeroespacial Sergei Korolev, a maior figura dos bastidores do programa espacial russo, trabalhava pessoalmente, desde 1963, num desenho de nave espacial que servisse para uma visita à Lua. Korolev liderara um grupo de cientistas e assistentes num escritório supersecreto identificado apenas pelo código OKB-1. Ali, ele criou o míssil R-7, que serviu como lançador para os pioneiros satélites artificiais soviéticos (os primeiros do mundo), a começar pelo Sputnik-1, em 1957. O R-7 foi mais tarde adaptado para colocar em órbita espaçonaves tripuladas, como a Vostok (que levou Yuri Gagarin a se tornar o primeiro a entrar em órbita da Terra, em abril de 1961) e a Voskhod (de Alexei Leonov). Em 1964, Korolev trabalhava no projeto do veículo tripulado Soyuz – que até hoje está em operação, servindo à Estação Espacial Internacional.

Em 3 de agosto daquele ano, o Partido Comunista oficializou a criação do programa conhecido simplesmente como N-1/L-3. Desmembrando as siglas: “O N-1 referia-se ao plano para a construção de grandes foguetes para colocação em órbita de objetos e naves maiores”, explica o ex-cosmonauta Anatoly Berezovoy, que passou 211 dias no espaço no início dos anos 1980, como comandante da estação russa Salyut-7. “Com a designação L existiam os modelos L-1, L-2 e L-3. O L-1 era uma nave tripulada que apenas contornaria a Lua, enquanto os artefatos da série L-2 e L-3 seriam usados para colocar nossos cosmonautas na Lua.”

Espaçonave L1


As espaçonaves do tipo L-1 eram versões ligeiramente encolhidas da Soyuz, que podiam ser lançadas com os foguetes já disponíveis na União Soviética em 1964, como o Proton. Mas as naves L-2 e L-3 precisariam esperar pelo desenvolvimento do gigante N-1. A L-2 era uma espécie de Soyuz vitaminada, capaz de transportar dois cosmonautas até a órbita lunar, fazendo as vezes da cápsula Apollo americana. O L-3 era um módulo de pouso com capacidade para apenas um cosmonauta, que teria de descer sozinho até a Lua. Os planos previam os primeiros vôos-teste para 1966 e as missões reais seriam conduzidas entre 1967 e 1968.


Módulo de Descida LK 


Hoje, até os especialistas russos concordam que o plano soviético era cheio de falhas e muito arriscado. “A arquitetura da L-2 era mais frágil que a do rival americano. Comparado com o Apollo, aquele não era um bom programa”, afirma Sukhanov. “O lançador N-1 era menos poderoso que o Saturn V e só podia lançar cerca de 90 toneladas em órbita terrestre baixa. Portanto, a espaçonave lunar teria de ser menor e mais leve que a americana, o que tornaria a descida arriscada demais.” Mas até 1965 ninguém – dentro ou fora da União Soviética – pensava assim. A idéia por trás do programa era apenas chegar lá primeiro, não chegar lá melhor, então qualquer esforço – e risco – estava valendo. Afinal, os soviéticos permaneciam invictos na corrida espacial, não tendo perdido um único marco importante para os americanos.


Comparação entre o Saturno V e o foguete N-1

Desastre

No fim de 1965, porém, Sergei Korolev teve diagnosticado um câncer de cólon, foi internado, tratado e operado. Em janeiro de 1966, ele morreu sem ver um único teste de suas criações. Só em 23 de abril de 1967 partiu ao espaço a nave Soyuz-1, com Vladimir Komarov a bordo. A ideia era testar a operacionalidade do veículo na órbita terrestre. Após 18 voltas de um voo cheio de problemas, Komarov teve de dirigir o veículo manualmente de volta à atmosfera. Os pára-quedas da nave não se abriram e o cosmonauta se espatifou no chão. Era a primeira morte do programa soviético, e a partir dela ficou decidido que as naves teriam testes extensos sem tripulação antes que pudessem ser habilitadas a transportar humanos.

O programa do foguete N-1 continuava em desenvolvimento, mas os avanços eram lentos. Já o L-1 estava bem adiantado e em março de 1968 foi feito o primeiro teste com o veículo. O segundo, em 14 de setembro, ainda sem tripulação, conseguiu cumprir sua meta original e dar a volta ao redor da Lua, retornando em segurança.

Os americanos entenderam o recado e a Nasa tratou de redirecionar o lançamento da Apollo-8. Em dezembro daquele ano, naquela que era apenas sua segunda expedição, a espaçonave foi enviada em direção à Lua: era o terceiro lançamento do Saturn V e o primeiro com tripulação. Frank Borman, William Anders e James Lovell passaram 20 horas em órbita lunar e, na véspera do Natal, leram trechos da Bíblia ao vivo para o público que, pela televisão, acompanhava as inéditas fotos do “nascer da Terra”, visto da Lua.

A corrida para a Lua entrava em seu momento decisivo. No início de 1969, o gigante N-1 finalmente estava pronto para um vôo-teste. Às 9h18 da manhã do dia 21 de fevereiro, os supermotores foram ligados, com barulho ensurdecedor. O foguete se desprendeu da base e subiu, deixando atrás de si uma elipse de fumaça branca. O sonho durou 68,7 segundos, até que vibrações anômalas e um incêndio fizeram o comando abortar a missão e explodir o N-1, a 30 quilômetros de altitude. A falha ocorreu enquanto o foguete ainda estava acionando os motores de seu primeiro estágio. Ninguém saiu ferido. Uma segunda tentativa ainda seria conduzida em 3 de julho daquele ano, mas os resultados não foram muito diferentes. Depois de 50 segundos de vôo, o enorme N-1 ficou fora de controle e teve de ser destruído no ar.

Apenas 13 dias depois, partia do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, o Saturn V que impulsionaria a Apollo-11 até a Lua. Em 20 de julho, Neil Armstrong e Edwin Buzz Aldrin fincariam a bandeira americana na superfície lunar, marcando a definitiva virada dos Estados Unidos na corrida espacial.

Para baixo do tapete

O N-1 passou por mais dois vôos-teste, em 1971 e 1972, mas ambos também terminaram em falhas, todas no primeiro estágio. Depois do pouso de Armstrong, os soviéticos jamais voltaram sequer a falar em missões lunares tripuladas e passaram a negar, em todas as oportunidades, que tivessem algum programa para o desembarque de humanos na Lua. Mas as consecutivas falhas do N-1 ainda hoje são motivo de polêmica na Rússia. Muitos atribuem a culpa à morte de Korolev, que deixou todos os projetos espaciais tripulados à deriva, até que outros à sua altura conseguissem tomar as rédeas. Mas há quem diga que foi uma atitude de Korolev em vida que condenou o N-1.

Segundo Vladimir Kurt, pesquisador do IKI e veterano de projetos espaciais na Rússia, motores muito potentes para o primeiro estágio do N-1 chegaram a ser desenvolvidos pelo escritório de Valentin P. Glushko, outro grande engenheiro aeroespacial da época de ouro da União Soviética. “No entanto, as relações entre Glushko e Korolev eram muito ruins, sei lá por que razão, e Korolev decidiu usar outros motores, com um sexto da potência dos de Glushko, para o primeiro estágio do N-1”, diz Kurt.

Para compensar os motores mais fracos, foi preciso aglutinar 32 deles. Seu funcionamento simultâneo foi o que causou as vibrações que levaram ao fracasso dos quatro lançamentos do grande foguete soviético. O projeto foi encerrado em 1974, quando Glushko assumiu o comando do OKB-1.

A Leonov, que, se o cronograma soviético tivesse sido cumprido, teria sido o primeiro a pisar na Lua (seu principal concorrente, Yuri Gagarin, morreu em 1968), sobrou um irônico prêmio de consolação: ele acabaria sendo o único soviético a orbitar a Lua, a bordo de uma espaçonave Apollo, durante uma missão conjunta de soviéticos e americanos, em julho de 1975.

Corrida lunática 

Os soviéticos saíram na frente, mas os norte-americanos chegaram primeiro

4/10/1957

A União Soviética lança o Sputnik-1, primeiro satélite artificial. Menos de um mês depois, o Sputnik-2 leva ao espaço a cadela Laika

12/4/1961

A bordo da Vostok-1, Yuri Gagarin completa uma volta em torno da Terra, em 104 minutos, tornando-se o primeiro homem no espaço

3/8/1964

A URSS cria o projeto N-1/L-3, liderado por Sergei Korolev, com o objetivo de pousar na Lua

2/3/1968

Soviéticos lançam o primeiro veículo L-1, sem tripulação. A nave deveria dar a volta ao redor da Lua, mas falhou

14/9/1968

O segundo veículo L-1 é lançado, de novo sem tripulação. Desta vez a nave consegue concluir com sucesso uma volta em torno da Lua

21 a 27/12/1968

A Nasa inverte os objetivos das missões Apollo-8 e 9, para garantir que os americanos fossem os primeiros a circundar a Lua. O sucesso vem com a Apollo-8, em plena véspera de Natal

21/2/1969

A União Soviética promove o primeiro vôo-teste de seu foguete lunar, o N-1. O esforço termina em fracasso após 68,7 segundos

18/5/1969

Decola da Flórida a Apollo-10, missão que foi até a Lua e ensaiou um pouso lunar, chegando a estar a meros 14 km da superfíciedo satélite

3/7/1969

O segundo teste do N-1 também fracassa. Após pouco mais de 50 segundos de vôo, o foguete foi destruído no ar

20/7/1969

Após um lançamento bem-sucedido quatro dias antes, Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin se tornam os primeiros homens a caminhar na superfície lunar, com a missão Apollo-11. A disputa pela primazia estava encerrada

27/6/1971

Novo teste do N-1: fracasso no primeiro estágio

23/11/1972

Quarto e último vôo-teste do N-1: nova falha

11/12/1972

Os americanos pousam na Lua pela última vez, a bordo da Apollo-17

1974

Soviéticos desistem do N-1/L-3 e passam a negar que o programa de desembarque lunar tenha existido


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quinta-feira, 20 de abril de 2017

[POL] Hitler, o populista: Como ele comprou os alemães

Arthur Felipe Artero



Sempre foi uma história meio mal contada, mas até hoje a maioria dos historiadores preferiu inocentar o povo alemão em geral dos horrores propiciados pelo Estado nazista antes e, sobretudo, durante a Segunda Guerra Mundial. A culpa, dizem eles, teria sido do imenso aparato de propaganda alimentado por Adolf Hitler, a rudeza dos oficiais da SS (a polícia de elite alemã) e os benefícios concedidos a uma minoria das classes mais altas daquela sociedade, ainda traumatizada pela derrota e pela crise subseqüente à Primeira Grande Guerra. A classe média alemã, eles sugerem, estaria isenta de grandes responsabilidades pelas atrocidades – ou mesmo de ter conhecimento do que se passava.

Alemães fizeram uma escolha em interesse próprio

"Não", diz o historiador alemão Götz Aly, da Universidade de Viena e membro-convidado do Instituto Yad-Vashem, dedicado às vítimas do Holocausto. Para ele, Hitler conseguiu cooptar a população alemã não com seus discursos manipuladores ou com a defesa do ódio racial, mas oferecendo benefícios sem precedentes aos seus súditos mais pobres. A tese é polêmica porque compartilha de forma mais “democrática” a culpa pelos horrores perpetrados pelo governo alemão, e está reunida em O Estado Popular de Hitler: Como o Nazismo Conquistou a Alemanha

Ele resume assim seu objetivo: “Quero fazer uma pergunta simples que nunca foi realmente respondida: como pôde ter acontecido? Como os alemães permitiram e cometeram crimes de massa sem precedentes, particularmente o genocídio dos judeus europeus?”. Sua resposta, nada confortável, é que isso aconteceu porque a grande maioria do povo alemão foi beneficiada pela matança e, por essa razão, permaneceu omissa aos crescentes horrores do regime de Hitler. 

Isso vai de encontro à versão mainstream de que, com a derrocada do nazismo, os próprios alemães estavam se sentiram libertados das mãos de um ditador sanguinário e elitista. Uma resposta muito conveniente aos britânicos, americanos, cujas atrocidades são apagadas numa aura de heroísmo, e os próprios alemães, que se livram da culpa de terem um dia amado a Hitler. “Considero o regime nazista uma ditadura a serviço do povo”, diz Aly. O período de guerra, que mostra claramente as outras características do nazismo, fornece a melhor resposta à questão. “Hitler, os líderes regionais de seu partido, o NSDAP, seus ministros, secretários de Estado e consultores cumpriam o papel de demagogos tradicionais, constantemente se perguntando como melhor garantir e consolidar a satisfação geral e comprando diariamente a aprovação pública ou, ao menos, sua indiferença.”

Os documentos revelam que, durante seu governo, Hitler jamais aumentou os impostos cobrados dos trabalhadores. “Para reforçar a ilusão de que os benefícios estavam garantidos e provavelmente iriam aumentar, Hitler fez com que a comunidade rural, os trabalhadores braçais e os servidores civis de classe baixa ou média não fossem significativamente afetados pelos impostos da guerra. A situação no Reino Unido e nos Estados Unidos era bem diferente. Isentar a maioria dos contribuintes alemães significava aumentar a carga tributária das parcelas da sociedade que tinham grande receita.”

Dinheiro sujo

Mas a Segunda Guerra Mundial foi o conflito mais caro jamais levado a cabo em toda a história. Simplesmente aumentar os impostos sobre os alemães ricos não seria suficiente para conservar o bom estado do Exército alemão. Então, de onde saiu o dinheiro para que o Reich mantivesse sua sede de sangue? A única maneira de manter a máquina de guerra alemã lubrificada e sustentar os benefícios sociais oferecidos sobretudo aos “arianos” mais pobres, segundo Aly, era saquear e explorar de forma predatória os recursos dos “inimigos”. Começou com o confisco de bens dos judeus na Alemanha, depois passou à exploração de seu trabalho em regime de escravidão e prosseguiu com a pilhagem dos países invadidos durante todo o período que a guerra abrangeu.

Vasculhando arquivos secretos nazistas, Aly descobriu que os alimentos e suprimentos roubados pelos alemães da União Soviética entre 1941 e 1943 poderiam sustentar 21 milhões de pessoas. Os prisioneiros de guerra soviéticos, nesse meio tempo, morriam de inanição. Ainda segundo Aly, os soldados alemães eram encorajados a enviar regalos para suas famílias, para conquistar mais apoio ao regime. De janeiro a março de 1943, os soldados alemães alocados na frente de batalha em Leningrado (hoje São Petersburgo) enviaram uma soma de mais de 3 milhões de pacotes recheados de obras de arte, objetos de valor e alimentos.

Hitler também usou estratégias mais baratas e popularescas para manter sua população feliz com o governo. Por exemplo, aumentou o número de feriados de forma significativa no país. Resultado: de uma forma ou outra, cerca de 95% da população alemã se beneficiou financeiramente com o sistema nacional-socialista. Por esse motivo, diz friamente, Aly, ficou um tanto mais fácil para os alemães “não olharem” enquanto os judeus eram sistematicamente assassinados em câmaras de gás e 2 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morriam de fome nas mãos dos alemães.

Essa tese também ajudaria a explicar por que Hitler manteve os esforços de guerra em múltiplas frentes, todas ao mesmo tempo e em condições adversas – o sistema de manutenção das condições de vida do povo alemão acabou por se tornar refém das pilhagens e dos avanços sistemáticos do Exército. “Foi por isso que Hitler não pôde parar e se vangloriar confortavelmente em seu papel vitorioso depois da rendição da França, em 1940”, diz Aly. Parar por ali teria levado o Reich à falência, depois dos esforços para impedir a redução da qualidade de vida dos alemães e a desvalorização da moeda. “Dar e receber era a base na qual eles fundaram uma ditadura endossada pela maioria.”

Alto lá!

A tese de Aly não convence todos os acadêmicos. O historiador e economista J. Adam Tooze, da Universidade de Cambridge, disse que seus cálculos não fechavam. “Se Aly pudesse provar que a injeção financeira do exterior realmente tornou possível a redistribuição dos custos de guerra, então sua tese seria muito convincente. Pelo menos três gerações de economistas trabalharam nessa questão. Mas Aly faz as contas a seu próprio modo”, diz Tooze, antes de concluir: “Descrever a sociedade da Alemanha nazista como uma ditadura da complacência é não entender o que realmente importa”.

Aly, por sua vez, sustenta que sua metodologia de cálculo é sólida, embora admita que ainda haja “buracos” a serem preenchidos por mais pesquisa “Meu livro contém um grande número de descrições curtas e rascunhos, e estou certo de que essas questões que proponho serão investigadas por meus colegas", diz. Ele deixa claro que, entre os alemães, não havia uma admiração unânime pelo regime nazista. Ao contrário, muitos eram críticos. Mas suas objeções, afogadas pela maré de apoio ao populista, não foram suficientes para criar um verdadeiro movimento de resistência ao Reich dentro do país. Hitler não só conseguiu ascender ao poder democraticamente, mas também estabelecer uma ditadura capaz de “comprar” o apoio ou, pelo menos, o silêncio do povo alemão, diante de tantas barbaridades e atrocidades.

Como o Führer paparicava a tropa

 

Uma das estratégias mais usadas por Hitler para manter seus soldados concentrados e motivados para a guerra foi oferecer grandes benefícios para eles e para suas famílias. Segundo o levantamento de Götz Aly, as famílias dos membros das tropas mobilizadas recebiam cerca de 85% da renda dada aos combatentes antes da guerra. Em países aliados, como Reino Unido e Estados Unidos, esse valor não chegava nem a 50%. Em muitos casos, as mulheres e as famílias dos soldados alemães passaram a ter mais dinheiro depois do início da guerra do que tinham em época de paz, e elas também foram beneficiadas pelas copiosas quantidades de “presentes” que os soldados traziam de volta em suas licenças ou que chegavam dos países ocupados pelo correio militar. Enquanto as pilhagens e os campos de trabalhos forçados custeavam parte significativa do gasto de guerra alemão, aos países aliados contra o Eixo (Alemanha-Itália-Japão) só restava buscar os recursos por meio de aumento de impostos sobre suas próprias populações. Isso exigiu extrema habilidade política de líderes como o primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Em 1940, após a rendição da vizinha França, o líder do Reino Unido discursou para seus cidadãos, instruindo-os a “se preparar para nossos deveres”, de modo que em mil anos os homens ainda digam: “Este foi o nosso melhor momento”.


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sexta-feira, 14 de abril de 2017

A lança era a lei: Vida e morte dos cavaleiros

Natalia Yudenitsch


Para um cavaleiro medieval, perder um cavalo significava desespero. Além do alto custo de adquirir um novo animal de boa linhagem com todos os equipamentos necessários, a cavalaria era, por volta do século 12, intimamente associada à nobreza - ou seja, lutar a pé era uma evidente perda de status.

Por isso, compreende-se o apelo angustiado do rei inglês Ricardo III: “Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo!”, ele repetia, ao perder sua montaria durante a Batalha de Bosworth, em 1485 - e a fala está na peça Ricardo III do dramaturgo inglês William Shakespeare. Dá uma boa ideia do que representavam o cavaleiro e a montaria na Idade Média. Eram fundamentais nos combates. Alguns viraram lendas pelas atuações nas batalhas e nos torneios de cavaleiros, outros foram idealizados em contos, livros e peças como a de Shakespeare. "Não é à toa que os cavalos recebiam um tratamento muitas vezes superior ao despendido aos soldados. A perda do cavalo em combate podia custar a vida de seu cavaleiro, já que suas armaduras eram mais leves do que as dos soldados desmontados, resistindo bem menos a flechas e golpes de espada”, diz o professor Wolfgang Henzler, especialista em história e armas medievais da Universidade de Freiburg, na Alemanha.

A formação

A conexão do futuro cavaleiro, sempre de linhagem nobre e muitas vezes com sangue real, com a prática começava cedo. Ao 7 anos, o garoto era iniciado em sua formação como pajem. Aos 12, passava a servir seu senhor feudal, quando recebia instrução militar e subia ao posto de escudeiro. Era com esse status que partia com seu suserano para assistir a suas primeiras batalhas reais e aprendia o manejo da lança e da espada. Se sobrevivesse à experiência, provasse seu valor e tivesse dinheiro suficiente para arcar com os custos, entre os 18 e 20 anos ele era armado cavaleiro num ritual que marcava a passagem da adolescência para a idade adulta.

O ritual de sagração de cavaleiro dava a medida da importância do título. Implicava em mostrar sua virilidade em combates simulados durante uma festa – às vezes até em presença do rei –, na observação do jejum e em uma noite de vigília das armas, seguida da comunhão, que incluía a bênção da espada do aspirante. O rapaz fazia então seu juramento, prometendo seguir os códigos de lealdade e honra. De acordo com Henzler, "ele recebia um tapa no rosto ou um golpe no ombro ou na nuca do seu senhor, que finalmente dizia: `Eu te faço cavaleiro em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, de São Miguel e de São Jorge. Sê valente, destemido e leal´. E dali saía montado em seu cavalo".

No campo de batalha, as formações da cavalaria começavam com as lanças. Funcionava assim: cada lança trazia uma fileira com o cavaleiro, seu escudeiro, um pajem e dois arqueiros ou besteiros. Cerca de seis lanças se configuravam como uma bandeira, que por sua vez constituíam uma companhia de homens de armas. 

Era uma tática absolutamente brutal: a carga transmitia toda a força do cavalo a um frágil corpo humano, concentrada em uma ponta. Quem era atingido diretamente não tinha nenhuma chance de sobreviver, mas não parava por aí: a isso se seguia o próprio cavalo, treinado para atropelar humanos, em meio a uma formação de infantaria. Diante disso, os inimigos perdiam a formação e, em pânico, tentavam salvar suas vidas. Às vezes, só a visão da cavalaria já os fazia se dispersarem. 

Quanto à lança em si, raramente sobrevivia ao ataque. O cavaleiro então sacava sua espada ou maça e continuava a atacar montado, ou recuava e pegava outra lança para outra carga. 

Fim do domínio

No século 12, na era das cruzadas, a cavalaria ganhou um aspecto mais religioso, especialmente com o surgimento das ordens militares – como as de hospitalários e templários. O cavaleiro passou a ser defensor contra hereges e infiéis. “Durante a Guerra dos Cem Anos, ao mesmo tempo em que chegava ao auge no imaginário popular, ele viu sua importância militar perder força. Primeiro por causa da melhoria das armas, como o arco longo, e depois com a chegada das armas de fogo”, afirma  Jill Diana Harries, professora de história antiga da Universidade de St. Andrews, na Escócia. A infantaria também foi se tornando mais profissional e organizada. Com longas lanças, os piques, uma unidade disciplinada era capaz de evitar uma carga - os cavalos nem tentavam avançar contra uma paliçada de piques. 

Com o tempo, os próprios cavaleiros passaram a desmontar e lutar como infantaria - com suas armaduras, é claro, que os diferenciava de meros plebeus também no solo. O auge da armadura aconteceu nos séculos 15 e 16, quando já havia armas de fogo - e elas eram feitas para resistir a tiros imprecisos, em ângulo ou de longa distância. Quando as armas de fogo se tornaram potentes demais para que uma armadura de corpo inteiro pudesse ser feita com um peso viável, elas finalmente tornaram-se meras couraças, e depois abandonadas completamente, ao longo do século 16.

Nesse processo, o cavaleiro em armadura brilhante era cada dia mais uma realidade reservada aos torneios do que às batalhas reais. Esse eventos, como definiu no século 12 o historiador medieval inglês Roger of Hoveden, eram “um exercício militar sem o espírito de hostilidade”. Muito populares na Europa, tinham regras simples: cada cavaleiro levava três armas – uma espada, uma lança e um rondel (um tipo de adaga medindo entre 30 e 50 cm) – e o vencedor era o que conseguisse derrubar o oponente do cavalo com a lança. Se ambos caíssem, dava empate - resolvido em um duelo no solo, até que sobrasse apenas um homem em pé. Num por prazer, para a diversão da plateia, usavam-se armas com pontas rombudas - não era o plano matar ninguém, mas a violência do impacto era a mesma de um campo de batalha, e acidentes eram frequentes. 

Cavaleiro acabaria por se tornar um mero título honorífico. Com soldados plebeus, a cavalaria seria usada como uma força auxiliar, atacando partes vulneráveis da formação inimiga com sabres, não mais lanças. Isso perduraria até a Primeira Guerra, quando metralhadoras finalmente silenciaram o som das ferraduras contra o solo.

Histórias de cavaleiro

Os romances cavalaria, aventuras que exaltavam a defesa dos fracos e oprimidos e que vinham sempre recheadas de aventuras e histórias de amor, fizeram a fama do cavaleiro medieval que persiste até hoje. Com uma concepção de amor mais realista do que a literatura cortês, os contos de cavalaria foram também usados como um instrumento de doutrina da Igreja, que incentivava a ideia da busca pelo Graal sagrado, cálice que teria contido o sangue de Cristo após a crucificação – como a descrita nas várias narrativas do ciclo arturiano sobre a saga dos Cavaleiros da Távola Redonda. Em seu ápice heroico, estão as visões de cavaleiros baseadas na lenda de Tristão e Isolda, como a do alemão Gottfried von Strassburg, e o romance Lancelot, de Chrétien de Troyes, escrito no século 12. O crepúsculo da cavalaria, porém, não deixou de ser registrado pelas letras. Don Quixote de La Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes, retrata com uma pontinha nostálgica o que restara do cavaleiro andante na entrada do século 17: uma figura patética e anacrônica, que perseguia moinhos acreditando serem esses gigantes - ainda que com certa dignidade. 


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