sexta-feira, 9 de junho de 2017

[PGM] Richthofen, o Barão Vermelho

Voltaire Schilling


Morto em combate em 1918, aos 26 anos, no ano final da Iª Guerra Mundial, o Barão Manfred von Richthofen, apelidado de o Barão Vermelho, o mais famoso de uma dinastia de pilotos guerreiros alemães, foi o mais célebre ás de aviação de todos os tempos. Apesar de ter abatido uma quantidade impressionante de aviadores inimigos, franceses, ingleses e canadenses, foi profundamente admirado e respeitado por seus adversários que o consideravam um adversário leal e generoso. Tanto assim que, quando encontraram seu corpo jogado nas proximidades do seu avião destruído, caído no campo em Cambrai onde estavam tropas australianas, seus inimigos deram-lhe exéquias de herói, sepultando-o com todas as honras de guerra que um valente merece.

A morte atrás de um “camelo”


“Se eu sair vivo desta guerra é porque eu tive mais sorte do que cérebro”
 -
Manfred von Richthofen.

Richthofen, o Barão Vermelho, morreu devido ter infringido o seu próprio código de combate que dizia ser muito perigoso perseguir um avião inimigo quando ele se refugiava em seu próprio território. No dia 21 de abril de 1918, momento em que a guerra já se revelara impossível de ser vencida pela Alemanha Imperial, ele, sem apoio de um segundo piloto que lhe desse cobertura, decidiu perseguir um “Camelo”, isto é, um avião da marca  Sopwith Camel, que retirou-se para os lados das linhas australianas no vale do Somme, na Cordilheira Morlancourt, perto de Corbie. Local onde ele se viu sobre duplo fogo, do ar e da terra, caindo em seguida. Até hoje há controvérsia sobre quem de fato o abateu, podendo ter sido o seu fim  determinado tanto por disparo de uma metralhada de um sargento, disferido do chão, como por uma rajada do capitão Brown, um  piloto canadense. O seu corpo foi devidamente autopsiado no hangar do 3º esquadrão aéreo australiano, situado em Poulainville, onde, além de uma fratura no maxilar, constatou-se que uma bala fatal penetrara-lhe no lado direito do peito, na altura da nona costela. Com o desaparecimento dele, o seu jovem sobrinho Wolfram von Richthofen, companheiro e integrante do celebre esquadrão de caças alemão Jagdstaffel, ou Jasta 11, uma das mais  temidas da aviação germânica, tentou inutilmente encontrá-lo. Somente dois meses mais tarde souberam do destino do herói, inteirando-se das cerimônias honrosas com que os seus inimigos o sepultaram.

Do cavalo ao Albatroz


Descendente de uma família da nobreza prussiana - dos famosos junkers da Prússia Oriental -, o Barão Manfred von Richthofen, nascido no Schweidnitz, em Breslau, em 1892, serviu como cadete no 1º Regimento dos Ulanos. Tratava-se de uma tropa de escola da elite guerreira alemã que prestava seus serviços à monarquia Guilhermina. Ao eclodir a Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, ele foi enviado com o seu esquadrão de cavalaria para o fronte russo, mas, em pouco tempo, após ter sido transferido para o fronte ocidental, verificou que, dado o avanço espantoso das armas modernas, para um verdadeiro cavalheiro só sobrara um lugar para lutar a boa luta: os céus. Seguindo-o, o seu irmão mais novo Lothar Freiherr von Richthofen, o acompanhou na aventura. As primeiras esquadrilhas da Fliegertruppe, a força aérea alemã, organizadas naqueles começos da Grande Guerra, tiveram muitos dos seus quadros preenchidos por pilotos oriundos da nobreza. Assim deu-se não só na Alemanha e na Áustria, como na Grã-Bretanha, Itália e França. Aos jovens aristocratas belicosos, metidos a super-homens nietzscheanos,  repugnava terem que combater nas trincheiras embarradas, repletas de ratos e piolhos, ao lado do soldado comum. Pior ainda, era estarem destinados a morrerem como anônimos em meio aquela massa de cadáveres de gente desconhecida que cada batalha produzia, ou que o tifo dizimava. Portanto, trataram de conquistar um espaço no qual feitos espetaculares fossem bem visíveis e que a morte deles, quando ocorresse, fosse avistada pela plebe das trincheiras, como acontecia entre os  guerreiros feudais que caíam à vista de todos. Em maio-junho de 1915, Manfred von Richthofen tratou então de aprender a voar, trocando definitivamente o cavalo por um avião: um  biplano Albatroz D.II, da Fokker.

O caçador cavalheiro


O gosto pelas caçadas, costume comum entre os aristocratas, o ajudou deveras. Manfred sempre a praticara na propriedade da família, adquirindo então a técnica e o sangue frio suficiente para abater os inimigos nos enfrentamentos aéreos. Em geral, os pilotos, de ambos os lados da guerra, não apreciavam as tarefas rotineiras que o exército lhes determinava: reconhecimento aéreo e bombardeio das linhas inimigas. Acreditam que estavam vocacionados à proezas mais grandiosas, heróicas e sensacionais, como os duelos travados nos ares contra os aeroplanos adversários. Essas sim eram as façanhas que os atraíam. Aquelas correrias e manobras nas alturas pareciam-lhes a revivência das grande justas medievais nas quais um cavaleiro, galopando na liça a toda velocidade, tentava derrubar da cela o antagonista num só golpe certeiro de lança, espada ou martelo,  dado de frente. Para os generais, entrementes, aqueles desafios de zangões eram um desperdício. Os aviões, insistiam eles,  eram muito mais producentes despejando bombas sobre as linhas inimigas, destruindo-lhes os paióis, incendiando-lhes os quartéis e desbaratando-lhes as concentrações de tropas, do que ficarem zanzando no ar entretidos em metralhas sem fim.

Nasce o Barão Vermelho


De certo modo, Richthofen foi, senão o fundador, o mais famoso entusiastas da aviação de caça nascente. Ele, imediatamente, percebeu os efeitos publicitários e psicológicos dos embates aéreos. A imprensa da época adorou narrar os desafios espetaculares dos pilotos de caça, situação onde indivíduos, sozinhos ou voando em pequenos grupos, procurando valentões para as refregas, expunham a sua coragem aos olhos de todos. Bem melhor do que os jornais dedicarem-se ao registro burocrático da movimentação das tropas ou a descrição de batalhas que demoravam meses, como as do Somme, de Verdum ou de Yprés, sem terem nenhum resultado imediato ou conclusivo a celebrar, como ocorria com os grandes enfrentamentos terrestres da Primeira Guerra Mundial. Para dar um clima ainda mais sensacional as pelejas, Richthofen pintou seu avião de vermelho, a cor do seu regimento dos Ulanos. Era um Albatroz  que fazia 103 km. p/hora, graças a  um motor de 110 cavalos, facilmente visível nos dias claros, chamativo com o qual ele espantava ou atraia a atenção dos inimigos. Estes não demoraram em apelidá-lo de The Red Baron, “o Barão Vermelho”. Não tardou para que Richthofen se revelasse um caçador terrível (no ano de 1916 abateu 15 inimigos; em 1917, saltou para 46 e, no primeiro trimestre  de 1918, derrubou mais 17, perfazendo quase 80 aviões destruídos), tendo os seus feitos ganho as páginas dos principais noticiários daquela época. Posição em que foi seguido pelo seu irmão Lothar, que, mesmo ferido três vezes com gravidade, igualmente revelou-se um implacável piloto de caça, atingindo 40 vitórias até 1918.

O código da cavalaria


Adorado pelo povo alemão, que acolheu-o como se ele fosse um herói mitológico, um Siegfried dotado de asas, ele, por vezes, via-se obrigado a deixar o fronte para ir participar de homenagens na retaguarda, inclusive sendo recebido pelo Kaiser Guilherme II, que pendurou no peito dele todos os tipos de condecorações que o IIº Reich possuía, como a “Pour le Mérite”.  A fama e a popularidade dele espalhou-se inclusive entre os inimigos, fazendo com que em pouco tempo eles também produzissem e promovessem os seus ases, como o piloto inglês “Mick” Mannock (que abateu 61 alemães) e o francês René Paul Fonk (que vitimou 75 deles). O notável é que Richthofen,  obediente aos códigos da cavalaria, procurou preservar o tempo todo -  em meio a barbárie crescente dos combates em terra - , o céu como uma espécie de liça especial. O azul dos amplos espaços era um lugar que ele pretendia manter afastado das impurezas da guerra de trincheiras, no qual as regras cavalheirescas ainda deviam ser seguidas à risca. Ele não admitia, por exemplo, depois do inimigo ter sido atingido, persegui-lo até matá-lo. Despojando-o do avião em chamas, neutralizado o inimigo,  jamais atirava no piloto que saltasse de pára-quedas ou que, depois em terra, estivesse tentado escapar-lhe. Não foi, pois, sem razão que ele mantinha o posto de Rittmeister, isto é, capitão de cavalaria, visto que no imaginário dele a velha arena medieval ainda não sucumbira ao amoralismo e à total ausência à princípios éticos da moderna guerra total.

O herdeiro


Quem seguiu-lhe as pistas de herói e combatente extraordinário foi o seu sobrinho, o já citado Barão Wolfram von Richthofen. Jovem piloto do Jagdgeschwader I, a esquadrilha de caça, em 1918, ele conseguiu sobreviver a Primeira Guerra. Tornou-se, na época da República de Weimar (1918-1933), um piloto de acrobacias, entrando mais tarde para a Luftwaffe. Wolfram, fez uma carreira espetacular como comandante na Guerra Civil Espanhola, ganhando o apelido de “O Condor”, por liderar, como coronel, os esquadrões alemães que lutaram nos céus de Madri, entre 1936-39, ao lado do general Franco. Ocasião em que, na franca opinião dele, virtude da família, “lutamos do lado dos maus”.

No comando do Fligerkorps VIII, Wolfram, alcançando o posto de general, fez as campanhas da Polônia, da França e da Grã-Bretanha, sendo depois, em 1941, transferido para o fronte soviético, participando da dura luta no Don e no baixo Volga, em Stalingrado. Transferido para o fronte italiano em 1943, foi capturado pelos americanos no fim da guerra, falecendo em 1945 devido a um sério derrame cerebral. Com o desaparecimento dele foi-se o último integrante daquela autêntica dinastia de pilotos de guerra da Alemanha do século 20.


Tópicos Relacionados

O Circo Voador do Barão Vermelho



Condecoração "Pour Le Mérite"


terça-feira, 6 de junho de 2017

[SGM] O último suspiro de Rommel

Tiago Cordeiro


Depois dos duelos travados na África, Erwin Rommel e Bernard Montgomery voltaram a se encontrar em junho de 1944, na Normandia. Mais uma vez, o inglês, comandante responsável pela operação em terra após o desembarque, saiu-se melhor. Responsável por organizar a mal construída defesa militar na faixa de litoral que compreendia da Dinamarca até a costa da Espanha, Rommel não teve tempo nem recursos suficientes para garantir a retaliação às Forças aliadas. Além disso, o marechal e seu comandante não se entenderam a respeito da melhor estratégia a ser adotada. O debate confundiu Hitler e provocou uma confusão que limitou ainda mais o poder de reação do Eixo.

Desde março de 1942, o responsável pelas defesas no front ocidental era o marechal-de-campo Karl von Rundstedt. Naquele mês, Hitler estabeleceu uma estratégia para rechaçar qualquer ataque: fortes deveriam ser construídos em todos os setores costeiros que permitissem desembarques. Caso um deles fosse vazado pelos aliados, tropas localizadas em áreas próximas à costa deveriam estar de prontidão para contra-atacar. Em primeiro de maio de 1943, a Alemanha deveria ter 300 mil homens guardando 15 mil bases de concreto.

Acontece que Rundstedt contava com apenas 60 divisões para defender 5,4 mil quilômetros de costa – e esses homens, em grande parte, eram soldados debilitados por outros confrontos, principalmente no front russo, e até por prisioneiros de guerra. Havia, portanto, uma divisão para cada 90 quilômetros, quando Rundstedt dizia que, num plano ideal, ele deveria contar com uma para cada 5 quilômetros. Em 1944, na França, o Eixo contava com soldados de 26 diferentes nacionalidades. A confusão era grande. Quando assumiu a função de inspecionar e melhorar esta linha de defesa, sob o comando de Rundstedt, em novembro de 1943, Rommel ficou inconformado com o que viu e começou uma corrida contra o tempo para minimizar os furos da longa barreira alemã.

O general estabeleceu um plano para criar um sistema complexo de obstáculos nas praias, que impedisse a passagem de barcos de fundo chato. Também queria lançar ao mar 50 milhões de minas e transformar as praias em grandes áreas de campos minados.

Faltou cimento

Mas os recursos não vieram. Só em uma das frentes, na costa francesa, Rommel recebeu 10 mil dos 10 milhões de minas que requisitou. No final de maio de 1944, a maior parte dos pontos fortificados estava desprotegida. Faltou cimento para terminar muitas delas.

Mas o maior problema na organização da defesa do Eixo era outro. Consciente da superioridade aérea aliada, que fora decisiva em sua derrota na África, Rommel queria repelir os adversários na praia, ou se possível ainda no mar. Seu superior, por sua vez, pretendia concentrar suas forças em locais bem posicionados em terra, onde fosse possível repelir os aliados assim que eles conquistassem uma cabeça-de-praia – no fundo, o que ele pretendia era recriar a Batalha de Dunquerque, de quatro anos antes. O próprio Rundstedt havia comandado o Eixo naquela vitória que arremessara as tropas inglesas para o mar.

Depois de ouvir atentamente aos argumentos dos dois e de seu alto-comando (majoritariamente favorável a Rundstedt), Hitler não fez uma coisa nem outra. Ele acabou por dividir suas forças entre praia e terra. Foi a pior opção possível. Na madrugada de 6 de junho de 1944, o Dia D, Rommel estava nas proximidades de Ulm, na Alemanha, comemorando o aniversário de sua mulher, Lucie. Só conseguiu chegar à França por volta das 22h, quando os aliados já tinham 150 mil homens em cinco praias.

Duas unidades, a 12ª SS Panzer e a Panzer Lehr, estavam a caminho, e o que havia sobrado da 21ª Panzer estava contra-atacando a 3ª Divisão canadense nas proximidades de Caen. Batidos na praia, os alemães agora tinham de encarar uma luta de defesa em várias frentes, com recursos insuficientes e a mobilidade parcialmente comprometida pelos maciços ataques aéreos inimigos. A partir de 7 de junho, e pelos dez dias seguintes, a 6ª Divisão Aérea britânica se mostraria capaz de barrar todas as investidas alemãs. No dia 12, os aliados tomavam Carentan.

Mais uma vez, os canhões de 88 milímetros de Rommel fizeram grandes estragos contra as forças aliadas. Com frequência, o avanço britânico em direção ao sudeste de Caen foi interrompido por uns poucos tanques Mark VI Tiger – em um dos casos, nas proximidades de Villers-Bocage, um único tanque, sozinho, conseguiu afastar um grupo de veículos ingleses. Mas os aliados ressurgiam em quantidades espantosas. Diante do fantasma de outra derrota estrondosa, Rommel começou a questionar seriamente a capacidade de liderança de Hitler e a defender abertamente que a Alemanha pedisse um armistício que mantivesse ao menos uma pequena parte das conquistas realizadas até aquele momento. Em um encontro realizado no dia 26 de junho, ele e Rundstedt entraram em acordo quanto a isso e comprometeram-se a levar essa posição ao comando do Exército. Em conversas privadas, Rommel passou a comentar que preferia calar suas baterias de defesa e permitir que Churchill entrasse em Berlim a ver os soviéticos, a leste, entrarem primeiro em sua capital.

Pessimismo

No dia 29 de junho, em conferência com o Führer, Rommel defendeu seu ponto de vista. “O mundo inteiro se posicionou unido contra a Alemanha, e essa desproporção de forças...”, ele começou. Hitler interrompeu-o bruscamente e pediu que o marechal se ativesse a questões militares, e não políticas. Foi o que ele fez, até o final de sua explanação. Rommel finalizava com críticas severas à passividade da Força Aérea, a Luftwaffe, quando disse que não poderia deixar de insistir em discutir o futuro do país caso a guerra continuasse.

“É melhor você sair desta sala agora”, Hitler respondeu. Os dois nunca mais se viram. Rundstedt detestava os nazistas, mas não continuou a insistir no assunto.Foi depois substituído pelo general Günther von Kluge. Desanimado, o marechal voltou ao campo de batalha, onde passou a fazer mais questão ainda de acompanhar de perto suas tropas. Ele parecia estar em todo lugar. Ao general Kluge, alertou, em relatório escrito em 5 de julho, que apenas 12 divisões estavam tentando conter todo o front, onde 40 divisões aliadas se movimentavam. Desde o Dia D, o Eixo perdera 117 mil homens, sendo 2,7 mil oficiais. Irritado com o pessimismo de Rommel, o general resolveu conferir a situação por conta própria. Dias depois, relatou a Hitler que a situação era realmente catastrófica.

Por causa dos ataques aéreos, os deslocamentos por terra sempre apresentavam riscos. Em 17 de julho, o carro em que Rommel estava foi atacado na França, no caminho entre Saint-Pierre e La Roche-Guyon. O marechal ficou gravemente ferido. Ele ainda estava inconsciente quando, no dia 20, Hitler sofreu um atentado a bomba. Em 25 de agosto, Paris era libertada. Rommel morreu em 14 de outubro. Em 2 de maio de 1945, Berlim era tomada pelos soviéticos.

Anzio

Em janeiro de 1944, o Eixo esteve muito mais perto de repelir as forças aliadas do que na Normandia. Na região italiana de Anzio, 60 quilômetros ao sul de Roma, os alemães, em minoria, aproveitaram-se da boa posição defensiva construída na linha Gustav para repelir com força a Operação Shingle, uma tentativa audaciosa de invasão. Os aliados usaram 5 cruzadores, 24 destróieres, 238 lanchas de desembarque, 5 mil veículos terrestres e 40 mil soldados. O primeiro ataque aconteceu em Monte Cassino, no dia 16, e forçou o comandante da linha Gustav, o general Heinrich von Vietinghoff, a pedir reforços. O comandante Albert Kesselring destacou de Roma duas divisões, a 29ª e a 90ª. No dia 22, começaram os desembarques em massa. Três dias depois, três divisões cercavam e atacavam a cabeça-de -praia. Posteriormente, o responsável pela ação, o general John P. Lucas, seria muito criticado por não se movimentar contra Roma mais rapidamente, já que a cidade estava sem duas divisões, levadas para a linha Gustav. Por causa da lentidão, Lucas perdeu o efeito surpresa e expôs-se aos contra-ataques alemães. Ainda assim, graças à superioridade militar, os aliados foram capazes de avançar contra a capital italiana, que foi ocupada em 5 de junho.


Tópicos Relacionados

O Mais Longo dos Dias



Revisionistas desafiam a estória do Dia-D



Os Alemães na Normandia



Erwin Rommel: Um nobre demônio


http://epaubel.blogspot.com.br/2017/02/sgm-erwin-rommel-um-nobre-demonio.html

USS Liberty: A trapalhada letal de Israel

Mariana Weber


Era o quarto dia do conflito que mais tarde ficaria conhecido como a Guerra dos Seis Dias. Israel já aniquilara a força aérea de seus oponentes árabes e tomara territórios como a península de Sinai. Ali perto, a cerca de 25 quilômetros da costa, um navio espião americano patrulhava o Mar Mediterrâneo. Apesar de os Estados Unidos não estarem envolvidos oficialmente nas hostilidades, a embarcação foi atacada por jatos e barcos torpedeiros, que – soube-se mais tarde – pertenciam às forças armadas israelenses.

Sob o fogo de metralhadoras, foguetes, bombas de napalm e torpedos, 34 dos 290 homens a bordo do USS Liberty morreram naquela tarde de 8 de junho de 1967. Outros 171 ficaram feridos. Os sobreviventes seguiram com o navio perfurado em mais de 800 pontos, por 17 horas, até encontrarem socorro.

Israel logo assumiu a autoria do ataque, pedindo desculpas e informando que havia confundido a embarcação com um navio egípcio. Tripulantes do Liberty, no entanto, insistem em afirmar que a investida foi deliberada, pois o navio ostentava uma grande bandeira americana e havia sido sobrevoado por jatos israelenses várias vezes antes do bombardeio. A passagem dos aviões, disseram os sobreviventes, não chegou a causar preocupação – afinal, eles eram aliados.

Mas o ataque foi uma grande surpresa. O tenente James Ennes Jr. tinha acabado de cumprir seu turno como vigia no convés quando o bombardeio começou. “Inicialmente, não pensamos que os agressores eram israelenses, já que os aviões não eram identificados, e Israel dizia-se amigo da América”, conta Ennes, atingido por disparos de metralhadora, logo no início da ofensiva. “Fui gravemente ferido na primeira rajada e tive a perna esquerda quebrada. Passei o ano seguinte me recuperando.”

A investida de dois Mirages III pegou a tripulação desprevenida. Foguetes e projéteis de metralhadora de 30 milímetros atingiram o navio da proa à popa, matando e ferindo tripulantes, ateando fogo em barris de combustível e destruindo antenas. Aos Mirages juntaram-se dois Super-Mysteres, que descarregaram bombas de napalm. Quando a esquadrilha se afastou, o navio estava em chamas.

Ennes contou o que viu e ouviu de outros sobreviventes no livro Assault on the Liberty, lançado em 1980: “O tenente Toth, ainda carregando meus relatórios de observação não enviados, recebeu um míssil, que transformou seus restos mortais em detritos fumegantes. O marinheiro Salvador Payan permaneceu vivo com dois nacos de metal afundados em seu crânio. O guarda-marinha David Lucas foi atingido por um fragmento de míssil no cerebelo”, escreveu.

Ferido na perna, o comandante do navio, capitão William Loren McGonagle, continuou a coordenar as atividades da tripulação e a distribuir ordens. Ele permaneceria na ponte de comando até o navio estar fora de perigo e os feridos serem transferidos para um destróier da Sexta Frota Americana. Pela atuação no episódio, receberia uma medalha de honra. Na sala de máquinas, homens trabalhavam agachados no escuro, sob chuvas de metal em brasa e cercados por fumaça, para manter o Liberty navegando. Uma equipe combatia focos de incêndio enquanto outra consertava equipamentos para enviar um pedido de socorro – todas as antenas tinham sido danificadas. Decodificadores eram destruídos manualmente e documentos secretos queimavam dentro de uma cesta de lixo. Feridos eram carregados para uma enfermaria improvisada.

Quando o ataque aéreo cessou, três barcos torpedeiros aproximaram-se e pediram que o Liberty se identificasse. O capitão McGonagle deu ordem para que seus homens não atirassem e, na ausência de outros recursos de comunicação, tentou sinalizar com uma lâmpada de mão. Sem ouvir o comandante, um marinheiro abriu fogo com uma das quatro metralhadoras fixas que compunham o arsenal de defesa do Liberty. Outra arma também disparou, num provável acidente causado por uma explosão de munição. A esquadra israelense respondeu com torpedos. Um deles abriu um rombo no lado direito do casco do navio, atingindo em cheio a área reservada do setor de inteligência.

De acordo com a versão de Israel, foi só ao chegar mais perto do navio que um dos torpedeiros notou marcações dos Estados Unidos em um bote salva-vidas. Em seguida, viu no casco a inscrição GTR-5 (General Technical Research Ships) – embarcações equipadas com escuta eletrônica para coletar dados de inteligência costumavam ser chamadas de navios de pesquisas técnicas gerais. Era hora de enviar desculpas ao escritório da Marinha americana em Tel-Aviv.

Trapalhadas e confusões

Segundo as investigações israelenses, uma série de coincidências, mal-entendidos e trapalhadas levou ao ataque do Liberty. Para começar, a identificação do navio americano feita de manhã por jatos israelenses acabou mais tarde apagada dos quadros de controle. A explosão de um depósito de munição em El Arish, no Sinai, foi confundida com um bombardeio vindo do mar. Barcos torpedeiros foram enviados para investigar e, ao avistarem o navio, pediram ajuda área.

Os pilotos dos jatos dizem não ter visto nenhuma bandeira americana. Seguiram então a orientação do chefe das Forças Armadas, Yitzhak Rabin – que décadas depois se tornaria primeiro-ministro –, para afundar qualquer embarcação desconhecida. Depois de atacar, um deles notou a presença de letras ocidentais no Liberty, o que descartaria a possibilidade de se tratar de um navio árabe. Um aviso de cessar-fogo chegou a ser dado, mas os torpedeiros dizem não tê-lo recebido. Quando estes perceberam as inscrições, o estrago já estava feito.
O lado americano também contribuiu com sua parcela de confusão. Uma ordem para o Liberty afastar-se da costa ficou presa no sobrecarregado sistema de comunicações da Marinha e não chegou a tempo ao capitão McGonagle, que manteve o plano de circular perto do litoral.

A exata natureza da missão do Liberty até hoje não foi revelada, mas acredita-se que estivesse ligada à espionagem das relações entre egípcios e soviéticos – havia especialistas em árabe e russo a bordo, e nenhum em hebraico. “Não tenho dúvida de que a missão estava relacionada ao monitoramento regular da Marinha soviética no Mediterrâneo, ainda que pudesse haver também algo específico”, diz Samuel Feldberg, cientista político do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri).

Quando o inquérito israelense concluiu que não havia como apontar culpados pelo incidente, as autoridades americanas aceitaram o resultado. Veteranos do Liberty, no entanto, ainda lutam para que o caso seja reconhecido como um crime de guerra. “A tripulação sentiu que a audiência da Corte Naval (feita nos Estados Unidos) foi manipulada”, diz John Borne, professor de História Americana que escreveu uma tese sobre o caso. “Eles querem uma nova audiência, mas até agora não conseguiram”, afirma.

De acordo com os acusadores, os motivos para Israel atacar deliberadamente variam desde uma tentativa de apagar provas sobre assassinatos de prisioneiros até uma manobra para evitar que os americanos obtivessem informações sobre a ofensiva contra as colinas de Golã, na Síria.

Após o ataque, o Liberty navegou até Malta, seguido por barcos encarregados de resgatar ou destruir qualquer papelada que pudesse ter caído pelo caminho. No porto, passou por uma faxina para a retirada de corpos e documentos e sofreu reparos que o permitiram voltar para os Estados Unidos. Em 1968, Israel pagou cerca de 7 milhões de dólares às famílias das vítimas e aos feridos e, 12 anos depois, outros 6 milhões de dólares pelos danos materiais. Em 1970, o navio de 7 725 toneladas foi vendido como sucata.

Participação americana: somente diplomática?

Pelo menos oficialmente, os Estados Unidos não tiveram envolvimento efetivo na Guerra dos Seis Dias – sua participação resumiu-se à diplomacia, que tentou evitar o início do conflito com a formação de um comboio internacional para atravessar os estreitos de Tiran, fechados pelos egípcios. Mas, antes de a proposta vingar, Israel já tinha atacado o Egito.

Apesar de os envolvidos negarem, não faltaram especulações sobre uma possível interferência dos Estados Unidos a favor de Israel, seja com o fornecimento de dados de inteligência, seja com o auxílio de aviões. Segundo o cientista político Samuel Feldberg, a presença do Liberty perto da zona de combate não é indício desse envolvimento. “O fato de o navio estar na região era corriqueiro. O Mediterrâneo era uma área de intensa atividade na Guerra Fria”, afirma.

Ação fulminante, tensão duradoura

O quadro geopolítico do Oriente Médio foi radicalmente modificado pela Guerra dos Seis Dias, que resultou na anexação por Israel, em junho de 1967, da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, das Colinas de Golã e da península de Sinai. Pouco antes do conflito, as hostilidades cresciam na fronteira israelense com a Síria, palco de combates aéreos cada vez mais frequentes. Um acordo entre os exércitos do Egito e da Jordânia era assinado e, na península de Sinai, o presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, anunciou o fechamento dos estreitos de Tiran, uma passagem vital para Israel. Foi o que bastou para que, em 5 de junho, os israelenses iniciassem uma ofensiva preventiva contra o Egito, destruindo a maior parte de sua força aérea ainda estacionada em solo. A Jordânia também se envolveu e acabou derrotada. Depois foi a vez da Síria.

Em seis dias, Israel saiu vitorioso e fortaleceu-se como um aliado dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais contra os países alinhados ao regime soviético no Oriente Médio. A tensão na região, no entanto, estava longe de acabar, e muitas das disputas das décadas seguintes tiveram relação com os territórios ocupados em 1967.


Tópico Relacionado

Como o Extremismo Sionista tornou-se um problema para a Espionagem britânica


http://epaubel.blogspot.com.br/2014/12/como-o-extremismo-sionista-tornou-se-um.html

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Constantinopla, 1453: Desaba a Idade Média

Natalia Yudenitsch


Os presságios para os bizantinos no dia 24 de maio de 1453 eram os piores possíveis. Nesse dia, um eclipse lunar lembrou a todos os que resistiam ao cerco otomano, imposto pelo sultão Maomé II desde o dia 6 de abril, que uma antiga profecia estava para se cumprir. A lenda dizia que a bela Constantinopla (atual Istambul, na Turquia), a joia do Oriente e capital do Império Bizantino, resistiria a seus inimigos enquanto a Lua brilhasse firme no céu. Para o desespero da população, os sinais da desgraça que estava para se abater sobre os homens do imperador Constantino XI não pararam por aí. No dia seguinte, um ícone da Virgem Maria se espatifou no chão durante uma procissão e, na sequência, uma chuva de granizo inundou as ruas, encharcando os mais de 22 km de muralhas que protegiam a cidade.

Para muitos, a culpa era da política de reaproximação com as nações católicas do Ocidente promovida pelo imperador e iniciada ainda no reinado de seu pai, João VIII. Preocupado com o isolamento de seu império desde o cisma entre as igrejas católica e ortodoxa, em 1054, Constantino não podia imaginar que, ao exigir uma anuidade de Maomé para sustentar um príncipe otomano prisioneiro em Constantinopla, estava dando início a sua própria destruição. Pois o sultão considerou a cobrança da taxa uma afronta pessoal e imediatamente começou os preparativos para iniciar o cerco.

A princípio, a população acreditava que a capital resistiria sem problemas. Localizada sobre o estreito de Bósforo, que limita os continentes asiático e europeu, em direção à Anatólia, e rota de ligação ente Turquia e Ásia e entre os mares Negro e Mediterrâneo, a cidade batizada em homenagem ao imperador Constantino I já havia resistido a mais de 20 ataques – de hunos, búlgaros, russos, germânicos e avaros. Só havia caído uma vez, durante a Quarta Cruzada, em 1204, quando foi saqueada e incendiada por três dias, mas foi retomada pelos bizantinos em 1261, que dominaram toda a península Balcânica. “A verdade, contudo, é que o império havia sobrevivido, porém bem mais pobre e sem o apoio da Igreja Católica, limitando seus territórios à cidade de Constantinopla e a uma porção do Peloponeso”, diz Jill Diana Harries, professora de história antiga da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Diante do inevitável embate, Constantino decidiu apelar à Europa católica, com quem vinha costurando acordos desde sua coroação, em 1449. Recebeu muitas promessas que, se fossem cumpridas a tempo, poderiam ter mudado o rumo da história. O papa Nicolau V disse que mandaria navios recheados de mantimentos e armas, mais a presença do cardeal Isidro com 300 arqueiros napolitanos. Já os venezianos se comprometeram com o envio de cerca de 900 soldados e mais 16 navios com suprimentos. Enquanto os bizantinos esperavam, os otomanos – para quem a tomada de Constantinopla era uma estratégica para o domínio dos Bálcãs e da parte oriental do Mediterrâneo – reuniam um exército de quase 100 mil homens. “As forças otomanas contavam com um grande bônus: os cerca de 12 mil janízaros, guerreiros de elite dos sultões. Em sua origem, eram crianças cristãs capturadas pelos turcos como escravas, convertidas ao islamismo e treinadas para a guerra”, conta Harries.

A ajuda que não vinha

Em paralelo, o sultão Maomé ordenou a construção de uma fortaleza ao norte de Constantinopla. Isso porque ali ficava o calcanhar de Aquiles da cidade: as muralhas ao longo do Corno de Ouro, o canal que separava Constantinopla da vila de Pera e que os bizantinos haviam fechado com uma enorme corrente de ferro para controlar a aproximação de navios. A recém-construída fortaleza otomana tinha por objetivo exatamente bloquear a ajuda que viria das duas entradas do mar de Mármara, que separa os mares Negro e Egeu, valendo-se para tanto de três canhões no ponto mais estreito do Bósforo e mais de 120 navios em Dardanelos e Mármara.

Quando em 6 de abril de 1453 o canhão de 8 m dos turcos deu seu primeiro disparo, Constantino soube que o cerco começara. E começara mal, já que as muralhas de Constantinopla não estavam preparadas para resistir a esse tipo de ataque e começaram a ceder em vários pontos, sendo reconstruídas diariamente após o anoitecer. Ainda esperando a ajuda do Ocidente chegar, os bizantinos receberam uma injeção de ânimo após duas vitórias sucessivas. Na primeira, em 12 de abril, conseguiram expulsar o almirante búlgaro Suleimã Balthoglu do Corno de Ouro. No dia 18, repetiram a façanha, contendo os otomanos no vale do Licos ao usar principalmente o fogo grego, uma substância que se inflamava ao contato com a água (provavelmente cal viva) e era lançada das muralhas sobre o inimigo. Como resultado, a primeira parte da ajuda cristã conseguiu chegar por mar no dia 20. “Essa derrota enfureceu o sultão, que humilhou Baltoghlu publicamente e o dispensou de seu serviço”, fala Gregory Warden, historiador e professor da Universidade Southern Methodist do Texas, nos EUA.

A essa altura, o resto da ajuda prometida pelas nações cristãs era essencial – só que não havia sinal de navios no horizonte. Constantinopla estava chegando ao fim de sua capacidade de resistência. Vendo as dificuldades em controlar o Corno de Ouro, Mohamed agiu diferente: mandou construir, em maio, uma estrada de rolagem e puxar seus navios por terra, onde seriam reposicionados de forma a impedir os consertos nas fortificações da cidade.

Constantino ordenou então um contra-ataque. “Mas o sultão mantinha espiões bem treinados, que localizaram os invasores e os mataram antes que o ataque fosse efetivado. Em represália, o imperador bizantino decapitou mais de 200 prisioneiros otomanos, atirando seus corpos pelas muralhas”, diz Warden. Sentindo a fraqueza de seu inimigo, o sultão fez uma proposta. Se Constantino entregasse a capital, os cristãos seriam poupados. Magnânimo, Maomé ainda deu uma alternativa: o pagamento em dinheiro. Sem caixa desde o saque realizado pelos cruzados, o imperador foi obrigado a dizer não à última chance de paz que teria.

O dia da queda

A recusa de Constantino foi o fator decisivo para o sultão decretar que, na manhã de 29 de maio, Constantinopla cairia. Na noite anterior, os otomanos descansaram. Um silêncio inédito nos 54 dias de cerco se fez sobre a cidade. “Para tentar quebrar o clima de mal-estar e desânimo que se abatia sobre a população, os sinos das igrejas da cidade badalaram sem descanso durante todo o dia”, afirma Warden. Quanto o ataque turco veio, os bizantinos lutaram bravamente usando suas melhores armas e homens. A estratégia otomana, porém, era outra. Depois de cansarem seus inimigos por horas, colocaram em ação o exército turco profissional, mais os temidos janízaros. Junto com eles, veio o gigantesco canhão que iniciara a batalha.

No primeiro tiro, um pedaço da muralha veio ao chão. “Contudo, os turcos conseguiram encontrar uma brecha no lado noroeste da muralha e forçaram a entrada na cidade, causando desordem entre os soldados gregos que lutavam ao lado de Constantino. Acredita-se que o último imperador bizantino pereceu nesse ataque, depois de ter lutado até onde podia para defender a cidade”, fala Steven A. Epstein, professor de história antiga da Universidade do Kansas, nos EUA. O estrago, porém, era irreversível. Em pouco tempo, os bizantinos foram esmagados pela força otomana. Constantinopla havia finalmente caído. O que veio a seguir foi o terror. Por cerca de dois dias, uma das cidades mais importantes do mundo medieval foi pilhada, e seus cidadãos, mortos ou estuprados, enquanto os sobreviventes tentavam escapar por mar. O saque foi tamanho que Maomé ordenou o encerramento do butim por temer que nada sobrasse de sua nova conquista. Num gesto de triunfo, o sultão foi ao coração cristão de Constantinopla, a Catedral de Santa Sofia, e a consagrou como mesquita. A cidade era, agora, a capital de um novo império.

Novos tempos

Quando a notícia da queda chegou ao Ocidente, muitos duvidaram de sua veracidade. A fama de suas impenetráveis muralhas era conhecida, e a ideia de que não pudesse resistir aos turcos chocou a Europa. Os maiores problemas, entretanto, eram de ordem prática. As rotas de comércio entre a Europa e a Ásia estavam agora fechadas e sob o domínio dos muçulmanos de Maomé II. E era pelo Bósforo, e por Constantinopla, que passavam todos os mercadores que vinham da China e da Índia, trazendo as preciosas especiarias e os artigos de luxo tão essenciais ao continente. A opção encontrada pelos europeus foi pensar em rotas alternativas. Quem se beneficiou com essa ideia foram dois países que tinham uma posição estratégica junto ao oceano Atlântico e à África: Portugal e Espanha.

Começava então uma era de explorações e a corrida por caminhos diferentes que levassem às Índias. Foi nesse contexto que Vasco da Gama fez sua travessia, em 1498, e Cristóvão Colombo chegou, em 1492, ao continente americano, financiados pelos espanhóis. Nascia o sonho de civilização e ocupação do chamado Novo Mundo, enquanto o Império Bizantino e sua cultura clássica morriam. “Os historiadores consideram a queda de Constantinopla não só como o fim da Idade Média mas também o início do Renascimento, que já era um fato na Itália. Esse período veio a ser conhecido como a Era dos Descobrimentos”, conta Epstein. Como lembrança do triste fim do cerco, a terça-feira, o dia da queda, passou a ser considerada um dia de má sorte entre os sobreviventes, em especial os gregos.

Vlad III, o verdadeiro Drácula

Quando se fala de Conde Drácula, o famoso bebedor de sangue criado pelo escritor irlandês Bram Stoker em 1897, nem sempre se sabe que o mito se origina na Idade Média. A inspiração para o nobre vampiro talvez seja até mais macabra do que o personagem a quem inspirou – por ser verdadeira e ter deixado um rastro de sangue real por onde passou. A história, como a ficção, começa na pequena cidade de Sighisoara, na Transilvânia, na Romênia. Ali, em dezembro de 1431, nasceu Vlad III Drácula, mais conhecido como Vlad, o Empalador. Coroado em 1448 como rei da Valáquia (Romênia), Vlad manteve seu reinado de terror ao se distanciar das políticas do Império Otomano. Sua fama, porém, veio de seus hábitos e da forma peculiarmente cruel com que tratava seus inimigos e qualquer um que o desagradasse. Seu estilo predileto de tortura, que o fez conhecido no mundo todo, era a morte lenta e extremamente dolorosa por empalamento. As vítimas eram amarradas e estacas não muito afiadas e cobertas de óleo eram introduzidas em seus corpos – no abdômen, no ânus ou no estômago – e em seguida puxadas por cavalos até que saíssem pela boca. Certa vez, mais de 20 mil mercadores e boiardos de Barsov, na Transilvânia, acabaram sendo empalados em uma floresta, cujas árvores foram cortadas e afiadas especialmente para esse propósito. O rei festejou entre os corpos agonizantes durante toda a noite, ocorrida em 1459. Essa não era a única forma de morrer nas mãos de Vlad. Soldados, súditos, inimigos, velhos, camponeses, mulheres e crianças poderiam sofrer dos mais variados jeitos. Esfolamento em vida, escalpo, enforcamento, mutilação, envenenamento, inserção lenta de pregos no crânio e até a prática de cozinhar em água fervente seus desafetos eram hábitos comuns durante seu reinado. Conhecido por apreciar seu pão molhado no sangue de porco – ou de suas vítimas, como dizia a população temerosa –, Vlad III era movido pela sede de vingança contra as conspirações que levaram ao assassinato de seu pai e irmão. Logo que assumiu o trono, deu uma grande festa, para a qual convidou todas as famílias nobres que acreditava estarem envolvidas na trama, comum no reinado da Valáquia, já que a coroa era passada após uma eleição feita pelos boiardos e não de forma hereditária, como na Europa. Ao fim, ele prendeu todos os seus convidados e os forçou a um trabalho escravo ao qual ficaram presos por meses: a reconstrução de seu castelo. Pouquíssimos nobres sobreviveram à prova, obrigados a trabalhar noite e dia, sem chance de trocar as roupas finas que iam se rasgando. Após sua morte, durante uma batalha contra os turcos próxima a Bucareste, em 1476, Vlad foi popularizado por centenas de histórias e lendas espalhadas por toda a Europa, especialmente na Rússia e na Turquia. Apesar da falta de dados que comprovem sua veracidade, diversos panfletos circulavam entre a população contando casos como o do cálice dourado, que o rei sanguinário teria colocado em praça pública para provar a eficácia de suas leis. O medo das consequências era tanto que se diz que o cálice nunca saiu do lugar.


Tópicos Relacionados

As Cruzadas: Uma História Completa



Drácula: Fato, Lenda e Ficção



Kazária: o império judeu esquecido


http://epaubel.blogspot.com.br/2015/04/kazaria-o-imperio-judeu-esquecido.html

sexta-feira, 26 de maio de 2017

[SGM] Afrika Korps: Sangue, óleo e areia

Tiago Cordeiro



A campanha militar no norte da África tinha importância pequena para a Alemanha, relativa para a Itália e gigantesca para a Inglaterra. Enviado para a Líbia em fevereiro de 1941, Rommel era pouco mais do que um gesto de boa vontade de Hitler para com Mussolini, que havia começado a lutar na região em junho de 1940, depois que forças britânicas ocuparam o forte italiano Capuzzo. Ao assumir o comando do destacamento Afrikakorps, o alemão recebeu uma orientação clara: seu objetivo era apenas sustentar as posições italianas.

Naquele momento, e graças a uma ofensiva inglesa batizada de Operação Compasso, o Exército fascista estava estacionado no território de Cirenaica, no noroeste da Líbia. E ali deveria ficar. Não seria assim tão fácil, já que nos três meses anteriores os italianos tinham perdido 400 tanques e 130 mil de seus homens haviam sido capturados.

Pois Rommel transformou essa missão limitada em uma grande campanha de ofensiva no deserto. Diante dos ingleses, conhecedores do local e dispostos a manter terras que controlavam desde o século 19, ele, que a época já era conhecido pela alcunha de Raposa do Deserto, avançou até a fronteira com o Egito.

Em junho de 1942, depois do avanço impiedoso contra as cidades líbias de Gazala e Tobruk, ele parecia capaz de chegar ao canal de Suez e criar para a Alemanha uma nova base de apoio para o front soviético – além de ocupar os campos de petróleo do Oriente Médio e virtualmente acabar com o combustível aliado. À força, a Raposa queria fazer com que sua área de atuação ganhasse mais peso na estratégia do Führer, que naquele momento estava ocupado demais com o front russo.

Criado oficialmente em 12 de fevereiro de 1941, o Afrikakorps era uma força expedicionária composta, a princípio, apenas pelo 5º Regimento Panzer e por várias outras unidades menores, como a Brigada de Pára-Quedistas Ramcke. Também contava com oito divisões italianas, sendo três de infantaria. Alguns meses depois, somou-se também a 15ª Divisão Leve alemã. Apesar de, oficialmente, estar diretamente subordinado ao Exército italiano, o alemão agiu por conta própria. Em 24 de março, Rommel desobedeceu todas as ordens e avançou contra as forças aliadas Em poucos dias, retomou a região da Cirenaica. Em junho de 1941, ele já estava às portas de Tobruk – apenas para ser rechaçado.

Reorganizados e contando com divisões dos Exércitos da África do Sul, da Nova Zelândia, da Índia e de um grupo de franceses sob a liderança de Marie-Pierra Koenig, os aliados reagiram e retomaram boa parte do território recém-recuperado por Rommel. Em 30 de dezembro, mais uma vez o Eixo estava estacionado em El Agheila.

O ataque

A partir de janeiro de 1942, e após receber 55 tanques e 126 mil toneladas de suprimentos, a Raposa lançou uma nova ofensiva, que dessa vez garantiria a tomada de Gazala e Tobruk. Único porto onde podiam ser ancorados grandes navios em todos os 1,8 mil quilômetros de costa entre Sfax, na Tunísia, e Alexandria, no Egito, Tobruk era de grande importância em um campo de batalha em que grandes distâncias precisavam ser percorridas em regiões áridas, e a falta de gasolina e mantimentos era problema dos mais sérios. Como se não bastasse, a cidade também abrigava a fortaleza mais formidável de toda a África, Got el Ualeb. Com 27 quilômetros de fortificações duplas, havia sido modernizada pelos italianos em 1935. Em seus arredores, que os alemães voltariam a tentar invadir, havia 900 tanques ingleses, contra 320 germânicos e 240 italianos.

E mais: a região era protegida pela Linha Gazala, que descia de Gazala até Bir Hakeim cercada por grandes campos minados. Essa linha criava novas dificuldades na abordagem de ataque.

Na noite de 25 de maio, bombardeiros germânicos, principalmente Messer-schmitt Me-109, agiram contra posições britânicas cruciais. O ataque por terra ao primeiro alvo, Gazala, começou a 26 de maio de 1942. Liderados pelo general alemão Ludwig Crüwell, duas corporações de infantaria italianas e dois regimentos alemães da 15ª Brigada de Rifle, dirigiram-se à cidade usando a linha principal de defesa aliada. Enquanto esses homens eram pesadamente repelidos, Rommel conduziu três colunas de 10 mil carros cada até o flanco sul, a 54 quilômetros de Tobruk.

Provavelmente por causa de interceptação inglesa do sistema de comunicação alemão, o avanço-surpresa foi detectado a tempo pelos aliados. Ao chegar a Bir Hacheim, ao sul, Rommel encontrou forte resistência e perdeu um terço de seus tanques. Teve de recuar e fazer falsos movimentos para distrair os inimigos e ganhar tempo. Quando o combustível estava chegando ao fim e uma tragédia parecia iminente, Crüwell rompeu a barreira inglesa e chegou em socorro. No final de maio, Bir Hacheim foi cercada. Rommel seguiu rumo ao norte. No dia 2 de junho, o forte de Got el Ualeb caiu. Bir Hacheim só tombaria mesmo em 10 de junho, depois que Rommel mandou para lá o general Fritz Bayerlein para comandar as tropas. No dia 13, a 90ª Divisão Leve estava em El Adem, onde começou uma guerra de tanques feroz no deserto aberto. Atacados de surpresa por armas anticarro, os ingleses foram derrotados. No dia 17, começava a investida em três partes contra Tobruk.

Vitória espetacular

Apoiado pela 132ª Divisão do Exército italiano, o Afrikakorps seguiu em direção às bases da 7ª Divisão de Tanques britânica, em Gambut. A manobra sugeria que Rommel seguiria em direção ao Egito e deixaria Tobruk intocada, mas cercada. Porém, no dia 19, com o fim da resistência na área e o reabastecimento dos veículos, os alemães viraram em direção leste e começaram a marchar novamente contra a cidade portuária. No dia 20, começava então a terceira fase da ofensiva, o ataque em si. A ação começou em El Duda e seguiu a mesma estratégia que Rommel gostaria de ter colocado em prática sete meses antes.

Depois que 588 vôos alemães e 177 italianos bombardearam o alvo, os tanques deslocaram-se rapidamente e com uma visibilidade mínima no meio das tempestades de areia – ainda assim, o uso de rádio foi limitado, para impedir que, como acontecera durante a movimentação contra Bir Hacheim, as comunicações fossem interceptadas; as únicas transmissões permitidas foram usadas para repassar informações que confundissem os britânicos. Ao fim do dia, e graças, novamente ao uso de canhões de 88 milímetros como artilharia antitanques, Rommel e seus 113 tanques haviam destruído 230 dos 300 tanques ingleses. A ação começara às 6h35. Às 16h, os ingleses já haviam queimado todos os documentos importantes e parte de suas reservas de combustível. Às 20h, o alemão estava dentro da fortaleza, onde estavam 33 mil prisioneiros, 2 mil veículos e 5 mil toneladas de comida. Toda a região estava cercada por densa fumaça preta. Ainda assim, havia sobrado para os alemães 1,4 mil toneladas de combustível.

Foi a segunda maior derrota inglesa na Segunda Guerra. Pior do que Tobruk, só a campanha de Cingapura, ocorrida em fevereiro do mesmo ano de 1942, quando 85 mil homens se renderam diante de tropas japonesas numericamente inferiores. Sobre o fiasco na África, em suas anotações, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill comentaria, desolado: “Derrota é uma coisa. Humilhação é outra”. Hitler, em compensação, daria a Rommel o título de marechal – aos 50 anos de idade, ele passava a ser o mais jovem militar alemão a chegar tão alto na hierarquia. Quando recebeu a notícia do reconhecimento de seu premiê, o comandante, vaidoso, ficou satisfeito, mas reagiu com desdém: “Eu preferia que ele tivesse me mandado mais uma divisão”. Enquanto os ingleses remoíam a derrota e o Führer comemorava a vitória, Rommel levou seus homens até El Alamein, a 100 quilômetros de Alexandria. Chegou ali no dia 30, apenas 10 dias depois da vitória acachapante. Chegou com homens exaustos e apenas 12 carros de combate.

Essa correria foi feita a despeito das ordens expressas de Mussolini de que ele não avançasse (o premiê italiano acabaria sendo convencido por Hitler dias depois). A pressa tinha sua justificativa. Acostumado a se aproveitar das brechas abertas pelos adversários abatidos por derrotas, o marechal não queria perder mais tempo do que já tinha perdido – há mesmo quem diga que voltar para Tobruk, em vez de seguir diretamente em direção a Suez, foi um erro de estratégia. “Não houve erro. Nem mesmo ele ousaria avançar para o Egito com aquela posição em sua retaguarda”, afirma o coronel britânico Desmond Young, que lutou contra Rommel na África e, ao final da guerra, impressionado com as façanhas do adversário, escreveu uma biografia do alemão, publicada em 1950.

Neste livro, ele diz que, durante a ocupação de Tobruk, o futuro marechal chegou ao auge da genialidade. “Ele comandou seus homens com brilhantismo, manteve a todos com alto nível de disposição, apesar das dificuldades iniciais, e alcançou uma conquista extraordinária tirando o melhor do armamento que tinha em mãos”, diz Young. A derrota inglesa provocou uma mudança de atitude. Foi nesse momento que o general Bernard Montgomery assumiu o comando das forças aliadas na região. Na África e na França, Montgomery iria se tornar uma pedra no sapato de Rommel.

Avanço impiedoso

 26 de maio de 1942: A ofensiva começa quando o general alemão Ludwig Crüwell se aproxima pelo norte com divisões italianas e alemãs
 27 de maio: Pelo sul, Rommel segue via Bir Hacheim
 2 de junho: O forte inglês em Got el Ualeb cai e 3 mil homens são feitos prisioneiros
 Campos minados ingleses barram o fornecimento de suprimentos para os Panzers por vários dias
 A 22ª Brigada Blindada britânica contra-ataca
 10 de junho: Depois de duas semanas de ataques, a Brigada Francesa livre, comandada por Marie-Pierre Koenig, retira-se de Bir Hacheim
 A 201ª Brigada inglesa é atacada por bombardeiros Stukas e tanques na região de Knightsbridge
 14 de junho: Seguindo primeiro a leste e depois a sudoeste, a 50ª Divisão britânica escapa dos ataques
 Na tentativa de impedir o avanço alemão, canhões antitanques sul-africanos e forças do Regimento Royal Scots do Exército britânico sofrem perda severas
 Divisões Panzers dirigem-se à fronteira com o Egito e depois dão a volta e atacam Tobruk pelo sul
 21 de junho: Rommel entra em Tobruk, faz 33 mil prisioneiros e começa a preparar o próximo ataque, agora contra El Alamein


Tópicos Relacionados

Afrika Korps


O “Lawrence da Arábia” Alemão

 


Erwin Rommel: Um nobre demônio