segunda-feira, 22 de maio de 2017

As sete guerras de Israel

Ricardo Bonalume Neto



1. Guerra da Independência

Definida a partilha da Palestina, os judeus precisaram de apenas seis meses para declarar sua independência. Em 14 de maio de 1948, foi fundado o Estado de Israel. No mesmo dia, tropas do Egito, Jordânia, Síria e Iraque atacaram. Começava o mais sangrento de todos os conflitos entre árabes e israelenses até hoje. Algo entre 6 mil e 10 mil soldados de Israel morreram (mais de 1% da população daquela época).

A milícia de autodefesa Haganah havia se transformado na força armada do Estado judeu. Como não havia muitos blindados e veículos militares, aquela foi uma guerra caracterizada por combates de infantaria. Os israelenses eram obrigados a recorrer ao contrabando para conseguir armas. Mas a Tchecoslováquia, que àquela altura ainda não tinha se transformado em um país comunista, fornecia legalmente grande quantidade de fuzis e caças Avia S-199.

Dada a situação relativamente precária das forças militares de Israel, o ataque poderia ter destruído o país antes mesmo de ele sair do berço. Mas a falta de coordenação entre as ofensivas árabes permitiu que os israelenses administrassem todos os problemas, um de cada vez. Os ataques inimigos mais bem sucedidos foram feitos pelos jordanianos, cujas tropas eram as mais eficientes entre as dos países árabes envolvidos no conflito. A Jordânia capturou a parte leste de Jerusalém, enquanto o Egito ocupou um pedaço de território na costa do Mediterrâneo – a Faixa de Gaza.

Ao final de quase nove meses de combates intensos, Israel havia aumentado em 23,5% o tamanho de seu território. Jerusalém, no entanto, estava dividida. A Jordânia, além de ficar com o controle sobre a parte oriental da cidade, anexou todo o território situado à margem oeste do rio Jordão – a Cisjordânia. A Guerra da Independência deu origem a um problema que até hoje frequenta as primeiras páginas dos jornais: pelas contas da ONU, naquela oportunidade, aproximadamente 700 mil palestinos dos territórios ocupados por Israel refugiaram-se nos países vizinhos.

2. Guerra de Suez

Em julho de 1956, o então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, nacionalizou o canal de Suez, tirando-o do controle de franceses e britânicos. Ao mesmo tempo, Nasser incentivava os refugiados palestinos a promover ações terroristas contra Israel. França e Grã-Bretanha decidiram, então, atacar o Egito para retomar o canal. E recrutam Israel para a empreitada. A ideia era que os israelenses atacassem primeiro, pois isso serviria como pretexto para que franceses e britânicos iniciassem uma intervenção.

Menos de três meses depois, em outubro daquele ano, começava a Guerra de Suez – a primeira entre o Estado de Israel e seus vizinhos árabes em que veículos militares blindados tiveram um papel preponderante. A ponta-de-lança israelense era formada por cerca de 200 tanques, a maioria modelos Sherman, de fabricação americana (os mesmos que atuaram de maneira decisiva na Segunda Guerra Mundial).

O Egito, àquela altura, começava a receber armamentos modernos da URSS, como o tanque T-34 (espinha dorsal do Exército Vermelho também na Segunda Guerra Mundial). Mas a Força Aérea de Israel já contava com aviões mais modernos, principalmente franceses. O ataque as forças egípcias no deserto de Sinai foi uma operação relâmpago: em aproximadamente 100 horas, quase toda a península foi tomada.

Com o fim do conflito, uma Força de Paz da ONU – incluindo tropas brasileiras – foi deslocada para a região. Aquela seria a garantia de que os egípcios não voltariam a atacar os israelenses e deixariam de patrocinar o terrorismo. Israel abandonou o Sinai. Mas no dia 22 de maio de 1967, Nasser ordena o bloqueio do estreito de Tirã, no Mar Vermelho, fechando uma importante rota comercial israelense – pela qual passava, por exemplo, a maior parte das importações de petróleo rumo ao porto de Eilat. Os inimigos de Israel fechavam o cerco novamente. E mais uma guerra estava prestes a estourar.

3. Guerra dos Seis Dias

“Por duas ou três semanas antes da Guerra dos Seis Dias, os israelenses compartilharam uma profunda sensação de angústia e temor, como só uma nação de refugiados pode sentir, até a medula de seus ossos.” Assim o escritor israelense Amos Elon traduziu em palavras o sentimento da população de Israel à véspera desse conflito. Em meados de 1967, uma aliança formada por Egito, Jordânia e Síria já estava pronta para invadir e destruir Israel. Prevendo uma agressão militar iminente, os israelenses resolveram atacar primeiro.

No papel, os árabes tinham mais que o dobro ou o triplo de soldados, canhões, tanques e aviões. Mas a ofensiva-surpresa de Israel pegou seus inimigos no “contra-pé”. A Guerra dos Seis Dias, ainda hoje, é estudada em academias militares do mundo todo, dado o brilhantismo do ataque israelense – especialmente o de aviação. Foram destruídas centenas da aviões inimigos antes mesmo que eles pudessem decolar. Só no primeiro dia da guerra, os árabes perderam cerca de 350 aeronaves.

Israel tomou dos jordanianos todo o território da Cisjordânia. E mais: assumiu o controle do setor oriental de Jerusalém. Para os judeus, aquela vitória tinha um significado muito mais que especial. Quase 2 mil anos depois de serem expulsos de lá pelos romanos, 22 anos depois do Holocausto e 19 anos depois da fundação de Israel, os judeus recuperavam o Muro das Lamentações – local mais sagrado do judaísmo. Em seguida, os israelenses levaram o combate até os sírios. Em uma rápida campanha, as colinas de Golã foram tomadas.

O Egito terminou esta guerra com saldo aproximado de 10 mil mortos, 20 mil feridos e 5,5 mil soldados capturados. Mais de 500 tanques egípcios foram destruídos, sem contar a grande quantidade de equipamento que acabou caindo nas mãos dos israelenses: 300 tanques e outros 10 mil veículos. A Jordânia sofreu aproximadamente 6 mil baixas e a Síria, outras mil. Israel contabilizou “apenas” 764 mortos.

4. Guerra de Atrito

Depois da Guerra dos Seis Dias, o canal de Suez foi fechado para a navegação. O Egito dominava uma de suas margens, enquanto Israel controlava a outra. Esse foi o foco da chamada Guerra de Atrito, uma espécie conflito militar em câmera lenta. Israelenses e egípcios duelavam com artilharia, aviões e ataques de forças especiais.

Um dos episódios mais marcantes dessa guerra ocorreu no dia 21 de outubro de 1967, quando o Egito atacou o destróier israelense Eilat. Dois barcos lança-mísseis egípcios da classe Komar, de fabricação russa, dispararam quatro mísseis Styx, dos quais três acertaram a embarcação. Esse ataque levaria a Marinha israelense a investir mais recursos no desenvolvimento de tecnologia militar, criando, por exemplo, o poderoso míssil mar-mar Gabriel. Com ele, Israel daria o troco na guerra que viria a seguir, afundando uma grande quantidade de barcos egípcios e sírios.

5. Guerra do Yom Kippur

Em 1973, foi a vez da Guerra do Yom Kippur – batizada com esse nome por ter sido deflagrada no dia 3 de outubro, que marca o início do Kippur – uma das datas mais importante do calendário judaico. Israel foi pego de surpresa e pagaria um preço elevado pela autoconfiança cristalizada após a Guerra dos Seis Dias. “Esse conflito acabou com aquelas curiosas férias da realidade, uma euforia em que muitos de nós flutuávamos depois do conflito de 1967”, diz o escritor Amos Elon.

A morte de Nasser, em 1970, não evitou mais uma guerra entre árabes e israelenses. Seu sucessor, Anuar Sadat, manteve os planos de ataque. O Egito atravessou o Canal de Suez enquanto a Síria invadiu as colinas de Golã. A estratégia árabe era usar foguetes para neutralizar os ataques conjugados de Israel – por terra, com tanques de guerra, e pelo ar, com a aviação de combate. Mísseis soviéticos como o Sagger destruíram dezenas de blindados israelenses, brecando as primeiras contra-ofensivas. E um complexo sistema de defesa antiaérea conseguiu anular a Força Aérea de Israel.

Mas a “quantidade” árabe acabou superada pela “qualidade” israelense. Na noite de 15 para 16 de outubro, uma genial jogada estratégica impediu a vitória do Egito no Sinai. Uma força israelense de tanques e infantaria blindada cruzou o canal de Suez e cercou o Terceiro Exército egípcio. Ao mesmo tempo, Israel avançou na direção de Damasco. EUA e URSS, mais uma vez, pressionaram por um cessar-fogo – que entrou em vigor no dia 24 daquele mesmo mês. Ao contrário do que ocorrera na Guerra dos Seis Dias, desta vez os árabes – especialmente os egípcios – não sofreram uma derrota humilhante, o que facilitaria um acordo. Com intermediação americana, Israel e Egito assinariam um tratado de paz em março de 1979.

6 e 7. Guerras do Líbano

Como o Egito – o mais poderoso país árabe – agora estava em paz com Israel, restou aos demais oponentes do Estado judeu o recurso “assimétrico” do terrorismo. Em 1978, os israelenses invadiram o sul do Líbano, na tentativa de estancar os ataques terroristas que vinham de lá. Quatro anos mais tarde, em junho de 1982, Israel voltou a empreender uma ofensiva militar em território libanês – desta vez, para expulsar a OLP de Yasser Arafat. Os ataques ao Líbano, no entanto, acabariam criando mais problemas. O maior deles é o Hezbollah, grupo islâmico que não esconde seu objetivo fundamental: varrer Israel do mapa.

Paralelamente, os israelenses seriam obrigados a lidar com mais uma encrenca de origem árabe – desta vez, dentro de suas próprias fronteiras. Palestinos estabelecidos nos territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza deram início, em 1987, a uma rebelião popular que ficaria conhecida como a Primeira Intifada e só terminaria em 1993. Outra revolta – a Segunda Intifada – explodiria sete anos mais tarde.

Israel pôs fim a ocupação do território libanês em 2000. Mas uma nova série de combates com o Hezbollah teve início em 2006 – a Segunda Guerra do Líbano. Muito da infra-estrutura reconstruída pelo Líbano depois da primeira ocupação foi posta abaixo novamente, em ataques cujo objetivo era eliminar guerrilheiros. Nos 32 dias de conflito, 4 mil mísseis Katyusha foram disparados contra Israel.


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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Acre: A derrota final das cruzadas

Natalia Yudenitsch



No fim de 1290, a situação no porto mediterrâneo de São João de Acre, hoje a cidade israelense conhecida como Akko, estava para lá de tensa. Baybars, um sultão mameluco do Egito, já havia reduzido o reino de Jerusalém, o mais importante estado cristão estabelecido pelos cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre em 1268. 

A paz era precariamente mantida pelos esforços do rei Eduardo I da Inglaterra, apoiado pelo papa Nicolau IV. Só foi preciso que um grupo de soldados italianos se metesse numa encrenca com camponeses muçulmanos para que o delicado equilíbrio que mantinha a região sob controle fosse pelos ares. Os italianos católicos encerraram a pendenga degolando os islâmicos e eliminando na mesma leva outro tanto de sírios cristãos. 

Quando a história da matança chegou aos ouvidos do sultão egípcio al-Ashraf Jalil, ele imediatamente exigiu a cabeça dos assassinos. Pega em meio a uma disputa pela sucessão do trono de Jerusalém, Acre disse não ao sultanato. Em abril de 1291, a cidade acordou cercada por mais de 200 mil soldados muçulmanos. A cristandade correu em socorro de um de seus pontos mais estratégicos na Terra Santa. Cavaleiros hospitalários, teutônicos e templários, somados a tropas inglesas e italianas, partiram para defender o porto. Só que aí já era tarde demais. Em 18 de maio, as forças turcas e egípcias tomaram oficialmente a cidade. Caía o último bastião dos europeus e, com ele, o sonho que por anos alavancou as cruzadas para o Oriente. 

“Para entender a importância de Acre nesse período, é preciso voltar à sua época dourada, logo após sua tomada, em 1104, por um dos líderes da Primeira Cruzada, Balduíno de Boulogne, mais tarde coroado como o primeiro monarca do reino latino de Jerusalém”, diz Norman Edbury, professor de história medieval da universidade de Oklahoma, nos EUA. “A cidade era um dos mais importantes centros comerciais do mundo medieval, o maior porto da costa da Palestina. Acre era bastante próspera e civilizada, recebendo comerciantes italianos, bizantinos, africanos e egípcios. 

Sua localização geográfica, ao norte da baía de Haifa, a tornava um canal de comunicação entre o Oriente e o Ocidente e foi muito utilizada pelos cruzados entre os séculos 11 e 13.” Além de ser um centro econômico e político estratégico, Acre, como capital do reino de Jerusalém, tinha ainda um grande valor simbólico para três grandes religiões: a cristã, a judaica e a muçulmana. Sua população chegava a 25 mil habitantes – cerca de 10% de todo o reino. Somados todos os interesses, a cidade trocou de mãos várias vezes desde sua fundação, por volta de 1500 a.C., pelos cananeus, sendo ocupada por assírios, romanos, bizantinos, muçulmanos e cristãos.

Acre nas cruzadas

O período mais turbulento da vida do porto, contudo, foi durante as Cruzadas, quando foi batizado de São João de Acre. O primeiro revés ocorreu pelas mãos do sultão egípcio Saladino, em 1187, na Batalha de Hattin. Do lado cristão, as tropas do francês Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, e o príncipe da Galiléia Raimundo III de Trípoli. Ao todo, havia cerca de 60 mil homens, entre cavaleiros, soldados desmontados e mercenários muçulmanos. Já a dinastia aiúbida, representada por Saladino, contava com 70 mil guerreiros. Quando os cruzados montaram acampamento em um campo aberto, forçados a descansar após um dia de exaustivas batalhas, os homens de Saladino atearam fogo em volta dos inimigos, cortando seu acesso ao suprimento de água fresca. A cortina de fumaça tornou quase impossível para os cristãos se desviar da saraivada de flechas muçulmanas. 

Sedentos, muitos cruzados desertaram. Os que restaram foram trucidados pelo inimigo, já de posse do porto. “Em um de seus famosos momentos de clemência, Saladino poupou a vida de Guy, enquanto Raimundo escapou da batalha com sucesso. Com a cidade tomada, o sultão restaurou a fé islâmica e reforçou o sistema defensivo, formado por muralhas que envolviam o porto”, afirma John Hildebrand, professor de história medieval da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

O gesto magnânimo de Saladino, porém, custaria caro. Em 1189, Guy de Lusignan tentou reconquistar a cidade, num conflito que duraria anos e só seria resolvido com a chegada de um novo personagem: Ricardo Coração de Leão, o rei da Inglaterra. Foi ali, na Terceira Cruzada, em 1191, que o rei Ricardo fez sua fama de guerreiro e conquistou o título de Coeur de Lion (Coração de Leão, em francês) ao garantir a volta de Acre às mãos da cristandade. 

Apesar de inimigos e de nunca ter se encontrado, Saladino e Ricardo Coração de Leão se respeitavam. Trocaram presentes e honrarias, culminando num acordo que deixou Jerusalém em mãos muçulmanas. Isso transformou São João de Acre na grande capital dos Estados Latinos na Terra Santa. Seu porto recebeu peregrinos e guerreiros cruzados, como o rei Luís IX da França na Sétima Cruzada, em 1250. Seu retorno à Europa quatro anos depois e a posterior morte durante a Oitava Cruzada deixaram uma lacuna na sucessão do reino de Jerusalém. Sem proteção, a cidade de Acre foi enfraquecida por Baybars. Até que finalmente cedeu, em 1291, às investidas dos mamelucos egípcios. Depois disso, o porto conheceu a decadência, passando posteriormente para o domínio turco otomano e finalmente sendo anexado a Israel em 1948.

Linha do Tempo: A briga por Acre

• 1.500 a.C.  Fundação de Acre pelos cananeus
• 638 d.C. 
 Muçulmanos conquistam a cidade liderados pelo califa Omar I
• 1104 
Balduíno I toma Acre na Primeira Cruzada, e cria o Reino Latino de Jerusalém
• 1148 
 A Haute Cour se reúne em Acre e decide assalto a Damasco
• 1187 
 O sultão Saladino toma posse de Acre, na Batalha de Hattin
• 1189 
 Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, tenta retomar Acre
• 1191 
 Ricardo recupera Acre, agora a capital do Reino de Jerusalém
• 1229 
 A Ordem dos Hospitalários ocupa e assume a proteção de Acre
• 1244 
 A cidade de Jerusalém é tomada pelos cristãos
• 1250 
 Luís IX da França se estabelece na cidade na Sétima Cruzada
• 1268 
 O sultão Baybars reduz Jerusalém a um pedaço do litoral palestino
• 1291 
 A queda de Acre pelos mamelucos egípcios põe fim aos Estados Latinos na Terra Santa.
• 1517 
 Otomanos tomam a cidade sob o comando do sultão Selim I
• 1840 
 Acre é bombardeada pelas tropas aliadas britânicas, austríacas e francesas
• 1948 
 Acre passa a fazer parte do recém-formado Estado de Israel

Glossário

• Mamelucos  Soldados escravos utilizados pelos califas do Império Otomano
• Califas 
 Líder da ummah (comunidade islâmica) a partir de 632
• Sultão 
 Título do monarca muçulmano adotado pelos otomanos a partir de 1055
• Cruzados 
 Cavaleiros cristãos da Idade Média, participantes das Cruzadas
• Haute Cour 
 Alto Conselho feudal do reino de Jerusalém
• Estados cruzados 
 Como eram chamadas as unidades políticas dos territórios conquistados pelos cruzados (os quatro Estados Latinos no Oriente eram Jerusalém, Edessa, Antióquia e Trípoli)
• Krak 
 Forte, fortificação, em árabe
• Terra Santa 
 Refere-se aos territórios da Palestina e de Israel
• Aiúbidas 
Integrantes de uma dinastia muçulmana de origem curda fundada por Saladino


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quarta-feira, 17 de maio de 2017

[POL] Aliança com Pio 11 solidificou fascismo

Reinaldo José Lopes



A simbiose entre o regime fascista de Benito Mussolini (1883-1945) e o papado foi crucial para que o ditador consolidasse seu domínio da Itália a partir dos anos 1920, afirma o historiador americano David Kertzer, da Universidade Brown.

O livro de Kertzer sobre o tema, que acaba de chegar ao Brasil, usa uma massa impressionante de documentos para mostrar que a Igreja Católica aceitou até mesmo as leis antissemitas propostas por Mussolini quando ele se aproximou do nazismo, ainda que protestasse contra detalhes da legislação.

"O Papa e Mussolini", obra que venceu o Prêmio Pulitzer de Biografia em 2015, narra as vidas paralelas de Achille Ratti, o papa Pio 11 (1857-1939), e do líder fascista, além de traçar perfis dos principais assessores de ambos, muitos dos quais ajudaram a costurar uma espécie de aliança tácita entre o Vaticano e o fascismo no período entre as duas guerras mundiais.

Em entrevista à Folha, Kertzer contou que a decisão de escrever o livro veio em 2002, quando o papa de então, João Paulo 2º, anunciou que permitiria a consulta dos arquivos da Santa Sé que datavam do pontificado de Pio 11. "Entre esse anúncio e a abertura dos arquivos, quatro anos se passaram. Enquanto esperava, consultei os documentos do governo italiano sobre o período e também estudei os arquivos centrais dos jesuítas, os quais foram muito importantes para as relações entre o Vaticano e o fascismo. Meu livro, portanto, é um dos primeiros a analisar esse período", explica.

Contraste

À primeira vista, seria difícil imaginar uma aliança entre sujeitos mais diferentes do que Mussolini e Achille Ratti. Nascido numa família de classe média baixa profundamente anticlerical, o futuro duce ("líder", como Mussolini passaria a ser chamado) começou sua carreira política como um agitador esquerdista radical. Dizia desprezar o cristianismo e só foi batizado, junto com a mulher e os filhos, após se tornar primeiro-ministro.

O futuro papa, por outro lado, tivera uma infância confortável e devota. Após receber a ordenação sacerdotal, tornou-se especialista em paleografia (o estudo da "letra" dos manuscritos antigos), além de atuar como enviado do papa Bento 15 na Polônia.

Coincidentemente, ambos assumiram seus cargos máximos em 1922. Embora usasse capangas para intimidar ativistas do Partido Popular e da Ação Católica, principais órgãos de ativismo político do catolicismo, Mussolini passou a oferecer à igreja a perspectiva de uma aliança.

Promulgou leis que puniam insultos a sacerdotes e à fé católica, instituiu o ensino religioso obrigatório nas escolas primárias (mais tarde, também nas secundárias) e fez doações generosas para o reparo de igrejas.

Por meio dessas medidas, argumenta Kertzer, o fascista conseguiu atrair o interesse de Pio 11 justamente no ponto que mais irritava o papado desde o fim do século 18: a crescente separação entre igreja e Estado na Itália.

"Isso começou com a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, quando dois papas, Pio 6º e Pio 7º, chegaram a ser aprisionados por Napoleão", explica o historiador. Nessa época, os pontífices eram os soberanos de um pedaço considerável da região central da Itália, incluindo a própria Roma, enquanto o resto da península estava dividido em diversos Estados independentes.

Com a unificação italiana e a transformação de Roma em capital do novo reino, em 1871, os papas viraram "prisioneiros do Vaticano", sem Estado independente próprio e em briga constante com o governo secular da Itália.

Diante dos sinais de trégua emitidos por Mussolini, Pio 11 considerou que valia a pena apoiar cautelosamente o fascismo. Além disso, o papa não era um entusiasta do parlamentarismo italiano e preferia um governo forte. "Mussolini não é nenhum Napoleão, mas só ele compreendeu o que era preciso para livrar o país da anarquia a que fora reduzido", declarou o pontífice ao embaixador da Bélgica na Santa Sé em 1923. "Que ele reviva a Itália! São esses homens predestinados à grandeza que conseguem trazer a paz hoje ausente."

As negociações entre os emissários do papa e os do Duce culminaram com o Tratado de Latrão, assinado em 11 de fevereiro de 1929. O tratado criou o pequeno Estado do Vaticano, nos moldes que ainda tem hoje, e estipulou uma boa compensação pela perda de propriedades da igreja na Itália durante o processo de unificação.

Entre Tapas e Beijos

A relação entre os dois líderes passaria por altos e baixos depois disso. Mussolini não queria que as organizações fascistas enfrentassem a concorrência da Ação Católica na hora de atrair crianças e adolescentes para suas fileiras. Pio 11 bateu o pé, exigindo liberdade para o órgão. Em 1931, chegou a publicar uma encíclica em italiano, "Non Abbiamo Bisogno" ("Não Precisamos Disso"), que criticava o regime.

Conforme Mussolini foi se aproximando de Hitler ao longo dos anos 1930, o papa se mostrou cada vez mais desgostoso com o rumo tomado pelo fascismo, mas continuou se valendo de suas ligações com o regime para reprimir livros, filmes e comportamentos considerados ofensivos à igreja e para barrar o crescimento da pequena comunidade protestante da Itália.

Quando os fascistas decidiram copiar as leis nazistas sobre a "pureza da raça", proibindo o casamento entre judeus e "italianos arianos" e tirando direitos da população judaica, Pio 11 e seus emissários só foram incisivos ao exigir que os casamentos entre católicos e judeus convertidos ao catolicismo fossem reconhecidos como válidos.

As Ligações entre o Vaticano e o Ditador Fascista

Pio 11

Ambrogio Damiano Achille Ratti (1857-1939), estudioso de manuscritos antigos, tinha fama de autoritário. A menina de seus olhos era a Ação Católica, associação que buscava promover a influência cristã na sociedade.

Mussolini

Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883-1945) começou sua carreira como esquerdista violentamente contrário à Igreja Católica, mas se aproximou do Vaticano assim que obteve chances reais de assumir o governo.

Pacelli

Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli (1876-1958), futuro papa Pio 12, foi nomeado secretário de Estado por Pio 11 em 1930, após bem-sucedida carreira diplomática. Tinha boas relações com o regime fascista.

Venturi

Pietro Tacchi Venturi (1861-1956), jesuíta escolhido para atuar como intermediário extraoficial nas negociações entre Pio 11 e Benito Mussolini, tinha fortes crenças antissemitas.

VITTORIO EMANUELE 3º

Rei da Itália de 1900 a 1946, tímido e pouco popular, o monarca compartilhava do anticlericalismo de Mussolini, mas acabou abraçando a ideia de uma reaproximação com a hierarquia católica.


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