domingo, 5 de novembro de 2017

[POL] Savitri Devi, a mística fascista que admirava Hitler


Ao navegar pelo site oficial do partido ultranacionalista grego Aurora Dourada para uma reportagem, em 2012, me deparei com a foto de uma mulher envolvida em um sári de seda azul. Ela olhava para um busto de Adolf Hitler, diante de um intenso pôr-do-sol.

Mas o que aquela mulher com aparência indiana fazia na página de um partido abertamente racista que quer expulsar todos os estrangeiros da Grécia?

Aquela informação ficou guardada na minha memória. Até que a crescente onda de políticas de extrema direita, que varreu a Europa e os Estados Unidos, trouxe o nome de Savitri Devi à tona novamente.

Hoje não é difícil encontrar referências em fóruns neonazistas a seus livros. Entre os mais mencionados, estão O raio e o sol , no qual a autora argumenta que Hitler era a reencarnação do deus hindu Vishnu, e Ouro na Fornalha , que incita os verdadeiros fiéis a acreditar no ressurgimento do nacional-socialismo.

O portal de notícias americano Counter-Currents, de extrema direita, também tem um extenso arquivo online sobre sua vida e obra.

As ideias de Savitri também estão chegando a um público mais amplo, por meio de líderes do movimento alt-right, como Richard Spencer e Steve Bannon, fundador do Breitbart News, site de notícias de extrema direita, e que até recentemente era o estrategista-chefe do presidente Donald Trump.

Tanto Spencer quanto Bannon, e em geral toda a alt-right, adotaram sua visão da história, de que haveria uma batalha cíclica entre a luz e as trevas, teoria compartilhada por Savitri e outros místicos fascistas do século 20.

Mas quem era Savitri Devi - e por que suas ideias estão ressurgindo agora?

Atraída por Hitler

Apesar do sári e do nome, Savitri era europeia, filha de mãe inglesa e pai grego-italiano. Nasceu na cidade francesa de Lyon, em 1905, e foi batizada com o nome de Maximiani Portas.

Desde a infância, desprezava todas as formas de igualitarismo. "Uma menina bonita não pode ser igual a uma menina feia", disse ela a um interlocutor de Ernst Zündel, conhecido por negar o Holocausto, em 1978.

Conquistada pelo nacionalismo grego, chegou a Atenas em 1923, juntamente com milhares de refugiados deslocados pela campanha militar desastrosa da Grécia na Ásia Menor no fim da Primeira Guerra Mundial.

Savitri culpava os aliados ocidentais pela humilhação da Grécia e pelo que considerava "punições injustas" impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (1919), que encerrou oficialmente a guerra.

Em sua opinião, tanto a Grécia quanto a Alemanha eram vítimas, às quais se havia negado a legítima aspiração de unir todo seu povo em um único território.

Isso, combinado com um forte antissemitismo que dizia ter aprendido na Bíblia, fizeram com que desde muito cedo fosse identificada como uma nacional socialista.

Hitler era líder da Alemanha, mas, para Savitri, a ânsia nazista de erradicar os judeus da Europa e devolver à "raça ariana" sua legítima posição de poder também faziam dele seu "Führer" - palavra que significa líder em alemão.

Como os pensadores antissemitas do século 18, Savitri culpava os judeus-cristãos por terem acabado com a glória da Grécia e a antiga utopia mítica dos arianos.

Em 1930, ela viajou para a Índia (à época ainda colônia do Reino Unido), em busca de uma versão viva do passado pagão da Europa. Estava convencida de que o sistema de castas mantinha a pureza da sociedade local - uma ideia partilhada por David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, que também visitou Índia na década de 1970.

Nazismo e Hinduísmo

Uma mulher europeia viajando sozinha era tão atípico que as autoridades coloniais passaram a monitorá-la. Mas Savitri não mostrou interesse pelos britânicos na Índia até a Segunda Guerra Mundial, quando compartilhou informações sobre eles com o Japão.

Por outro lado, aprendeu várias línguas locais e casou-se um brâmane (casta sacerdotal hindu) - que ela considerava um ariano. Na Índia, escreveu uma elaborada síntese de mitos hindus e nazismo, na qual Hitler era apresentado como "um homem contra o tempo", destinado a acabar com o Kali Yuga (período que aparece nas escrituras hindu associado à Idade das Trevas) e a começar uma nova era de supremacia ariana.

Em Calcutá, na década de 1930, Savitri trabalhou para a Missão Hindu - atualmente, um templo de bairro tranquilo, mas, naquela época, um centro de atividade missionária e nacionalismo hindu.

A politização das comunidades religiosas na Índia durante o domínio britânico ajudou a fomentar o movimento Hindutva, segundo o qual os hindus eram os verdadeiros herdeiros dos arianos e a Índia uma nação essencialmente hindu.

Savitri ofereceu seus serviços ao diretor da Missão, Swami Satyananda, que, assim como muitos indianos antes da independência, compartilhava sua admiração por Hitler, mesclando a propaganda nazista com o discurso nacionalista hindu.

Naquela ocasião, ela se dedicou a viajar por todo país realizando palestras em hindi e bengali. Pontuando suas lições sobre os valores arianos com trechos de Mein Kampf (Minha luta, livro escrito por Hitler).

Mas em 1945, arrasada pela queda do Terceiro Reich, Savitri retornou à Europa para trabalhar na reconstrução da Alemanha nazista. Sua chegada à Inglaterra é descrita em seu livro "Bigodes longos e a Deusa de duas pernas", uma fábula infantil cuja heroína é uma nazista amante de gatos, como ela própria.

A heroína, Heliodora, "não tinha 'sentimentos humanos' no sentido ordinário da expressão", escreveu. "Desde sua infância, ela se chocava com o comportamento dos homens em relação aos animais... mas não tinha a qualquer compaixão por pessoas sofrendo por serem judias".

Camaradas nazistas

Savitri sempre deixou claro que preferia os animais aos humanos e, tal como Hitler, era vegetariana.

Em 1948, conseguiu entrar na Alemanha ocupada, onde distribuiu milhares de panfletos nos quais se lia: "Um dia nos reergueremos e voltaremos a triunfar! Tenham esperança! Heil Hitler!".

Anos depois, Savitri declararia que ficou feliz em ser detida por autoridades de ocupação britânicas, já que a prisão possibilitou a ela se cercar de seus "camaradas" nazistas.
Durante a passagem pela prisão, reduzida graças à intervenção de seu marido junto ao governo indiano, ela se aproximou de uma ex-guarda do campo de concentração de Bergen-Belsen, condenada por crimes de guerra. "Uma mulher linda, uma ruiva mais ou menos da minha idade", descreveu.


A sexualidade de Savitri sempre foi objeto de especulações. Seu casamento com Asit Mukherjee era supostamente celibatário, uma vez que não pertenciam à mesma casta.
Já a nazista Françoise Dior, sobrinha do famoso estilista, assegura ter sido sua amante.

Morte e ressurreição

Perto do fim da vida, Savitri Devi voltou à Índia, onde parecia se sentir em casa. No país, ela se dedicou a cuidar dos gatos de sua vizinhança, em Deli, alimentando os felinos todas as manhãs com pão e leite. Saía sempre com joias de ouro, tradicionalmente usadas por mulheres hindus casadas.

Savitri morreu, no entanto, na Inglaterra, na casa de uma amiga, em 1982. Dizem que suas cinzas foram enterradas, com honrarias fascistas, junto às do líder nazista americano George Lincoln Rockwell.

E, embora na Índia seu nome tenha sido esquecido quase por completo, o nacionalismo hindu que ela abraçou e ajudou a promover está em alta, para preocupação de seu sobrinho, o jornalista veterano de esquerda Sumanta Banerjee.

"Em seu livro Uma advertência aos hindus , publicado em 1939, ela recomendava cultivar 'um espírito de resistência organizada'. O alvo dessa resistência eram os muçulmanos, que Savitri via como uma ameaça aos hindus. E esse mesmo temor está vivo hoje", explica Banerjee.

Além disso, a Hindutva também é a ideologia oficial do Bharatiya Janata, partido do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que defende que muçulmanos e secularistas enfraqueceram a nação hindu.

Os porta-vozes do partido de Modi condenam a violência, mas os protestos que causaram a destruição da mesquita Babri, em Ayodhya, em 1992, e a atual onda de ataques, às vezes fatais, contra os muçulmanos e opositores contam uma história diferente.

Já nos Estados Unidos, o racismo, o anticomunismo e a convicção dos cristãos fundamentalistas de que o apocalipse se aproxima também prepararam o terreno para o flerte da extrema direita com suas profecias ocultistas, que misturam hinduísmo e nazismo.

No país, como na Índia, o temor da maioria governista de perder o poder serviu como uma ferramenta efetiva de recrutamento.

"Desde meados do governo Obama, o fator mais importante na mente dos que se uniram ao Tea Party é a ideia de que os brancos estão perdendo privilégios", diz o pesquisador e escritor Chip Berlet, para quem isso ajudou a engrossar as fileiras da extrema direita e grupos supremacistas brancos.

As obras de Savitri Devi já fazem parte da história tanto do nacionalismo hindu quanto da extrema direita europeia e americana, uma vez que seus textos excêntricos contêm - sem filtros e sem censura - todas suas ideias-chave.

Ideias como a de que os humanos podem ser divididos em "raças" que devem permanecer separadas e que alguns grupos são superiores a outros e têm mais direitos. Em seus textos, ela defendeu ainda que "grupos superiores" estão sob ameaça e que o período de trevas em que vivemos só chegará ao fim quando eles recuperarem o poder, voltando à mítica era dourada.


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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

[POL] Alfred Rosenberg: A mente por trás de Hitler

Rodrigo Trespach


Em 1º de novembro de 1946, depois de 11 meses de processos, os 21 nazistas presos em Nuremberg, julgados por crimes contra a humanidade, crimes de guerra, participação nos preparativos de uma guerra de agressão e crimes contra a paz, recebem as sentenças. Apenas três são absolvidos. Entre os condenados pelo Tribunal Militar Internacional está Alfred Rosenberg. Recebendo seu veredito, o “ideólogo do nazismo” ouve através dos fones de ouvido o tradutor informar seu destino: morte por enforcamento.

Nos dias seguintes, recebe visitas da esposa e da filha de 16 anos. Declina dos serviços religiosos e, assim como os demais sentenciados à morte, é executado na madrugada do dia 16 de novembro, à 1h47. Depois de levado a Munique, seu corpo foi incinerado, e as cinzas, jogadas em um rio. Era o fim do hoje quase desconhecido homem que havia plantado e incutido o ódio racial aos judeus nos corações e mentes alemãs durante mais de duas décadas.

O estrangeiro

 Alfred Rosenberg nasceu em 12 de janeiro de 1893 em Reval, à época no Império Russo, hoje Tallin, capital da Estônia. Seu pai, Waldemar Wilhelm Rosenberg, era um rico comerciante, gerente da filial lituana de uma grande empresa alemã; a mãe, Elfriede Siré, era estoniana e morreu de tuberculose apenas dois meses após o parto do filho. Vivendo em uma região onde a maioria da população tinha origem eslava, a família fazia parte do que na época se denominava de “alemães étnicos”, ou seja, pessoas com ancestrais alemães, mas que haviam nascido ou se estabelecido fora das fronteiras do Império Alemão – mantendo, no entanto, os costumes e a língua. Os alemães étnicos dos Estados bálticos se ligavam à Alemanha desde o século 14, quando Reval fora uma importante cidade da Liga Hanseática – uma aliança mercantil constituída na Idade Média. Desde o início do século 18, no entanto, a região fazia parte do Império Russo.

O local de nascimento de Rosenberg tem um significado importante. Não que faltassem antissemitas na Alemanha – a palavra foi criada por um alemão, afinal, o anarquista Wilhelm Marr, para descrever a si próprio. Ele achava que os judeus e alemães viviam em guerra e que, com o capitalismo, os primeiros estavam ganhando. Mas o antissemitismo ideológico sempre foi um tanto marginal – desde 1871 os judeus alemães tinham igualdade perante as leis. A situação na Alemanha era considerada tão boa pelos judeus que os perseguidos de outros países buscavam refúgio lá – se o alemão médio tinha preconceito contra judeus, era contra esses recém-chegados, isolados da sociedade, não os altamente integrados judeus alemães.Prova disso é o alto status e influência de figuras como Freud (austríaco, mas para Hitler era uma só nação), Einstein e até políticos, como o prefeito de Berlin Fritz Elsas (1931-1933), destituído do cargo por Hitler. 

No Império Russo, porém, os termos eram outros. Judeus ainda viviam em guetos e, os pogroms – os linchamentos em massa – continuaram até a consolidação da União Soviética. Enquanto Rosenberg contagiava Hitler e os demais com seu ódio, judeus continuavam a ser massacrados na Ucrânia e na Bielorrússia. Entre 1918 e 1922, seriam 150 mil mortos – a maior matança antes da que Rosenberg ajudaria a causar. O último pogrom da Alemanha havia sido em 1812, movido pelo ódio à proteção aos judeus dada por Napoleão.

Embora Rosenberg pertencesse a uma família alemã (com estonianos, que são fínicos, não germânicos), o sobrenome soava judeu. Ao adotarem nomes alemães, eles usavam toponímicos como identificação (Rosenberg significa “Montanha das Rosas”). Isso causou embaraços. Quando Rosenberg se tornou conhecido, era motivo de escárnio por parte de seus rivais: um ariano antissemita com sobrenome judeu. Em 1930, ao discursar para o Reichstag, o Parlamento alemão, Rosenberg foi duramente vaiado: “Olha lá o judeu!”, gritaram. “Vejam só aquele nariz! Vá embora para a Palestina!” Em 1936, escrevendo sobre suas origens, o jornalista judeu Franz Szell também acusou Rosenberg de não ter uma só gota de sangue alemão, ele seria “letão, judeu, mongol e francês”.

Órfão de mãe, o pai também morreu cedo. E em 1910, aos 17 anos, ingressou no instituto técnico em Riga e seguiu o programa de arquitetura. Nas horas vagas, lia livros sobre mitologia germânica e islandesa, os Vedas indianos e os filósofos alemães Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer. Recebeu o apelido de “Filósofo”. Em uma viagem a São Petersburgo, na Rússia, onde viviam seus avós, conheceu sua futura esposa, Hilda Leesmann (1891-1928). Em 1915, Rosenberg casou, mas se divorciou em 1923 sem deixar filhos. Ele voltaria a casar em 1925, com Hedwig Kramer, e desta vez teve Irene, que sobreviveria à Guerra para nunca falar no pai.

A primeira esposa vivia doente, e a Primeira Guerra os separou. O instituto onde ele estudava foi evacuado para Moscou e lá ele realizou os exames finais enquanto a Revolução Bolchevique derrubava o regime czarista. Retornou à cidade natal e fez seu primeiro discurso antissemita em uma reunião da “Fraternidade dos Cabeças Pretas”. 

Em dezembro de 1918 chegou a Munique, na Alemanha. Seu objetivo era vender seus artigos sobre a Revolução Bolchevique e os males que o judaísmo e o marxismo causaram na Rússia. Lá conseguiu encontrar Dietrich Eckart (1868-1923), jornalista redator do jornal Auf Gut Deutsch (“Em Bom Alemão”). Teria dito a Eckart: “Você precisa de um guerreiro contra Jerusalém?”. Eckart era um antissemita notório, membro da secreta e esotérica Sociedade Thule e, juntamente com Gottfried Feder e Anton Drexler, fundador do Deutsche Arbeiterpartei, o Partido dos Trabalhadores Alemães – que mais tarde se tornaria Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, abreviado para NSDAP ou simplesmente Nazi.

Foi Eckart quem apresentou Rosenberg a Hitler, no final de 1919. Mais tarde ele anotaria sua impressão sobre o significado do encontro: “Mudou o meu destino pessoal e o fundiu ao destino da nação alemã como um todo”. Rosenberg se filiou ao novo partido logo em seguida, tornando-se um dos articulistas do jornal Völkischer Beobachter (“Observador do Povo”), transformado mais tarde no principal jornal do Partido Nazista. Até o final da Segunda Guerra, alcançaria uma tiragem diária de quase 2 milhões de exemplares. Em seu primeiro artigo, escreveu sobre o que se tornaria sua marca pessoal e a do nazismo, atacar a “revolução judia russa” da forma mais feroz, baixa e vil possível.

O "filósofo"

Dentro do Partido Nazista, Rosenberg transformou-se em um escritor extraordinariamente prolífero. Ele sozinho produziu mais escritos que todos os demais líderes nazistas juntos. Para Robert K. Wittman e David Kinney, autores do livro O Diário do Diabo, “o trabalho era sua vida”. 

Leitor voraz, passava horas estudando a história alemã, supervisionando o jornal antissemita pseudo-acadêmico Der Weltkampf (“A Luta Mundial”) e dirigindo a Nationalsozialistiche Monatshefte (“Revista Mensal Nacional-Socialista”), onde discorria sobre fundamentos ideológicos e teóricos do partido. Além disso, era o editor do Völkischer Beobachter. Rosenberg usou o jornal, que dirigiu de 1923 a 1938, para disseminar e tornar popular a ideologia nazista sobre a superioridade da “raça ariana” e a necessidade de um “espaço vital” para o povo alemão. Em suas páginas denunciava a fé judaica como “uma máscara para lograr o saqueio moral e econômico” e Javé como “o diabo, um assassino desde os primórdios, e mentiroso e pai dos mentirosos”. Tornou o “judaísmo internacional” como principal inimigo dos alemães e do Estado alemão, popularizou e tornou comum o ódio visceral aos judeus. 

O antissemitismo teórico e a ideologia partidária foram sistematizados em livros. O primeiro, A Marca do Judeu ao Longo da História, foi publicado em 1920. Seguiram-se Imoralidade no Talmude (1920), O Crime da Maçonaria (1921), O Sionismo como Inimigo do Estado (1922) e O Rumo Futuro da Política Externa Alemã (1927). Segundo os historiadores Jürgen Matthäus e Frank Bajohr, respectivamente diretor do Museu Memorial do Holocausto, nos Estados Unidos, e diretor do centro de estudos do Holocausto no Instituto de História Contemporânea de Munique, as ideias radicalmente antissemitas dos primeiros artigos e livros de Rosenberg influenciaram profundamente o programa do Partido Nazista e as ideias racistas de Hitler – elas aparecem expressas em Mein Kampf (“Minha Luta”), a obra do futuro ditador publicada em 1925.

Otto Strasser (1897-1974), um dissidente do nazismo, chegou mesmo a afirmar que Rosenberg era “certamente o cérebro por trás de Adolf Hitler”. Para Matthäus e Bajohr, a obsessão de Hitler em destruir a União Soviética vinha, ao menos em parte, da ideia de Rosenberg de que o bolchevismo era uma conspiração judaica internacional que tinha de ser detida a qualquer custo, antes que ela destruísse o mundo germânico. 

A obra máxima de Rosenberg surgiu em 1930. O Mito do Século XX vendeu mais de 1 milhão de exemplares, sendo considerado, junto com o livro de Hitler, uma das pedras angulares da ideologia nazista.

Escrito em um estilo truncado, obscuro e esotérico, quase incompreensível em muitas passagens, a obra não agradou a todos. Joseph Goebbels (1897-1945) o definiu como um “arroto ideológico”, e mesmo Hitler o achara “obtuso demais”. Ainda assim, transformou-se em uma espécie de manual, fonte de citações e definidor de conceitos apropriados ao programa nacional-socialista e foi incluído no currículo escolar e nos acervos de bibliotecas. Conforme Wittman e Kinney, “os professores deviam levar suas cópias aos cursos de doutrinamento. Os estudantes de direito deviam se familiarizar com seus ensinamentos. Os instrutores da Juventude Hitlerista utilizavam suas ideias nas aulas ideológicas”. O nazismo estava preparando as bases para o Holocausto.

Além de todas as publicações, Rosenberg ainda mantinha um diário. Encadernado em couro e com mais de 500 páginas soltas escritas entre 1934 e 1944, o documento foi encontrado em 1945 e usado durante seu julgamento em 1946. A documentação permaneceu desaparecida por quase 70 anos e só recentemente ganhou as livrarias. Organizados de forma sistemática por Matthäus e Bajohr, os escritos de Rosenberg foram publicados na integralidade pela primeira vez em 2015, no livro Os Diários de Alfred Rosenberg 1934-1944. 

Além de Rosenberg, apenas dois outros membros do Partido Nazista deixaram seus atos e pensamentos registrados em diários: o ministro de Propaganda Joseph Goebbels e o governador-geral da Polônia ocupada Hans Frank (1900-1946). Nenhum deles, no entanto, se deteve tanto em questões políticas e raciais, posicionamentos e opiniões sobre os mais diversos líderes nazistas e aliados quanto o “filósofo”. As anotações tomadas durante a ascensão e queda do Terceiro Reich de Hitler revelam o cotidiano, a burocracia e as entranhas da elite nazista durante os anos de poder. Não há quase nada sobre sua vida íntima, sobre a família ou qualquer outro assunto que não política, diplomacia internacional, a “questão judaica” e a guerra. Para Matthäus e Bajohr, “Rosenberg era inclinado à crueldade, à autocomiseração, e ao mesmo tipo de narcisismo que criticava nos rivais”. Adorava calúnias e “não tinha empatia pelo custo humano de sua ideologia rígida”. O próprio Hitler ficava surpreso com sua falta de humanidade.

Genealogia do ódio 

Apesar de sua imensa capacidade de escrever, Rosenberg não era um pensador original ou escritor com qualquer qualidade literária. Pelo contrário, seus textos eram confusos e sua ideologia reunia antigas ideias nacionalistas e altamente questionáveis em um sistema peculiar de crenças políticas quase religiosas. Todas as teorias racistas e preconceituosas pregadas pelo nazismo e organizadas por seu “filósofo” já haviam sido escritas nos dois séculos anteriores. 

O conceito de “ariano”, por exemplo, a mais popular expressão nazista de sua suposta superioridade racial, representada por homens fortes, louros de olhos azuis, surgiu com o filólogo William Jones, no século 18, mas estava ligado à origem linguística dos povos indo-europeus. O britânico notou semelhança entre o sânscrito falado na Índia e o grego e o latim, falados na Europa. Então, em 1786, ele denominou de “arya” – “nobre” em sânscrito – os povos que falavam essas línguas de origem comum, incluindo o inglês e o alemão. No século seguinte, o conceito foi distorcido e questões raciais passaram a ser o foco central de discussões.

Em 1853, o conde francês Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882) publicou o que se tornaria uma espécie de bíblia de nacionalistas e racistas. Seu livro Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas sustentava a ideia de que a História só poderia ser compreendida quando vista pela ótica racial. E que os brancos, sobretudo os “arianos”, seriam superiores e os únicos responsáveis pelas grandes realizações da civilização. Manter os arianos livres do sangue contaminador de outras raças seria, então, essencial para a manutenção dessa superioridade. 

A essa ideia sem qualquer fundamento científico – não existem raças em genética, mas um grande degradê de região para região – somaram-se outras, como a contida no livro do inglês Houston Stewart Chamberlain. Os Fundamentos do Século XIX, publicado em 1899, apontou o principal inimigo da raça superior: os “bastardos judeus”. Rosenberg afirmou mais tarde que o livro de Chamberlain era o “evangelho do movimento nazista”.

A ideia de que os judeus seriam culpados por tudo e de que haveria uma “raça superior” ganhou espaço e ares de ciência em uma Europa marcada por um antissemitismo de séculos. Universidades norte-americanas também propagavam a superioridade da raça branca diante de raças consideradas inferiores. Em 1903, surgiu na Rússia um texto intitulado Protocolos dos Sábios de Sião, suposto relatório de uma reunião secreta de líderes judeus que planejavam dominar o mundo articulando guerras e revoluções, o controle da economia e a disseminação do ateísmo e do liberalismo econômico.

O panfleto chegou à Alemanha em 1919, levado por russos anticomunistas. Já em 1921 o livro era tido como uma falsificação realizada por agentes da polícia secreta do czar, o que não impediu que Rosenberg publicasse em 1923 sua versão para os fatos. Em Os Protocolos dos Sábios de Sião e a Política Internacional Judaica o ideólogo “revelava” o plano judeu de dominação mundial que precisava ser detido. Para os historiadores Matthäus e Bajohr, a “aura sinistra” de Rosenberg criara um sistema dicotômico, entre “raça” e “contrarraça”, alemães/arianos versus judeus. Dentro dessa visão de mundo, os arianos seriam os verdadeiros “representantes da cultura”, enquanto os judeus eram os “destruidores”. Em O mito do século XX, Rosenberg defendeu a penalização da “profanação racial”, o que mais tarde, quando os nazistas tomaram o poder, tornou-se lei: os alemães “puros” não poderiam “infectar” o sangue ariano casando com judeus. A miscelânea de ideias de Rosenberg desencadeou o terror.

O fim

Em 1934, Hitler nomeou Rosenberg “encarregado do Führer para toda formação e educação ideológica do NSDAP”. Dentro do conceito nazista para questões “judaico-bolcheviques”, Rosenberg seria a principal referência e o consultor especial do líder nazista, mas nunca atuaria de forma direta na política externa do partido. Apenas quando a Alemanha se preparava para invadir a União Soviética, em 1941, ele se tornou “encarregado da administração central das questões de espaço da Europa Oriental”. E somente após a invasão e ocupação dos países do Leste Europeu, Rosenberg finalmente foi nomeado “ministro do Reich para os Territórios Orientais Ocupados”.

Matthäus e Bajohr destacaram que ele foi “o principal responsável por uma política que converteu a estratégia alemã da ‘guerra de extermínio’ no front em cotidiano da ocupação, com consequências fatais para os afetados”. Nos países do Leste Europeu, “o espaço vital”, os nazistas cometeram assassinatos em massa de judeus, comunistas e minorias étnicas. A Polônia foi a primeira vítima. Mais tarde o terror se alastrou ainda mais para o leste. Hitler, falando a oficiais do Exército, afirmou que a campanha russa seria uma “guerra de aniquilação”; além do judeu, o bolchevismo, “o inimigo mortal do povo nacional-socialista alemão”, devia ser eliminado sem piedade. Tão logo teve início a invasão da União Soviética, a SS iniciou os programas de execução sumária da “intelligentsia judaico-bolchevique”.
Em meio às atrocidades cometidas durante a ocupação da Europa, em 1943, ao completar 50 anos, Rosenberg foi saudado por Hitler como um dos “mais eminentes intelectuais que deram forma ao partido” e “uma das manifestações humanas mais nobres”.

Naquele mesmo ano o império de Hitler começou a ruir. Empurrada pelo Exército Vermelho, a Wehrmacht começou o longo caminho de volta das estepes russas até as fronteiras do Reich alemão. Dois anos depois, encurralado em Berlim, Hitler pôs fim à própria vida. Atrás de si, deixou um rastro de devastação e matança sem precedentes. A Alemanha, historicamente a terra de grandes pensadores, filósofos, cientistas, e artistas, lar de Beethoven, Einstein, Kant e Goethe, apresentara ao mundo sua face mais perniciosa, vil e sombria. A política de ódio que o nazismo levara ao mundo com base nas teorias de Rosenberg não poderia trazer outra coisa que não a destruição.

 Em 18 de maio de 1945, dez dias após a rendição incondicional da Alemanha Nazista, Rosenberg foi preso pelos Aliados no Hospital da Marinha em Flensburg-Mürwik, onde outros figurões nazistas haviam se escondido. De lá, foi enviado de carro para Kiel e, mais tarde, de avião para Luxemburgo, no Hotel Palace, a fim de esperar por seu julgamento. 

Encarcerado, um febril Rosenberg continuou a escrever sobre a “grandeza” das ideias nazistas. Afirmou que as gerações no futuro teriam vergonha de os terem acusado de “criminosos por acalentar o mais nobre dos pensamentos”. Aferrado até o final ao líder, escreveu: “Eu o venerava, e permaneço leal a ele até o fim”. Diferentemente de muitos dos seus colegas, como Hans Frank e Albert Speer, Rosenberg não se retratou nem aceitou que as ideias que havia disseminado por décadas haviam levado a Alemanha a cometer o ato mais torpe da História. Quando o alçapão se abriu sob seus pés, tinha a delirante ilusão de ter sido um gênio injustiçado.


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sexta-feira, 28 de julho de 2017

[PGM] Qual é a importância da Primeira Guerra Mundial para os dias de hoje?

Fábio Marton


Imagine uma tarde qualquer em Paris, Londres ou Berlim antes da Primeira Guerra, em 1913. Cavalos e carroças dividem a rua com bondes e poucos automóveis. Num café, homens leem jornais e discutem as novidades: aviões e corridas de carros. Desde a queda de Napoleão (quase 100 anos antes), a Europa inteira não se envolve numa guerra de grandes proporções. A África e boa parte da Ásia estão sob domínio dos europeus, e os colonizados são temas da arte moderna, para os quais crítica e público torcem o nariz. Moças em espartilhos e mangas até o punho jogam conversa fiada numa confeitaria, quem sabe sobre o voto feminino — que os homens consideram fútil. A tecnologia dava saltos, mas ainda se vivia sob valores da Era Vitoriana: o futuro seria a “marcha inexorável da civilização ocidental sobre a barbárie”. Essa era de certezas ganhou o nome de Belle Époque, a “bela época”.

Era um mundo no qual “todos sabiam o que glória e honra queriam dizer”, escreveu o historiador Paul Fussel, autor de The Great War and Modern Memory ("A Grande Guerra e a Memória Moderna", sem tradução). Uma sociedade despreparada para a escala e os métodos inéditos de matança, que incluíam metralhadoras, bombas dispensadas de aviões, torpedos de submarinos e, mais que tudo, o tédio aterrador das trincheiras. Com o conflito, seriam perdidas 17 milhões de vidas. “O grande edifício da civilização do século 19 foi demolido nas chamas da grande guerra, quando seus pilares desabaram”, afirmou o historiador Eric Hobsbawn. Para ele, a guerra marca o início do “Curto Século 20”: um período de incerteza violenta, no qual nenhum valor passaria sem ser contestado. Nas páginas a seguir, mostramos como vários aspectos do mundo atual surgiram dessa destruição.

Refresque a memória:

A Primeira Guerra (1914-1918) começa após o assassinato do herdeiro ao trono da Áustria-Hungria. A morte desencadeou uma série de declarações de guerra pautadas por uma política prévia de alianças militares. No lado vencedor, as principais nações eram Reino Unido, Rússia e França — e os EUA, que  entraram no final da guerra. No lado derrotado, os protagonistas eram Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano.


UNIÃO SOVIÉTICA > Como a Guerra ajudou a Revolução Comunista
Derrotas no conflito e falta de apoio popular para mais batalhas contra a revolução foram decisivos

Além de estratégias militares obsoletas — algo que tinha em comum com outros países —, a Rússia padecia do fato de ser um país agrário numa guerra industrial. Seus constantes fracassos no front levaram à imensa revolta que explodiu em fevereiro de 1917. O exército recusou-se a suprimir as manifestações, e o czar Nicolau II abdicou no mês seguinte.  Vladmir Lênin, exilado na Suíça após se envolver em uma revolta similar em 1905, voltou à Rússia em abril com um objetivo. Marxista não ortodoxo, acreditava que era possível se fazer uma revolução do proletariado num país onde os trabalhadores industriais eram minoria. Outros comunistas, incluindo o próprio Marx, achavam que a revolução só poderia acontecer num país capitalista avançado. Mas Lênin conseguiu: em novembro, com o apoio dos Guardas Vermelhos, trabalhadores armados e militares de baixa patente, ele derrubou o governo provisório criado com a queda do czar. Nascia o primeiro estado marxista da história.

A Grande Guerra foi essencial para o sucesso da experiência. Seriam cinco anos de guerra civil até que a resistência fosse contida. Os países capitalistas até tentaram intervir em favor dos russos anticomunistas, mandando mais de 100 mil soldados — mas não havia apoio popular para outra guerra, e eles acabaram se retirando. A União Soviética, assim, sobreviveria, espalhando o comunismo  e liderando um dos dois grandes blocos da divisão geopolítica do século 1920.

ESTADOS UNIDOS > O novo centro do capitalismo
Grande vencedor, país passou de devedor a credor dos europeus


A entrada dos EUA na Guerra foi tardia, mas com consequências imensas. Suas tropas só viram ação em outubro de 1917 e passaram de 1 milhão de soldados apenas no ano seguinte. No entanto, ao declarar guerra à Alemanha, em 6 de abril de 1917, o país quebrava uma tradição de distanciamento em assuntos europeus que vinha desde sua independência. Foi uma intervenção para, nas palavras do então presidente Woodrow Wilson, “tornar o mundo seguro para a democracia”. Ainda hoje, a política externa americana é, em boa parte, guiada por essas palavras. Além disso, a guerra mudou o centro financeiro mundial.

Ao final de 1917, os Estados Unidos haviam emprestado quase US$ 3 bilhões aos governos francês e britânico para a guerra. Passaram de devedores dos europeus a credores do resto do mundo."Como os vencedores europeus estavam profundamente endividados com os EUA, a capital mundial das finanças mudou de Londres para Wall Street", escreve a historiadora Sally Marks.

AERONAVES > Surge o avião como conhecemos
Os bombardeiros deram início ao transporte aéreo


Na prática, quando a Grande Guerra começou, a indústria aeronáutica europeia tinha apenas 6 anos. O Flyer III, dos Irmãos Wright, foi apresentado em 1908 em Paris, e dele nasceu a indústria. No início da guerra, os aviões eram usados apenas para reconhecimento, decolavam desarmados. Os primeiros “bombardeios” consistiram em pilotos carregando pequenas bombas no colo e as atirando com as mãos. Mas a tecnologia avançou muito durante o conflito.

Todo o tipo de configuração foi testado naqueles anos, num desfile de formas malucas que lembra o desenho em que Dick Vigarista perseguia o pombo (inspirado na guerra, aliás). Na tentativa e erro, a forma definitiva foi surgindo: motor na frente e estabilizadores atrás, ao contrário das  primeiras máquinas dos Irmãos Wright ou de Santos Dumont. A velocidade máxima das aeronaves passou de 150 km/h a 230 km/h e, em 1918, bombardeiros carregavam mais de dez vezes o peso de um avião de 1914.

Os grandes bombardeiros, alguns convertidos diretamente em aviões civis, seriam a origem do transporte aéreo. Na década seguinte surgiram os serviços de viagens, principalmente em hidroaviões, já que aeroportos eram raros. Também graças à Guerra, os serviços tinham boa oferta de mão de obra: os veteranos do conflito.

TANQUE > Primo do trator
Como o veículo militar mudou o jeito de fazer guerra e de conduzir  nossa agricultura



O nome “tanque” vem de uma contingência da guerra. Era um jeito de despistar os alemães sobre a real natureza do invento, tentando fazê-lo parecer inofensivo, como um tanque de água. O nome real não pegou: o Comitê de Navios Terrestres foi criado na Inglaterra em 1915, para solucionar o impasse das trincheiras. Resumidamente, o emprego de metralhadoras tornava qualquer avanço de infantaria uma manobra suicida (veja abaixo). Estreando em setembro de 1916, o tanque britânico Mark I foi o primeiro da história. Passava por cima de arame farpado e das trincheiras, indo direto às metralhadoras, que destruía com seus canhões. Isso abria caminho para o avanço da infantaria. Os alemães mantiveram-se céticos e só produziram 20 unidades de seu único modelo, o A7V. Em 1918, pagaram com a derrota.
Uma consequência inesperada do veículo foi incentivar a indústria de tratores. As esteiras dos tanques foram copiadas de implementos agrícolas, mas esses só passariam a ser produzidos em grande número a partir da década de 20, quando a tecnologia, testada no combate, estava madura o suficiente. O trator foi um dos principais instrumentos da chamada Revolução Verde, que aumentou a produtividade e sextuplicou a produção de alimentos no século 20. Se você tem arroz no prato a um preço acessível, de certa forma, deve isso às trincheiras.

Adeus, pombo correio

No início da guerra pilotos recorriam a sinais com as asas ou as mãos, bilhetes jogados de aviões em latas ou sinalizadores (fogos de artifício) para transmitir mensagens. O rádio começou a ser usado em 1914 pelos britânicos, mas, como um aparelho completo não cabia no avião, era instalado apenas o emissor e o piloto mandava coordenadas das posições inimigas, sem receber retorno. Só em 1917 os americanos desenvolveram o rádio de avião, mas poucos puderam ser instalados antes do final do conflito. Esse invento — e a experiência em coordenar um grande número de voos — daria origem ao controle de tráfego aéreo, já no início dos anos 1920.

SUBMARINO > Viagem ao fundo do mar
Avanço militar é relacionado a plataformas de petróleo e sonar


O submarino dos aliados não passava de um veículo de patrulha costeira. O dos alemães era chamado de “navio submarino” (unterseeboot ou u-boat). Isso explica a diferença: apenas este avançava em águas profundas. Os u-boats ficavam invisíveis, emergindo, atacando, e submergindo para a fuga. Até a invenção das cargas de profundidade (bombas antissubmarino), em 1916, os aliados não tinham defesa contra eles. Foram mais de 5 mil navios afundados por torpedos durante a guerra — como os alemães não podiam enfrentar a marinha britânica na superfície, tentaram afundar qualquer navio (a maioria não-militar) que se aproximasse da Grã-Bretanha.

Os submarinos não são apenas um avanço militar. Seu desenvolvimento tornou possível que submersíveis passassem a explorar o fundo do mar. As plataformas de petróleo marítimas ou a exploração oceânica em águas profundas estão relacionadas a esse avanço. Outra criação crucial para a oceanografia também está relacionada aos submarinos: o sonar, a única forma de detectá-los, foi criado pouco antes da guerra e usado já em 1914 para mapear o fundo do oceano. O equilíbrio político durante a Guerra Fria também passou pela capacidade dos veículos: os submarinos nucleares eram uma garantia que, mesmo que uma das potências atacasse primeiro e destruísse todos os mísseis e aviões inimigos, ainda assim sofreria a retaliação atômica.

PROPAGANDA > A arte de demonizar
Têm início as campanhas para jogar a opinião pública contra inimigos do país


As potências centrais iniciaram a guerra, mas não cumpriam bem o papel de vilãs. Na América e Europa, havia muita simpatia por Alemanha e Áustria-Hungria. Embora fossem autoritários, os países não eram ditaduras e gozavam de liberdade de imprensa e grande prosperidade. A Alemanha foi o primeiro país a criar um sistema de seguridade social. Eram lugares vibrantes, sede de progresso científico e cultural. Basta lembrar que o cientista Albert Einstein era um filho do Império Alemão, e Freud, o pai da psicanálise, era austríaco.

Por isso foi necessário um grande esforço para reverter o respeito pelos germânicos da opinião pública. A Primeira Guerra viu a primeira ação massiva de propaganda governamental — no sentido estrito do termo, do governo tentando incutir ideias na população. Buscando recrutar soldados ou conseguir bancar investimentos para a guerra — os war bonds, títulos especiais que poderiam ser descontados anos depois —, a propaganda de ingleses, americanos e franceses transformaram os alemães em animais que pretendiam destruir a civilização. Os germânicos também aderiram à propaganda, em menor grau, geralmente com um tom mais defensivo, lembrando a hipocrisia da nação mais imperialista do mundo — o Reino Unido — posar como defensora da liberdade. Reflexos disso apareceram em governos totalitários ou democracias em guerra por todo o século 20 — como o notório “Brasil: Ame-o ou deixe-o” da época da ditadura militar.

COSTUMES > Depois do horror, a festa
Austeridade da Belle Époque e dos anos de guerra dá lugar a hedonismo e mina a repressão sexual

Bombas não destruíram apenas edifícios vitorianos, mas também o senso de decência da época. A geração dos sobreviventes e dos que eram muito jovens para lutar aderiu ao hedonismo. À austera moralidade da Belle Époque, seguiram-se os roaring twenties, os loucos anos 20, retratados em obras como O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald — ele mesmo, um veterano do confronto. Embalados a álcool (consumido ilegalmente nos EUA), jazz e carros velozes, os jovens passaram a experimentar a mais escandalosa invenção da época: o namoro. Antes, fazia-se a “corte”, com o rapaz se apresentando e pedindo aceitação da família da moça.  A crise dos anos 1930 e a ascensão do fascismo puseram fim à folia, mas a repressão sexual nunca voltaria a ser como antes, e cairia de vez durante a década de 1960.

ARTE > Modernismo vira mainstream
Horror da guerra ajuda a mudar a percepção sobre a arte

Quando Las Demoiselles d’Avignon foi exibida por Picasso em 1916, mesmo os amigos do artista a consideravam uma vergonha. Ao ver a exibição, um crítico parisiense comentou que “os cubistas não querem esperar até o fim da guerra para continuar seu ataque ao bom senso”. Ele não era exceção: o modernismo era visto como uma frivolidade de meia dúzia de malucos antes da Primeira Guerra. A brutalidade do conflito fez com que a violência se incorporasse à arte e tomasse o espaço antes dedicado a celebrar a beleza. Nos anos 1920, artistas como Picasso deixaram de ser malditos para se tornarem figuras centrais. “Para nossa preocupação com velocidade, novidade, fugacidade e o mundo interior – com a vida vivida, como diz o jargão, ‘na via expressa’ –, uma escala inteira de valores teve de ceder lugar e a Grande Guerra é o evento mais significativo nesse desenvolvimento”, afirma o historiador canadense Modris Eksteins em The Rites of Spring: The Great War and The Birth of Modern Age (sem tradução).


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