quarta-feira, 5 de julho de 2017

[SGM] Kursk: A aurora das máquinas

Mauro Tracco


O general e estrategista prussiano Carl von Clausewitz, autor de Da Guerra, escreveu: "A forma defensiva de guerrear é intrinsecamente mais forte que a ofensiva. Deve ser usada somente quando compelida pela fraqueza e abandonada assim que nos tornarmos fortes o suficiente para perseguir um objetivo definido. Quando alguém usa as medidas defensivas de forma competente, uma balança favorável de força costuma ser criada. Por isso o curso natural em uma guerra é começar na defesa e terminar no ataque". 

Em julho de 1943, no episódio conhecido como Batalha de Kursk, o Exército Vermelho mostrou a força de sua defesa e o poder de seu contra-ataque. Pela primeira vez, não só uma blitzkrieg foi detida em seus estágios iniciais como os soviéticos se mostraram capazes de triunfar sobre os alemães no verão. Depois da virada de mesa em Kursk, a iniciativa na frente oriental mudou de lado.

Na linha de frente nazista, entre as posições avançadas de Orel e Kharkov, ficava o saliente de Kursk, sob domínio do Exército de Stalin. Os dois lados sabiam que aquela "protuberância vermelha", localizada no sul da União Soviética, era o ponto de ataque mais óbvio dos alemães. A Alemanha enxergava o saliente como o alvo perfeito para repetir os sucessos dos anos anteriores, cercando e destruindo vastos exércitos soviéticos. Para os soviéticos, era a chance de provar que a vitória em Stalingrado, no início de 1943, não havia sido apenas um golpe de sorte.

Àquela altura da guerra, diante do crescente poderio militar da União Soviética, os nazistas já não tinham a ilusão de esmagar o inimigo, mas se viram obrigados a tomar uma atitude para impedir sua iniciativa na frente oriental. Se o objetivo fosse alcançado, Hitler acreditava que eliminaria a possibilidade de uma ofensiva do Exército Vermelho em 1943 e, dessa forma, ficaria livre para transferir algumas de suas tropas para combater a inevitável invasão aliada no oeste.

Operação cidadela

A última grande ofensiva nazista recebeu o nome de Operação Cidadela. Deveria ser a quinta demonstração de força da blitzkrieg. Uma demonstração que, desde setembro de 1939, ocorria anualmente nos finais de primavera ou no verão. Toda operação anterior de tamanha escala estratégica obteve vitórias fulminantes em seus estágios iniciais e intermediários, apesar de, em 1941, não terem conquistado o objetivo final, Moscou, e de em 1942 as operações terem se esticado até o desastroso desfecho de Stalingrado.


Os comandantes insistiram que a ofensiva deveria ser lançada o quanto antes, para que o inimigo não tivesse tempo de fortalecer suas linhas de defesa, mas Hitler adiou o ataque para esperar a chegada dos novos tanques Panzer V (Pantera), VI (Tigre) e a instalação de blindagem extra nos Panzers III e IV.

Os soviéticos estavam cientes dos planos nazistas graças aos relatórios enviados por espiões. Esse fato, somado aos três meses de espera pelos super tanques de Hitler, deram aos comunistas tempo de sobra para preparar suas posições e trincheiras antitanque, instalar 400 mil minas, aumentar o número de canhões autopropulsados e trazer tanques modelos T-34 e o novíssimo KV-85. Os comunistas estavam bem preparados também na retaguarda, onde um novo front foi montado, a 100 quilômetros de distância. Todas as suas unidades contavam com capacidade de força total.

A Operação Cidadela consistia em ataques simultâneos em dois flancos, um ao norte e outro ao sul do saliente. Os alemães estavam em menor número, mas confiavam em suas táticas de blitzkrieg e em seu equipamento tecnologicamente mais avançado para garantir a vitória, tal qual havia ocorrido em operações anteriores.

As forças alemãs deveriam avançar uma em direção a outra até se encontrar e assim atacar juntas os soviéticos ilhados. Pelo norte, o 9º Exército e seus batalhões de tanques Tigres e canhões autopropulsados Ferdinand deveriam corroer as defesas inimigas e abrir espaço para as divisões armadas. Os destacamentos de blindados pesados precederiam o avanço de tanques médios e leves e da infantaria motorizada que ajudaria a destruir as defesas soviéticas. No total, cerca de 1,2 mil tanques e canhões autopropulsados seriam utilizados no flanco setentrional.

Pelo sul, o 4º Exército Panzer e o destacamento militar Kempf, posicionados nas cercanias de Belgorod, atacariam as defesas da região meridional do cinturão e marchariam rumo ao norte até se encontrarem com o 9º Exército, perto de Kursk; 1,5 mil tanques e canhões autopropulsados seriam usados.

Para receber o ataque nazista, as divisões que defendiam a saliência contavam com 3,3 mil tanques e armas motorizadas. Afastados do front, mais 1,6 mil tanques integravam uma gigantesca força militar reserva, que estava lá para providenciar o poder bélico para um contra-ataque.



Banho de sangue

O que se viu na Batalha de Kursk foi um banho de sangue. Soldados veteranos afirmaram que esse foi o mais brutal engajamento de toda a guerra. A ofensiva foi lançada na madrugada do dia 5 de julho. A retaliação foi imediata, com bombardeios em todos os locais de concentração alemã encontrados. A Luftwaffe tentou aniquilar a Força Aérea soviética ainda no chão, mas falhou.

No norte, os combates davam-se tanque contra tanque, canhão contra canhão e, principalmente, soldado contra soldado. O 9º Exército empregava mais homens e máquinas a cada batalha e acabou esgotando seu poder ofensivo sem conseguir avanços significativos. Não apenas os soviéticos conseguiram segurar as linhas como tomaram a ofensiva no dia 12 contra a saliência de Orel, que estava nas mãos dos nazistas desde o outono de 1941.

No sul, a coisa foi mais encarniçada. Os comunistas encaravam o que restava do melhor da tecnologia militar alemã. A Wehrmacht avançava um pouco a cada dia, porém, os tão aguardados Panzers não paravam de quebrar, atolar nos lamaçais e sucumbir às minas plantadas pelo inimigo. Foi no dia 12, em Prokhorova, que aconteceu o maior embate de tanques de toda a Batalha de Kursk. O resultado do confronto pulverizou as chances de uma vitória nazista. No dia 13, Hitler abortou a Operação Cidadela e o exército do Reich recuou para novas posições de defesa, localizadas próximas ao ponto de partida da ofensiva.

Os alemães haviam desfalcado seu poder de ataque e exaurido suas reservas táticas. Apesar de terem sofrido baixas severas, os soviéticos eram superiores em número e podiam lançar tropas frescas para sua contra-ofensiva sobre um inimigo enfraquecido. No dia 5 de agosto, Orel e Belgorod voltaram às mãos soviéticas e, no dia 23, a recaptura de Khar- kov marcou o fim da batalha. O cerco nazista que colocara Kursk em posição perigosa fora eliminado. Dali em diante, uma maré vermelha se alastraria pela Europa oriental até chegar a Berlim.

Em Kursk, forças blindadas foram integradas às táticas defensivas em um grau nunca antes visto, aumentando o risco à infantaria inimiga. A maioria dos soldados soviéticos contava com o apoio de tanques e artilharia autopropulsada, mas esse não era seu único trunfo. Relatos alemães destacam a tenacidade dos defensores e o alto preço pago pelas unidades nazistas que tentaram superá-los. Um veterano alemão disse que soldados desacompanhados continuavam a lutar mesmo quando suas linhas haviam sido penetradas. O esforço combinado desses homens, somado aos batalhões blindados, desgastaram o moral e a capacidade de combate do inimigo. O colapso da até então inabalável blitzkrieg em Kursk anunciou ao mundo que, para cada teoria ofensiva, existe uma defensiva à altura, disponível àqueles que se propõem a devotar o planejamento necessário para desenvolvê-la.

A Batalha de Kursk
Quem: URSS X Alemanha
Quando: 5 de julho a 23 de agosto de 1943
Onde: Redondezas de Kursk, na URSS
Forças: Alemanha: 900 mil homens, 2,7 mil tanques e canhões autopropulsados e 1,8 mil aviões / URSS: 1,3 milhão de homens, 4,9 mil tanques e canhões autopropulsados e 2,4 mil aviões
Baixas: Alemanha: 500 mil mortos e feridos / URSS: 800 mil mortos e feridos durante os combates
Resultado: Vitória da URSS


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Força Aérea Soviética x Luftwaffe


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Pânico em São Paulo: A revolução esquecida

Fábio Marton


A cidade da garoa acordou tomada pela neblina, na manhã de 5 de julho de 1924. As pessoas começavam sua rotina, num frio de 6 graus, sem saber que a cidade estava sitiada. Tropas rebeldes do Exército tinham a seu dispor 2500 soldados, incluindo cavalaria e artilharia pesada, e dominavam quase totalmente o grande complexo de quartéis da região da Luz, no centro da cidade. O governo tinha que revidar com apenas 1500 soldados dispersos e desmotivados, quando não simpatizantes dos rebeldes.

Às 7 da manhã, os rebeldes abriram fogo com dois canhões de 105 mm em direção ao Palácio do Governo, no bairro dos Campos Elíseos. Por erro de cálculo, atingiram a torre do Mosteiro de São Bento, que ironicamente começava uma missa em homenagem aos mortos da revolta do Forte de Copacabana, exatos dois anos antes. Em vez de comparecer à missa, os tenentistas comemoram a data fazendo um segundo, e muito mais letal, ataque à República Velha. Dois anos antes, no Rio de Janeiro, tenentes haviam se rebelado contra a vitória presidencial do mineiro Arthur Bernardes, que diziam ser inimigo dos militares. Após serem bombardeados por mar e terra, os tenentes liberaram o grosso da tropa para debandar, se quisesse, e fizeram um ataque suicida pela cidade, no qual apenas alguns deles sobreviveram. O grupo ficou conhecido como "os 18 do forte", quando 18 deles foram fotografados por um autor desconhecido. O movimento foi massacrado, muitos insurgentes morreram e os poucos sobreviventes inspiravam a revolução que assolava São Paulo naquela manhã nebulosa de 5 de julho.

Ideologia abstrata

É difícil definir politicamente o que queriam os tenentistas. Apesar da vontade de resolver tudo pela via militar, eles não tinham qualquer ideologia radical, de direita ou esquerda. Marco Antônio Villa, historiador da Universidade Federal de São Carlos, explica: "Era uma coisa ideologicamente confusa. Eles pediam voto secreto e eram contra a República Velha, em que as eleições eram maculadas e resultavam às vezes em câmaras legislativas apenas com membros governistas". 

O movimento surgido entre militares de baixa patente - a maioria tenentes, daí o nome - planejava, em nome da democracia, depor à bala um governo tecnicamente democrático, pois é notório que as eleições eram manipuladas através do "voto de cabresto". Mesmo com o apoio de anarquistas e comunistas, a vaga agenda tenentista pouco ia além de promessas de instaurar o voto secreto, estabelecer o ensino universal e combater a corrupção. No entanto, os mesmos tenentistas que afirmavam suas intenções democráticas, no esboço de sua nova constituição, declaravam: "A direção do país será confiada, provisoriamente, a uma Ditadura, cujo governo se prolongará até que 60% dos cidadãos maiores de 21 anos sejam alfabetizados".

Vivendo clandestinamente, os líderes do levante do Rio, os irmãos Juarez e Joaquim Távora e o aviador Eduardo Gomes, persuadiram diversos quartéis da cidade. Andando de táxi, durante a madrugada, sublevaram todo o complexo da região da Luz e o 4º Batalhão em Santana, além de conseguirem canhões emprestados. No entanto, mesmo antes de amanhecer, seus esforços estavam sendo revertidos literalmente no grito pelo general Abílio de Noronha. Voltando de uma festa em comemoração à independência americana, ele soube que os quartéis estavam rebelados. Trajando uniforme de gala, enfrentou a guarda do 4º Batalhão de Caçadores, em Santana, e os desarmou apenas com sua autoridade de general. A seguir atacou o quartel-general tenentista na Estação da Luz, com o mesmo sucesso. Foi detido somente no Corpo-Escola, na mesma região, quando um homem à paisana, já idoso, irrompeu na cena e ordenou a prisão do general. Tratava-se de outro general, Isidoro Dias Lopes, que havia participado da queda da monarquia em 1889 e da Revolução Federalista em 1893 e agora se aliava aos tenentes.

Sem saber que o 4º Batalhão da Força Pública, do outro lado da rua, havia sido conquistado pelos adversários, os irmãos Távora caíram numa armadilha das tropas legalistas, que mantiveram a bandeira rebelde hasteada. Foram presos, o que fez com que os rebeldes desistissem de continuar atacando até o Rio de Janeiro e tentassem resolver seus problemas domésticos. O presidente Arthur Bernardes declarou estado de sítio em São Paulo: os bondes não circularam, o comércio fechou e ninguém entendeu o tiroteio nem o movimento de tropas, que pareciam idênticas.

O governo havia transformado o palácio dos Campos Elíseos em fortaleza, com sacos de areia e metralhadoras, além de trincheiras cavadas na avenida Rio Branco, e enfrentava os primeiros ataques diretos. As tropas do governo acabariam cercadas pela infantaria rebelde, que passou a atacar das casas em volta. O impasse se alastraria durante dias.

Terra arrasada

Ao fim da batalha, os rebeldes abandonariam uma São Paulo arrasada. Segundo os dados oficiais, morreram 500 pessoas, 5 mil ficaram feridas e 1182 prédios foram destruídos. Os historiadores são mais céticos: Ilka Stern Cohen, no livro Bombas sobre São Paulo, fala em 720 mortos. "Quando o número bateu em 500, provavelmente Arthur Bernardes mandou parar a contagem", afirma Vladimir Sacchetta, fundador da Companhia da Memória. "Um só documento da Santa Casa da Misericórdia registrava 158 vítimas".

Três mil e quinhentos rebeldes se retiraram para o interior pelos trilhos. Duramente atacados em Bauru, perderam um terço do efetivo. Os rebeldes vagaram por muitos meses, invadindo o Paraguai e retornando ao Brasil pela fronteira com o Paraná ao receberem a notícia de que, em dezembro, outra coluna tenentista havia se formado no Rio Grande do Sul e marchava em sua direção. Em abril de 1925, os paulistas encontraram-se com tropas gaúchas de Luís Carlos Prestes - iniciando a Coluna Prestes.

Em 1930, a República Velha foi desfeita por Getúlio Vargas. Instaurou-se o voto secreto e foi dada a anistia aos tenentes. Nas décadas seguintes, absorvidos novamente pelo Exército, os ex-rebeldes, à exceção de Luís Carlos Prestes, protagonizariam o golpe militar de 1964.

Diário do front

A Revolução caiu, mas caiu em pé

Dia 5: Tenentes rebelados percorrem a cidade de táxi durante a madrugada e conseguem persuadir a maioria dos quartéis a se aliar a eles. As tropas legalistas retrucam.

Dia 8: O major Miguel Costa se recusa a aceitar ordem de retirada, expedida pelo general Isidoro, que recuou. O governador Carlos de Campos deixa o palácio e se instala num vagão de trem.

Dia 9: A multidão incendeia o Mercado Municipal e saqueia o comércio. Um trem de gado é roubado e os bichos, mortos a pauladas. Apesar do caos, a cidade anoitece acesa.

Dia 10: As tropas legalistas do batalhão da Luz rendem-se. Os soldados unem-se aos rebeldes e liberam os irmãos Távora: primeira vitória tenentista.

Dia 11: Ordem restabelecida pelos rebeldes até o governo abrir fogo contra bairros residenciais. A estratégia é massacrar civis para pressionar o adversário que não se rende: 264 pessoas morrem e segue o impasse.

Dia 13: Os rebeldes mandam dois trens de refugiados para o interior por dia. Durante toda a guerra, 300 mil dos 700 mil habitantes de São Paulo fugiriam.

Dia 14: O governo reconquista o 5º Batalhão na rua Vergueiro. Joaquim Távora lidera o contra-ataque com sucesso, mas é atingido no peito por legalistas que haviam levantado bandeira branca.

Dia 19: Engenheiros alemães a serviço da revolução criam "tanques" com blindagem de madeira, carregados de dinamite para atacar legalistas. Joaquim Távora morre.

Dia 22: O trem de ataque dispara contra soldados que respondem, sem perfurar a blindagem. O governo faz um bombardeio aéreo. Eduardo Gomes pretendia atacar o Rio de Janeiro a bordo de um bimotor. Não deu certo porque o avião superaqueceu.

Dia 23: Voluntários rebeldes: Governo ataca com tanques importados da França. Rebeldes fogem, mas uma tropa de 122 veteranos húngaros da Primeira Guerra enfrenta as máquinas, cavando trincheiras e capturando dois tanques.

Dia 26: Ataque frustrado: Rebeldes enviam a "locomotiva maluca", o trem-petardo preparado uma semana antes, mas as tropas do governo se adiantam e tiram os trilhos do caminho.

Dia 28: Derrota final: Os tenentistas abandonam uma São Paulo arrasada e partem para o interior.

Eduardo Gomes


Passado o afã rebelde de Eduardo Gomes, o aviador, promovido a brigadeiro, quis meter-se em política. Fundou a União Democrática Nacional e candidatou-se pelo partido à presidência em 1945, perdendo para Eurico Gaspar Dutra. Seu slogan de campanha era: "Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro". Na época, dada a escassez de insumos básicos em decorrência da guerra, surgira a lata de leite condensado, que, cozido com chocolate, virava um delicioso quitute. As eleitoras, entusiasmadas com a boa pinta do candidato, não distribuíam santinhos comuns. No lugar, elas panfletavam com o doce, que desde então foi batizado de brigadeiro.


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E a revolução esbarrou no Paraná


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Como o Império Asteca desabou?

Julia Priolli


"Vendo tantas cidades e vilas situadas na água e outras tantas aldeias em terra firme, fomos tomados de admiração. Por causa das grandes torres e pirâmides que se elevavam da água, alguns soldados chegavam mesmo a se perguntar se aquilo não era um sonho." As palavras são de Bernal Diaz del Castillo, escrivão do conquistador espanhol Hernán Cortéz, que chegou à região da atual Cidade do México em novembro de 1519. O deslumbre é justificado.

Tenochtitlán, a capital do Império Asteca, era uma metrópole de 15 quilômetros quadrados, incrustada num lago, interligada às margens por calçadas artificiais e entrecortada por uma rede de canais e aquedutos. Não fossem os habitantes tão estranhos aos olhos europeus, a cidade se confundiria com Veneza - só que mais bonita e higiênica.

Cortéz e seus homens foram bem recebidos. Montezuma II, o imperador dos astecas, não sabia o que pensar daquele capitão de cabelos dourados montado em um cavalo, animal nunca antes visto por ali. Poderia ser o deus Quetzalcoatl que retornava à Terra. Na dúvida, achou sábio fazer um agrado. Entre pedras preciosas e iguarias, o imperador ordenou que seus mensageiros presenteassem o estrangeiro com um banquete de carne humana. Os espanhóis desconfiaram do cheiro forte de sangue e descobriram, horrorizados, o que estavam comendo. Vomitaram imediatamente e não aceitaram mais nenhum alimento. Era um mau sinal. Fossem eles deuses ou não, as coisas não seriam nada fáceis para os astecas. Dois anos depois, sua civilização estava dissolvida. Desaparecera tão rápido quanto havia se desenvolvido.

Longa peregrinação

Os astecas não surgiram na América Central. Sua história tradicional diz que eles vieram de Aztlán, um lugar ao norte. A localização exata é um mistério. "Aztlán poderia estar em qualquer lugar, de Washington ao noroeste mexicano. Nahuatl, a língua falada pelos astecas, é aparentada com o idioma apache", diz Eduardo Natalino dos Santos, historiador do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos da Universidade de São Paulo. Não se sabe quando e onde eles se organizaram, mas é certo que se tratava de um povo seminômade, caçador e coletor, que utilizava arco e flecha, desconhecia a agricultura e a escrita, e cultuava seus próprios deuses. Os demais povos da região os chamavam de "chichimecas", que na língua nahuatl significa "bárbaros".

A partir de 1168, os astecas deixaram Aztlán e começaram uma marcha às cegas, em busca de um sinal que indicasse onde eles deveriam se estabelecer. "Quase nada sabemos sobre a organização da tribo em marcha. Os manuscritos históricos retratam-na guiada pelos sacerdotes. Eles conduziam sobre os ombros um envoltório com objetos relacionados ao deus Huitzilopochtli, divindade solar representada por um colibri", afirma Jacques Soustelle no livro A Civilização Asteca. Certo dia, surgiu o sinal tão esperado: no lugar em que encontrassem uma águia com uma serpente na boca, sobre um cacto, em cima de uma pedra, no meio de uma ilhota, eles deveriam erigir sua civilização. A imagem já se banalizou: está na atual bandeira do México, e o nome do país surgiu durante a longa peregrinação. "Eles eram chamados astecas porque vieram de Aztlán, ou mexicas, porque durante a marcha os deuses os batizaram assim, em honra a um sacerdote", diz o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, descendente direto do imperador asteca.

Em 1325, os mexicas se depararam com a ilha, a águia, a cena completa. Quando começaram a construir sua própria civilização, estavam no México central, uma região habitada por centenas de populações diferentes nos séculos anteriores. Mil anos antes, florescera no planalto central Teotihuacán, enquanto os maias surgiam ao sul e os zapotecas mais a oeste. Com o declínio da cidade, a região foi gradativamente ocupada por 28 cidades-Estado que se revezavam em hegemonia e subordinação. A partir do século 14, os astecas, que peregrinavam desde o norte distante, tentaram se estabelecer no local. Mas foram aos poucos enxotados até a região pantanosa do lago Texcoco, onde nenhum outro povo arriscara viver. Lá eles fundaram sua civilização.

A primeira construção teria sido um singelo templo de madeira, ofertado ao deus Huitzilopochtli. "Os astecas dessa época levavam uma vida anfíbia, com suas pirogas e redes, subsistindo graças à pesca e à caça de pássaros aquáticos. Modestas aldeias estendiam-se sobre as ilhotas", escreve Soustelle. Apesar da humildade, eles desejavam ter um soberano nobre, e assim, em 1375, entronizaram Tlatoani, descendente de uma dinastia tolteca (povo que os astecas admiravam). Esse rei e seus sucessores não conseguiram escapar ao controle do monarca da cidade vizinha de Azcapotzalco, que dominava a região. Até que um líder chamado Itzcoatl iniciou um movimento de resistência. Aliado ao herdeiro legítimo do trono da região de Texcoco, ele venceu e destruiu Azcapotzalco. Da tríplice aliança entre esses dois líderes e o rei da cidade vizinha de Tlacopan, começava, enfim, o Império Asteca.

Ao morrer, em 1440, Itzcoatl havia reescrito a história de seu povo."Seu reinado promoveu uma reforma da religião e da ideologia", diz a arqueóloga Leila Maria França, da USP. Os cinco imperadores que o sucederam preocuparam-se em dominar novos territórios. O passo seguinte, dado em 1472, foi transformar antigos parceiros em vassalos. Quando os espanhóis chegaram, em 1519, o império tinha 38 províncias e o número total de habitantes chegava a 1 milhão, sendo que 300 mil viviam na maior cidade, Tenochtitlán. "Os astecas então adotaram a vida urbana. A capital estendia-se por milhares de hectares de ilhas e terras pantanosas, que 200 anos de labuta gigantesca haviam transformado em uma rede geométrica de canais, ruas e praças, verdadeira Veneza ligada às margens por três passagens elevadas", afirma Jacques Soustelle.

O povo asteca ganhou novos hábitos com uma rapidez impressionante. Seus cidadãos agora tinham livros, escolas, ofícios variados e uma vida ritualística intensa. Liam e escreviam, tinham uma compreensão evoluída de astronomia e uma cidade arquitetonicamente sustentável. Adotaram um calendário solar e outro para a agricultura - praticada nas chinampas, plataformas artificiais de terra, feitas com estacas e lodo do lago. Assim, a área de plantio não dependia do regime de chuvas.

Os sacrifícios humanos

Mas uma prática se manteve: fazer sacrifícios humanos aos deuses em cerimônias grandiosas. Sacrificava-se para que a colheita fosse boa, para que a terra não tremesse, para agradar aos deuses. Certa vez, 48 crianças foram mortas durante uma cerimônia para que chovesse. Os tipos de sacrifício variavam bastante. Era comum esfolar um cativo vivo e vestir sua pele. Também se jogava a vítima no fogo ou arrancava-se seu coração antes que ela morresse. "O coração pulsante era símbolo de vida e energia, da qual a deidade e o Cosmos seriam revestidos", diz a arqueóloga Leila Maria França.

A modalidade mais comum era deitar o prisioneiro de peito aberto sobre uma rocha, arrancar o coração com uma faca, guardá-lo num recipiente e jogar o corpo pirâmide abaixo. "Os donos dos cativos mortos comiam os restos mortais em banquetes, no meio da multidão", afirma França. Havia um motivo para tudo isso: de acordo com a cosmologia do povo mesoamericano, os deuses se sacrificaram para que o mundo surgisse, e era necessário repetir o gesto para mantê-lo. 

Todos os cidadãos tinham compromissos religiosos, mas as obrigações para com o imperador variavam de acordo com a casta. A sociedade era estratificada. A maioria da população prestava serviço militar, pagava impostos, era responsável pela conservação dos caminhos e pela construção das pirâmides e diques. Abaixo dessa classe, só os escravos. Não eram cidadãos, mas moravam, comiam e se vestiam como qualquer um e eram bem tratados por seus senhores.

A classe dos artesãos era extremamente conceituada na sociedade asteca. Eles faziam joias e eram bem remunerados. Depois vinham os poderosos comerciantes, que detinham o monopólio das mercadorias de luxo. Viajavam em caravanas para trocar produtos e acabavam lutando contra povos hostis de outras cidades-Estado, o que agradava ao imperador. Por fim, havia a nobreza e os sacerdotes. Eram isentos de impostos e levavam uma vida luxuosa sustentada pelo Estado. As posições não eram estanques. Qualquer cidadão destacado poderia ocupar postos importantes no governo.

Poligamia e chocolate

Havia dois tipos de escola. Uma mais popular, frequentada pelas camadas baixas, em que o conteúdo era praticamente militar, e outra elitizada, em que se ensinava o sistema de escrita dos códices e os calendários, e se preparavam os jovens para o sacerdócio. As meninas aprendiam a cantar e dançar. Com apenas 10 anos de idade, já estavam casadas e passariam a vida cuidando das atividades domésticas. Os homens podiam ter várias esposas. Mas, se antes de casar fossem pegos bêbados ou correndo atrás de mulheres, eram atirados vivos ao fogo.

As bebidas mais consumidas eram o pulque, feito da fermentação de um cacto chamado agave, e o chocolate frio - uma batida espumosa de pó de cacau, com grãos de milho e água. Para estabelecer conexão com os outros seres do Universo, eles comiam cogumelos alucinógenos e peiote, uma espécie de cacto.

Os camponeses viviam em casas singelas, com paredes de barro e teto de palha. Já os templos e palácios eram suntuosos. O Templo Maior, dedicado a Huitzilopochtli, deus da guerra, e Tlaloc, deus da chuva, tinha 27 metros de altura e 90 de largura. O palácio de Montezuma também era impressionante. Soustelle descreve a construção: "Situado em um quadrilátero de 200 metros de lado, apresentava-se como um vasto conjunto de edifícios com um ou dois andares, agrupados em torno de jardins interiores. Ali se penetrava tanto por terra quanto por água. Era composto de apartamentos, salas de reunião, tribunais, depósitos do tesouro, escritório dos coletores imperiais, salas de música e dança, viveiro de pássaros tropicais, um jardim zoológico repleto de jaguares, pumas, aves de rapina e serpentes com cauda de chocalho".

Futebol profético

De maneira geral, todos os astecas tinham um padrão de higiene bastante elevado para os costumes europeus da época. Eles inclusive limpavam os dentes com carvão e sal para prevenir as cáries. Para passar o tempo, jogavam pelotas. O jogo consistia em rebater uma bola de borracha com as coxas e quadris, tentando acertar um aro que ficava em cima de um campo comprido e retangular. O esporte era praticado por todas as civilizações na mesoamérica, com regras diferentes. "Quando o chefe de Texcoco profetizou que estrangeiros governariam o México, Montezuma II jogou pelotas com ele para provar que ele estava errado. Perdeu o jogo por 3 a 2 e deixou o campo amedrontado. Dois anos depois chegaram os espanhóis", diz John Clare em Astecas, Vida Cotidiana.

Outros presságios atormentaram o imperador. Segundo códices escritos depois da conquista, os astecas tomaram conhecimento da vinda dos europeus por meio de oito agouros funestos: templos que se incendiaram sozinhos, raios que caíram sobre pirâmides, cometas e inundações, entre outros. Quando soube da chegada da grande nau que flutuava no mar, Montezuma II mandou mensageiros. As notícias seguintes o afligiram ainda mais. Após a tentativa fracassada de agradar com carne humana, as relações só se complicaram.

Cortéz ficou sabendo de todo o ouro que reluzia na capital mexica e marchou para lá, causando carnificinas tão sangrentas quanto os sacrifícios dos nativos. Aliados aos tlaxcaltecas, povo que nunca se submeteu ao domínio asteca, os espanhóis traziam consigo a varíola. Chegando a Tenochtitlán, o imperador os recebeu cordialmente. Montezuma II acabou preso, teve seu tesouro saqueado e ainda ficou com fama de traidor.

Durante um ritual a Huitzilopochtli, que acontecia com a conivência dos espanhóis, todos os nativos presentes foram presos e assassinados. Cortéz não estava. Mas, na chamada Noite Triste, de 30 de junho de 1520, ele liderou seus soldados numa guerra contra os mexicas. Pólvora contra lanças de obsidiana, canhões contra flechas. Os astecas teriam vencido, não fossem as forças tlaxcaltecas que vieram em socorro dos estrangeiros. Dias depois, Montezuma morreu. Não se sabe se pela mão dos espanhóis ou abatido por uma pedra arremessada por alguém da multidão asteca.

Cuhautemoc, o segundo sucessor (e que viraria herói mexicano), repeliu outros 20 assaltos. Rendeu-se em 13 de agosto de 1521. Com ele, caía todo o Império Asteca. Os espanhóis ergueram suas igrejas sobre os templos, usando as pedras originais. Destruíram as imagens dos deuses e proibiram cultos, oferendas e sacrifícios. E o povo, resignado, recorreu ao sincretismo religioso para poder adorar, em segredo, seus deuses do passado.

Muito antes dos astecas 

Povos que dominaram o território mexicano nos últimos 22 mil anos 

 20000 a 15000 a.C: Caçadores e coletores habitavam os pântanos e lagos do vale do México.

 4000 a.C: Início da agricultura, com predomínio das plantações de milho.

 2000 a.C. a 400 a.C: A civilização olmeca constrói pirâmides, inventa uma escrita hieroglífica e aprende a contar a passagem do tempo.

 0 a 1000: É o período das civilizações "clássicas". Maias, zapotecas, teotihuacanos e El Tajín dominam a região. Todos cultuam o deus Quetzalcoatl.

 Séculos 9 a 11: Toltecas, bárbaros oriundos do norte que praticam sacrifícios humanos, fundam a cidade de Tula.

 Século 12: Levas migratórias provocam a queda de Tula. O vale central é dividido em 28 cidades-Estado. Texcoco e Colhuacán estão entre as maiores.

 Século 14: Fundação de Tenochtitlán e do Império Asteca.

 Século 16: Ocupação dos espanhóis, que transformam Tenochtitlán na Cidade do México.

A Pedra do Sol 


Os astecas viviam a era do quinto sol quando a civilização foi extinta. Antes dele, outros quatro surgiram, cada um criado por um deus diferente. Tonatiuh regia o presente e exigia sacrifícios para garantir a sobrevivência da humanidade. Para explicar esses ciclos, os moradores de Tenochtitlán criaram a pedra do sol, popularmente conhecida como calendário asteca. Ela pesa 24 toneladas, tem quatro metros de diâmetro e foi descoberta nas escavações do Templo Maior, em 1977.

 1º Sol: Representado pelo Jaguar, durou 676 anos e acabou quando monstros surgiram das entranhas da terra e devoraram as pessoas.
 2º Sol: Dominado pelo vento, terminou depois de 354 anos, quando furacões sacudiram a terra e transformaram os homens em seres monstruosos.
 3º Sol: Simbolizado pela chuva, durou 312 anos . A era acaba por causa de uma chuva de fogo e lava. Os homens viraram pássaros para sobreviver.
 4º Sol: Era regida por Chalchihuitlicue, deusa das águas. Após 676 anos, uma inundação fez os homens virarem peixes e marcou o fim do período. 
 5º Sol: Correspondia à atualidade dos astecas e era representado pelo deus Tonatiuh. Ele segura um coração humano em cada mão e sua língua é uma faca, exigindo sacrifícios para a continuidade do ciclo solar.

Os deuses inclementes 

 Huitzilopochtli: Representava a guerra. Tinha liderado o povo durante a peregrinação até Tenochtitlán. Depois de morto, foi endeusado. Iniciou a prática de sacrifícios entre os astecas, ordenando que esfolassem integrantes do bando.

 Tlaloc: Deus da chuva, vivia nas montanhas. Quando benfeitor, umedecia a terra e regava as plantações. Se contrariado, enviava tempestades, raios e tufões - e por isso era muito temido.

 Chalchihuitlicue: Deusa das águas e da fertilidade, reinou sobre o mundo na quarta era do sol. Em seu reinado, o céu era feito de água. Quando ela caiu sobre a terra, causou o dilúvio que transformou homens em peixes. Era companheira de Tlaloc e mãe do deus do vento, Quetzalcoatl.

 Quetzalcoatl: A serpente com plumas é adorada em todas as culturas mesoamericanas. Saiu de Tula, cidade tolteca, em 999, e nunca mais voltou. Partiu para o longínquo país vermelho, o Sol, que nascia no leste, de onde veio também Hernán Cortéz.




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sábado, 1 de julho de 2017

Gettysburg: A virada do jogo

Márcio Sampaio de Castro


Dia 30 de junho de 1863. Faltava pouco para as comemorações da independência norte-americana. O general Robert E. Lee conduziu o exército confederado em uma expedição que busca levar a Guerra Civil até as cercanias de Washington, a capital do país. Seus objetivos eram dar um golpe decisivo no moral do Exército da União, forçar o governo federal a sentar-se à mesa de negociações e conseguir uma outra independência: a dos estados do sul em relação ao restante do país.

Após dois anos de conflitos, Lee, conhecido por seus inimigos como Raposa Grisalha, colecionava uma sucessão de vitórias sobre as forças federais nos estados de Maryland e da Virgínia. Ao entrar na Pensilvânia, em pleno coração do território nortista, mostrava a seus inimigos que não estava disposto a perder a guerra.

Percebendo o tamanho da ameaça, o governo mobilizou um exército de 95 mil homens, liderados pelo general George G. Meade, para caçar e destruir os expedicionários confederados, que contavam com 75 mil soldados.

Ao raiar do dia 1 de julho, Lee despachou diversas brigadas para tentar estabelecer contato com o inimigo. Confiante nas vitórias recentes, o general sulista esperava liquidar seus perseguidores, destruindo de vez o moral dos unionistas. Nas cercanias da pequena Gettysburg, o contato foi finalmente estabelecido.

Começa a batalha

Gettysburg era uma pequena cidade interiorana cercada por morros rochosos e bosques. Ao aproximar-se dela, os confederados encontraram duas brigadas ianques, como eram chamados pejorativamente os nortistas por seus inimigos, entrincheiradas em uma faixa de aproximadamente 1,5 quilômetro de elevações ao sul da cidadezinha. As trocas de tiros foram se sucedendo, enquanto os dois lados mandavam informes aos respectivos comandantes solicitando reforços. A aproximação da noite trouxe uma pausa para o combate, mas a escalada de violência que começara de maneira quase casual dava início a uma das mais importantes e a mais sangrenta batalha da Guerra Civil norte-americana.

Após as escaramuças do dia anterior terminarem com a manutenção das tropas federais em suas posições originais, o dia 2 de julho começava com um impressionante aumento dos efetivos de lado a lado. Morros como Culps Hill, Cemetery Ridge e Little Round Top eram o objetivo maior dos atacantes, enquanto as tropas do governo limitavam-se a cavar trincheiras e sustentar suas posições.

Valendo-se de um comportamento que se transformara em marca de combate, os sulistas subiam as encostas dos morros urrando. Seu objetivo era contornar as extremidades das linhas de defesa e surpreender os inimigos pela retaguarda. Mas, à exceção de alguns combates corpo a corpo, na maioria das vezes foram repelidos a tiros antes mesmo que pudessem chegar perto das trincheiras nortistas.

Ao cair da noite, avaliando o resultado dos dois primeiros dias de batalha, o general Meade resolveu junto com seu Estado-Maior que a melhor coisa a fazer era manter uma postura defensiva. Um novo fracasso diante dos rebeldes, que tanto vinham humilhando o exército federal, poderia ter consequências desastrosas.


Tiro ao alvo

Os planos do general Lee para o dia 3 de julho eram um pouco mais ambiciosos em comparação ao que seus homens haviam feito até então. A Raposa Grisalha decidira que enviaria uma poderosa força de infantaria, com 12 mil homens, comandados pelo general Longstreet, para romper a linha de defesa inimiga bem no centro. Ao mesmo tempo, despacharia sua cavalaria para atacar a retaguarda ianque, fazendo um longo contorno a leste de Gettysburg. O que Lee não sabia era que diversos fatores começavam a conspirar contra seus objetivos.

Às 13 horas daquele dia, uma gigantesca barragem de artilharia, composta por 170 canhões, iniciou um ataque que deveria devastar as defesas unionistas. A enorme coluna de fumaça que se seguiu aos disparos não permitiu aos observadores confederados perceberem que os projéteis estavam explodindo bem atrás das trincheiras inimigas. Antes mesmo que os canhões sulistas silenciassem, os homens de Longstreet iniciaram uma marcha pelos mil metros que os separavam das trincheiras unionistas. O que se seguiu então foi uma verdadeira prática de tiro ao alvo, executada inicialmente pelos canhões e, em seguida, pelos rifles nortistas. Dois em cada três soldados atacantes não retornaram para suas linhas após a investida.

Quando voltou do ataque malsucedido, o general George Pickett protagonizou um dos mais célebres diálogos da história da Guerra Civil. Ao se aproximar do general Lee, ouviu do comandante-em-chefe uma ordem para reorganizar sua divisão, ao que respondeu: “General Lee, eu não tenho nenhuma divisão”.

Assim, todos os esforços para humilhar o numeroso, mas até então desorganizado exército da União, resultaram em um grande fracasso. A perda de quase um terço de seus efetivos em três dias de batalha impedia a continuação da expedição em território inimigo.

O dia 4 de julho de 1863 foi marcado por uma torrencial chuva que caiu sobre a região da Pensilvânia. Debaixo do aguaceiro, Robert E. Lee montou em seu cavalo e conduziu o exército sulista de volta para a Virgínia. Em seu íntimo sabia que a tão sonhada independência dos estados confederados estava mortalmente ameaçada pela derrota em Gettysburg.


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