quarta-feira, 5 de julho de 2017

Como o Império Asteca desabou?

Julia Priolli


"Vendo tantas cidades e vilas situadas na água e outras tantas aldeias em terra firme, fomos tomados de admiração. Por causa das grandes torres e pirâmides que se elevavam da água, alguns soldados chegavam mesmo a se perguntar se aquilo não era um sonho." As palavras são de Bernal Diaz del Castillo, escrivão do conquistador espanhol Hernán Cortéz, que chegou à região da atual Cidade do México em novembro de 1519. O deslumbre é justificado.

Tenochtitlán, a capital do Império Asteca, era uma metrópole de 15 quilômetros quadrados, incrustada num lago, interligada às margens por calçadas artificiais e entrecortada por uma rede de canais e aquedutos. Não fossem os habitantes tão estranhos aos olhos europeus, a cidade se confundiria com Veneza - só que mais bonita e higiênica.

Cortéz e seus homens foram bem recebidos. Montezuma II, o imperador dos astecas, não sabia o que pensar daquele capitão de cabelos dourados montado em um cavalo, animal nunca antes visto por ali. Poderia ser o deus Quetzalcoatl que retornava à Terra. Na dúvida, achou sábio fazer um agrado. Entre pedras preciosas e iguarias, o imperador ordenou que seus mensageiros presenteassem o estrangeiro com um banquete de carne humana. Os espanhóis desconfiaram do cheiro forte de sangue e descobriram, horrorizados, o que estavam comendo. Vomitaram imediatamente e não aceitaram mais nenhum alimento. Era um mau sinal. Fossem eles deuses ou não, as coisas não seriam nada fáceis para os astecas. Dois anos depois, sua civilização estava dissolvida. Desaparecera tão rápido quanto havia se desenvolvido.

Longa peregrinação

Os astecas não surgiram na América Central. Sua história tradicional diz que eles vieram de Aztlán, um lugar ao norte. A localização exata é um mistério. "Aztlán poderia estar em qualquer lugar, de Washington ao noroeste mexicano. Nahuatl, a língua falada pelos astecas, é aparentada com o idioma apache", diz Eduardo Natalino dos Santos, historiador do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos da Universidade de São Paulo. Não se sabe quando e onde eles se organizaram, mas é certo que se tratava de um povo seminômade, caçador e coletor, que utilizava arco e flecha, desconhecia a agricultura e a escrita, e cultuava seus próprios deuses. Os demais povos da região os chamavam de "chichimecas", que na língua nahuatl significa "bárbaros".

A partir de 1168, os astecas deixaram Aztlán e começaram uma marcha às cegas, em busca de um sinal que indicasse onde eles deveriam se estabelecer. "Quase nada sabemos sobre a organização da tribo em marcha. Os manuscritos históricos retratam-na guiada pelos sacerdotes. Eles conduziam sobre os ombros um envoltório com objetos relacionados ao deus Huitzilopochtli, divindade solar representada por um colibri", afirma Jacques Soustelle no livro A Civilização Asteca. Certo dia, surgiu o sinal tão esperado: no lugar em que encontrassem uma águia com uma serpente na boca, sobre um cacto, em cima de uma pedra, no meio de uma ilhota, eles deveriam erigir sua civilização. A imagem já se banalizou: está na atual bandeira do México, e o nome do país surgiu durante a longa peregrinação. "Eles eram chamados astecas porque vieram de Aztlán, ou mexicas, porque durante a marcha os deuses os batizaram assim, em honra a um sacerdote", diz o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, descendente direto do imperador asteca.

Em 1325, os mexicas se depararam com a ilha, a águia, a cena completa. Quando começaram a construir sua própria civilização, estavam no México central, uma região habitada por centenas de populações diferentes nos séculos anteriores. Mil anos antes, florescera no planalto central Teotihuacán, enquanto os maias surgiam ao sul e os zapotecas mais a oeste. Com o declínio da cidade, a região foi gradativamente ocupada por 28 cidades-Estado que se revezavam em hegemonia e subordinação. A partir do século 14, os astecas, que peregrinavam desde o norte distante, tentaram se estabelecer no local. Mas foram aos poucos enxotados até a região pantanosa do lago Texcoco, onde nenhum outro povo arriscara viver. Lá eles fundaram sua civilização.

A primeira construção teria sido um singelo templo de madeira, ofertado ao deus Huitzilopochtli. "Os astecas dessa época levavam uma vida anfíbia, com suas pirogas e redes, subsistindo graças à pesca e à caça de pássaros aquáticos. Modestas aldeias estendiam-se sobre as ilhotas", escreve Soustelle. Apesar da humildade, eles desejavam ter um soberano nobre, e assim, em 1375, entronizaram Tlatoani, descendente de uma dinastia tolteca (povo que os astecas admiravam). Esse rei e seus sucessores não conseguiram escapar ao controle do monarca da cidade vizinha de Azcapotzalco, que dominava a região. Até que um líder chamado Itzcoatl iniciou um movimento de resistência. Aliado ao herdeiro legítimo do trono da região de Texcoco, ele venceu e destruiu Azcapotzalco. Da tríplice aliança entre esses dois líderes e o rei da cidade vizinha de Tlacopan, começava, enfim, o Império Asteca.

Ao morrer, em 1440, Itzcoatl havia reescrito a história de seu povo."Seu reinado promoveu uma reforma da religião e da ideologia", diz a arqueóloga Leila Maria França, da USP. Os cinco imperadores que o sucederam preocuparam-se em dominar novos territórios. O passo seguinte, dado em 1472, foi transformar antigos parceiros em vassalos. Quando os espanhóis chegaram, em 1519, o império tinha 38 províncias e o número total de habitantes chegava a 1 milhão, sendo que 300 mil viviam na maior cidade, Tenochtitlán. "Os astecas então adotaram a vida urbana. A capital estendia-se por milhares de hectares de ilhas e terras pantanosas, que 200 anos de labuta gigantesca haviam transformado em uma rede geométrica de canais, ruas e praças, verdadeira Veneza ligada às margens por três passagens elevadas", afirma Jacques Soustelle.

O povo asteca ganhou novos hábitos com uma rapidez impressionante. Seus cidadãos agora tinham livros, escolas, ofícios variados e uma vida ritualística intensa. Liam e escreviam, tinham uma compreensão evoluída de astronomia e uma cidade arquitetonicamente sustentável. Adotaram um calendário solar e outro para a agricultura - praticada nas chinampas, plataformas artificiais de terra, feitas com estacas e lodo do lago. Assim, a área de plantio não dependia do regime de chuvas.

Os sacrifícios humanos

Mas uma prática se manteve: fazer sacrifícios humanos aos deuses em cerimônias grandiosas. Sacrificava-se para que a colheita fosse boa, para que a terra não tremesse, para agradar aos deuses. Certa vez, 48 crianças foram mortas durante uma cerimônia para que chovesse. Os tipos de sacrifício variavam bastante. Era comum esfolar um cativo vivo e vestir sua pele. Também se jogava a vítima no fogo ou arrancava-se seu coração antes que ela morresse. "O coração pulsante era símbolo de vida e energia, da qual a deidade e o Cosmos seriam revestidos", diz a arqueóloga Leila Maria França.

A modalidade mais comum era deitar o prisioneiro de peito aberto sobre uma rocha, arrancar o coração com uma faca, guardá-lo num recipiente e jogar o corpo pirâmide abaixo. "Os donos dos cativos mortos comiam os restos mortais em banquetes, no meio da multidão", afirma França. Havia um motivo para tudo isso: de acordo com a cosmologia do povo mesoamericano, os deuses se sacrificaram para que o mundo surgisse, e era necessário repetir o gesto para mantê-lo. 

Todos os cidadãos tinham compromissos religiosos, mas as obrigações para com o imperador variavam de acordo com a casta. A sociedade era estratificada. A maioria da população prestava serviço militar, pagava impostos, era responsável pela conservação dos caminhos e pela construção das pirâmides e diques. Abaixo dessa classe, só os escravos. Não eram cidadãos, mas moravam, comiam e se vestiam como qualquer um e eram bem tratados por seus senhores.

A classe dos artesãos era extremamente conceituada na sociedade asteca. Eles faziam joias e eram bem remunerados. Depois vinham os poderosos comerciantes, que detinham o monopólio das mercadorias de luxo. Viajavam em caravanas para trocar produtos e acabavam lutando contra povos hostis de outras cidades-Estado, o que agradava ao imperador. Por fim, havia a nobreza e os sacerdotes. Eram isentos de impostos e levavam uma vida luxuosa sustentada pelo Estado. As posições não eram estanques. Qualquer cidadão destacado poderia ocupar postos importantes no governo.

Poligamia e chocolate

Havia dois tipos de escola. Uma mais popular, frequentada pelas camadas baixas, em que o conteúdo era praticamente militar, e outra elitizada, em que se ensinava o sistema de escrita dos códices e os calendários, e se preparavam os jovens para o sacerdócio. As meninas aprendiam a cantar e dançar. Com apenas 10 anos de idade, já estavam casadas e passariam a vida cuidando das atividades domésticas. Os homens podiam ter várias esposas. Mas, se antes de casar fossem pegos bêbados ou correndo atrás de mulheres, eram atirados vivos ao fogo.

As bebidas mais consumidas eram o pulque, feito da fermentação de um cacto chamado agave, e o chocolate frio - uma batida espumosa de pó de cacau, com grãos de milho e água. Para estabelecer conexão com os outros seres do Universo, eles comiam cogumelos alucinógenos e peiote, uma espécie de cacto.

Os camponeses viviam em casas singelas, com paredes de barro e teto de palha. Já os templos e palácios eram suntuosos. O Templo Maior, dedicado a Huitzilopochtli, deus da guerra, e Tlaloc, deus da chuva, tinha 27 metros de altura e 90 de largura. O palácio de Montezuma também era impressionante. Soustelle descreve a construção: "Situado em um quadrilátero de 200 metros de lado, apresentava-se como um vasto conjunto de edifícios com um ou dois andares, agrupados em torno de jardins interiores. Ali se penetrava tanto por terra quanto por água. Era composto de apartamentos, salas de reunião, tribunais, depósitos do tesouro, escritório dos coletores imperiais, salas de música e dança, viveiro de pássaros tropicais, um jardim zoológico repleto de jaguares, pumas, aves de rapina e serpentes com cauda de chocalho".

Futebol profético

De maneira geral, todos os astecas tinham um padrão de higiene bastante elevado para os costumes europeus da época. Eles inclusive limpavam os dentes com carvão e sal para prevenir as cáries. Para passar o tempo, jogavam pelotas. O jogo consistia em rebater uma bola de borracha com as coxas e quadris, tentando acertar um aro que ficava em cima de um campo comprido e retangular. O esporte era praticado por todas as civilizações na mesoamérica, com regras diferentes. "Quando o chefe de Texcoco profetizou que estrangeiros governariam o México, Montezuma II jogou pelotas com ele para provar que ele estava errado. Perdeu o jogo por 3 a 2 e deixou o campo amedrontado. Dois anos depois chegaram os espanhóis", diz John Clare em Astecas, Vida Cotidiana.

Outros presságios atormentaram o imperador. Segundo códices escritos depois da conquista, os astecas tomaram conhecimento da vinda dos europeus por meio de oito agouros funestos: templos que se incendiaram sozinhos, raios que caíram sobre pirâmides, cometas e inundações, entre outros. Quando soube da chegada da grande nau que flutuava no mar, Montezuma II mandou mensageiros. As notícias seguintes o afligiram ainda mais. Após a tentativa fracassada de agradar com carne humana, as relações só se complicaram.

Cortéz ficou sabendo de todo o ouro que reluzia na capital mexica e marchou para lá, causando carnificinas tão sangrentas quanto os sacrifícios dos nativos. Aliados aos tlaxcaltecas, povo que nunca se submeteu ao domínio asteca, os espanhóis traziam consigo a varíola. Chegando a Tenochtitlán, o imperador os recebeu cordialmente. Montezuma II acabou preso, teve seu tesouro saqueado e ainda ficou com fama de traidor.

Durante um ritual a Huitzilopochtli, que acontecia com a conivência dos espanhóis, todos os nativos presentes foram presos e assassinados. Cortéz não estava. Mas, na chamada Noite Triste, de 30 de junho de 1520, ele liderou seus soldados numa guerra contra os mexicas. Pólvora contra lanças de obsidiana, canhões contra flechas. Os astecas teriam vencido, não fossem as forças tlaxcaltecas que vieram em socorro dos estrangeiros. Dias depois, Montezuma morreu. Não se sabe se pela mão dos espanhóis ou abatido por uma pedra arremessada por alguém da multidão asteca.

Cuhautemoc, o segundo sucessor (e que viraria herói mexicano), repeliu outros 20 assaltos. Rendeu-se em 13 de agosto de 1521. Com ele, caía todo o Império Asteca. Os espanhóis ergueram suas igrejas sobre os templos, usando as pedras originais. Destruíram as imagens dos deuses e proibiram cultos, oferendas e sacrifícios. E o povo, resignado, recorreu ao sincretismo religioso para poder adorar, em segredo, seus deuses do passado.

Muito antes dos astecas 

Povos que dominaram o território mexicano nos últimos 22 mil anos 

 20000 a 15000 a.C: Caçadores e coletores habitavam os pântanos e lagos do vale do México.

 4000 a.C: Início da agricultura, com predomínio das plantações de milho.

 2000 a.C. a 400 a.C: A civilização olmeca constrói pirâmides, inventa uma escrita hieroglífica e aprende a contar a passagem do tempo.

 0 a 1000: É o período das civilizações "clássicas". Maias, zapotecas, teotihuacanos e El Tajín dominam a região. Todos cultuam o deus Quetzalcoatl.

 Séculos 9 a 11: Toltecas, bárbaros oriundos do norte que praticam sacrifícios humanos, fundam a cidade de Tula.

 Século 12: Levas migratórias provocam a queda de Tula. O vale central é dividido em 28 cidades-Estado. Texcoco e Colhuacán estão entre as maiores.

 Século 14: Fundação de Tenochtitlán e do Império Asteca.

 Século 16: Ocupação dos espanhóis, que transformam Tenochtitlán na Cidade do México.

A Pedra do Sol 


Os astecas viviam a era do quinto sol quando a civilização foi extinta. Antes dele, outros quatro surgiram, cada um criado por um deus diferente. Tonatiuh regia o presente e exigia sacrifícios para garantir a sobrevivência da humanidade. Para explicar esses ciclos, os moradores de Tenochtitlán criaram a pedra do sol, popularmente conhecida como calendário asteca. Ela pesa 24 toneladas, tem quatro metros de diâmetro e foi descoberta nas escavações do Templo Maior, em 1977.

 1º Sol: Representado pelo Jaguar, durou 676 anos e acabou quando monstros surgiram das entranhas da terra e devoraram as pessoas.
 2º Sol: Dominado pelo vento, terminou depois de 354 anos, quando furacões sacudiram a terra e transformaram os homens em seres monstruosos.
 3º Sol: Simbolizado pela chuva, durou 312 anos . A era acaba por causa de uma chuva de fogo e lava. Os homens viraram pássaros para sobreviver.
 4º Sol: Era regida por Chalchihuitlicue, deusa das águas. Após 676 anos, uma inundação fez os homens virarem peixes e marcou o fim do período. 
 5º Sol: Correspondia à atualidade dos astecas e era representado pelo deus Tonatiuh. Ele segura um coração humano em cada mão e sua língua é uma faca, exigindo sacrifícios para a continuidade do ciclo solar.

Os deuses inclementes 

 Huitzilopochtli: Representava a guerra. Tinha liderado o povo durante a peregrinação até Tenochtitlán. Depois de morto, foi endeusado. Iniciou a prática de sacrifícios entre os astecas, ordenando que esfolassem integrantes do bando.

 Tlaloc: Deus da chuva, vivia nas montanhas. Quando benfeitor, umedecia a terra e regava as plantações. Se contrariado, enviava tempestades, raios e tufões - e por isso era muito temido.

 Chalchihuitlicue: Deusa das águas e da fertilidade, reinou sobre o mundo na quarta era do sol. Em seu reinado, o céu era feito de água. Quando ela caiu sobre a terra, causou o dilúvio que transformou homens em peixes. Era companheira de Tlaloc e mãe do deus do vento, Quetzalcoatl.

 Quetzalcoatl: A serpente com plumas é adorada em todas as culturas mesoamericanas. Saiu de Tula, cidade tolteca, em 999, e nunca mais voltou. Partiu para o longínquo país vermelho, o Sol, que nascia no leste, de onde veio também Hernán Cortéz.




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sábado, 1 de julho de 2017

Gettysburg: A virada do jogo

Márcio Sampaio de Castro


Dia 30 de junho de 1863. Faltava pouco para as comemorações da independência norte-americana. O general Robert E. Lee conduziu o exército confederado em uma expedição que busca levar a Guerra Civil até as cercanias de Washington, a capital do país. Seus objetivos eram dar um golpe decisivo no moral do Exército da União, forçar o governo federal a sentar-se à mesa de negociações e conseguir uma outra independência: a dos estados do sul em relação ao restante do país.

Após dois anos de conflitos, Lee, conhecido por seus inimigos como Raposa Grisalha, colecionava uma sucessão de vitórias sobre as forças federais nos estados de Maryland e da Virgínia. Ao entrar na Pensilvânia, em pleno coração do território nortista, mostrava a seus inimigos que não estava disposto a perder a guerra.

Percebendo o tamanho da ameaça, o governo mobilizou um exército de 95 mil homens, liderados pelo general George G. Meade, para caçar e destruir os expedicionários confederados, que contavam com 75 mil soldados.

Ao raiar do dia 1 de julho, Lee despachou diversas brigadas para tentar estabelecer contato com o inimigo. Confiante nas vitórias recentes, o general sulista esperava liquidar seus perseguidores, destruindo de vez o moral dos unionistas. Nas cercanias da pequena Gettysburg, o contato foi finalmente estabelecido.

Começa a batalha

Gettysburg era uma pequena cidade interiorana cercada por morros rochosos e bosques. Ao aproximar-se dela, os confederados encontraram duas brigadas ianques, como eram chamados pejorativamente os nortistas por seus inimigos, entrincheiradas em uma faixa de aproximadamente 1,5 quilômetro de elevações ao sul da cidadezinha. As trocas de tiros foram se sucedendo, enquanto os dois lados mandavam informes aos respectivos comandantes solicitando reforços. A aproximação da noite trouxe uma pausa para o combate, mas a escalada de violência que começara de maneira quase casual dava início a uma das mais importantes e a mais sangrenta batalha da Guerra Civil norte-americana.

Após as escaramuças do dia anterior terminarem com a manutenção das tropas federais em suas posições originais, o dia 2 de julho começava com um impressionante aumento dos efetivos de lado a lado. Morros como Culps Hill, Cemetery Ridge e Little Round Top eram o objetivo maior dos atacantes, enquanto as tropas do governo limitavam-se a cavar trincheiras e sustentar suas posições.

Valendo-se de um comportamento que se transformara em marca de combate, os sulistas subiam as encostas dos morros urrando. Seu objetivo era contornar as extremidades das linhas de defesa e surpreender os inimigos pela retaguarda. Mas, à exceção de alguns combates corpo a corpo, na maioria das vezes foram repelidos a tiros antes mesmo que pudessem chegar perto das trincheiras nortistas.

Ao cair da noite, avaliando o resultado dos dois primeiros dias de batalha, o general Meade resolveu junto com seu Estado-Maior que a melhor coisa a fazer era manter uma postura defensiva. Um novo fracasso diante dos rebeldes, que tanto vinham humilhando o exército federal, poderia ter consequências desastrosas.


Tiro ao alvo

Os planos do general Lee para o dia 3 de julho eram um pouco mais ambiciosos em comparação ao que seus homens haviam feito até então. A Raposa Grisalha decidira que enviaria uma poderosa força de infantaria, com 12 mil homens, comandados pelo general Longstreet, para romper a linha de defesa inimiga bem no centro. Ao mesmo tempo, despacharia sua cavalaria para atacar a retaguarda ianque, fazendo um longo contorno a leste de Gettysburg. O que Lee não sabia era que diversos fatores começavam a conspirar contra seus objetivos.

Às 13 horas daquele dia, uma gigantesca barragem de artilharia, composta por 170 canhões, iniciou um ataque que deveria devastar as defesas unionistas. A enorme coluna de fumaça que se seguiu aos disparos não permitiu aos observadores confederados perceberem que os projéteis estavam explodindo bem atrás das trincheiras inimigas. Antes mesmo que os canhões sulistas silenciassem, os homens de Longstreet iniciaram uma marcha pelos mil metros que os separavam das trincheiras unionistas. O que se seguiu então foi uma verdadeira prática de tiro ao alvo, executada inicialmente pelos canhões e, em seguida, pelos rifles nortistas. Dois em cada três soldados atacantes não retornaram para suas linhas após a investida.

Quando voltou do ataque malsucedido, o general George Pickett protagonizou um dos mais célebres diálogos da história da Guerra Civil. Ao se aproximar do general Lee, ouviu do comandante-em-chefe uma ordem para reorganizar sua divisão, ao que respondeu: “General Lee, eu não tenho nenhuma divisão”.

Assim, todos os esforços para humilhar o numeroso, mas até então desorganizado exército da União, resultaram em um grande fracasso. A perda de quase um terço de seus efetivos em três dias de batalha impedia a continuação da expedição em território inimigo.

O dia 4 de julho de 1863 foi marcado por uma torrencial chuva que caiu sobre a região da Pensilvânia. Debaixo do aguaceiro, Robert E. Lee montou em seu cavalo e conduziu o exército sulista de volta para a Virgínia. Em seu íntimo sabia que a tão sonhada independência dos estados confederados estava mortalmente ameaçada pela derrota em Gettysburg.


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segunda-feira, 26 de junho de 2017

[SGM] Documentos mostram que os nazistas planejavam destruir o canal do Panamá

George Dvorsky


Investigadores no Chile lançaram milhares de documentos que deixaram de ser confidenciais datando até a Segunda Guerra Mundial, revelando a extensão com a qual os espiões nazistas se infiltraram no país. Dentre as revelações mais chocantes está a descoberta de uma conspiração nazista para destruir o Canal do Panamá, um ato que teria mudado a “história do mundo inteiro”.

Como mostrado pelo Deutsche Welle, os documentos foram apresentados na quinta-feira (22) em uma cerimônia de revelação em Santiago no Chile. Os arquivos finalmente foram disponibilizados ao público depois de uma petição que foi apresentada esse ano por deputados chilenos que pediam sua liberação. Os arquivos agora estão em exposição pública nos arquivos nacionais do Chile, e versões digitais serão disponibilizadas online.

“Até ontem (quinta), isso ainda era um segredo”, disse o legislador Gabriel Silber, um dos autores da petição. “Talvez, a partir de hoje, possamos reconhecer uma verdade desconfortável que infelizmente algumas figuras políticas e de negócios no Chile apoiaram os nazistas.”

Realmente, os nazistas tiveram apoio no Chile e em outros países latino-americanos durante a Segunda Guerra, e é esse o motivo de tantos oficiais nazistas terem vindo para a América do Sul depois da guerra. Em 1941, depois de grupos nazistas terem sido encontrados no país, o governo chileno montou uma unidade de polícia especial chamada Departamento 50 para rastrear esses círculos de espiões e frustrar suas atividades.

Conforme os recém-revelados documentos mostram, mais de 40 pessoas dentro dos círculos de espionagem nazista foram presas durante a guerra. O Departamento 50 conseguiu quebrar dois círculos principais de espiões que estavam trabalhando no Chile e outros países da América do Sul, tomando suas armas, confiscando milhares de dólares em dinheiro e descobrindo várias conspirações, incluindo um plano de bombardear minas no norte do Chile. A polícia especial também descobriu que os filhos de algumas famílias alemãs estavam vivendo no interior, onde estavam fazendo treinamento paramilitar.

Os arquivos também mostram que os espiões nazistas e apoiadores no Chile conseguiram interceptar comunicações de rádio feitas pela marinha chilena. Agentes nazistas conseguiram criptografar essas mensagens e mandá-las para o terceiro reich. É bem óbvio a partir desse e de outros exemplos que os nazistas receberam amplo apoio de simpatizantes chilenos em altos cargos.

Talvez mais chocante de tudo, o Departamento 50 descobriu e impediu uma conspiração para atacar o Canal do Panamá. “Se eles tivessem alcançado seus objetivos, isso poderia ter mudado não apenas a história do Chile, mas a história do mundo inteiro”, disse Hector Espinoza, o diretor-geral de investigações da polícia do Chile, na cerimônia de quinta-feira. Nenhum detalhe da conspiração foi trazido a público, mas os espiões provavelmente estavam pensando em plantar bombas nas áreas mais vulneráveis, deixando o canal inoperável por longos períodos. Destruir uma ou várias comportas, por exemplo, poderia ser potencialmente catastrófico.

Sem dúvida, a destruição do Canal do Panamá, mesmo temporária, poderia ter sido um forte golpe para a Aliança. O canal servia como uma rota primária para transportar tropas americanas e suprimentos da costa leste para a guerra no Oceano Pacífico. Um canal obstruído teria bloqueado muito a capacidade das forças americanas de lutar contra o Japão Imperial, que estava aliado à Alemanha na época. Vale notar que os japoneses também tiveram planos de atacar o Canal do Panamá durante a guerra, usando uma frota de submarinos, mas a guerra terminou antes do ataque poder ter sido lançado.

A liberação desses documentos veio apenas alguns dias depois de um monte de artefatos nazistas terem sido descobertos na casa de um colecionador na Argentina. A guerra pode ter terminado 72 anos atrás, mas ainda estamos descobrindo a extensão da tentativa nazista de fazer da América do Sul a sua casa longe de casa.

http://gizmodo.uol.com.br/documentos-nazistas-destruicao-canal-panama/

sábado, 24 de junho de 2017

O flagelo de Deus: Átila

Isabelle Somma


O destino do maior e mais poderoso império sobre a Terra estava em jogo naquele dia 20 de junho de 451, em Châlons, ao norte do que hoje é a França. Aecius, um respeitado general romano, aguardava a chegada de seu inimigo. O poderoso exército romano já havia conhecido dias melhores, mas mesmo assim Aecius tinha sob seu comando 160 mil homens, entre legionários de Roma e aliados bárbaros – que era como os romanos chamavam todos os povos europeus que não viviam dentro de seu império. A formação do exército era pouco confiável, a tropa estava decadente e os salários eram pagos com atraso. Mas nada disso preocupava Aecius. O problema era seu oponente. Um homem cujo nome, em menos de 20 anos, tinha virado sinônimo de destruição e horror. O sujeito mais odiado de seu tempo já havia devastado boa parte da Europa e estava a caminho de seu coração: Roma. Era Átila, o rei dos hunos.

O comandante tinha razão em estar preocupado. Os hunos eram realmente terríveis. Em oposição às tribos germânicas, que cultivavam a terra e já conviviam numa boa com os romanos, eles permaneciam nômades, viviam de saques, dos resgates que exigiam daqueles que aprisionavam e da cobrança de proteção de quem não queria ser atacado. Enfim, eles eram os bárbaros que botavam os bárbaros para correr. Segundo o historiador romano Marcelinus, eles lutavam como doidos e executavam qualquer um que não se rendesse. Eram grandes cavaleiros e, no início, utilizavam lanças e arco e flecha. Depois do contato com os romanos, adotaram catapultas, escudos e capacetes.

Entre os chefes dessa turma estavam os irmãos Octar e Rua Mundzuc, e foi no meio dessa família que surgiu um novo rei. Átila provavelmente nasceu no atual território da Hungria, às margens do rio Danúbio. Filho de Mundzuc, entre os anos de 435 e 440 ele herdou as terras de seu pai e de seus tios e ainda abocanhou o pedaço de seu irmão Bleda, depois de matá-lo. Ele virou líder dos hunos num momento em que a principal potência do mundo antigo estava prestes a ruir. “Na primeira metade do século 5, a parte ocidental do império quase foi substituída por reinos bárbaros”, diz Kenneth Dark, historiador da Universidade de Bristol, na Inglaterra. A coisa andava tão feia que, no ano 410, Roma foi saqueada pelos visigodos. Foi a primeira vez em 800 anos que a cidade foi atacada por bárbaros.

Quase todos os relatos sobre Átila o descrevem como um monstro. A exceção é o historiador romano Prisco, que conheceu pessoalmente o general huno e descreve sua corte, às margens do rio Danúbio, como um lugar simples e organizado. Mas, no campo de batalha, o cara tinha fama de mau. “Átila contava com um forte aliado: o medo que seus homens provocavam no inimigo. Com isso, ele conseguia altas somas em ouro simplesmente blefando”, diz Charles William King, da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos. Em 447, Átila devastou a Trácia, pilhou monastérios e vilarejos e destruiu plantações. O imperador do lado oriental, Teodósio II, aceitou pagar um tributo anual em ouro e terras para evitar o avanço dos hunos. Com o acordo garantido do lado oriental, Átila resolveu atacar o ocidente. Ele só precisava de um pretexto. Logo surgiu um.

A irmã do imperador romano Valentiniano, Justa Grata Honoria, foi presa depois de engravidar de um funcionário da corte. Pensando em quem seria um rival à altura de seu irmão para salvá-la, Justa resolveu recorrer ao homem mais poderoso de que ouvira falar: ele mesmo, o rei dos hunos. E enviou a Átila uma carta pedindo ajuda. Em troca, lhe cederia uma fatia generosa do Império. “Átila teria interpretado o pedido como uma proposta de casamento e, segundo autores medievais, exigiu metade do Império Ocidental”, diz King. Será que isso é verdade? Não parece uma daquelas lendas medievais, com uma princesa raptada e um guerreiro partindo em sua salvação? Pode ser, mas o fato é que, por volta de 450, Átila começou a marchar em busca do que achava que era seu – fosse Justa Honória, fosse uma fatia do decadente Império Romano. Com ele, seguiram mais de 300 mil homens, entre eles os agora aliados ostrogodos, burgúndios e alanos, além de alguns francos. O enorme exército invadiu a região do vale do rio Reno e não poupou ninguém. A aproximação dos hunos fez com que os romanos finalmente começassem a se organizar. E aí chegamos de volta a Châlon.



Na porta de Roma

De repente, todo o destino da Europa estava em jogo. Se ganhasse, Átila teria caminho livre até Roma. Mas a superioridade numérica e a disciplina dos soldados romanos foram decisivas. Os hunos foram derrotados. Átila, segundo a tradição, estava se preparando para cometer suicídio caso seu acampamento fosse invadido quando recebeu a mensagem de Aecius, permitindo que ele e parte de seus homens se retirassem. Átila, humildemente, aceitou. A vitória deu a Aecius o título de “o último dos romanos”, ou seja, o último general que honrou em campo a armadura que vestia. Mas sua tática de deixar o inimigo se recompor não foi nada inteligente. Átila invadiu a Itália em 452 e destruiu várias cidades, entre elas Milão. Aí ocorreu algo surpreendente. Ele estava a cerca de 200 quilômetros de Roma. Um pulinho, para quem estava a mais de 3 mil quilômetros de casa. E, no entanto, após 13 dias acampado, deu meia-volta e se foi. Não se sabe por que Átila não seguiu em frente até Roma. Pode ser que ele estivesse doente demais para isso. Antes que pudesse partir, e tendo tomado para si uma nova esposa, Idilico, provavelmente uma princesa visigoda, Átila teve uma hemorragia estomacal. No dia seguinte ao casamento, o homem mais temido do mundo morreu.

“O reino de Átila desmoronou imediatamente. Em uma série de batalhas, os filhos de Átila foram vencidos por outros povos bárbaros”, diz Kulinowski. O império Romano não teve um destino muito melhor: também acabou, apenas 23 anos depois da morte de Átila.

Muralha contra os hunos

Eles também detonaram tudo do outro lado do mundo

Não há certeza sobre as origens dos hunos, mas os rastros mais antigos deles são da China e datam do século 3 a.C., quando o imperador Shi Huangdi ordenou a construção de uma longa barreira feita de argila para proteger seu reino de invasões. A contenção era nada mais nada menos do que a Muralha da China. E os invasores eram os hunos. No século 3, os hunos se dividiram em grupos. Um deles foi parar nas margens dos rios Volga e Don, na Europa. Os hunos que continuaram na Ásia deixaram muitos registros, como a cidade Tongwan. Construída em 419 e abandonada no ano 984, ela tinha 20 mil km2 de extensão e muros de até 30 metros de altura. As provas mais confiáveis sobre os hunos podem estar na China, mas as marcas culturais deles estão em vários lugares. “As músicas folclóricas e a flauta hujia dos hunos são encontrados hoje na Mongólia e na Rússia”, diz Zhang Mingqia, do Museu de História de Shaanxi, na China. Além disso, a língua falada hoje na Hungria é parecida com a da província de Shaanxi, de onde os hunos partiram em direção à Europa.

Intriga da oposição

Em todo o Império Romano do século 5, e também nos territórios bárbaros, o povo tinha mais medo de Átila do que do capeta. Um dos boatos mais conhecidos era o de que ele e sua turma comiam carne crua. Até aí tudo bem, afinal até hoje comemos sashimi, quibe cru e carpaccio. O problema é que eles usariam a carne crua como sela. Ou seja, sentavam-se nela enquanto cavalgavam. Quando tinham fome, era só tirar uma lasquinha. Prisco, o único que conheceu Átila, afirmou que ele vivia numa espécie de reino na região da atual Hungria. Ali havia um local para banhos, e comia-se muita carne, mas ela não era curtida em cima dos cavalos. E a história de que os hunos dormiam, comiam e faziam suas necessidades em cima do animal também é pura intriga dos romanos.

Outro relato, que chegou a ser reproduzido em pinturas por mestres como Rafael, foi o do encontro entre o papa Leão I e Átila. Segundo a lenda, ambos teriam batido um longo papo, em que Leão I teria convencido o “flagelo de Deus” a não destruir Roma. Átila realmente recebeu o papa em seu acampamento. Mas ele não invadiu Roma por outro motivo. “Alguns de seus comandantes, incluindo ele próprio, caíram doentes, o que forçou a retirada”, afirma o professor Michael Kulikowski, da Universidade do Tennessee. Outro mito que chegou aos dias de hoje é o de que por onde Átila passava, não nascia grama. Segundo Ferrill, isso se deve ao estrago feio que ele causou na Gália.


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[SGM] Operação Barbarossa: Traição entre tiranos

Márcio Sampaio de Castro


“Só temos de chutar a porta e toda a estrutura podre desmoronará.” Com essas palavras, Adolf Hitler comunicava aos oficiais superiores de seu Exército, em princípios de 1941, sua intenção de atacar a União Soviética para destruir o comunismo e escravizar os povos eslavos que formavam a república socialista. Em 22 de junho daquele ano, teve início a Operação Barbarossa, uma gigantesca ação militar, envolvendo mais de 3 milhões de homens, 3 580 veículos blindados, 7 mil peças de artilharia e milhares de aviões.

Assim como fizera havia pouco mais de um ano com franceses, belgas e holandeses, Hitler esperava esmagar os soviéticos em oito semanas, empurrando as fronteiras do Reich para a cadeia montanhosa dos Urais, já na fronteira com a Ásia. Uma confiança que era reforçada por outro fator também enxergado como favorável à invasão. O expurgo patrocinado pelo líder comunista, Josef Stalin, em 1937, quando foram executados quase 37 mil oficiais de seu Exército, debilitara significativamente a cadeia de comando soviética, tornando-a quase acéfala.

Dividido em três corpos, o Exército alemão avançou de forma avassaladora sobre o território inimigo a uma velocidade média de 40 quilômetros por dia. Em três semanas de combate havia causado mais de 2 milhões de baixas no Exército Vermelho, destruído 3,5 mil tanques e mais de 6 mil aeronaves em seu caminho, rumo ao coração da nação inimiga. Na avaliação do alto comando alemão, Moscou era a chave para a vitória. Por ser a capital, constituía-se num importante entroncamento entre a Rússia europeia e a asiática. Todas as redes de comunicação tinham ali seu centro nervoso e as principais indústrias bélicas do país estavam estabelecidas em seus arredores.


Primeiro, a Ucrânia

Exatamente dois meses após o início da invasão, Hitler convocou os oficiais de seu alto comando para comunicar-lhes uma nova decisão: a conquista da Ucrânia e de sua capital, Kiev, deveria, a partir daquele momento, ser considerada uma prioridade. Moscou ficaria para depois. Para o Führer, a explicação era muito simples. A Ucrânia e seus oleodutos serviam como um corredor para o Cáucaso, região produtora do petróleo, vital ao esforço de guerra nazista. Além disso, seus vastos campos de trigo, soja e milho alimentariam o Exército e o povo alemão por gerações. O plano era simples.Valendo-se da mobilidade de suas colunas de tanques Panzer e do apoio dos aviões da Luftwaffe, o exército Sul, um dos três corpos da invasão, deveria cercar o Grupo de exército Budienny, nome que fazia menção a seu comandante, marechal Semyon Budienny, e esmagá-lo com maciços bombardeios. Os soviéticos tinham ordens para resistir até o último homem. Mesmo assim, por via das dúvidas, desde o início de agosto, sob o comando do comissário Nikita Kruschev, as instalações industriais vinham sendo desmontadas e enviadas por trem para a Rússia asiática, onde eram remontadas e imediatamente incorporadas à indústria bélica.

Enquanto os alemães se deslocavam em direção a Kiev, recebidos como libertadores por boa parte da população ucraniana nas vilas e aldeias com flores e pães, o chefe do Estado-Maior do Exército Vermelho, Gheorghi Jukov, fazia insistentes apelos a Stalin para que a cidade fosse abandonada. Indiferente, o ditador mantinha sua ordem geral: “Nenhum passo para trás!”. Tanto o povo ucraniano como o líder soviético se arrependeriam profundamente de suas ações. 

Nos planos do marechal Budienny, a cidade de Kiev, erigida às margens do rio Dnieper, deveria funcionar como o eixo da defesa contra os agressores alemães na Ucrânia. Homens formaram um bolsão onde esperavam deter o avanço nazista. Esse arranjo mostrou-se um erro tático do marechal soviético, que serviria como senha para um dos maiores cercos da história militar. Após vencer, entre o final de agosto e o início de setembro, pequenas unidades mais afastadas da capital ucraniana, dois grupamentos blindados do Exército alemão provenientes do norte e do sul se encontrariam em 16 de setembro atrás das linhas inimigas, completando o movimento de pinça que haviam iniciado pouco mais de duas semanas antes.

Ao tomar ciência do movimento inimigo, em um de seus ataques de cólera, Stalin destituiu Budienny. Para seu lugar nenhum oficial foi nomeado, ficando cada unidade do Exército Vermelho por sua conta e risco. Ao sobrevoar o bolsão representado pela cidade de Kiev, os comandantes dos aviões da Luftwaffe assinalariam em seus relatórios que grandes colunas de infantaria, massas de cavalaria, carros blindados e comboios de toda natureza moviam-se de forma desordenada sob uma formidável nuvem de poeira. Sob uma chuva de chumbo e pólvora, as unidades soviéticas iam se rendendo uma a uma.

Ao final do cerco, em 19 de setembro, mais de 650 mil homens se renderiam. Grande parte morreria de fome nos campos de detenção improvisados pelos alemães no interior da Ucrânia, assim como muitos dos civis que receberam com festa a chegada de seus supostos libertadores acabariam fuzilados.

Para muitos dos soldados alemães, uma chuva fina e persistente que caía desde o dia 3 de setembro passou despercebida. A Ucrânia estava subjugada e o moral do Exército nazista subia às alturas, apesar do atraso de um mês que a campanha ucraniana representara para a tomada de Moscou. Já para os soviéticos, esse mês a mais possibilitou a organização das defesas de sua capital. Quanto à chuva rala, eles sabiam que era o prenúncio do rigoroso inverno que lhes ajudaria, matando milhares de alemães, como fizera com os soldados de Napoleão no século 19, e impedindo mais uma vez na história que a capital russa fosse conquistada por um exército estrangeiro.

“O Führer sempre tem razão”

No início de agosto de 1941, uma euforia tomava conta de soldados que marchavam sobre a combalida União Soviética. Todos sabiam que Moscou era o grande prêmio da conquista e esperavam passar o Natal daquele ano guardando a entrada do Kremlin ou gozando suas licenças em casa com suas famílias. Os atônitos soviéticos das regiões já conquistadas por muitas vezes observaram intermináveis colunas de blindados e caminhões alemães cobertos com a frase Nach Moskau (Para Moscou).

Mas os comandantes da linha de frente sabiam que o Führer estava dividido entre Moscou, Leningrado e Kiev. No dia 23 daquele mês, o general Franz Halder, chefe do Estado-Maior do Exército alemão, retornava preocupado da retaguarda com a última decisão de Hitler: a prioridade era a conquista da Ucrânia. A ofensiva contra Moscou seria adiada. Os generais que comandavam a Operação Barbarossa sabiam que um desvio naquele momento significaria ter de enfrentar os rigores do inverno russo ainda no campo de batalha.

Reunidos para deliberar a respeito das novas ordens, resolvem enviar para a Toca do Lobo, o bunker onde Hitler tomava suas decisões na Prússia Oriental, o respeitado comandante de Panzers e teórico da blitzkrieg, Heinz Guderian. Sua missão era convencer o líder nazista a mudar de idéia e apostar todas as fichas em Moscou. Recebido na Toca por Hitler, Guderian trava um breve e tenso debate com o Führer diante dos demais oficiais do alto comando. Ao final, Hitler pergunta aos presentes qual dos dois tinha razão. A plateia é unânime em apontá-lo como vencedor. “Primeiro a Ucrânia, mein Führer!”.

Ao sair derrotado do salão de conferências Guderian é abordado pelo colega Alfred Jodl, que a tudo assistira. “Não se aborreça, Guderian. A intuição do Führer é infalível. Ele sempre tem razão...”.

No começo de dezembro, os nazistas chegaram a 18 km do centro Moscou. Diziam conseguir enxergar as torres da Catedral de São Basílio. Até que não podiam mais: o tempo fechou e a nevasca começou a cair. Em 5 de dezembro, os soviéticos lançam sua contra-ofensiva e, daí por diante, os alemães só ficariam cada dia mais longe de seu objetivo. 

Não é dar "spoiler" dizer como essa história termina: num certo bunker, com certas cápsulas de cianureto.

A batalha de Kiev

Quem: URSS X Alemanha
Quando: 25 de agosto a 19 de setembro de 1941
Onde: Ucrânia
Forças: URSS: 900 mil soldados / Alemanha: 500 mil soldados
Baixas: Alemanha: 150 mil mortos e feridos / URSS: 164 mil mortos e feridos e 650 mil prisioneiros
Resultado: Vitória da Alemanha

Recepção dos "libertadores"

Ao menos no começo, pareceu a muitos ucranianos que só tinham a ganhar com a invasão nazista. O país foi um dos que mais sofreu sob o regime soviético, passando pelo Holodomor ("morte por fome") perdendo entre 2 milhões até incríveis 12 milhões de seus 43 milhões de habitantes para a fome causada pela coletivização agrícola imposta por Stalin. Não bastasse isso, a Ucrânia é uma nação historicamente tentando se desvencilhar do domínio imperial russo.

E, por fim, precisa ser dito, os ucranianos eram virulentamente antissemitas. Era comum entre povos do leste europeu, mas particularmente intenso entre eles. Pogrom - o linchamento massivo de judeus - é uma palavra ucraniana (e russa) que quer dizer "demolir violentamente". E a Ucrânia era a campeã mundial em massacres de judeus, o que continuou até ser incorporada à União Soviética. Não deve ser surpresa então que os pogrons voltaram a acontecer durante o domínio nazista. 

Os ucranianos acabariam por se arrepender. Para os nazistas, eslavos eram inferiores e destinados naturalmente à escravidão - o que foi o que precisamente o que fizeram os "libertadores", forçando os ucranianos a trabalharem para eles.

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/operacao-barbarossa-traicao-entre-tiranos.phtml#.WU5oM9IrLcs

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