domingo, 10 de março de 2013

O Oscar cria a Lenda: O Prêmio de Argo e a Falha da Verdade

Nima Shirazi, 23/02/2013

 
Sinopse e detalhes

1979. O Irã está em ebulição, com a chegada ao poder do aiatolá Khomeini. Como o antigo xá ganhou asilo político nos Estados Unidos, que haviam apoiado seu governo de opressão ao povo iraniano, há nas ruas de Teerã diversos protestos contra os americanos. Um deles acontece em frente à embaixada do país, que acaba invadida. Seis diplomatas americanos conseguem escapar do local pouco antes da invasão, indo se refugiar na casa do embaixador canadense. Lá eles vivem durante meses, sob sigilo absoluto, enquanto a CIA busca um meio de retirá-los do país em segurança. A melhor opção é apresentada por Tony Mendez (Ben Affleck), um especialista em exfiltrações, que sugere que uma produção de Hollywood seja utilizada como fachada para a operação. Aproveitando o sucesso de filmes como "Guerra nas Estrelas" e "A Batalha do Planeta dos Macacos", a ideia é criar um filme falso, a ficção científica Argo, que usaria as paisagens desérticas do Irã como locação. O projeto segue adiante com a ajuda do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), que conhecem Ben como funciona Hollywood.


 

 
Um ano atrás, após seu belo drama iraniano, “Uma Separação”, ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o diretor/escritor Asghar Farhadi fez o melhor discurso de agradecimento da noite.

“Em uma época quando boatos de guerra, intimidação e agressão são trocados entre os políticos,” disse ele, o Irã finalmente foi agraciado por “sua cultura gloriosa, uma cultura rica e antiga que esteve escondida sob a poeira densa da política.” Farhadi dedicou o Oscar “às pessoas de meu país, um povo que respeita todas as culturas e civilizações e despreza a hostilidade e o ressentimento.”

Tal graça e eloquência não estiveram certamente presentes neste domingo, quando Ben Affleck, ladeado pelos seus co-produtores George Clooney e Grant Heslov, durante a entrega do Oscar de Melhor Filme, por sua homenagem altamente aclamada e decorada à CIA e à inocência americana, “Argo.”

Nos últimos doze meses, raramente passou uma semana sem que se proclamassem novas previsões de uma iminente arma nuclear iraniana e as ameaças constantes de um ataque militar americano ou israelense contra o Irã. Vem outubro de 2012, com o desafiador “Argo”, uma “estória real” descontextualizada, fictícia de proporções épicas, sujeitando as plateias a duas horas de vitimização americana e bárbaros barbudos, culminando em rolhas de champanhe estourando e bandeiras tremulando celebrando nosso heroísmo e triunfo e a frustração e derrota deles. Andrew O´Hehir, da revista Salon, corretamente descreveu o filme como “uma fábula propagandística”, explicando como muitos outros fizeram que essencialmente nenhum dos momentos marcantes do filme jamais ocorreu. O´Hehir sumariza desta forma:

“Os americanos nunca resistiram à ideia de ter uma equipe de filmagem, que é uma grande fonte de agitação no filme. (De fato, os próprios “convidados” escolheram a estória, de três opções oferecidas pela CIA.) Os americanos  não foram quase linchados por uma multidão de iranianos enlouquecidos no Grande Bazar de Teerã, porque eles não estavam lá. Não houve um cancelamento de último minuto, e então uma nova aprovação, dos bilhetes de passagem do grupo pela administração Carter. (A esposa do embaixador canadense Ken Taylor foi pessoalmente ao aeroporto e comprou os bilhetes de forma adiantada, para três voos longos.) O grupo não foi submetido a interrogação no aeroporto nem foram detidos no portão de embarque enquanto um membro da Guarda Revolucionária do Irã ligava para seu falso escritório em Burbank. Não houve uma fuga de último segundo no Aeroporto de Mehrabad, com militantes islâmicos barbudos atirando com seus Kalashnikovs contra os pneus de um avião comercial suíço.”

Um dos diplomatas presentes, Mark Lijek, notou que “a estória do filme falso da CIA nunca foi testado e, em certo sentido, era irrelevante para a fuga.” A partida dos seis americanos de Teerã foi, na verdade, comum e monótona. “Se fosse perguntado, diríamos que teríamos deixado Teerã quando fosse mais seguro,” relembrou Lijek, “mas ninguém jamais perguntou!... A verdade é que os funcionários da imigração raramente olharam para nós e seguimos o caminho burocrático normal. Pegamos o voo para Zurique e então fomos levados para a residência do embaixador em Berna. Foi desta forma.”

Além disso, Jimmy Carter reconheceu que “90% das contribuições para as ideias e realização do plano foram canadenses, enquanto que o filme dá crédito quase total à CIA... o personagem de Ben Affleck no filme esteve em Teerã somente um dia e meio e o herói verdadeiro, em minha opinião, foi Ken Taylor, que era o embaixador canadense que orquestrou o processo inteiro.”

O próprio Taylor recentemente lembrou que “Argo” fornece uma representação míope tanto dos iranianos quanto de sua revolução, ignorando seu “lado mais hospitaleiro e uma intenção de que eles estavam procurando por um certo grau de justiça e esperança e que tudo não foi apenas demonstração de violência gratuita. A coisa mais estranha é que o roteirista em Hollywood não tinha ideia do que ele estava falando.”

O´Hehir trabalha de forma perfeita com o verdadeiro crime do filme, sua exploração deliberada de “sua base histórica e seu modo de realismo detalhado para criar algo que é inteiramente fantasioso.” Não se trata apenas de uma coleção banal de cenas de ação conhecidas e diálogo expositivo,” mas “é também um filme de propaganda em seu sentido mais real, um que afirma ser inocente de toda ideologia.” Tal avaliação é confirmada pelos próprios comentários de Ben Affleck sobre o filme. Ao descrever “Argo” para Bill O´Reilly, Affleck jactou-se, “Você sabe, era uma grande estória. Resumindo, é um thriller. É na verdade uma comédia com a sátira de Hollywood. É um filme complicado sobre a CIA, um filme político. E tudo é verdade.” Ele disse à Rolling Stone que quando concebeu sua versão como diretor, ele sabia que “não tinha que manter absolutamente a integridade central e verdade da estória.”

“Não existe problema em embelezar, está tudo Ben em comprimir, desde que você não mude fundamentalmente a natureza da estória e do que aconteceu,” lembrou Affleck, indo mesmo longe ao dizer aos repórteres na estreia de Argo no Festival de Filme da BFI em Londres, “este filme é a respeito desta estória que aconteceu, e é verdade, e sofri ao contextualizá-lo e tentei ser imparcial de modo a ver os fatos de forma fria e realista.”

Em uma entrevista para o The Huffington Post, Affleck foi mais longe dizendo “Tentei fazer um filme que é absolutamente fatual. E esta é outra razão por que tentei ser tão verdadeiro quanto possível – porque não queria ser usado por qualquer um dos lados. Não queria ser politizado internacionalmente e domesticamente de uma maneira partisan. Queria apenas contar uma estória sobre os fatos como os compreendemos.”          

Para Affleck, estes fatos aparentemente não incluem compreender por que a Embaixada Americana em Teerã foi invadida e ocupada em 4 de novembro de 1979. “Não havia harmonia nem razão para esta ação,” insistiu Affleck, afirmando que o assalto “não era sobre nós,” isto é, o governo americano (apesar do fato de seu próprio filme ser introduzido por uma revisão transitória – apesar de frequentemente inexata – sobre a cumplicidade americana com a ditadura do Xá.)

Errado, Ben. Uma razão foi o medo de outro golpe de estado orquestrado pela CIA, como aquele perpetrado em 1953 a partir da mesma embaixada. Outra razão foi a admissão do Xá deposto nos EUA para tratamento médico e asilo ao invés de sua extradição ao Irã para enfrentar a acusação e julgamento por seus 25 anos de crimes contra o povo iraniano, financiados e apoiados pelo governo americano. Podemos não concordar com as razões, é claro, mas elas certamente existem.

Assim como George H. W. Bush uma vez disse após um navio de guerra da Marinha americana explodir um avião de passageiros no céu sobre o Golfo Pérsico, matando seus 290 civis iranianos, “Jamais me desculparei pelos EUA. Jamais. Não me importo o que os fatos sejam.” Affleck parece estar inclinado a concordar.

Se nada mais, “Argo” é um exercício no excepcionalismo americano – talvez a mais perigosa ficção que permeia nossa sociedade inteira e senso de identidade. (N. do T.: O “excepcionalismo Americano” é uma ideia que defende os EUA como o “Império da Liberdade” e que presume que os valores, o sistema político e a história americanas são únicos e merecedores de admiração universal. Eles também implicam que os Estados Unidos está destinado e designado a ter um papel distinto e positivo no cenário mundial.) Ele reinventa a história no sentido de criar um conto de triunfo a partir de uma derrota não aceita. A crise dos reféns, que durou 444 dias e destruiu uma presidência americana, foi um fracasso e embaraço para os americanos. O governo e mídia dos EUA passaram as últimas três décadas procurando incansavelmente uma vingança contra o Irã pelo que aconteceu.

“Argo” representa os iranianos revolucionários como vítimas azaradas da astúcia e logro americanos. Americanos são caçados, torturados e, no final, demonstram coragem e conseguem a liberdade. Os iranianos são maníacos, ameaçadores e, no final, tornam-se infantis e são enganados. Os fundamentalistas fanáticos falham enquanto a América vence. EUA 1 x 0 Irã. Além disso, “Argo” esconde a verdade inconveniente que, enquanto aqueles seis diplomatas estavam embarcando para a Suíça em 28 de janeiro de 1980, seus 52 compatriotas tiveram que esperar um ano inteiro antes de voltar para casa, não como resultado de uma tentativa audaciosa de resgate, mas após um acordo diplomático ter sido alcançado.

Refletir sobre os episódios mais problemáticos da história americana é uma tradição dinâmica periódica. Há uma razão por que os melhores filmes sobre o Vietnã serem recheados de dor, ódio, angústia e crimes de guerra. Em contraste, “Argo” é uma catarse pornográfica americana; pura insolência hollywoodiana. É propaganda pró-americana desprovida de introspecção, pathos ou humildade e destina-se a aliviar nossos sentimentos feridos. Em “Argo”, nenhuma lição é aprendida ao revisitar as consequências do apoio americano da monarquia Pahlavi ou da criação e treinamento da SAVAK, a brutal polícia secreta do Xá.

Em 11 de junho de 1979, meses antes da crise dos reféns começar, o New York Times publicou um artigo pelo historiador A. J. Langguth que fez revelações de um antigo funcionário da inteligência americana lembrando a relação íntima da CIA com a SAVAK. A agência enviou “um membro para ensinar métodos de interrogação para a SAVAK” incluindo “instruções sobre tortura, cujas técnicas foram copiadas dos nazistas.” Langguth lutou contra a imprensa, tentando entender por que isto não havia sido amplamente divulgado pela mídia. Ele chegou à seguinte conclusão:

“Nós – e quero dizer nós como americanos – não acreditamos. Podemos ler as acusações, mesmo examinar as evidências e considerá-las irrefutáveis. Mas, em nossos corações, não acreditamos que os americanos tenham difundido o uso da tortura em outros lugares.”

Podemos acreditar que funcionários públicos com reputação de brilhantismo podem ser arrogantes, cegos ou estúpidos. Qualquer coisa menos mau. E quando provas acumulativas tornam-se evidentes que representantes da CIA ou da Agência para Desenvolvimento Internacional ensinaram de fato práticas de tortura, nós nos desculpamos vilificando os indivíduos.

Analogamente, numa época quando a CIA está bancando um programa de execução por drones ilegal, imoral e não-regulado, os sequestradores e torturadores da CIA da administração anterior são protegidos de processo judicial pela atual administração, e documentos do departamento de Estado vazados revelam ordens para diplomatas americanos espionarem funcionários das Nações Unidas, é surreal que tal homenagem seja feita à mesma organização pelos tais liberais da elite de Hollywood.

Ao ganhar seu Golden Globe de Melhor Diretor mês passado, Ben Affleck servilmente agradeceu ao “serviço clandestino assim como o serviço estrangeiro que está fazendo sacrifícios em nome do povo americano diariamente (e) nossas tropas servindo no estrangeiro, quero agradecê-los muito,” uma afirmação repetida quase identicamente pelo co-produtor Grant Heslov quando “Argo” ganhou mais tarde o prêmio de Melhor Drama.    

Isto não é surpresa, considerando que Affleck havia previamente descrito “Argo” como um tributo “às pessoas extraordinárias e honradas na CIA” durante uma entrevista ao Fox News.

A relação entre Hollywood e as forças militares e a inteligência do governo americano têm sido longamente aconchegantes. “Quando a CIA ou o Pentágono dizem, ‘Te ajudaremos, se você jogar conosco,’ está favorecendo um tipo de discurso em detrimento dos outros. Torna-se propaganda,” disse David Robb, autor de “Operação Hollywood: Como o Pentágono molda e censura os Filmes”, ao Los Angeles Times. “O perigo para os cineastas é que seu produto – entretenimento e informação – acaba se tornando publicidade governamental.”

Premiar “Argo” como Melhor Filme no Oscar foi como a premiação de Obama com o Nobel da Paz: um prêmio imerecido a um destinatário duvidoso com base em uma ficção transparente; um prêmio pelo que nunca foi e nunca seria e uma decisão deliberadamente ingênua e grotesca que desonra qualquer relevância e prestígio que os procedimentos ainda poderiam ter.

Assim, quando “Argo” recebeu a cobiçada estatueta dourada, tornou-se claro que ainda estamos cegos pela densa poeira da política e nosso mantra americano de hostilidade e ressentimento continuará a dirigir nossas decisões, conduzindo-nos cada vez mais próximo do abismo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Os Nazistas no Tibete: A Cruzada de Himmler

Em 1935, o Reichsführer SS Heinrich Himmler fundou uma organização chamada Sociedade da Herança Ancestral (Ahnenerbe) no sentido de descobrir o passado escondido de uma raça imaginária ariana que ele e algumas lideranças nazistas acreditavam ser a mais nobre e a maior força vital na história humana. O fato de nunca ter existido tal raça – na verdade, uma categoria filológica (grupo de línguas indo-germânicas) que foi transformada em “povo” – não era impedimento para alguém que acreditava que os Arianos foram colocados no mundo após trovões divinos romperem o gelo primordial no qual eles estavam presos.

A alegação de que o Sânscrito contém a maioria das línguas modernas chamou a atenção das mentes do século XIX em relação à área geral do norte da Índia e Tibete como o lar ancestral dos míticos arianos. Assim, uma das missões científicas que Himmler apoiou foi uma expedição multitarefas ao Tibete sob a liderança do ornitólogo Ernst Schäfer. Schäfer então recrutou um antropólogo, Bruno Beger, para medir narizes e crânios e produzir formas em gesso dos rostos; um geógrafo especializado em geomagnetismo terrestre, um botânico que também transportava uma câmera de mão e um assistente.

Ernst Schäfer, nascido em 1910, interrompeu seus estudos universitários em zoologia e geologia duas vezes. Em 1930, Brooke Dolan, um jovem milionário americano, chegou à Alemanha para recrutar cientistas para uma expedição zoológica ao Tibete que ele queria realizar. Apesar de ter somente 20 anos na época, Schäfer participou da primeira expedição Dolan para a China Ocidental e o Tibete oriental, antes de retornar à Alemanha em 1932 para concluir seus estudos. Em 1934, Schäfer novamente interrompeu seus estudos para liderar a segunda expedição de Dolan, no Tibete oriental e na China, patrocinada pela Academia de Ciências Naturais na Filadélfia; esta viagem foi concluída em 1936. A Academia reconheceu o grande sucesso científico de ambas as expedições mais de 50 anos depois em seu obituário de 1992 de Schäfer, o qual menciona que este e Dolan “coletaram dados científicos e espécimes dos mamíferos e aves da região que nunca foram igualados em tamanho e importância. Em reconhecimento às suas contribuições científicas, o Dr. Schäfer foi eleito para membro vitalício da Academia (já) em 1932.” Após seu retorno à Alemanha, ele concluiu seus estudos em Berlim e em 1937, sob a orientação de Erwin Stresemann, completou seu doutorado com uma tese, de escopo incompreendido na época, sobre a vida das aves no Tibete.

Esta era a primeira expedição científica alemã a receber um convite especial para Lhasa do governo Tibetano, e seus membros seriam permitidos permanecer na capital Tibetana por dois meses inteiros. Com a política restrita do governo Tibetano nos anos 1930 de recusar a entrada de estrangeiros, o convite por si só era uma sensação menor, gerando tensões adiante nas carregadas e complexas relações anglo-germânicas da época.

O Reichsführer SS Himmler tentava tirar proveito da reputação de Ernst Schäfer para a propaganda nazista e perguntou-lhe sobre seus planos futuros. Schäfer desejava que sua expedição estivesse sob o patrocínio do departamento cultural de assuntos estrangeiros da Fundação de Pesquisa Alemã (DFG, Deutsche Forschungsgemeinschaft) como indicado por seus pedidos. Himmler era fascinado por misticismo asiático e, portanto, desejava enviar tal expedição sob os auspícios da Ahnenerbe e desejava que Schäfer realizasse pesquisa baseada na teoria pseudocientífica de Hans Hörbiger da “Cosmogonia Glacial”. Schäfer tinha objetivos científicos e, assim, ele recusou-se a incluir Edmund Kiss, um adepto desta teoria, em sua equipe, e exigiu 12 condições para trabalhar com liberdade. Wolfram Sievers, da Ahnenerbe, expressou críticas em relação aos objetivos da expedição, de modo que a organização não iria dar apoio a ela. Himmler, por outro lado, aceitou que a expedição fosse formada desde que todos os seus membros se afiliassem à SS. Para evitar mais problemas, Schäfer entrou para essa organização.

Apesar de Himmler eventualmente aceitar os objetivos de Schäfer, um memorando de setembro de 1937 torna claro que a Ahnenerbe continuaria a exercer pressão na questão do recrutamento da expedição, exigindo que um geógrafo, um antropologista, um geólogo, um botânico, representante da Teoria da Cosmogonia Glacial, e um arqueólogo fossem incluídos. Entretanto, o nome oficial seria mudado de Ahnenerbe para Expedição Alemã-Tibetana Ernst Schäfer, sob o patrocínio do Reichsführer SS Himmler e em conexão com a Ahnenerbe.

Em dezembro de 1937, Schäfer submeteu um plano detalhado e definitivo à DFG, no qual ele ainda defendia que o destino da expedição seria o Tibete Oriental, com acesso a partir da China. Isto também incluía um programa antropológico realizado pelo antropólogo Bruno Berger, cujo programa era baseado em torno da questão se os indo-europeus poderiam ser originários da Ásia Central, uma ideia que era debatida há longo tempo além dos círculos nacional-socialistas. De fato, discussão internacional e interdisciplinar sobre este assunto continua até hoje.

O escritor britânico Christopher Hale afirma que ninguém pode inferir que Schäfer era independente da SS e foi capaz de fazer “ciência pura” simplesmente a partir de um papel timbrado que ele conseguiu para a expedição: para todos os efeitos e objetivos, a expedição permaneceu sob o patrocínio de Himmler e Schäfer não tinha nenhum interesse em perder o apoio do Reichsführer.
 
 

 De acordo com Hale, como Schäfer exigia mais de 60.000 Reichsmark para sua expedição e os cofres da SS estavam secos na época, ele foi obrigado a levantar fundos sozinho. De acordo com o pesquisador Irrun Engelhardt, a expedição não foi financiada pela Ahnenerbe. Schäfer levantou fundos onde 80% vieram do Conselho de Propaganda e Relações Públicas da Indústria, assim como de grandes empresas alemãs, da DFG e do milionário Dolan. O custo de equipagem da expedição foi RM 65.000 e a própria expedição custou outros RM 65.000, exceto o voo de volta, que foi financiado pela SS.

Em outras palavras, nem Himmler nem a Ahnenerbe financiaram diretamente a expedição, apesar de Schäfer continuar a receber apoio político de ambos. Ele estava bem ciente de sua dependência em relação a Himmler e foi forçado a aceitar vários compromissos no sentido de manter mais tarde a cooperação dos britânicos para obter passaportes e, especialmente, em procurar moeda estrangeira, o maior problema que enfrentou na época. Schäfer teve mesmo que se comprometer com o nome e o papel timbrado da expedição. Após sua chegada à Índia, este timbre causou consideráveis dificuldades a Schäfer com as autoridades britânicas, já que nos documentos poderia ficar claro que a missão era da SS, um órgão político e militar da Alemanha e não uma expedição puramente científica.

Schäfer recrutou jovens de boa forma física que estariam adaptados a uma viagem cansativa. Aos 24 anos, Karl Weinert (um assistente de Wilhelm Filchner, um famoso explorador) era o geólogo da equipe. Também com 24 anos, Edmund Geer foi selecionado como líder técnico para organizar a expedição. Um membro relativamente velho, de 38 anos, era Ernst Krause (não confundi-lo com o biólogo alemão homônimo) era o cineasta e entomologista (especialista em insetos). Bruno Berger era um especialista racial de 26 anos e estudante de Hans F. K. Günther, sendo também o antropólogo da equipe. O grupo de cinco pesquisadores pretendia entrar em contato com o Regente do Tibete e visitar as cidades sagradas Lhasa e Shigatse. Mesmo com as dificuldades da guerra, o grupo teve sucesso em estabelecer contato com as autoridades e povo tibetanos.

Os alemães coletaram tudo o que encontraram: milhares de artefatos, um grande número de plantas e animais, incluindo espécimes vivos. Eles enviaram os seres vivos, incluindo cães, felinos, lobos, raposas e peles de animais para a Alemanha. Os membros da expedição colheram uma grande quantidade de plantas, em particular centenas de variedades de cevada, trigo e aveia. As sementes foram mais tarde armazenadas no Instituto de Genética Vegetal da SS em Lannach, próximo a Graz, Áustria, um centro de pesquisas comandado pelo botânico membro da SS Heinz Brücker. Este esperava usar tanto a coleção do Tibete quanto a do Instituto Vaviley nos territórios orientais para selecionar plantas capazes de suportar o clima da Europa oriental – considerado na época parte do Lebensraum nazista.

Wienert acumulou quatro conjuntos de dados geomagnéticos. Krause estudou as vespas tibetanas. Schäfer observou os rituais tibetanos, inclusive as piras funerárias (onde conseguiu alguns crânios humanos). Eles tiraram fotos e filmaram a cultura local, notavelmente as espetaculares celebrações de Ano Novo, quando milhares de peregrinos chegavam a Lhasa. Bruno Berger registrou as medidas de 376 pessoas e fez matrizes de cabeças, faces, mãos e orelhas de 17 delas, assim como tirou as digitais e das mãos de outras 350. Para conduzir esta pesquisa, ele se passou como curandeiro para ganhar a confiança dos aristocratas tibetanos, receitando remédios para monges com doenças sexualmente transmissíveis.

Schäfer manteve notas meticulosas sobre os costumes religiosos e culturais dos tibetanos, de seus vários festivais budistas coloridos e das atitudes do povo em relação ao casamento, estupro, menstruação, nascimento, homossexualidade e masturbação. Em seu relato da homossexualidade, ele descreve detalhes da relação dos velhos lamas com meninos e como esse tipo de relação tinha importância na política local. Ele também descreve cuidadosamente a variedade de posições sexuais do povo himalaio.

Schäfer apresentou os resultados de sua expedição em 25 de julho de 1939 no Clube Himalaio de Calcutá. De lá, a expedição pegou um avião da British Airways para Bagdá, onde fizeram uma escala para Atenas via um Lufthansa JU 52. Em Atenas, um avião fretado pelo governo alemão os conduziu até sua casa.

Eles retornaram à Alemanha com uma edição completa do texto sagrado tibetano Kagyur (108 volumes), exemplos de Mandala, outros textos antigos e um documento supostamente detalhando a raça ariana. Estes documentos foram guardados nos arquivos da Ahnenerbe.

Assim, a coleção mais detalhada de objetos tibetanos etnológicos, agora no Museu Bávaro de Etnologia em Munique, vieram dos materiais da expedição de Schäfer. Pelo fato dos livros de Sch6afer sobre esta expedição jamais terem sido traduzidos para o inglês, a opinião pública ocidental foi informada pelas fontes disponíveis na Biblioteca Oficial da Índia em Londres e por Hugh Richardson, que estava a cargo da Missão Britânica em Lhasa na época da expedição. Isto acabou contribuindo com o legado duvidoso no mundo ocidental, enquanto que na Alemanha ele está quase esquecido. Somente na literatura popular científica e histórias de ocultismo a expedição é citada repetidamente, estabelecendo as conexões entre o Terceiro Reich e o Tibete, ou as relações ocultistas entre Hitler e o Tibete. A maioria das publicações mais recentes também cai nesta categoria, refletindo os preconceitos ideológicos e o sensacionalismo.

Uma descrição detalhada da expedição, inclusive com fotos, pode ser visto aqui:


Fotos da Expedição
 
 

 
Ernst Schäfer
 
 
 
 
 
 
 
Fortaleza de Yumbulagang
 
 
Estátua Budista Antiga encontrada por expedição nazista foi criada por meteorito de mil anos

Associated Press, 28/09/2012

 
Berlim – Uma estátua budista antiga que uma expedição nazista trouxe do Tibete um pouco antes da Segunda Guerra Mundial foi criada a partir de um meteorito que se chocou com a Terra milhares de anos atrás.

O que parece ser um roteiro de filme de Indiana Jones realmente aconteceu, de acordo com pesquisadores europeus que publicaram um artigo no jornal de Ciência Planetária e Meteorítica este mês.

Elmar Buchner, da Universidade de Stuttgart, disse na quinta-feira que a estátua foi trazida à Alemanha pela expedição Schäfer. A aventura financiada pelos nazistas foi até o Tibete em 1938 para encontrar as origens da raça ariana – um dos fundamentos da ideologia racista nazista.

A existência da estátua de 10,6 kg, conhecida como “homem de ferro”, foi somente revelada em 2007, quando seu proprietário morreu e ela foi para leilão, Buchner disse à Associated Press.
 
 

sábado, 2 de março de 2013

[SGM] A Crise de 1938 – O Caminho Torto para a Guerra

Ian Kershaw

The Guardian, 23/08/2008
 

 

Setenta anos atrás, a Europa foi lançada na crise mais profunda experimentada desde o fim da Primeira Guerra Mundial, pavimentando o caminho para a rápida descida em um novo e mesmo mais terrível conflito mundial. Poucos desenvolvimentos históricos foram mais pesquisados e reavaliados extensivamente do que os eventos críticos de 1938, e tem havido debates ferozes, em particular, sobre os objetivos de Hitler. Ele tinha um programa ideológico claro, um esquema consistentemente a ser seguido? Ou ele era um oportunista brutal e sem princípios, com um dom para a propaganda e gosto pelo poder, junto com um olho afiado para explorar a fraqueza das democracias ocidentais? Poderia ser a agressão alemã ser atribuída simplesmente à megalomania de Hitler ou ela representou forças enraizadas na sociedade, particularmente a força dos militares e dos grandes empresários? Hitler, em outras palavras, seguiu ou rompeu com os objetivos tradicionais da política externa alemã?

Os historiadores têm enfrentado estas questões ao longo dos anos. Mas eles gradualmente chegaram a algumas respostas claras. Atualmente, estamos aproveitando uma avalanche de grandes livros sobre o Terceiro Reich por historiadores britânicos e estes livros são notáveis não apenas porque refletem o fato que há agora geralmente – se não universalmente – aceitado conclusões sobre Hitler e o caminho para a guerra.

Um ponto de partida óbvio no debate é a publicação em 1961 de “As Origens da Segunda Guerra mundial”, de A. J. P. Taylor. Para Taylor, Hitler não era mais do que um oportunista, trabalhando sem qualquer plano ou programa além de noções vagas de expansão. Os vilões reais de Taylor eram os apaziguadores na Grã-Bretanha e na França cuja inércia política abriu a porta. Era uma interpretação dissidente, que foi calorosamente contestada. Hugh Trevor-Roper argumentou convincentemente que Hitler era um homem de idéias, apesar de serem repulsivas. Tim Mason, enfatizando as pressões econômicas surgindo com o expansionismo alemão que tornaram o caminho para a guerra inevitável, chegou próximo a dizer que Taylor não sabia do que estava falando. Na Alemanha, a interpretação de Taylor dificilmente foi levada a sério, mas a antítese de sua abordagem foi mais sincera em um trabalho que ainda forma o estudo mais fundamental da política externa alemã do pré-guerra, o fabuloso “A Política Externa da Alemanha de Hitler”, de Gerhard L. Weinberg, no qual o objetivo de dominação de Hitler é absolutamente central.

Recentemente, o aclamado estudo de Adam Tooze “The Wages of Destruction” (As Rendas da Destruição, em tradução livre) ofereceu uma nova abordagem – olhando na fraqueza econômica de longo prazo da Alemanha em relação aos EUA como a chave para a agressão alemã. Como um determinante da política externa do pré-guerra, Tooze talvez exagere a preocupação de Hitler com a ameaça da América. Mas ele acrescenta de forma bem sucedida as pressões econômicas crescentes sobre o regime nazista pelo impulso ideológico que produziu aquelas pressões. E ele é também um dos poucos historiadores a conectar a radicalização do antisemitismo com a proximidade crescente da guerra, assim como a tensão internacional crescente apoiou noções de uma “conspiração judaica mundial” por trás da política americana.

Jonathan Wright produziu o incisivo “A Alemanha e as Origens da Segunda Guerra Mundial”, enquanto que a política externa alemã é também explorada, como estrutura do regime nazista, no livro “O Terceiro Reich no Poder”, de Richard Evans, e, com particular foco  no papel de Hitler, em minha própria biografia do líder alemão.

Então, quais são as conclusões geralmente aceitas? Hitler não tinha um programa definido. Mas classificá-lo como um mero oportunista seria errado. Ele tinha um conjunto limitado, porém inflexível, de idéias que deu uma direção consistente à sua liderança. Seus caminhos paralelos, embutidos em um senso de raça como o determinante-chave na história, eram a “remoção” dos judeus e a expansão para o leste para conseguir terras para garantir o futuro da Alemanha. Ambos imprecisos, os objetivos distantes serviram, uma vez Hitler tomado o poder em janeiro de 1933, como guias para ação para cada detalhe do regime, sem nunca ter de ser explicitadas em termos de políticas evidentes. Muito foi adaptado para as circunstâncias rapidamente variáveis – mas dentro dos parâmetros incorporados à “visão” ideológica de Hitler.

Antes de 1938, não havia incompatibilidade entre os objetivos de longo prazo de Hitler e os interesses dos militares (e de outros membros da elite do poder) na construção da força armada alemã, renovação da força e robustez nacionais e na obtenção de lucros a serem conseguidos com a expansão da indústria de armamentos. Mas, como tornar-se-ia mais aparente de 1938 em diante, Hitler não seguiria apenas as linhas tradicionais da política alemã. A linha descartável característica de Taylor de que “nos assuntos internacionais não havia nada de errado com Hitler exceto o fato de que ele era alemão” (deixando de lado de que ele de fato era austríaco) é enganosa. Hitler de fato pôde ampliar as tradições expansionistas da elite de poder alemã. Mas sua liderança inatacável crescente e suas obsessões raciais distorceram aquelas tradições, levando então a política para território desconhecido à medida que a guerra progrediu – produzindo finalmente a ruína física e moral de seu país.

Se mesmo em retrospecto não tem sido fácil chegar a uma avaliação clara dos objetivos de Hitler, não é de se estranhar que os contemporâneos dentro e fora da Alemanha estejam incertos em como devem tratar com ele. O ano de 1938 marcou o auge das tentativas das democracias ocidentais em apaziguar Hitler. “Munique” ainda tem fama para a ignomínia que liga as tentativas de Chamberlain para saciar Hitler às custas da Tchecoslováquia. A reputação de Chamberlain não pode ser resgatada. Mas o reconhecimento dos graves erros de julgamento da política nos anos 1930 deve ser vistos sob a perspectiva das opções realistas abertas ao governo britânico na época.

A primeira crise de 1938, com a Áustria, surgiu tão repentinamente que a liderança nazista foi pega de surpresa. Ela foi iniciada pelo anúncio em 9 de março pelo chanceler austríaco Kurt von Schuschnigg que haveria um plebiscito três dias depois para determinar se a Áustria permaneceria um país independente. O resultado teria sido uma conclusão definitiva, mas o plebiscito jamais ocorreu. Irado pelo gesto de Schuschnigg, Hitler reagiu rapidamente. Em 11 de março, os austríacos foram ameaçados à submissão, Schuschnigg e o presidente, Wilhelm Miklas, forçados a renunciar. Lorde Halifax, o secretário do exterior britânico, disse a Schuschnigg que “o governo de sua majestade era incapaz de garantir proteção.”

O parceiro do Eixo de Hitler, a Itália, ofereceu apoio à anexação, garantindo expressões de gratidão por parte de Hitler. O homem de Hitler, Arthur Seyss-Inquart, foi colocado como novo chanceler. Mas mesmo com a Áustria sob controle nazista, Hitler ordenou que a Wehrmacht cruzasse a fronteira austríaca. Ele próprio seguiu naquele mesmo dia, 12 de março, desfilando vagarosamente através de uma multidão exultante antes de alcançar sua cidade natal de Linz.* Sob o impacto emocional de sua recepção tumultuada, Hitler decidiu que o mero status de satélite para a Áustria não era suficiente. Tinha que ser a incorporação total. Legislação para isto foi apressadamente elaborada em 13 de março. Antes da noite terminar, a Áustria havia se tornado uma mera província alemã. Um mês depois, em 12 de abril, em um plebiscito com resultado totalmente previsível para um regime ditatorial, 99% da população aprovou o Anschluss.

Apesar da crise do Anschluss ter surgido rapidamente e os nazistas tenham agido de maneira brutal  e improvisada, seria um erro compartilhar a visão de Taylor de que o modo pelo qual a Áustria caiu sob o controle alemão foi para Hitler “um acidente enfadonho, uma interrupção de sua política de longo prazo.” Ele foi de fato uma conseqüência direta dos objetivos ideológicos, estratégico-militares e econômicos interligados da política nazista que haviam sido desenvolvidos nos últimos cinco anos. O imperativo ideológico de expansão, necessitando de rápido rearmamento, que garantiu o apoio a Hitler na liderança militar e nos altos negócios, tornou a Áustria um alvo estratégico – mesmo independentemente do desejo de Hitler em unir sua pátria com o Reich e o crescente clamor pela união entre os simpatizantes nazistas austríacos (cerca de um terço da população). A velocidade do rearmamento tinha levado a graves gargalos econômicos. A Áustria oferecia depósitos desejados de minério de ferro, outras matérias-primas e mão de obra.

Não é de se estranhar que houvesse uma pressão crescente pela união política entre a Alemanha e a Áustria, que já era muito dependente economicamente do Reich. Na segunda metade de 1937, Hitler falou ameaçadoramente sobre agir logo contra a Áustria. E quando, em 12 de fevereiro de 1938, Hitler se encontrou com Schuschnigg, ele o intimidou por grandes concessões usando a influência alemã lá. Os planos para uma gradual absorção da Áustria pela Alemanha foram então colocados em risco pelo anúncio prematuro de Schuschnigg do plebiscito. A crise logo se seguiu. Mas foi uma crise que aguardava acontecer. Ela foi, de fato, provocada por Schuschnigg, ao invés de Hitler, como Taylor afirmou, mas somente no sentido de que um carro com a porta aberta pode estimular alguém a roubá-lo. A reação furiosa de Hitler ao movimento de Schuschnigg não deve ser tomada como evidência de que a crise não foi bem vinda ao ditador alemão. Pelo contrário: foi uma oportunidade que ele estava ávido em agarrar com as duas mãos.

Hitler sabia que sua ação seria engolida pelas potências ocidentais. Halifax já havia dado uma indicação disso quando ele se encontrou com Hitler em novembro último. Chamberlain certamente não gostava dos métodos brutais usados. Mas, falando diante do comitê de política externa do gabinete dois dias após o Anschluss, ele disse “ele não pensou que nada do que acontecera poderia provocar uma alteração por parte do governo de sua política atual” de buscar uma solução geral para os problemas da Europa através do apaziguamento da Alemanha. Ele estava, de fato, mais certo de que esta política era correta. O apaziguamento estava para ser submetida a um teste muito mais severo na crise tcheca que era grandemente esperada após o triunfo de Hitler na Áustria.

O controle alemão na Áustria deixou a Tchecoslováquia completamente exposta. E ela era muito mais importante do que a Áustria considerando-se os objetivos expansionistas alemães. Mas a agressão alemã estava carregada de perigo. Desde que a França tinha um tratado de segurança com a Tchecoslováquia no caso de uma agressão e a Grã-Bretanha era aliada da França, um ataque alemão significava um risco muito alto de uma guerra européia. A União Soviética, também, tinha obrigações diplomáticas com os tchecos e havia indicado seu desejo de ajudar os franceses.

Para Hitler, contudo, não havia como voltar atrás. Precisamente por causa das alianças entre os inimigos da Alemanha a leste e a oeste, não havia tempo a perder em destruir a Tchecoslováquia se suas intenções expansionistas deveriam ser realizadas. Economicamente também o país era uma alternativa tentadora, com sua forte base industrial, grandes fábricas de armamentos e importantes fontes de matérias primas. A poderosa minoria de três milhões de alemães étnicos nos Sudetos, adjacente à Alemanha, oferecia o pretexto para uma política alegadamente nacionalista publicamente direcionada para trazê-la “de volta para o Reich”. Ao longo do verão de 1938, Hitler forçou uma pressão sobre os tchecos. A guerra parecia ser iminente. Ma a maioria dos alemães estava horrorizada com a possibilidade de outro conflito apenas 20 anos após o final da Primeira Guerra Mundial. Relatórios internos falavam de uma “psicose de guerra” entre a população alemã. O exército estava dividido. O chefe do staff geral, Ludwig Beck, defendia uma parada coletiva pela liderança militar, mas foi deixado isolado e demitiu-se em agosto. Apesar de suas apreensões, a maioria dos generais permaneceu leal. Entretanto, pela primeira vez, houve traços de resistência entre indivíduos bem posicionados, e planos começaram a ser elaborados para depor Hitler no caso de um ataque contra a Tchecoslováquia.               

Provavelmente nada teria se materializado. Havia pontos fracos inevitáveis no planejamento clandestino, o mais óbvio sendo uma dependência na vontade do comandante-em-chefe do exército, Walter Von Brauchitsch para apoiar o golpe. Mas, de qualquer forma, as esperanças dos conspiradores foram destruídas por Chamberlain. Casado com sua política de acalmar Hitler e determinado a salvar a paz européia, Chamberlain embarcou desesperadamente na diplomacia de estrada, voando em 15 de setembro para visitar Hitler em Berchtesgaden, então uma semana depois em Bad Godesberg. O ditador alemão simplesmente aumentou suas exigências. Mesmo agora, Chamberlain foi persuadido de que Hitler estava dizendo a verdadeem querer não mais do que a “unidade racial” com os alemães sudetos. Mas seu apelo pessoal a Hitler caiu em ouvidos surdos. A guerra parecia inevitável.

Então, o quase impossível aconteceu: Hitler recuou. A Grã-Bretanha, apoiada pela França, pressionou os tchecos na cessão da região dos Sudetos para a Alemanha. Mussolini interveio então, apelando para Hitler para uma postergação da mobilização e da aceitação de uma negociação em torno das linhas propostas pelos britânicos. Sendo efetivamente dado o que ele exigia, Hitler aceitou com má vontade. O resultado foi a dilaceração da Tchecoslováquia no acordo de Munique em 30 de setembro, decidida em uma conferência entre alemães, franceses, italianos e britânicos. Os próprios tchecos não estavam presentes à mutilação de seu país.      

Hitler queria a guerra para destruir a Tchecoslováquia completamente, não um acordo negociado para parte do país. Seus planos foram além da “volta ao lar” dos sudetos alemães. Mas quando a Grã-Bretanha e a França concordaram em lhe dar o que ele publicamente queria sem guerra ele não tinha pretexto para lutar. “Você não pode levar a cabo uma guerra mundial por causa de modalidades,” lembrou seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels.

Nascido da fraqueza, com recursos e compromissos militares (em diferentes partes do mundo) estendendo-se ao máximo, e programas de rearmamento (recusado até o final pelo Partido Trabalhista e liberais) ainda em seus estágios iniciais, o direcionamento de Chamberlain pelo apaziguamento era um resultado lógico dos anos de deriva, hesitação  e esperança para o melhor em política externa britânica, aliado a medos profundos de uma repetição de 1914-18. Seus chefes militares desaconselharam o caminho para a guerra. Os governantes não queriam lutar pela Tchecoslováquia. Apesar de seu grande exército, os franceses também não tinham desejo por uma luta: Verdun ainda estava freco em suas memórias. A Liga das Nações era, por volta desta época, mera figura decorativa, desprovida de credibilidade já que suas divisões internas e pusilanimidade haviam sido expostas após a invasão da Abissínia no outono de 1935.

E do outro lado do Atlântico, o militarmente fraco EUA** estava apenas saindo da confortável ilusão do isolacionismo e começando a mostrar preocupação sobre os desenvolvimentos na Europa. Ao saber que Chamberlain estava a caminho de Munique, onde uma vitória da ameaça alemã estava começando a surgir no horizonte, Roosevelt transmitiu a mensagem “Bom homem!” para o primeiro-ministro britânico.

No geral, Chamberlain estava estendendo a mão errada, e continuou agindo de forma ruim através de suas ideias enganosas sobre os objetivos de Hitler e sua extrema apatia em aplacar o ditador com concessões territoriais. A única esperança residia, como Churchill defendeu, em criar uma “grande aliança” com a União Soviética para deter e colocar pressão sobre Hitler. Chamberlain se opôs a isso. Uma antipatia ao comunismo certamente teve influência em sua decisão. Mas sua razão de estadista era a de que uma aliança da Grã-Bretanha, França e União Soviética, lembrando o alinhamento antes de 1914, garantiria que Hitler partiria para a guerra ao invés de afastá-lo do conflito. Ele estava provavelmente certo que isto teria sido visto como uma provocação a Hitler ao invés de uma intimidação.

De qualquer forma, a “grande aliança” tinha, na prática, pouco a oferecer. Apesar de Stalin afirmar que suas tropas estavam prontas para marchar se Hitler invadisse a Tchecoslováquia, o Exército Vermelho – devastado pelos recentes expurgos – teria sua passagem bloqueada pela Polônia e Romênia. No ocidente, a França estava procurando um jeito de honrar seu comprometimento com a Tchecoslováquia e a Grã-Bretanha não queria estar amarrada por sua aliança à França para lutar por um povo em “um país distante”, de quem “não sabemos nada”. Assim, Chamberlain tendo colocado suas cartas na mesa em Berchtesgaden e Bad Godesberg, foi forçado a se render – e com isso o destino da Tchecoslováquia – em Munique.

Aplausos vibrantes vieram de todos os lados do Parlamento quando Chamberlain anunciou que estava indo a Munique. Membros de todos os partidos estavam ansiosos em cumprimentar o primeiro-ministro, apesar de estar claro para todos que a viagem a Munique significava apenas uma coisa: a paz só poderia ser salva através do sacrifício dos tchecos. A alegria por ter preservado “paz para o nosso tempo”, que Chamberlain declarou a uma multidão delirante em seu retorno de Munique (ele recebeu 40.000 cartas de congratulações), evaporou quase que instantaneamente. Vergonha e humilhação nacional do que foi feito em nome da Grã-Bretanha substituiu a euforia. Por outro lado, muitos que escracharam Chamberlain após o evento haviam antes apoiado a política de apaziguamento.

Chamberlain estava apenas ganhando tempo, como ele ainda afirmava em 1940, quando permaneceu inflexível ao achar que havia feito a coisa certa? O que teria acontecido se a Grã-Bretanha tivesse ido à guerra pela Tchecoslováquia no outono de 1938? Nenhuma ajuda militar da Grã-Bretanha ou da França teria chegado à Tchecoslováquia. Provavelmente, as forças de Hitler teriam derrotado rapidamente os tchecos (como os jogos de guerra previram). A oposição interna na Alemanha não teria conseguido nada. Uma guerra silenciosa semelhante á que ocorreu em 1939 teria ocorrido um ano antes. É claro, as forças e defesas alemãs em 1938 não eram tão fortes quanto as que existiam na primavera de 1940. Em compensação, as forças britânicas na época eram proporcionalmente ainda mais fracas. Dada a pressão por agir, a fraqueza dos seus adversários e seu próprio temperamento, Hitler provavelmente teria invadido a França em 1939, o que teria necessitado um acordo (temporário) no leste com os poloneses ou os russos. Os franceses teriam caído assim como caíram em 1940.

Se Churchill tivesse assumido o cargo e fosse bem sucedido em alimentar o moral e coragem se a guerra tivesse começado um ano antes não pode, como todo o resto, ser sabido. Mas sem sua liderança, a Grã-Bretanha poderia ter sido tentada a buscar um acordo que teria deixado a Alemanha na ascendência na Europa. Quem sabe? O que deixou de acontecer está aberto somente ao reino da fantasia, não aos métodos de pesquisa histórica. Mas é pelo menos possível que a capitulação de Chamberlain em Munique provou ser ao final benéfica à Grã-Bretanha – mesmo que às custas dos tchecos e acabando com a ignomínia nacional.

Cada uma das crises na Áustria e na Tchecoslováquia tiveram um efeito crucial na política anti-judaica nazista e pavimentou o caminho para a terceira grande crise de 1938: “A Noite dos Cristais”. Apesar da política externa e da perseguição aos judeus serem geralmente tratados separadamente na literatura – “Anti-Semitismo no Terceiro Reich” de Hermann Graml (1992) e “A Alemanha Nazista e os Judeus” de Saul Friedländer (1997) serem um ponto de referência para o último caso – é importante reconhecer as conexões. Estas surgem claramente nos eventos envolvendo o pogrom nacional da noite de 9-10 de novembro de 1938.          
O pogrom não foi planejado. Entretanto, não foi um desenvolvimento acidental. A ocasião foi a execução de Ernst Von Rath em 7 de novembro por um jovem judeu na embaixada alemã em Paris. Goebbels, com a expressa aprovação de Hitler, aproveitou a oportunidade para liberar os radicais do partido através da Alemanha para dar vazão à “fúria popular” e promover a orgia de violência que destruiu sinagogas e outras propriedades, conduziu a surras brutais e morte de centenas de judeus, terminando com 30.000 judeus masculinos sendo presos e enviados a campos de concentração como chantagem para levantar dinheiro para eles pagarem para sua emigração. Legislação foi aprovada apressadamente para obrigar os judeus a ficar fora da economia e obter uma poderosa e cínica fiança por terem provocado a destruição de sua própria propriedade.

Violência anti-judaica cresceu durante meses antes do pogrom. Hitler deu sinal verde para uma nova onda de ataques contra os judeus em um discurso para o partido em setembro de 1937. Em seguida, foi iniciado o processo de “arianização” da economia, o qual foi acelerado em 1938 já que os grandes negócios alemães, ávidos em maximizar lucros com a indústria armamentista crescente, uniram-se ao governo na pressão para forçar os preocupados judeus a vender suas empresas a preços de banana. O assalto econômico sobre os judeus foi acompanhado por legislação discriminatória tornando os judeus párias vivendo à margem da sociedade. À medida que o ano progredia, ataques violentos contra os judeus, sua propriedade, negócios, sinagogas e cemitérios drasticamente foram intensificados. A crescente assertividade do regime teve sua influência. Assim aconteceu a radicalização da política anti-judaica que seguiu ao Anschluss.***

A selvageria sobre os judeus nas ruas de Viena imediatamente seguiu o Anschluss, libertando o espírito agressivo das hordas nazistas, sobrepujando mesmo o que aconteceu na própria Alemanha desde 1933. A violência fora de controle logo foi seguida de violência mais orquestrada através da expulsão nas mãos do homem cuja habilidade para forçar os judeus austríacos a irem embora estabeleceu a reputação que o tornaria o responsável pela “solução final”: Adolf Eichmann. Na Alemanha, ataques contra os judeus revelaram-se uma distração útil para as gangues nazistas em um verão de tensão sempre crescente. Então, o acordo de Munique deu um grande impulso à autoconfiança do regime. Por volta do outono, o clima anti-semita era extremamente ameaçador aos judeus. O barril de pólvora estava prestes a explodir. Só precisava de uma fagulha. Von Rath foi morto. A Noite dos Cristais seguiu-se.

Havia agora uma multidão para deixar o país, produzindo uma crise de refugiados. Cerca de 120.000 escaparam nos próximos meses. Mas a porta para a emigração estava apenas parcialmente aberta. As barreiras contra a aceitação de refugiados judeus, recentemente reforçadas na conferência internacional em Evian, na França, em julho de 1938, preveniu que muitos fossem embora. Chamberlain concordou em facilitar um pouco a admissão de refugiados judeus da Alemanha na Grã-Bretanha. Mas o apaziguamento estava somente temporariamente suspenso, não abandonado. Ele expressou esperança de que os “moderados” na Alemanha pudessem mesmo agora limitar Hitler.

Na própria Alemanha, a impopularidade, que penetrou fundo nos círculos nazistas, da violência do pogrom (embora não o objetivo de remover os judeus) significou que tal ultraje escancarado não seria tentado outra vez dentro do Reich. Algo muito mais sinistro aconteceu. Em janeiro de 1939, a responsabilidade por encontrar uma solução para a “Questão Judaica” (ainda nesta época através da emigração forçada) foi colocada nas mãos da polícia de segurança – abrindo caminho que terminaria nas câmaras de gás. Não havia nenhum tipo de pensamento em relação a câmaras de gás no final de 1938. Mas na fétida atmosfera anti-judaica antes e após o pogrom, noções de que a guerra seria uma prova final em relação aos judeus – vistos como os responsáveis pela derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e agora vistos como agentes malignos agitando por uma nova guerra – foram defendidas pelas lideranças nazistas. Estas marcas de uma mentalidade genocida encontraram sua expressão sincera na “profecia” fatal de Hitler feita durante um grande discurso ao Reichstag em 30 de janeiro de 1939 que “se os judeus financistas internacionais dentro e fora da Europa forem bem sucedidos em jogar as nações mais uma vez em uma guerra mundial, então o resultado não será a bolchevização da terra, e assim a vitória da judiaria, mas a aniquilação da raça judaica na Europa.”

No final de 1938, então, os objetivos irmãos do nazismo – expansão para ganhar a dominação da Europa e a “remoção” dos judeus – foram misturados na visão de uma guerra logo a ser lutada e a destruição dos judeus como uma consequência daquela guerra. Os apaziguadores, por meio da entrega da Tchecoslováquia em Munique, conseguiram uma pausa. Eles não tinham, mesmo agora, desistido. Somente quando, em março de 1939, Hitler rasgou o acordo de Munique e ocupou o que restou das terras tchecas, a venda caiu de seus olhos. Outra crise, agora sobre a Polônia, era inevitável, com a Grã-Bretanha e a França finalmente comprometidas com a ação no caso de uma agressão alemã. Hitler achou que as democracias ocidentais aceitariam dar Danzig como foi feito com os Sudetos. Desta vez ele estava errado. Desta vez haveria guerra.

Olhando de volta para 1938, vemos a “velha Europa” se aproximando de seu fim, antes da guerra a envolver e antes da entrada em cena das superpotências que determinariam o destino do pós-guerra do continente em ruínas. Não é uma visão bonita - uma Europa de nações amargamente concorrentes, dividida pelos confrontos antigos de dominação, agora acontecendo em uma época de hiper-nacionalismo com seu cortejo de ambições imperialistas, apoiado pelas tecnologias de guerra total e extermínio em massa.

           
Setenta anos depois, nossa atual Europa, com todas as suas falhas e faltas, fornece um contraste perfeito, de modo que não é difícil de ver o projeto europeu que nasceu das lições da Segunda Guerra Mundial e da visão ampla do pós-guerra dos estadistas alemães e franceses como uma estória de sucesso. O principal objetivo destes visionários do pós-guerra era prevenir as circunstâncias novamente de levar as nações europeias à guerra entre si. A antiga Iugoslávia dá um exemplo do que, há não muito tempo atrás, ainda era possível fora do sistema que se tornou a União Européia. Apesar de “1938” jamais ocorrer novamente, as crises pontuais moveram-se para outros lugares. Os perigos para a paz mundial são diferentes, mas ainda presentes. Chegando assim tão longe, a lógica sugere que precisamos olhar para um futuro no qual, sem qualquer perda da identidade nacional, uma voz europeia possa falar com mais força e urgentemente para os interesses de um continente unido ao invés da atual e persistente dissonância.


 
Notas:

* Logo após o fim da PGM, houve iniciativas por parte de alguns setores austríacos para um “Anschluss” com a Alemanha, ou seja, uma união, e não como o termo é empregado até hoje, como anexação. Um referendo de 1919 no Tirol, por exemplo, indicou 98% de aprovação a uma união com a Alemanha. A própria manifestação popular exaltando Hitler em sua chegada ao país é uma forma de mostrar o apoio a essa união.

** Quando a guerra na Europa começou em 1º. de setembro de 1939, com a invasão alemã da Polônia, o exército dos EUA era o 17º. Lugar em tamanho e poder de fogo entre os exércitos do mundo inteiro, logo atrás da Romênia. Ele tinha 190.000 soldados (cresceria para 8,3 milhões em 1945). Quando a mobilização começou em 1940, o exército tinha um corpo profissional de oficiais de apenas 14.000 membros. A idade média dos majores – um posto médio entre capitão e tenente-coronel – era de aproximadamente 48 anos; na Guarda nacional, quase ¼ dos tenentes tinha mais de 40 anos e os postos superiores eram dominados por apadrinhados políticos com incompetência militar certificada. Nenhum oficial em ação em 1941 havia comandado uma grande unidade maior do que uma divisão na Primeira Guerra Mundial. Na época de Pearl Harbor, em dezembro de 1941, somente uma divisão americana estava totalmente preparada.

Em relação à Marinha, a construção naval, especialmente de encouraçados, estava limitada pela Conferência Naval de Washington de 1921-22. A construção de porta-aviões foi acelerada após o New Deal (política econômica de Roosevelt no seu primeiro mandato), que forneceu os recursos para a construção do USS Yorktown e o USS Enterprise. Em 1936, com a construção do USS Wasp, a Marinha americana adquiriu uma frota de 165.000 toneladas. Contudo, ela transformou-se em uma força extraordinária nos anos precedentes à Segunda Guerra Mundial, com a produção de encouraçados em 1937.

*** A historiografia oficial geralmente se preocupa em descrever a perseguição aos judeus e as medidas anti-econômicas contra eles, como a expropriação de propriedades. Entretanto, é interessante saber qual a lógica por trás dessas medidas, já que da forma como são descritas parece que as autoridades nazistas o faziam apenas por fazer.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha estava quebrada e refém do pagamento maciço de indenização a outros países, estabelecido pelo Tratado de Versalhes. Em 1923, a situação na Alemanha tornou-se desesperada e a inflação atingiu níveis astronômicos. Em 1921, a taxa de câmbio era de 75 marcos para um dólar. Em 1924, a taxa passou a 5 trilhões de marcos para um dólar. Isto virtualmente destruiu a classe média alemã, reduzindo a poupança nos bancos a zero.

E aí entra a questão do enriquecimento dos judeus na Alemanha às custas do povo alemão. Segundo Arthur Bryant (“Unfinished Victory”, 1940), judeus na Alemanha quebrada faziam empréstimos pessoais ou junto a instituições fora da Alemanha, por exemplo, EUA, utilizando suas ligações devido à religião. Assim, um judeu nos EUA emprestava em dólar para o seu primo na Alemanha, e este convertia em marcos com um poder de compra extraordinário. E não restava outra alternativa aos alemães venderem a preço de banana suas propriedades, já que não havia dinheiro para manter as famílias. De acordo com Bryant, a investida judaica sobre os bens dos alemães foi tão grande que em 1938, após cinco anos de legislação anti-semita, eles ainda detinham 1/3 das propriedades no Reich.

Em seu livro “Hitler, os Alemães e a ‘Questão Judaica’”, a autora Sarah Gordon essencialmente confirma o que Bryant diz. De acordo com ela, os judeus nunca excederam 1% da população alemã entre 1871-1933, mas em 1923 Berlim possuía 150 bancos de propriedade de judeus contra 11 de não-judeus. Eles detinham 41% das siderúrgicas e 57% das indústrias metalúrgicas. Em 1928, 80% dos membros do mercado de ações eram judeus, sendo que 85% foram exonerados em 1933. Cerca de ¼ dos professores universitários e de ensino básico tinham ascendência judaica, assim como 75% dos advogados e médicos. Em 1931, 50% dos diretores de teatro na Alemanha eram judeus (80% em Berlim).  

Um dos objetivos de Hitler era destruir o Comunismo, um fato que lhe garantiu imenso ódio e animosidade entre organizações judaicas e meios de comunicação e políticos simpatizantes da causa marxista. De acordo com Chaim Bermant, um escritor judeu, apesar dos judeus formarem menos de 5% da população russa, em 1934 38,5% dos membros do aparato de segurança soviético tinham ascendência judaica. (Sever Plocker, http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3342999,00.html )

Evidentemente, esses fatos explicam o ódio dos nazistas contra a população judaica, mas não justificam as atrocidades cometidas contra este povo.