quinta-feira, 1 de junho de 2017

Constantinopla, 1453: Desaba a Idade Média

Natalia Yudenitsch


Os presságios para os bizantinos no dia 24 de maio de 1453 eram os piores possíveis. Nesse dia, um eclipse lunar lembrou a todos os que resistiam ao cerco otomano, imposto pelo sultão Maomé II desde o dia 6 de abril, que uma antiga profecia estava para se cumprir. A lenda dizia que a bela Constantinopla (atual Istambul, na Turquia), a joia do Oriente e capital do Império Bizantino, resistiria a seus inimigos enquanto a Lua brilhasse firme no céu. Para o desespero da população, os sinais da desgraça que estava para se abater sobre os homens do imperador Constantino XI não pararam por aí. No dia seguinte, um ícone da Virgem Maria se espatifou no chão durante uma procissão e, na sequência, uma chuva de granizo inundou as ruas, encharcando os mais de 22 km de muralhas que protegiam a cidade.

Para muitos, a culpa era da política de reaproximação com as nações católicas do Ocidente promovida pelo imperador e iniciada ainda no reinado de seu pai, João VIII. Preocupado com o isolamento de seu império desde o cisma entre as igrejas católica e ortodoxa, em 1054, Constantino não podia imaginar que, ao exigir uma anuidade de Maomé para sustentar um príncipe otomano prisioneiro em Constantinopla, estava dando início a sua própria destruição. Pois o sultão considerou a cobrança da taxa uma afronta pessoal e imediatamente começou os preparativos para iniciar o cerco.

A princípio, a população acreditava que a capital resistiria sem problemas. Localizada sobre o estreito de Bósforo, que limita os continentes asiático e europeu, em direção à Anatólia, e rota de ligação ente Turquia e Ásia e entre os mares Negro e Mediterrâneo, a cidade batizada em homenagem ao imperador Constantino I já havia resistido a mais de 20 ataques – de hunos, búlgaros, russos, germânicos e avaros. Só havia caído uma vez, durante a Quarta Cruzada, em 1204, quando foi saqueada e incendiada por três dias, mas foi retomada pelos bizantinos em 1261, que dominaram toda a península Balcânica. “A verdade, contudo, é que o império havia sobrevivido, porém bem mais pobre e sem o apoio da Igreja Católica, limitando seus territórios à cidade de Constantinopla e a uma porção do Peloponeso”, diz Jill Diana Harries, professora de história antiga da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Diante do inevitável embate, Constantino decidiu apelar à Europa católica, com quem vinha costurando acordos desde sua coroação, em 1449. Recebeu muitas promessas que, se fossem cumpridas a tempo, poderiam ter mudado o rumo da história. O papa Nicolau V disse que mandaria navios recheados de mantimentos e armas, mais a presença do cardeal Isidro com 300 arqueiros napolitanos. Já os venezianos se comprometeram com o envio de cerca de 900 soldados e mais 16 navios com suprimentos. Enquanto os bizantinos esperavam, os otomanos – para quem a tomada de Constantinopla era uma estratégica para o domínio dos Bálcãs e da parte oriental do Mediterrâneo – reuniam um exército de quase 100 mil homens. “As forças otomanas contavam com um grande bônus: os cerca de 12 mil janízaros, guerreiros de elite dos sultões. Em sua origem, eram crianças cristãs capturadas pelos turcos como escravas, convertidas ao islamismo e treinadas para a guerra”, conta Harries.

A ajuda que não vinha

Em paralelo, o sultão Maomé ordenou a construção de uma fortaleza ao norte de Constantinopla. Isso porque ali ficava o calcanhar de Aquiles da cidade: as muralhas ao longo do Corno de Ouro, o canal que separava Constantinopla da vila de Pera e que os bizantinos haviam fechado com uma enorme corrente de ferro para controlar a aproximação de navios. A recém-construída fortaleza otomana tinha por objetivo exatamente bloquear a ajuda que viria das duas entradas do mar de Mármara, que separa os mares Negro e Egeu, valendo-se para tanto de três canhões no ponto mais estreito do Bósforo e mais de 120 navios em Dardanelos e Mármara.

Quando em 6 de abril de 1453 o canhão de 8 m dos turcos deu seu primeiro disparo, Constantino soube que o cerco começara. E começara mal, já que as muralhas de Constantinopla não estavam preparadas para resistir a esse tipo de ataque e começaram a ceder em vários pontos, sendo reconstruídas diariamente após o anoitecer. Ainda esperando a ajuda do Ocidente chegar, os bizantinos receberam uma injeção de ânimo após duas vitórias sucessivas. Na primeira, em 12 de abril, conseguiram expulsar o almirante búlgaro Suleimã Balthoglu do Corno de Ouro. No dia 18, repetiram a façanha, contendo os otomanos no vale do Licos ao usar principalmente o fogo grego, uma substância que se inflamava ao contato com a água (provavelmente cal viva) e era lançada das muralhas sobre o inimigo. Como resultado, a primeira parte da ajuda cristã conseguiu chegar por mar no dia 20. “Essa derrota enfureceu o sultão, que humilhou Baltoghlu publicamente e o dispensou de seu serviço”, fala Gregory Warden, historiador e professor da Universidade Southern Methodist do Texas, nos EUA.

A essa altura, o resto da ajuda prometida pelas nações cristãs era essencial – só que não havia sinal de navios no horizonte. Constantinopla estava chegando ao fim de sua capacidade de resistência. Vendo as dificuldades em controlar o Corno de Ouro, Mohamed agiu diferente: mandou construir, em maio, uma estrada de rolagem e puxar seus navios por terra, onde seriam reposicionados de forma a impedir os consertos nas fortificações da cidade.

Constantino ordenou então um contra-ataque. “Mas o sultão mantinha espiões bem treinados, que localizaram os invasores e os mataram antes que o ataque fosse efetivado. Em represália, o imperador bizantino decapitou mais de 200 prisioneiros otomanos, atirando seus corpos pelas muralhas”, diz Warden. Sentindo a fraqueza de seu inimigo, o sultão fez uma proposta. Se Constantino entregasse a capital, os cristãos seriam poupados. Magnânimo, Maomé ainda deu uma alternativa: o pagamento em dinheiro. Sem caixa desde o saque realizado pelos cruzados, o imperador foi obrigado a dizer não à última chance de paz que teria.

O dia da queda

A recusa de Constantino foi o fator decisivo para o sultão decretar que, na manhã de 29 de maio, Constantinopla cairia. Na noite anterior, os otomanos descansaram. Um silêncio inédito nos 54 dias de cerco se fez sobre a cidade. “Para tentar quebrar o clima de mal-estar e desânimo que se abatia sobre a população, os sinos das igrejas da cidade badalaram sem descanso durante todo o dia”, afirma Warden. Quanto o ataque turco veio, os bizantinos lutaram bravamente usando suas melhores armas e homens. A estratégia otomana, porém, era outra. Depois de cansarem seus inimigos por horas, colocaram em ação o exército turco profissional, mais os temidos janízaros. Junto com eles, veio o gigantesco canhão que iniciara a batalha.

No primeiro tiro, um pedaço da muralha veio ao chão. “Contudo, os turcos conseguiram encontrar uma brecha no lado noroeste da muralha e forçaram a entrada na cidade, causando desordem entre os soldados gregos que lutavam ao lado de Constantino. Acredita-se que o último imperador bizantino pereceu nesse ataque, depois de ter lutado até onde podia para defender a cidade”, fala Steven A. Epstein, professor de história antiga da Universidade do Kansas, nos EUA. O estrago, porém, era irreversível. Em pouco tempo, os bizantinos foram esmagados pela força otomana. Constantinopla havia finalmente caído. O que veio a seguir foi o terror. Por cerca de dois dias, uma das cidades mais importantes do mundo medieval foi pilhada, e seus cidadãos, mortos ou estuprados, enquanto os sobreviventes tentavam escapar por mar. O saque foi tamanho que Maomé ordenou o encerramento do butim por temer que nada sobrasse de sua nova conquista. Num gesto de triunfo, o sultão foi ao coração cristão de Constantinopla, a Catedral de Santa Sofia, e a consagrou como mesquita. A cidade era, agora, a capital de um novo império.

Novos tempos

Quando a notícia da queda chegou ao Ocidente, muitos duvidaram de sua veracidade. A fama de suas impenetráveis muralhas era conhecida, e a ideia de que não pudesse resistir aos turcos chocou a Europa. Os maiores problemas, entretanto, eram de ordem prática. As rotas de comércio entre a Europa e a Ásia estavam agora fechadas e sob o domínio dos muçulmanos de Maomé II. E era pelo Bósforo, e por Constantinopla, que passavam todos os mercadores que vinham da China e da Índia, trazendo as preciosas especiarias e os artigos de luxo tão essenciais ao continente. A opção encontrada pelos europeus foi pensar em rotas alternativas. Quem se beneficiou com essa ideia foram dois países que tinham uma posição estratégica junto ao oceano Atlântico e à África: Portugal e Espanha.

Começava então uma era de explorações e a corrida por caminhos diferentes que levassem às Índias. Foi nesse contexto que Vasco da Gama fez sua travessia, em 1498, e Cristóvão Colombo chegou, em 1492, ao continente americano, financiados pelos espanhóis. Nascia o sonho de civilização e ocupação do chamado Novo Mundo, enquanto o Império Bizantino e sua cultura clássica morriam. “Os historiadores consideram a queda de Constantinopla não só como o fim da Idade Média mas também o início do Renascimento, que já era um fato na Itália. Esse período veio a ser conhecido como a Era dos Descobrimentos”, conta Epstein. Como lembrança do triste fim do cerco, a terça-feira, o dia da queda, passou a ser considerada um dia de má sorte entre os sobreviventes, em especial os gregos.

Vlad III, o verdadeiro Drácula

Quando se fala de Conde Drácula, o famoso bebedor de sangue criado pelo escritor irlandês Bram Stoker em 1897, nem sempre se sabe que o mito se origina na Idade Média. A inspiração para o nobre vampiro talvez seja até mais macabra do que o personagem a quem inspirou – por ser verdadeira e ter deixado um rastro de sangue real por onde passou. A história, como a ficção, começa na pequena cidade de Sighisoara, na Transilvânia, na Romênia. Ali, em dezembro de 1431, nasceu Vlad III Drácula, mais conhecido como Vlad, o Empalador. Coroado em 1448 como rei da Valáquia (Romênia), Vlad manteve seu reinado de terror ao se distanciar das políticas do Império Otomano. Sua fama, porém, veio de seus hábitos e da forma peculiarmente cruel com que tratava seus inimigos e qualquer um que o desagradasse. Seu estilo predileto de tortura, que o fez conhecido no mundo todo, era a morte lenta e extremamente dolorosa por empalamento. As vítimas eram amarradas e estacas não muito afiadas e cobertas de óleo eram introduzidas em seus corpos – no abdômen, no ânus ou no estômago – e em seguida puxadas por cavalos até que saíssem pela boca. Certa vez, mais de 20 mil mercadores e boiardos de Barsov, na Transilvânia, acabaram sendo empalados em uma floresta, cujas árvores foram cortadas e afiadas especialmente para esse propósito. O rei festejou entre os corpos agonizantes durante toda a noite, ocorrida em 1459. Essa não era a única forma de morrer nas mãos de Vlad. Soldados, súditos, inimigos, velhos, camponeses, mulheres e crianças poderiam sofrer dos mais variados jeitos. Esfolamento em vida, escalpo, enforcamento, mutilação, envenenamento, inserção lenta de pregos no crânio e até a prática de cozinhar em água fervente seus desafetos eram hábitos comuns durante seu reinado. Conhecido por apreciar seu pão molhado no sangue de porco – ou de suas vítimas, como dizia a população temerosa –, Vlad III era movido pela sede de vingança contra as conspirações que levaram ao assassinato de seu pai e irmão. Logo que assumiu o trono, deu uma grande festa, para a qual convidou todas as famílias nobres que acreditava estarem envolvidas na trama, comum no reinado da Valáquia, já que a coroa era passada após uma eleição feita pelos boiardos e não de forma hereditária, como na Europa. Ao fim, ele prendeu todos os seus convidados e os forçou a um trabalho escravo ao qual ficaram presos por meses: a reconstrução de seu castelo. Pouquíssimos nobres sobreviveram à prova, obrigados a trabalhar noite e dia, sem chance de trocar as roupas finas que iam se rasgando. Após sua morte, durante uma batalha contra os turcos próxima a Bucareste, em 1476, Vlad foi popularizado por centenas de histórias e lendas espalhadas por toda a Europa, especialmente na Rússia e na Turquia. Apesar da falta de dados que comprovem sua veracidade, diversos panfletos circulavam entre a população contando casos como o do cálice dourado, que o rei sanguinário teria colocado em praça pública para provar a eficácia de suas leis. O medo das consequências era tanto que se diz que o cálice nunca saiu do lugar.


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sexta-feira, 26 de maio de 2017

[SGM] Afrika Korps: Sangue, óleo e areia

Tiago Cordeiro



A campanha militar no norte da África tinha importância pequena para a Alemanha, relativa para a Itália e gigantesca para a Inglaterra. Enviado para a Líbia em fevereiro de 1941, Rommel era pouco mais do que um gesto de boa vontade de Hitler para com Mussolini, que havia começado a lutar na região em junho de 1940, depois que forças britânicas ocuparam o forte italiano Capuzzo. Ao assumir o comando do destacamento Afrikakorps, o alemão recebeu uma orientação clara: seu objetivo era apenas sustentar as posições italianas.

Naquele momento, e graças a uma ofensiva inglesa batizada de Operação Compasso, o Exército fascista estava estacionado no território de Cirenaica, no noroeste da Líbia. E ali deveria ficar. Não seria assim tão fácil, já que nos três meses anteriores os italianos tinham perdido 400 tanques e 130 mil de seus homens haviam sido capturados.

Pois Rommel transformou essa missão limitada em uma grande campanha de ofensiva no deserto. Diante dos ingleses, conhecedores do local e dispostos a manter terras que controlavam desde o século 19, ele, que a época já era conhecido pela alcunha de Raposa do Deserto, avançou até a fronteira com o Egito.

Em junho de 1942, depois do avanço impiedoso contra as cidades líbias de Gazala e Tobruk, ele parecia capaz de chegar ao canal de Suez e criar para a Alemanha uma nova base de apoio para o front soviético – além de ocupar os campos de petróleo do Oriente Médio e virtualmente acabar com o combustível aliado. À força, a Raposa queria fazer com que sua área de atuação ganhasse mais peso na estratégia do Führer, que naquele momento estava ocupado demais com o front russo.

Criado oficialmente em 12 de fevereiro de 1941, o Afrikakorps era uma força expedicionária composta, a princípio, apenas pelo 5º Regimento Panzer e por várias outras unidades menores, como a Brigada de Pára-Quedistas Ramcke. Também contava com oito divisões italianas, sendo três de infantaria. Alguns meses depois, somou-se também a 15ª Divisão Leve alemã. Apesar de, oficialmente, estar diretamente subordinado ao Exército italiano, o alemão agiu por conta própria. Em 24 de março, Rommel desobedeceu todas as ordens e avançou contra as forças aliadas Em poucos dias, retomou a região da Cirenaica. Em junho de 1941, ele já estava às portas de Tobruk – apenas para ser rechaçado.

Reorganizados e contando com divisões dos Exércitos da África do Sul, da Nova Zelândia, da Índia e de um grupo de franceses sob a liderança de Marie-Pierra Koenig, os aliados reagiram e retomaram boa parte do território recém-recuperado por Rommel. Em 30 de dezembro, mais uma vez o Eixo estava estacionado em El Agheila.

O ataque

A partir de janeiro de 1942, e após receber 55 tanques e 126 mil toneladas de suprimentos, a Raposa lançou uma nova ofensiva, que dessa vez garantiria a tomada de Gazala e Tobruk. Único porto onde podiam ser ancorados grandes navios em todos os 1,8 mil quilômetros de costa entre Sfax, na Tunísia, e Alexandria, no Egito, Tobruk era de grande importância em um campo de batalha em que grandes distâncias precisavam ser percorridas em regiões áridas, e a falta de gasolina e mantimentos era problema dos mais sérios. Como se não bastasse, a cidade também abrigava a fortaleza mais formidável de toda a África, Got el Ualeb. Com 27 quilômetros de fortificações duplas, havia sido modernizada pelos italianos em 1935. Em seus arredores, que os alemães voltariam a tentar invadir, havia 900 tanques ingleses, contra 320 germânicos e 240 italianos.

E mais: a região era protegida pela Linha Gazala, que descia de Gazala até Bir Hakeim cercada por grandes campos minados. Essa linha criava novas dificuldades na abordagem de ataque.

Na noite de 25 de maio, bombardeiros germânicos, principalmente Messer-schmitt Me-109, agiram contra posições britânicas cruciais. O ataque por terra ao primeiro alvo, Gazala, começou a 26 de maio de 1942. Liderados pelo general alemão Ludwig Crüwell, duas corporações de infantaria italianas e dois regimentos alemães da 15ª Brigada de Rifle, dirigiram-se à cidade usando a linha principal de defesa aliada. Enquanto esses homens eram pesadamente repelidos, Rommel conduziu três colunas de 10 mil carros cada até o flanco sul, a 54 quilômetros de Tobruk.

Provavelmente por causa de interceptação inglesa do sistema de comunicação alemão, o avanço-surpresa foi detectado a tempo pelos aliados. Ao chegar a Bir Hacheim, ao sul, Rommel encontrou forte resistência e perdeu um terço de seus tanques. Teve de recuar e fazer falsos movimentos para distrair os inimigos e ganhar tempo. Quando o combustível estava chegando ao fim e uma tragédia parecia iminente, Crüwell rompeu a barreira inglesa e chegou em socorro. No final de maio, Bir Hacheim foi cercada. Rommel seguiu rumo ao norte. No dia 2 de junho, o forte de Got el Ualeb caiu. Bir Hacheim só tombaria mesmo em 10 de junho, depois que Rommel mandou para lá o general Fritz Bayerlein para comandar as tropas. No dia 13, a 90ª Divisão Leve estava em El Adem, onde começou uma guerra de tanques feroz no deserto aberto. Atacados de surpresa por armas anticarro, os ingleses foram derrotados. No dia 17, começava a investida em três partes contra Tobruk.

Vitória espetacular

Apoiado pela 132ª Divisão do Exército italiano, o Afrikakorps seguiu em direção às bases da 7ª Divisão de Tanques britânica, em Gambut. A manobra sugeria que Rommel seguiria em direção ao Egito e deixaria Tobruk intocada, mas cercada. Porém, no dia 19, com o fim da resistência na área e o reabastecimento dos veículos, os alemães viraram em direção leste e começaram a marchar novamente contra a cidade portuária. No dia 20, começava então a terceira fase da ofensiva, o ataque em si. A ação começou em El Duda e seguiu a mesma estratégia que Rommel gostaria de ter colocado em prática sete meses antes.

Depois que 588 vôos alemães e 177 italianos bombardearam o alvo, os tanques deslocaram-se rapidamente e com uma visibilidade mínima no meio das tempestades de areia – ainda assim, o uso de rádio foi limitado, para impedir que, como acontecera durante a movimentação contra Bir Hacheim, as comunicações fossem interceptadas; as únicas transmissões permitidas foram usadas para repassar informações que confundissem os britânicos. Ao fim do dia, e graças, novamente ao uso de canhões de 88 milímetros como artilharia antitanques, Rommel e seus 113 tanques haviam destruído 230 dos 300 tanques ingleses. A ação começara às 6h35. Às 16h, os ingleses já haviam queimado todos os documentos importantes e parte de suas reservas de combustível. Às 20h, o alemão estava dentro da fortaleza, onde estavam 33 mil prisioneiros, 2 mil veículos e 5 mil toneladas de comida. Toda a região estava cercada por densa fumaça preta. Ainda assim, havia sobrado para os alemães 1,4 mil toneladas de combustível.

Foi a segunda maior derrota inglesa na Segunda Guerra. Pior do que Tobruk, só a campanha de Cingapura, ocorrida em fevereiro do mesmo ano de 1942, quando 85 mil homens se renderam diante de tropas japonesas numericamente inferiores. Sobre o fiasco na África, em suas anotações, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill comentaria, desolado: “Derrota é uma coisa. Humilhação é outra”. Hitler, em compensação, daria a Rommel o título de marechal – aos 50 anos de idade, ele passava a ser o mais jovem militar alemão a chegar tão alto na hierarquia. Quando recebeu a notícia do reconhecimento de seu premiê, o comandante, vaidoso, ficou satisfeito, mas reagiu com desdém: “Eu preferia que ele tivesse me mandado mais uma divisão”. Enquanto os ingleses remoíam a derrota e o Führer comemorava a vitória, Rommel levou seus homens até El Alamein, a 100 quilômetros de Alexandria. Chegou ali no dia 30, apenas 10 dias depois da vitória acachapante. Chegou com homens exaustos e apenas 12 carros de combate.

Essa correria foi feita a despeito das ordens expressas de Mussolini de que ele não avançasse (o premiê italiano acabaria sendo convencido por Hitler dias depois). A pressa tinha sua justificativa. Acostumado a se aproveitar das brechas abertas pelos adversários abatidos por derrotas, o marechal não queria perder mais tempo do que já tinha perdido – há mesmo quem diga que voltar para Tobruk, em vez de seguir diretamente em direção a Suez, foi um erro de estratégia. “Não houve erro. Nem mesmo ele ousaria avançar para o Egito com aquela posição em sua retaguarda”, afirma o coronel britânico Desmond Young, que lutou contra Rommel na África e, ao final da guerra, impressionado com as façanhas do adversário, escreveu uma biografia do alemão, publicada em 1950.

Neste livro, ele diz que, durante a ocupação de Tobruk, o futuro marechal chegou ao auge da genialidade. “Ele comandou seus homens com brilhantismo, manteve a todos com alto nível de disposição, apesar das dificuldades iniciais, e alcançou uma conquista extraordinária tirando o melhor do armamento que tinha em mãos”, diz Young. A derrota inglesa provocou uma mudança de atitude. Foi nesse momento que o general Bernard Montgomery assumiu o comando das forças aliadas na região. Na África e na França, Montgomery iria se tornar uma pedra no sapato de Rommel.

Avanço impiedoso

 26 de maio de 1942: A ofensiva começa quando o general alemão Ludwig Crüwell se aproxima pelo norte com divisões italianas e alemãs
 27 de maio: Pelo sul, Rommel segue via Bir Hacheim
 2 de junho: O forte inglês em Got el Ualeb cai e 3 mil homens são feitos prisioneiros
 Campos minados ingleses barram o fornecimento de suprimentos para os Panzers por vários dias
 A 22ª Brigada Blindada britânica contra-ataca
 10 de junho: Depois de duas semanas de ataques, a Brigada Francesa livre, comandada por Marie-Pierre Koenig, retira-se de Bir Hacheim
 A 201ª Brigada inglesa é atacada por bombardeiros Stukas e tanques na região de Knightsbridge
 14 de junho: Seguindo primeiro a leste e depois a sudoeste, a 50ª Divisão britânica escapa dos ataques
 Na tentativa de impedir o avanço alemão, canhões antitanques sul-africanos e forças do Regimento Royal Scots do Exército britânico sofrem perda severas
 Divisões Panzers dirigem-se à fronteira com o Egito e depois dão a volta e atacam Tobruk pelo sul
 21 de junho: Rommel entra em Tobruk, faz 33 mil prisioneiros e começa a preparar o próximo ataque, agora contra El Alamein


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segunda-feira, 22 de maio de 2017

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Ricardo Bonalume Neto



1. Guerra da Independência

Definida a partilha da Palestina, os judeus precisaram de apenas seis meses para declarar sua independência. Em 14 de maio de 1948, foi fundado o Estado de Israel. No mesmo dia, tropas do Egito, Jordânia, Síria e Iraque atacaram. Começava o mais sangrento de todos os conflitos entre árabes e israelenses até hoje. Algo entre 6 mil e 10 mil soldados de Israel morreram (mais de 1% da população daquela época).

A milícia de autodefesa Haganah havia se transformado na força armada do Estado judeu. Como não havia muitos blindados e veículos militares, aquela foi uma guerra caracterizada por combates de infantaria. Os israelenses eram obrigados a recorrer ao contrabando para conseguir armas. Mas a Tchecoslováquia, que àquela altura ainda não tinha se transformado em um país comunista, fornecia legalmente grande quantidade de fuzis e caças Avia S-199.

Dada a situação relativamente precária das forças militares de Israel, o ataque poderia ter destruído o país antes mesmo de ele sair do berço. Mas a falta de coordenação entre as ofensivas árabes permitiu que os israelenses administrassem todos os problemas, um de cada vez. Os ataques inimigos mais bem sucedidos foram feitos pelos jordanianos, cujas tropas eram as mais eficientes entre as dos países árabes envolvidos no conflito. A Jordânia capturou a parte leste de Jerusalém, enquanto o Egito ocupou um pedaço de território na costa do Mediterrâneo – a Faixa de Gaza.

Ao final de quase nove meses de combates intensos, Israel havia aumentado em 23,5% o tamanho de seu território. Jerusalém, no entanto, estava dividida. A Jordânia, além de ficar com o controle sobre a parte oriental da cidade, anexou todo o território situado à margem oeste do rio Jordão – a Cisjordânia. A Guerra da Independência deu origem a um problema que até hoje frequenta as primeiras páginas dos jornais: pelas contas da ONU, naquela oportunidade, aproximadamente 700 mil palestinos dos territórios ocupados por Israel refugiaram-se nos países vizinhos.

2. Guerra de Suez

Em julho de 1956, o então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, nacionalizou o canal de Suez, tirando-o do controle de franceses e britânicos. Ao mesmo tempo, Nasser incentivava os refugiados palestinos a promover ações terroristas contra Israel. França e Grã-Bretanha decidiram, então, atacar o Egito para retomar o canal. E recrutam Israel para a empreitada. A ideia era que os israelenses atacassem primeiro, pois isso serviria como pretexto para que franceses e britânicos iniciassem uma intervenção.

Menos de três meses depois, em outubro daquele ano, começava a Guerra de Suez – a primeira entre o Estado de Israel e seus vizinhos árabes em que veículos militares blindados tiveram um papel preponderante. A ponta-de-lança israelense era formada por cerca de 200 tanques, a maioria modelos Sherman, de fabricação americana (os mesmos que atuaram de maneira decisiva na Segunda Guerra Mundial).

O Egito, àquela altura, começava a receber armamentos modernos da URSS, como o tanque T-34 (espinha dorsal do Exército Vermelho também na Segunda Guerra Mundial). Mas a Força Aérea de Israel já contava com aviões mais modernos, principalmente franceses. O ataque as forças egípcias no deserto de Sinai foi uma operação relâmpago: em aproximadamente 100 horas, quase toda a península foi tomada.

Com o fim do conflito, uma Força de Paz da ONU – incluindo tropas brasileiras – foi deslocada para a região. Aquela seria a garantia de que os egípcios não voltariam a atacar os israelenses e deixariam de patrocinar o terrorismo. Israel abandonou o Sinai. Mas no dia 22 de maio de 1967, Nasser ordena o bloqueio do estreito de Tirã, no Mar Vermelho, fechando uma importante rota comercial israelense – pela qual passava, por exemplo, a maior parte das importações de petróleo rumo ao porto de Eilat. Os inimigos de Israel fechavam o cerco novamente. E mais uma guerra estava prestes a estourar.

3. Guerra dos Seis Dias

“Por duas ou três semanas antes da Guerra dos Seis Dias, os israelenses compartilharam uma profunda sensação de angústia e temor, como só uma nação de refugiados pode sentir, até a medula de seus ossos.” Assim o escritor israelense Amos Elon traduziu em palavras o sentimento da população de Israel à véspera desse conflito. Em meados de 1967, uma aliança formada por Egito, Jordânia e Síria já estava pronta para invadir e destruir Israel. Prevendo uma agressão militar iminente, os israelenses resolveram atacar primeiro.

No papel, os árabes tinham mais que o dobro ou o triplo de soldados, canhões, tanques e aviões. Mas a ofensiva-surpresa de Israel pegou seus inimigos no “contra-pé”. A Guerra dos Seis Dias, ainda hoje, é estudada em academias militares do mundo todo, dado o brilhantismo do ataque israelense – especialmente o de aviação. Foram destruídas centenas da aviões inimigos antes mesmo que eles pudessem decolar. Só no primeiro dia da guerra, os árabes perderam cerca de 350 aeronaves.

Israel tomou dos jordanianos todo o território da Cisjordânia. E mais: assumiu o controle do setor oriental de Jerusalém. Para os judeus, aquela vitória tinha um significado muito mais que especial. Quase 2 mil anos depois de serem expulsos de lá pelos romanos, 22 anos depois do Holocausto e 19 anos depois da fundação de Israel, os judeus recuperavam o Muro das Lamentações – local mais sagrado do judaísmo. Em seguida, os israelenses levaram o combate até os sírios. Em uma rápida campanha, as colinas de Golã foram tomadas.

O Egito terminou esta guerra com saldo aproximado de 10 mil mortos, 20 mil feridos e 5,5 mil soldados capturados. Mais de 500 tanques egípcios foram destruídos, sem contar a grande quantidade de equipamento que acabou caindo nas mãos dos israelenses: 300 tanques e outros 10 mil veículos. A Jordânia sofreu aproximadamente 6 mil baixas e a Síria, outras mil. Israel contabilizou “apenas” 764 mortos.

4. Guerra de Atrito

Depois da Guerra dos Seis Dias, o canal de Suez foi fechado para a navegação. O Egito dominava uma de suas margens, enquanto Israel controlava a outra. Esse foi o foco da chamada Guerra de Atrito, uma espécie conflito militar em câmera lenta. Israelenses e egípcios duelavam com artilharia, aviões e ataques de forças especiais.

Um dos episódios mais marcantes dessa guerra ocorreu no dia 21 de outubro de 1967, quando o Egito atacou o destróier israelense Eilat. Dois barcos lança-mísseis egípcios da classe Komar, de fabricação russa, dispararam quatro mísseis Styx, dos quais três acertaram a embarcação. Esse ataque levaria a Marinha israelense a investir mais recursos no desenvolvimento de tecnologia militar, criando, por exemplo, o poderoso míssil mar-mar Gabriel. Com ele, Israel daria o troco na guerra que viria a seguir, afundando uma grande quantidade de barcos egípcios e sírios.

5. Guerra do Yom Kippur

Em 1973, foi a vez da Guerra do Yom Kippur – batizada com esse nome por ter sido deflagrada no dia 3 de outubro, que marca o início do Kippur – uma das datas mais importante do calendário judaico. Israel foi pego de surpresa e pagaria um preço elevado pela autoconfiança cristalizada após a Guerra dos Seis Dias. “Esse conflito acabou com aquelas curiosas férias da realidade, uma euforia em que muitos de nós flutuávamos depois do conflito de 1967”, diz o escritor Amos Elon.

A morte de Nasser, em 1970, não evitou mais uma guerra entre árabes e israelenses. Seu sucessor, Anuar Sadat, manteve os planos de ataque. O Egito atravessou o Canal de Suez enquanto a Síria invadiu as colinas de Golã. A estratégia árabe era usar foguetes para neutralizar os ataques conjugados de Israel – por terra, com tanques de guerra, e pelo ar, com a aviação de combate. Mísseis soviéticos como o Sagger destruíram dezenas de blindados israelenses, brecando as primeiras contra-ofensivas. E um complexo sistema de defesa antiaérea conseguiu anular a Força Aérea de Israel.

Mas a “quantidade” árabe acabou superada pela “qualidade” israelense. Na noite de 15 para 16 de outubro, uma genial jogada estratégica impediu a vitória do Egito no Sinai. Uma força israelense de tanques e infantaria blindada cruzou o canal de Suez e cercou o Terceiro Exército egípcio. Ao mesmo tempo, Israel avançou na direção de Damasco. EUA e URSS, mais uma vez, pressionaram por um cessar-fogo – que entrou em vigor no dia 24 daquele mesmo mês. Ao contrário do que ocorrera na Guerra dos Seis Dias, desta vez os árabes – especialmente os egípcios – não sofreram uma derrota humilhante, o que facilitaria um acordo. Com intermediação americana, Israel e Egito assinariam um tratado de paz em março de 1979.

6 e 7. Guerras do Líbano

Como o Egito – o mais poderoso país árabe – agora estava em paz com Israel, restou aos demais oponentes do Estado judeu o recurso “assimétrico” do terrorismo. Em 1978, os israelenses invadiram o sul do Líbano, na tentativa de estancar os ataques terroristas que vinham de lá. Quatro anos mais tarde, em junho de 1982, Israel voltou a empreender uma ofensiva militar em território libanês – desta vez, para expulsar a OLP de Yasser Arafat. Os ataques ao Líbano, no entanto, acabariam criando mais problemas. O maior deles é o Hezbollah, grupo islâmico que não esconde seu objetivo fundamental: varrer Israel do mapa.

Paralelamente, os israelenses seriam obrigados a lidar com mais uma encrenca de origem árabe – desta vez, dentro de suas próprias fronteiras. Palestinos estabelecidos nos territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza deram início, em 1987, a uma rebelião popular que ficaria conhecida como a Primeira Intifada e só terminaria em 1993. Outra revolta – a Segunda Intifada – explodiria sete anos mais tarde.

Israel pôs fim a ocupação do território libanês em 2000. Mas uma nova série de combates com o Hezbollah teve início em 2006 – a Segunda Guerra do Líbano. Muito da infra-estrutura reconstruída pelo Líbano depois da primeira ocupação foi posta abaixo novamente, em ataques cujo objetivo era eliminar guerrilheiros. Nos 32 dias de conflito, 4 mil mísseis Katyusha foram disparados contra Israel.


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