Julia Priolli
"Vendo tantas cidades e vilas
situadas na água e outras tantas aldeias em terra firme, fomos tomados de
admiração. Por causa das grandes torres e pirâmides que se elevavam da água,
alguns soldados chegavam mesmo a se perguntar se aquilo não era um sonho."
As palavras são de Bernal Diaz del Castillo, escrivão do conquistador espanhol
Hernán Cortéz, que chegou à região da atual Cidade do México em novembro de
1519. O deslumbre é justificado.
Tenochtitlán, a capital do Império
Asteca, era uma metrópole de 15 quilômetros quadrados, incrustada num lago,
interligada às margens por calçadas artificiais e entrecortada por uma rede de
canais e aquedutos. Não fossem os habitantes tão estranhos aos olhos europeus,
a cidade se confundiria com Veneza - só que mais bonita e higiênica.
Cortéz e seus homens foram bem recebidos. Montezuma II, o
imperador dos astecas, não sabia o que pensar daquele capitão de cabelos
dourados montado em um cavalo, animal nunca antes visto por ali. Poderia ser o
deus Quetzalcoatl que retornava à Terra. Na dúvida, achou sábio fazer um
agrado. Entre pedras preciosas e iguarias, o imperador ordenou que seus
mensageiros presenteassem o estrangeiro com um banquete de carne humana. Os
espanhóis desconfiaram do cheiro forte de sangue e descobriram, horrorizados, o
que estavam comendo. Vomitaram imediatamente e não aceitaram mais nenhum
alimento. Era um mau sinal. Fossem eles deuses ou não, as coisas não seriam
nada fáceis para os astecas. Dois anos depois, sua civilização estava
dissolvida. Desaparecera tão rápido quanto havia se desenvolvido.
Longa peregrinação
Os astecas não surgiram na América Central. Sua história
tradicional diz que eles vieram de Aztlán, um lugar ao norte. A localização
exata é um mistério. "Aztlán poderia estar em qualquer lugar, de
Washington ao noroeste mexicano. Nahuatl, a língua falada pelos astecas, é
aparentada com o idioma apache", diz Eduardo Natalino dos Santos,
historiador do Centro de Estudos Mesoamericanos e Andinos da Universidade de
São Paulo. Não se sabe quando e onde eles se organizaram, mas é certo que se
tratava de um povo seminômade, caçador e coletor, que utilizava arco e flecha,
desconhecia a agricultura e a escrita, e cultuava seus próprios deuses. Os
demais povos da região os chamavam de "chichimecas", que na língua
nahuatl significa "bárbaros".
A partir de 1168, os astecas deixaram Aztlán e começaram uma
marcha às cegas, em busca de um sinal que indicasse onde eles deveriam se
estabelecer. "Quase nada sabemos sobre a organização da tribo em marcha.
Os manuscritos históricos retratam-na guiada pelos sacerdotes. Eles conduziam
sobre os ombros um envoltório com objetos relacionados ao deus Huitzilopochtli,
divindade solar representada por um colibri", afirma Jacques Soustelle no
livro A Civilização Asteca. Certo dia,
surgiu o sinal tão esperado: no lugar em que encontrassem uma águia com uma
serpente na boca, sobre um cacto, em cima de uma pedra, no meio de uma ilhota,
eles deveriam erigir sua civilização. A imagem já se banalizou: está na atual
bandeira do México, e o nome do país surgiu durante a longa peregrinação.
"Eles eram chamados astecas porque vieram de Aztlán, ou mexicas, porque
durante a marcha os deuses os batizaram assim, em honra a um sacerdote",
diz o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, descendente direto do imperador
asteca.
Em 1325, os mexicas se depararam com a ilha, a águia, a cena
completa. Quando começaram a construir sua própria civilização, estavam no
México central, uma região habitada por centenas de populações diferentes nos
séculos anteriores. Mil anos antes, florescera no planalto central Teotihuacán,
enquanto os maias surgiam ao sul e os zapotecas mais a oeste. Com o declínio da
cidade, a região foi gradativamente ocupada por 28 cidades-Estado que se
revezavam em hegemonia e subordinação. A partir do século 14, os astecas, que
peregrinavam desde o norte distante, tentaram se estabelecer no local. Mas
foram aos poucos enxotados até a região pantanosa do lago Texcoco, onde nenhum
outro povo arriscara viver. Lá eles fundaram sua civilização.
A primeira construção teria sido um singelo templo de
madeira, ofertado ao deus Huitzilopochtli. "Os astecas dessa época levavam
uma vida anfíbia, com suas pirogas e redes, subsistindo graças à pesca e à caça
de pássaros aquáticos. Modestas aldeias estendiam-se sobre as ilhotas",
escreve Soustelle. Apesar da humildade, eles desejavam ter um soberano nobre, e
assim, em 1375, entronizaram Tlatoani, descendente de uma dinastia tolteca
(povo que os astecas admiravam). Esse rei e seus sucessores não conseguiram
escapar ao controle do monarca da cidade vizinha de Azcapotzalco, que dominava
a região. Até que um líder chamado Itzcoatl iniciou um movimento de
resistência. Aliado ao herdeiro legítimo do trono da região de Texcoco, ele
venceu e destruiu Azcapotzalco. Da tríplice aliança entre esses dois líderes e
o rei da cidade vizinha de Tlacopan, começava, enfim, o Império Asteca.
Ao morrer, em 1440, Itzcoatl havia reescrito a história de
seu povo."Seu reinado promoveu uma reforma da religião e da
ideologia", diz a arqueóloga Leila Maria França, da USP. Os cinco
imperadores que o sucederam preocuparam-se em dominar novos territórios. O
passo seguinte, dado em 1472, foi transformar antigos parceiros em vassalos.
Quando os espanhóis chegaram, em 1519, o império tinha 38 províncias e o número
total de habitantes chegava a 1 milhão, sendo que 300 mil viviam na maior
cidade, Tenochtitlán. "Os astecas então adotaram a vida urbana. A capital
estendia-se por milhares de hectares de ilhas e terras pantanosas, que 200 anos
de labuta gigantesca haviam transformado em uma rede geométrica de canais, ruas
e praças, verdadeira Veneza ligada às margens por três passagens
elevadas", afirma Jacques Soustelle.
O povo asteca ganhou novos hábitos com uma rapidez
impressionante. Seus cidadãos agora tinham livros, escolas, ofícios variados e
uma vida ritualística intensa. Liam e escreviam, tinham uma compreensão
evoluída de astronomia e uma cidade arquitetonicamente sustentável. Adotaram um
calendário solar e outro para a agricultura - praticada nas chinampas,
plataformas artificiais de terra, feitas com estacas e lodo do lago. Assim, a
área de plantio não dependia do regime de chuvas.
Os sacrifícios humanos
Mas uma prática se manteve: fazer sacrifícios humanos aos deuses em cerimônias grandiosas.
Sacrificava-se para que a colheita fosse boa, para que a terra não tremesse,
para agradar aos deuses. Certa vez, 48 crianças foram mortas durante uma
cerimônia para que chovesse. Os tipos de sacrifício variavam bastante. Era
comum esfolar um cativo vivo e vestir sua pele. Também se jogava a vítima no
fogo ou arrancava-se seu coração antes que ela morresse. "O coração
pulsante era símbolo de vida e energia, da qual a deidade e o Cosmos seriam
revestidos", diz a arqueóloga Leila Maria França.
A modalidade mais comum era deitar o prisioneiro de peito aberto sobre uma
rocha, arrancar o coração com uma faca, guardá-lo num recipiente e jogar o
corpo pirâmide abaixo. "Os donos dos cativos mortos comiam os restos
mortais em banquetes, no meio da multidão", afirma França. Havia um motivo
para tudo isso: de acordo com a cosmologia do povo mesoamericano, os deuses se
sacrificaram para que o mundo surgisse, e era necessário repetir o gesto para
mantê-lo.
Todos os cidadãos tinham
compromissos religiosos, mas as obrigações para com o imperador variavam de
acordo com a casta. A sociedade era estratificada. A maioria da população
prestava serviço militar, pagava impostos, era responsável pela conservação dos
caminhos e pela construção das pirâmides e diques. Abaixo dessa classe, só os
escravos. Não eram cidadãos, mas moravam, comiam e se vestiam como qualquer um
e eram bem tratados por seus senhores.
A classe dos artesãos era extremamente conceituada na
sociedade asteca. Eles faziam joias e eram bem remunerados. Depois vinham os
poderosos comerciantes, que detinham o monopólio das mercadorias de luxo.
Viajavam em caravanas para trocar produtos e acabavam lutando contra povos
hostis de outras cidades-Estado, o que agradava ao imperador. Por fim, havia a
nobreza e os sacerdotes. Eram isentos de impostos e levavam uma vida luxuosa
sustentada pelo Estado. As posições não eram estanques. Qualquer cidadão
destacado poderia ocupar postos importantes no governo.
Poligamia e chocolate
Havia dois tipos de escola. Uma mais popular, frequentada
pelas camadas baixas, em que o conteúdo era praticamente militar, e outra
elitizada, em que se ensinava o sistema de escrita dos códices e os
calendários, e se preparavam os jovens para o sacerdócio. As meninas aprendiam
a cantar e dançar. Com apenas 10 anos de idade, já estavam casadas e passariam
a vida cuidando das atividades domésticas. Os homens podiam ter várias esposas.
Mas, se antes de casar fossem pegos bêbados ou correndo atrás de mulheres, eram
atirados vivos ao fogo.
As bebidas mais consumidas eram o pulque, feito da
fermentação de um cacto chamado agave, e o chocolate frio - uma batida espumosa
de pó de cacau, com grãos de milho e água. Para estabelecer conexão com os
outros seres do Universo, eles comiam cogumelos alucinógenos e peiote, uma
espécie de cacto.
Os camponeses viviam em casas singelas, com paredes de barro
e teto de palha. Já os templos e palácios eram suntuosos. O Templo Maior,
dedicado a Huitzilopochtli, deus da guerra, e Tlaloc, deus da chuva, tinha 27
metros de altura e 90 de largura. O palácio de Montezuma também era
impressionante. Soustelle descreve a construção: "Situado em um
quadrilátero de 200 metros de lado, apresentava-se como um vasto conjunto de
edifícios com um ou dois andares, agrupados em torno de jardins interiores. Ali
se penetrava tanto por terra quanto por água. Era composto de apartamentos,
salas de reunião, tribunais, depósitos do tesouro, escritório dos coletores
imperiais, salas de música e dança, viveiro de pássaros tropicais, um jardim
zoológico repleto de jaguares, pumas, aves de rapina e serpentes com cauda de
chocalho".
Futebol profético
De maneira geral, todos os astecas tinham um padrão de
higiene bastante elevado para os costumes europeus da época. Eles inclusive
limpavam os dentes com carvão e sal para prevenir as cáries. Para passar o
tempo, jogavam pelotas. O jogo consistia em rebater uma bola de borracha com as
coxas e quadris, tentando acertar um aro que ficava em cima de um campo
comprido e retangular. O esporte era praticado por todas as civilizações na
mesoamérica, com regras diferentes. "Quando o chefe de Texcoco profetizou
que estrangeiros governariam o México, Montezuma II jogou pelotas com ele para
provar que ele estava errado. Perdeu o jogo por 3 a 2 e deixou o campo
amedrontado. Dois anos depois chegaram os espanhóis", diz John Clare em
Astecas, Vida Cotidiana.
Outros presságios atormentaram o imperador. Segundo códices
escritos depois da conquista, os astecas tomaram conhecimento da vinda dos
europeus por meio de oito agouros funestos: templos que se incendiaram
sozinhos, raios que caíram sobre pirâmides, cometas e inundações, entre outros.
Quando soube da chegada da grande nau que flutuava no mar, Montezuma II mandou
mensageiros. As notícias seguintes o afligiram ainda mais. Após a tentativa
fracassada de agradar com carne humana, as relações só se complicaram.
Cortéz ficou sabendo de todo o ouro que reluzia na capital
mexica e marchou para lá, causando carnificinas tão sangrentas quanto os
sacrifícios dos nativos. Aliados aos tlaxcaltecas, povo que nunca se submeteu
ao domínio asteca, os espanhóis traziam consigo a varíola. Chegando a
Tenochtitlán, o imperador os recebeu cordialmente. Montezuma II acabou preso,
teve seu tesouro saqueado e ainda ficou com fama de traidor.
Durante um ritual a Huitzilopochtli, que acontecia com a
conivência dos espanhóis, todos os nativos presentes foram presos e
assassinados. Cortéz não estava. Mas, na chamada Noite Triste, de 30 de junho
de 1520, ele liderou seus soldados numa guerra contra os mexicas. Pólvora
contra lanças de obsidiana, canhões contra flechas. Os astecas teriam vencido,
não fossem as forças tlaxcaltecas que vieram em socorro dos estrangeiros. Dias
depois, Montezuma morreu. Não se sabe se pela mão dos espanhóis ou abatido por
uma pedra arremessada por alguém da multidão asteca.
Cuhautemoc, o segundo sucessor (e que viraria herói
mexicano), repeliu outros 20 assaltos. Rendeu-se em 13 de agosto de 1521. Com
ele, caía todo o Império Asteca. Os espanhóis ergueram suas igrejas sobre os
templos, usando as pedras originais. Destruíram as imagens dos deuses e
proibiram cultos, oferendas e sacrifícios. E o povo, resignado, recorreu ao
sincretismo religioso para poder adorar, em segredo, seus deuses do passado.
Muito antes dos astecas
Povos que dominaram o território
mexicano nos últimos 22 mil anos
➽ 20000 a 15000 a.C: Caçadores
e coletores habitavam os pântanos e lagos do vale do México.
➽ 4000 a.C: Início
da agricultura, com predomínio das plantações de milho.
➽ 2000 a.C. a 400 a.C: A
civilização olmeca constrói pirâmides, inventa uma escrita hieroglífica e
aprende a contar a passagem do tempo.
➽ 0 a 1000: É
o período das civilizações "clássicas". Maias, zapotecas,
teotihuacanos e El Tajín dominam a região. Todos cultuam o deus Quetzalcoatl.
➽ Séculos 9 a 11: Toltecas,
bárbaros oriundos do norte que praticam sacrifícios humanos, fundam a cidade de
Tula.
➽ Século 12: Levas
migratórias provocam a queda de Tula. O vale central é dividido em 28
cidades-Estado. Texcoco e Colhuacán estão entre as maiores.
➽ Século 14: Fundação
de Tenochtitlán e do Império Asteca.
➽ Século 16: Ocupação
dos espanhóis, que transformam Tenochtitlán na Cidade do México.
A Pedra do Sol
Os astecas viviam a era
do quinto sol quando a civilização foi extinta. Antes dele, outros quatro
surgiram, cada um criado por um deus diferente. Tonatiuh regia o presente e
exigia sacrifícios para garantir a sobrevivência da humanidade. Para explicar
esses ciclos, os moradores de Tenochtitlán criaram a pedra do sol, popularmente
conhecida como calendário asteca. Ela pesa 24 toneladas, tem quatro metros de
diâmetro e foi descoberta nas escavações do Templo Maior, em 1977.
➽ 1º Sol: Representado pelo Jaguar, durou
676 anos e acabou quando monstros surgiram das entranhas da terra e devoraram
as pessoas.
➽ 2º Sol: Dominado pelo vento,
terminou depois de 354 anos, quando furacões sacudiram a terra e transformaram
os homens em seres monstruosos.
➽ 3º Sol: Simbolizado pela chuva,
durou 312 anos . A era acaba por causa de uma chuva de fogo e lava. Os homens
viraram pássaros para sobreviver.
➽ 4º Sol: Era regida por
Chalchihuitlicue, deusa das águas. Após 676 anos, uma inundação fez os homens
virarem peixes e marcou o fim do período.
➽ 5º Sol: Correspondia à atualidade
dos astecas e era representado pelo deus Tonatiuh. Ele segura um coração humano
em cada mão e sua língua é uma faca, exigindo sacrifícios para a continuidade
do ciclo solar.
Os deuses inclementes
➽ Huitzilopochtli: Representava a guerra.
Tinha liderado o povo durante a peregrinação até Tenochtitlán. Depois de morto,
foi endeusado. Iniciou a prática de sacrifícios entre os astecas, ordenando que
esfolassem integrantes do bando.
➽ Tlaloc: Deus da chuva, vivia nas montanhas. Quando benfeitor, umedecia a
terra e regava as plantações. Se contrariado, enviava tempestades, raios e
tufões - e por isso era muito temido.
➽ Chalchihuitlicue: Deusa das águas e da fertilidade, reinou sobre o mundo na quarta
era do sol. Em seu reinado, o céu era feito de água. Quando ela caiu sobre a
terra, causou o dilúvio que transformou homens em peixes. Era companheira de
Tlaloc e mãe do deus do vento, Quetzalcoatl.
➽ Quetzalcoatl: A serpente com plumas é adorada em todas as culturas
mesoamericanas. Saiu de Tula, cidade tolteca, em 999, e nunca mais voltou.
Partiu para o longínquo país vermelho, o Sol, que nascia no leste, de onde veio
também Hernán Cortéz.
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