quinta-feira, 7 de julho de 2016

[POL] “Nenhum espaço para o estrangeiro, nenhuma utilidade para o vagabundo”

George Sylvester Viereck

Revista Liberty, julho de 1932.


“Quando assumir o poder na Alemanha, interromperei o pagamento ao estrangeiro e eliminarei o Bolchevismo em casa.”

Adolf Hitler bebeu sua xícara como se não fosse chá, mas o sangue do bolchevismo.

“O Bolchevismo,” continuou o chefe dos camisas pardas, os fascistas alemães, olhando para mim raivosamente, “é nossa grande ameaça. Mate o bolchevismo na Alemanha e você restaurará 70 milhões de pessoas ao poder. A França deve sua força não ao seu exército, mas às forças do bolchevismo e apatia em nosso meio.”

“O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint Germain são mantidos vivos pelo bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o Bolchevismo são duas cabeças de um único monstro. Devemos decapitá-las.”

Quando Adolf Hitler anunciou este programa, o advento do Terceiro Império que ele proclama parecia ainda estar no final da tempestade. Então, veio eleição após eleição. E o poder de Hitler cresceu. Mesmo incapaz de desalojar Hindenburg da presidência, Hitler hoje comanda o maior partido na Alemanha. A menos que Hindenburg tome medidas ditatoriais, ou algum desenvolvimento inesperado altere completamente todos os cálculos atuais, o partido de Hitler organizará o Reichstag e dominará o governo. A luta de Hitler não era contra Hindenburg, mas contra o Chanceler Bruening. É duvidoso se o sucessor de Bruening possa sustentar-se sem o apoio dos Nacional-Socialistas.

Muitos do que votaram para Hindenburg estavam, de fato, com Hitler, porém certo senso de lealdade enraizado os impeliu mesmo assim ao voto para o velho marechal-de-campo. A menos que da noite para o dia surja uma nova liderança, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, que possa derrotar Hitler – e Hindenburg está com 85 anos! Tempo e resistência obstinada por parte de Hitler, exceto por um erro pessoal ou desistência nas fileiras do partido, tiram-lhe a oportunidade de tornar-se o Mussolini da Alemanha.

O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a render-se à sua coroa imperial. O Segundo Império chegou ao fim quando Guilherme II, sob o conselho de Hindenburg, refugiou-se na Holanda. O Terceiro Império está emergindo sorrateiramente mas de forma decidida, apesar de dispensar cetros e coroas.

Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Parda em Munique, mas em uma residência particular – a morada de um ex-almirante da marinha Alemã. Discutimos o destino da Alemanha entre xícaras de chá.

“Por que,” perguntei a Hitler, “você se autodenomina um nacional socialista, já que seu programa partidário é a antítese do que se costuma chamar socialismo?”

“Socialismo,” ele respondeu, colocando energicamente sobre a mesa sua xícara de chá, “é a ciência de lidar com a prosperidade coletiva. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e distorceram seu significado. Tenho obrigação de tirar o socialismo dos socialistas.”

“Socialismo é uma instituição antiga ariana e germânica. Nossos ancestrais alemães mantiveram certas terras em comum. Eles cultivaram a ideia da riqueza comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar como socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não abole a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não significa a negação da individualidade, e, diferentemente do marxismo, ele é patriótico.”

“Talvez tivéssemos nos autodenominado Partido Liberal. Escolhemos nos chamar Nacional-Socialistas. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o cumprimento das necessidades justas das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, Estado e Raça são um só.”

O próprio Hitler não é um tipo puramente germânico. Seu cabelo negro trai ancestrais alpinos. Por anos ele recusou ser fotografado. Esta era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas de seus amigos de modo que, na hora da crise, ele poderia aparecer aqui, lá e acolá sem ser detectado. Hoje, ele não poderia mais passar despercebido pelo mais desconhecido vilarejo na Alemanha. Sua aparência contrasta fortemente com a agressividade de suas opiniões. Nenhum reformador moderado jamais afundou o navio do Estado ou cortou gargantas políticas.

“Quais,” continuei meu interrogatório, “são os fundamentos de sua plataforma?”

“Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. O corpo político deve ser escutado se a alma for saudável. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini,” interrompi, “me disse a mesma coisa.”  Hitler sorriu.

“Favelas,” ele acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, álcool por um décimo, de toda a depravação humana. Nenhuma pessoa saudável é marxista. Pessoas saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Combatemos as forças do desastre e da degeneração. A Baviera é comparativamente saudável porque não é completamente industrializada. Entretanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada a intensificar o industrialismo devido à pequenez de nosso território. Se desejamos salvar a Alemanha, devemos manter a fé de nossos camponeses. Para isso acontecer necessita-se espaço para respirar e espaço para trabalhar.”

“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”

“devemos manter nossas colônias e expandir para o leste. Houve uma época quando poderíamos compartilhar a dominação mundial com a Inglaterra. Hoje, somente podemos esticar nossas pernas apertadas para o Leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.

“Não é possível,” perguntei, “para a Alemanha reconquistar o mundo economicamente sem expandir seu território?”

Hitler balançou sua cabeça negativamente.

“O imperialismo econômico, como o imperialismo militar, depende do poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo ainda não aprendeu a pensar em termos de poder mundial e comércio mundial. Contudo, a Alemanha não pode expandir comercial ou territorialmente até que ela recupere o que ela perdeu e até que ela se encontre.”

“Estamos na posição de um homem que teve sua casa queimada. Ele deve ter um teto sobre sua cabeça antes que possa pensar mais ambiciosamente. Conseguimos criar um abrigo emergencial que nos mantém fora da chuva. Não estamos preparados para um vendaval. Contudo, infortúnios têm se abatido sobre nós. A Alemanha tem vivido uma série de catástrofes nacionais, morais e econômicas.”

“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nosso desastre. As maiorias parlamentares seguem as conveniências do momento. O governo parlamentarista permite a abertura dos portões ao Bolchevismo.”

“Diferentemente de outros militaristas alemães, o senhor não concorda com uma aliança com a União Soviética?”

Hitler evitou uma resposta direta a esta questão. Ele desviou novamente recentemente quando a Liberty pediu-lhe para responder uma afirmação de Trotsky de que sua chegada ao poder na Alemanha envolveria uma luta de vida e morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética:

Pode não servir a Hitler atacar o Bolchevismo na Rússia. Ele pode mesmo buscar uma aliança com o bolchevismo como sua última cartada, se ele reconhecer que está perdendo o jogo. Se, ele insinuou em uma ocasião, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última esperança da propriedade privada, se o capital impedir sua luta, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços da barulhenta Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.

Ele respondeu cautelosamente no passado às investidas do Chanceler Bruening e outros que desejavam formar uma frente política unida. É improvável que agora, no aumento do poder eleitoral dos nacional-socialistas, Hitler estará disposto a se comprometer com qualquer princípio fundamental com outros partidos.

“As combinações políticas sobre as quais uma frente única depende,” Hitler lembrou, “são muito instáveis. Elas praticamente tornam impossível uma política clara. Vejo em todos os lugares esse vaivém de compromissos e concessões. Nossas forças construtivas são comprovadas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e mecânica do mundo econômico ao Estado vivo. Somos ameaçados por números sempre crescentes e redução constante de ideais. Números per si só são irrelevantes.”

“Mas suponha que a França retalie novamente contra o senhor invadindo seu território. Ela já invadiu o Rhur antes. Ela pode invadi-lo novamente.”

“Não importa,” respondeu Hitler de forma exaltada, “quantos quilômetros quadrados o inimigo pode ocupar se o espírito nacional resistir? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer de modo que seu país possa viver, são mais potentes que 50 milhões cujo desejo político está paralisado e cuja consciência racial está infeccionada por estrangeiros.”

“Queremos uma Grande Alemanha unindo todas as tribos germânicas. Mas nossa salvação pode começar numa pequena região. Mesmo se tivéssemos somente 10 acres de terra e estivéssemos determinados a defendê-la com nossas vidas, os 10 acres tornar-se-iam o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm dois espíritos: um é alemão, o outro é marxista. Devemos erguer o espírito alemão. Devemos eliminar o câncer do marxismo. Marxismo e Germanismo são antíteses.”

“No meu plano de estado alemão, não haverá espaço para estrangeiros, nenhuma utilidade para vagabundos, para agiotas e especuladores, ou qualquer um que seja incapaz de trabalho produtivo.”

O cabelo na testa de Hitler balançou ameaçadoramente. Sua voz encheu o ambiente. Houve um ruído na porta. Seus seguidores, que sempre permanecem atentos, como guarda-costas, lembraram o líder de sua obrigação de comparecer a um encontro.

Hitler bebeu seu chá e foi embora.
   

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