sexta-feira, 6 de abril de 2018

Ricardo Coração de Leão: O rei no campo de batalha



Quando O rei inglês Eduardo III declarou guerra ao monarca francês Filipe VI, em 1337, estava fazendo mais do que dar início à série de conflitos que seria chamada de Guerra dos Cem Anos. Ele sacramentava mais de 400 anos de ressentimentos entre França e Inglaterra. A guerra mais significativa do período medieval, que trouxe mudanças que vão desde as armas e estratégias de batalha até a estrutura socioeconômica feudal – propiciando o nascimento das nações europeias –, tem raízes em 911.

Foi nesse ano que, após várias batalhas contra a tribo viking do gigante Rollo, o rei francês Carlos, o Simples, entendeu que os bárbaros do norte queriam apenas um lugar para viver. Concedeu a eles um território, que ficou conhecido como Normandia. Em 150 anos, os normandos já haviam criado uma nação e ajudavam os ingleses do outro lado do canal contra outros vikings. Em 1066, os normandos se rebelaram e tomaram as ilhas sob o comando de Guilherme I, o Conquistador, autoproclamado rei da Inglaterra.

Por mais 150 anos, os anglo-normandos descendentes de Guilherme I reinaram tanto sobre a Normandia quanto sobre o solo inglês. Em 1216, porém, a Normandia voltou para mãos francesas, o que nunca mais seria esquecido pelos nobres ingleses. Começava aí uma disputa de direitos e brios nacionalistas que culminaria na Guerra dos 100 Anos – e, antes de ela começar, um nobre inglês seria o personagem principal da crise entre a Inglaterra e a França.

A mãe tenta derrubar o pai

 

A história de Ricardo Coração de Leão é intricada, porém fascinante. Seu pai, Henrique II, foi rei inglês. Coroado em 1154, em seus 35 anos de reinado englobou nacos da Escócia e da Irlanda, herdou as províncias de Anjou e Normandia e ainda conquistou o coração e as terras de Eleanor de Aquitânia, antes casada com o rei Luís VII da França.

Além de a bela rainha não ter deixado herdeiros ao rei francês, ainda levou seu dote, a Aquitânia (região do sudoeste da França), para as mãos de Henrique II. Terceiro filho do casal, Ricardo não tinha a menor perspectiva de se tornaria rei, mas tinha uma vantagem: era o predileto da mãe. Em 1173, ela traiu o marido como cérebro de uma conspiração que envolveu os três filhos mais velhos, Henrique, Ricardo e Geoffrey.

Eleanor queria derrubar o rei através de uma guerra civil. Não conseguiu. A rebelião destruiu a confiança de Henrique nos filhos, principalmente em Ricardo. O caçula, João, o único a não participar do plano, se tornou o favorito à sucessão. Eleanor terminou presa por ordem de Henrique.

Forte vínculo 

 

Foi nesse período que Ricardo desenvolveu um forte vínculo com o jovem Filipe Augusto, o herdeiro que sua mãe não dera a Luís VII. Filipe era filho de Luís VII com a terceira esposa dele, Adèle de Champagne. Foi assim que, apesar de inglês, o jovem Ricardo foi viver na França. Teve ironicamente uma educação francesa e cresceu aprendendo a chamar a França de lar. Essa amizade entre Filipe Augusto e Ricardo seria essencial em 1188, quando Henrique II tentou tomar a Aquitânia para o filho caçula, conhecido jocosamente como João sem Terras.

Ricardo, já um soldado e um nobre que sabia atuar como político, se aliou a Filipe com a promessa de lhe conceder a Normandia. Um ano depois, derrotado, Henrique II resignou-se e concedeu a Ricardo o título de herdeiro – e morreu meses depois. Um dos primeiros atos do novo rei inglês foi tirar sua mãe da prisão.

Ricardo não cumpriu a promessa com Filipe –  que nunca esqueceu o incidente. Em 1190, a convocação para libertar a Terra Santa de mãos muçulmanas na Terceira Cruzada juntou novamente Ricardo I, da Inglaterra, e o agora rei Filipe II, da França. A coragem do rei Ricardo como general nessa cruzada lhe valeu o título de Coração de Leão – mas ele ganhou também a fama de matador de árabes.

Filipe via algo a mais que a Terra Santa em jogo. A historiadora austríaca Ulrike Kessler diz que Filipe tentava “tanto selar a derrota de Ricardo quanto evitar seu retorno. Para ele, não havia motivo para tomar Jerusalém. Sabia que a vitória seria creditada somente a Ricardo”.

Castigo

 

Castigado pela disenteria, o monarca francês abandonou a cruzada. “Filipe era ardiloso. Ele iniciou a desconstrução do reino e da imagem de Ricardo assim que voltou à França”, afirma Paul Halsall, professor de história medieval da Universidade Fordham, em Nova York. Enquanto isso, a força de Eleanor de Aquitânia como regente começava a esmorecer diante do poder aliado de seu filho João sem Terras e de Filipe II.

No caminho de retorno da cruzada, Ricardo acabou capturado pelo duque Leopoldo V da Áustria, ficando prisioneiro do rei germânico Henrique VI. Ricardo só se libertou com o pagamento de 150 mil marcos, o equivalente a dois anos dos dividendos da coroa inglesa. Filipe e João se uniram para oferecer a mesma quantia para que Ricardo continuasse preso.

Não conseguiram deixá-lo encarcerado. De volta à Inglaterra, em 1194, Ricardo precisou apenas de algumas semanas para recuperar os castelos tomados por João. Dos dez anos de reinado, Ricardo não passou mais do que seis meses nas ilhas britânicas – estava sempre em combate. Em 1199, quando foi pessoalmente recuperar uma botija de ouro em uma rixa, levou uma flechada no ombro esquerdo de um jovem arqueiro de nome Peter Basil. Estava sem armadura e usava apenas capacete e escudo.

Morte

 

A falta de cuidados médicos condenou o rei guerreiro à morte aos 41 anos. Ricardo só teve tempo de ordenar a divisão de seu reino. Três quartos de suas terras ficariam para seu irmão João. O corpo embalsamado foi enterrado no Mosteiro de Fontevrauld, aos pés da tumba de seu pai. Para a Inglaterra, o Leão não deixou nada, mas os ingleses entoariam suas façanhas para aumentar o sentimento patriótico na guerra que viria depois contra os franceses – um conflito que teria como motivo as mesmas regiões disputadas entre Ricardo, João, sua mãe e Filipe.

A Guerra dos Cem Anos começou 123 anos após a morte de Coração de Leão. A lã inglesa foi o estopim. É que, por volta de 1320, a região de Flandres (atual Bélgica) era uma grande produtora de tecidos. Os comerciantes apoiavam os ingleses, de cuja lã dependiam.

Mas o território estava sob vassalagem francesa e, em 1329, o rei francês Filipe VI decidiu intervir, levando o inglês Eduardo III a suspender a venda de lã para a região e a retirar o juramento de fidelidade ao monarca – e ainda por cima exigir seu trono. Deu-se então o impasse que finalmente le-vou a Inglaterra, onde nasceu Ricardo Coração de Leão. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

[ARM] Destruição hi-tech: Tanques contemporâneos

Carlos Emilio Di Santis Junior

O termo “tanque de guerra”, que designa carros de combate, foi criado pelos ingleses em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, para esconder os planos de desenvolvimento desse tipo de arma que, na época, era uma novidade. Os protótipos dos veículos eram chamados de tanks, para causar a impressão de que se tratava de simples “caixas d·água”.

Os primeiros carros de combate apresentavam muitos problemas, como falhas mecânicas, baixa velocidade e facilidade de atolar nos terrenos. É certo, porém, que sua entrada nos campos de batalha mudaria por completo a forma como a guerra terrestre passou a ser travada desde então.

À medida que os problemas iniciais foram sendo solucionados, o tanque tornou-se mais rápido e potente. A evolução da eletrônica embarcada resultou em índices crescentes de precisão. Hoje, um tanque tem 90% de chance de acertar um outro tanque – mesmo em movimento – logo no primeiro tiro. Os veículos também adquiriram maior mobilidade, o que obrigou o desenvolvimento de armas capazes de destruí-los.

Assim, mísseis guiados começaram a aparecerem em campo, tornando-se um pesadelo para os tanques. Mas isso, por sua vez, levou ao aperfeiçoamento da blindagem. Ou seja, há um contínuo ciclo tecnológico entre os tanques e os sistemas antitanque.

Mísseis

Atualmente, os mísseis antitanque conseguem destruir qualquer modelo. A blindagem passiva, feita com materiais resistentes (como compostos de cerâmica), e a blindagem Chobham já não são capazes de resistir a mísseis pesados como o norte-americano Hellfire. As blindagens desse tipo tornaram-se bastante espessas, levando o peso dos tanques a níveis inaceitáveis – um tanque moderno chega a pesar nada menos que 60 toneladas.

Para superar esses armamentos sem aumentar muito o peso, criou-se nos anos 60 a chamada blindagem reativa, constituída de placas explosivas que detonam quando atingida, no sentido contrário ao curso do projétil, diminuindo em muito sua capacidade de penetração.

Hoje, os tanques mais modernos do mundo são fabricados pelos seguintes países: Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, França, Israel e Rússia. Veja a seguir uma descrição dos principais modelos.

Estados Unidos

O principal carro de combate (Main Battle Tank, MBT) dos americanos é o M-1 Abrams, produzido pela Chrysler. O M-1 está em sua versão A-2, que incorpora melhorias em seu sistema de mira computadorizada, blindagem e armamento. É demasiadamente grande e pesado, o que dificulta sua mobilidade. Apesar de os americanos possuírem uma logística espetacular, tiveram dificuldades para transportar seus tanques M-1 para os desertos do Oriente Médio e para os Bálcãs durante a operação da força aliada contra a antiga Iugoslávia. Embora a blindagem do M-1 seja do tipo Chobham, a versão A-2 tem sido reforçada também com blindagem reativa, dada a maior eficiência dos mísseis anticarro atuais.



Peso: 69 t
Altura: 2,4 m
Envergadura: 3,6 m
Comprimento: 7,9 m
Tripulação: 4
Armamento principal: Canhão M256 de 120 mm
Armamento secundário: 2 metralhadoras de 7,62 mm
Velocidade: 72 km/h
Autonomia: 500 km
Potência: 1 500 hp

Alemanha

O tanque atual é o Leopard 2 A-6. Essa versão tem melhorias notáveis, a começar pela nova torre, que é construída com ângulos para aumentar a resistência contra impactos diretos. O canhão é um Rheinmentall GmBH de 120 mm e 55 calibres. Como se pode esperar de um tanque moderno, o Leopard 2 tem um canhão estabilizado e um computador de controle de tiro, que permitem acertar os alvos em movimento no primeiro disparo. Sua blindagem, composta de cerâmica, aço de alta densidade e tungstênio, é bastante eficiente, mas inferior à blindagem Chobham. Uma característica marcante é sua velocidade(75 km/h), um dos melhores desempenhos do mundo.



Peso: 62 t
Altura: 3 m
Envergadura: 3,7 m
Comprimento: 7,7 m
Tripulação: 4
Armamento principal: Canhão L55 de 120 mm
Armamento secundário: 2 metralhadoras de 7,62 mm
Velocidade: 75 km/h
Autonomia: 500 km
Potência: 1 500 hp

Inglaterra

O tanque usado atualmente pelos ingleses é o Challenger 2, desenvolvido pela poderosa empresa Bristish Aerospace (BAE) Systems Land. O Challenger 2 usa uma blindagem Chobham de segunda geração e tem sua torre redesenhada para um perfil mais baixo. Pesa 62 toneladas, o que é uma desvantagem em cenários urbanos. Outro problema é a velocidade máxima, de 59 km/h. Atualmente, existem algumas unidades equipadas com blindagem reativa, notadamente os tanques que estão em serviço nos campos do Afeganistão. Uma característica interessante é a suspensão do tipo hidrogás variável de segunda geração, que proporciona maior conforto para a tripulação em terrenos acidentados.



Peso: 62,5 t
Altura: 3 m
Envergadura: 3,5 m
Comprimento: 8,3 m
Tripulação: 4
Armamento principal: Canhão L30 de 120 mm
Armamento secundário: 2 metralhadoras de 7,62 mm
Velocidade: 59 km/h
Autonomia: 450 km
Potência: 1 200 hp

França

Desde 1992, os franceses usam um dos tanques mais avançados do mundo, o Giat Leclerc. O principal destaque é um canhão de carregamento automático de 120 mm, modelo CN120-26. Esse sistema permitiu reduzir a tripulação para três pessoas, dispensando o soldado que faria o recarregamento manual. A blindagem do Leclerc é secreta, mas sabe-se que é modular, permitindo fácil substituição caso o tanque seja atingido e danificado. O Leclerc tem um sistema TIS de intercâmbio de dados que permite trocar informações com outros veículos e com o comando da missão, aumentando assim a consciência da situação. Tanque pesado (tem 56 toneladas), atinge a velocidade máxima de 70 km/h.



Peso: 56 t
Altura: 2,5 m
Envergadura: 3,6 m
Comprimento: 9,8 m
Tripulação: 3
Armamento principal: Canhão Giat de 120 mm
Armamento secundário: 1 metralhadora de 12,7 mm e 1 de 7,62 mm
Velocidade: 70 km/h
Autonomia: 500 km
Potência: 1 500 HP

Israel

O Exército de Israel, tradicional usuário de equipamentos estrangeiros, desenvolveu um carro de combate com características específicas para as condições do conflito em que opera. Assim surgiu o Merkava, o primeiro tanque de guerra desenvolvido pelo Exército israelense. Desde que entrou em operação, em 1979, ele sofreu diversas modernizações. Hoje as versões mais populares são a MK-3 e a MK-4, sendo o MK-4M Windbreaker o modelo utilizado desde 2011. O MK-4 é conhecido como um dos mais poderosos carros de combate do mundo. A blindagem é secreta e modular, mas, de acordo com especialistas, o tanque israelense está entre os mais resistentes de todos. Além disso, o Merkava tem uma peculiaridade que o torna ainda mais seguro para a tripulação: seu motor é montado na frente do veículo, o que garante uma proteção extra contra impactos frontais.



Peso: 65 t
Altura: 2,7 m
Envergadura:
Comprimento: 7,6 m
Tripulação: 6
Armamento principal: Um Canhão de 120mm L/44 
Armamento secundário: Uma metralhadora de 12,7 mm Browning M2 e duas metralhadoras M249 de 7,62 mm
Velocidade: 64 km
Autonomia: 500 km
Potência: 23 HP

Rússia

Tradicional fabricante de carros de combate, seu principal tanque em serviço é o T-90. Parece um tanque convencional, mas possui avançados sistemas de proteção, como um interferidor infravermelho com quatro receptores de alerta a laser que avisam a tripulação quando o carro está sendo iluminado por um designador de alvo a laser (o que significa que o tanque é um provável alvo de míssil). A blindagem é do tipo ERA reativa, que permite uma redução do peso do veículo sem deixar de proteger a tripulação. O T-90 pesa 46 toneladas, o que favorece sua velocidade, atingindo 65 km/h. Usa um sistema de carregamento automático do canhão que possibilita reduzir para três o número de tripulantes.



Peso: 46,5 t
Altura: 2,2 m
Envergadura: 3,8 m
Comprimento: 9,5 m
Tripulação: 3
Armamento principal: Canhão 2A46 de 125 mm
Armamento secundário: 1 metralhadora de 12,7 mm e 1 de 7,62 mm
Velocidade: 65 km/h
Autonomia: 500 km
Potência: 840 hp

http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/tanques-modernos.phtml#.WnuH_p3wbct

[SGM] Morte Branca: O maior sniper de todos os tempos


Paula Lepinski


Há 78 anos, cerca de 1,5 milhão de soldados soviéticos iniciaram um ataque às fronteiras da Finlândia. Era o início da Guerra Russo-Finlandesa, também conhecida como Guerra de Inverno (1939-1940). O conflito aconteceu no início da Segunda Guerra, logo após a assinatura do Pacto de Não-Agressão entre Alemanha e URSS e a invasão, conquista e repartição da Polônia por ambos os Estados.

Desconfiando das intenções da Alemanha - uma desconfiança que se mostraria justificável em 1941 -, o Kremlin tentou garantir que as tropas de Hitler fossem incapazes de tomar Leningrado (São Petersburgo). Buscou um acordo com o governo finlandês para anexar tanto as regiões fronteiriças quanto as ilhas do golfo da Finlândia, além de um contrato de 30 anos para instalar uma base naval soviética na Península de Hanko.

A recusa da Finlândia foi o casus belli para o ataque do Exército Vermelho em 30 de novembro de 1939. Em meio a esse confronto, surgiria um herói nacional. Um horripilante herói nacional.

Morte Branca

505 mortos. Esse é o total de baixas registradas e creditadas a Simo Hayha durante os três meses de conflito entre finlandeses e soviéticos, tornando-o o mais letal franco-atirador (ou sniper) de toda a História. Segundo documentos oficiais, foram 259 mortes por fuzil e 246 por armas automáticas.

Antes da guerra, Simo era fazendeiro e caçador. Em 1925, aos 20 anos, juntou-se à Guarda Branca, uma milícia paramilitar, e foi convocado para atuar como franco-atirador do Exército da Finlândia assim que os soviéticos iniciaram o ataque.

Enfrentando temperaturas entre −40 °C −20 °C e vestindo trajes brancos para se camuflar na neve, Simo usava um fuzil M/28-30 e uma metralhadora Suomi KP/-31 para abater soldados do Exército Vermelho. Preferia usar miras de ferro, que eram meras marcas no cano da arma, ao invés das mais modernas miras telescópicas, que podiam denunciar a sua posição ao refletir a luz do sol e obrigá-lo a se expor mais para acertar o alvo.

O grande matador

Outra tática sua era formar montes de neve à sua frente para ter maior camuflagem. Para evitar que a sua respiração quente contra o ar frio fosse vista pelos soviéticos, ele achou uma solução heterodoxa: metia um punhado de neve na boca antes de atirar.

Não demorou para que ficasse conhecido por Morte Branca. Tornou-se manchete dos jornais finlandeses como um mito heroico do país e quase uma assombração para os soviéticos - ainda que, obviamente, isso não tenha sido noticiado na Moscou de Stalin.

No dia 21 de dezembro de 1939, Simo matou 25 soldados russos, o que foi divulgado pelos veículos como “O presente de Natal de Simo Hayha para a Finlândia”.

Eventos tornaram a morte de Simo uma prioridade absoluta do Exército Vermelho. Em 6 de março de 1940, uma semana antes do fim da guerra, Simo foi atingido no rosto por uma tiro de munição explosiva.

Por sorte, sobreviveu. Mas metade da sua mandíbula foi comprometida.

Uma semana depois do ocorrido, o governo finlandês jogou a toalha. Não era possível um pequeno país como a Finlândia resistir ao peso da máquina soviética. A Finlândia assinou Tratado de Moscou no dia 12 de março de 1940, concedendo o território da Carélia Ocidental à URSS, e permitiu a construção da base naval soviética na Península de Hanko.

Relações perigosas

A União Soviética ganhou, mas pagou em sangue: para as 70 mil baixas finlandesas, entre as quais estavam 26 mil mortos, foram 363 mil soviéticas, com 128 mil mortos. Isso não fez bem à reputação do Exército Vermelho, e pesou na decisão de Hitler na hora de rasgar o acordo de paz e invadir a União Soviética em 1941.

Também influenciou a decisão alemã de se aproximar da Finlândia. Na guerra seguinte contra os soviéticos, os finlandeses contaram com o apoio dos nazistas. E perderam.

Porém, a reputação do herói nacional Simo Hayha foi poupada da aliança com o nazismo, cortesia do ferimento dado pelos soviéticos. Sem condições de lutar, o maior sniper de todos os tempos tornou-se caçador de alces e criador de cães.

Em 1998, ao ser perguntado sobre como ele se tornou o melhor atirador de elite que o mundo já tinha visto e se tinha arrependimentos, ele apenas respondeu: “Foi prática. Eu apenas cumpri o meu dever e o que me foi dito para fazer o melhor que eu pude”.

Delenda est Carthago

Patrícia Pereira


De um lado, Cartago, com sua poderosa frota de navios. De outro, Roma, com o mais forte exército de infantaria da época. Na disputa pelo domínio das rotas marítimas do Mediterrâneo, as duas potências enfrentaram-se ao longo de cem anos nas Guerras Púnicas (o nome vem de punici, ou “fenícios”, como os romanos se referiam aos cartagineses). Foram três guerras, todas vencidas por Roma. Mas, por ironia, Cartago conquistou importantes vitórias em terra, enquanto Roma se destacou em vários embates no mar.

Fundada por colonizadores fenícios no norte da África, na atual Tunísia, Cartago controlava o comércio no mar Tirreno, a parte norte do Mediterrâneo. Tudo corria bem até Roma começar a estender seus domínios por toda a Península Itálica. Cedo ou tarde, era inevitável um choque entre as duas potências. E isso aconteceu numa disputa pelo controle da Sicília, dando início à Primeira Guerra Púnica.

O conflito arrastou-se entre 264 e 241 a.C., em combates quase ininterruptos. As primeiras lutas foram em terra, com a vitória de Roma. Os romanos passaram a dominar quase toda a Sicília, mas Cartago ainda controlava o mar. Vieram então as batalhas marítimas, vencidas novamente pelos romanos, graças a uma tática inovadora. Roma não tinha frota nem muita experiência no mar, mas contava com um exército poderoso.


Então, na esquadra construída às pressas para as batalhas, equipou os navios com um dispositivo na proa que permitia que uma ponte fosse levantada e abaixada. Ela se enganchava ao navio inimigo e abria caminho para os legionários invadirem a embarcação rival. “Roma transformou um combate naval em luta de infantaria”, diz Norberto Luiz Guarinello, professor de História Antiga da Universidade de São Paulo (USP).

Encorajada por seus êxitos e disposta a pôr fim à guerra em um só golpe, Roma enviou um forte exército para a África, em 256 a.C. O plano era atacar de surpresa e tomar Cartago. Quase deu certo. Os 15 mil homens, comandados por Régulo, destruíram parte do território adversário e foram em direção à cidade. Mas Cartago, com o auxílio de um general espartano, Xantipo, e um corpo de mercenários, derrotou as tropas de Régulo.

Em 247 a.C., Amílcar Barca assumiu o comando das forças de Cartago e atacou cidades ao sul da Península Itálica. Roma teve de reconstruir sua frota, destruída numa tempestade, mas surpreendeu os cartagineses ao se recompor com 200 navios. Foi o suficiente para recuperar quase todas as posições na Sicília e assumir a supremacia do Mediterrâneo. A Cartago restou apenas assinar um tratado de paz.

Travessia dos Alpes

Com os recursos esgotados e sem o controle das rotas no Mediterrâneo, Cartago mudou de estratégia: voltou-se para a conquista da Península Ibérica, rica em minerais e com boa terra para a agricultura. Mas, por trás do desejo de reerguer sua economia, havia um plano: explorar os minerais que os ibéricos usavam para fabricar armas e, assim, turbinar seu arsenal.

A missão na Espanha foi confiada a Amílcar e, mais tarde, transferida a seu filho, Aníbal Barca. Ao assumir, em 221 a.C., ele começou de imediato a preparar uma nova guerra contra Roma. E para penetrar na Itália, o novo líder cartaginês utilizou uma inesperada rota de ataque. Em vez de seguir pelo mar, marchou pelos Pireneus com seus elefantes e 20 mil homens, entre mercenários e cavaleiros númidas. Atravessou os Alpes, combateu tribos que dominavam a cordilheira e chegou ao Vale do Pó com severas perdas. Mas chegou. “Roma piscou e as tropas de Cartago já estavam na Península Itálica”, diz Guarinello.

Uma após outra, as unidades romanas foram sendo derrotadas. Na batalha do lago Trasimeno, Aníbal criou uma armadilha espetacular: escondeu sua tropa em depressões cobertas pela névoa e atacou o exército romano de surpresa. As tropas inimigas, mais uma vez, foram destruídas.

Ao perder território e aliados, os romanos refugiaram-se nas montanhas, de onde passaram a fazer uma guerra de desgaste, com ataques a batalhões isolados e a divisões responsáveis pelo suprimento de armas e alimento. Os cartagineses dominavam a região, mas decidiram não avançar até Roma. Alguns historiadores, inclusive, apontam que o grande erro de Aníbal foi hesitar em atacar a capital, num momento em que os romanos estavam vulneráveis.

Depois de algum tempo de interrupção nos combates, Roma decidiu enfrentar Cartago e colocou em campo o maior exército de que dispusera até então. Foi na batalha de Canas, na Apúlia, em 216 a.C. Aníbal dispôs suas tropas de forma que o sol nascesse atrás de seus homens e ofuscasse os romanos. Além disso, agrupou a infantaria mais fraca no meio. A poderosa cavalaria númida ficou nos flancos da formação. Ao atacar, os romanos pareciam varrer o exército cartaginês. Mas caíram na armadilha de Aníbal: o centro cartaginês recuou, enquanto a cavalaria atacava a retaguarda romana. Prensados uns contra os outros, os romanos mal conseguiam sacar as espadas. Foi um massacre.

Depois da derrota, os romanos retomaram a tática de vencer pela exaustão. E conseguiram. Com muita tenacidade, venceram na Sicília e na Península Itálica. E deram o golpe final num contra-ataque: uma expedição liderada pelo general Cipião foi mandada à África para atacar Cartago. Aníbal teve de deixar a Itália com seu exército para defender a terra natal. Esse lance final da guerra começou em 204 a.C. e terminou dois anos depois, com a batalha de Zama, a primeira derrota de Aníbal. Ao selar a paz, Cartago pagou caro. Teve de destruir todos os seus navios de guerra.

Cartago destruída

Mesmo tendo perdido sua frota e suas feitorias comerciais no Mediterrâneo, a economia de Cartago dava sinais de recuperação. Do outro lado do mar, Roma temia a prosperidade da cidade rival. No Senado, Catão começava todos os seus discursos com a célebre frase: Delenda est Carthago (Cartago precisa ser destruída). Assim, sem pretexto algum, Roma desafiou novamente seus adversários para a guerra, em 149 a.C.

Os cartagineses haviam aceitado uma série de exigências para impedir o conflito, entre elas, a entrega de todas as armas e barcos. Só optaram pela guerra quando Roma exigiu que destruíssem a própria cidade, pedra por pedra, e se mudassem para uma região 15 quilômetros distante do mar. Aí não teve jeito. A Terceira Guerra Púnica tornou-se inevitável.

Cartago fechou suas muralhas, construiu armas às pressas e resistiu heroicamente durante quatro anos. Depois de lutar casa a casa, sua população percebeu que seria vencida e decidiu atear fogo à cidade. Os romanos tomaram a fortaleza e jogaram sal no solo, para que nada mais fosse cultivado. Os sobreviventes foram vendidos como escravos, e Cartago foi reduzida a província.


Há 33 anos, Roma e Cartago encerravam oficialmente as Guerras Púnicas

Paula Lepinski


As Guerras Púnicas (264 a.C. - 146 a.C.) foram um dos mais brutais confrontos da Antiguidade. Fundada pelos fenícios, Cartago, cidade-estado situada na atual Tunísia, por muito pouco não deu fim a Roma na segunda dessas guerras.

O terceiro e último confronto viria com o grito de guerra Delenda est Cartago ("Cartago deve ser destruída") e terminou com a aniquilação completa da civilização cartaginense. Eles foram apagados da história: a cidade foi queimada, o solo foi salgado e os romanos não deixaram sequer um livro em sua língua. Como não restou ninguém para assinar a rendição, ela não foi assinada. Ou não então: em 1985, 2131 anos depois do fim da guerra, a paz foi finalmente selada entre Roma e Cartago.

Não entre fenícios e romanos há muito relegados às páginas da História, claro.

Em 5 de fevereiro de 1985, um tratado de paz e um pacto de amizade e cooperação foram assinados por Ugo Vertere, então prefeito da Roma e Chedli Klibi, prefeito de Cartago, Tunísia. Essa é descendente da cidade feita pelos romanos sobre as ruínas da primeira Cartago, e depois conquistada por islâmicos, no século 7.


"O Mediterrâneo deve permanecer um porto seguro de paz e bem-estar", afirmou o então presidente da Tunísia, Habib Bourguiba.

(Que já era presidente há 28 anos e, dois depois, seria apeado do poder por ser considerado insano. Provavelmente sem relação nenhuma.)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

El Cid: A alma do cavaleiro

Carla Aranha


A vista era de tirar o fôlego. De um lado, o mar Mediterrâneo. De outro, o grande lago Albufera. No meio, os pomares e campos de arroz, os vinhedos e as oliveiras. O palácio real, com suas fontes e jardins, completava a paisagem. Do ponto mais alto da construção em estilo mouro, era possível abarcar todo o incrível cenário que fazia a fama da cidade de Valência. El Cid e sua esposa, Jimena, ficaram embasbacados quando chegaram lá, em 1094, para finalmente viver juntos em paz.

El Cid morreu cinco anos depois, com cerca de 50 anos – não exatamente velho, mas um feito para uma época em que as pestes e as guerras corriam soltas. Com o fim do homem, nasceria um dos maiores mitos da Idade Média: o do herói ibérico que venceu os muçulmanos em nome do cristianismo, com dedicação canina aos reis espanhóis. Essa versão se tornou extremamente popular – dando origem, por exemplo, a obras como o clássico filme El Cid, de 1961, com Charlton Heston e Sophia Loren.

É certo que Rodrigo Díaz de Vivar, o El Cid, foi um militar brilhante, que dificilmente perdia uma batalha. Antes de morrer, já havia se tornado famoso em toda a península Ibérica. Mas a lenda a respeito de Rodrigo esconde um traço fundamental de sua vida: por muito tempo, ele foi um mercenário, que lutou tanto ao lado dos cristãos como dos muçulmanos. “Hoje, a partir do estudo isento de documentos históricos, temos acesso a um El Cid bem diferente daquele da lenda”, diz o historiador espanhol Francisco Javier Villalba, da Universidade de Madri.

Terras divididas

Na Europa do século 11, o conceito de Estado nacional não existia. As terras do continente eram divididas em reinos que guerreavam constantemente entre si. No norte do que hoje são Espanha e Portugal, havia os territórios cristãos de Leão, Navarra, Castela, Aragão e Galícia. Já o sul, chamado de Andaluzia, era controlado por muçulmanos, que haviam chegado à península Ibérica numa maciça invasão árabe no século 8. Nessa terra dividida, conflitos armados eram o estado natural das coisas.

Os principados da Andaluzia eram chamados de taifas. Seus habitantes, os mouros, eram hábeis agricultores e artesãos. A região prosperava e seus líderes tinham dinheiro para pagar por proteção. O esquema funcionava assim: cada reino cristão coletava impostos anuais de algumas taifas, sob a condição de enviar exércitos para protegê-las quando necessário. O inverso também era verdadeiro. Se os cristãos precisavam, os aliados muçulmanos vinham em seu socorro.

Esse clima de guerra constante era bem conhecido na família de Rodrigo Díaz. De origem nobre, ele nasceu em Vivar, um povoado no reino de Castela, por volta de 1043. O pai, o soldado Diego Laínez, ajudara a conquistar terras da região vizinha de Navarra. As boas relações familiares permitiram que o jovem Rodrigo fosse educado na casa onde morava Sancho, filho de Fernando I, rei de Castela, Leão e Galícia. É provável que, depois disso, Rodrigo tenha estudado em uma escola próxima à cidade de Burgos, onde aprendeu noções de direito e latim.

O treinamento militar era fundamental na educação dos nobres – a classe social de onde saíam os cavaleiros medievais. Ainda jovem, Rodrigo aprendeu a cavalgar e a manejar com maestria o escudo, a lança, a espada e o arco e flecha. E as armas da cavalaria ibérica: a lança e o dardo.

A lança e a lei

Com cerca de 20 anos, Rodrigo entrou para valer na violenta política ibérica. Ele ainda era um aprendiz de cavaleiro quando rumou com seu parceiro Sancho e as forças de Castela para Graus, nas montanhas dos Pirineus. A cidade era controlada por um aliado dos castelhanos, o mouro al-Muqtadir, governante de Zaragoza. Ao mesmo tempo, era cobiçada pelo reino de Aragão.

Quando os aragoneses atacaram Graus, em 1063, o exército de Castela impediu que ela fosse tomada. Os detalhes da sangrenta batalha se perderam no tempo, mas sabe-se que Rodrigo lutou sozinho contra guerreiros bem mais experientes. Jimeno Garcés, famoso mercenário de Navarra, foi morto pelas mãos do aprendiz.

Dois anos após a vitória em Graus, o rei Fernando I morreu. Suas posses foram divididas entre os três filhos. O caçula García passou a governar a Galícia, enquanto Afonso ficou com o reino de Leão. Sancho, o mais velho, herdou Castela. Seu leal amigo Rodrigo, que a essa altura já havia sido ordenado cavaleiro, foi promovido a comandante de toda a milícia castelhana. Não tinha mais que 23 anos.

Os herdeiros de Fernando I não demoraram a entrar em conflito. Em 1068, eclodiu uma guerra entre Castela e Leão. Liderados por Rodrigo, os castelhanos saíram vitoriosos. Quatro anos depois, a briga se repetiria, com nova vitória de Castela. Sancho passou a reinar também sobre Leão, enquanto o derrotado Afonso partiu para o exílio.

Mas o reinado duplo de Sancho durou poucos meses. Em 7 de outubro de 1072, ele foi assassinado. “É provável que ele tenha sido vítima de um complô armado pelos reinos rivais”, diz o historiador espanhol Manuel García Fernández, da Universidade de Sevilha.

Com a morte de Sancho, seu irmão retornou e foi coroado rei de Castela e Leão, ostentando o nome Afonso VI. Mas o que fazer com Rodrigo, homem de confiança do monarca morto? Ele foi destituído do comando do Exército, mas Afonso VI decidiu mantê-lo na corte. Em vez da lança e do escudo, o guerreiro passou a usar seus conhecimentos jurídicos.

Como emissário real, ele viajava para julgar casos de conflito agrário ou disputas por monastérios. Não se sabe se Rodrigo preferia a burocracia à tensão da guerra, mas ele se saía muito bem como juiz. Em gratidão, o rei lhe arranjou um bom casamento. Por volta de 1076, Rodrigo desposou Jimena, filha do conde Diego de Oviedo. Mas as intrigas ibéricas logo trariam Rodrigo de volta ao campo de batalha.

O mercenário

Por volta de 1079, o juiz Rodrigo e sua comitiva foram mandados por Afonso VI à taifa de Sevilha, aliada de Castela e Leão, para coletar o imposto anual de proteção. Com o mesmo objetivo, o rei havia enviado outra missão para a taifa de Granada. Apesar de serem aliadas do mesmo monarca cristão, as duas cidades muçulmanas tinham uma rixa entre si. Abd Allah, governante de Granada, aproveitou o momento para atacar Sevilha.

Para honrar o acordo de proteção, os emissários castelhanos que estavam em Granada tiveram que participar do ataque. Quando Sevilha se viu ameaçada, exigiu a ajuda de Rodrigo e seus homens. Por mais incrível que possa parecer, as duas comitivas do mesmo rei cristão tiveram que lutar em lados diferentes de uma batalha entre muçulmanos. “Nesse tipo de situação, não havia muito a fazer”, diz a historiadora Maria Ruiz, da Universidade de Sevilha. “Era preciso seguir as regras do jogo e obedecer a vontade da taifa protegida” complementa.

A habilidade de Rodrigo fez a diferença para os sevilhanos. As forças de Granada foram facilmente derrotadas e o cavaleiro fez diversos prisioneiros. Entre os cristãos detidos estavam alguns ilustres homens de Castela, que não receberam tratamento privilegiado. Eles foram soltos logo depois, mas se tornaram ferrenhos opositores de Rodrigo. Apesar de ser leal ao rei, ele não se preocupava em adular a nobreza. “Ao contrário do que reza a lenda, ele era voluntarioso e fez inimizades sérias”, afirma Manuel Fernández.

Dois anos depois da vitória em Sevilha, Rodrigo pagaria caro por sua impulsividade. Um grupo de bandidos vindo de Toledo saqueou o palácio de Gomaz, em Castela. Enfurecido, o cavaleiro decidiu partir para a vingança – é possível que ele tivesse terras na região atacada. A essa altura, Rodrigo já tinha um pequeno exército particular, que incluía militares castelhanos e mercenários. À frente dele, invadiu e arrasou Toledo.

Sem consentimento

Mas Rodrigo fez tudo isso sem pedir o consentimento de Afonso VI. Como se não bastasse, Toledo era uma taifa sob a proteção de Castela. Os inimigos de Rodrigo nem precisaram se esforçar para fazer com que ele fosse banido do reino. Desempregado e sem pátria, o cavaleiro deixou seus familiares em Castela e partiu para a segunda e menos famosa fase de sua vida: a de mercenário. O primeiro nobre a quem Rodrigo ofereceu seus préstimos foi o conde de Barcelona, Berenguer Ramón II. Nada feito.

O cavaleiro partiu então para negociar com os muçulmanos. Al-Muqtadir, governante de Zaragoza, recebeu Rodrigo de braços abertos. “Era comum mudar de lado naquela época. O que não faltava na Europa eram soldados mercenários que lutavam por quem pagasse mais”, diz Maria Ruiz.

Em 1084, o monarca al-Fagit, senhor das taifas de Lérida, Tortosa e Denia, se aliou a Aragão e a Barcelona e partiu para conquistar Zaragoza. Mesmo com forças muito inferiores, Rodrigo salvou a cidade e prendeu o conde Berenguer – aquele mesmo que lhe tinha recusado emprego – e todo seu séquito de cavaleiros. Para libertá-los, entrou em cena uma prática comum na Europa medieval: o pagamento de resgate. A vitória encheu os cofres de Zaragoza e os bolsos de Rodrigo.

Após a vitória, o cavaleiro cristão ganhou de seus amigos muçulmanos o apelido pelo qual seria eternizado. Agora ele era El Cid – a expressão veio de al-sid (“senhor”, em árabe). Assim como sua fama, sua riqueza também cresceu – o que lhe permitiu incrementar sua milícia pessoal, que agora tinha pelo menos 200 homens. Em 1086, veio a reconciliação com Afonso VI. Acredita-se que El Cid tenha ganhado ao menos dois palácios e alguns territórios para voltar a sua Castela natal.

Cansado de guerra

Para manter sua tropa de mercenários, El Cid precisava de dinheiro. A maneira mais óbvia de consegui-lo era sair pela península conquistando territórios e saqueando o tesouro de cidades. Em 1090, o cavaleiro atacou taifas protegidas por Barcelona. Primeiro foi Denia, depois veio Valência. Furioso, o conde Berenguer montou uma emboscada para El Cid.

As forças do mercenário foram surpreendidas quando estavam acampadas na acidentada região de Tévar. Mesmo cercado, El Cid venceu. E, de novo, o conde Berenguer e seus nobres caíram prisioneiros. O resgate cobrado para libertá-los foi milionário.

Dois anos depois dos combates em Tévar, Afonso VI precisou defender suas terras contra uma invasão muçulmana e convocou El Cid. O cavaleiro, que estava vivendo perto de Valência, não apareceu (acredita-se tenha sido só um problema de comunicação). Mais uma vez, El Cid foi desterrado. Seus bens em Castela acabaram confiscados e sua família foi presa.

Sem dinheiro nem posses, o cavaleiro reuniu sua milícia e partiu para conquistar Valência novamente. E não parou por aí. Em cerca de dois anos, ele se tornou senhor de grande parte do leste da atual Espanha. El Cid se tornou mais rico e poderoso que muitos reis.

Resgate

Mas nada era mais importante que resgatar sua família e recuperar suas terras em Castela. A estratégia foi sitiar a cidade de La Rioja, que era controlada por Afonso VI, e forçar o soberano a entrar em um acordo. Funcionou. Mais uma vez, o rei e seu antigo vassalo se reconciliaram.

Com suas filhas, Cristina e Maria, casadas com príncipes de Navarra e Aragão, respectivamente, El Cid garantiu que sua família teria um lugar seguro entre a nobreza ibérica. Em 1094 ele pôde, finalmente, aposentar suas armas e descansar em Valência. Nas refeições, tomava o vinho feito com as uvas plantadas tempos atrás pelos mouros, de quem ele próprio havia tomado a cidade.

A mesquita local, em que o cavaleiro costumava rezar, foi transformada em igreja – mesmo tendo servido os muçulmanos com lealdade, ele nunca deixara de ser cristão. Em 1101, dois anos após sua morte, o corpo de El Cid foi levado para Castela. Lá, foi sepultado no monastério de Cardeña, a 13 quilômetros da cidade de Burgos.

Entre os relatos que eternizaram o herói, um deles impressiona. Foi escrito por Ibn Bassan, cronista mouro do século 12. Mesmo após as últimas conquistas de El Cid, que infligiram derrotas pesadas aos muçulmanos, Bassan superou o ódio de seus antepassados e sentenciou: “Esse homem, o flagelo de seu tempo, por seu apetite pela glória e por sua bravura heroica, foi um dos milagres de Deus”.


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