sábado, 24 de junho de 2017

[SGM] A Batalha de Okinawa

Márcio Sampaio de Castro


Em abril de 1945, o mundo estava cansado da carnificina que a Segunda Guerra Mundial espalhara ao redor do planeta ao longo dos seis anos anteriores. Praticamente todos os países invadidos pelas potências do Eixo já haviam sido libertados, o fascismo italiano dava seus últimos suspiros, a Alemanha havia se transformado em um monte de escombros e os Aliados marchavam sobre seu território, rumo a Berlim. Enquanto isso, no Extremo Oriente, o império japonês preparava-se para lutar até o fim contra a invasão inimiga, que se aproximava a passos largos.

O mês de março havia mostrado aos japoneses que essa invasão era iminente. A pequena ilha de Iwo Jima, considerada solo sagrado japonês, havia sido tomada pelos americanos, e o arquipélago de Ryukyu, a 1,2 mil quilômetros de distância da ilha de Kyushu, uma das três principais do Japão, configurava-se como o próximo alvo da potência ocidental.

Na aurora do dia 1º de abril, uma impressionante frota com mais de 1,2 mil navios de guerra, 183 mil homens e 750 mil toneladas de equipamentos aguardava ao largo de Okinawa, a principal ilha do arquipélago de Ryukyu, para iniciar o ataque que visava tornar o caminho para o Japão mais curto. Pouco menos de um ano antes, a força de ataque à Normandia, na Europa, considerada até então a maior operação de desembarque da guerra, havia colocado em combate no primeiro dia 150 mil homens e 570 mil toneladas de equipamentos.

De um lado, os Estados Unidos buscavam encurtar a rota de seus bombardeiros, que vinham sistematicamente atacando as cidades nipônicas para enfraquecer o esforço de guerra inimigo e cortar suas comunicações com a porção sul do continente asiático, de onde provinham suas matérias-primas. De outro, os japoneses sabiam que não poderiam derrotar o gigante industrial que estava cada vez mais próximo. Mas um lema se espalhava entre seus combatentes: “Cada homem abatido deveria levar consigo dez americanos; cada avião destruído, um navio”. Defender Okinawa significava ganhar tempo para preparar as defesas do Japão metropolitano. Para isso, o alto-comando designara o general Mitsuru Ushijima, que resolveu concentrar as principais linhas defensivas de sua guarnição de 100 mil homens do 32º Exército na montanhosa região sul da ilha.

Tempestade de aço

Para a surpresa dos invasores, o desembarque na parte central da ilha, realizado após um impiedoso bombardeio promovido pelos aviões e navios da frota, denominado pelos moradores como tetsu no bofu (tempestade de aço), transcorreu sem que os japoneses disparassem um tiro sequer. O plano dos atacantes era dividir a ilha em duas partes, ficando a cargo do Corpo de Fuzileiros Navais a seção norte da ilha, enquanto as divisões do Exército marchariam para o sul, ambas sob o comando do tenente-general Simon Bolivar Buckner. Em apenas quatro dias os fuzileiros atingiram o extremo setentrional. Ao final de um mês, não havia mais nenhum foco de resistência. As atenções voltaram-se então para a porção sul da ilha, mais povoada e onde estão as cidades de Shuri e Naha.

O terreno escarpado que envolvia as duas cidades possibilitou aos homens do Exército imperial construir uma cadeia de fortificações ligadas entre si por túneis escavados no interior das montanhas, a linha Shuri. Se a antiga floresta tropical da superfície de Okinawa havia dado lugar a uma desoladora paisagem após os bombardeios americanos, sob a superfície verificava-se uma intensa atividade de militares e civis japoneses preparados para surpreender seus inimigos.

Ao contrário do que ocorrera no início da invasão, as tropas de Buckner começaram a sofrer pesadas perdas com a intrincada linha de casamatas montada por seus oponentes. Sem poder contar com o apoio da artilharia naval, que nada podia fazer contra as fortificações encravadas no interior da ilha, os atacantes tinham de desabilitar os bunkers japoneses um a um. A violência e a tensão chegaram a níveis tão elevados que 48% das baixas americanas foram causadas por estresse de combate. Muitas vezes, ao atacar esconderijos com seus lança-chamas e granadas, os soldados acabavam incinerando famílias inteiras. Por sua vez, a propaganda japonesa havia plantado no imaginário dos moradores de Okinawa que o inimigo iria violentar e torturar os civis. Para não correr esse risco, muitos preferiam cometer suicídio.

Curiosa e tragicamente, a batalha teria, ao seu fim, uma coincidência incomum na história das guerras modernas. Os oficiais comandantes dos dois exércitos em combate morreriam antes do encerramento das hostilidades. Quatro dias antes de eliminar a resistência japonesa na ilha, Buckner foi atingido por estilhaços de granada, enquanto vistoriava a linha de frente. Perto dali, em seu abrigo subterrâneo, o general Ushijima, acompanhado por seu colega, general Isamu Cho, cometeria harakiri no último dia da batalha, em 21 de junho de 1945. Junto ao corpo de Cho um epitáfio escrito de próprio punho: “Cho, Isamu, tenente-general do Exército imperial japonês. Morro sem arrependimento, sem medo, sem desonra e sem dívidas”.

Após 82 dias de sangrentos combates, os japoneses haviam perdido o controle de mais uma ilha no Pacífico, mas sua determinação de lutar até as últimas consequências mantinha-se inquebrantável. Para os Estados Unidos, Okinawa servira para estabelecer sombrias estimativas de, no mínimo, 500 mil mortos no ataque final ao Japão. A aceleração do chamado Projeto Manhattan configurava-se cada vez mais como uma necessidade. Para muitos historiadores, a Batalha de Okinawa representou não só o último grande embate da Segunda Guerra, mas também o impulso que faltava para o emprego da terrível arma secreta desenvolvida pelo projeto. O Japão seria o primeiro país na história a enfrentar os horrores da bomba atômica.

Mar de sangue

A Batalha de Okinawa marcou o último embate aeronaval da Segunda Guerra Mundial. Depois de ajudar a derrotar os nazistas no Atlântico Norte, a esquadra britânica pôde encaminhar uma força-tarefa para auxiliar no processo de asfixia do império japonês. Uma combinação de navios ingleses, canadenses, australianos e neozelandeses proporcionou 20% do poderio aeronaval empregado nas operações de ataque à ilha.

Ao lado dos americanos, essa força-tarefa sofreria os terrores do crescente e desesperado emprego por parte dos japoneses dos kamikazes. Após a quase aniquilação de sua frota ao longo do ano anterior, o Japão não podia mais se bater nos mares de igual para igual, como fizera em Midway ou em Guadalcanal. Sua única alternativa era procurar causar pânico e o máximo de danos aos inimigos com o emprego de aeronaves que se chocavam contra as embarcações aliadas. Empregando uma variação de ataques suicidas e bombardeios estratégicos, os japoneses conseguiriam, somente em 6 de abril de 1945, primeiro dia de sua ofensiva, afundar 60 embarcações inimigas.

O plano de batalha incluía o uso do supercouraçado Yamato, um gigante veterano da guerra que tinha por missão aportar ao largo de Okinawa e causar o máximo de destruição possível antes de ser afundado. Detectada na saída do porto pelos submarinos Hackleback e Threadfin, a pequena frota capitaneada pelo Yamato foi atacada pelas aeronaves dos porta-aviões da Força-tarefa 58. Após uma hora e meia de bombardeios, o orgulho da frota imperial explodiu e afundou, levando consigo 2,5 mil homens. A partir daí, a guarnição de Okinawa estava entregue à própria sorte. Após seis dias de ofensiva, os ataques japoneses começaram a rarear. No fundo do mar, milhares de homens de ambos os lados acabaram encontrando seu túmulo. Eram os últimos movimentos da guerra mais sangrenta de todos os tempos.

A batalha de Okinawa

Quem: Japão X EUA e aliados
Quando: 1º. de abril a 21 de junho de 1945
Onde: ilha de Okinawa, no Japão
Forças: Japão: 100 mil homens / Aliados: 548 mil homens
Baixas: Japão: 77 mil soldados mortos; entre civis, calcula-se que mais de 100 mil tenham morrido durante os combates; 1465 ataques kamikazes / Aliados: 12,5 mil mortos, incluindo 5 mil vítimas de ataques de kamikazes (que afundaram 79 navios)

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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Por que a Alemanha reluta em se tornar uma das grandes forças militares


12 junho 2017


O país tem bons motivos para se sentir inseguro diante de um cenário bastante instável, que inclui o autodenominado grupo Estado Islâmico no Oriente Médio e conflitos correlatos forçando uma onda de imigração à Europa, o russo Vladimir Putin fazendo antagonismo ao Ocidente, e Donald Trump questionando o papel da Otan (aliança militar ocidental).

No mês passado, a chanceler (premiê) do país, Angela Merkel, disse aos alemães que eles "precisam lutar por seu futuro por si próprios como europeus". Tropas da Alemanha foram enviadas a lugares como Afeganistão e Mali. E Merkel prometeu aumentar os gastos do país com defesa.

Eles veem seu Exército com desconfiança - atitude reforçada por um escândalo recente. O envio de tropas ao exterior tem regras bastante rígidas na lei alemã e no Parlamento. E, acima de tudo, as atitudes relacionadas a esse tema são moldadas pela sombra da história.

A Alemanha desmilitarizada foi tão bem-sucedida - e os alemães são tão sensíveis sobre seu passado de guerra -, que o país mais poderoso da Europa hoje tende a se manter um campo de batalha fraco.

Depois da Segunda Guerra Mundial, houve um grande debate sobre se a Alemanha deveria ou não ter forças armadas. Era preciso colocar um ponto final, argumentava-se, nesse ciclo violento que começou com o militarismo da Prússia e terminou com os crimes de guerra nazistas.

Enquanto o lado comunista da Alemanha criou um "Exército do Povo", seguindo as tradições militares do país, na Alemanha Ocidental democrática - ocupada pelo Reino Unido, França e Estados Unidos - foi criado um serviço militar bem diferente.

Chamado "Bundeswehr", o Exército surgiu em meados dos anos 1950 e era uma força militar deliberadamente modesta, que existia apenas para defender o território da Alemanha Ocidental. Seus recrutas eram motivados a se enxergarem apenas como "cidadãos com um uniforme".

Desconfiança persistente

É fato que o uniforme em si parecia mais um de motoristas de ônibus do que o de um soldado do Exército, conforme descreve o historiador James Sheehan.
A Alemanha Moderna, conta ele, "pensa sobre seu Exército da mesma maneira que a maioria dos países pensa em suas polícias".

Sheehan observa nos alemães uma "desconfiança persistente sobre as instituições militares" que se mantém até hoje.

Além disso, o Exército alemão remete às terríveis memórias dos horrores da Segunda Guerra Mundial - não só pela vergonha nacional dos crimes nazistas, mas também pela devastação que impactou milhões de civis.

Werner Kraetschell, pastor protestante de uma antiga família de origem prussiana que se tornou um capelão militar, cita os milhares de alemães que cresceram depois da guerra sem ter um pai por perto, algo que moldou a percepção de muitas pessoas a respeito da questão militar.

"Por muito tempo, se você fosse um soldado (na Alemanha), não usaria seu uniforme no trem (porque) passageiros te xingariam de 'assassino'", diz Sophia Besch, especialista em questões militares do Centro de Reforma Europeia.

Desafios de segurança

Quando a Guerra Fria acabou e a Alemanha se reunificou, as pessoas acreditavam que a paz estaria mais ou menos garantida. Mas o político democrata cristão e ex-ministro da Defesa Franz Josef Jung diz que agora "a realidade nos alcançou".

Ainda assim, ele admite que "a população (atual alemã) tem uma atitude formada mais pelo pacifismo".

Ele acredita que a Alemanha precisa de novas políticas para "vencer os desafios internos e externos sobre segurança."

Depois da reunificação, a Alemanha começou a enviar tropas para outros países. Mas a sensibilidade segue à flor da pele.

Em 2009, houve alegações de a Alemanha ter encoberto um ataque militar no Afeganistão que causou mortes de civis. Jung foi forçado a renunciar ao cargo de ministro, e até hoje qualquer envio de tropas passa por amplo escrutínio parlamentar.

Relações de tortura

Ao mesmo tempo, a Alemanha aboliu o recrutamento e está se concentrando, como outros exércitos modernos, em forças menores e especializadas.

Mas a velha desconfiança sobre os militares ressurgiu no mês passado quando veio à tona um escândalo evidenciando a presença de grupo da extrema direita no Bundeswehr, promovendo celebrações de tradições nazistas e um plano para assassinar pessoas que pediam refúgio no país.

Alguns minimizaram a amplitude do caso, mas ele de qualquer maneira evidencia as tensões entre o Bundeswehr e o povo alemão.

Agora, há uma urgência real para o debate sobre o futuro militar na Alemanha.

O discurso de Donald Trump dizendo que a Otan é "obsoleta" e seu questionamento sobre "segurança coletiva" foi uma grande surpresa para os alemães, segundo Bethold Kohler, editor do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. "Ninguém poderia imaginar que o presidente americano diria uma coisa dessas."

Kohler defende que a Alemanha debata até mesmo adquirir suas próprias armas nucleares, mas admite que isso é visto como algo impensável pela maioria de seus compatriotas.

Enquanto alguns se opõem a armas nucleares por princípio, muitos outros passaram décadas vivendo confortavelmente sob o escudo nuclear dos Estados Unidos e da Otan. "Ninguém esperava que teríamos que pensar sobre isso", explica Kohler. E poucos alemães querem fazer isso agora.

Gastos

A Alemanha atualmente gasta apenas 1,3% de seu PIB em defesa. "Nós temos um enorme deficit comercial com a Alemanha e, além disso, eles pagam muito menos do que deveriam para a Otan em questões militares", afirmou Donald Trump recentemente pelo Twitter. "Isso é muito ruim para os Estados Unidos. E isso vai mudar."

A Alemanha vai resistir aos pedidos de Trump por mais gastos com defesa, mas esse subfinanciamento tem sido um pouco embaraçoso em algumas situações, como por exemplo na revelação de que durante um teste da Otan em 2014, um tanque do Bundeswehr encobriu a falta de metralhadoras usando vassouras pintadas de preto.

Até onde Berlim irá com isso?

Werner Kraetschell, que conhece Angela Merkel e o pensamento dela sobre a questão, diz que ela quer "uma Alemanha forte, capaz de assumir responsabilidades internacionais". Mas sua dificuldade é lidar com o povo alemão, que ainda é bastante contra o Exército.

Talvez os alemães sigam adiante com sua bem-sucedida experiência histórica e única, ascendendo internacionalmente como potência sem esforços militares significantes.

O fato é que o passado ainda pesa muito para os alemães. Mas o que quer que aconteça, também é sabido que não haverá uma ação violenta e pesada do país em território estrangeiro. Em vez disso, os militares alemães vão pisar em ovos em um futuro altamente incerto.


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sexta-feira, 9 de junho de 2017

[PGM] Richthofen, o Barão Vermelho

Voltaire Schilling


Morto em combate em 1918, aos 26 anos, no ano final da Iª Guerra Mundial, o Barão Manfred von Richthofen, apelidado de o Barão Vermelho, o mais famoso de uma dinastia de pilotos guerreiros alemães, foi o mais célebre ás de aviação de todos os tempos. Apesar de ter abatido uma quantidade impressionante de aviadores inimigos, franceses, ingleses e canadenses, foi profundamente admirado e respeitado por seus adversários que o consideravam um adversário leal e generoso. Tanto assim que, quando encontraram seu corpo jogado nas proximidades do seu avião destruído, caído no campo em Cambrai onde estavam tropas australianas, seus inimigos deram-lhe exéquias de herói, sepultando-o com todas as honras de guerra que um valente merece.

A morte atrás de um “camelo”


“Se eu sair vivo desta guerra é porque eu tive mais sorte do que cérebro”
 -
Manfred von Richthofen.

Richthofen, o Barão Vermelho, morreu devido ter infringido o seu próprio código de combate que dizia ser muito perigoso perseguir um avião inimigo quando ele se refugiava em seu próprio território. No dia 21 de abril de 1918, momento em que a guerra já se revelara impossível de ser vencida pela Alemanha Imperial, ele, sem apoio de um segundo piloto que lhe desse cobertura, decidiu perseguir um “Camelo”, isto é, um avião da marca  Sopwith Camel, que retirou-se para os lados das linhas australianas no vale do Somme, na Cordilheira Morlancourt, perto de Corbie. Local onde ele se viu sobre duplo fogo, do ar e da terra, caindo em seguida. Até hoje há controvérsia sobre quem de fato o abateu, podendo ter sido o seu fim  determinado tanto por disparo de uma metralhada de um sargento, disferido do chão, como por uma rajada do capitão Brown, um  piloto canadense. O seu corpo foi devidamente autopsiado no hangar do 3º esquadrão aéreo australiano, situado em Poulainville, onde, além de uma fratura no maxilar, constatou-se que uma bala fatal penetrara-lhe no lado direito do peito, na altura da nona costela. Com o desaparecimento dele, o seu jovem sobrinho Wolfram von Richthofen, companheiro e integrante do celebre esquadrão de caças alemão Jagdstaffel, ou Jasta 11, uma das mais  temidas da aviação germânica, tentou inutilmente encontrá-lo. Somente dois meses mais tarde souberam do destino do herói, inteirando-se das cerimônias honrosas com que os seus inimigos o sepultaram.

Do cavalo ao Albatroz


Descendente de uma família da nobreza prussiana - dos famosos junkers da Prússia Oriental -, o Barão Manfred von Richthofen, nascido no Schweidnitz, em Breslau, em 1892, serviu como cadete no 1º Regimento dos Ulanos. Tratava-se de uma tropa de escola da elite guerreira alemã que prestava seus serviços à monarquia Guilhermina. Ao eclodir a Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, ele foi enviado com o seu esquadrão de cavalaria para o fronte russo, mas, em pouco tempo, após ter sido transferido para o fronte ocidental, verificou que, dado o avanço espantoso das armas modernas, para um verdadeiro cavalheiro só sobrara um lugar para lutar a boa luta: os céus. Seguindo-o, o seu irmão mais novo Lothar Freiherr von Richthofen, o acompanhou na aventura. As primeiras esquadrilhas da Fliegertruppe, a força aérea alemã, organizadas naqueles começos da Grande Guerra, tiveram muitos dos seus quadros preenchidos por pilotos oriundos da nobreza. Assim deu-se não só na Alemanha e na Áustria, como na Grã-Bretanha, Itália e França. Aos jovens aristocratas belicosos, metidos a super-homens nietzscheanos,  repugnava terem que combater nas trincheiras embarradas, repletas de ratos e piolhos, ao lado do soldado comum. Pior ainda, era estarem destinados a morrerem como anônimos em meio aquela massa de cadáveres de gente desconhecida que cada batalha produzia, ou que o tifo dizimava. Portanto, trataram de conquistar um espaço no qual feitos espetaculares fossem bem visíveis e que a morte deles, quando ocorresse, fosse avistada pela plebe das trincheiras, como acontecia entre os  guerreiros feudais que caíam à vista de todos. Em maio-junho de 1915, Manfred von Richthofen tratou então de aprender a voar, trocando definitivamente o cavalo por um avião: um  biplano Albatroz D.II, da Fokker.

O caçador cavalheiro


O gosto pelas caçadas, costume comum entre os aristocratas, o ajudou deveras. Manfred sempre a praticara na propriedade da família, adquirindo então a técnica e o sangue frio suficiente para abater os inimigos nos enfrentamentos aéreos. Em geral, os pilotos, de ambos os lados da guerra, não apreciavam as tarefas rotineiras que o exército lhes determinava: reconhecimento aéreo e bombardeio das linhas inimigas. Acreditam que estavam vocacionados à proezas mais grandiosas, heróicas e sensacionais, como os duelos travados nos ares contra os aeroplanos adversários. Essas sim eram as façanhas que os atraíam. Aquelas correrias e manobras nas alturas pareciam-lhes a revivência das grande justas medievais nas quais um cavaleiro, galopando na liça a toda velocidade, tentava derrubar da cela o antagonista num só golpe certeiro de lança, espada ou martelo,  dado de frente. Para os generais, entrementes, aqueles desafios de zangões eram um desperdício. Os aviões, insistiam eles,  eram muito mais producentes despejando bombas sobre as linhas inimigas, destruindo-lhes os paióis, incendiando-lhes os quartéis e desbaratando-lhes as concentrações de tropas, do que ficarem zanzando no ar entretidos em metralhas sem fim.

Nasce o Barão Vermelho


De certo modo, Richthofen foi, senão o fundador, o mais famoso entusiastas da aviação de caça nascente. Ele, imediatamente, percebeu os efeitos publicitários e psicológicos dos embates aéreos. A imprensa da época adorou narrar os desafios espetaculares dos pilotos de caça, situação onde indivíduos, sozinhos ou voando em pequenos grupos, procurando valentões para as refregas, expunham a sua coragem aos olhos de todos. Bem melhor do que os jornais dedicarem-se ao registro burocrático da movimentação das tropas ou a descrição de batalhas que demoravam meses, como as do Somme, de Verdum ou de Yprés, sem terem nenhum resultado imediato ou conclusivo a celebrar, como ocorria com os grandes enfrentamentos terrestres da Primeira Guerra Mundial. Para dar um clima ainda mais sensacional as pelejas, Richthofen pintou seu avião de vermelho, a cor do seu regimento dos Ulanos. Era um Albatroz  que fazia 103 km. p/hora, graças a  um motor de 110 cavalos, facilmente visível nos dias claros, chamativo com o qual ele espantava ou atraia a atenção dos inimigos. Estes não demoraram em apelidá-lo de The Red Baron, “o Barão Vermelho”. Não tardou para que Richthofen se revelasse um caçador terrível (no ano de 1916 abateu 15 inimigos; em 1917, saltou para 46 e, no primeiro trimestre  de 1918, derrubou mais 17, perfazendo quase 80 aviões destruídos), tendo os seus feitos ganho as páginas dos principais noticiários daquela época. Posição em que foi seguido pelo seu irmão Lothar, que, mesmo ferido três vezes com gravidade, igualmente revelou-se um implacável piloto de caça, atingindo 40 vitórias até 1918.

O código da cavalaria


Adorado pelo povo alemão, que acolheu-o como se ele fosse um herói mitológico, um Siegfried dotado de asas, ele, por vezes, via-se obrigado a deixar o fronte para ir participar de homenagens na retaguarda, inclusive sendo recebido pelo Kaiser Guilherme II, que pendurou no peito dele todos os tipos de condecorações que o IIº Reich possuía, como a “Pour le Mérite”.  A fama e a popularidade dele espalhou-se inclusive entre os inimigos, fazendo com que em pouco tempo eles também produzissem e promovessem os seus ases, como o piloto inglês “Mick” Mannock (que abateu 61 alemães) e o francês René Paul Fonk (que vitimou 75 deles). O notável é que Richthofen,  obediente aos códigos da cavalaria, procurou preservar o tempo todo -  em meio a barbárie crescente dos combates em terra - , o céu como uma espécie de liça especial. O azul dos amplos espaços era um lugar que ele pretendia manter afastado das impurezas da guerra de trincheiras, no qual as regras cavalheirescas ainda deviam ser seguidas à risca. Ele não admitia, por exemplo, depois do inimigo ter sido atingido, persegui-lo até matá-lo. Despojando-o do avião em chamas, neutralizado o inimigo,  jamais atirava no piloto que saltasse de pára-quedas ou que, depois em terra, estivesse tentado escapar-lhe. Não foi, pois, sem razão que ele mantinha o posto de Rittmeister, isto é, capitão de cavalaria, visto que no imaginário dele a velha arena medieval ainda não sucumbira ao amoralismo e à total ausência à princípios éticos da moderna guerra total.

O herdeiro


Quem seguiu-lhe as pistas de herói e combatente extraordinário foi o seu sobrinho, o já citado Barão Wolfram von Richthofen. Jovem piloto do Jagdgeschwader I, a esquadrilha de caça, em 1918, ele conseguiu sobreviver a Primeira Guerra. Tornou-se, na época da República de Weimar (1918-1933), um piloto de acrobacias, entrando mais tarde para a Luftwaffe. Wolfram, fez uma carreira espetacular como comandante na Guerra Civil Espanhola, ganhando o apelido de “O Condor”, por liderar, como coronel, os esquadrões alemães que lutaram nos céus de Madri, entre 1936-39, ao lado do general Franco. Ocasião em que, na franca opinião dele, virtude da família, “lutamos do lado dos maus”.

No comando do Fligerkorps VIII, Wolfram, alcançando o posto de general, fez as campanhas da Polônia, da França e da Grã-Bretanha, sendo depois, em 1941, transferido para o fronte soviético, participando da dura luta no Don e no baixo Volga, em Stalingrado. Transferido para o fronte italiano em 1943, foi capturado pelos americanos no fim da guerra, falecendo em 1945 devido a um sério derrame cerebral. Com o desaparecimento dele foi-se o último integrante daquela autêntica dinastia de pilotos de guerra da Alemanha do século 20.


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terça-feira, 6 de junho de 2017

[SGM] O último suspiro de Rommel

Tiago Cordeiro


Depois dos duelos travados na África, Erwin Rommel e Bernard Montgomery voltaram a se encontrar em junho de 1944, na Normandia. Mais uma vez, o inglês, comandante responsável pela operação em terra após o desembarque, saiu-se melhor. Responsável por organizar a mal construída defesa militar na faixa de litoral que compreendia da Dinamarca até a costa da Espanha, Rommel não teve tempo nem recursos suficientes para garantir a retaliação às Forças aliadas. Além disso, o marechal e seu comandante não se entenderam a respeito da melhor estratégia a ser adotada. O debate confundiu Hitler e provocou uma confusão que limitou ainda mais o poder de reação do Eixo.

Desde março de 1942, o responsável pelas defesas no front ocidental era o marechal-de-campo Karl von Rundstedt. Naquele mês, Hitler estabeleceu uma estratégia para rechaçar qualquer ataque: fortes deveriam ser construídos em todos os setores costeiros que permitissem desembarques. Caso um deles fosse vazado pelos aliados, tropas localizadas em áreas próximas à costa deveriam estar de prontidão para contra-atacar. Em primeiro de maio de 1943, a Alemanha deveria ter 300 mil homens guardando 15 mil bases de concreto.

Acontece que Rundstedt contava com apenas 60 divisões para defender 5,4 mil quilômetros de costa – e esses homens, em grande parte, eram soldados debilitados por outros confrontos, principalmente no front russo, e até por prisioneiros de guerra. Havia, portanto, uma divisão para cada 90 quilômetros, quando Rundstedt dizia que, num plano ideal, ele deveria contar com uma para cada 5 quilômetros. Em 1944, na França, o Eixo contava com soldados de 26 diferentes nacionalidades. A confusão era grande. Quando assumiu a função de inspecionar e melhorar esta linha de defesa, sob o comando de Rundstedt, em novembro de 1943, Rommel ficou inconformado com o que viu e começou uma corrida contra o tempo para minimizar os furos da longa barreira alemã.

O general estabeleceu um plano para criar um sistema complexo de obstáculos nas praias, que impedisse a passagem de barcos de fundo chato. Também queria lançar ao mar 50 milhões de minas e transformar as praias em grandes áreas de campos minados.

Faltou cimento

Mas os recursos não vieram. Só em uma das frentes, na costa francesa, Rommel recebeu 10 mil dos 10 milhões de minas que requisitou. No final de maio de 1944, a maior parte dos pontos fortificados estava desprotegida. Faltou cimento para terminar muitas delas.

Mas o maior problema na organização da defesa do Eixo era outro. Consciente da superioridade aérea aliada, que fora decisiva em sua derrota na África, Rommel queria repelir os adversários na praia, ou se possível ainda no mar. Seu superior, por sua vez, pretendia concentrar suas forças em locais bem posicionados em terra, onde fosse possível repelir os aliados assim que eles conquistassem uma cabeça-de-praia – no fundo, o que ele pretendia era recriar a Batalha de Dunquerque, de quatro anos antes. O próprio Rundstedt havia comandado o Eixo naquela vitória que arremessara as tropas inglesas para o mar.

Depois de ouvir atentamente aos argumentos dos dois e de seu alto-comando (majoritariamente favorável a Rundstedt), Hitler não fez uma coisa nem outra. Ele acabou por dividir suas forças entre praia e terra. Foi a pior opção possível. Na madrugada de 6 de junho de 1944, o Dia D, Rommel estava nas proximidades de Ulm, na Alemanha, comemorando o aniversário de sua mulher, Lucie. Só conseguiu chegar à França por volta das 22h, quando os aliados já tinham 150 mil homens em cinco praias.

Duas unidades, a 12ª SS Panzer e a Panzer Lehr, estavam a caminho, e o que havia sobrado da 21ª Panzer estava contra-atacando a 3ª Divisão canadense nas proximidades de Caen. Batidos na praia, os alemães agora tinham de encarar uma luta de defesa em várias frentes, com recursos insuficientes e a mobilidade parcialmente comprometida pelos maciços ataques aéreos inimigos. A partir de 7 de junho, e pelos dez dias seguintes, a 6ª Divisão Aérea britânica se mostraria capaz de barrar todas as investidas alemãs. No dia 12, os aliados tomavam Carentan.

Mais uma vez, os canhões de 88 milímetros de Rommel fizeram grandes estragos contra as forças aliadas. Com frequência, o avanço britânico em direção ao sudeste de Caen foi interrompido por uns poucos tanques Mark VI Tiger – em um dos casos, nas proximidades de Villers-Bocage, um único tanque, sozinho, conseguiu afastar um grupo de veículos ingleses. Mas os aliados ressurgiam em quantidades espantosas. Diante do fantasma de outra derrota estrondosa, Rommel começou a questionar seriamente a capacidade de liderança de Hitler e a defender abertamente que a Alemanha pedisse um armistício que mantivesse ao menos uma pequena parte das conquistas realizadas até aquele momento. Em um encontro realizado no dia 26 de junho, ele e Rundstedt entraram em acordo quanto a isso e comprometeram-se a levar essa posição ao comando do Exército. Em conversas privadas, Rommel passou a comentar que preferia calar suas baterias de defesa e permitir que Churchill entrasse em Berlim a ver os soviéticos, a leste, entrarem primeiro em sua capital.

Pessimismo

No dia 29 de junho, em conferência com o Führer, Rommel defendeu seu ponto de vista. “O mundo inteiro se posicionou unido contra a Alemanha, e essa desproporção de forças...”, ele começou. Hitler interrompeu-o bruscamente e pediu que o marechal se ativesse a questões militares, e não políticas. Foi o que ele fez, até o final de sua explanação. Rommel finalizava com críticas severas à passividade da Força Aérea, a Luftwaffe, quando disse que não poderia deixar de insistir em discutir o futuro do país caso a guerra continuasse.

“É melhor você sair desta sala agora”, Hitler respondeu. Os dois nunca mais se viram. Rundstedt detestava os nazistas, mas não continuou a insistir no assunto.Foi depois substituído pelo general Günther von Kluge. Desanimado, o marechal voltou ao campo de batalha, onde passou a fazer mais questão ainda de acompanhar de perto suas tropas. Ele parecia estar em todo lugar. Ao general Kluge, alertou, em relatório escrito em 5 de julho, que apenas 12 divisões estavam tentando conter todo o front, onde 40 divisões aliadas se movimentavam. Desde o Dia D, o Eixo perdera 117 mil homens, sendo 2,7 mil oficiais. Irritado com o pessimismo de Rommel, o general resolveu conferir a situação por conta própria. Dias depois, relatou a Hitler que a situação era realmente catastrófica.

Por causa dos ataques aéreos, os deslocamentos por terra sempre apresentavam riscos. Em 17 de julho, o carro em que Rommel estava foi atacado na França, no caminho entre Saint-Pierre e La Roche-Guyon. O marechal ficou gravemente ferido. Ele ainda estava inconsciente quando, no dia 20, Hitler sofreu um atentado a bomba. Em 25 de agosto, Paris era libertada. Rommel morreu em 14 de outubro. Em 2 de maio de 1945, Berlim era tomada pelos soviéticos.

Anzio

Em janeiro de 1944, o Eixo esteve muito mais perto de repelir as forças aliadas do que na Normandia. Na região italiana de Anzio, 60 quilômetros ao sul de Roma, os alemães, em minoria, aproveitaram-se da boa posição defensiva construída na linha Gustav para repelir com força a Operação Shingle, uma tentativa audaciosa de invasão. Os aliados usaram 5 cruzadores, 24 destróieres, 238 lanchas de desembarque, 5 mil veículos terrestres e 40 mil soldados. O primeiro ataque aconteceu em Monte Cassino, no dia 16, e forçou o comandante da linha Gustav, o general Heinrich von Vietinghoff, a pedir reforços. O comandante Albert Kesselring destacou de Roma duas divisões, a 29ª e a 90ª. No dia 22, começaram os desembarques em massa. Três dias depois, três divisões cercavam e atacavam a cabeça-de -praia. Posteriormente, o responsável pela ação, o general John P. Lucas, seria muito criticado por não se movimentar contra Roma mais rapidamente, já que a cidade estava sem duas divisões, levadas para a linha Gustav. Por causa da lentidão, Lucas perdeu o efeito surpresa e expôs-se aos contra-ataques alemães. Ainda assim, graças à superioridade militar, os aliados foram capazes de avançar contra a capital italiana, que foi ocupada em 5 de junho.


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USS Liberty: A trapalhada letal de Israel

Mariana Weber


Era o quarto dia do conflito que mais tarde ficaria conhecido como a Guerra dos Seis Dias. Israel já aniquilara a força aérea de seus oponentes árabes e tomara territórios como a península de Sinai. Ali perto, a cerca de 25 quilômetros da costa, um navio espião americano patrulhava o Mar Mediterrâneo. Apesar de os Estados Unidos não estarem envolvidos oficialmente nas hostilidades, a embarcação foi atacada por jatos e barcos torpedeiros, que – soube-se mais tarde – pertenciam às forças armadas israelenses.

Sob o fogo de metralhadoras, foguetes, bombas de napalm e torpedos, 34 dos 290 homens a bordo do USS Liberty morreram naquela tarde de 8 de junho de 1967. Outros 171 ficaram feridos. Os sobreviventes seguiram com o navio perfurado em mais de 800 pontos, por 17 horas, até encontrarem socorro.

Israel logo assumiu a autoria do ataque, pedindo desculpas e informando que havia confundido a embarcação com um navio egípcio. Tripulantes do Liberty, no entanto, insistem em afirmar que a investida foi deliberada, pois o navio ostentava uma grande bandeira americana e havia sido sobrevoado por jatos israelenses várias vezes antes do bombardeio. A passagem dos aviões, disseram os sobreviventes, não chegou a causar preocupação – afinal, eles eram aliados.

Mas o ataque foi uma grande surpresa. O tenente James Ennes Jr. tinha acabado de cumprir seu turno como vigia no convés quando o bombardeio começou. “Inicialmente, não pensamos que os agressores eram israelenses, já que os aviões não eram identificados, e Israel dizia-se amigo da América”, conta Ennes, atingido por disparos de metralhadora, logo no início da ofensiva. “Fui gravemente ferido na primeira rajada e tive a perna esquerda quebrada. Passei o ano seguinte me recuperando.”

A investida de dois Mirages III pegou a tripulação desprevenida. Foguetes e projéteis de metralhadora de 30 milímetros atingiram o navio da proa à popa, matando e ferindo tripulantes, ateando fogo em barris de combustível e destruindo antenas. Aos Mirages juntaram-se dois Super-Mysteres, que descarregaram bombas de napalm. Quando a esquadrilha se afastou, o navio estava em chamas.

Ennes contou o que viu e ouviu de outros sobreviventes no livro Assault on the Liberty, lançado em 1980: “O tenente Toth, ainda carregando meus relatórios de observação não enviados, recebeu um míssil, que transformou seus restos mortais em detritos fumegantes. O marinheiro Salvador Payan permaneceu vivo com dois nacos de metal afundados em seu crânio. O guarda-marinha David Lucas foi atingido por um fragmento de míssil no cerebelo”, escreveu.

Ferido na perna, o comandante do navio, capitão William Loren McGonagle, continuou a coordenar as atividades da tripulação e a distribuir ordens. Ele permaneceria na ponte de comando até o navio estar fora de perigo e os feridos serem transferidos para um destróier da Sexta Frota Americana. Pela atuação no episódio, receberia uma medalha de honra. Na sala de máquinas, homens trabalhavam agachados no escuro, sob chuvas de metal em brasa e cercados por fumaça, para manter o Liberty navegando. Uma equipe combatia focos de incêndio enquanto outra consertava equipamentos para enviar um pedido de socorro – todas as antenas tinham sido danificadas. Decodificadores eram destruídos manualmente e documentos secretos queimavam dentro de uma cesta de lixo. Feridos eram carregados para uma enfermaria improvisada.

Quando o ataque aéreo cessou, três barcos torpedeiros aproximaram-se e pediram que o Liberty se identificasse. O capitão McGonagle deu ordem para que seus homens não atirassem e, na ausência de outros recursos de comunicação, tentou sinalizar com uma lâmpada de mão. Sem ouvir o comandante, um marinheiro abriu fogo com uma das quatro metralhadoras fixas que compunham o arsenal de defesa do Liberty. Outra arma também disparou, num provável acidente causado por uma explosão de munição. A esquadra israelense respondeu com torpedos. Um deles abriu um rombo no lado direito do casco do navio, atingindo em cheio a área reservada do setor de inteligência.

De acordo com a versão de Israel, foi só ao chegar mais perto do navio que um dos torpedeiros notou marcações dos Estados Unidos em um bote salva-vidas. Em seguida, viu no casco a inscrição GTR-5 (General Technical Research Ships) – embarcações equipadas com escuta eletrônica para coletar dados de inteligência costumavam ser chamadas de navios de pesquisas técnicas gerais. Era hora de enviar desculpas ao escritório da Marinha americana em Tel-Aviv.

Trapalhadas e confusões

Segundo as investigações israelenses, uma série de coincidências, mal-entendidos e trapalhadas levou ao ataque do Liberty. Para começar, a identificação do navio americano feita de manhã por jatos israelenses acabou mais tarde apagada dos quadros de controle. A explosão de um depósito de munição em El Arish, no Sinai, foi confundida com um bombardeio vindo do mar. Barcos torpedeiros foram enviados para investigar e, ao avistarem o navio, pediram ajuda área.

Os pilotos dos jatos dizem não ter visto nenhuma bandeira americana. Seguiram então a orientação do chefe das Forças Armadas, Yitzhak Rabin – que décadas depois se tornaria primeiro-ministro –, para afundar qualquer embarcação desconhecida. Depois de atacar, um deles notou a presença de letras ocidentais no Liberty, o que descartaria a possibilidade de se tratar de um navio árabe. Um aviso de cessar-fogo chegou a ser dado, mas os torpedeiros dizem não tê-lo recebido. Quando estes perceberam as inscrições, o estrago já estava feito.
O lado americano também contribuiu com sua parcela de confusão. Uma ordem para o Liberty afastar-se da costa ficou presa no sobrecarregado sistema de comunicações da Marinha e não chegou a tempo ao capitão McGonagle, que manteve o plano de circular perto do litoral.

A exata natureza da missão do Liberty até hoje não foi revelada, mas acredita-se que estivesse ligada à espionagem das relações entre egípcios e soviéticos – havia especialistas em árabe e russo a bordo, e nenhum em hebraico. “Não tenho dúvida de que a missão estava relacionada ao monitoramento regular da Marinha soviética no Mediterrâneo, ainda que pudesse haver também algo específico”, diz Samuel Feldberg, cientista político do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri).

Quando o inquérito israelense concluiu que não havia como apontar culpados pelo incidente, as autoridades americanas aceitaram o resultado. Veteranos do Liberty, no entanto, ainda lutam para que o caso seja reconhecido como um crime de guerra. “A tripulação sentiu que a audiência da Corte Naval (feita nos Estados Unidos) foi manipulada”, diz John Borne, professor de História Americana que escreveu uma tese sobre o caso. “Eles querem uma nova audiência, mas até agora não conseguiram”, afirma.

De acordo com os acusadores, os motivos para Israel atacar deliberadamente variam desde uma tentativa de apagar provas sobre assassinatos de prisioneiros até uma manobra para evitar que os americanos obtivessem informações sobre a ofensiva contra as colinas de Golã, na Síria.

Após o ataque, o Liberty navegou até Malta, seguido por barcos encarregados de resgatar ou destruir qualquer papelada que pudesse ter caído pelo caminho. No porto, passou por uma faxina para a retirada de corpos e documentos e sofreu reparos que o permitiram voltar para os Estados Unidos. Em 1968, Israel pagou cerca de 7 milhões de dólares às famílias das vítimas e aos feridos e, 12 anos depois, outros 6 milhões de dólares pelos danos materiais. Em 1970, o navio de 7 725 toneladas foi vendido como sucata.

Participação americana: somente diplomática?

Pelo menos oficialmente, os Estados Unidos não tiveram envolvimento efetivo na Guerra dos Seis Dias – sua participação resumiu-se à diplomacia, que tentou evitar o início do conflito com a formação de um comboio internacional para atravessar os estreitos de Tiran, fechados pelos egípcios. Mas, antes de a proposta vingar, Israel já tinha atacado o Egito.

Apesar de os envolvidos negarem, não faltaram especulações sobre uma possível interferência dos Estados Unidos a favor de Israel, seja com o fornecimento de dados de inteligência, seja com o auxílio de aviões. Segundo o cientista político Samuel Feldberg, a presença do Liberty perto da zona de combate não é indício desse envolvimento. “O fato de o navio estar na região era corriqueiro. O Mediterrâneo era uma área de intensa atividade na Guerra Fria”, afirma.

Ação fulminante, tensão duradoura

O quadro geopolítico do Oriente Médio foi radicalmente modificado pela Guerra dos Seis Dias, que resultou na anexação por Israel, em junho de 1967, da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, das Colinas de Golã e da península de Sinai. Pouco antes do conflito, as hostilidades cresciam na fronteira israelense com a Síria, palco de combates aéreos cada vez mais frequentes. Um acordo entre os exércitos do Egito e da Jordânia era assinado e, na península de Sinai, o presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, anunciou o fechamento dos estreitos de Tiran, uma passagem vital para Israel. Foi o que bastou para que, em 5 de junho, os israelenses iniciassem uma ofensiva preventiva contra o Egito, destruindo a maior parte de sua força aérea ainda estacionada em solo. A Jordânia também se envolveu e acabou derrotada. Depois foi a vez da Síria.

Em seis dias, Israel saiu vitorioso e fortaleceu-se como um aliado dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais contra os países alinhados ao regime soviético no Oriente Médio. A tensão na região, no entanto, estava longe de acabar, e muitas das disputas das décadas seguintes tiveram relação com os territórios ocupados em 1967.


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