sábado, 21 de dezembro de 2019
sábado, 17 de novembro de 2018
A Era Napoleônica: Uma Narrativa das Batalhas e do Sistema de Guerra de Napoleão (1792-1815)
Maria
Clara Lima de Oliveira
Discente, do 5ª período de História, na Universidade Federal do Piauí – UFPI
Introdução
A Oposição no Início do Consulado
A Arte da Guerra
A Formação do Grande Exército
A Batalha de Austerlitz e o Bloqueio Continental
Da Campanha Russa até Waterloo
Conclusão
Referências
O Império de
Napoleão
Batalha de
Leipzig chocava a Europa 200 anos atrás
Waterloo: a
última batalha de Napoleão
Discente, do 5ª período de História, na Universidade Federal do Piauí – UFPI
Introdução
O
terror que se alastrou com a Revolução Francesa, é interrompido em 27 julho de
1794, os interesses burgueses derrotam jacobinos e contra-revolucionários. As
políticas que se sucederam, vieram a garantir definitivamente a afirmação das
instituições burguesas na França: com o Diretório (1795-1799), o Consulado
(1799-1804) e o Império (1804-1815). “A partir de então, é o exército a
tornar-se o corpo responsável pela unificação e pacificação da nação francesa.
Um corpo que tem na figura do general/cônsul/imperador Napoleão Bonaparte sua
mais perfeita expressão.” (MONDAINI, 2008, p.194) De 1792 até o golpe de Estado
dado por Bonaparte em 1799, o “18 Brumário”, a França de fato concretiza aquilo
que já aspirava, à ruptura com os soberanos europeus. “Os ideais libertadores
inicialmente presentes no projeto dos revolucionários franceses cedem espaço
aceleradamente à vontade expansionista de conquistar o maior número possível de
territórios, submetendo suas populações ao jugo francês.” (MONDAINI, 2008,
p.194)As guerras napoleônicas são reconhecidas como uma guerra de transição
entre o velho e o novo mundo. Onde o pensamento político do século XIX foi
sendo progressivamente marcado pela obra de Napoleão e de seus seguidores. Sendo
assim, o paper objetiva apresentar os
tramites que levaram Napoleão a se tornar um mito, da sua ascensão ao declínio,
no decorrer de suas batalhas em campo e no cenário político.
Considerado
um dos maiores guerreiros de todos os tempos, comparado a Alexandre, o Grande,
Cesar e Frederico da Prússia, no comando de batalhas enfrentando as maiores
diversidades. Ele tinha a capacidade de mobilizar, organizar, equipar exércitos
numerosos e domínio da guerra de massa, revolucionando de fato a arte da guerra
que caracteriza a contemporaneidade. Ele recebeu e abraçou a formação de
oficial, se dedicando a ética da profissão. Napoleão enquanto líder político
expõe suas experiências ao escrever notas de rodapé na obra O Príncipe de Maquiavel, ao escrever
mais de setecentos comentários na obra, revela a sua personalidade de líder
político, contestando ou apoiando algumas das ideias de Maquiavel, manifestando
seus pensamentos, expondo suas opiniões, como se tivesse dialogando com o
próprio Maquiavel. Muitos o denominam como um verdadeiro discípulo de
Maquiavel, no seu jogo de oportunismo político. Napoleão era adepto dos ideais
iluministas, para ele os problemas do governo devem ser resolvidos pela razão e
pelo bom senso, ou seja, o governo era uma questão de pura ciência. As concepções
religiosas oscilavam “[...] entre um vago deísmo e a crença de que o homem foi
feito da terra, aquecido pelo sol e organizado por um fluido eléctrico”
(HAMPSON, 1969, p.139), assim partilhava dos conceitos de Voltaire, onde a fé
religiosa, embora sem embasamento, era a maior preservação da humanidade.
A Oposição no Início do Consulado
Nos primeiros anos no poder Bonaparte,
o primeiro-cônsul, encarou oposição “[...] como Cesar ou Robespierre, era
obcecado por ela e talvez a superestimasse, pois, na verdade, em geral foi de
pequena monta.” (ENGLUND, 2011, p.192) No início do consulado ele não tinha
tanta força para impor seu ponto de vista, tanto no plano político quanto no
militar. A fraqueza da oposição tinha muitas faces e razões, em principal os
opositores eram diversificados e desunidos, e com freqüência detestavam e
temiam uns aos outros, até mais que Bonaparte, estes eram:
Liberais desgostosos do Instituto, dos salões e da
legislatura; jacobinos radicais que se haviam oposto ao Brumário; monarquistas
ensandecidos diante do sucesso de um regime moderado com laivos monárquicos; e,
por fim, uma cabala de generais do exército bastante frívolos e irresponsáveis,
alguns participantes dos jacobinos, outros monarquistas e outros ainda (os dois
mais importantes) um pouco de cada coisa. (ENGLUND, 2011, p.192)
Napoleão
põe em prática a sua incontrolável ambição pessoal e política. Com Bonaparte
primeiro-cônsul, o Poder executivo submete um legislativo demasiadamente
incômodo, ou seja, se afirma uma relação de continuidade, se diferenciando
apenas em grau de concentração de poderes. Começa-se a então a falar sobre a
necessidade de anexações territoriais em nome das “Fronteiras Naturais”, a
república francesa passa a praticar uma política de anexação e ocupação. Bonaparte
obtivera uma lendária reputação, ele era extremamente popular, era ambicioso,
abusava constantemente de seu poder, contrariando os interesses do povo, “[...]
alguns condenam Bonaparte; outros acusam a nação que se cegou ao idolatrá-lo.”
(ENGLUND, 2011, p.198).
A
guerra é uma ação recíproca, podendo se elevar a níveis extremos de usos
ilimitados da força. “Existe sempre um espírito de guerra entre velhas
monarquias e uma república nova. Eis a raiz das discórdias européias.” (COLSON,
2015, p.47) Napoleão não era adepto de uma política de paz, mas não era um
monstro, as execuções políticas eram raras e o número de prisioneiros políticos
também. A gloria militar que tanto desejava era por motivos políticos, mas não
deixava de ser também por motivos pessoais. O triunfo no campo de batalha
representava a grandeza e a glória. E ele não se prendia a escrúpulos diante
das necessidades operacionais, muitas vezes teve de tomar decisões morais e
intelectualmente arriscadas sem muito questionamento. A guerra na época napoleônica se limitava
quase sempre aos exércitos, as batalhas geralmente não faziam nenhuma vítima
civil, os exércitos é que eram alvos dos planos estratégicos dos adversários. “[...]
Naturalmente, foi dado um passo em direção à “guerra total”, mas isto se deu
progressivamente.” (COLSON, 2015, p.66)
Napoleão
acreditava que o sucesso de uma guerra não é fruto do acaso, ainda que, esteja
presente nos eventos. Pra ele a ciência militar, consistia em calcular bem
todas as chances ao começar e estabelecer matematicamente as contribuições do
acaso, porém, isso pode cair em engano, por isso, torna-se necessário a cabeça
de um grande gênio, e o gênio da guerra é algo inato. As maiores faculdades de
Napoleão era a sua capacidade de prevê as grandes catástrofes, por isso a
presença de um general é tão indispensável, pois ele é a cabeça e o todo de um exercito.
A qualidade de um bom general é ter cabeça fria, nunca se exaltar e ter o bom
senso, além disso, é necessário que ele tenha conhecimentos matemáticos a fim
de obter bons êxitos. É necessário que se mantenha a sanidade “[...], pois a
guerra é feita de acontecimentos dramáticos, de imprevistos.” (COLSON, 2015,
p.80) É preciso prudência e principalmente coragem, coragem necessária para
morrer.
O
conhecimento do adversário torna-se essencial na guerra. Napoleão obtinha suas
informações através de espionagem, interrogava prisioneiros e desertores e
interceptava cartas. “Fazer a guerra é antes de tudo obter informações.” (COLSON,
2015, p.112) Mas não deixar de modo algum as obterem também, e Napoleão
controlavam bem a imprensa, transformando o segredo um estilo de seu comando.
Napoleão conseguiu dirigir grandes massas de homens, deixando os exércitos dos
inimigos fora de combate em pouco tempo. “[...] A tática implica em ordem.
Recorre à inteligência, ao conhecimento e à organização.” (COLSON, 2015, p.129)
A estratégia para ele é arte de colocar as tropas em movimento. “A tática tem
como objetivo o uso das forças armadas no combate; a estratégia, o uso dos
combatentes a serviço da guerra.” (COLSON, 2015, p.134) Mas as concepções
estratégicas devem ser simples e racionais, na guerra se convém à simplicidade
e a segurança.
Para
Napoleão a arte da guerra estava na maneira inteligente de conduzir a guerra,
aumentando suas chances, as suas forças sob o exército inimigo. Não se deve dá
ouvidos ao temor do exército, “A massa dos inimigos a serem enfrentados é uma
das grandes fontes de temor na guerra.” (COLSON, 2015, p.188) A superioridade
numérica é o princípio geral da vitória, “A Revolução Francesa foi capaz de
arregimentar exércitos muito mais numerosos que os das monarquias européias, o
que explica as vitórias que obteve.” (COLSON, 2015, p.214) Porém o numero de
soldados não é nada se os oficiais e suboficiais não tiverem consciência do que
estão manobrando. É preciso então obter fidelidade e disposição das tropas.
Bonaparte através de machas aceleradas conseguiu vencer vários adversários com
um único exército, além disso, ele surpreendia os adversários, tornando a
surpresa um elemento autônomo. Portanto a guerra se assemelha a um conserto,
onde os homens são como os músicos, e para que tudo aconteça em perfeita
harmonia, é preciso que cada um execute a sua parte.
A Formação do Grande Exército
A
“campanha da Itália” de 1796 a 1797 elevou a carreira de Bonaparte, ao mostrar
a sua genialidade na arte militar “[...] acabou se impondo como a solução para
os males que a Revolução não conseguia resolver.” (MONDAINI, 2008, p.198) Ele
passou a não só intervir nas questões militares, mas também no plano político
da vida de todo um povo. Em 1801 ele alcança a pacificação política interna, e
no plano externo, após vitórias sobre os russos (1799), austríacos (1800) e
napolitanos (1801), restava a Bonaparte apenas o acerto de contas com os
ingleses, para que a paz voltasse a reinar na França e na Europa. Então em 25
de março de 1802 é assinado um acordo de paz na cidade de Amiens. A paz
retorna, mas por pouco tempo. Partindo para uma agressiva política externa, a
retomada da guerra torna-se inevitável. “A França do general Bonaparte,
transformado em imperador Napoleão I não se limitava mais a buscar a “fronteira
natural” francesa na direção do Reno, Alpes e Pirineus, ela deveria ser buscada
por todo o continente europeu.” (MONDAINI, 2008, p.199) Mas para isso ele
precisava formar uma base forte, de homens dispostos a dar-lhe a vida em prol
da Revolução e da nação francesa, Napoleão precisava de um novo exército, um
Grande Exército.
O
Grande Exército é construído sob uma base mais democrática, a hierarquia estava
mais aberta aos setores subalternos da sociedade, algo que já tinha sido feito
pelos ingleses. O novo exército não era formado de mercenários e arruaceiro de
todo os tipos, e sim de voluntários. Agora o povo comum vestia uniforme e
pegava em armas pela pátria. Enquanto isso, no resto da Europa se continuava a utilizar
os tradicionais métodos militares, com um exército de profissionais bem
treinados e pouco numerosos. A França parte para um método revolucionário e
mais eficaz, como a formação de um exército recrutado de toda uma nação. O
treinamento e o preparo profissional do exercito é algo muito importante mais
lhe faltava algo, “[...] a vontade política revolucionária, a consciência de
que se lutava para transformar a história.” (MONDAINI, 2008, p.201) O novo
exército mesclava entre o velho e o novo, ou seja, entre a capacidade técnica e
a disposição ideológica. Mas o que seria voluntário torna-se uma imposição
legal, o serviço militar torna-se obrigatório para os jovens entre 18 a 24
anos, tornado-se um exército formado de massas por meio de recrutamento forçado,
devido ao declínio dos alistamentos espontâneos, porém mantendo-se um discurso
de voluntariado. A técnica, o entusiasmo e o número foram decisivos embora não
exclusivos, para as vitórias obtidas pelos franceses nas batalhas terrestres
até 1812.
A Batalha de Austerlitz e o Bloqueio Continental
A
Inglaterra se recusa a cumprir um artigo do tratado de Amiens, que lhe obrigava
a retirar as tropas do arquipélago de Malta, e nenhuma das partes cogitava a
voltar atrás nas suas posições, então a guerra entre França e a Inglaterra
recomeça em maio de 1803, com a expedição da ordem de que o embaixador inglês
deixasse Paris. Era uma guerra de ordem econômica, a fim de garantir o poder
marítimo. Na Catedral de Notre-Dame, em 1804, Bonaparte é coroado imperador da
França, recebendo a coroa das mãos do próprio Pio VII. “Napoleão agiu
habilmente para fazer com que ela “acontecesse por si”. Foi tão bem sucedido
que gerou a impressão de que os eventos que levaram da iniciativa de torná-lo
primeiro-cônsul vitalício à sua coroação como “imperador dos franceses” foram o
desdobramento natural de um processo inevitável”. (ENGLUND, 2011, p.198)
Napoleão desejava dominar a Europa, mostrando a superioridade do seu Grande
Exército sob a Marinha britânica. Porém seus planos não deram muito certo,
consistia em utilizar o elemento surpresa e o rápido deslocamento sob a frota
inglesa na travessia do canal da Mancha.
Sob o comando do lendário almirante Nelson, 27 navios
ingleses dispostos de maneira inovadora em colunas, e não na tradicional
formação em fila, destruíram 18 embarcações francesas e 15 espanholas
comandadas pelo almirante Villeneuve. A manobra vitoriosa de Nelson — capaz de
reverter à superioridade numérica do inimigo — consistiu em atacar a frota
franco-espanhola furando sua linha no centro, com o intuito de isolar os navios
uns dos outros, assaltando-os depois bem de perto, em certos casos até mesmo
através da tática da abordagem. (MONDAINI, 2008, p.205)
Mas
em 1805, Napoleão em um movimento de antecipação vence a Batalha de Austerlitz,
tendo 75 franceses contra 80 mil russos e 25 mil austríacos, fazendo o
imperador da Áustria assinar um tratado de paz degradante. A batalha deu a Napoleão um misto de
consagração imperial e o apogeu da estratégia militar. Uma batalha organizada e
com um forte armamento. Napoleão mostrou sua verdadeira astúcia militar,
fazendo do campo de batalha um verdadeiro jogo de xadrez, ele fez um movimento
de retirada das suas tropas da posição de ataque ao exército austro-russo em
direção a Viena, parecia está recuando do confronto, enquanto o exercito
inimigo se aproximava perto de platô de Pratzen. Mas ele estava a preparar um
segundo lance. Os austríacos e russos se imaginavam donos da situação,
marchando para uma vitória garantida, mas eis que Napoleão ordena que suas
tropas partam para o ataque tomando platô de Pratzen de assalto. Foi um
desastre para os adversários. Mas não acabava aí, em um terceiro e ultimo
movimento, onde o exercito inimigo decidira lutar até o fim contra o exercito
napoleônico, as tropas russas são atraídas para os lagos congelados da região,
Napoleão ordena então que a artilharia bombardeasse as camadas de gelo. Eis que
as tropas russas submergem nas águas frias do leste europeu, sucumbindo ao
degelo. “A batalha evoluiu como num tabuleiro, e bastou um único raio para
fulminar [...]” (DUMAS, 2005, p.55) O cordão de força entre França e Inglaterra
parecia ter se empatado, com uma vitória para ambas e seus aliados.
Para
se defender da Rússia Napoleão monta uma espécie de cinturão territorial de
proteção, montando uma rede de aliados de novos Estados vassalos. Tanto os
ingleses quanto os franceses, faziam alianças em curtíssimo tempo. Uma quarta
coalizão acontece em 27 de outubro de 1806, onde a capital de Berlim foi
ocupada sob liderança dos ingleses. O primeiro ciclo de batalha se encerra em
fevereiro de 1807, em Eylau. Onde russos e prussianos travavam uma violenta
batalha contra o exercito francês, sem vencedores e nem vencidos, a melhor
saída foi um acordo entre as partes, a paz de Tilsit, uma partilha da Europa
entre os dois grandes impérios, o francês e russo.
Vencer a Inglaterra no mar torna-se quase
impossível para os franceses. A saída era uma batalha econômica, Napoleão
afirma um decreto ampliando as proibições de comercialização com a Inglaterra,
“[...] todos os países aliados ou ocupados, ou seja, Espanha, Itália, Suíça,
Holanda, Dinamarca e Alemanha, tendo a Rússia se comprometido aplicar o decreto
na Paz de Tilsit.” (MONDAINI, 2008, p.207). Formando assim o Bloqueio Continental.
Não poderia haver brechas mais ela existia e se chamava Portugal, que insistia
em continuar ligada economicamente a Inglaterra. Napoleão então atravessa a
Espanha e invade Lisboa facilmente. “A invasão de Portugal era apenas uma
escala na conquista da Espanha, onde reinava Carlos IV, [...] Napoleão apenas
passara os olhos pela Espanha, num relance rápido e distraído, mas que lhe
bastara, porém para ali enxergar um trono a ser conquistado. ”(DUMAS, 2005, p.60)
Conquistada a península ibérica, Napoleão desafiara o poder
do papa. Em fevereiro de 1808, ele invade Roma, Pio VII se tornara uma mera
sombra. O expansionismo napoleônico disponta, 1810 a 1811, alcança a sua maior
extensão territorial. Napoleão divorcia-se de sua primeira mulher, casando-se
com Josefina, filha do imperador austríaco, a fim de fortalecer suas alianças e
manter a Inglaterra isolada, ou pelo menos a sensação de que estava. Tudo
parecia estar no perfeito controle de Napoleão, mas por pouco tempo.
Da Campanha Russa até Waterloo
Movimentos de resistência popular são
formados em alguns países ocupados, surgindo então forças progressistas, “[...]
inspiradas pelas idéias de nação, liberdade e igualdade, dispostas a lutar por
uma constituição livre da influência francesa.” (MONDAINI, 2008, p.208) Em 1808
a 1812, espanhóis travam uma batalha violenta com os franceses, um movimento
insurrecional que se alastrou por todo o território espanhol. Uma batalha
contra o Grande Exército, que significou a maior derrota desde o início das
guerras napoleônicas. Cai-se então o mito de invencibilidade, que se juntou ao
fracasso do Bloqueio Continental.
Em
1811, a França achava-se ainda imbatível e capaz de vencer a Rússia sua
“aliada” e a Inglaterra. No ano de 1812, Napoleão forma um impressionante
exército composto por 650 mil homens de diferentes nações, rumo a Rússia,
encontrando pelo caminho apenas planícies desertas e queimadas. Um esfomeado
exército francês entra nem Moscou, com a cidade em chamas, e um czar sem
disposição para negociações. O exercito já estava sucumbindo pela forme e pelo
rigoroso inverno russo. Diante da situação Napoleão ordena a retirada. “Esse
retorno passaria a ser lembrado como um dos maiores desastres da história
militar da guerra.” (MONDAINI, 2008, p.210) O exército russo os cercaram
estando na exaustão, apenas um quinto do exercito morreu no campo de batalha,
“[...] O restante padecera de fome, frio, doenças alem de desertores e
capturados.” (MONDAINI, 2008, p.210) Foram vencidos pelo auxílio das forças
naturais do território russo. Esta derrota trouxe um declínio acelerado do
império francês e do Império de Napoleão. Dando oportunidade aos inimigos se
organizarem contra. Napoleão já não tinha apoio nem dos franceses, tendo assim
de abdicar.
Apoiado
pelo marechal Murat, em 26 de fevereiro de 1815 Napoleão ressurge de maneira triunfal,
expulsando Luís XVIII e obrigando as nações antinapoleônicas a formarem uma
nova coalizão. Então o exército inglês e seus aliados os derrotam, na batalha
de Waterloo, na Bélgica em junho de 1815. Se encerrando assim o ciclo das
guerras napoleônicas.
Conclusão
Napoleão
Bonaparte se encaixa na categoria de mito e de ídolo. As guerras da Revolução e
do Império, e em principal os graves erros cometidos por Napoleão, na península
ibérica em 1807 e na invasão da Rússia em 1812, trouxeram conseqüências, os
desastres humanos e políticos foram consideráveis. Napoleão pôs a perder as
aquisições da revolução, deixando a França menor do que encontrara. Por outro
lado as mudanças internas durante o consulado foram duradoras, porém o mesmo
não ocorreu com a política externa.
As reflexões surgidas a partir da luta contra
Napoleão Bonaparte nos campos de batalha, começou-se a observar a guerra e a
política de uma maneira mais sintonizada, a guerra não apenas como um ato
político, mas como um verdadeiro instrumento da política. Quase sempre o
objetivo político vem a determinar a meta militar. As guerras napoleônicas
foram o marco de uma grande mudança rumo a outro mundo. Ele veio a ensinar
muito mais a como ganhar batalhas do que ganhar guerras. A sua vida estava cruzada
com a guerra, chegou e manteve o poder pela guerra, do mesmo modo como a
perdeu.
Referências
COLSON, Bruno. Napoleão Bonaparte – Sobre a Guerra: A arte da batalha e da estratégia.
1ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p.662.
DUMAS, Alexandre. Napoleão Imperador. Napoleão: Uma Biografia Literária. 1ª
edição. Rio de Janeiro: Jorge ZAHAR Editor, 2005, p.50 a p.83.
ENGLUND, Steven. O poder: De Cidadão-Cônsul
a Imperador dos Franceses. Napoleão: Uma
biografia Política. Rio de Janeiro: Jorge ZAHAR Editor, 2011, p.191 a p.306.
HAMPSON, Norman: Os Últimos Lampejos do
Despotismo Iluminado. A Primeira
Revolução Européia (1776-1815). Lisboa: Editorial Verbo, 1969, p. 137 a p.163.
HOBSBAWM, Eric J. A guerra. A Era Das Revoluções (1789-1848). São
Paulo: Paz e Terra, 1996, p.115 a p.145.
MONDAINI, Marco. Guerras Napoleônicas.
In: MAGNOLI, Demétrio (org.). História
das Guerras. Vol.3. São Paulo: Contexto, 2008, p.188 a p.216.
RAMOS, Vanessa Carnielo. “Os
comentários de Napoleão Bonaparte a O Príncipe, de Maquiavel, contidos em nota
de rodapé.” Revista PLURAIS, Goiás, V.3,
n.1, p.1 a p.11, 2013.
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Grandes generais costumam entrar para a História pelo modo
ousado como mudaram o rumo de uma batalha, pela inovação de suas técnicas e
estratégias, pela dimensão de suas conquistas ou pela forma como impuseram sua
força aos adversários. Com o prussiano Carl Von Clausewitz, foi diferente. Ele
lutou mais de uma vez contra as tropas de Napoleão, na Rússia e em Waterloo, e
ajudou a reorganizar o Exército da Prússia no início do século 19. Tinha sólida
experiência no campo de batalha e demonstrava frieza e coragem invejáveis no
front. Mas, ironicamente, não ficou famoso por suas ações.
Estudioso, devorava livros como poucos.
E foi ao escrever um deles, Da
Guerra, que se tornou um dos comandantes mais conhecidos do
Ocidente. Clausewitz era também uma figura curiosa. Excessivamente tímido e
bastante controverso, foi personagem secundário do romance Guerra e Paz, de Tolstoi. Alimentava um
gosto especial por arte, ciência e educação. Sua obra, considerada ainda hoje o
mais importante tratado teórico-militar de todos os tempos, já foi lida ou
citada por uma lista de pensadores, escritores e militares – como o Duque de
Wellington, George Patton, Lenin, Hitler, Mao Tsé-tung, Dwight Eisenhower e
Henry Kissinger, entre outros.
O gosto de Clausewitz pelas armas apareceu na infância. A
carreira do general prussiano começou cedo, logo aos 12 anos, participando de
seu primeiro combate um ano depois. Em 1795, aos 15, a guerra contra a França
revolucionária levou o então cadete a uma reclusão de cinco anos, consumidos
com a leitura sobre os mais diversos assuntos. Ao sair, suas habilidades
abriram-lhe portas rapidamente. Ingressou no Instituto para Jovens Oficiais de
Berlim (que mais tarde faria parte da famosa Kriegsakademie, a academia de
guerra alemã) e foi nomeado oficial-ajudante do príncipe Augusto da Prússia.
Mas a mobilização do país para as guerras napoleônicas, a partir de 1806,
afastaria Clausewitz da realeza e o levaria a uma distante jornada.
Mudança
de farda
Naquele ano, o Exército prussiano ainda
amargava os resultados das batalhas de Jena e Auerstadt. O país fora devastado
pelo conflito e havia perdido metade de seu território. A Prússia tornara-se
apenas um satélite da França e um grupo de oficiais, incluindo Clausewitz,
acreditava que só uma profunda reforma social e militar poderia recuperar as
terras tomadas. O rei Frederico III, no entanto, não compartilhava da mesma
opinião – estava mais preocupado em manter sua posição do que promover uma
cruzada nacionalista. A insatisfação de Clausewitz chegou ao limite em 1812,
quando a coroa enviou tropas para lutar contra os russos ao lado de Napoleão.
Junto com outros oficiais, o prussiano mudou de farda e foi servir no Exército
russo, participando da sangrenta batalha de Borodino e testemunhando a retirada
dos franceses de Moscou.
De volta à Prússia, ele foi reintegrado
ao exército local com o título de coronel e estava pronto para desempenhar um
papel fundamental na reformulação do Exército nacional. Nesse período
Clausewitz embrenhou-se em combates seguidos: lutou em Ligny e teve um papel
importante na retaguarda das ações em Wavre, ação que evitou que as forças do
marechal Grouchy se reintegrassem às tropas de Napoleão, em Waterloo.
Promovido a general em 1818, o
prussiano aproveitou a ociosidade do período em que ocupou um alto cargo na
Escola de Guerra de Berlim para teorizar seus conceitos sobre a guerra. Sua
obra começava a ser estruturada, mas foi posta de lado quando o general foi
enviado à fronteira com a Polônia. Lá, organizou um cordão sanitário para frear
o avanço de uma epidemia de cólera. Parecia saudável quando voltou para
Breslau, mas contraíra a doença. Clausewitz morreu em 16 de novembro de 1831,
aos 51 anos. Deixou a mulher, Marie von Brühl, e os manuscritos de Da Guerra, publicados por ela logo após
sua morte.
Os textos de Da
Guerra, um calhamaço dividido em três volumes, foram objeto de
estudo em diversas escolas militares do mundo moderno. Obra densa e complexa,
de difícil leitura, é conteúdo obrigatório em algumas instituições. Mas está
longe de ser unanimidade: acadêmicos, cientistas políticos e militares têm
visões distintas sobre obra e autor. Muitos chamam Clausewitz de gênio; outros
tantos o consideram pedante e limitado. O fato é que Da
Guerra atravessou o tempo e é hoje uma das maiores referências
sobre estratégia militar. Serve como fonte para entender diferentes conflitos,
em diferentes épocas – daí sua contemporaneidade. Seus conceitos são reflexões
embasadas em ações de um período – as guerras do século 19 –, mas estabelecem
uma ligação estreita entre guerra e política que assume uma incrível capacidade
de se perpetuar. Nada mais atual, aliás, em tempos em que os conflitos externos
dominam a agenda de grandes líderes mundiais.
Outras
palavras
“A guerra é a continuação da política
por outros meios”
“O conquistador é sempre amante da paz.
Preferia sem dúvida subjugar nosso país sem ter de combater”
“Em assuntos tão perigosos como a
guerra, as idéias falsas, inspiradas no sentimentalismo, de modo algum têm a
cooperação da inteligência”
“A guerra é um ato de força, e não há
limite para a aplicação dessa força”
“Destruir ou desarmar o inimigo deve
ser sempre o propósito da ação militar. Enquanto o adversário não estiver
derrotado, plenamente derrotado, é preciso temer que possa nos destruir”
POLÍTICA POR
OUTROS MEIOS: CARL VON CLAUSEWITZ
Roberto Simon
Friedrich Engels costumava chamá-lo de “gênio puro”.
Vladimir Lênin, de “um dos maiores historiadores militares”. Em 1914, a
Alemanha colocou em prática seu plano de guerra. Extensos trechos de sua
obra-prima eram citados nos discursos de Adolf Hitler. E até Colin Powell,
ex-secretário de Estado americano, disse ter se baseado nele para formular sua
estratégia contra o Iraque, em 2003. Afinal, por que Carl von Clausewitz, um
general prussiano que atuou na passagem do século 18 para o 19, foi capaz de
influenciar tantas personalidades?
A resposta está em um livro. Com Da
Guerra, Clausewitz foi o primeiro teórico a explicar os conflitos militares
modernos. Seus conceitos estão sintetizados em uma máxima: “A guerra é a
continuação da política por outros meios”. Para ele, a vitória se materializa
na destruição física e moral do inimigo. “Guerra é um ato de violência
destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”, ele afirma.
Como o desejo de submissão é mútuo, a rivalidade levará as batalhas a seus
extremos.
Clausewitz foi capaz de teorizar essa mudança para o
conflito absoluto porque ele mesmo foi protagonista dos conflitos militares de
sua época. Nascido em 1780 em uma família nobre da Pomerânia, Clausewitz
ingressou no Exército prussiano com apenas 12 anos. Aos 13, conheceu o campo de
batalha pela primeira vez. Depois, voltou-se para a teoria militar, até que as
guerras napoleônicas o lançaram novamente na guerra. Em 1806, na batalha de
Auerstadt, foi derrotado pelas forças de Napoleão e enviado preso a Paris. De
volta às salas de aula prussianas, em 1815 tornou-se diretor da Escola de
Guerra alemã. Reconhecido como intelectual, foi incumbido da educação militar
do príncipe herdeiro Frederico Guilherme IV. Quando a coroa da Prússia resolveu
se aliar à França, o general se juntou às forças do imperador russo, o czar
Alexandre I. Em Moscou, acompanhou de perto a retirada das tropas de Napoleão.
Ao morrer de cólera, em 1831, aos 51
anos, Clausewitz deixou uma pilha de manuscritos teóricos inacabados. No ano
seguinte, sua viúva, Marie von Brühl (1779-1836), reuniu esses fragmentos e os
publicou. O aspecto fragmentário de Da Guerra (publicado no Brasil pela Martins
Fontes) não diminui sua importância. Como o general afirmara antes de morrer,
“mesmo incompleta, a obra pode provocar uma revolução na teoria da guerra”.
Clausewitz tinha razão.
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
[POL] O enterro secreto de Hitler
Luís
Antônio Giron
“A ciência prevaleceu sobre todos os depoimentos, sobre a emoção, sobre as tentativas de manipulação”, afirma Brisard. Mesmo assim, o fantasma de Hitler ainda assombra o mundo, até porque quase ninguém sabia do mistério. Ele foi enfim revelado, com a autorização do presidente russo Vladimir Putin, talvez desejoso de exibir finalmente o troféu que seu antecessor Josef Stálin teve de ocultar.
Na conferência de Potsdam em 2 de agosto de 1945,
Josef Stálin deu uma notícia aos aliados da Segunda Guerra Mundial: o chanceler
alemão Adolf Hitler escapara vivo de Berlim, área conquistada pelos soviéticos
quatro meses antes. Stálin foi além: Hitler teria sido levado de submarino à
Argentina ou ao Japão. “Tratem de encontrá-lo”, desafiou. Ninguém capturou nem
um fio de cabelo do ditador. Assim começou o mistério que incendiou a
imaginação no Pós-Guerra. Inquéritos britânicos e americanos, teorias conspiratórias
e romances davam conta de que Hitler viveria incógnito na América do Sul,
tramando a nova invasão à Europa.
Na verdade, Stálin tinha mentido, talvez para despistar os aliados,
evitar o culto ao Führer ou por falta de provas científicas. O mistério do
paradeiro de Hitler perdurou por mais de 70 anos e começa a ser desvendado
agora, com o lançamento mundial do livro “A Morte de Hitler — os Arquivos
Secretos da KGB”, do jornalista francês Jean-Christophe Brisard e da intérprete
russa Lana Parshina, editado no Brasil pela Companhia das Letras.
Os autores penetraram entre 2016 e 2017 no Arquivo
Central do FSB (serviço secreto russo que sucedeu a KGB em 1991) e no RGVA
(Arquivo do Estado Militar da Federação Russa), até então vedados a consultas.
Depois de negociações tortuosas, obtiveram permissão para ver os dossiês sobre
a tomada do bunker onde Hitler e seu círculo íntimo moraram de março a abril de
1945. Lá, encontraram os restos mortais de Hitler e da mulher, Eva Braun: um
fragmento do lado esquerdo do crânio com uma perfuração de bala e duas arcadas
dentárias.
Ossos e cinzas
A dupla perseguiu outro enigma: o destino do
cadáver do Führer. Descobriu que o troféu máximo da Segunda Guerra foi alvo da
disputa entre o departamento de contraespionagem e o Ministério da Guerra
soviéticos. O primeiro desapareceu com os cadáveres de Hitler, Eva, do general
Hans Krebs, do ministro da propaganda Joseph Goebbels, da mulher dele, Magda e
dos seis filhos do casal. O segundo resgatou crânios e dentes. Nem uns nem outros
queriam admitir que Hitler havia se matado segundo o código militar de bravura,
e não como um covarde, por veneno.
Durante anos, a contraespionagem russa promoveu
interrogatórios com os homens próximos a Hitler, como o criado Heinz Linge, o
ajudante de campo Otto Günsche e o motorista Hans Baur. Eles foram torturados
até confessar o que não sabiam. Linge jurou que havia ouvido os tiros no quarto
de Hitler. Baur assegurou que o Führer tinha se dado um tiro na boca. Günsche
contestava a versão, afirmando que havia sido na têmpora. E mudavam as versões,
confundindo os investigadores. Por sua vez, os militares queriam sumir com os
cadáveres. Realizaram uma autópsia superficial e enterraram os corpos em
Rathenau, perto de Berlim.
Em 1970, o chefe da KGB Iuri Andrópov, futuro líder da União Soviética
entre 1982 e 1984, ordenou que os ossos fossem exumados e incinerados,
reduzidos a cinzas e atirados a um lago.
Em meio a despistes e depoimentos duvidosos, os
departamentos soviéticos rivais não chegaram nenhuma conclusão — e enterraram o
caso literalmente. Mas graças a Brisard e Parishna, a charada foi desvendada.
Ao verificar inquéritos confidenciais da KGB e com ajuda do legista francês
Philippe Charlier, concluíram que Hitler se suicidou no bunker da Nova Chancelaria
de Berlim por volta das 15 horas de 30 de abril de 1945 ao lado de Eva Braun.
Tomou um cápsula de cianeto e disparou um tiro na têmpora direita com uma
pistola Walther PPK de 7,65 milímetros. A bala saiu do outro lado do crânio.
“A ciência prevaleceu sobre todos os depoimentos, sobre a emoção, sobre as tentativas de manipulação”, afirma Brisard. Mesmo assim, o fantasma de Hitler ainda assombra o mundo, até porque quase ninguém sabia do mistério. Ele foi enfim revelado, com a autorização do presidente russo Vladimir Putin, talvez desejoso de exibir finalmente o troféu que seu antecessor Josef Stálin teve de ocultar.
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