quinta-feira, 18 de maio de 2017

Acre: A derrota final das cruzadas

Natalia Yudenitsch



No fim de 1290, a situação no porto mediterrâneo de São João de Acre, hoje a cidade israelense conhecida como Akko, estava para lá de tensa. Baybars, um sultão mameluco do Egito, já havia reduzido o reino de Jerusalém, o mais importante estado cristão estabelecido pelos cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre em 1268. 

A paz era precariamente mantida pelos esforços do rei Eduardo I da Inglaterra, apoiado pelo papa Nicolau IV. Só foi preciso que um grupo de soldados italianos se metesse numa encrenca com camponeses muçulmanos para que o delicado equilíbrio que mantinha a região sob controle fosse pelos ares. Os italianos católicos encerraram a pendenga degolando os islâmicos e eliminando na mesma leva outro tanto de sírios cristãos. 

Quando a história da matança chegou aos ouvidos do sultão egípcio al-Ashraf Jalil, ele imediatamente exigiu a cabeça dos assassinos. Pega em meio a uma disputa pela sucessão do trono de Jerusalém, Acre disse não ao sultanato. Em abril de 1291, a cidade acordou cercada por mais de 200 mil soldados muçulmanos. A cristandade correu em socorro de um de seus pontos mais estratégicos na Terra Santa. Cavaleiros hospitalários, teutônicos e templários, somados a tropas inglesas e italianas, partiram para defender o porto. Só que aí já era tarde demais. Em 18 de maio, as forças turcas e egípcias tomaram oficialmente a cidade. Caía o último bastião dos europeus e, com ele, o sonho que por anos alavancou as cruzadas para o Oriente. 

“Para entender a importância de Acre nesse período, é preciso voltar à sua época dourada, logo após sua tomada, em 1104, por um dos líderes da Primeira Cruzada, Balduíno de Boulogne, mais tarde coroado como o primeiro monarca do reino latino de Jerusalém”, diz Norman Edbury, professor de história medieval da universidade de Oklahoma, nos EUA. “A cidade era um dos mais importantes centros comerciais do mundo medieval, o maior porto da costa da Palestina. Acre era bastante próspera e civilizada, recebendo comerciantes italianos, bizantinos, africanos e egípcios. 

Sua localização geográfica, ao norte da baía de Haifa, a tornava um canal de comunicação entre o Oriente e o Ocidente e foi muito utilizada pelos cruzados entre os séculos 11 e 13.” Além de ser um centro econômico e político estratégico, Acre, como capital do reino de Jerusalém, tinha ainda um grande valor simbólico para três grandes religiões: a cristã, a judaica e a muçulmana. Sua população chegava a 25 mil habitantes – cerca de 10% de todo o reino. Somados todos os interesses, a cidade trocou de mãos várias vezes desde sua fundação, por volta de 1500 a.C., pelos cananeus, sendo ocupada por assírios, romanos, bizantinos, muçulmanos e cristãos.

Acre nas cruzadas

O período mais turbulento da vida do porto, contudo, foi durante as Cruzadas, quando foi batizado de São João de Acre. O primeiro revés ocorreu pelas mãos do sultão egípcio Saladino, em 1187, na Batalha de Hattin. Do lado cristão, as tropas do francês Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, e o príncipe da Galiléia Raimundo III de Trípoli. Ao todo, havia cerca de 60 mil homens, entre cavaleiros, soldados desmontados e mercenários muçulmanos. Já a dinastia aiúbida, representada por Saladino, contava com 70 mil guerreiros. Quando os cruzados montaram acampamento em um campo aberto, forçados a descansar após um dia de exaustivas batalhas, os homens de Saladino atearam fogo em volta dos inimigos, cortando seu acesso ao suprimento de água fresca. A cortina de fumaça tornou quase impossível para os cristãos se desviar da saraivada de flechas muçulmanas. 

Sedentos, muitos cruzados desertaram. Os que restaram foram trucidados pelo inimigo, já de posse do porto. “Em um de seus famosos momentos de clemência, Saladino poupou a vida de Guy, enquanto Raimundo escapou da batalha com sucesso. Com a cidade tomada, o sultão restaurou a fé islâmica e reforçou o sistema defensivo, formado por muralhas que envolviam o porto”, afirma John Hildebrand, professor de história medieval da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

O gesto magnânimo de Saladino, porém, custaria caro. Em 1189, Guy de Lusignan tentou reconquistar a cidade, num conflito que duraria anos e só seria resolvido com a chegada de um novo personagem: Ricardo Coração de Leão, o rei da Inglaterra. Foi ali, na Terceira Cruzada, em 1191, que o rei Ricardo fez sua fama de guerreiro e conquistou o título de Coeur de Lion (Coração de Leão, em francês) ao garantir a volta de Acre às mãos da cristandade. 

Apesar de inimigos e de nunca ter se encontrado, Saladino e Ricardo Coração de Leão se respeitavam. Trocaram presentes e honrarias, culminando num acordo que deixou Jerusalém em mãos muçulmanas. Isso transformou São João de Acre na grande capital dos Estados Latinos na Terra Santa. Seu porto recebeu peregrinos e guerreiros cruzados, como o rei Luís IX da França na Sétima Cruzada, em 1250. Seu retorno à Europa quatro anos depois e a posterior morte durante a Oitava Cruzada deixaram uma lacuna na sucessão do reino de Jerusalém. Sem proteção, a cidade de Acre foi enfraquecida por Baybars. Até que finalmente cedeu, em 1291, às investidas dos mamelucos egípcios. Depois disso, o porto conheceu a decadência, passando posteriormente para o domínio turco otomano e finalmente sendo anexado a Israel em 1948.

Linha do Tempo: A briga por Acre

• 1.500 a.C.  Fundação de Acre pelos cananeus
• 638 d.C. 
 Muçulmanos conquistam a cidade liderados pelo califa Omar I
• 1104 
Balduíno I toma Acre na Primeira Cruzada, e cria o Reino Latino de Jerusalém
• 1148 
 A Haute Cour se reúne em Acre e decide assalto a Damasco
• 1187 
 O sultão Saladino toma posse de Acre, na Batalha de Hattin
• 1189 
 Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, tenta retomar Acre
• 1191 
 Ricardo recupera Acre, agora a capital do Reino de Jerusalém
• 1229 
 A Ordem dos Hospitalários ocupa e assume a proteção de Acre
• 1244 
 A cidade de Jerusalém é tomada pelos cristãos
• 1250 
 Luís IX da França se estabelece na cidade na Sétima Cruzada
• 1268 
 O sultão Baybars reduz Jerusalém a um pedaço do litoral palestino
• 1291 
 A queda de Acre pelos mamelucos egípcios põe fim aos Estados Latinos na Terra Santa.
• 1517 
 Otomanos tomam a cidade sob o comando do sultão Selim I
• 1840 
 Acre é bombardeada pelas tropas aliadas britânicas, austríacas e francesas
• 1948 
 Acre passa a fazer parte do recém-formado Estado de Israel

Glossário

• Mamelucos  Soldados escravos utilizados pelos califas do Império Otomano
• Califas 
 Líder da ummah (comunidade islâmica) a partir de 632
• Sultão 
 Título do monarca muçulmano adotado pelos otomanos a partir de 1055
• Cruzados 
 Cavaleiros cristãos da Idade Média, participantes das Cruzadas
• Haute Cour 
 Alto Conselho feudal do reino de Jerusalém
• Estados cruzados 
 Como eram chamadas as unidades políticas dos territórios conquistados pelos cruzados (os quatro Estados Latinos no Oriente eram Jerusalém, Edessa, Antióquia e Trípoli)
• Krak 
 Forte, fortificação, em árabe
• Terra Santa 
 Refere-se aos territórios da Palestina e de Israel
• Aiúbidas 
Integrantes de uma dinastia muçulmana de origem curda fundada por Saladino


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quarta-feira, 17 de maio de 2017

[POL] Aliança com Pio 11 solidificou fascismo

Reinaldo José Lopes



A simbiose entre o regime fascista de Benito Mussolini (1883-1945) e o papado foi crucial para que o ditador consolidasse seu domínio da Itália a partir dos anos 1920, afirma o historiador americano David Kertzer, da Universidade Brown.

O livro de Kertzer sobre o tema, que acaba de chegar ao Brasil, usa uma massa impressionante de documentos para mostrar que a Igreja Católica aceitou até mesmo as leis antissemitas propostas por Mussolini quando ele se aproximou do nazismo, ainda que protestasse contra detalhes da legislação.

"O Papa e Mussolini", obra que venceu o Prêmio Pulitzer de Biografia em 2015, narra as vidas paralelas de Achille Ratti, o papa Pio 11 (1857-1939), e do líder fascista, além de traçar perfis dos principais assessores de ambos, muitos dos quais ajudaram a costurar uma espécie de aliança tácita entre o Vaticano e o fascismo no período entre as duas guerras mundiais.

Em entrevista à Folha, Kertzer contou que a decisão de escrever o livro veio em 2002, quando o papa de então, João Paulo 2º, anunciou que permitiria a consulta dos arquivos da Santa Sé que datavam do pontificado de Pio 11. "Entre esse anúncio e a abertura dos arquivos, quatro anos se passaram. Enquanto esperava, consultei os documentos do governo italiano sobre o período e também estudei os arquivos centrais dos jesuítas, os quais foram muito importantes para as relações entre o Vaticano e o fascismo. Meu livro, portanto, é um dos primeiros a analisar esse período", explica.

Contraste

À primeira vista, seria difícil imaginar uma aliança entre sujeitos mais diferentes do que Mussolini e Achille Ratti. Nascido numa família de classe média baixa profundamente anticlerical, o futuro duce ("líder", como Mussolini passaria a ser chamado) começou sua carreira política como um agitador esquerdista radical. Dizia desprezar o cristianismo e só foi batizado, junto com a mulher e os filhos, após se tornar primeiro-ministro.

O futuro papa, por outro lado, tivera uma infância confortável e devota. Após receber a ordenação sacerdotal, tornou-se especialista em paleografia (o estudo da "letra" dos manuscritos antigos), além de atuar como enviado do papa Bento 15 na Polônia.

Coincidentemente, ambos assumiram seus cargos máximos em 1922. Embora usasse capangas para intimidar ativistas do Partido Popular e da Ação Católica, principais órgãos de ativismo político do catolicismo, Mussolini passou a oferecer à igreja a perspectiva de uma aliança.

Promulgou leis que puniam insultos a sacerdotes e à fé católica, instituiu o ensino religioso obrigatório nas escolas primárias (mais tarde, também nas secundárias) e fez doações generosas para o reparo de igrejas.

Por meio dessas medidas, argumenta Kertzer, o fascista conseguiu atrair o interesse de Pio 11 justamente no ponto que mais irritava o papado desde o fim do século 18: a crescente separação entre igreja e Estado na Itália.

"Isso começou com a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, quando dois papas, Pio 6º e Pio 7º, chegaram a ser aprisionados por Napoleão", explica o historiador. Nessa época, os pontífices eram os soberanos de um pedaço considerável da região central da Itália, incluindo a própria Roma, enquanto o resto da península estava dividido em diversos Estados independentes.

Com a unificação italiana e a transformação de Roma em capital do novo reino, em 1871, os papas viraram "prisioneiros do Vaticano", sem Estado independente próprio e em briga constante com o governo secular da Itália.

Diante dos sinais de trégua emitidos por Mussolini, Pio 11 considerou que valia a pena apoiar cautelosamente o fascismo. Além disso, o papa não era um entusiasta do parlamentarismo italiano e preferia um governo forte. "Mussolini não é nenhum Napoleão, mas só ele compreendeu o que era preciso para livrar o país da anarquia a que fora reduzido", declarou o pontífice ao embaixador da Bélgica na Santa Sé em 1923. "Que ele reviva a Itália! São esses homens predestinados à grandeza que conseguem trazer a paz hoje ausente."

As negociações entre os emissários do papa e os do Duce culminaram com o Tratado de Latrão, assinado em 11 de fevereiro de 1929. O tratado criou o pequeno Estado do Vaticano, nos moldes que ainda tem hoje, e estipulou uma boa compensação pela perda de propriedades da igreja na Itália durante o processo de unificação.

Entre Tapas e Beijos

A relação entre os dois líderes passaria por altos e baixos depois disso. Mussolini não queria que as organizações fascistas enfrentassem a concorrência da Ação Católica na hora de atrair crianças e adolescentes para suas fileiras. Pio 11 bateu o pé, exigindo liberdade para o órgão. Em 1931, chegou a publicar uma encíclica em italiano, "Non Abbiamo Bisogno" ("Não Precisamos Disso"), que criticava o regime.

Conforme Mussolini foi se aproximando de Hitler ao longo dos anos 1930, o papa se mostrou cada vez mais desgostoso com o rumo tomado pelo fascismo, mas continuou se valendo de suas ligações com o regime para reprimir livros, filmes e comportamentos considerados ofensivos à igreja e para barrar o crescimento da pequena comunidade protestante da Itália.

Quando os fascistas decidiram copiar as leis nazistas sobre a "pureza da raça", proibindo o casamento entre judeus e "italianos arianos" e tirando direitos da população judaica, Pio 11 e seus emissários só foram incisivos ao exigir que os casamentos entre católicos e judeus convertidos ao catolicismo fossem reconhecidos como válidos.

As Ligações entre o Vaticano e o Ditador Fascista

Pio 11

Ambrogio Damiano Achille Ratti (1857-1939), estudioso de manuscritos antigos, tinha fama de autoritário. A menina de seus olhos era a Ação Católica, associação que buscava promover a influência cristã na sociedade.

Mussolini

Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883-1945) começou sua carreira como esquerdista violentamente contrário à Igreja Católica, mas se aproximou do Vaticano assim que obteve chances reais de assumir o governo.

Pacelli

Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli (1876-1958), futuro papa Pio 12, foi nomeado secretário de Estado por Pio 11 em 1930, após bem-sucedida carreira diplomática. Tinha boas relações com o regime fascista.

Venturi

Pietro Tacchi Venturi (1861-1956), jesuíta escolhido para atuar como intermediário extraoficial nas negociações entre Pio 11 e Benito Mussolini, tinha fortes crenças antissemitas.

VITTORIO EMANUELE 3º

Rei da Itália de 1900 a 1946, tímido e pouco popular, o monarca compartilhava do anticlericalismo de Mussolini, mas acabou abraçando a ideia de uma reaproximação com a hierarquia católica.


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domingo, 7 de maio de 2017

[POL] Hiroíto: Monstro ou marionete?

Cecília Selbach


Cansado dos bombardeios freqüentes, das mortes e da fome causadas pela Segunda Guerra, o povo japonês esperava o anúncio que o imperador faria pelo rádio. Apesar da tristeza e da exaustão, sobrava espaço para um certo frisson no ar. Naquele 15 de agosto de 1945, ao meio-dia, pela primeira vez o monarca iria falar diretamente a seus súditos. Até então, seus decretos eram sempre lidos por algum emissário. Em aparições públicas, ninguém estava autorizado a olhar diretamente para o soberano. Tocá-lo era proibido até mesmo para seus médicos e alfaiates. Ele era o deus vivo, descendente da deusa do Sol, Amaterasu.

Três anos e oito meses antes, o Japão declarara guerra aos Estados Unidos, com o ataque-surpresa a Pearl Harbor. Depois de alguns meses de vitórias japonesas, a situação se revertera. O Japão estava agora à mercê dos Estados Unidos, que haviam lançado, pela primeira e única vez, bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasáki. Nas ruas, as pessoas temiam que o imperador, sabendo da derrota inevitável, pedisse que todos se sacrificassem pela pátria. Afinal, na tradição do país, era preferível a morte à rendição. Acostumados a obedecer cegamente, grande parte dos súditos estava disposta a cometer o seppukku, o suicídio em nome da honra.

A transmissão imperial, porém, foi diferente. Foi preciso que os comentaristas da rádio explicassem o significado das palavras de Hiroíto, por causa de sua linguagem formal e arcaica. Mas, aos poucos, todos foram compreendendo a mensagem. Ele anunciava para os súditos o fim da guerra e dizia que concordara com o acordo proposto pelos países aliados. Sem mencionar as palavras rendição ou derrota, dizia que a guerra já causara muitas mortes e precisava acabar. Conclamou todos a “tolerar o intolerável” e disse que, ao testemunhar a morte de seus súditos e as dificuldades pelas quais seu povo agora passava, seus órgãos vitais partiam-se. 

Para muitos, essa foi a passagem mais marcante. Em vez de bravos com a derrota e com o imperador por ter autorizado a guerra, os japoneses se sentiram culpados por ter causado dor a seu soberano. Ao final, o número de suicídios foi mais ou menos o mesmo que na Alemanha, um povo sem a tradição de matar-se em nome da honra – entre 350 e 550 mortes. “Com esse discurso, o imperador tentou alcançar o impossível: converter o anúncio da derrota humilhante em mais uma afirmação da conduta do Japão na guerra e de sua própria moralidade transcendente”, diz o historiador americano John W. Dower no livro Embracing Defeat: Japan in the Wake of the World War II (“Abraçando a derrota: Japão no despertar da Segunda Guerra Mundial”, inédito em português).

Duas caras

Por sua atitude de encerrar a guerra e sua cooperação com os Estados Unidos na posterior ocupação do Japão, Showa - o nome pelo qual Hirohito ficaria conhecido após sua morte, segunda tradição japonesa - entraria para a história como um imperador pacífico, avesso ao militarismo. Uma figura meramente decorativa. Essa opinião prevaleceu por muitos anos. E deve-se, em boa parte, à capacidade do governante de raramente revelar suas verdadeiras intenções. Nos anos 70, porém, começaram a ser publicados documentos e diários de pessoas próximas ao imperador que mostravam um pouco mais sobre seu papel na guerra. As novas informações ajudaram alguns historiadores a tentar entender melhor Hiroíto. E o retrato que surge desses estudos não é simples como se pensava.

Para começar, Hiroíto era ambíguo por natureza. Nascido em 1901, foi criado para se espelhar em seu avô, Meiji, responsável pela modernização do Japão – o pai de Hiroíto, o imperador Taisho, esteve doente a maior parte da vida e não cumpriu todas as obrigações do posto. No governo de Meiji, estrangeiros foram chamados para construir portos, estradas e escolas. As roupas ocidentais tornaram-se moda. O decreto que proibia os japoneses de viajar ao exterior foi abolido. Mas, ao mesmo tempo que se abria para o Ocidente, o Japão temia ainda mais a ameaça estrangeira. Os japoneses não queriam que o país se tornasse a nova China, que tinha territórios dominados pelas potências europeias – como Hong Kong, tomado pelo Reino Unido. 

A contradição entre a modernidade e o passado – ou seja, entre a abertura ao mundo exterior e o nacionalismo extremo – continuaram presentes no Japão de Hiroíto. E ninguém personificou essa ambiguidade mais que ele mesmo. “Era como se ele estivesse dividido”, diz o historiador americano Herbert Bix, autor do livro Hirohito and the Making of Modern Japan (“Hiroíto e a construção do Japão moderno”, sem tradução em português). De um lado, os valores que recebera em sua educação mais européia, a democracia e a modernidade. Do outro, o passado militarista do Japão, país que nunca perdera uma guerra, e seu nacionalismo exacerbado.

Quero ser grande

Hiroíto tornou-se regente do Japão em 1921, quando o pai foi afastado por problemas mentais . A coroação ocorreu sete anos mais tarde. No poder, Hiroíto foi seduzido pela ideia, corrente no país então, do Japão como potência. Assim, não sucumbiriam, como a China, aos europeus. “[O Japão] estava decidido principalmente a jamais ser obrigado, como fora a China, a aceitar por qualquer período de tempo a presença estrangeira em seu território”, disse o jornalista Edward Behr em Hiroíto: por Trás da Lenda. A partir da guerra contra os chineses, nos anos 30, isso foi ficando cada vez mais claro nas conversas do imperador com seus assessores. “Não acredito que Hiroíto tenha procurado ligar sua imagem a uma ideologia ultranacionalista, mas ele permitiu que fizessem isso em seu nome. Depois, ele assumiu o papel de mais importante guia espiritual da nação em tempos de guerra”, diz Bix.

Em 8 de dezembro de 1941, os japoneses bombardearam Pearl Harbor, base naval americana no Havaí. Como pretendiam tornar-se potência, acreditaram que só ao lado dos alemães – que, em sua cabeça, seriam os vencedores da guerra – conseguiriam isso. Os Estados Unidos atrapalhavam o plano, por isso o Japão os atacou, pensando que o país se renderia à força e à autoridade japonesas. Foi tudo sem avisar, como parte de sua tradicional estratégia: a declaração de guerra aos Estados Unidos só chegou horas depois do bombardeio. Transcrições de reuniões com ministros mostram que o imperador sabia dos planos do ataque. E comemorou essa vitória, assim como as que se seguiram nos primeiros meses. Quando a situação da guerra se reverteu e o Japão começou a perder, Hiroíto questionava seus generais, não por estarem realizando as batalhas e pelas atrocidades que cometiam – as incursões do Japão fizeram uso de armas biológicas, estupros em massa e experiências médicas macabras com civis –, mas sim por estarem demorando demais a vencer.

Por volta de 1943, quando o pessoal do governo começava a perceber que a guerra estava perdida, tiveram início as discussões sobre a responsabilidade do imperador. A questão era difícil. A Constituição dizia que o imperador tinha poderes ilimitados e todas as decisões deviam passar por ele. Mas também dizia que ele não poderia ser responsabilizado pelos seus erros. Admitir que Hiroíto não tinha culpa, era apenas um fantoche, questionava seu poder. E culpá-lo pela guerra seria crime de lesa-majestade. Nessa época, a visão que o Ocidente tinha dele mudara. De monarca liberal, virou um dos três homens mais odiados do mundo, ao lado de Hitler e Stálin.

A maioria dos assessores do imperador optou por protegê-lo a qualquer custo. Muitos, porém, acreditavam que ele deveria renunciar. Até membros de sua família, como seu irmão mais novo, achavam que seria melhor para a monarquia que ele abdicasse. Mas quando, após os bombardeios em Hiroshima e Nagasáki, Hiroíto fez seu pronunciamento no rádio, no dia 15 de agosto, seu destino estava selado.

Teatro para salvar a monarquia

Às 10 da manhã de 27 de setembro de 1945, uma velha limusine Mercedes – presente do líder alemão Adolf Hitler – saiu do Palácio Imperial acompanhada de duas motocicletas e quatro carros, dois deles lotados de policiais. Em meio às ruínas de uma Tóquio recém-bombardeada, dirigiu-se para a Embaixada dos Estados Unidos. Dentro dela seguia um Hiroíto com roupas velhas. Ele pedira um encontro com o general americano Douglas MacArthur, comandante supremo das Forças Aliadas e responsável por ditar as regras no Japão depois da rendição do país – e, por isso, chamado de “xogum de olhos azuis”. 

Hiroíto seguia apreensivo, por não ter ainda certeza do que estaria reservado a ele no novo cenário, após a rendição e com a ocupação americana. Ele seria julgado por crimes de guerra e forçado a renunciar? De tão nervoso que estava, suas mãos tremiam ao entregar sua cartola para um dos assessores de MacArthur segurar. Frente a frente com o general, o imperador assumiu uma atitude humilde e, como era de seu feitio, ambígua. Chamou para si toda a responsabilidade pela guerra, mas, ao mesmo tempo, disse que, se tivesse pensado em ignorar os conselhos de seus assessores e não iniciar o confronto, teriam-no internado em um asilo de loucos ou assassinado. Satisfeito com essas explicações, MacArthur tranquilizou o imperador e aconselhou-o a não renunciar. Anos depois, em 1964, escreveria em seu livro de memórias, Reminiscences (“Reminiscências”, sem tradução em português) que, ao conhecer Hiroíto, esteve diante “do primeiro cavalheiro consumado do Japão”.

Hoje sabe-se que Hiroíto deu total aval à guerra, mas, fazendo isso a seu estilo, com muita sutileza, pôde depois atuar no papel de boneco nas mãos dos militares. Assim, o imperador não seria julgado como criminoso de guerra nos Julgamentos de Tóquio, feitos pelas forças aliadas que ocuparam o Japão (leia ao lado). Para justificar essa atitude, a ideia disseminada era a da impotência de Hiroíto, que seria um marionete na mão dos militares. Com a escassez de provas – a maioria dos documentos fora queimada nos dias após a rendição –, a maior parte dos estudiosos comprou, na época, essa versão. “Os americanos, especialmente os cientistas políticos, não perceberam a maneira japonesa de fazer política”, diz Bix.

O grande responsável por Hiroíto ter escapado dos julgamentos foi MacArthur. Ele acreditava que a permanência do imperador no trono seria útil para a ocupação, pois daria unidade ao povo japonês e o ajudaria a aceitar as mudanças. Mostrando-se extremamente cooperativo, Hiroíto conseguiu permanecer no poder e reinou até 1989, ano de sua morte. Submetendo-se à teoria de que havia sido um fantoche, o imperador perdeu o prestígio por ter tido força, afinal, para encerrar a guerra – o que fez contra a vontade de muitos de seus generais, que preferiam lutar até o último homem. Mas, se esse era o preço a pagar para continuar no trono, não importava.

Seus poderes, é claro, foram diminuídos. Alguns meses depois da rendição, em 1º de janeiro de 1946, ele renunciou a sua origem divina – novamente em um pronunciamento por rádio, no qual disse que a família imperial era formada apenas por seres humanos regulares, e o povo japonês não estava destinado a dominar o mundo. Pela nova Constituição, elaborada pelos americanos, a instituição do império permaneceria, mas destituída de poder político e da aura sagrada. Com o fim da ocupação americana, em 1952, as elites conservadoras, de certa forma expurgadas do poder durante a ocupação, voltaram a comandar o Japão – sem a liderança de Hiroíto.

Para Herbert Bix, o fato de o imperador não ter sido julgado trouxe mais prejuízos que benefícios, tanto para o Japão quanto para o mundo. “Ficou difícil para o Japão reconhecer a derrota e suas próprias atrocidades na guerra”, diz. Além disso, abriu um precedente péssimo: o de que os chefes de Estado não são culpados por esse tipo de crime. Aos poucos, o Japão seguiu rumo a uma recuperação quase inacreditável, que o levou a ser a segunda potência econômica nos anos 80, atrás apenas dos Estados Unidos. O que as armas não fizeram, as grandes empresas conseguiram – com uma bela força do imperador. Hiroíto serviu de peça de unificação: era símbolo da sobrevivência e da capacidade de recobrar-se do Japão. Como contava com o prestígio do povo, foi fundamental para que os japoneses aceitassem as mudanças, a ocupação, a Constituição mais democrática, a abertura. Não estava à frente das políticas, mas era essencial para que elas fossem implementadas.

Como o avô Meiji, Hiroíto escrevia poemas. Um deles era um apelo para que os súditos não se abalassem com o futuro. “O pinheiro é forte/ e não muda de cor/ com o peso da neve./ Assim as pessoas/ também deveriam ser.” Um poema que descreve, acima de tudo, sua própria atitude no pós-guerra. E sua extraordinária capacidade de se preservar e reinventar, como o único líder do Eixo a escapar ileso.

Longa vida


O reinado de Hiroíto foi o mais duradouro do Japão


1901
Filho do príncipe Yoshito (futuro imperador Taisho) e da princesa Sadako (depois imperatriz Teimei), Hiroíto nasce em 29 de abril, em Tóquio.

1912
O avô de Hiroíto, Meiji, morre no Japão.

1924
Hiroíto casa-se com a noiva que escolhera. Baixa e atarracada, Nagako não era bela, mas muito inteligente. Ao contrário do pai e do avô, é monogâmico e não mantém concubinas.

1926
Príncipe-regente desde 1921, quando o pai foi declarado incapaz, Hiroíto é entronado imperador com a morte de Taisho.

1928
Militares japoneses explodem o trem em que o líder chinês Chang Tso-lin viajava, na Manchúria. Hiroíto não condena os culpados – e mais tarde os promove. Em 1931, o Japão atinge o objetivo de invadir a China e controlar o país.

1959
Seu filho mais velho, príncipe Akihito, quebra uma tradição de 1500 anos e casa-se com uma plebeia, Shoda Michiko.

1971
É o primeiro imperador japonês a fazer uma visita ao estrangeiro.

1975
Faz sua primeira visita aos Estados Unidos.

1989
Após a morte de Hiroíto, Akihito assume o trono.


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