quarta-feira, 20 de setembro de 2017

[POL] Alfred Rosenberg: A mente por trás de Hitler

Rodrigo Trespach


Em 1º de novembro de 1946, depois de 11 meses de processos, os 21 nazistas presos em Nuremberg, julgados por crimes contra a humanidade, crimes de guerra, participação nos preparativos de uma guerra de agressão e crimes contra a paz, recebem as sentenças. Apenas três são absolvidos. Entre os condenados pelo Tribunal Militar Internacional está Alfred Rosenberg. Recebendo seu veredito, o “ideólogo do nazismo” ouve através dos fones de ouvido o tradutor informar seu destino: morte por enforcamento.

Nos dias seguintes, recebe visitas da esposa e da filha de 16 anos. Declina dos serviços religiosos e, assim como os demais sentenciados à morte, é executado na madrugada do dia 16 de novembro, à 1h47. Depois de levado a Munique, seu corpo foi incinerado, e as cinzas, jogadas em um rio. Era o fim do hoje quase desconhecido homem que havia plantado e incutido o ódio racial aos judeus nos corações e mentes alemãs durante mais de duas décadas.

O estrangeiro

 Alfred Rosenberg nasceu em 12 de janeiro de 1893 em Reval, à época no Império Russo, hoje Tallin, capital da Estônia. Seu pai, Waldemar Wilhelm Rosenberg, era um rico comerciante, gerente da filial lituana de uma grande empresa alemã; a mãe, Elfriede Siré, era estoniana e morreu de tuberculose apenas dois meses após o parto do filho. Vivendo em uma região onde a maioria da população tinha origem eslava, a família fazia parte do que na época se denominava de “alemães étnicos”, ou seja, pessoas com ancestrais alemães, mas que haviam nascido ou se estabelecido fora das fronteiras do Império Alemão – mantendo, no entanto, os costumes e a língua. Os alemães étnicos dos Estados bálticos se ligavam à Alemanha desde o século 14, quando Reval fora uma importante cidade da Liga Hanseática – uma aliança mercantil constituída na Idade Média. Desde o início do século 18, no entanto, a região fazia parte do Império Russo.

O local de nascimento de Rosenberg tem um significado importante. Não que faltassem antissemitas na Alemanha – a palavra foi criada por um alemão, afinal, o anarquista Wilhelm Marr, para descrever a si próprio. Ele achava que os judeus e alemães viviam em guerra e que, com o capitalismo, os primeiros estavam ganhando. Mas o antissemitismo ideológico sempre foi um tanto marginal – desde 1871 os judeus alemães tinham igualdade perante as leis. A situação na Alemanha era considerada tão boa pelos judeus que os perseguidos de outros países buscavam refúgio lá – se o alemão médio tinha preconceito contra judeus, era contra esses recém-chegados, isolados da sociedade, não os altamente integrados judeus alemães.Prova disso é o alto status e influência de figuras como Freud (austríaco, mas para Hitler era uma só nação), Einstein e até políticos, como o prefeito de Berlin Fritz Elsas (1931-1933), destituído do cargo por Hitler. 

No Império Russo, porém, os termos eram outros. Judeus ainda viviam em guetos e, os pogroms – os linchamentos em massa – continuaram até a consolidação da União Soviética. Enquanto Rosenberg contagiava Hitler e os demais com seu ódio, judeus continuavam a ser massacrados na Ucrânia e na Bielorrússia. Entre 1918 e 1922, seriam 150 mil mortos – a maior matança antes da que Rosenberg ajudaria a causar. O último pogrom da Alemanha havia sido em 1812, movido pelo ódio à proteção aos judeus dada por Napoleão.

Embora Rosenberg pertencesse a uma família alemã (com estonianos, que são fínicos, não germânicos), o sobrenome soava judeu. Ao adotarem nomes alemães, eles usavam toponímicos como identificação (Rosenberg significa “Montanha das Rosas”). Isso causou embaraços. Quando Rosenberg se tornou conhecido, era motivo de escárnio por parte de seus rivais: um ariano antissemita com sobrenome judeu. Em 1930, ao discursar para o Reichstag, o Parlamento alemão, Rosenberg foi duramente vaiado: “Olha lá o judeu!”, gritaram. “Vejam só aquele nariz! Vá embora para a Palestina!” Em 1936, escrevendo sobre suas origens, o jornalista judeu Franz Szell também acusou Rosenberg de não ter uma só gota de sangue alemão, ele seria “letão, judeu, mongol e francês”.

Órfão de mãe, o pai também morreu cedo. E em 1910, aos 17 anos, ingressou no instituto técnico em Riga e seguiu o programa de arquitetura. Nas horas vagas, lia livros sobre mitologia germânica e islandesa, os Vedas indianos e os filósofos alemães Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer. Recebeu o apelido de “Filósofo”. Em uma viagem a São Petersburgo, na Rússia, onde viviam seus avós, conheceu sua futura esposa, Hilda Leesmann (1891-1928). Em 1915, Rosenberg casou, mas se divorciou em 1923 sem deixar filhos. Ele voltaria a casar em 1925, com Hedwig Kramer, e desta vez teve Irene, que sobreviveria à Guerra para nunca falar no pai.

A primeira esposa vivia doente, e a Primeira Guerra os separou. O instituto onde ele estudava foi evacuado para Moscou e lá ele realizou os exames finais enquanto a Revolução Bolchevique derrubava o regime czarista. Retornou à cidade natal e fez seu primeiro discurso antissemita em uma reunião da “Fraternidade dos Cabeças Pretas”. 

Em dezembro de 1918 chegou a Munique, na Alemanha. Seu objetivo era vender seus artigos sobre a Revolução Bolchevique e os males que o judaísmo e o marxismo causaram na Rússia. Lá conseguiu encontrar Dietrich Eckart (1868-1923), jornalista redator do jornal Auf Gut Deutsch (“Em Bom Alemão”). Teria dito a Eckart: “Você precisa de um guerreiro contra Jerusalém?”. Eckart era um antissemita notório, membro da secreta e esotérica Sociedade Thule e, juntamente com Gottfried Feder e Anton Drexler, fundador do Deutsche Arbeiterpartei, o Partido dos Trabalhadores Alemães – que mais tarde se tornaria Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, abreviado para NSDAP ou simplesmente Nazi.

Foi Eckart quem apresentou Rosenberg a Hitler, no final de 1919. Mais tarde ele anotaria sua impressão sobre o significado do encontro: “Mudou o meu destino pessoal e o fundiu ao destino da nação alemã como um todo”. Rosenberg se filiou ao novo partido logo em seguida, tornando-se um dos articulistas do jornal Völkischer Beobachter (“Observador do Povo”), transformado mais tarde no principal jornal do Partido Nazista. Até o final da Segunda Guerra, alcançaria uma tiragem diária de quase 2 milhões de exemplares. Em seu primeiro artigo, escreveu sobre o que se tornaria sua marca pessoal e a do nazismo, atacar a “revolução judia russa” da forma mais feroz, baixa e vil possível.

O "filósofo"

Dentro do Partido Nazista, Rosenberg transformou-se em um escritor extraordinariamente prolífero. Ele sozinho produziu mais escritos que todos os demais líderes nazistas juntos. Para Robert K. Wittman e David Kinney, autores do livro O Diário do Diabo, “o trabalho era sua vida”. 

Leitor voraz, passava horas estudando a história alemã, supervisionando o jornal antissemita pseudo-acadêmico Der Weltkampf (“A Luta Mundial”) e dirigindo a Nationalsozialistiche Monatshefte (“Revista Mensal Nacional-Socialista”), onde discorria sobre fundamentos ideológicos e teóricos do partido. Além disso, era o editor do Völkischer Beobachter. Rosenberg usou o jornal, que dirigiu de 1923 a 1938, para disseminar e tornar popular a ideologia nazista sobre a superioridade da “raça ariana” e a necessidade de um “espaço vital” para o povo alemão. Em suas páginas denunciava a fé judaica como “uma máscara para lograr o saqueio moral e econômico” e Javé como “o diabo, um assassino desde os primórdios, e mentiroso e pai dos mentirosos”. Tornou o “judaísmo internacional” como principal inimigo dos alemães e do Estado alemão, popularizou e tornou comum o ódio visceral aos judeus. 

O antissemitismo teórico e a ideologia partidária foram sistematizados em livros. O primeiro, A Marca do Judeu ao Longo da História, foi publicado em 1920. Seguiram-se Imoralidade no Talmude (1920), O Crime da Maçonaria (1921), O Sionismo como Inimigo do Estado (1922) e O Rumo Futuro da Política Externa Alemã (1927). Segundo os historiadores Jürgen Matthäus e Frank Bajohr, respectivamente diretor do Museu Memorial do Holocausto, nos Estados Unidos, e diretor do centro de estudos do Holocausto no Instituto de História Contemporânea de Munique, as ideias radicalmente antissemitas dos primeiros artigos e livros de Rosenberg influenciaram profundamente o programa do Partido Nazista e as ideias racistas de Hitler – elas aparecem expressas em Mein Kampf (“Minha Luta”), a obra do futuro ditador publicada em 1925.

Otto Strasser (1897-1974), um dissidente do nazismo, chegou mesmo a afirmar que Rosenberg era “certamente o cérebro por trás de Adolf Hitler”. Para Matthäus e Bajohr, a obsessão de Hitler em destruir a União Soviética vinha, ao menos em parte, da ideia de Rosenberg de que o bolchevismo era uma conspiração judaica internacional que tinha de ser detida a qualquer custo, antes que ela destruísse o mundo germânico. 

A obra máxima de Rosenberg surgiu em 1930. O Mito do Século XX vendeu mais de 1 milhão de exemplares, sendo considerado, junto com o livro de Hitler, uma das pedras angulares da ideologia nazista.

Escrito em um estilo truncado, obscuro e esotérico, quase incompreensível em muitas passagens, a obra não agradou a todos. Joseph Goebbels (1897-1945) o definiu como um “arroto ideológico”, e mesmo Hitler o achara “obtuso demais”. Ainda assim, transformou-se em uma espécie de manual, fonte de citações e definidor de conceitos apropriados ao programa nacional-socialista e foi incluído no currículo escolar e nos acervos de bibliotecas. Conforme Wittman e Kinney, “os professores deviam levar suas cópias aos cursos de doutrinamento. Os estudantes de direito deviam se familiarizar com seus ensinamentos. Os instrutores da Juventude Hitlerista utilizavam suas ideias nas aulas ideológicas”. O nazismo estava preparando as bases para o Holocausto.

Além de todas as publicações, Rosenberg ainda mantinha um diário. Encadernado em couro e com mais de 500 páginas soltas escritas entre 1934 e 1944, o documento foi encontrado em 1945 e usado durante seu julgamento em 1946. A documentação permaneceu desaparecida por quase 70 anos e só recentemente ganhou as livrarias. Organizados de forma sistemática por Matthäus e Bajohr, os escritos de Rosenberg foram publicados na integralidade pela primeira vez em 2015, no livro Os Diários de Alfred Rosenberg 1934-1944. 

Além de Rosenberg, apenas dois outros membros do Partido Nazista deixaram seus atos e pensamentos registrados em diários: o ministro de Propaganda Joseph Goebbels e o governador-geral da Polônia ocupada Hans Frank (1900-1946). Nenhum deles, no entanto, se deteve tanto em questões políticas e raciais, posicionamentos e opiniões sobre os mais diversos líderes nazistas e aliados quanto o “filósofo”. As anotações tomadas durante a ascensão e queda do Terceiro Reich de Hitler revelam o cotidiano, a burocracia e as entranhas da elite nazista durante os anos de poder. Não há quase nada sobre sua vida íntima, sobre a família ou qualquer outro assunto que não política, diplomacia internacional, a “questão judaica” e a guerra. Para Matthäus e Bajohr, “Rosenberg era inclinado à crueldade, à autocomiseração, e ao mesmo tipo de narcisismo que criticava nos rivais”. Adorava calúnias e “não tinha empatia pelo custo humano de sua ideologia rígida”. O próprio Hitler ficava surpreso com sua falta de humanidade.

Genealogia do ódio 

Apesar de sua imensa capacidade de escrever, Rosenberg não era um pensador original ou escritor com qualquer qualidade literária. Pelo contrário, seus textos eram confusos e sua ideologia reunia antigas ideias nacionalistas e altamente questionáveis em um sistema peculiar de crenças políticas quase religiosas. Todas as teorias racistas e preconceituosas pregadas pelo nazismo e organizadas por seu “filósofo” já haviam sido escritas nos dois séculos anteriores. 

O conceito de “ariano”, por exemplo, a mais popular expressão nazista de sua suposta superioridade racial, representada por homens fortes, louros de olhos azuis, surgiu com o filólogo William Jones, no século 18, mas estava ligado à origem linguística dos povos indo-europeus. O britânico notou semelhança entre o sânscrito falado na Índia e o grego e o latim, falados na Europa. Então, em 1786, ele denominou de “arya” – “nobre” em sânscrito – os povos que falavam essas línguas de origem comum, incluindo o inglês e o alemão. No século seguinte, o conceito foi distorcido e questões raciais passaram a ser o foco central de discussões.

Em 1853, o conde francês Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) publicou o que se tornaria uma espécie de bíblia de nacionalistas e racistas. Seu livro Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas sustentava a ideia de que a História só poderia ser compreendida quando vista pela ótica racial. E que os brancos, sobretudo os “arianos”, seriam superiores e os únicos responsáveis pelas grandes realizações da civilização. Manter os arianos livres do sangue contaminador de outras raças seria, então, essencial para a manutenção dessa superioridade. 

A essa ideia sem qualquer fundamento científico – não existem raças em genética, mas um grande degradê de região para região – somaram-se outras, como a contida no livro do inglês Houston Stewart Chamberlain. Os Fundamentos do Século XIX, publicado em 1899, apontou o principal inimigo da raça superior: os “bastardos judeus”. Rosenberg afirmou mais tarde que o livro de Chamberlain era o “evangelho do movimento nazista”.

A ideia de que os judeus seriam culpados por tudo e de que haveria uma “raça superior” ganhou espaço e ares de ciência em uma Europa marcada por um antissemitismo de séculos. Universidades norte-americanas também propagavam a superioridade da raça branca diante de raças consideradas inferiores. Em 1903, surgiu na Rússia um texto intitulado Protocolos dos Sábios de Sião, suposto relatório de uma reunião secreta de líderes judeus que planejavam dominar o mundo articulando guerras e revoluções, o controle da economia e a disseminação do ateísmo e do liberalismo econômico.

O panfleto chegou à Alemanha em 1919, levado por russos anticomunistas. Já em 1921 o livro era tido como uma falsificação realizada por agentes da polícia secreta do czar, o que não impediu que Rosenberg publicasse em 1923 sua versão para os fatos. Em Os Protocolos dos Sábios de Sião e a Política Internacional Judaica o ideólogo “revelava” o plano judeu de dominação mundial que precisava ser detido. Para os historiadores Matthäus e Bajohr, a “aura sinistra” de Rosenberg criara um sistema dicotômico, entre “raça” e “contrarraça”, alemães/arianos versus judeus. Dentro dessa visão de mundo, os arianos seriam os verdadeiros “representantes da cultura”, enquanto os judeus eram os “destruidores”. Em O mito do século XX, Rosenberg defendeu a penalização da “profanação racial”, o que mais tarde, quando os nazistas tomaram o poder, tornou-se lei: os alemães “puros” não poderiam “infectar” o sangue ariano casando com judeus. A miscelânea de ideias de Rosenberg desencadeou o terror.

O fim

Em 1934, Hitler nomeou Rosenberg “encarregado do Führer para toda formação e educação ideológica do NSDAP”. Dentro do conceito nazista para questões “judaico-bolcheviques”, Rosenberg seria a principal referência e o consultor especial do líder nazista, mas nunca atuaria de forma direta na política externa do partido. Apenas quando a Alemanha se preparava para invadir a União Soviética, em 1941, ele se tornou “encarregado da administração central das questões de espaço da Europa Oriental”. E somente após a invasão e ocupação dos países do Leste Europeu, Rosenberg finalmente foi nomeado “ministro do Reich para os Territórios Orientais Ocupados”.

Matthäus e Bajohr destacaram que ele foi “o principal responsável por uma política que converteu a estratégia alemã da ‘guerra de extermínio’ no front em cotidiano da ocupação, com consequências fatais para os afetados”. Nos países do Leste Europeu, “o espaço vital”, os nazistas cometeram assassinatos em massa de judeus, comunistas e minorias étnicas. A Polônia foi a primeira vítima. Mais tarde o terror se alastrou ainda mais para o leste. Hitler, falando a oficiais do Exército, afirmou que a campanha russa seria uma “guerra de aniquilação”; além do judeu, o bolchevismo, “o inimigo mortal do povo nacional-socialista alemão”, devia ser eliminado sem piedade. Tão logo teve início a invasão da União Soviética, a SS iniciou os programas de execução sumária da “intelligentsia judaico-bolchevique”.
Em meio às atrocidades cometidas durante a ocupação da Europa, em 1943, ao completar 50 anos, Rosenberg foi saudado por Hitler como um dos “mais eminentes intelectuais que deram forma ao partido” e “uma das manifestações humanas mais nobres”.

Naquele mesmo ano o império de Hitler começou a ruir. Empurrada pelo Exército Vermelho, a Wehrmacht começou o longo caminho de volta das estepes russas até as fronteiras do Reich alemão. Dois anos depois, encurralado em Berlim, Hitler pôs fim à própria vida. Atrás de si, deixou um rastro de devastação e matança sem precedentes. A Alemanha, historicamente a terra de grandes pensadores, filósofos, cientistas, e artistas, lar de Beethoven, Einstein, Kant e Goethe, apresentara ao mundo sua face mais perniciosa, vil e sombria. A política de ódio que o nazismo levara ao mundo com base nas teorias de Rosenberg não poderia trazer outra coisa que não a destruição.

 Em 18 de maio de 1945, dez dias após a rendição incondicional da Alemanha Nazista, Rosenberg foi preso pelos Aliados no Hospital da Marinha em Flensburg-Mürwik, onde outros figurões nazistas haviam se escondido. De lá, foi enviado de carro para Kiel e, mais tarde, de avião para Luxemburgo, no Hotel Palace, a fim de esperar por seu julgamento. 

Encarcerado, um febril Rosenberg continuou a escrever sobre a “grandeza” das ideias nazistas. Afirmou que as gerações no futuro teriam vergonha de os terem acusado de “criminosos por acalentar o mais nobre dos pensamentos”. Aferrado até o final ao líder, escreveu: “Eu o venerava, e permaneço leal a ele até o fim”. Diferentemente de muitos dos seus colegas, como Hans Frank e Albert Speer, Rosenberg não se retratou nem aceitou que as ideias que havia disseminado por décadas haviam levado a Alemanha a cometer o ato mais torpe da História. Quando o alçapão se abriu sob seus pés, tinha a delirante ilusão de ter sido um gênio injustiçado.


Tópicos Relacionados

Nenhuma novidade nos diários de Rosenberg



A Liderança Nazista e a Sociedade Thule



Raízes Místicas do Nazismo


sexta-feira, 28 de julho de 2017

[PGM] Qual é a importância da Primeira Guerra Mundial para os dias de hoje?

Fábio Marton


Imagine uma tarde qualquer em Paris, Londres ou Berlim antes da Primeira Guerra, em 1913. Cavalos e carroças dividem a rua com bondes e poucos automóveis. Num café, homens leem jornais e discutem as novidades: aviões e corridas de carros. Desde a queda de Napoleão (quase 100 anos antes), a Europa inteira não se envolve numa guerra de grandes proporções. A África e boa parte da Ásia estão sob domínio dos europeus, e os colonizados são temas da arte moderna, para os quais crítica e público torcem o nariz. Moças em espartilhos e mangas até o punho jogam conversa fiada numa confeitaria, quem sabe sobre o voto feminino — que os homens consideram fútil. A tecnologia dava saltos, mas ainda se vivia sob valores da Era Vitoriana: o futuro seria a “marcha inexorável da civilização ocidental sobre a barbárie”. Essa era de certezas ganhou o nome de Belle Époque, a “bela época”.

Era um mundo no qual “todos sabiam o que glória e honra queriam dizer”, escreveu o historiador Paul Fussel, autor de The Great War and Modern Memory ("A Grande Guerra e a Memória Moderna", sem tradução). Uma sociedade despreparada para a escala e os métodos inéditos de matança, que incluíam metralhadoras, bombas dispensadas de aviões, torpedos de submarinos e, mais que tudo, o tédio aterrador das trincheiras. Com o conflito, seriam perdidas 17 milhões de vidas. “O grande edifício da civilização do século 19 foi demolido nas chamas da grande guerra, quando seus pilares desabaram”, afirmou o historiador Eric Hobsbawn. Para ele, a guerra marca o início do “Curto Século 20”: um período de incerteza violenta, no qual nenhum valor passaria sem ser contestado. Nas páginas a seguir, mostramos como vários aspectos do mundo atual surgiram dessa destruição.

Refresque a memória:

A Primeira Guerra (1914-1918) começa após o assassinato do herdeiro ao trono da Áustria-Hungria. A morte desencadeou uma série de declarações de guerra pautadas por uma política prévia de alianças militares. No lado vencedor, as principais nações eram Reino Unido, Rússia e França — e os EUA, que  entraram no final da guerra. No lado derrotado, os protagonistas eram Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano.


UNIÃO SOVIÉTICA > Como a Guerra ajudou a Revolução Comunista
Derrotas no conflito e falta de apoio popular para mais batalhas contra a revolução foram decisivos

Além de estratégias militares obsoletas — algo que tinha em comum com outros países —, a Rússia padecia do fato de ser um país agrário numa guerra industrial. Seus constantes fracassos no front levaram à imensa revolta que explodiu em fevereiro de 1917. O exército recusou-se a suprimir as manifestações, e o czar Nicolau II abdicou no mês seguinte.  Vladmir Lênin, exilado na Suíça após se envolver em uma revolta similar em 1905, voltou à Rússia em abril com um objetivo. Marxista não ortodoxo, acreditava que era possível se fazer uma revolução do proletariado num país onde os trabalhadores industriais eram minoria. Outros comunistas, incluindo o próprio Marx, achavam que a revolução só poderia acontecer num país capitalista avançado. Mas Lênin conseguiu: em novembro, com o apoio dos Guardas Vermelhos, trabalhadores armados e militares de baixa patente, ele derrubou o governo provisório criado com a queda do czar. Nascia o primeiro estado marxista da história.

A Grande Guerra foi essencial para o sucesso da experiência. Seriam cinco anos de guerra civil até que a resistência fosse contida. Os países capitalistas até tentaram intervir em favor dos russos anticomunistas, mandando mais de 100 mil soldados — mas não havia apoio popular para outra guerra, e eles acabaram se retirando. A União Soviética, assim, sobreviveria, espalhando o comunismo  e liderando um dos dois grandes blocos da divisão geopolítica do século 1920.

ESTADOS UNIDOS > O novo centro do capitalismo
Grande vencedor, país passou de devedor a credor dos europeus


A entrada dos EUA na Guerra foi tardia, mas com consequências imensas. Suas tropas só viram ação em outubro de 1917 e passaram de 1 milhão de soldados apenas no ano seguinte. No entanto, ao declarar guerra à Alemanha, em 6 de abril de 1917, o país quebrava uma tradição de distanciamento em assuntos europeus que vinha desde sua independência. Foi uma intervenção para, nas palavras do então presidente Woodrow Wilson, “tornar o mundo seguro para a democracia”. Ainda hoje, a política externa americana é, em boa parte, guiada por essas palavras. Além disso, a guerra mudou o centro financeiro mundial.

Ao final de 1917, os Estados Unidos haviam emprestado quase US$ 3 bilhões aos governos francês e britânico para a guerra. Passaram de devedores dos europeus a credores do resto do mundo."Como os vencedores europeus estavam profundamente endividados com os EUA, a capital mundial das finanças mudou de Londres para Wall Street", escreve a historiadora Sally Marks.

AERONAVES > Surge o avião como conhecemos
Os bombardeiros deram início ao transporte aéreo


Na prática, quando a Grande Guerra começou, a indústria aeronáutica europeia tinha apenas 6 anos. O Flyer III, dos Irmãos Wright, foi apresentado em 1908 em Paris, e dele nasceu a indústria. No início da guerra, os aviões eram usados apenas para reconhecimento, decolavam desarmados. Os primeiros “bombardeios” consistiram em pilotos carregando pequenas bombas no colo e as atirando com as mãos. Mas a tecnologia avançou muito durante o conflito.

Todo o tipo de configuração foi testado naqueles anos, num desfile de formas malucas que lembra o desenho em que Dick Vigarista perseguia o pombo (inspirado na guerra, aliás). Na tentativa e erro, a forma definitiva foi surgindo: motor na frente e estabilizadores atrás, ao contrário das  primeiras máquinas dos Irmãos Wright ou de Santos Dumont. A velocidade máxima das aeronaves passou de 150 km/h a 230 km/h e, em 1918, bombardeiros carregavam mais de dez vezes o peso de um avião de 1914.

Os grandes bombardeiros, alguns convertidos diretamente em aviões civis, seriam a origem do transporte aéreo. Na década seguinte surgiram os serviços de viagens, principalmente em hidroaviões, já que aeroportos eram raros. Também graças à Guerra, os serviços tinham boa oferta de mão de obra: os veteranos do conflito.

TANQUE > Primo do trator
Como o veículo militar mudou o jeito de fazer guerra e de conduzir  nossa agricultura



O nome “tanque” vem de uma contingência da guerra. Era um jeito de despistar os alemães sobre a real natureza do invento, tentando fazê-lo parecer inofensivo, como um tanque de água. O nome real não pegou: o Comitê de Navios Terrestres foi criado na Inglaterra em 1915, para solucionar o impasse das trincheiras. Resumidamente, o emprego de metralhadoras tornava qualquer avanço de infantaria uma manobra suicida (veja abaixo). Estreando em setembro de 1916, o tanque britânico Mark I foi o primeiro da história. Passava por cima de arame farpado e das trincheiras, indo direto às metralhadoras, que destruía com seus canhões. Isso abria caminho para o avanço da infantaria. Os alemães mantiveram-se céticos e só produziram 20 unidades de seu único modelo, o A7V. Em 1918, pagaram com a derrota.
Uma consequência inesperada do veículo foi incentivar a indústria de tratores. As esteiras dos tanques foram copiadas de implementos agrícolas, mas esses só passariam a ser produzidos em grande número a partir da década de 20, quando a tecnologia, testada no combate, estava madura o suficiente. O trator foi um dos principais instrumentos da chamada Revolução Verde, que aumentou a produtividade e sextuplicou a produção de alimentos no século 20. Se você tem arroz no prato a um preço acessível, de certa forma, deve isso às trincheiras.

Adeus, pombo correio

No início da guerra pilotos recorriam a sinais com as asas ou as mãos, bilhetes jogados de aviões em latas ou sinalizadores (fogos de artifício) para transmitir mensagens. O rádio começou a ser usado em 1914 pelos britânicos, mas, como um aparelho completo não cabia no avião, era instalado apenas o emissor e o piloto mandava coordenadas das posições inimigas, sem receber retorno. Só em 1917 os americanos desenvolveram o rádio de avião, mas poucos puderam ser instalados antes do final do conflito. Esse invento — e a experiência em coordenar um grande número de voos — daria origem ao controle de tráfego aéreo, já no início dos anos 1920.

SUBMARINO > Viagem ao fundo do mar
Avanço militar é relacionado a plataformas de petróleo e sonar


O submarino dos aliados não passava de um veículo de patrulha costeira. O dos alemães era chamado de “navio submarino” (unterseeboot ou u-boat). Isso explica a diferença: apenas este avançava em águas profundas. Os u-boats ficavam invisíveis, emergindo, atacando, e submergindo para a fuga. Até a invenção das cargas de profundidade (bombas antissubmarino), em 1916, os aliados não tinham defesa contra eles. Foram mais de 5 mil navios afundados por torpedos durante a guerra — como os alemães não podiam enfrentar a marinha britânica na superfície, tentaram afundar qualquer navio (a maioria não-militar) que se aproximasse da Grã-Bretanha.

Os submarinos não são apenas um avanço militar. Seu desenvolvimento tornou possível que submersíveis passassem a explorar o fundo do mar. As plataformas de petróleo marítimas ou a exploração oceânica em águas profundas estão relacionadas a esse avanço. Outra criação crucial para a oceanografia também está relacionada aos submarinos: o sonar, a única forma de detectá-los, foi criado pouco antes da guerra e usado já em 1914 para mapear o fundo do oceano. O equilíbrio político durante a Guerra Fria também passou pela capacidade dos veículos: os submarinos nucleares eram uma garantia que, mesmo que uma das potências atacasse primeiro e destruísse todos os mísseis e aviões inimigos, ainda assim sofreria a retaliação atômica.

PROPAGANDA > A arte de demonizar
Têm início as campanhas para jogar a opinião pública contra inimigos do país


As potências centrais iniciaram a guerra, mas não cumpriam bem o papel de vilãs. Na América e Europa, havia muita simpatia por Alemanha e Áustria-Hungria. Embora fossem autoritários, os países não eram ditaduras e gozavam de liberdade de imprensa e grande prosperidade. A Alemanha foi o primeiro país a criar um sistema de seguridade social. Eram lugares vibrantes, sede de progresso científico e cultural. Basta lembrar que o cientista Albert Einstein era um filho do Império Alemão, e Freud, o pai da psicanálise, era austríaco.

Por isso foi necessário um grande esforço para reverter o respeito pelos germânicos da opinião pública. A Primeira Guerra viu a primeira ação massiva de propaganda governamental — no sentido estrito do termo, do governo tentando incutir ideias na população. Buscando recrutar soldados ou conseguir bancar investimentos para a guerra — os war bonds, títulos especiais que poderiam ser descontados anos depois —, a propaganda de ingleses, americanos e franceses transformaram os alemães em animais que pretendiam destruir a civilização. Os germânicos também aderiram à propaganda, em menor grau, geralmente com um tom mais defensivo, lembrando a hipocrisia da nação mais imperialista do mundo — o Reino Unido — posar como defensora da liberdade. Reflexos disso apareceram em governos totalitários ou democracias em guerra por todo o século 20 — como o notório “Brasil: Ame-o ou deixe-o” da época da ditadura militar.

COSTUMES > Depois do horror, a festa
Austeridade da Belle Époque e dos anos de guerra dá lugar a hedonismo e mina a repressão sexual

Bombas não destruíram apenas edifícios vitorianos, mas também o senso de decência da época. A geração dos sobreviventes e dos que eram muito jovens para lutar aderiu ao hedonismo. À austera moralidade da Belle Époque, seguiram-se os roaring twenties, os loucos anos 20, retratados em obras como O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald — ele mesmo, um veterano do confronto. Embalados a álcool (consumido ilegalmente nos EUA), jazz e carros velozes, os jovens passaram a experimentar a mais escandalosa invenção da época: o namoro. Antes, fazia-se a “corte”, com o rapaz se apresentando e pedindo aceitação da família da moça.  A crise dos anos 1930 e a ascensão do fascismo puseram fim à folia, mas a repressão sexual nunca voltaria a ser como antes, e cairia de vez durante a década de 1960.

ARTE > Modernismo vira mainstream
Horror da guerra ajuda a mudar a percepção sobre a arte

Quando Las Demoiselles d’Avignon foi exibida por Picasso em 1916, mesmo os amigos do artista a consideravam uma vergonha. Ao ver a exibição, um crítico parisiense comentou que “os cubistas não querem esperar até o fim da guerra para continuar seu ataque ao bom senso”. Ele não era exceção: o modernismo era visto como uma frivolidade de meia dúzia de malucos antes da Primeira Guerra. A brutalidade do conflito fez com que a violência se incorporasse à arte e tomasse o espaço antes dedicado a celebrar a beleza. Nos anos 1920, artistas como Picasso deixaram de ser malditos para se tornarem figuras centrais. “Para nossa preocupação com velocidade, novidade, fugacidade e o mundo interior – com a vida vivida, como diz o jargão, ‘na via expressa’ –, uma escala inteira de valores teve de ceder lugar e a Grande Guerra é o evento mais significativo nesse desenvolvimento”, afirma o historiador canadense Modris Eksteins em The Rites of Spring: The Great War and The Birth of Modern Age (sem tradução).


Tópicos Relacionados

Na Iminência da Guerra



1ª Guerra Mundial: Atentado contra arquiduque deu início ao conflito



Como a Alemanha perdeu a Corrida Armamentista na PGM



A História da Fábrica de Cadáveres da PGM



Como a Inglaterra ajudou a começar a Grande Guerra



Cientista político afirma que Primeira Guerra teve caráter de alerta


http://epaubel.blogspot.com.br/2014/04/pgm-cientista-politico-afirma-que.html

domingo, 23 de julho de 2017

Guerra do Golfo: Mundo em alerta

Adriana Maximiliano


Desde a Antiguidade, o Iraque e o Kuwait faziam parte de um só país – a Mesopotâmia. No fim da I Guerra Mundial, os britânicos, que dominavam a região, dividiram o território. Kuwait foi o nome dado ao pedaço de 17 820 km2, rico em petróleo e com uma ampla saída para o golfo Pérsico. O território maior, com 437 072 km2, virou o Iraque.

 Em 1990, Saddam Hussein, invocou as antigas fronteiras para justificar a invasão do vizinho. Na verdade, tinha US$ 80 bilhões de dívida externa, herdada principalmente da guerra contra o Irã, entre 1980 e 1990. Um milhão de iraquianos havia morrido no conflito, mas o país permanecia como a maior força militar da região.

A produção de petróleo do Kuwait, na época responsável por 10% da produção mundial, foi a gota d’água. A economia iraquiana dependia da indústria petrolífera e a alta produção do vizinho pressionava os preços internacionais para baixo. Em 22 de julho de 1990, o exército iraquiano mobilizou 120 mil soldados nas fronteiras com o Kuwait. Em 2 de agosto, o Iraque invadiu o território vizinho. Era o início do maior conflito bélico do fim do século 20.

Como começou

 1. O Iraque invade o Kuwait à 1h da manhã de 2 de agosto (horário local), com infantaria mecanizada e forças especiais. Helicópteros e barcos atacam a capital, a Cidade do Kuwait. Tropas iraquianas ocupam a cidade e a fronteira com a Arábia Saudita. A ONU exige que o Iraque retire suas tropas. O presidente americano, George Bush, vai à TV e diz que mandará porta-aviões para o golfo Pérsico.
 2. O Conselho de Segurança da ONU aprova o boicote econômico ao Iraque, em 6 de agosto. Aviões F-15 Eagle, da Força Aérea Americana, chegam à Arábia Saudita e soldados são convocados nos EUA. Saddam Hussein declara o Kuwait parte do Iraque. A ONU autoriza a intervenção militar e dá um prazo até janeiro para o exército iraquiano deixar o Kuwait.
 3. Em outubro, Bush decide dobrar o número de militares na Arábia Saudita. Ele diz que os 230 mil homens são suficientes para defender a Arábia Saudita, mas não para atacar os iraquianos. O Iraque envia mais 100 mil homens ao Kuwait. A ONU dá um ultimato a Saddam Hussein para deixar o Kuwait até 15 de janeiro de 1991.
 4. Em janeiro de 1991, o congresso americano autoriza o uso de força para dar fim à ocupação iraquiana no Kuwait.
 5. Dois dias após o prazo da ONU, em 17 de janeiro, começa a operação Tempestade no Deserto às 2h38m (horário de Bagdá), com ataque de helicópteros Apache. Repórteres da CNN narram as explosões, dentro de um hotel na capital.


Os personagens
 George Bush: Antes de ser presidente dos Estados Unidos (1989-1993), foi chefe da CIA e vice de Ronald Reagan. Eleito no período pós-Guerra Fria, Bush teve apoio da URSS e China na guerra contra o Iraque. Aos 66 anos, liderou os países da Coalizão.
 Colin Powell: Chefe de estado-maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, foi o comandante operacional das forças da Coalizão no Golfo, aos 53 anos. Seu desempenho na guerra foi tão elogiado que voltou ao poder ao lado de George W. Bush, o filho.
 Tariq Aziz: Ele e Saddam Hussein tornaram-se grandes amigos no partido Baath. Quando o ditador se tornou presidente, Tarik foi seu conselheiro. Aos 54 anos, Ministro do exterior, foi porta-voz do governo iraquiano na Guerra do Golfo.
 Saddam Hussein: Entrou para o Partido Socialista Árabe Baath, aos 19 anos. Participou do golpe que levou o Baath ao poder, em 1968. Chegou à presidência em 1979, aos 42 anos. Declarou guerra ao Irã em 1980 e, dez anos depois, invadiu o Kuwait.

Primeiros combates
 18 de janeiro de 1991: Os primeiros 12 mísseis Scud iraquianos atingem Tel Aviv e Haifa, em Israel.
 21 de janeiro de 1991: O primeiro balanço da guerra é divulgado: o Iraque foi alvo de 8 mil vezes bombardeios em 5 dias de operação
 25 de janeiro de 1991: O Iraque despejando 10 milhões de barris de petróleo kuwaitiano no golfo Pérsico.
 26 de janeiro de 1991: Caças F-111 atacam tanques de petróleo no Iraque e no Kuwait.
 1 de fevereiro de 1991: Mísseis Tomahawk destróem base aérea em Bagdá.
 11 de fevereiro de 1991: 20 mil soldados iraquianos morreram em ataques aéreos.
 13 de fevereiro de 1991: Bombardeio em Bagdá destrói 3 pontes e mata 400 pessoas.
 23 de fevereiro de 1991: Tropas iraquianas prevendo a invasão, queimam 640 poços de petróleo no Kuwait.
 24 de fevereiro de 1991: Início dos ataque de infantaria. 80 mil soldados, apoiados por tanques invadem o Kuwait.
 25 de fevereiro de 1991: Um Scud atinge Dhahran, na Arábia Saudita, mata 28 americanos e deixa 98 feridos.

Tópicos Relacionados

Por que os EUA invadiram o Iraque?



O Iraque valeu a pena?



Saímos do Iraque, mas os iraquianos não têm essa opção



Os Republicanos não conseguem enfrentar a verdade sobre o Iraque


http://epaubel.blogspot.com.br/2015/09/os-republicanos-nao-conseguem-enfrentar.html

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Reconquista: A queda do Islã na Península Ibérica

Cristiano Dias


O Sol nem havia se levantado e o calor já anunciava outro dia quente. O verão na Andaluzia sempre foi seco e interminável. De seu acampamento, às margens do rio Guadalete, Tariq Ibn Ziyad, um oficial muçulmano a serviço do governador de Tânger, viu surgir no horizonte uma multidão de soldados. Cerca de 40 mil homens do exército cristão visigodo comandado por Rodrigo, duque da Bética e homem-chave do maior reino germânico do Ocidente, se aproximavam. Era 19 de julho de 711 e seus milhares de soldados em breve travariam uma batalha que mudaria para sempre a história da península Ibérica.

A visão de Tariq mostrava-se aterradora. Os visigodos pareciam monstros. Enfiados em gigantescas armaduras e enfileirados disciplinadamente ao longo das colinas, somavam mais de dois cavaleiros para cada guerreiro árabe, que não empunhava nada além da espada e de sua fé no Corão. A seu favor, tinha uma tropa descansada, que entraria em combate contra um inimigo que marchara por dois meses para a batalha. Tariq sabia disso e não permitiu que os cristãos descansassem. Ainda pela manhã, deu a ordem de ataque. O que se viu a seguir foi uma lenta carnificina. Em menos de uma semana, os árabes, mais leves e ágeis, passaram pelo fio da espada a nata do exército visigodo. Ao fim de cada dia, havia tantos corpos pelo campo de batalha que ficava impossível identificar os mortos. O banho de sangue foi interrompido quando as tropas cristãs perceberam que seu líder desaparecera, provavelmente entre os milhares de cadáveres. Sem Rodrigo, a Batalha de Guadalete terminou com suas tropas fugindo apavoradas.

Antes do término do ano, os árabes conquistariam Córdoba e a capital, Toledo, sem encontrar maiores resistências. Em 712, caiu Sevilha. No ano seguinte, foi a vez de Huelva, Faro, Beja e Mérida. Em 714, Burgos, Leão, Viseu, Évora, Santarém, Coimbra e Lisboa. Em 716, Braga, Porto e toda a Catalunha estavam sob o domínio de Alá. Em pouco tempo, os muçulmanos varreram a península Ibérica. Cada vez mais confinados ao norte, os cristãos tentavam sobreviver à onda de ataques. Do outro lado, animados pela facilidade das vitórias, os mouros passaram a lutar além dos Pirineus, em território francês. Finalmente, em 732, foram vencidos em Poitiers pelo franco Carlos Martel. Mas, se a derrota impediu o avanço do islã ao norte da Europa, não significou o fim de sua influência no sul. Até 737 os árabes tomariam Arles, Avignon, Lyon e o vale do Ródano e ficariam na península e parte da Europa por um longo período.

Herdeiros de Maomé

Maomé morreu em 632, depois de unificar os povos da península Arábica. Como foi possível transformar um pais de nômades na maior potência do planeta em pouco mais de 100 anos? Os historiadores concordam que o fator principal para a expansão fulminante foi a decadência dos grandes impérios – bizantino, persa e romano –, já pulverizados em vários reinos germânicos. “Em todos esses lugares, a peste e a fome dizimavam populações inteiras, que recebiam os árabes como salvadores da pátria”, diz Albert Hourani, autor de Uma História dos Povos Árabes.

“Quando chegaram à Espanha, os árabes encontraram o reino visigodo no caos. Entre 707 e 709, houve uma seca sem precedentes, que arrasou as colheitas e espalhou a fome. Além disso, a enorme colônia judaica estava sendo perseguida. Assim, camponeses e judeus receberam os mouros de braços abertos”, afirma o historiador espanhol José Manuel González Vesga, autor de Breve Historia de España (sem tradução).

Depois de serem recebidos como libertadores, era hora de botar ordem na casa, o que demorou outro meio século. De 711 a 756, o poder árabe na península Ibérica foi exercido por dezenas de emires, a maioria escolhida pelos árabes instalados na península. Na prática, isso significava que o poder central, por mais poderoso que fosse, perdia a força com a longa distância.
A falta de unidade racial e religiosa dentro das fronteiras do califado foi a maior responsável por sua ruína. Judeus, cristãos, eslavos, ninguém se adaptou à tradicional organização familiar muçulmana, especialmente à poligamia e ao direito de herança. Além disso, rivalidades internas desataram uma guerra civil dentro da Andaluzia árabe que fragmentou o califado em dezenas de pequenos reinos, conhecidos como taifas.

Não foi à toa que, a partir de 1031, com o desmembramento do califado, os cristãos começaram a ganhar terreno na península Ibérica. Com exceção de Barcelona, retomada em 801, e Porto e Braga, em 868, todas as outras grandes vitórias cristãs ocorreram após a queda do califa de Córdoba. Como Coimbra, recuperada em 1064. Madrid, em 1083. Toledo, em 1085. Zaragoza, em 1118. Sevilha, em 1248.

Granada, Última fronteira

Apesar das vitórias, os cristãos demoraram mais 200 anos para terminar o serviço. Só conseguiram depois de resolver as divergências internas. Em 1469, Fernando de Aragão se casou com Isabel de Castela, e a coroa espanhola foi unificada. A situação dos árabes estava insustentável. Eles se confinava na cidade de Granada. Era pouco provável que conseguissem suportar a pressão de uma Espanha unida.

Depois de uma longa trégua, a guerra recomeçou em 1482, com as tropas de Fernando conquistando pequenas localidades próximas à última capital árabe da península. Em 1490, o rei armou seu acampamento nos arredores de Granada. Em seguida, ordenou a de-vastação de vários campos cultivados perto de suas muralhas e esperou o inverno chegar. Fernando sabia que seria muito arriscado lançar um ataque contra as 1.030 torres que protegiam Granada. Daí veio a ideia de cortar os suprimentos e fazer com que a fome se incumbisse de derrotar o inimigo.


Percebendo que os espanhóis não atacariam, Abu Boabdil Abdullah, rei dos mouros, ordenou uma série de ataques provocativos para fustigar uma reação dos soldados de Fernando. Mandou que fossem arremessadas lanças no acampamento espanhol com insultos amarrados na ponta. Como nada dava certo, orientou seus homens a desafiar individualmente os cavaleiros de Fernando para duelos. Durante algum tempo, os espanhóis perderam boa parte dos homens nesses combates, até que Fernando proibiu sua tropa de aceitá-los.

Em julho de 1491, um acidente quase matou a família real espanhola. A noite, a rainha Isabel deixou que um lampião caísse e queimasse sua tenda. O vento espalhou o fogo e logo o acampamento inteiro estava em chamas. Os árabes tentaram se aproveitar do caos nas linhas inimigas, atacando com a infantaria. O resultado foi desastroso para o rei mouro, Boabdil. Com boa parte de seu exército fora de combate e apenas 300 cavalos vivos – dos 7 mil iniciais –, ele viu Fernando avançar em direção à muralha.

Os espanhóis cortaram toda a comunicação da cidade e impediam a chegada de reforços. Sem comida, não existia outra saída senão a rendição. Em 25 de novembro, assinaram-se os termos. Os mouros teriam direito a manter sua fé e quem quisesse ganharia uma passagem de volta para a África. Em troca, a cidade deveria ser entregue. Em 2 de janeiro de 1492, Fernando e Isabel marcharam triunfantes pelas ruas do último bastião árabe na Espanha. 

O homem que reconquistou Portugal


Dom Afonso Henriques nasceu em 1109, em terras já chamadas de Condado Portucalense, nome dado à cidade de Portucale (hoje Porto). Depois de ser fustigada pelos árabes, a região passou a ser disputada por outros reinos cristãos mais importantes, como Leão, Galícia e Castela. O pontapé inicial para a autonomia do condado aconteceu no momento em que o infante completou 14 anos. Foi quando Afonso Henrique começou a atazanar a vida de seus vassalos espanhóis. Ao assumir o controle do condado, ele se recusou a prestar vassalagem aos reis vizinhos. Com suas tropas, lutou contra todos eles e ainda teve tempo para guerrear contra os árabes. Em 1139, saiu vitorioso na Batalha de Ouriques, derrotando cinco reis mouros de uma só vez – o que rendeu à bandeira de Portugal o desenho de cinco escudos em forma de cruz. Com o vento soprando a favor, no ano seguinte resolveu se proclamar rei de Portugal, deixando de usar o tratamento de infante. Depois de conquistar Leiria, Santarém, Lisboa e quase todo o Alentejo, em 1179 foi reconhecido pelo papa Alexandre III como rei de Portugal e vassalo apenas da Santa Igreja.

El Cid, cavaleiro lendário


Rodrigo Días nasceu no vilarejo de Vivar, nos arredores de Burgos, em 1043. Desde cedo, frequentou a corte do rei Sancho II de Castela, onde carregava o estandarte real. Logo ganhou fama em duelos, o que lhe valeu o apelido de Campeador. Os inimigos mouros o chamavam de sidi (“senhor”), e foi como El Cid que o primeiro herói espanhol entrou para os livros de história. A boa vida de Cid na corte castelhana acabou com a morte do rei e amigo Sancho. Seu sucessor, Afonso VII, não ia com a cara do Campeador e decidiu desterrá-lo. El Cid perambulou então por vários reinos oferecendo seus serviços. Lutou ao lado de árabes e cristãos, multiplicando sua fama a cada vitória. Um dia, cansado de lutar para os outros, formou uma pequena tropa e conquistou Valencia, que governou em nome dos reis castelhanos. Lá, venceu os árabes seguidas vezes em combates, mantendo a cidade sob a bandeira cristã até a sua morte, em 1099. Sua história inspirou o mais antigo épico espanhol, o Poema de Mío Cid, escrito no século 12. De autoria desconhecida, o texto foi responsável por disseminar a lenda de El Cid por toda a Espanha como um cavaleiro obstinado e invencível.


Tópicos Relacionados

Acre: A derrota final das cruzadas



As Cruzadas: Uma História Completa



Constantinopla, 1453: Desaba a Idade Média


http://epaubel.blogspot.com.br/2017/06/constantinopla-1453-desaba-idade-media.html