quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Revendo as Conseqüências da “Boa Guerra”: A Verdade Emergindo em um Oceano de Mito

Dwight D. Murphey

 
After the Reich: The Brutal History of the Allied Occupation

Giles MacDonogh

Basic Books, 2007
 



 
Aqueles que narram honestamente os acontecimentos humanos, atuais e passados, são pessoas raras e honradas. Deveríamos certamente honrá-los no panteão de nossos deuses terrestres. Ao fazermos isso, incluiremos, indubitavelmente, aqueles que, sem qualquer espécie de preconceito contra o Ocidente ou os EUA ou seu povo, mas apenas pelo desejo da verdade, são levados a lançar uma luz sobre os eventos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial (assim como as atrocidades que foram cometidas como resultado do modo pelo qual a guerra foi travada contra as populações civis, apesar deste não o objetivo do texto). A guerra tem sido conhecida pelos americanos como “a boa guerra” e aqueles que a lutaram como “a grande geração”. Mas agora, gradualmente, somos atingidos pelas realidades tão comuns a uma existência humana complexa: houve muito que não foi bom e, junto com o auto-sacrifício e as melhores intenções, houve muita coisa venenosa e brutal. Estas realidades estão sendo reveladas porque há alguns acadêmicos, pelo menos, que são conscientes que um oceano de propaganda de guerra ainda espalha um mito que se prolonga por muitas décadas e que têm um comprometimento com a verdade que sobrepuja a persuasão para se conformar com o mito.

Este artigo começa com uma simples resenha do livro de Giles MacDonogh, que está identificado acima.  Seu livro é largamente do tipo demolidor de mito que eu aprecio. Entretanto, pelo fato de haver material valioso adicional que sou contrário deixar não mencionado, expandi-o para incluir outras informações e autores, deixando-o mesmo assim como uma resenha de After de Reich (“Após o Reich”, em tradução livre).

O livro de MacDonogh é desconcertante, tanto corajoso quanto covarde, a maior parte (mas não inteiramente) digna de altos elogios que devemos fazer a estudiosos incorruptíveis. Como mencionamos, o público americano tem pensado no esforço aliado na Segunda Guerra mundial como uma “grande cruzada” que contrapôs bondade e decência contra a maldade nazista. Mesmo após todos estes anos, a última coisa que o público deseja aprender são os vastos e inexplicáveis erros que foram cometidos pelos Aliados Ocidentais e União Soviética durante a guerra e suas conseqüências. Cabe a MacDonogh bater na face de nossa relutância para contar “a história brutal” em grande estilo.

Esta disposição é recomendável por sua bravura intelectual. Em face disso, é intrigante que, mesmo que ele faça isso, ele coloca um brilho a mais na história, na verdade continuando em parte um encobrimento de proporções históricas, o qual foi fixado pelo excesso de propaganda de guerra por quase dois terços de século. O grande valor deste livro não pode, assim, ser encontrado em sua integridade ou sinceridade explícita, mas, ao invés disso, agindo como uma ponte – apesar de sua grande extensão – que pode iniciar os leitores conscientes a seguir um estudo adicional de um assunto extremamente importante. 

Para este artigo, será valioso começar resumindo a história que MacDonogh relata (e acrescentar alguma coisa a ela). É somente após fazer isso que discutiremos o que McDonogh obscurece. Tudo isto levará, então, a reflexões conclusivas.

Em seu Prefácio, MacDonogh diz que seu objetivo é “expor os aliados vitoriosos em seu tratamento do inimigo em tempo de paz, na maioria dos casos não foram os criminosos que foram estuprados, levados à fome, torturados ou surrados, mas mulheres, crianças e pessoas idosas.” Apesar disto sugerir que a tônica do livro será de ultraje, a narrativa é mais informativa do que polêmica. As fontes de pesquisa de MacDonogh incluem muitos livros de história alemã e francesa e biografias (assim como quatro livros sobre vinhos).

As expulsões (hoje chamadas “limpeza étnica”). Ao final da guerra, MacDonogh nos diz, “tanto quanto 16.5 milhões de alemães foram expulsos de seus lares.” 9,3 milhões foram expulsos da porção oriental da Alemanha, que foi entregue à Polônia. (Tanto as fronteiras ocidental quanto a oriental da Polônia foram drasticamente afetadas por acordo dos Aliados, com a Polônia tomando uma parte importante da Alemanha e a União Soviética tomando a Polônia Oriental.) Os outros 7,2 milhões foram forçados a deixar seus lares centenários na Europa Central, onde eles haviam vivido por gerações.

Esta expulsão em massa foi estabelecida no Acordo de Postdam em meados de 1945, apesar do acordo tornar explícito que a limpeza étnica aconteceria “na maneira mais humana possível.” Churchill estava entre aqueles que apoiaram-na como necessária “para uma paz duradoura.”        

De fato, o processo foi tão desumano que tornou-se uma das maiores atrocidades da história. MacDonogh relata que “cerca de dois milhões e um quarto morreriam durante as expulsões.” Esta é uma das estimativas mais baixas, que variam entre 2,1 a 6 milhões, se levarmos somente os expulsos em conta. Konrad Adenauer, um grande amigo do Ocidente, sentiu-se capaz de afirmar que entre os expulsos “seis milhões de alemães estão mortos, desapareceram.” Veremos no relato de MacDonogh a fome e a exposição a frio extremo às quais a população da Alemanha foi submetida, e é importante mencionar neste ponto (apesar de ir além das expulsões) que o historiador James Bacque que “a comparação dos censos mostram-nos que cerca de 5,7 milhões de pessoas desapareceram no interior da Alemanha entre outubro de 1946 (um ano e meio após a guerra ter encerrado) e setembro de 1950...”
 
 

O que MacDonogh chama “a maior tragédia maritime de todos os tempos” ocorreu quando o navio Wilhelm Gustloff, transportando alemães de Danzig em janeiro de 1945, foi afundado com “cerca de 9.000 pessoas, ... muitos deles crianças.” Em meados de 1946, “fotografias mostram que cerca de 586.000 alemães boêmios colocados em caminhões como sardinhas.” Em outro ponto, McDonogh nos diz como “os refugiados eram freqüentemente transportados de forma tão apertada que eles não podiam mover-se para defecar e saíam dos veículos cobertos de excremento. Muitos estavam mortos na chegada.” (Isto lembra as cenas descritas tão vividamente no Volume I do livro “O Arquipelago Gulag” de Solzhenitsyn). Na Silésia, “correntes de civis foram forçados para fora de seus lares sob a mira de fuzis.” Um padre estimou que um quarto da população alemã de uma cidade da Baixa Silésia suicidou-se, já que famílias inteiras cometeram suicídio juntas.

A condição da população alemã – fome e frio extremo. Os alemães se referem a 1947 como Hungerjahr, o “ano da fome”, mas MacDonogh diz que “mesmo no inverno de 1948 a situação não havia sido remediada.” As pessoas se alimentavam de cães, gatos, sapos, caracóis, urtiga, bolotas (fruto do carvalho), raiz de erva e cogumelos num esforço desesperado para sobreviver. Em 1946, as calorias fornecidas na zona americana da Alemanha caíram para 1.313 em março das 1.550 fornecidas anteriormente. Victor Gollancz, um escritor britânico judeu, afirmou “estamos matando os alemães de fome.” Isto é semelhante à afirmação feita pelo senador Homer Capehart de Indiana em um discurso no Senado americano de 5 de fevereiro de 1946: “Por nove meses esta administração está conduzindo uma política deliberada de fome em massa...” MacDonogh nos diz que a Cruz Vermelha, os Quakers, Menonitas e outros queriam levar comida, mas “no inverno de 1945 as doações eram retornadas com a recomendação de que elas seriam usadas em outras partes afetadas pela guerra na Europa.” Na zona americana de Berlim, “era política americana que nada fosse dado ou jogado fora. Logo, aquelas mulheres alemãs que trabalhavam para os americanos eram fantasticamente bem alimentadas, mas não poderiam levar nada para suas famílias ou crianças.” Bacque diz “as agências estrangeiras de alívio foram prevenidas de enviar alimentos de fora; os trens de alimentos da Cruz Vermelha eram enviados de volta à Suíça; todos os governos estrangeiros eram proibidos de enviar comida aos civis alemães; a produção de fertilizantes foi drasticamente reduzida... a frota de pesca foi mantida nos portos enquanto as pessoas morriam de fome.”
 
 
 

Sob a ocupação russa da Prússia Oriental, MacDonogh vê “semelhanças gritantes” à “fome deliberada dos kulaks ucranianos no início dos anos 1930” promovida por Stalin. Como na Ucrânia, “casos de canibalismo foram relatados, com pessoas se alimentando de carne de suas crianças mortas.”

O sofrimento do frio extreme misturado à fome criaram miséria e uma alta taxa de mortandade. Apesar do inverno de 1945-46 ser normal, “a falta terrível de carvão e alimento foi sensivelmente sentida.” Invernos anormalmente frios aconteceram em 1946-47 (“possivelmente o mais frio na memória”) e 1948-49. Somente em Berlim, acredita-se que 60.000 pessoas morreram nos primeiros dez meses após o fim da guerra, e “o inverno seguinte matou mais 12.000.” As pessoas viviam em buracos entre as ruínas, e “alguns alemães – particularmente os refugiados do leste – estavam virtualmente nus. 

No seu livro Gruesome Harvest: The Allies’ Postwar War Against The German People (“A Resposta Terrível: A guerra do pós-guerra dos Aliados contra o povo alemão”, em tradução livre), Ralph Franklin Keeling cita o relato de um “pastor alemão famoso”: “Milhares de corpos estão pendurados nas árvores das florestas ao redor de Berlim e ninguém se importa em retirá-los de lá. Milhares de corpos estão sendo levados para o mar pelos rios Oder e Elba – ninguém mais se importa. Milhares e milhares estão morrendo de fome nas rodovias... as crianças vagam pelas estradas sozinhas...”

No seu livro The German Expellees: Victims in War and Peace (“Os expulsos alemães: vítimas na Guerra e na paz”, em tradução livre), Alfred-Maurice de Zayas disse como o Marechal Tito da Iugoslávia usou campos como centros de extermínio para matar de fome alemães.

Estupros em massa – para o qual alguém deve acrescentar o “sexo voluntário” obtido com mulheres passando fome. A onde de estupros pelas forças invasoras russas é, certamente, infame. Na zona russa da Áustria, “o estupro era parte da vida diária ente 1947 e muitas mulheres foram infectadas com doenças venéreas e não tinham meios de tratá-las.” MacDonogh nos diz que “estimativas conservadoras colocam o número de mulheres estupradas em Berlim em 20.000.” Quando os britânicos chegaram a Berlim, “oficiais lembram do choque de ver os lagos no oeste próspero cheios de corpos mulheres que cometeram suicídio após terem sido estupradas.” A idade das vítimas faz pouca diferença, variando dos 12 aos 75 anos. Enfermeiras e freiras estavam entre as vítimas (algumas cerca de cinqüenta vezes). “Os russos eram particularmente cruéis com os ricos, colocando fogo nas mansões e estuprando ou matando seus moradores.” Apesar “da maioria das crianças russas serem abortadas,” diz MacDonogh “é estimado que entre 150.000 e 200.000 bebês russos sobreviveram.” Os russos estupravam onde quer que fossem, de modo que não foram só as mulheres alemãs que foram estupradas, mas também mulheres da Hungria, Bulgária, Ucrânia e Iugoslávia, mesmo este último país sendo aliado soviético.
 
 
 

Havia uma política oficial contra o estupro, mas era tão comumente ignorada que “foi somente em 1949 que soldados russos foram ameaçados realmente.” Até então, “eles eram estimulados por (Ilya) Ehrenburg e outros propagandistas soviéticos que viam o estupro como uma expressão de ódio.”

Embora houvesse “incidência difundida de estupro por soldados americanos,” havia uma polícia militar de segurança contra ele, com “um número de soldados americanos executados” por isso. As acusações criminais feitas por estupro “cresceram constantemente” durante os meses finais da guerra, mas caíram rapidamente depois. O que continuou depois foi decididamente quase tão ruim: a exploração sexual de mulheres passando fome que “voluntariamente” vendiam serviços sexuais por comida. Em Gruesome Harvest, Keeling cita um artigo no Christian Century de 5 de dezembro de 1945: “O chefe de segurança americano... disse que o estupro não representa problema para a polícia militar porque ‘um pouco de comida, uma barra de chocolate ou um sabonete parece tornar o estupro desnecessário.” A extensão disto é mostrada pelo número que MacDonogh fornece de um “estimado 94.000 Besatzungskinder ou ‘crianças da ocupação’ (que) nasceram na zona americana.” Ele diz que em 1945-6 “muitas meninas caíram na prostituição para sobreviver. Meninos, também, prestavam serviços a soldados aliados.”

Keeling, escrevendo para a publicação de 1947 de seu livro (que explica seu uso do verbo no presente), disse que havia “um aumento nas doenças venéreas que atingiu proporções epidêmicas,” e continuou dizendo que “uma grande proporção de contaminação originou-se de soldados negros que estacionaram em grande número na Alemanha e entre eles a taxa de infecção venérea é muitas vezes maior do que entre as tropas brancas.” Em julho de 1946, ele diz, a taxa anual de infecção em soldados brancos era de 19%, enquanto que para as tropas negras 77,1%. Ele reiterou o ponto que estamos fazendo aqui quando ele apontou “a conexão íntima entre a taxa de doenças venéreas e disponibilidade comida.”

Se MacDonogh menciona o estupro por soldados britânicos, isso me escapou. Ele fala, entretanto, de estupro por poloneses, franceses, guerrilheiros de Tito e pessoas sem teto. Em Danzig, “os poloneses comportavam-se tão ruim quanto os russos... foram os poloneses que libertaram a cidade de Teschen no norte (da Tchecoslováquia) em 10 de maio. Por cinco dias eles estupraram, roubaram, queimaram e mataram.” Ele escreve do “comportamento de soldados franceses em Stuttgart, onde cerca de 3.000 mulheres e 8 homens foram estuprados,” diz “mais 500 mulheres (foram) estupradas em Vaihingen,” e relata “três dias de assassinatos, roubos, incêndios criminosos e estupro” em Freundenstadt. Das pessoas sem teto, ele diz que “havia cerca de dois milhões de prisioneiros de guerra (PdG) e trabalhadores forçados da Rússia que formaram gangues, roubaram e estupraram por toda Europa Central.”

Tratamento de PdG. Ao todo, havia aproximadamente 11 milhões de prisioneiros de guerra alemães. Um milhão e meio destes jamais retornaram para casa. MacDonogh expressa um ultraje apropriado aqui: “Para tratá-los com tal desleixo com um milhão e meio de mortos foi escandaloso.”

A Cruz Vermelha não tinha responsabilidade sobre aqueles mantidos pelos russos, já que a União Soviética não assinou a Convenção de Genebra. MacDonogh diz que os russos não faziam distinção entre civis alemães e PdG, apesar de sabermos que um relatório da KGB os classificavam para execução e outros objetivos. Ao final da guerra, eles mantinham aproximadamente 4 ou 5 milhões dentro da Rússia (e aqui, novamente, os arquivos da KGB são uma importante fonte de consulta, como o historiador James Bacque fez; eles mostram um número de 2.389.560). Grandes números foram mantidos em cativeiro por mais de dez anos, tendo sido enviados de volta à Alemanha somente após a visita de Konrad Adenauer a Moscou em 1956. Mesmo assim, em 1979 – 34 anos depois do fim da guerra! – “acreditava-se haver ainda 72.000 prisioneiros vivos sob custódia russa.” Cerca de 90.000 soldados alemães foram capturados em Stalingrado, mas somente 5.000 voltaram para casa.
 
 
 

Os americanos fizeram uma distinção entre os 4,2 milhões de soldados capturados durante a guerra, que estavam sujeitos a proteção e subsistência pelas convenções de Haia e Genebra, e os 3,4 milhões capturados no ocidente ao seu final. McDonogh diz que o último grupo foi classificado como “Inimigos Rendidos” (Surrendered Enemy Persons, SEP) ou como “Inimigos Desarmados” (Disarmed Enemy Persons, DEP) e não contavam com a proteção destas convenções. Ele não dá um número total que morreu sob a custódia americana, dizendo “não está claro quantos soldados alemães morreram por fome.” Ele fala, entretanto, de muitas situações: “Os campos de PdG americanos mais conhecidos eram chamados de Rheinwiesenlager.” Aqui, os americanos permitiram que “cerca de 40.000 soldados alemães morressem por inanição e negligência nos pântanos do Reno.” Ele diz “qualquer tentativa de alimentar os prisioneiros pela população civil alemã era punida com morte.” Apesar da Cruz Vermelha ser responsável pela inspeção, “o entorno com arame farpado para os SEPs e DEPs era impenetrável.”  Em outros lugares, "no Quartel dos Engenheiros em Worms ... havia 30.000-40.000 prisioneiros sentados no pátio, disputando espaço. Sem proteção contra a chuva, eles congelaram.” Os prisioneiros foram deixados passar fome em Langwasser, e em um “campo conhecido” em Zuffenhausen “por meses o almoço era sopa rala, com metade de uma batata na janta por dia.”

Seria um engano pensar que em um mundo com escassez de alimentos tornaram os EUA incapazes de alimentar seus prisioneiros. Bacque escreve que “o capitão Lee Berwick da 42ª. Divisão de Infantaria, que comandou as torres de vigilância no Campo Bretzenheim,… me contou, ‘alimentos foram empilhados em torno do muro do campo. Os prisioneiros viam de lá caixotes empilhados tão altos quanto bangalôs.’”

O que MacDonogh nos conta sobre o tratamento dos PdG alemães da Grã-Bretanha parece conflitante. Ela tinha 391.880 prisioneiros trabalhando na Grã-Bretanha em 1946, e um total de 600 campos lá em 1948. Ele diz “o regime não era tão duro, e em termos de porcentagem de mortos sob custódia britânica é visivelmente baixa comparado aos outros aliados.” Em todos os lugares, entretanto, ele fala como “os britânicos podiam burlar (as recomendações da Convenção de Genebra)... que eles fornecem 2.000 a 3.000 calorias por dia,” de modo que “pela maior parte do tempo os níveis caíram para baixo de 1.500 calorias.” Lá, “as condições para os 130.000 prisioneiros foram relatadas como sendo ‘não muito melhores do que Belsen’ (N. do T.: campo de concentração nazista Bergen-Belsen.)... Quando o campo foi inspecionado em abril de 1947, foram encontradas apenas quatro lâmpadas funcionando... não havia combustível, colchões de palha e nenhuma comida, exceto sopa rala.”    

Uma reportagem da Reuters em dezembro de 2005 acrescenta uma dimensão importante: “A Grã-Bretanha administrou uma prisão secreta na Alemanha por dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, onde os prisioneiros, incluindo membros do partido nazista, foram torturados e deixados passar fome, diz o jornal Guardian. Citando arquivos do Departamento Estrangeiro que foram abertos após um pedido com o Ato de Liberdade de Informação, o jornal diz que a Grã-Bretanha havia mantido homens e mulheres na prisão em Bad Nenndorf até julho de 1947... “Ameaças de execução de prisioneiros, ou prisão, tortura e assassinato de suas esposas e filhos foram considerados ‘meios apropriados’ já que tais ameaças jamais seriam levadas a cabo,” relata o jornal.

Os franceses queriam que trabalhadores alemães ajudassem a reconstruir o país, e para este objetivo, os britânicos e americanos transferiram cerca de um milhão de soldados alemães para eles. MacDonogh diz “seu tratamento foi particularmente brutal.” Não muito após a guerra, de acordo com a Cruz Vermelha, 200.000 dos prisioneiros estavam passando fome. Sabemos de um campo “no Sarthe (onde) os prisioneiros tinham que sobreviver com 900 calorias por dia.”

A destruição da economia alemã. Os líderes aliados discordavam entre si sobre o Plano Morgenthau de retirar a natureza industrial da Alemanha e transformá-la em um país agrícola. A oposição de alguns e a hesitação de outros não preveniram, entretanto, uma implantação real do plano. Na época que o confisco terminou, a Alemanha estava grandemente despojada de sua infra-estrutura produtiva.

MacDonogh diz que sob os russos “Berlim perdeu cerca de 85% de sua capacidade industrial.” Todas as máquinas foram levadas de Viena. Os navios foram tomados do Danúbio, e “uma prioridade soviética era a apreensão de todos os trabalhos importantes de arte encontrados na capital (Viena). Isto foi uma operação totalmente planejada.” Mas “pior do que a remoção em escala total da base industrial da terra era a abdução de homens e mulheres para desenvolver a indústria na União Soviética.”
 
 
 

Sob os americanos, o desmantelamento dos sítios industriais continuou até o General Lucius Clay interrompê-lo um ano após o fim da guerra. Até Clay agir, a Cláusula 6 da Ordem dos Chefes de Staff 1067 fundamentavam o Plano Morgenthau. MacDonogh diz que onde “a roubalheira oficial americana foi conduzida em uma escala maciça” foi “na apreensão de equipamento científico e seqüestro de cientistas”.

Os britânicos tomaram muito para si e repassaram outras propriedades industriais para “estados clientes” como Grécia e Iugoslávia. A família real britânica recebeu o iate de Göring, e a zona britânica da Alemanha foi destituída de “plantas (industriais) que mais tarde poderiam competir com as industrias britânicas.” MacDonogh diz “os britânicos... tinham seu próprio departamento de roubo organizado na (assim chamada) Força-T, que consistia em reunir toda inventividade industrial...”

De sua parte, os franceses garantiram “o direito de pilhagem.” “Os franceses... não escondiam a rapinagem no negócio do cloro em Rheinfelden, da celulose em Rottweil, as minas da Preussag AG ou os grupos químicos da Rhodia,” ... e muito mais.

Se o plano tivesse sido totalmente implantado em um longo período de tempo, os efeitos teriam sido calamitosos. Keeling, em Gruesome Harvest, diz que ao buscar “a destruição permanente do coração industrial da Alemanha” teria tido uma “conseqüência inevitável... a morte por fome e doenças de milhões e dezenas de milhões de alemães.”

A repatriação forçada de russos para Stalin. O livro de MacDonogh se limita à ocupação aliada, mas há, é claro, muitos outros aspectos da guerra que merecem menção, apesar de que aqui nos limitaremos a apenas um deles. É a repatriação aliada de russos capturados para a União Soviética. Em “A Traição Secreta” (The Secret Betrayal, em tradução livre), Nicolai Tolstoy nos diz como entre 1943 e 1947, um total de 2.272.000 russos foram devolvidos. Os russos capturaram mais 2.946.000 de partes da Europa tomadas pelo Exército vermelho. Aqueles enviados à Soviética pelas democracias ocidentais incluíam milhares de pessoas que eram emigrantes czaristas e nunca viveram sob o regime soviético. Tolstoy diz que apesar de muitos quererem retornar à Rússia (enquanto muitos outros desesperadamente não queriam, e foram mandados de volta esperneando e gritando), eles foram uniformemente brutalizados, executados, estuprados ou feitos escravos. Alguns dos repatriados eram russos que voluntariamente lutaram pela Alemanha contra a União Soviética e que foram liderados pelo General Vlasov. Alguns eram Cossacos, muitos deles sequer era, cidadãos soviéticos. As repatriações violentas começaram em agosto de 1945. Tolstoy reconta como o engano, porretes, baionetas e mesmo ameaças com tanques de lança-chamas foram empregados para forçar a remoção.

A Justiça dos vencedores. Quando a Guerra terminou, havia um consenso entre os líderes aliados de que os nazistas do alto escalão deveriam ser executados. Alguns queriam execução imediata, outros uma “corte marcial estrondosa”. Havia uma virtude curiosa na insistência pelos britânicos em seguir as “formas legais”, que é o que foi decidido. (N. do T.: este artigo foi escrito antes da descoberta dos diários do chefe do MI5 dizendo que Churchill e demais membros do governo queriam o fuzilamento ao invés de julgamento). O resultado foi uma série de julgamentos com a pompa dos procedimentos jurídicos normais, mas que eram na verdade uma enganação do ponto de vista da “regra da lei”, faltando tanto o espírito quanto as particularidades do “devido processo” . Em dois capítulos, MacDonogh dá um relato do julgamento principal de Nuremberg e da série de julgamentos que continuaram pelos anos subsequentes. Entre eles, os americanos conduziram muitos julgamentos em Nuremberg após o principal; milhares de casos foram trazidos diante das “cortes de denazificação”; as cortes alemãs, após voltarem à normalidade, continuaram o processo; e, é claro, sabemos do julgamento e execução de Eichmann em Israel.

Há muitas razões para chamá-la “justiça dos vencedores”. Para não ser verdade, um tribunal verdadeiramente internacional teria que ter sido convocado em algum lugardo mundo (se tal coisa pudesse ter sido possível após uma guerra mundial), e os crimes de guerra de ambos os lados julgados. Mas, é claro, sabemos que tal justiça imparcial não estava em estudo. No indiciamento de Nuremberg, os nazistas foram acusados de extermínio em massa de oficiais poloneses na floresta de Katyn, uma acusação que foi discretamente (e com grande desonestidade intelectual e “jurídica”) retirada no julgamento final porque tornou-se claro que a União Soviética era a responsável pelo crime. Outro dos muitos exemplos possíveis seriam as deportações em massa que os nazistas foram acusados tanto como crime de guerra quanto como crime contra a humanidade em Nuremberg. Em compensação, ninguém foi levado à justiça pela expulsão de milhões de alemães de seus lares ancestrais na Europa Central pelos aliados.

http://www.dwightmurphey-collectedwritings.info/A99-MacDonogh-BRArt.htm


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