domingo, 5 de fevereiro de 2017

Os 47 Ronins

No início do século 18, o Japão era governado por Tokugawa Tsunayoshi, bisneto de Tokugawa Ieyasu, um dos principais responsáveis pela unificação do país e o primeiro xogum de seu clã. Tsunayoshi pouco lembrava o bisavô, o destemido senhor da guerra que havia eliminado todos os inimigos e submetido o país à força de sua espada. Livre de grandes preocupações políticas ou militares, Tsunayoshi gastava seu tempo promovendo estudos religiosos e incentivando a arte. 



Guerreiros aposentados

Sem guerras para lutar, os samurais haviam perdido sua função primordial. Os membros da corte levavam uma vida de luxo e ócio, e eram freqüentes os casos de corrupção. Sem grandes realizações, Tsunayoshi seria conhecido como o xogum cachorro, pois uma de suas medidas mais notáveis foi estabelecer a pena de morte a quem matasse cães. Por ter nascido em um ano do cachorro do horóscopo chinês, o xogum passou a protegê-los. A cidade de Edo, a sede do governo, ganhou um imenso canil, que abrigava animais abandonados, alimentados com arroz e peixe pagos pelo povo. Esse marasmo só seria quebrado em 1701 por um incidente que entraria para a história dos samurais: a vingança dos 47 ronins.

Tudo começou quando Tsunayoshi escolheu Asano Takuminokami Naganori, um jovem daimiô de uma região rural do Japão, como um dos encarregados de entreter os enviados da família imperial em Edo. Para exercer a nova função, Asano devia ser treinado por um alto funcionário designado pelo xogunato, Kira Yoshinaka, um especialista em cerimonial. Durante as aulas, Kira passou a humilhar Asano constantemente, ridicularizando seu pouco conhecimento sobre questões de etiqueta. Certo dia, Asano perdeu as estribeiras, desembainhou a espada e avançou sobre Kira, ferindo-o na face, antes de ser contido pelos guardas. 

Qualquer ato de violência nos recintos do Castelo de Edo era considerado uma grave ofensa ao xogum. Por isso, Asano foi condenado a cometer suicídio, praticando o ritual do seppuku, em março de 1701. Ele tinha 34 anos. Suas terras foram confiscadas e seus samurais tornaram-se ronins, samurais sem um senhor para servir.

O ardil dos samurais

Indignados com as circunstâncias do suicídio de Asano, 47 dos ronins juraram vingar a morte de seu mestre. Liderados por Oishi Kuranosuke Yoshio, ex-conselheiro de Asano, os ronins decidiram aguardar o momento oportuno para atacar Kira, pois este, ciente da possibilidade de vingança, havia reforçado sua segurança. 

Para não despertar suspeitas, os ronins dispersaram-se e passaram a viver como se tivessem abandonado completamente o código de conduta dos samurais. Oishi, por exemplo, vivia em tavernas e cercado de prostitutas, o que levou sua mulher a pedir divórcio. 

Certo dia, Oishi estava caído na rua de tanto beber. Um samurai da província de Satsuma que passava ali perto se enfureceu, ao ver o estado degradante de Oishi. Além de estar largado na vida, aparentemente nada tinha feito para se vingar da morte do senhor feudal a quem servira. O samurai chutou o rosto de Oishi e cuspiu nele com desprezo. A cena foi testemunhada por espiões de Kira, que vinha sendo informado sobre a rotina de Oishi. Kira concluiu que nada tinha a temer e voltou à sua rotina.

Percebendo que Kira havia afrouxado sua segurança, os 47 ronins decidiram entrar em ação. Já havia se passado um ano e meio desde a morte de Asano. Na madrugada de 14 de dezembro de 1702, durante uma forte neve, os 47 guerreiros atacaram a mansão de Kira em Edo.

A grande desonra

Armados com espadas e arcos, eles se dividiram em dois grupos, um liderado por Oishi, que atacou pelo portão principal, e o outro por Chikara, o filho mais velho de Oishi. Um tambor começou a tocar e os dois grupos atacaram simultaneamente, pegando os guardas de Kira desprevenidos. Em pouco tempo, os ronins conseguiram eliminar vários guardas e controlar a situação. Mas onde estava Kira? Nenhum sinal.

Ao vasculhar a casa, Oishi percebeu que a cama de Kira ainda estava quente e, por isso, ele não poderia ter ido longe. Depois de nova busca, os ronins descobriram uma passagem secreta que levava a um pátio, onde Kira havia se refugiado com algumas mulheres e dois guardas. 

Eles foram mortos pelos ronins, enquanto Kira se encolhia de medo. Oishi verificou se o homem era mesmo Kira, pois ainda tinha no rosto a cicatriz do ferimento causado por Asano. Oishi ajoelhou-se e, em respeito ao elevado grau hierárquico de Kira, explicou-lhe que os guerreiros de Asano estavam ali para se vingar da morte do mestre. Convidou Kira a morrer com dignidade, por seppuku, oferecendo-lhe a adaga utilizada por Asano para se matar. 

Kira, no entanto, nada disse e não parava de tremer. Oishi então deu ordem a um dos ronins para que o decapitasse. Em seguida, os guerreiros levaram a cabeça de Kira até o templo de Sengakuji, em Edo, e a ofertaram ao túmulo de Asano.

Final "feliz"

Depois de cumprir o que haviam planejado, os 47 ronins entregaram-se às autoridades. Conforme já esperavam, foram condenados à morte, por terem matado um funcionário do governo e desafiado o poder do xogum. No entanto, em vez de serem executados como criminosos, os guerreiros receberam o direito de cometer seppuku, em reconhecimento à lealdade demonstrada ao antigo mestre. O seppuku coletivo ocorreu em 4 de fevereiro de 1703. Os ronins foram sepultados no templo de Sengakuji, ao lado do túmulo de Asano.

Ao tomar conhecimento de tudo, o samurai de Satsuma – o mesmo que havia cuspido em Oishi na rua, por considerar que ele não agia como um verdadeiro guerreiro – foi a Sengakuji para pedir perdão por seu equívoco. Ele também cometeu suicídio e foi enterrado ao lado dos ronins. 

Para o samurai Yamamoto Tsunetomo, autor de Hagakure, uma compilação de pensamentos publicada em 1716, os ronins não agiram como verdadeiros samurais ao esperar o momento adequado para atacar Kira. “E se, nove meses depois da morte de Asano, Kira tivesse morrido de alguma doença? A resposta óbvia é: os 47 ronins teriam perdido a única chance que tinham de vingar seu mestre”, escreveu Tsunetomo. Nesse caso, os ronins seriam lembrados como um bando de bêbados e covardes, e o pior: teriam desonrado para sempre o nome do clã Asano. Segundo Tsunetomo, os ronins deveriam ter atacado Kira logo após a morte de Asano, mesmo que as chances de vitória fossem mínimas.

As críticas de Tsunetomo aos ronins não são a visão predominante no Japão. A maioria dos japoneses considera os 47 ronins como heróis, exemplos de coragem e lealdade. O templo de Segakuji, que fica na região central da atual cidade de Tóquio, atrai até hoje milhares de peregrinos que vão reverenciar os ronins. A ação desses guerreiros tornou-se ainda mais marcante porque foi uma espécie de canto do cisne dos samurais. A partir de então, a classe social que governava o Japão entraria em irreversível decadência. 

O último ato


O suicídio coletivo dos 47 ronins foi um dos episódios mais dramáticos na história de um dos rituais mais controversos do código de honra samurai: o seppuku. O primeiro guerreiro a cometer o suicídio ritual foi Minamoto Yorimasa, em 1180, durante a Batalha de Uji, entre os clãs Minamoto e Taira. Acuado pelos inimigos, Yorimasa preferiu se matar a se render. Ao longo dos séculos, um sem número de samurais trilhou o mesmo caminho, tido como uma forma honrosa de morrer. O seppuku (chamado de harakiri por aqueles que desprezam o ritual) consiste em abrir o abdome com uma espada curta ou punhal. Era praticado de forma voluntária – para não cair em mãos inimigas ou para assumir a culpa de um fracasso – ou de forma compulsória – pelos condenados à pena de morte. Quando possível, a morte era precedida por um ritual elaborado: o samurai tomava banho, vestia trajes brancos para a ocasião, degustava seu prato favorito e compunha um poema. Os instantes finais eram testemunhados pelos amigos próximos. Um auxiliar postava-se atrás do samurai para dar um golpe final com a espada – sem decapitar o suicida –, com o objetivo de abreviar sua agonia.

O seppuku como forma de punição judicial foi abolido pelo governo Meiji, em 1873, mas o seppuku voluntário continuou a ocorrer. Durante a Segunda Guerra, vários soldados japoneses preferiram o suicídio à rendição. Um caso contemporâneo envolveu o escritor Yukio Mishima, líder de um grupo fanático de extrema direita. Em 1970, Mishima cometeu seppuku no quartel-general das Forças de Autodefesa do Japão, após tentativa frustrada de incitar um golpe de estado.

Embora a tradição do seppuku tenha perdido força, sua motivação continua presente na sociedade japonesa. O Japão tem a maior taxa de suicídio entre as nações desenvolvidas. Mais de 30 mil japoneses se matam a cada ano – cinco vezes mais que as vítimas fatais de trânsito. Segundo os especialistas, a incapacidade de lidar com o fracasso explica boa parte dos suicídios, que atingem inclusive muitas crianças. A diferença é que, hoje, os descendentes dos antigos samurais não usam mais a espada – preferem morrer intoxicados com gás de cozinha ou atropelados por um trem.


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